segunda-feira, 14 de junho de 2010

dublinesca

Soube de "Dublinesca" na revista "Qué Leer", a melhor referência que conheço sobre o mercado de livros publicados na Espanha (um dos maiores mercados editoriais do mundo, nunca é demais lembrar). Quando soube que o livro gravitava em torno de um Bloomsday fiquei entusiasmado e encomendei-o no mesmo dia. O livro chegou rápido e interrompi, claro, tudo o que já havia começado. Li segurando o ritmo, único jeito de aproveitar um tanto mais o bom humor, as boas idéias e o bom texto de Enrique Vila-Matas. Que livro divertido! Um editor quase falido mais que quase aposentado, de seus sessenta anos, deprimido, preso em uma rotina de compromissos e aparências tem uma espécie de epifania. Ele pensa em viajar a Dublin (nas suas palavras terra literária por excelência, cidade que James Joyce retratou no romance-síntese Ulysses e que representaria o melhor que a literatura pode alcançar) para organizar uma espécie de funeral da "era de Gutenberg", réquiem do mundo do livro como conhecemos. Para ele os livros impressos serão definitamente substituídos pelos digitais. O leitor de livros impressos, já vulgarizado pela tirania dos best-sellers e livros de auto-ajuda, será substituído pelo leitor raso e veloz do google e do wikipedia, quedará prisioneiro do vasto depósito de informações e estímulos que nos oferece a internet. O futuro do livro é uma ilusão. Com este mote Vila-Matas constrói um romance que é movimentado, instigante, provocador e que deixa o leitor refletir por si próprio. Há muito material metalinguístico, intertextual, muitas citações eruditas, longos aportes de reflexões sobre pintura, cinema e literatura, muito da cultura pop também, enfim, muitos truques literários mais ou menos conhecidos, mas nada disto torna o texto maçante ou convencional de ler. O editor, Samuel Riba, como o Leopold Bloom do Ulysses, algo judeu e deslocado em seu ambiente catalão, consegue convencer um pequeno bando de amigos a acompanhá-lo em sua peregrinação à Dublin. Estes fiéis pouco sabem das outras obsessões que acompanham o projeto de Riba: o fato dele nunca ter encontrado um escritor genial que pudesse editar; a própria idéia do funeral do livro impresso; de saber se é New York ou Dublin a capital da solidão da velha literatura; do processo de purgar sua ruína como homem das letras. Mas Riba convence estes três amigos escritores a acompanhá-lo. Chegando a Dublin eles reproduzem parte das andanças de Bloom, principalmente aquelas relacionadas ao capítulo seis do Ulysses, onde o personagem atende ao funeral de Paddy Dignam acompanhado também por três sujeitos. Também como Bloom, Riba, antigo bebedor, agora abstêmio, não participa de todas as aventuras literárias e etílicas relacionadas ao Bloomsday. A este grupo fundador outros personagem se juntam, cada um à seu modo correspondente a um dos personagens do romance de Joyce. São passagem memoráveis, tanto pela invenção, quanto pela capacidade de iluminar as passagens originais do livro. Há coisas curiosas no livro que de início incomodam, estranham o leitor familiarizado com o Ulysses, mas que mais tarde se resolvem muito bem. Por exemplo, chove à beça na Barcelona, mas só quando chegamos a cinzenta mas quase primaveril Dublin, entendemos que tudo pode ser fruto da imaginação de um fantasma, de alguém que está já ao caminho do Hades sombrio e que divaga com sua história e seus projetos (quase todos baldados). "Dublinesca" é um livro que permite muitas leituras, que localiza um fim para a alta literatura, mas que aponta para caminhos que os demais escritores (e os demais leitores) possam trilhar. O livro, tripartido, chega a um final que a exemplo do Finnegans Wake, também de Joyce, permite um recomeço, cíclico como Vico já nos ensinou. A boa literatura sempre sobrevive. Por fim, curiosamente soube que de fato Vila-Matas participou de seu primeiro Bloomsday em 2008 com três amigos espanhóis e que lá fundou uma ordem literária, "El ordem del Finnegans", cujos cavaleiros se comprometem a atender todos os Bloomsday futuros com disciplina e vigor. Que grande sacada. Será que este projeto só sobreviverá enquanto for necessário promover "Dublinesca"? Logo veremos... . [início 01/06/2010 - fim 04/06/2010]
"Dublinesca", Enrique Vila-Matas, editora Seix-Barral, 1a. edição (2010), brochura 13,5x23 cm, 328 págs. ISBN: 978-84-322-1278-9

terça-feira, 8 de junho de 2010

a humilhação

Não é o melhor Philip Roth que já li, ficando muito a dever se comparado as potências de "O teatro de Sabbath" ou "Complexo de Portnoy" mas um livro dele sempre vale o tempo que investimos. O enredo de "A humilhação" poderia ser transcrito para uso no palco sem muitos ajustes. Não por isto, mas o resultado não me agradou muito. A estrutura padrão de peça em três atos é óbvia. Mas para mim o terceiro ato (a terceira - e final - parte do livro) é previsível demais, só sustentada pela prosa sempre inventiva, deliciosa mesmo, de Roth. Um ator de sessenta anos sofre uma crise que o incapacita para o palco e passa uma temporada em uma clínica psiquiátrica (este é o resumo do primeiro ato, a apresentação do problema). Ele se envolve com uma moça, filha de amigos com quem não mantêm contato há anos, gente de teatro também, mas que não alcançaram seu sucesso. A vida sexual dele com a moça é complexa. Ela é uma ave de rapina sexual e a espiral do sexo entre eles passa por estágios rapidamente, estágios de experimentação, troca de papéis, perversões. Ele tem encontros breves com a antiga namorada da moça e com os pais dela, cada um a seu turno (este é o resumo do segundo ato, a complicação do problema). O terceiro ato deixo à curiosidade do leitor, mas acho difícil não se imaginar os finais possíveis da trama ainda no meio do segundo ato. Entretanto, gostei das descrições de como um sujeito sustenta uma conversa mas pensa algo totalmente oposto do que assente, que verbaliza ao interlocutor (são breves, mas intensos, e lembram os bons trechos de fluxo de consciência utilizados por Joyce). Curioso também como Roth consegue mostrar um sujeito que interpreta sua vida real como se estivesse em um palco, em um mundo de aparências, de ficção (claro, podemos pensar que todo ator alcança fazer isto, mas o efeito no texto, o efeito literário é realmente bom). [início 02/06/2010 - fim 03/06/2010]
"A humilhação", Philip Roth, tradução de Paulo Henriques Britto, editora Companhia das letras, 1a. edição (2010), brochura 14x21 cm, 102 págs. ISBN: 978-85-359-1658-4

segunda-feira, 7 de junho de 2010

99 poemas

Foi o Marcelo Sahea, poeta de consistentes experimentos linguísticos, visuais e sonoros, quem fez propaganda deste livro de poemas do poderoso catalão Joan Brossa, artista de múltiplos talentos. Encomendei e fui lendo aos poucos, sem método ou disciplina, mas com muito deleite. A edição é belíssima. O tradutor, Ronald Polito, compilou estes 99 poemas de um conjunto de dezessete livros, publicados entre 1950 e 1996. Isto torna este conjunto bastante representativo da produção poética de Brossa. A edição é bilíngue, mas por mais que me empenhe em decifrar o catalão não aproveito de verdade nada da presença dos originais (mas doña Natália me prometeu ler alguns em voz alta, logo veremos). São poemas em versos livres, não metrificados (pena não haver nada nada dos curiosos poemas visuais que tanto contribuiram para a fama de Brossa, mas não se pode ter tudo na vida). Estes poemas falam de coisas simples, do amor e do trabalho, do próprio ofício do poeta, de um cotidiano calmo mas que evoca reflexões fortes. A edição inclui uma bibliografia, um posfácio bastante instrutivo do tradutor e mais uns textos de apresentação que de fato tornam este um precioso livro. Abrossas, como escreve o Sahea! [início 21/04/2010 - fim 01/06/2010]
"99 poemas", Joan Brossa, tradução de Ronald Polito, editora Annablume (selo Demônio Negro), 1a. edição (2009), capa-dura 16x23 cm, 193 págs. ISBN: 978-85-7419-994-8

sábado, 5 de junho de 2010

paulo francis

Meu pai e eu éramos leitores sistemáticos de Paulo Francis. O velho Guina usava suas anotações e rabiscos nos textos do jornal, principalmente os dos grandes jornalistas (Francis, Claudio Abramo, Clóvis Rossi, Jânio de Freitas), para me fazer sugestões ou alertar sobre algo. Estas anotações sempre geravam boas conversas (e algumas brigas), principalmente quando não concordávamos com algo (geralmente estapafúrdio ou inconsequente) escrito por Francis. Pois neste pequeno livro Paulo Eduardo Nogueira conta os fatos mais importantes da vida e da carreira de Paulo Francis. Aqueles que o conheceram através dos artigos em jornais ou nos comentários para a televisão sempre se dividiram em dois grandes grupos: os que concordavam automaticamente com ele, quase venerando suas opiniões, e aqueles que desdenhavam com raiva de sua influência e poder. Não existe mais no Brasil um jornalista que tenha um papel similar ao representado por ele. Talvez Francis fosse mesmo uma dos últimos da geração de grandes jornalistas (e polemistas, como diz o autor deste livro), que povoaram as redações no século XX e geravam discussões como aquelas entre meu pai e eu. Claro, os jornalistas continuam soberbos e arrogantes, mas agora, como os leitores vivem soterrados em um mundo de informações de todos os tipos e fontes, é praticamente impossível serem monopolizados pelo texto e opinião de um único jornalista. Apesar de breve, o autor faz um bom trabalho neste livro, Paulo Francis é descrito objetivamente, com suas virtudes e defeitos (que não eram poucos). As passagens mais controversas de sua vida (a saída da Folha, a dificuldade de terminar sua trilogia, o processo da Petrobrás) são contadas em detalhes. O livro inclui várias fotografias, uma cronologia de sua vida e uma bibliografia de sua obra. Waal! [início 24/05/2010 - fim 26/05/2010]
"Paulo Francis: polemista profissional", Paulo Eduardo Nogueira, editora Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 1a. edição (2010), brochura 13x19 cm, 160 págs. ISBN: 978-85-7060-761-4

sexta-feira, 4 de junho de 2010

a morte de matusalém

Compilados em livro em 1985 "A morte de Matusalém e outros contos" reúne contos que foram publicados originalmente em revistas como New Yorker, Partisan Review, Esquire e Harper´s. São vinte contos de um sujeito de quem nunca é demais louvar as qualidades. Como ele escreve bem. São poucos os escritores que conheço campazes de em curtos parágrafos construirem histórias e personagens que parecem saltar vivos das páginas do livro. As vezes os temas são pesados, terríveis, mas o texto de Singer sempre foca nos aspectos mais humanos, mais universais, mais morais. A noção do tempo nos contos também é uma coisa incrível. Quando o leitor começa a se impacientar com o enredo eis que um personagem toma sua frente e faz a história avançar. E isto acontece as vezes duas ou três vezes mesmo nos contos curtos (quem me alertou para isto foi a Helga, também admiradora do Singer). Ele conta histórias convencionais, do dia-a-dia de homens e mulheres das grandes cidades, e também histórias de fundo mitológico, folclórico, recolhos da memória popular de seu povo. Longe de ser apenas um escritor de textos que deleitam ele é capaz de, através de seu agudo e objetivo senso de observação, denunciar sem piedade os maus comportamentos, as éticas tortas, as hipocrisias ridículas, enfim, tudo do que é condenável no comportamento quase sempre falho do ser humano. Por exemplo, há duas frases neste livro que resume tudo o que está acontecendo com a política no Brasil contemporâneo, neste período pré-eleitoral: "Os políticos veem com naturalidade que alguém se bandeie para o lado mais forte sem aviso prévio. (...) O homo politicus não quer saber de fé genuína nem de intenções verdadeiras; a única coisa que interessa é estar com a panelinha vitoriosa". Triste é ler uma coisa destas e saber que a maioria da população brasileira, analfabeta e venal, sempre vai ter orgulho besta deste tipo de político. Bueno. Nunca é demasiado ler Isaac Singer. Sempre é uma festa ler este sujeito (que escreveu quase toda sua produção em íidiche e ganhou o prêmio Nobel em 1978). O livro inclui um bom glossário dos termos em íidiche que foram mantidos. E tenho ainda um par de livros dele para ler. É tempo! [início 13/05/2010 - fim 21/05/2010]
"A morte de Matusalém e outros contos", Isaac Bashevis Singer, tradução de Alexandre Hubner, editora Companhia das Letras, 1a. edição (2010), brochura 14x21 cm, 237 págs. ISBN: 978-85-359-1617-1

quarta-feira, 2 de junho de 2010

cavalos do amanhecer

Quem fez propaganda deste livro foi o Ronaldo Lippold, também um rato dos livros. Ele me emprestou e li em uns dias de quase inverno, cinzas, como se mostrou ser o adequado. São contos de fronteira, daquele mundo onde os gaúchos mal se sabem brasileiros dos pagos ou uruguaios, castelhanos da gema, ou melhor, sabem, mas não vêem isto como uma separação intrínsica. São contos robustos, retratando um mundo do final do século XIX, tempos de quase guerra civil no Uruguai. Acho que este é o único livro de Mario Arregui (morto em 1985) traduzido para o português. Não sei se os contos pertencem a um único livro (o primeiro, "Noite de São João, sei que é de 1956) ou se foi compilado dentre uma produção literária que se estende por bons trinta anos. A tradução ficou a cargo do Sérgio Faraco. Difícil escolher um dos nove contos para ressaltar, são todos muito parelhos (para usar um termo gaudério). Gostei do "Diego Alonso", onde um sujeito escolhe uma forma limite para provar sua honradez e coragem. Em "A vassoura da bruxa" o leitor também se surpreende como Arregui retrata tão bem o espírito gaúcho, do homem integrado ao ritmo dos campos e das coxilhas. A conversa entre sogra e genro em "A volta de Ranulfo González" é impagável, muito boa mesmo. Neste conto ele registra: "Deus fez o mundo, tomou uns tragos pra festejar e até hoje não curou na borracheira". Incrível, que idéia! Em "Os contrabandistas" sonho e realidade criam uma atmosfera tensa. Há um clima grego nas histórias, como se o gaúcho fosse sim um marinheiro no vasto mar verde destes pagos. Belo livro. Esta dica eu tenho de agradecer ao Lippold. [início 10/05/2010 - fim 19/05/2010]
"Cavalos do amanhecer", Mario Arregui, tradução de Sérgio Faraco, editora LP&M (pocket vol. 346), 1a. edição (2008), brochura 11x18 cm, 138 págs. ISBN: 978-85-254-1291-1

terça-feira, 1 de junho de 2010

el hombre es un gran faisán en el mundo

Quando Herta Müller ganhou o Nobel no ano passado comprei "O compromisso", publicado pela editora Globo, mas acabei não lendo (ficou na fila dos guardados, fazer o quê). Mas como os livros e os autores acabam mesmo nos encontrando cedo ou tarde descobri noutro dia este volume dela, com título curioso e longo: "El hombre es un gran faisán en el mundo". Li em uma viagem curta. É um livro interessante, que se lê quase de um folego só. Apesar de curto, é realmente bem escrito, está repleto de imagens lindíssimas e descrições muito poderosas. Nunca havia lido nada sobre a Romênia, apesar de conhecer um tanto sua terrível história recente. Um país que experimenta uma ditadura brutal como a Romênia só se redime mesmo por acaso. Herta Müller conta uma história envolvendo a minoria alemã de uma região da atual Romênia (ela conta a vida oprimida neste país, uma verdadeira ratoeira). Com o final da segunda guerra mundial esta minoria passa a ser hostilizada e prejudicada economicamente. O sonho de todos eles é conseguir um passaporte que viabilize a emigração para a rica Alemanha, que emergiu pujante poucos anos após a guerra, enquanto a Romênia se afundou na pobreza intrínsica do modelo socialista. Um operador do moinho de uma pequena cidade desta região de minoria alemã vive com sua mulher e filha. A primeira viveu na Rússia comunista as agruras do pós-guerra. A garota tem planos de emigrar e formar uma família (e é ela quem vai conseguir - a alto custo - os passaportes para a família). Há vários personagens interessantes: um prefeito corrupto, um padre venal, um carpinteiro misógino, um peleteiro cruel, um guarda-noturno cansado. Há muitas cenas fortes no livro: uma masturbação, um velório sobre a chuva, a escolha de um presente para a filha, uma caminhada pelas montanhas, a descrição dos hábitos das corujas, a nostalgia da cidade. Apesar do tema ser forte o livro é muito delicado. Se é que ainda existe um tolo neste mundo que ainda se ilude com as experiências cruéis do comunismo, deveria ler este livro antes de voltar a emitir algum juízo besta. Bueno. Gostei muito de ler. Aprendi um tanto. Enfim, preciso ler algo mais desta curiosa autora. [início 13/05/2010 - fim 18/05/2010]
"El hombre es un gran faisán en el mundo", Herta Müller, editora Siruela, 2a. edição (2009), capa-dura 14,5x22,5 cm, 120 págs. ISBN: 978-84-9841-094-5

sábado, 29 de maio de 2010

criação imperfeita

Bueno. "Criação imperfeita" é o tipo de livro que só serve na verdade para quem já saiba um tanto de física, um tanto de história da ciência. Por mais que Marcelo Gleiser se esforce por encontrar um tom didático e acessível os temas que ele aborda são naturalmente áridos para não se permitirem reduções tão elásticas como aquelas que ele faz. Paciência. Como um bom malabarista de paradoxos me parece que ele escreveu este livro mais para se desculpar do passado, de suas escolhas no passado, do que escrever algo realmente novo ou original (tudo parece muito improvisado e mal articulado). Com este livro aparentemente ele prepara terreno onde espera esgrimir seus argumentos (de divulgador científico) no futuro. Ele tenta agrupar toda a comunidade de físicos em um equívoco (a busca infrutífera por uma grande e final unificação) que nunca foi partilhado por toda a comunidade de físicos. Talvez ele devesse ser mais honesto intelectualmente e dizer que esta questão sempre foi um problema restrito a um grupo reduzido. A maioria dos físicos deste último século fez seu trabalho sem se preocupar com as implicações de uma eventual e mítica grande unificação. Ele vincula a busca por simetrias na ciência com o mito da grande unificação e, ao mesmo tempo, desqualifica as simetrias. Ora, no mundo real são muitos os fenômenos associados às simetrias e às quebras de simetrias. Não consigo entender sua aparente incapacidade de aceitar o fato das lei de Gauss para a eletricidade e para o magnetismo serem intrinsicamente distintas (existem cargas elétricas, porém não existem monopolos magnéticos). O livro é dividido em cinco seções. A primeira e a última são muito ruins, pois vagas, dispersivas, onde o tom, pessoal demais, personalista demais, chegaria a ser irritante se não fosse risível (ele pontua certas descobertas científicas com fatos de sua vida, como se o universo realmente girasse em seu redor). O epílogo é ainda mais pessoal e apocalíptico, como se as dúvidas e as questões entre ele e seus filhos importassem algo para o futuro da humanidade. Na segunda seção e na quarta, o tom é um tanto mais adequado, mas o tratamento dado aos temas continua frouxo demais. A seção central, onde ele descreve os fundamentos da física da matéria condensada e da física de partículas é bom, mas duvido que alguém não familiarizado com física possa aproveitá-lo plenamente. Tem um lacanismo besta no livro (uma brincadeira com "procura " ser "pró-cura") que não dá para aguentar. Gosto de dizer que "o mundo é assim" para sintetizar o quão surpreendente ele o é. Gleiser parece querer chamar para seu campo teórico aqueles que não compartilham exatamente os fundamentos da ciência. Neste temas compartilho o cetismo e o tom de Richard Dawkins ou Christopher Hitchens por exemplo, estes sim sujeitos que não têm medo em delimitar o quê é aceito cientificamente do que pertence a uma outra forma qualquer de conhecimento. Paciência. "Eppur si muove", já disse Galileu muitos anos atrás. [início 10/05/2o1o - fim 17/05/2010]
"Criação imperfeita", Marcelo Gleiser, editora Rocco, 1a. edição (2010), brochura 16x23 cm, 366 págs. ISBN: 978-85-01-08997-7

quarta-feira, 26 de maio de 2010

três dúvidas

"Três dúvidas" reune três boas novelas de Leonardo Brasiliense. Elas formam um conjunto temático. Segundo ele (que em um curto posfácio indica ao leitor um caminho de interpretação, algo que me lembrou certos posfácios do Philip Roth) as três novelas tratam de três classes de problemas: as dúvidas existenciais, as dúvidas essenciais e ao cerne mesmo delas, a essência das dúvidas. Mas os livros seguem seus caminhos sem as amarras que os autores podem aplicar a eles (por mais que estas amarras sejam bem intencionadas) e cada leitor certamente pode depreender, dos conflitos descritos nas novelas, outras facetas, outras epifanias, segundo suas próprias categorias de entendimento. De minha parte sempre tento associar o que leio com alguma tradição, com alguma literatura forte que se conecta a novos textos fortes. A primeira das novelas descreve em seções alternadas duas vidas oprimidas, sufocadas, terríveis em sua mediocridade. Um casal que se comunica apenas por um eloquente silêncio, que mal esconde o quanto estão angustiados. Lembra algo do tom de Camus em "O extrangeiro". Na segunda das novelas encontramos uma espécie de quebra-cabeças, em que os variados blocos do texto nos conduzem ao entendimento intrinsicamente fragmentário de uma história. O que há de factual na história? Talvez nada seja factual, nada seja real, talvez tudo seja apenas o resultado de uma mente em coma, que produz estratégias de economia mental automáticas, de um sujeito que luta por sua vida e delira. Lembra algo do "Enquanto agonizo", do Faulkner. Na terceira novela o tom já é mais cinematográfico. Um jornalista recebe uma dica que pode alavancar sua carreira, algo onde um escândalo político e a proximidade de eleições distorcem a compreensão do que é mesmo certo ou errado em cada situação, em cada argumento, em cada página. Um acidente automobilístico embaralha ainda mais a história, pois o jornalista passa a conviver com um duplo, um doppelganger, como se sua vida se bifurcasse naquele momento crucial. O texto lembra aqueles contos de terror da primeira metade do século passado, mas sem tantos arabescos (como se ele modernizasse o gênero). Talvez eu esteja esquematizando demais minhas associações. Gostei muito das três histórias. O tratamento literário, a qualidade do texto de Leonardo é algo a parte (uma coisa é inventar histórias, outra é utilizar uma linguagem que as valorizem e lhes incorporem densidade e vigor). É certo que mesmo sendo um jovem autor Leonardo Brasiliense sabe correr certos riscos e se reinventar a cada texto que oferece ao público leitor (ou seja, ele não precisa nem da companhia de uma panelinha literária, algo tão comum a sul do polo norte - para não dizer ao sul do Manpituba, como me parece ser mais apropriado - nem da repetição de truques literários). Por fim cabe registrar o belo acabamento do livro. A separação entre as novelas, as boas epígrafes, a separação das seções dentro de cada novela e, por fim, até a capa, belíssima, tornam este um livro que vale a pena o tempo que investimos em desfrutá-lo. [início - fim 16/05/2010]
"Três dúvidas: novelas", Leonardo Brasiliense, editora Companhia das Letras, 1a. edição (2010), brochura 14x21 cm, 173 págs. ISBN: 978-85-350-0629-4