sábado, 7 de novembro de 2020

dias e noites

Toni Araújo é de Salvador e, até onde sei, "Dias e noites" é seu primeiro livro. Ele chama de histórias de vida e morte as 27 narrativas enfeixadas no livro. Vou registrá-las aqui como contos. Nas histórias o leitor é levado a confrontar episódios onde quem domina o destino é  a morte, quem reina sobre os viventes são as perdas ou as misérias do cotidiano contemporâneo. Algumas parecem fábulas urbanas, tentativas de contar como somente aceitamos a realidade envolvendo-a em algo de mitologia, de fantasia, de magia. Os livros (ou o amor aos livros) sempre aparecem nelas, assim como sempre surgem a tecnologia (a escravidão digital), a ironia, os medos e os espantos dos homens. Gostei bastante de "Suavidade" em que acompanhamos os últimos momentos de um sujeito inebriado pela morfina, em um hospital; de "Despertar", onde um sujeito procura inspiração literária em um bar e acaba experimentando um surto psicótico; de "Natureza", onde um funcionário exemplar passa por uma metamorfose, após sofrer um AVC; de "Cruz", onde pai e filho vivem uma rotina melancólica e musical. Cito apenas essas quatro por preguiça, pois não quero aqui roubar do leitor a chave de todas as histórias, sempre curtas e interessantes. Vamos a ver o que nos apresentará Toni Araújo no futuro. Vale!
Registro #1586 (contos #183)
[início: 26/10/2020 - fim: 27/10/2020]
"Dias e noites: histórias de vidas e mortes", Toni Araújo, Salvador: República Af, 1a. edição (2019), brochura 14x21 cm., 188 págs., ISBN: 978-65-80229-01-7

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

solução de dois estados

De Michel Laub já li "Tribunal da quinta-feira" (2017), "Diário da queda" (2011), "Não depois do que aconteceu" (1998) e A maça envenenada" (2013). "Solução de dois estados" é sua proposta mais recente e é realmente interessante. O formato deve algo a um antigo programa de entrevistas que existia na TV Cultura paulista (Ensaio, criado e dirigido pelo grande Fernando Faro). Digo isso pois Michel Laub faz seus personagens responderem continuamente a perguntas em longas entrevistas, mas estas perguntas não são grafadas, o leitor apenas as infere, quase nunca as lê. Estas entrevistas são conduzidas por uma mulher, Brenda, que pretende produzir um documentário sobre violência e envolve dois irmãos em conflito, Alexandre (o mais novo, um empresário do setor de academias de ginástica) e Raquel (a mais velha, uma artista plástica, que trabalha com vídeo arte e performance). A história não segue os fatos cronologicamente. A narrativa alterna fatos do início os anos 1990 e o final dos anos 2010, correspondendo assim aos anos de redemocratização do Brasil, aqueles que se seguiram a constituinte e a eleição de Fernando Collor, seguindo até os sucessos mais recentes (de 2013 a 2018). Assim como nosso país alternou momentos de entusiasmo, ufanismo e delírios de grandeza (sempre artificiais, já sabemos) e a experiência prática de desgraças, corrupção generalizada e vocação para a mediocridade (sempre inevitáveis, também já sabemos) a vida da família de Raquel e Alexandre reveza pontos baixos e altos, perdas e ganhos. No início acompanhamos como a empresa gerenciada pelo pai dos dois irmãos é levada a falência em decorrência do heterodoxo  plano Collor, programa imbecil, um dentre muitos deste país pródigo em programas, plataformas e decisões estúpidas. Os dois irmãos vivenciam de forma diferente o impacto da falência da empresa na vida dos pais (Raquel algo blindada, pois vive na Europa, estudando, Alexandre no redemoinho dos problemas brasileiros, justamente quando tem que decidir qual curso fazer na universidade). Laub não cai no erro de tentar fazer história ou ficar discutindo economia em seu romance. O conflito do livro gravita a repercussão de uma agressão física que Raquel sofre durante uma de suas performances públicas, já quando vive no Brasil, agressão que ela associa à disputa com Alexandre pelo espólio da família e ele associa a vida hedonista da irmã. Os diversos fragmentos de entrevistas que compõe a narrativa dão conta de exemplificar como a verdade nunca é plana quando membros de uma família contrastam suas interpretações da realidade imediata, ou falam dos fatos, do passado e de si mesmos, ou têm interesses econômicos distintos, se imaginam moralmente superiores uns aos outros, ou são hipócritas. As reflexões sobre política, economia, sociologia e psicologia que os personagens esgrimem parecem pajelanças, mostram ser ferramentas tímidas, inadequadas, que não se prestam a explicar como brasileiros em fúria se comportam, já que aqui ódio e desentendimento mútuo é norma, é lei. Laub, claro, parece interessado em entender o terrível país em que vivemos, não dogmatiza, não oferece chaves fáceis de interpretação. Talvez a palavra não dita no livro, mas que o domina, silente, é memória, ou seja, nossa incapacidade de lembrar corretamente o que vivemos, como indivíduos e como grupo social, sempre mais interessados em retificar as verdades do passado (as nossas e a de todos os demais, tarefa inglória, já se sabe). Assim como a "solução de dois estados" original (o projeto de criação e de coexistência pacífica entre Israel e Palestina), os dois irmãos parecem viver duas realidades distintas demais para que possam um dia coabitar num mesmo lugar e tempo, ou para que possam, um dia, se amar. Belo livro. Vale!
Registro #1585 (romance #391)
[início: 21/10/2020 - fim: 23/10/2020]
"Solução de dois estados", Michel Laub, São Paulo: editora Schwarcz (Grupo Penguin Random House / Companhia das Letras), 1a. edição (2020), brochura 14x21 cm., 243 págs., ISBN: 978-85-359-3379-6

domingo, 1 de novembro de 2020

poesie

Esta antologia de poemas de Augusto de Campos foi produzida pela Demônio Negro e lançada durante a exposição "Poesie ist Risiko", de poesia concreta, que aconteceu em Zurique, na Suíça, entre outubro e novembro de 2019 (tratava-se de uma colaboração com a Universidade de Zurique e com curadoria dos poetas e professores Eduardo Jorge de Oliveira e Vanderley Mendonça). A antologia é bilíngue. Simone Homem de Mello assina a tradução dos poemas de Augusto de Campos para o alemão e também um detalhado prefácio (valei-me meu são Goethe, o Alzheimer parece que comeu o que restava de meu alemão, preciso estudar mais, definitivamente). Paciência. Em "Poesie" encontramos trabalhos criados num período longo, de quase seis décadas, desde o primeiro volume publicado ("O rei menos o reino", de 1951) até propostas da primeira década do século XXI, como Contemporâneos, de 2009. Cabe dizer que Augusto continua ativo e produzindo, fazendo notável uso de várias mídias e/ou suportes digitais. Um neófito da poesia concreta tem chance de ilustrar-se um bocado com este livro. Encontramos várias daquelas propostas que provocam espantos e encantam o leitor até hoje: Poetamenos (de 1953); Ovonovelo (de 1956), Pluvial (de 1959); Cidade/City/Cité (de 1963); Luxo (de 1965); Viva Vaia (de 1972), Não (de 1990), dentre tantas outras. Na falta desta bela edição à mão, a melhor forma de "ver" a poesia de Augusto de Campos é procurá-la no Google (experimente, por exemplo, clica aqui!). Bom divertimento. Em tempo: esse volume será lançado oficialmente no Brasil no próximo dia 03/11, terça-feira, no Instituto Goethe Paulista, e que pode ser acompanhada pelo Facebook (clica aqui!). Vale!
Registro #1584 (poesia #136)
[início: 01/10/2020 - fim: 30/10/2020]
"Poesie", Augusto de Campos, edição bilíngue (português e alemão), tradução de Simone Homem de Mello, São Paulo: V. de Moura Mendonça Livros (Selo Demônio Negro), 1a. edição (2019), capa-dura 16x23 cm., 115 págs., ISBN: 978-85-66423-70-9

terça-feira, 27 de outubro de 2020

despedida

"Despedida: Poemas en tiempos del virus" é o volume mais recente de poemas de Cees Nooteboom. Foi lançado há pouco, em julho. O título e o tom remetem, claro, à morte, ao fim, à uma última vez, ao adeus, mas Nooteboom sabe brincar com o leitor, e sabe que nada está predestinado, nada é finito, mesmo estando todos nós vivendo o impacto desta pandemia dos diabos. Nooteboom nasceu em 1933. À exemplo de seu volume anterior de poemas (Ojo de monje), encontramos nesse "Despedida" 3 conjuntos de 11 poemas, ou seja, 33 poemas, 33 quartetos todos eles (a edição é bilíngue, mas ao menos na tradução que li, em espanhol, são quartetos não rimados, onde faz-se uso notável de enjambement). Os enjambement dos últimos versos dos poemas capturam o olho do leitor e forçam uma interrupção extra na leitura (esperamos um pouco mais antes de virar a página, pensamos no efeito daquela frase truncada, antes de começar o poema seguinte). Os poemas começam na fundamental Menorca de Nooteboom, na cidade de Sant Lluís, em novembro de 2019. Como todos nós, ele e seus poemas foram capturados pela pandemia, de forma que os últimos deles foram compostos em sua Holanda natal, em Hofgut Missen, em abril deste 2020. No primeiro conjunto o narrador do poeta vê-se em seu jardim espanhol, não no verão luminoso das ilhas Baleares, mas já no inverno. Ele cuida das plantas, vê fotografias antigas, lê jornais, lembra de seus dias de criança, da segunda grande guerra, da morte do pai, dos seres que passam pela cidade ou marchando em triunfo ou arrastando a dor da derrota. Dois eus surgem e o narrador vê-se como uma garça. No segundo conjunto o narrador reflete sobre o entorno, sobre os personagens criados pelo autor, os mortos, o sentido da vida, o ofício do escritor. No terceiro conjunto os poemas falam de como as pedras são o melhor substrato para a verdade, lembra de sua ilha, daquilo que se perdeu, das perdas, da velhice, de como Orfeu tentou mas não conseguiu seguir sem olhar para trás, do medo de se perder a voz poética. A palavra que mais aparece no livro é "cabeças". Difícil dizer o quê são. Serão as gentes, os personagens dos livros, os inventados? Serão os amigos, os senhores dos mundo, os atores da realidade? Serão os mortos-vivos, os escravos mentais, a maldita gente má que nos sufoca? Em algum momento se pergunta: "Cuántos misterios puede uno suportar?". No final, um réquiem: "Ahora el silencio / es la distancia restante, / sin memoria / no hay vida. // He dejado de oír / mis pasos, / lo que me rodea / permanece oculto. // A ciegas prosigo mi camino, un pálido perro / en el frío. Debe de ser aquí, / aquí me despido de mí mesmo / y lentamente me transmuto en // nadie". Eu - e o Daniel Dago, certamente - vamos esperar mais coisas de Cees Nooteboom, vamos esperar algo mais deste adorável viajante dos sentidos, deste sensível e antenado senhor. Evoé don Cees, Evoé. Vale!
Registro #1583 (poesia #135)
[início/fim: 14/10/2020] 
"Despedida: Poemas en tiempos del virus", Cees Nooteboom, tradução de Isabel-Clara Lorda Vidal Madrid: Visor Libros (coleccíon Visor de Poesía #MCIX), 1a. edição (2020), brochura 12,5x19,5 cm., 88 págs., ISBN: 978-84-9895-409-8 [edição original:  Afscheid: gedicht uit de tijd van het virus (Amsterdam: Uitgeverij Karaat) 2020].

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

línea de fuego

A Guerra Civil Espanhola durou pouco menos de três anos (de 17/7/1936 a 01/04/1939). Morreram nela aproximadamente 500 mil pessoas (há quem diga que foram apenas 150 mil e há outros que afirmam que o número de mortes alcançou 1 milhão). De qualquer forma foi uma das guerras mais sangrentas do século XX, período não exatamente conhecido por valores humanistas e pacíficos. O custo social foi enorme. A ditadura franquista vencedora, que ficaria no poder por 36 anos, até meados dos anos 1970, ainda provocaria muitas mortes e o exílio de milhares de espanhóis. Arturo Pérez-Reverte, prolífico autor de trinta romances e de vários volumes de crônicas, lançou recentemente um “relato” (em suas palavras) sobre a Guerra Civil dos espanhóis. Suas motivaçôes são explicadas por ele mesmo nesta boa entrevista: Librotea El país. Sua proposta é narrar uma história de ficção, ou seja, não se trata de história, de análise política ou de sociologia. Ele situa esse seu relato em uma das batalhas mais famosas da Guerra Civil, a batalha do Ebro. A batalha real aconteceu entre 25/7/1938 a 16/11/1938 (pouco menos de quatro meses). Morreram nela aproximadamente 80 mil pessoas, em uma região de aproximadamente 800 Km². No recorte ficcional de Pérez-Reverte os sucessos acontecem em uma cidade imaginária que ele chama de Castellets del Segre, na qual, em seus 35 Km² e nos primeiros dez primeiros do conflito, morrem 3.000 pessoas. Ele povoa o romance/relato com personagens icônicos do mosaico de participantes da conflagração real: comunistas, socialistas, anarquistas, trotskistas, sindicalistas, brigadistas internacionais, nacionalistas, legionários, monarquistas, carlistas, fascistas, nazistas, falangistas. O tom não é pedagógico, mas percebe-se que Pérez-Reverte quer oferecer ao leitor a experiência da complexidade da Guerra Civil, que não pode ser resumida em platitudes como “a luta em defesa da civilização cristã contra a barbárie comunista” (dos que se afeiçoam com o discurso nacionalista de Franco, que vencerá o conflito) ou “a luta do bem contra o mal” (na igualmente vazia retórica dos republicanos, o grupo derrotado). De qualquer forma, Pérez-Reverte lamenta, em suas entrevistas, o uso "bastardo", político ou ideológico da Guerra Civil que domina os discursos contemporâneos, eclipsando o lado humano, a realidade da dor e horror, pois aqueles que participaram diretamente já estão hoje, quase todos, mortos. Não me atrevo aqui a fazer uma sinopse das quase 700 páginas do volume. É um livro fácil de ler, pois somos rapidamente capturados pela boa prosa de Pérez-Reverte. Distribuídos em três partes (e em dezenove capítulos e um epílogo), o autor alterna cenas dos dois grupos em guerra. Algumas destas cenas permitem a ele fazer alguma filosofia sobre as motivações de cada um dos envolvidos; outros distendem a tensão e o acúmulo de mortes com tiradas cômicas e jocosas; outros ainda oferecem oportunidade para discussões sobre questões de estratégia, de táticas ou para descrever os armamentos utilizados e a indumentária (nem todos usavam uniformes nesta guerra). Há também personagens femininos e uma criança, personagens que permitem discussão sobre o especial papel das mulheres e dos jovens nas guerras e sobre o impacto da carnificina neles. Pérez-Reverte trabalha muito bem os modos de falar e sotaques dos muitos grupos em luta, inclui canções, bravatas e coplas utilizadas como ferramentas motivacionais nas trincheiras. A melhor dupla de personagens é formada por Ginés Gorguel, um abobado carpinteiro do interior de Albacete, e Selimán al-Barudi, um legionário marroquino, um mouro, que combatem juntos no lado franquista e se tornam improváveis amigos. Também é muito interessante o papel de um jovem alferes, Santiago Pardeiro, que aplica com sabedoria tudo o que aprendeu na escola militar, ganhando respeito de seus comandados, todos legionários já bastante mais velhos e experimentados em batalhas. Outro personagem interessante é Saturiano Bescós, um aragonês, pastor de ovelhas, que garante momentos de descontração na trama com seu sarcasmo, senso de oportunidade e objetividade. Entretanto, é verdade que todos os demais protagonistas cumprem bem seus papéis, neste mosaico de vidas inventadas (Julián Panizo, um dinamitador comunista; Bascuñana, um cético capitão da marinha, perdido nas montanhas e vales do leste espanhol; Pato Monzón, uma disciplinada e idealista especialista em comunicações; Tonet, o garoto de 12 anos, que escolhe ajudar o grupo nacionalista mais por diversão que por ideologia; Vivian Szerman, uma curiosa jornalista americana, que sonha viver aventuras, e as vivedolorosamente; Oriol Les Forques, um catalão “requetés”, para quem a guerra era uma nova cruzada cristã; O’Duffy, um sonhador major irlandês das brigadas internacionais; Phillip Tabb, um fotógrafo destemido; o major Emilio Gamboa, que luta pelos republicanos, mas reluta em aceitar interferência dos comissários políticos russos nas questões militares). O leitor percebe rapidamente que o núcleo das forças militares nacionalistas é mais profissional, enquanto nas tropas republicanas o comando é caótico,  improvisado. Em seu livro não há grandes nomes (acho que ele só grafa “Franco” uma vez). No campo de batalha todos são quase anônimos, confia-se em apenas uns poucos camaradas, em pessoas com quem se partilha o perigo da morte. Os 3.000 mortos inventados por Pérez-Reverte, a grande maioria do lado republicano, são quase todos crianças, de 17 anos, se tanto, recrutados por que alcançaram este número mágico, não  alguma maturidade; ou indivíduos sem instrução militar alguma, capturados em cidadezinhas e forçados a lutar; ou sonhadores estrangeiros, que imaginavam lutar contra o fascismo, o mal encarnado, mas eram apenas carne barata à serviço dos planos estratégicos maiores de Stálin; ou ainda militares patriotas, cuja expertise sempre morria no fogo cruzado das ideologias, emaranhados nas quimeras de uma revolução global, que jamais acontecerá. Ele também nos ensina que em uma guerra não se morre por causas nobres, por conceitos abstratos, por bandeiras ou por líderes. Morre-se por um passo mal dado, por um cigarro acesso em hora imprópria, por fogo amigo, pelas costas, por puro azar, por uma arma que trava quando não devia, por uma ponte que cai, por intrigas de caserna e trincheiras, por falta de medicamentos, de fome, sede ou frio, por injustas acusações de covardia, por inabilidade, por uma palavra mal dita, por um documento errado ou foto familiar carregada na carteira, por um crucifixo, ou a falta dele, no pescoço. A verdade não é revolucionária, já se sabe, pois ela morre sempre no primeiro dia de cada grande batalha. Todavia, a verdade ficcional de Pérez-Reverte está registrada em um grande livro, que viverá por mais anos que aqueles que dela participaram. Parece ter funcionado o esforço de trazer o lado humano da Guerra Civil para o primeiro plano da discussão contemporânea. A repercussão - e as vendas - na Espanha é enorme. Muitos políticos ou simpatizantes de ideias de esquerda ou direita condenaram o livro, claro. Mas tanto a crítica honesta, quanto o público leitor, parece pouco interessado em disputas ideológicas, no discurso fácil, sempre dirigido apenas aos acólitos e escravos mentais dos dois bandos. Pouco importa. Como disse recentemente Pérez-Reverte em sua conta no Twitter: "Por supuesto, eso va a indignar a los que viven de lo simple, de señalar buenos y malos desde ambos extremos de la política española, los ultras,  sectarios y paniaguados de derecha y de izquierda, necesitados siempre de blanco y negros, enemigos de los matices y complejidades que les estropean el discurso fácil. También indignará a los tontos. Y seré muy feliz cuando eso ocurra, pues entonces habré logrado mi objetivo. Que empiecen a chillar las ratas". É verdade. Quem for capaz de reclamar deste grande livro é mesmo um rato, um homem oco, crâneo recheado de palha, que apenas grita palavras vazias.Vale!
Registro #1582 (romance #390)
[início: 14/10/2020 - fim: 17/10/2020] 
"Línea de Fuego", Arturo Pérez-Reverte, Barcelona: Alfaguara / Penguin Random House Grupo Editorial, 1a. edição (2020), brochura 15,5x24,5 cm., 683 págs., ISBN: 978-84-204-5466-5

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

nick cave

Nestes meses de pandemia muitos livros me acompanharam de perto. Junto com Elias Canetti e J.M. Coetzee, Nick Cave esteve entre os pesos pesados da defesa, aqueles que mais me blindaram do medo da morte, me ajudaram nos dias de ventania e de chuva, lá nas terras altas de Itaara. Neste volume estão reunidas as letras de quase todas composições de Cave, desde o álbum Prayers on Fire, de 1981 (em uma das formações de sua banda The Birthday Party), até Push the Sky Away, de 2013 (décimo quinto álbum da banda The Bad Seeds). Todas as letras (como de resto uma miríade de informações sobre seus livros, trilhas sonoras de filmes, premiações, vídeos, intervenções artísticas das mais variadas e "coisas" inventados por ele) podem ser lidas/vistas no ótimo site de Nick Cave (clika!). Nada substitui o ato de ouvir as canções (eu gosto de acompanhar pelo Spotify, mas não é difícil encontrá-las em outras plataformas). Na verdade nada substitui a experiência de vê-lo num transe incendiário, em suas apresentações. Sorte de quem viu. Quem conhece as canções sabe da carga de ironia, autorreflexão, capacidade de entender os conflitos do homo sapiens e de provocá-los. Livro para aficionados e para curiosos. Grande Nick Cave! Vale!
Registro #1581 (música #2)
[início: 18/05/2020 - fim: 22/09/2020]
"Nick Cave: The Complete Lyrics 1978 - 2013", Nick Cave, London: Penguin (Random House / Bertelsmann Group), 2a. edição (2013), brochura 14x21 cm., 528 págs., ISBN: 978-0-241-96658-7

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

a balada do velho marinheiro

Desde março, quando subi para as terras altas de Itaara, isolando-me desta nossa já perene pandemia, tenho lido muito, única forma a meu alcance de encontrar um descanso na loucura. Li muito sobre a dor e a morte (Canetti, Coetzee, Cave, entre outros). Quando subi lembrei de levar meu volume  do "The rime of the ancient mariner", de Samuel Taylor Coleridge. É um poema estranho, que provoca no leitor uma experiência de sonho, vertigem e assombro. Sua história é uma forma de enfrentar morte e destino, fugir da destruição e da loucura. É um poema que a cada leitura fornece um detalhe que se furtou revelar nas leituras anteriores, que encanta continuamente o leitor. Nele acompanhamos o relato de um velho marinheiro, dirigido a um sujeito que ele aborda no início de uma festa de casamento, sujeito que se rende a narrativa como se estivesse hipnotizado. O marinheiro conta como ele e seus colegas rumam ao sul em um navio, até chegarem próximos ao gelo da Antártida. Presos em um denso nevoeiro, em algum momento parecem estar sendo guiados para o bom caminho por um Albatroz (símbolo da pureza e das virtudes cristãs), mas o marinheiro narrador conta como por impulso usou sua balestra e abateu o pássaro. A partir daí todos no navio passam a culpar o marinheiro/narrador pelo destino infausto deles, e passam a ser assombrados, disputados, atormentados por demônios, condenados à danação. Dois destes demônios disputam as almas dos marinheiros. O demônio "Morte" ganha a alma de todos, que se afogam no mar, menos a do marinheiro narrador, cuja alma é vencida pelo demônio "Vida-em-morte". Assim sendo, parcialmente redimido pelo lance de dados e o navio fantasma desaparecer num redemoinho, o velho marinheiro se salva, é resgatado por um eremita e seu filho, e alcança a terra firme. Todavia, sabe-se condenado a eternamente contar sua história, a cantar os vivos sobre seus pecados, a ensinar como o destino dos homens e da natureza estão conectados, a falar sobre os perigos decorrentes da soberba e dos atos impensados. Lembro da primeira vez que li este poema, meados dos anos 1990 (em uma tradução do grande Paulo Vizioli, e inspirado pelo ótimo Sexual Personae: Art & Decadence from Nefertiti to Emily Dickinson, da Camille Paglia, que falava maravilhas de Coleridge - ela gostava especialmente da vampira Geraldine, mas essa é outra história). Esse belo volume da Ateliê inclui também a versão original em inglês; um longo ensaio do tradutor, Alípio Correia de Franca Neto; uma curta apresentação assinada por Alfredo Bosi; e o famoso fragmento Kubla Khan (também de Coleridge), que tem uma história de lenda. Diz essa lenda que Coleridge, estimulado por ópio, sonhou um longo poema, mas ao tentar transcrevê-lo, na manhã seguinte, foi interrompido por uma pessoa (um sujeito de Porlock) e com isso esqueceu as linhas seguintes daquilo que havia sonhado/imaginado. Coleridge, estimulado por amigos, só publicou este fragmento vinte anos após sua composição. O volume da Ateliê inclui também um poema de Jemery Reed (A pessoa de Porlock), em que se conta uma versão ligeiramente diferente desta história de inspiração e perda. Belas e terríveis histórias Coleridge nos legou. Mas temos todos que seguir nossas Vida-em-morte particulares, neste estúpido século XXI, neste ano besta de pandemia. Após ouvir a balada do velho marinheiro, na manhã seguinte, o convidado da festa de casamento, atordoado, desamparado, já um homem mais triste e mais sábio, parece ter ressuscitado. Boa sorte a todos que ouvirem baladas de velhos marinheiros, ai de nós. Vale!
Registro #1580 (poesia #134)
[início: 17/03/2020 - fim: 29/09/2020]
"A balada do velho marinheiro", Samuel Taylor Coleridge, tradução de Alípio Correia de Franca Neto, Cotia: Ateliê Editorial, 1a. edição (2005), capa-dura 20x27 cm, 240 págs. ISBN: 85-7480-273-5 [edição original: The rime of the ancient mariner, 1797; Kubla Kahn, 1816]

terça-feira, 13 de outubro de 2020

quem faz o quê?

Já faz anos que não convivo com crianças. Houve uma época em que todos os amigos tinham filhos, em que nasceram minhas sobrinhas queridas, Clara e Victória, em que tornei-me padrinho do Dante. Sempre gostei de conversar com todas elas e também presenteá-las. Depois as crianças cresceram, os casais se separaram, o ritmo da vida mudou e o hábito - que sabe ser um fiel camareiro, porém sabe também ser cruel - as colocam em um lugar inacessível, longe da minha rotina. Agora que eu tenho um fenótipo mais próximo daquela antiga definição que uns amigos fizeram nos tempos da USP, a de ser o "velho e cansado Guina", aquele que levava tudo a sério, mais para taciturno que para brincalhão, não sei mais o melhor jeito de se aproximar de crianças e jovens, sobretudo nestes tempos rudes e estúpidos que vivemos. Paciência. Noutro dia achei esse livro do Ricardo Aleixo, um livro onde um único poema  tem cada um dos versos ilustrado em páginas duplas (são desenhos bem coloridos, assinados por Regina Miranda). Lê-se o poema e recuperamos algo das alegrias de conviver com crianças, vivenciar aqueles estalos adoráveis, ver o furacão encarnado que cada uma delas tem dentro de si.  Certamente as crianças (e as crianças grandes) vivem um bom momento lendo e folheando esse livro de Ricardo Aleixo e Regina Miranda (ouvendo-o, como discute o poema). Deixo ele aqui: "Morrer é com os vivos. / Chorar é com as nuvens. / Saber é com os livros. / Separar é com as margens. / Voar é com as pedras. / Pisar é com os pés. / Piscar é com as pálpebras. / Calar é com a voz. / Morder é com os dentes. / Durar é com o tempo. / Lembrar é com os elefantes. / Soprar é com o vento. / Ver é com os fatos. / Mascar é com as cabras. / Assustar é com os ratos. / Desdobrar-se é com as cobras. / Tatear é com os cegos. / Roer é com os esquilos. / Ouvir é com os morcegos. / E ouver... / é com os crocodilos.". Vamos a ver se encontro algum jovem casal que tenha alguma criança em casa para presenteá-lo com esse "Quem faz o quê?". E segue o baile. Vale!
Registro #1579 (infanto-juvenil #50)
[início - fim: 21/09/2020]
"Quem faz o quê?", Ricardo Aleixo (texto), Regina Miranda (ilustrações), Belo Horizonte: Formato Editorial, 1a. edição (1999), brochura 20,5x23 cm., 28 págs., ISBN: 85-7208-240-9

sábado, 10 de outubro de 2020

rei lear

Quando se trata de bons livros, não importa quantas vezes um sujeito volte a lê-los, o assombro sempre será diferente, o encantamento sempre se dará de uma forma distinta, as descobertas sempre serão diversas das anteriores. Shakespeare, o eterno Shakespeare, inventou seu Rei Lear há mais de quatrocentos anos e esse drama segue nos arrebatando. Charles Lamb e Harold Bloom já nos ensinaram que a leitura de Rei Lear é particularmente gratificante porque, em geral, as montagens e/ou adaptações ficam sempre aquém do texto, porque os atores e/os diretores são sempre derrotados pela potência da peça, por sua riqueza, por seu caráter quase mitológico, por sua tessitura poética que remete a de uma santa escritura. Se for este mesmo o caso, a tarefa do leitor agora ficou muito mais prazerosa, pois Lawrence Flores Pereira, respeitado e premiado professor e tradutor, que já nos havia proporcionado suas ótimas versões de Hamlet e de Otelo, acabou de publicar seu Rei Lear. Não me atrevo aqui a fazer um resumo da peça. Talvez, numa sinopse, seja só o caso de lembrar que há duas tramas intrincadas, dois enredos paralelos: o enredo principal é o de Lear, rei da Bretanha, que planeja dividir seu reino entre suas três filhas (Regan, Goneril e Cordélia), mas apenas provoca conflitos e destruição, morte e loucura; a segunda trama é a de Gloucester, um conde do reino bretão, que é enganado por seu filho bastardo (Edmund), renega seu filho natural (Edgard) e, a exemplo de Lear, produz a si e a todos os que o cercam, somente degradação, sofrimento, ruína, realçando o conflito e caos gerado por Lear. Um leitor romântico (ou um que não seja pelo menos um pouco niilista ou cínico) precisa emparedar seu coração, pois na peça quase todos os personagens sofrem demasiadamente. O espectador/leitor também sofre com eles, até o final, mesmo quando uns poucos dentre os virtuosos personagens sobrevivem e todos os maus, os completamente perversos, sejam derrubados. De certa forma a loucura de Lear é a loucura grandiloquente deste nosso século, onde a falta de sabedoria, a vocação para destruição e o desentendimento sobre o que seja amar são a verdadeira norma contemporânea, fazem parte de nosso triste cotidiano (seja no envolvimento real entre os homo sapiens, seja nas especulares relações sociais virtuais, no contínuo autoengano das redes, que apenas deixa aflorar nosso lado mais sombrio). A tradução de Lawrence - frente toda a complexidade da peça, que funde prosa e verso, canções e retórica, com ritmos diferentes - valoriza sempre o verso (instável, no original, nas palavras dele mesmo), oferecendo ao leitor um léxico rico e variado, com elementos eruditos e populares, soluções muito originais, criativas. Gostei muito de ler. Os usuais mimos da coleção Penguin Classics Companhia das Letras estão presentes: (i) uma bela introdução, que ocupa um terço do volume, assinada por Lawrence e por Kathrin H. Rosenfield; (ii) duas notas breves que especificam as fontes e o compromisso tradutório utilizado (vale lembrar que o projeto de tradução do Lawrence pode ser encontrado na Revista de Literatura e Linguística Eutomia (ISSN 1982-6850); (iii) as referências bibliográficas fundamentais; e, por fim, (iv) aquilo que sempre é uma festa para o leitor curioso, uma leitura à parte que todos devem fazer simultaneamente ou mesmo só após terminar o texto: extensas notas de tradução para cada uma das 26 cenas da peça, que ocupam aproximadamente um quarto do volume, onde ora se argumenta sobre as soluções adotadas na tradução de passagens específicas, ora se fala da conveniência ou não de um determinado procedimento cênico, mas que também oferece explicações sobre aquilo que é cifrado ou enigmático demais no original, como certos antropônimos, topônimos, passagens que fazem alusão a mitologia, história e sociologia. Só um detalhe besta, que acho ser um deslize que a Penguin/Companhia poderia ter evitado: o sumiço do Conde de Kent na lista de personagens (logo ele, que é o primeiro a falar na peça). Outro detalhe besta, mas bacana desta vez, é que achei muito curioso Lawrence ter utilizado nas passagens fantásticas e loucas dos discursos do Pobre Tom (Edgard) a palavra "Trasgo", resgatando-a do folclore português (da província do norte de Portugal, Trás-os-montes), quando quer identificar os demônios que se ocupam deste pobre personagem. Acontece que "Trasgo" foi incorporado notavelmente pelos tradutores de Harry Potter para o português, já há vinte anos, quando precisaram identificar aquilo que J.K. Rowling chamou de "Trolls" em seu livro (é uma bobagem, mas pareceu-me um fortuito encontro entre registros eruditos e populares, tão presentes na peça). Finalizo reproduzindo aqui duas citações marcantes da peça, que parecem tão adequadas para os nossos dias, dias povoados por vazio e estupidez: "When we are born, we cry that we are come to this great stage of fools" e "Nothing will come of nothing.” ("Quando nascemos, choramos por aportar / A esse vasto palco de loucos." e "Mas nada virá de nada."), nas versões de Lawrence. Livro para se ler com atenção, esforço e disciplina. Vale muito a pena. Evoé Lawrence, Evoé! Vale!
Registro #1578 (drama #23)
[início: 22/07/2020 - fim: 29/09/2020]
"Rei Lear", William Shakespeare, tradução de Lawrence Flores Pereira, São Paulo: editora Schwarcz: Penguin Classics Companhia das Letras, 1a. edição (2020), brochura 13x20 cm., 320 págs., ISBN: 978-85-8285-111-1 [edição original: His True Chronicle Historie of the Life and Death of King Lear and His Three Daughters. With the Unfortunate Life of Edgar, Sonne and Heire to the Earle of Gloster, and His Sullen and Assumed Humor of Tom of Bedlam (London) first quarto, 1608; second quarto, 1619; The Tragedie of King Leat (London: Isaac Jaggard and Edward Blount) first folio, 1623; Foakes, R.A. (ed,), Arden Shakespeare, Third Series (London: Bloomsbury), 1997]