quarta-feira, 14 de novembro de 2007

felinos

Este pequeno livrinho editado pela Publifolha faz parte daquela minha cota de bobagens solenes (mas despretenciosas) que tenho de ler de tempos em tempos. Na viagem para a feira do livro de Porto Alegre fiquei a ler o "Sobre a Verdade", tipo do livro que esgota um tanto o sujeito (há livros que simplesmente nos espancam intelectualmente). Depois de um destes, cheios de realidade real como gosto de dizer, há que se ler algo menos desgastante. Lá na sessão de infantis da feira achei este livro sobre gatos (mais um, fazer o quê?) e resolvi ler pois tinha planos de eventualmente mandá-lo para as catalanas se divertirem um tanto (mas mudei de idéia e vou mandar um outro, que é mais especial que este). Não é exatamente um manual sobre gatos ou uma enciclopédia sobre o mundo dos gatos. Trata-se de uma pequena compilação de histórias curtas sobre curiosidades, verdades e mitos sobre gatos. Quem já gosta de gatos certamente vai rir das descrições de seus hábitos e manias, bem como se identificar com os muitos admiradores deles. Não é o melhor livro que já li sobre gatos (eu sou um novato neste mundo, já que o Salem se adonou da Helga e passou a nos velar como um Buda há pouco mais de cinco anos apenas). De qualquer forma não deixa de ser um livro gostoso de ler e que tem sim alguma informação inédita para mim. Há uma página no final com referências, telefones de associações brasileiras dedicadas aos gatos e dicas de sites.
"Os Gatos Nem Sempre Caem Em Pé", Erin Barrett e Jack Mingo, tradução de Carlos Rosa, editora Publifolha, 1a. edição (2004) ISBN: 978-85-7402-600-X

terça-feira, 13 de novembro de 2007

verdade

Achei este livrinho na CESMA, um tanto sem querer. É mesmo um livro pequeno, 10x16cm, cento e poucas páginas, discreto na estante. Por sorte estava com don Robson ao lado que me disse na hora: "onde você achou? quero também um exemplar para mim!" Segundo ele Harry Frankfurt é um filósofo americano bastante respeitado (professor emérito em Princeton). Em meados dos anos 1980 publicou um livro traduzido no Brasil por "Sobre falar merda", que vendou muito no mundo todo. Sua idéia naquele livro é, (aparentemente, já que não li o livro, mas li sobre o livro) condenar a capacidade infinita que o homem moderno tem hoje de falar bobagens e platitudes sem fim sem o menor compromisso com a verdade. Mas este é um outro livro que eu vou ter de comprar e ler um dia destes. O que achei na CESMA é "Sobre a Verdade". Neste livro ele argumenta que a verdade sobre qualquer assunto e circunstância é de fato um bem muito importante para toda a humanidade e em hipótese alguma pode ser deixada de lado, permitindo que imbecis, néscios, sandeus, desmemoriados e embusteiros falem bobagens em seu lugar. O livro é pequeno o suficiente para não permitir muita digressão, mas certamente é convincente. Segundo ele o compromisso irrestrito com a verdade é o que separa racionalmente homens das bestas. Qualquer ser humano não comprometido com a verdade está assim preferindo voltar à nossas origens mais primitivas, fugindo das regras e do convívio social honesto. Para quem vive em um país especialmente perverso, onde a falsidade, o embuste e a mentira são mais do que moeda de troca circunstancial, mas o modo de vida da grande maioria da população, este é sim um livro importantíssimo. Gosto de dizer que na dúvida prefiro usar um taco de beisebol quando estou tratanto com imbecis. Não há meio termo: ou cultivamos nosso jardim de delícias e verdades ou voltamos a pastar nos capinzais da ignorância. Fundamental este livro. Longe de ser um panfleto é um pequeno roteiro de como devemos valorizar a verdade e até mesmo cultivar o hábito de verificar se estamos mesmo no caminho certo em cada escolha moral, em cada contrato, em cada decisão, em cada procedimento. Portanto, parece dizer ele aos canalhas de plantão, esqueçam esta quimera de acreditar existir meia ética, meia verdade, meia retidão: "É a verdade, estúpido!"
"Sobre a Verdade", Harry G. Frankfurt, tradução de Denise Bottmann, editora Companhia das Letras, 1a. edição (2007) ISBN: 978-85-359-1073-5

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

segredos

Uma das coisas que sempre me impressionam é o quanto nossos amigos de longa data conhecem bem nossos hábitos mais entranhados, mesmo após anos de separação. Fui visitar a Sibele, quanta saudade, e ela me indicou (e emprestou ali na hora) este "de Veludo Cotelê e Jeans", dizendo que eu ia gostar. E não é que eu gostei mesmo! Li devagarinho, me acostumando com o estilo de David Sedaris. Ele é um humorista e radialista americado que já foi nominado ao Grammy (prêmio americano dedicado ao mundo da música e da mídia em rádio e televisão) e já vendeu milhões de cópias de seus livros. Talvez pelo fato das histórias de seus livros já terem sido contadas e recontadas no rádio e em seus shows humorísticos o ritmo seja tão cativante. São sempre reminiscências de momentos e situações curiosas vividas por ele, sua família, seus amigos. Dono de um humor sarcástico e auto-depreciativo Sedaris é o tipo de sujeito para quem não deveríamos nunca confidenciar algo que gostaríamos de manter em segredo. Mesmo as situações mais bizarras vividas por seus familiares são expostas sem pudor por ele. Há que se reconhecer que o tratamento que ele dá as histórias nos faz refletir sobre nossos próprios hábitos e reações no dia a dia, frente a situações similares. Seu estilo é pleno de bom gosto, cabe dizer. Este tipo de literatura dá a falsa sensação de improvisação e de ser fácil emular, mas é mesmo fruto de um talento muito particular e trabalho duro. Não que as histórias sejam artificiais (ou pareçam sê-lo), mas pelo inusitado das situações: um jogo de strip-poker entre garotos; o planos dos pais de comprar uma casa na praia, o parto difícil de uma cunhada, a vagabundagem dos anos na universidade, o desleixo do apartamento da irmã, a tia excêntrica que lhe paga uma viagem à Grécia. O livro é muito divertido, cheio de esquisitices, mas divertido. Obrigado Sibele.
"De Veludo Cotelê e Jeans", David Sedaris, tradução de Sérgio Flaksman, editora Companhia das Letras, 1a. edição (2006) ISBN: 978-85-359-0813-7

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

nero

Se na viagem de ida a São Paulo li as aventuras do Capitão Alatristre e começei o "El Balneario", na volta optei por algo novo, que comprei na rodoviária, curioso que fiquei. Já havia ouvido falar de Rex Stout por conta de uma pesquisa que fiz tempos atrás sobre prêmios literários. Eu acredita que existiam o Nobel e mais um ou dois importantes, mas descobri que existem uns vinte pelo menos que são muito respeitados. Pois naquela época descobri que existe desde 1979 um prêmio chamado Nero Wolfe Awards exclusivo para autores de livros de mistério. Nero Wolfe é o nome de um personagem de Rex Stout, americano que viveu na primeira metade do século passado. Segundo consta ele escreveu mais de 70 livros. Seu personagem principal é portanto Nero Wolfe, um gordo detetive particular, maniático como poucos, que mal sai de sua casa e abandona seus hábitos estravagantes, mas que resolve enigmas e soluciona crimes como ninguém. Como todo herói desde o Quixote (sempre ele o Quixote assombrando quem tentar emular algo novo) Wolfe tem um auxiliar dedicado, um investigador chamado Archie Goodwin. A viagem de volta a Santa Maria foi longa, mas a leitura de "A Voz do Morto" foi rápida. É um livro bem escrito. Um crime acontece e as informações são levadas ao gabinete de leitura de Wolfe que, pacientemente, entre um jantar e o tempo dedicado ao cultivo de suas premiadas orquídeas, em um par de dias (e em pouco mais de 200 páginas) descobre a solução do enigma. Nada espetacular, nenhum fogos de artifício espoucando no céu, tudo se passa muito rapidamente. Não o linguajar, que certamente foi depurado pela tradução, mas certamente a ambientação da história me parece um tanto datada, afinal estamos falando de uma Nova Iorque dos anos 1940. Causam algum estranhamento muito dos procedimentos jurídicos, jornalísticos e policiais descritos no livro, mas paciência, não há o que reclamar, pois se estamos lendo uma recepção onde Hamlet está presente não podemos reclamar da decoração lúgubre ou do ressoar dos passos pelo chão áspero. Talvez um dia eu volte a ler algo mais de Rex Stout para conhecê-lo melhor (talvez em alguma outra rodoviária eu encontre um outro livro dele afinal), mas por enquanto tenho outras cositas para ler (estou a ler mas rapidamente que resenho, mas isto não é exatamente um problema).
"A Voz do Morto", Rex Stout, tradução de Daniel Argolo Estill, editora Companhia das Letras, 1a. edição (2007) ISBN: 978-85-359-1098-8

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

dieta

Já escrevi aqui que uma das minhas alegrias neste ano foi ter sido apresentado aos livros de Manuel Vázquez Montalbán. Este volume da série Carvalho garimpei no site de sebos estantevirtual, "barratinho, barratinho". Acredito que veio diretamente de algum balaio porteño, uma excelente edição da editora Planeta Argentina, com direito a um curto ensaio sobre a gastronomia sempre presente nos livros de Montalbán no final. Uma das coisas que me impressiona é a variedade de seus temas e a vívida imaginação deste sujeito: ele sabe mesmo como contar uma história, por mais inverossível que pareça. Isto o difere em muito do Garcia-Roza por exemplo, que te deixa brabo com umas coincidencias, uns desfechos, umas soluções, que são mesmo de amargar. Publicado originalmente em meados dos anos 80, El Balneario se localizano início da segunda metade da série de livros com o personagem Carvalho, ou seja, se o autor já havia se mostrado um mestre na prosa, ganho muitos prêmios literários e já era senhor de uma reflexão madura e inteligente sobre a Espanha, o personagem já devia estar um tanto acima do peso após a dezena de livros onde a gastronomia é um personagem de apoio, funcional e onipresente definitivamente. Desta vez o detetive Carvalho está de férias em um spa, um balneário, seguindo os conselhos de seu médico para se desintoxicar, perder peso, relaxar da vida dura em Barcelona. Curiosamente não há propriamente receitas neste livro (se é que as sopas ralas da dieta do balneario podem ser consideradas quitutes gastronômicos). Mas é a ausência de comida e as implicações das dietas em cada indivíduo que dá ritmo ao livro. Como diz o personagem principal do livro em um lugar como este nada acontece até o preciso momento em que algo acontece. Não um, mas uma série de crimes acontece e o autor fica a se perguntar se é possível convencer um leitor da verossimilhança disto tudo. O Balneario me parece uma metáfora da Espanha, ainda dividida entre a aproximação com a riqueza da Europa e do Mercado Comum e seu passado de Ouro (nos séculos XVI e XVII) e de crises (na Guerra Civil e no Franquismo). Há muita discussão sobre o papel da política, das greves, da história e da luta de classes, na vida das pessoas comuns, mais simples. No final uma outra metáfora: um baile de máscaras, no encerramento do período de tratamento de todos os internos do balneário. Gostei muito da trama, do tema, do tratamento. Este é mesmo um outro belo livro de Vázquez Montalbán. Junto com este volume recebi também da estantevirtual uma edição cubana de "La Soledad del Manager", e em breve também o resenharei aqui.
El Balneario, Manuel Vázquez Montalbán, editorial Planeta (Argentina), 1a. edição (1997) ISBN: 950-742-961-1

terça-feira, 6 de novembro de 2007

capa e espada

Eu já resenhei um outro livro do Pérez-Reverte aqui, o "Limpeza de Sangue". Foi erro meu pois aquele era o segundo volume das aventuras deste personagem, Diego Alatristre y Tenorio, que já ganhou até versão no cinema e faz parte da cultura espanhola contemporânea. Demorei para encontrar este volume. Quando o fiz dei sorte, pois li em uma longa sentada, durante minha viagem de ônibus para São Paulo. Não há muito o que dizer além do que escrevi na resenha anterior. É mesmo um livro bem escrito, um romance honesto e bem movimentado, uma curiosa mistura de história e ficção. Um dos personagens principais é o Conde-Duque de Olivares, que eu sempre lembro por conta do enorme quadro do Velásquez que o Museu de Arte de São Paulo tem em seu acervo. Aliás o livro é recheado de personagens históricos: O próprio Príncipe de Gales, o Duque de Buckingham, os dramaturgo Lope de Vega e Luís de Gongora, o poeta Francisco de Quevedo, o pintor Diego Velásquez, Felipe IV, etc e tal. Verifiquei nos meus guardados e de fato parece que o pai do Príncipe de Gales à época (Jaime I) tinha interesse em uma aproximação entre Inglaterra e Espanha naquele início do século XVII. Neste volume ficamos sabendo sobre os motivos que levaram Diego Alatristre a acumular tantos inimigos ao longo da vida (bem como sua forma de conseguir a admiração de personagens poderosos que por fim discretamente o ajudam). O narrador é o mesmo Íñigo Balboa, um curioso basco, que também tem antepassados Galegos. Vários dos personagens estão lá no segundo volume esperando sua deixa. O suspense é mantido até o final. Aliás há uma certa ironia nas páginas finais, pois não podemos deixar de associar a honesta pesquisa histórica que se depreende do romance aos atuais desafios da sociedade espanhola. Uma das mágicas da literatura é não haver estilo e tema que não possam ser utilizados para se contar uma boa história e encantar o leitor. Belo livro.
"O Capitão Alatristre", Arturo Pérez-Reverte, tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman, editora Companhia das Letras, 1a. edição (2006) ISBN: 978-85-359-0776-9

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

taxi


Arre! Terminei de ler este Berenice Procura e fui logo procurar algo com mais estofo, esgotado que fiquei. Chega. Vou ficar um bom tempo sem ler nada de Garcia-Roza para ver se aparece uma saudade do Rio de Janeiro que me faça voltar a ler algo dele. O livro é repetitivo, surreal, quase risível acreditar que algo ali possa ser verossímil: uma taxista se faz detetive e investigadora, pesquisa, conversa, interroga, achaca, confronta, tudo isto entre uma corrida de taxi entre ipanema e o leme, aprendendo filosofias com seus cerebrais clientes. Tudo me pareceu artificial demais. Uma caverna artificial escondida a meio caminho do posto 6 e da lagoa Rodrigo de Freitas, só frequentada pelo trio de personagens principais da trama. Incrível. A idéia inicial segue o manual dos livros de detetive: um sujeito vê um crime na praia, logo percebe que uma outra pessoa também testemunhou a cena. Dias depois o segundo sujeito morre, de forma que a primeira testemunha deve começar por si mesma desvendar um crime torpe demais para interessar delegados e investigadores. Aliás neste volume não temos o curioso delegado Espinosa (ao menos não explicitamente, ele bem que poderia ser um dos passageiros da taxista voluntariosa da trama). Berenice me lembra Miss Marple, personagem de Agatha Christie que se fazia de boba para descobrir as soluções para enigmas e crimes misteriosos. O final lembra um epílogo de teatro grego, onde os personagens principais discutem o desfecho da trama. De qualquer forma este livro está longe de ser interessante. Fiquei entediado mesmo e só meu estoicismo para fazer-me terminar de lê-lo. Vamos ao Javier Marias que eu deixei de lado e já está a se mostrar deveras interessante.
Berenice Procura, Luiz Alfredo Garcia-Roza, editora Companhia das Letras, 1a. edição (2005) ISBN: 85-359-0753-X

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

divâ


No mês passado comentei aqui que já que estava a ler os romances policiais de Montalbán sempre com renovado prazer havia chegado a hora de experimentar um autor brasileiro do mesmo gênero para compará-los. Li o primeiro Garcia-Roza publicado, ganhador do prêmio Jabuti, O silêncio da chuva. Fiquei dividido. O livro é bem escrito, mas a trama frouxa demais para meu gosto lapidado pelo Montalbán. Bom, a comparação é cruel, mas não há o que fazer. Resolvi ler dois dos últimos livros do Garcia-Roza publicados, fáceis de encontrar, para entendê-lo melhor. O que vou resenhar aqui é Espinosa sem saída, o outro, Berenice procura, ainda não li, mas vou resenhar na seqüência. Neste Espinosa sem saída temos uma trama que faz parte da experiência profissional do autor, um psicanalista, professor e autor de livros técnicos de psicanálise. Um crime incomum é cometido e um dos suspeitos é um sujeito casado com uma psicóloga bem-sucedida. O delegado Espinosa e sua brigada de auxiliares usam seu tempo livre para continuar a investigar um crime que usualmente seria arquivado pela irrelevância, pois o morto é um indigente, sem família, sem documentos, um não-cidadão. Um outro crime acontece e o desfecho do enredo entrelaça a elucidação de ambos. Esta elucidação passa pelos divâs dos personagens e também da própria cidade, assombrada por seus fantasmas e suas complexas camadas de extratos sociais. Uma farta descrição dos mecanismos dos traumas de infância, de perversões sexuais e patologias clínicas entram no enredo. Descobrimos quem são os assassinos. Fim do livro. Bem, o livro é bem escrito, os personagens interessantes, o cenário da zona sul carioca radiante em suas páginas, mas eu ainda não fui arrebatado por este delegado que gosta de literatura e filosofia e que tem uma ética incomum. Claro, vou me esforçar e ler mais livros deste sujeito. Quero tentar entender um tanto mais o Rio de Janeiro, que ele explica sem se utilizar dos argumentos batidos que usualmente associamos à cidade. Entretanto, assim como com o Montalbán, vou ter de garimpar nos sebos os livros mais antigos dele, esgotados que estão (este é mesmo um curioso fenômeno editorial brasileiro, as edições são tão pequenas, que mesmo um livro de relativo sucesso deve esperar anos para ser reeditado).
Espinosa Sem Saída, Luiz Alfredo Garcia-Roza, editora Companhia das Letras, 1a. edição (2006) ISBN: 85-359-0939-7

domingo, 14 de outubro de 2007

anarquia

Woody Allen é um de meus cineastas favoritos (se não for o favorito, eu mesmo não se dizer isto). Seus livros de ficção são igualmente instigantes. Tenho vários, desde livros de contos humorísticos (Sem Plumas, Efeitos Colaterais) até os roteiros (Zelig, Manhattan, Hanna e suas irmãs, Stardust) e peças de teatro (Sonhos de um Sedutor, A lâmpada flutuante). Este Pura Anarquia, editado pela Tusquets espanhola e recém publicado ganhei de presente de dueña Helga. São contos curtos publicados na revista americana The New Yorker. Quase todos são desenvolvimentos de fatos bizarros que ele leu em jornais (um ator que é sequestrado na India, uma empresa que lançou uma roupa que exala diferentes odores, uma escola que faz exames de admissão para crianças recém nascidas). Todos são francamente debochados e muito bem escritos. Há muito de fantasia, humor, claro, e expressionismo no texto. Parte considerável deles gira em temas do mundo do cinema americano (atores, roteiristas, diretores, jornalistas), mas há muitos outros onde é o americano médio que está sob análise. Os desfechos dos contos são como manda o manual: rápidos e surpreendentes. Há muitos jogos mentais entre os personagens e também entre o autor e o leitor. Entretanto acredito que não é um livro para se ler de uma vez, de uma sentada só. Como em uma sessão de piadas há uma cota certa para a diversão, precisamos tomar fôlego entre um set e outro. Se é que eu posso sugerir algo voltaria a este livro para ler os contos sem ordem, abrindo o livro aleatoriamente e me divertindo até cansar, mas parando quando isto acontecesse. Gostei particularmente de um terço das histórias: uma que envolve uma reforma maluca de um apartamento (a receita para um desastre); uma em que um bebê recém nascido foi reprovado em um teste de admissão para sua escolinha (seus pais experimentam um ostracismo social medonho); um onde Woddy Allen comenta o que um leitor comum entende das trancendentais teorias físicas que são publicadas nos jornais; um outro onde Mickey Mouse se defende em um tribunal ; ainda um onde ficamos sabendo dos hábitos gastronômicos de Nietzsche. Não que as outras sejam menores ou mal escritas, mas em uma coleção de contos naturalmente fazemos estas eleições mentais. Gostei muito do livrinho.
Pura Anarquia, Woddy Allen, tradução de Carlos Milla Soler, editores Tusquets, 1a. edição (2007) ISBN: 978-84-8383-010-0