terça-feira, 31 de dezembro de 2013

a anatomia da influência

"Hannibal de Bréauté, morto! Antoine de Mouchy, morto! Charles Swann, morto! Adalbert de Montmorency, morto! Boson de Talleyrand, morto! Sosthène de Doudeauville, morto!". Harold Bloom, nesse seu "A anatomia da influência: A literatura como modo de vida", a exemplo do Barão de Charlus de Marcel Proust, parece nos lembrar, ou antes, a nos ensinar, algo sobre a crueldade da passagem do tempo. Bloom também elenca seu mortos, amigos de longo curso, colegas poetas, escritores, ensaístas, críticos ou professores: Northorp Frye, A.D. Nuttall, Anthony Burgess, Robert Penn Warren, Kenneth Burke, Anthony Hecht (para listar apenas o mesmo número mágico de seis utilizado por Proust). E os elenca por vaidade, para ilustrar os sessenta anos em que debateu sobretudo com eles suas idéias sobre literatura e sobre os conceitos utilizou para interpretá-la. Ele revisa seu inflamável conceito de "Angústia da influência", processo desenvolvido ainda nos anos 1970, através do qual um poeta forte experimenta a influência poderosa de seus precursores, também poetas fortes. Neste seu último livro, escrito entre 2004 e 2011, Bloom digressa sobre muitos poetas e escritores (Milton, Joyce, Dante, Shelley, Leopardi, Epicuro, Lucrécio, Shelley, Whitman, Lawrence, Wordsworth, Crane, Stevens, Yeats, Blake, Lawrence, Cervantes, Proust, Emerson, Browning), mas acaba sempre louvando a precedência singular de Shakespeare sobre tudo o que foi escrito nos últimos 400 anos. Talvez "A anatomia da influência" merecesse um corte, uma edição mais concisa, que não fosse tão didática e/ou repetitiva (afinal, desde o início do livro já se alcança entender os argumentos principais de Bloom). Paciência. Talvez seja correto (e ético) homenagear os esforços de convencimento de um senhor tão vetusto com algo tão simples quanto a leitura atenta. Todavia, este leitor atento acaba percebendo que Bloom parece metamorfoseado num Falstaff moderno (um personagem tão caro a ele afinal de contas). Mesmo com seu usual otimismo em relação a seus detratores críticos (como quando ele afirma: "a literatura superior sempre retorna, enterrando seus coveiros acadêmicos, ...chatos e pedantes críticos acadêmicos") Bloom parece arrastar consigo as palavras cruéis de Henry V ("I know thee not, old man: fall to thy prayers") quando advoga não temer a solidão, a loucura e a morte, já que tem a boa poesia para aquecê-lo e iluminá-lo. Quem gosta de poesia certamente tem algo a aprender com as conexões e sínteses apresentadas neste livro. Sua crítica é pessoal, apaixonada, mercurial até; para ele não há distinção entre literatura e vida; nenhum livro pode ser verdadeiramente terminado (nem quando os escrevemos nem quando os lemos), porque o certo é sempre continuarmos buscando as bênçãos de mais e mais vida, e tempo, para ler os bons livros. Há algo de nobre nesta ambição (todavia Charlus e Falstaff também eram nobres). 
[início: 23.11.2013 - fim: 17.12. 2013]
"A anatomia da influência: Literatura como modo de vida", Harold Bloom, tradução de Ivo Korytowski e Renata Telles, Rio de Janeiro: editora Objetiva, 1a. edição (2013), brochura 16x23 cm., 458 págs., ISBN: 978-85-390-0541-3 [edição original: "The anatomy of Influence" (New Haven/Connecticut: Yale University Press) 2011]
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Balanço final [31.12.2013]
Como fazer uma síntese de um ano tão amalucado quanto 2013? Para um morador de Santa Maria e professor da UFSM como eu esse ano sempre ficará marcado como aquele no qual 250 pessoas muitos jovens morreram num incêndio, mas ao mesmo tempo o ano no qual estas mortes foram usadas das formas mais sórdidas e canalhas por jornalistas, advogados e políticos, dentre muitos outros trapaceiros (algo muito comum num país tão ridículo como o Brasil). Esse foi o ano em que os brasileiros provaram que são mesmo apenas massa de manobra de grupos políticos e econômicos, que esquecem e perdoam com uma facilidade absurda, e que são incapazes de se livrar de manipuladores e mentirosos, por mais óbvio que seja a manipulação e a mentira. Esse foi o ano em que só mesmo os abúlicos e os néscios não se deram conta dos roubos que foram cometidos para viabilizar a realização da copa do mundo de futebol do ano que vem e dos jogos olimpícos de 2016 (só mesmo num país ridículo como o Brasil uma fração tão grande da população se orgulha em ser roubada, algo quase inacreditável, mas estamos aqui, no país onde se elogia e se incentiva a estupidez, a ineficiência e a loucura). Paciência. Vamos deixar essa realidade de lado e inventar outra (como Isak Dinesen nos ensinou). Doña Natália terminou seu segundo ano de psicologia e continua entusiasmada. Doña Helga se envolveu em muitos projetos interessantes e levou sua boa arte por aí. Aachnald Severinovich continua capitaneando as cousas em São Bernardo, com sua valente doña Vic o auxiliando (ou seria o contrário, não seria ela a capitã de longo curso e ele o leal auxiliar nas aventuras desta vida?, nunca saberemos). Os gatos continuam generosos conosco: Salen, Lilica, Nihan, Kyo e Leon são mesmo divertidos e carinhosos. Seguro que tratei mal os amigos este ano, com minhas ausências e costumeiras rabugices. Preciso acertar as cousas com Cristina, Jesus, Manolo, Toninho, Frank, Luísa, LOTS, Cohen, Valdo, Melo, Ernani, Tondo, Fazzio e tantos outros amigos queridos. Organizei o vigésimo Bloomsday em Santa Maria, mas talvez seja o caso de melhorar a organização das futuras edições. Deixei muitos livros pelo caminho. Preciso terminar o Laurence Sterne, o ensaio sobre o Javier Marías, o Milton, os gregos, o Singer, o Cervantes, vários didáticos e de divulgação científica. Atrasei mais do que usualmente, mas consegui fazer o registro dos 103 livros que li nesse ano. Foram 25 romances; 13 de crônicas e ensaios; 13 de contos; 10 de histórias em quadrinhos, graphic novels, cartuns ou mangás; 8 de poesia; 8 de perfis, memórias e relatos; 6 infanto-juvenis; 4 romances policiais; 4 de gastronomia; 3 novelas; 2 peças de teatro; 2 livros de arte; 2 de cartas; 1 catálogo de exposição e 1 de divulgação científica. Acho que fui um tanto mais eclético nesse ano, li coisas mais variadas, abandonei projetos antes que começassem a me irritar definitivamente, fiz os desvios para melhorar o humor, li minha cota de espanhóis, deixei os livros me encontrarem. O que será de 2014? O que será deste velho e cansado Guina?  Logo veremos. =========================================

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

lucian freud: corpos e rostos, gravuras, pinturas e fotografias

Nas curtas férias de inverno, em meados de agosto, fiquei uns bons dias na São Paulo dos Campos de Piratininga que eu amo e que me envisga. Tive a boa sorte de conseguir participar do décimo "Hora H", evento que comemora e rememora a obra de Haroldo de Campos e inventei outros passeios e delícias sem fim, como sempre, "drowning in honey, stingless", todavia fiquei algo aborrecido logo ao chegar à exposição de Lucian Freud no MASP. O erro maior foi meu, de minha própria ansiedade, que fez-me acreditar que veria de perto uma vez mais quadros a óleo de Lucian Freud (aqueles que rivalizam com as maravilhas que produziu Francis Bacon, sempre meu favorito). Talvez eu devesse ter lido com mais cuidado o material de divulgação da exposição, mas esqueci-me disso. O que me incomodou foi que a exposição, apesar de ser muito boa, incluía apenas cinco ou seis telas que estavam distribuídos dentre num mar de águas-fortes (quarenta e quatro delas) e fotografias (talvez trinta, em grandes formatos, impressas pelo processo C-type). Claro, eu gosto muito de gravuras (by the way minha querida Helga é gravadora e foi ela quem ensinou-me a potência que se extraí da madeira, da pedra, do linóleo e do metal), mas eu queria mesmo é ver uma vez mais (e de perto) as pinturas de Lucian Freud. Paciência. Passado o aborrecimento inicial, a exposição acabou me conquistando. Os trabalhos em exposição percorriam os anos iniciais de sua produção (1947/1948) e alguns seus últimos trabalhos (2005/2006). Assisti um documentário de uns trinta minutos que oferecia uma mostra de como era seu método de trabalho (e também dava uma mostra de seu humor mordaz e de seu olhar quase etéreo). As fotografias de David Dawson, modelo e assistente de Freud por alguns anos, reproduzem também algo do dia a dia do artista, que era conhecido pelas longas sessões de trabalho com os modelos e o longo tempo que levava para decidir como finalizados seus quadros. O catálogo da exposição, que li com calma nestes meses últimos meses, é bastante completo. Trata-se de uma edição bilíngue, com textos relativamente curtos de Beatriz Pimenta Camargo (diretora-presidente do MASP); Teixeira Coelho (curador do MASP); Marc Balakjian (o mestre impressor das gravuras produzidas por Freud); Sally Clarke (uma de suas modelos); Craig Hartley (um especialista em gravura, autor do catálogo Raisonné de Freud) e David Dawson (fotógrafo, modelo e assistente de Freud). Esses textos ocupam metade do catálogo. A outra metade incluí todas as reproduções das gravuras, fotografias e pinturas da exposição. Boa parte das gravuras vieram da Fundación Museos Nacionales e do Museo de Arte Contemporáneo (ambos de Caracas, Venezuela), além dos acervos do Arts Council, do British Council e de coleções privadas inglesas. Já as pinturas foram emprestadas por coleções públicas inglesas. Nunca um catálogo substitui a experiência estética de ver uma exposição, mas esse em especial dá um boa idéia do que foi oferecido nela. E para quem tem paciência para uma exposição digital, muitos dos potentes óleos de Lucian Freud podem ser visto no The Athenaeum Artworks. Bom divertimento. Evoé.
[início: 10.08.2013 - fim: 29.12.2013]
"Lucian Freud, corpos e rostos: gravuras e pinturas com fotografias de Lucian Freud por David Dawson / Lucian Freud, portraits and figures: etchings and paintings with photographs of the artist by David Dawson", David Dawson (fotografias), Richard Riley e Delphine Allier (curadores), Teixeira Coelho (colaborador), tradução de Ana Goldberger, São Paulo: Comunique Artes editorial, 1a. edição (2013), capa-dura 21,5x28,5 cm., 142 págs., ISBN: 978-85-89496-23-0

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

cozinha judaica de maria

Comecei a ler este belo livro no início da festival das luzes deste ano, na Chanuká, no final de novembro. Segui a leitura, com suas histórias e receitas por dias a fio, mas não consegui terminar no 05 de novembro, quando os derradeiros braços das Chanukiás mundo afora foram acesas, por conta da correria típica deste mês onde os dias terminam, mas as aulas não. São vinte e uma histórias de vinte e uma famílias judaicas que de alguma forma tiveram como cozinheiras vinte e uma mulheres oriundas de famílias simples e não judaicas, mas que se tornaram senhoras das tradições culinárias e até religiosas das famílias que as receberam. São histórias cheias de sentimento, de emoção, onde as "Marias" (como os autores preferem chamar estas cozinheiras - que é como prefiro chamá-las para tornar um tanto mais precisa a descrição) dão relatos de como e de quem receberam os ensinamentos das receitas utilizadas em cada festa religiosa dos anos judaicos e de como estes ensinamentos se incorporaram na vida de cada uma delas. O projeto foi idealizado por Léo Steinbruch e a coordenação dele foi capitaneada por Viviane Lessa. A idéia de Steinbruch é interessante pois ao mesmo tempo em que conta a historia de algumas famílias judaicas que emigraram para o Brasil (e os vinte e um registros percorrem vários estados brasileiros, notadamente São Paulo, Bahia, Pará e Minas Gerais) dá conta também das origens e histórias das cozinheiras e de suas famílias, narrativas incríveis elas mesmas.  Trata-se de qualquer forma de um livro de imagens (as fotografias são belíssimas), e sobretudo de um livro de receitas. Os pratos que tipicamente são produzidos nas festas religiosas judaicas (Yom Kippur, Pessach, Shabat, Rosh Hashaná, Chanuká, Sukoth, Shavuoth, Purim, dentre outras) são descritos pelas cozinheiras, da forma como aprenderam e/ou adaptaram a partir dos ensinamentos das avós, mães e irmãs das pessoas que as empregaram. Os nomes dos pratos e a forma de prepará-los, a diferença entre as tradições Ashkenaze e Sepharade, sobretudo na culinária, são discutidos com bom humor no livro, já que é impossível elas concordarem sobre quem faz mesmo o melhor "gefilte fish", "cholent", "kugel", "borsche". "Cozinha judaica de Maria" é um livro para ler com calma, para folhear em dias vagabundos, experimentar na cozinha, apreciar plenamente, como quem recebe um presente (de pessoas que não conhece, mas que fazem a cada um de nós um grande bem). Mazel tov! ["B'hatzlacha" (בהצלחה)]
[início: 27.11.2013 - fim: 24.12.2013]
"Cozinha judaica de Maria", Viviane Lessa e Léo Steinbruch, imagens de Chris Ceneviva, São Paulo: Alaúde editorial, 2a. edição (2012), capa-dura 31x22 cm., 248 págs., ISBN: 978-85-7881-123-5

sábado, 21 de dezembro de 2013

um elefante em albany street

Este é o octingentésimo registro de minhas leituras neste blog, registros iniciados em janeiro de 2007. Com ele quero homenagear um grande sujeito, o amigo Luiz-Olyntho Telles da Silva, um artífice de idéias, realizações e amizades, que fez 70 anos há dez meses, num glorioso 21 de fevereiro, numa gloriosa festa que tive o privilégio de participar. Talvez fosse por isso apenas que este registro em particular seja muito caro a mim. Mas penso que há outros motivos para que ele seja assim apresentado. Afinal ele foi adiado por tanto tempo, trata-se um livro tão especial e representa uma forma de entender outros livros, aqueles que todos lemos e tentamos decifrar, que compartilho com Luiz-Olyntho, pois há um justo equilíbrio entre critério e emoção. Li os ensaios reunidos em "Um elfante em Albany street" ainda em janeiro deste conturbado ano, mas como queria usar a publicação da resenha como propaganda de seu lançamento aqui em Santa Maria, adiei diversas vezes sua escritura. Infelizmente, a cada camada de atrasos nos planos que don Robson Gonçalves e eu tínhamos para viabilizar a vinda de Luiz-Olyntho para cá, como pretendíamos, aos aborrecimentos que justificaram os adiamentos somou-se a certeza que o ele e seu livro mereciam uma divulgação mais digna. Os livros se defendem sozinhos, claro, mas os exegetas (mesmo este menor dos anões dentre eles, como eu) podem ao menos fazer com que um determinado círculo de leitores os encontrem. Em "Um elefante em Albany street" estão reunidos dezoito ensaios que são frutos de um ciclo de palestras proferidas em Porto Alegre ao longo de 2010 chamado "Janelas para o mundo". Alguns são longos e detalhados, mas a maioria é de textos relativamente curtos, que se prestam a uma apresentação em público seguida de debates e/ou reflexões improvisadas. São textos ambiciosos, no sentido que almejam trazer ao leitor maior compreensão sobre coisas difíceis, mas o autor nunca se sobrepõe aos textos originais que critica e resenha. Os autores que Luiz-Olyntho escolheu apresentar compõe um panorama bastante eclético. Encontramos Homero e Eurípides; Beckett e Joyce; Machado de Assis e Chesterton; Vargas Llosa e Érico Veríssimo; Ferenc Molnár e Enrique Vila-Matas, Garcia-Roza e Cristovão Tezza, dentre outros. Os gêneros também são variados. A maioria dos ensaios discute romances, mas também há livros de poesia, de contos, teatro e épicos. Em todos encontramos muitas citações e indicações de leitura que estimulam a imaginação do leitor quando somados aos temas discutidos nos livros que ele analisa. Talvez um ou outro texto peque por um exagerado acúmulo de detalhes ou mesmo excesso de citações, mas a maioria deles são mesmo um deleite para os sentidos, para os leitores. O texto final, dedicado ao Ulysses é uma pequena jóia, que todo leitor de Joyce saberá apreciar. E então don Robson, vamos ou não vamos convencer don Luiz-Olyntho a vir à Santa Maria relançar este belo livro? Evoé.
[início: 13.01.2013 - 27.01.2013]
"Um elefante em Albany Street: A arte da descrição discreta", Luiz-Olyntho Telles da Silva, Porto Alegre: HCE editora, 1a. edição (2012), brochura 16x23 cm., 240 págs., ISBN: 978-85-65026-03-1

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

el asedio

Publicado em 2010, "El asedio" é um romance ambicioso que reúne várias tramas, uma ficção policial ambientada no início do século XIX que deve muito a fatos históricos e personagens reais. A narrativa acontece durante o cerco de Cádiz, na Andaluzia, numa operação militar dos tempos das guerras napoleônicas. Pérez-Reverte alterna, como num jogo de xadrez, os movimentos de um diligente investigador espanhol (que procura descobrir a identidade de um assassino) e um eficiente artilheiro francês (que tenta provocar o maior dano possível à cidade com as bombas que lança sobre a cidade). Além destes dois protagonistas uma legião de personagens secundários povoam o livro. O leitor acompanha os passos do assassino, as conversas em cafés entre o investigador e um velho professor, o relacionamento impossível entre um jovem capitão com patente de corso e a herdeira de uma importante casa comercial da cidade. Pérez-Reverte usa seu livro para falar do passado (principalmente sobre "La Pepa", a constituição espanhola de 1812 que foi discutida e promulgada em Cádiz e é um dos primeiros documentos constitucionais democráticos e/ou liberais do mundo) mas claro, tem os olhos no presente, pois descreve características perenes da complexa e intrinsecamente contraditória sociedade espanhola contemporânea (ele fala de coisas como a tediosa burocracia, o orgulho nacional, a aristocracia sempre corrupta, o papel perverso da igreja, o mosaico cultural da península ibérica). Seu livro leva o leitor por assuntos diferentes: há algo sobre espionagem, balística, marinharia, política, religião, arquitetura, geografia, tortura, história, teoria dos jogos, probabilidades e xadrez, mas o resultado é bom. Há dois bons vídeos no youtube onde Pérez-Reverte fala sobre seu livro e suas motivações (um curto e outro bem mais longo, onde ele interage com seus leitores). Vale a pena assisti-los (e ler o livro, claro). Em tempo: Quinze dias atrás Amanda, amiga querida, esteve em Cádiz num congresso e vagou por aquele labirinto, viu de perto os laranjais ao sol, sentiu o vento salgado que vem do mar. Ah, Amanda, que beleza tudo aquilo, não é mesmo?
[início: 05/11/2013 - fim: 10/12/2013]
"El asedio", Arturo Pérez-Reverte, Madrid: Alfaguara (Santillana Ediciones Generales), 1a. edição (2010), brochura 15x24 cm., 727 págs., ISBN: 978-84-204-0555-1

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

fugitiva

Sobre o encantamento que experimentei ao ler contos de Alice Munro pela primeira vez já registrei aqui, ao falar sobre "Felicidade demais". Tentarei desta vez não adjetivar muito essa curiosa (ops!) escritora. Javier Marías já nos ensinou que é a boa literatura que explica um povo e uma época (e não os documentários, os romances históricos, os filmes documentais, o realismo forçado da literatura ruim). Há uma crônica recente dele onde este argumento é apresentado. Alice Munro alcança apresentar ao leitor, claramente, sem retórica vazia ou malabarismos mentais, toda uma sociologia (de seus contemporâneos e de sua época) em poucos parágrafos. "Fugitiva" é a exemplo de "Felicidade demais" surpreendente e bom. São oito contos longos. Em todos são mulheres as protagonistas das narrativas. O controle do fluxo do tempo em suas histórias é total. Munro o acelera ou quase o congela, dependendo do efeito que espera ou precisa provocar no leitor. Há temas que se repetem: o estranhamento, a loucura silenciosa, os conflitos familiares, a velhice, o desdém discreto pela vida acadêmica, o acaso da vida e das escolhas. Três das histórias tratam de uma mesma mulher, mas se a cada vez ela desse nomes diferentes para os personagens, talvez não os associaríamos tão facilmente entre si. A estrutura destas três histórias lembra aquele conceito caro à Robert Graves, o da trindade das deusas (e das mulheres), no qual a deusa assume em fases distintas os aspectos de ninfa, mãe e anciã, subsequente e cumulativamente. Uma das histórias começa como um diário, algo secreto, pessoal, intransferível, mas depois passa a uma estrutura de tópicos, como num ensaio, como se estivéssemos (sim, nós, os leitores) assumindo o controle do diário de uma pessoa e o interpretando. Muito curioso. Nestes oito contos, bem mais que nos dez de "Felicidade demais", são quase palpáveis a violência ou antes, a crueldade, que homens e mulheres sabem viver e trocar entre si. O que ela nos oferece em suas narrativas é ouro fino. Haverá mais coisas dela por aqui, seguro que sim.
[início: 29/10/2013 - fim: 30/11/2013]
"Fugitiva", Alice Munro, tradução de Sérgio Flaksman, São Paulo: editora Companhia das Letras, 1a. edição (2006), brochura 14x21 cm., 385 págs., ISBN: 978-85-359-0855-2 [edição original: Runaway (Toronto: McClelland & Stewart - Randon House) 2004]

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

a james joyce chronology

Comecei esse livro perto do Bloomsday deste ano, em junho, mas acho que nunca vou parar de consultá-lo. Trata-se exatamente do que o título promete, uma cronologia da vida de James Joyce. Nele podemos verificar rapidamente o que fazia Joyce em cada ano, mês e dia de sua vida, ou seja, trata-se de um guia imprescindível para os obsessivos joycemaníacos deste mundo, interessados naqueles detalhes bobos que sustentam horas de conversa sobre ele e sua obra. A cronologia obviamente começa no 2 de fevereiro de 1882, data de nascimento de Joyce, e se estende até o 15 de janeiro de 1941, dia em que Joyce foi enterrado (no Fluntern, em Zürich). O livro incluí também uma tabela de equivalentes monetários entre o período da vida de Jocye e os dias de hoje (que ajuda muito a entender o quão Joyce era incorrigivelmente perdulário); quadros sinóticos sobre a estrutura de dois de seus livros (Dublinenses e Ulysses); curtos resumos biográficos de escritores, jornalistas, políticos, atores e personalidades que por alguma razão são citados na cronologia; uma enorme e completa bibliografia (que corresponde ao que existia até a data de publicação do livro, 2004) e uma curta apresentação assinada pelo autor. O material reunido é muito interessante. Ficamos sabendo que num 02 de novembro, por exemplo, Joyce leu uma versão da passagem conhecida como Anna Livia Plurabelle para um grupo de 25 amigos (em 1927), ou que escreveu um carta agradecendo Michael Healy o dinheiro que este lhe enviara (em 1915), ou ainda que deu a sua mulher, Nora, um par de luvas, para lembrar-lhe dos cinco anos que haviam se passado desde que se conheceram (em 1909); ou que escreveu neste dia a Padraic Colum sobre a saúde de sua filha, Lucia, e que esqueceu em um táxi um manuscrito que deveria ter sido publicado na revista Transition (em 1931). É portanto um livro para consultas rápidas; para verificar onde Joyce morou em cada dia de sua vida; verificar o processo de produção e publicação de cada uma de suas obras; para saber detalhes sobre sua saúde; acompanhar os acontecimentos de sua família; enfim, para que possamos evitar erros bobos (e se furtar de enganos enraizados ou propositais) que todos podemos cometer ao citar fatos de sua vida. Que livro! Em tempo: Na falta deste livro um leitor curioso pode conseguir alguma informações similares no The Modern World ou no James Joyce Centre.
[início: 11/06/2013 - fim: 01/12/2013]
"A James Joyce Chronology", Roger Norburn, New York: Palgrave Mcmillan (Author Chronologies Series, editado por Norman Page), 1a. edição (2004), capa-dura, 14,5x22,5 cm., 230 págs., ISBN: 1-4039-1283-3

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

digam a satã que o recado foi entendido

Pode ser que alguém ainda fique impressionado ao ler sobre sujeitos amalucados, trapaceiros e drogaditos, bebedeiras e traficantes, idiotas ligados a seitas religiosas, viciados em games e escatologia, mas definitivamente eu não consigo. Claro, eu sou um velho e cansado senhor, que já experimentou sua cota de literatura auto indulgente nesta vida, mas já se cansou destes malabaristas do verbo, simples assim. "Digam a satã que o recado foi entendido" é bem escrito, tem um par de bons diálogos e arrisca alguns experimentalismos interessantes, mas seus personagens e sobretudo os rasos dilemas existenciais que eles vivem são um porre só. O leitor precisa ser muito condescendente para continuar após as páginas iniciais e chegar ao fim do livro (que é pequeno afinal de contas). Nem vou me dar ao trabalho de descrever as tramas da narrativa e falar sobre o protagonista da história, Magnus Fortes, um sujeito que organiza roteiros turísticos alternativos em Dublin com a ajuda de dois amigos. Talvez seja o caso de esquecer de vez este livro bizarro. Nunca havia lido nada de Daniel Pellizzari, sobre quem tinha boas referências. Paciência. Talvez este livro seja apenas um desvio irrelevante de uma produção melhor, talvez, um dia veremos.
[início: 02/08/2013 - fim: 19/10/2013]
"Digam a satã que o recado foi entendido", Daniel Pellizzari, São Paulo: editora Companhia das Letras (coleção Amores Expressos), 1a. edição (2013), brochura 14x21 cm., 178 págs., ISBN: 978-85-359-2289-9

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

o homem que fumava dois cigarros de uma só vez

A equação que Celso Dias apresenta nesses treze contos parece sempre ser simples. Ele parece falar de coisas que conhece bem, coisas de seu ofício e experiência, ou parece se valer de memórias da infância e/ou juventude que experimentam bem a metamorfose para a ficção, pois geram narrativas realmente boas, curiosamente boas. São histórias curtas, histórias de gente jovem, que testa os limites do mundo; histórias de gente mais velha, que apenas suporta os aborrecimentos da decrepitude; histórias de gente  madura (ou com saudades da juventude ou, pior ainda, temerosa da velhice), sujeitos que vivem suas pequenas tragédias pessoais com assombro, nunca com estoicismo. Na falta de bom humor o leitor encontra alívio na fina ironia que habita cada uma delas, já que o narrador de Celso sempre é duro, quase cruel, e nunca se deixa contaminar pelo desejo fácil de encontrar um final feliz para seus personagens. Esse narrador não faz juízos de valor, não condena os fracos, nem exalta os virtuosos, apenas descreve os pequenos recortes de suas vidas, vidas de gente que sofre e ama, que chora e ri. Bom livro, que encontrei por puro acaso na última feira do livro de Porto Alegre. Há dias em que mesmo uma musa ausente se lembra de soprar novidades nos ouvidos deste velho e cansado amigo dos livros. Cousa boa.
[início: 09/11/2013 - fim: 27/11/2013]
"O homem que fumava dois cigarros de uma só vez", Celso Dias, Porto Alegre: editora Pradense, 1a. edição (2013), brochura 14x21 cm., 75 págs., ISBN: 978-85-8294-004-4

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

tudo o que você não queria saber sobre sexo

Mírian Goldenberg é uma respeitada antropóloga, professora de um programa de pós-graduação no Rio de Janeiro e também escritora prolífica. Ela reuniu parte do material que utilizou em vinte anos de pesquisas acadêmicas e convidou o cartunista Adão Iturrusgarai para participar de um projeto de divulgação dos resultados que obteve. Seu interesse nas pesquisas (qualitativas e quantitativas) e entrevistas que fez é bem diversificado. Elas tratam de casamento, família, sexualidade, relacionamentos, infidelidade, representações de gênero, desejo, inveja, medo, enfim, quase tudo que afeta homens e mulheres na cultura brasileira. Como a maioria dos brasileiros é incapaz de entender até o mais simples gráfico, tabela ou ilação decorrente da análise de dados, os resultados são apresentados em listas e ilustrações bem humoradas. A designer que produziu o livro (Tita Nigrí) propositadamente fez uso de uma dezena de tipos diferentes, distintos tamanhos e cores de letras, além de vários truques gráficos que buscam realçar os dados brutos que Míriam apurou em suas pesquisas. Com isso o livro fica graficamente poluído (talvez poluído demais), mas provavelmente este seja o único modo de fazer com que as informações mais importantes fossem ainda que marginalmente entendidas. O livro também propõe jogos, onde o leitor é convidado a interagir, escrever sobre seus defeitos e virtudes (e eventualmente compará-los com as médias obtidas nas pesquisas), além de responder questões e completar sentenças. A chave do livro é o humor, claro. As ilustrações e cartuns de Adão fazem contraponto a frieza dos dados da pesquisa (por mais edulcorados que estejam pelo trabalho gráfico da designer). A eficiência dos cartuns de Adão é impressionante (o sujeito sabe apresentar conceitos e sintetizar idéias como poucos). É um livro interessante, mas obviamente trata tudo com demasiada superficialidade. Não é também um livro para ser lido de capa a capa. Eventualmente, ao ser ser folheado aleatoriamente, possamos pinçar uma informação qualquer, para refletirmos sobre ela e seguirmos dali. Talvez fosse o caso da edição incluir ao menos uma pequena bibliografia para que o leitor curioso sobre os temas do livro procure informações adicionais. De qualquer forma com ele aprendemos algo sobre nos mesmos, ai de nós, brasileiros destes tempos tão amalucados. E vamos em frente.
[início: 08/11/2013 - 21/11/2013]
"Tudo o que você não queria saber sobre sexo", Mirian Goldenberg e Adão Iturrusgarai, Rio de Janeiro: editora Record, 1a. edição (2012), brochura 18,5x21 cm., 240 págs., ISBN: 978-85-01-09586-2

terça-feira, 26 de novembro de 2013

a lenda do santo beberrão

Joseph Roth nos conta em "A lenda do santo beberrão" uma fábula, uma espécie de conto de fadas, no qual acompanhamos os últimos dias de Andreas, um imigrante polonês que vaga pelas ruas de Paris, intoxicado por dores e bebida, num transe alcoólico e religioso. Uma sucessão de pequenos milagres o faz encontrar algum dinheiro e ver esse dinheiro multiplicar-se, o que possibilita que ele alterne nestes dias experiências aparentemente felizes (boas refeições e bebedeiras, comprar roupas novas, ir ao cinema, reencontrar amigos e uma ex-namorada) e duras decepções (a consciência de sua ruína, a lembrança dos seus anos na prisão, a culpa pela morte de um amigo). A promessa de doar uma certa quantidade de dinheiro para uma santa, numa igreja da periferia, é a única coisa que anima seus dias, o faz seguir adiante. A promessa foi feita a um sujeito que lhe dá uns poucos francos no início da história, mas esse sujeito pode ser o próprio diabo, a divertir-se em fazer Andreas experimentar uma última cota de tentações. A felicidade humana não foi incluída no desenho da criação (é o que Joseph Roth parece querer nos fazer lembrar). Bom livro, que foi publicado postumamente, em 1939.
[início: 13/11/2013 - fim: 20/11/2013]
"A lenda do santo beberrão", Joseph Roth, tradução de Mário Frungillo, editora Estação Liberdade, 1a. edição (2013), brochura 14x21 cm., 77 págs., ISBN: 978-85-7448-228-6 [edição original: Die Legende vom heiligen Trinker (Amsterdam: Albert de Lande) 1939]

sábado, 23 de novembro de 2013

osmose

A ambição que gerou esse livro era aparentemente simples: oferecer a seis cartunistas (três brasileiros e três alemães) uma residência artística de quatro semanas em uma cidade que eles não conhecessem para, posteriormente, cobrar deles um registro desta experiência na forma da produção de uma história em quadrinhos. A idéia original deste projeto foi de Reinhard Sauer, diretor do Instituto Goethe de Porto Alegre; a produção executiva do projeto ficou a cargo de José Aguiar, também ele um conhecido autor de quadrinhos, e a curadoria do projeto (que envolveu manter um blog com a documentação e o desenvolvimento das atividades de intercâmbio dos artistas) foi assinada por Augusto Paim. Experiências deste tipo não são incomuns. A busca por vivenciar e descrever quase imediatamente contrastes culturais, sociológicos e estéticos é algo que o homem faz deste sempre (desde que o primeiro aventureiro dentre os homo sapiens sapiens voltou a sua tribo para contar o que viu em um outro vale, em uma outra caverna). Talvez o que chame a atenção do projeto Osmose seja o gênero literário escolhido, já que nem sempre as narrativas em quadrinhos são tão bem acolhidas, como o foi, por uma instituição de difusão cultural tão poderosa como o Instituto Goethe. O resultado são seis relatos bem distintos. As propostas do alemão Mawil (que sai de Berlim para Porto Alegre) e da alemã Birgit Weyhe (que sai de Munique para São Paulo) são as mais interessantes do ponto de vista sociológico (para o meu entendimento das coisas). As propostas da alemã Aisha Franz (que sai de Berlim para Salvador), do brasileiro Amaral (que sai do Piauí para Hamburgo) e do brasileiro João Montanaro (que sai de São Paulo para Munique) as mais curiosas do ponto de vista plástico. A proposta da brasileira Paula Mastroberti (que sai de Porto Alegre para Berlim) é a mais ficcional, menos documental, é a mais parecida com uma graphic novel convencional. O roteiro delas é mais ou menos previsível. O sujeito sai de sua rotina e experimenta uma vida provisória, mas nenhum deles está em uma situação limite ou corre riscos, pois sabe de antemão que aquele mundo desaparecerá (como num conto de fadas) após um período de tempo que é pequeno demais para que o indivíduo realmente se transforme. As primeiras impressões podem ser válidas, corretas e acertadas, mas também podem apenas descrever superficialmente a cultura complexa e distinta que é encontrada. De qualquer forma, apesar da inerente fugacidade das primeiras impressões que eles teem das coisas que veem, trata-se de um livro divertido. Talvez seja o caso de acompanhar a produção plástica destes seis artistas. Quase esqueço de registrar que a edição é bilíngue, e muito bem acabada. E vamos em frente.
[início - fim: 08/11/2013]
"Osmose - Brasil e Alemanha em Quadrinhos / Osmose: Brasilien und Deutschland in Comics", Aisha Franz, Amaral, Birgit Weyhe, João Montanaro, Mawil, Paula Mastroberti, tradução de Luciana Dabdab Waquil e Ralf Krämer, Porto Alegre: editora Libretos (coordenação de Goethe-Institut Porto Alegre), 1a. edição (2013), capa-dura, 21x29 cm., 88 págs., ISBN: 978-85-88412-81-1

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

a filosofia da adúltera

De Luiz Felipe Pondé já havia lido "Contra um mundo melhor: Ensaios do afeto", livro marcadamente autobiográfico, interessante e poético na medida certa. Esse "A Filosofia da adúltera: Ensaios selvagens" é dedicado a reflexões sobre o pensamento de Nelson Rodrigues. Não se trata de uma análise crítica e/ou literária de toda a obra de Nelson, mas sim reflexões pontuais sobre o uso dramatúrgico da mulher adúltera em sua obra, bem como dos desdobramentos deste (digamos assim) arquétipo, na sociedade brasileira contemporânea. Pondé fala sobre democracia e  ciências sociais, sobre política e educação, sobre mídia e cultura, sobre feminismo e sexo. Enfim, seu livro se equilibra entre o jornalismo de costumes e a filosofia, usando a mulher adúltera como representação da condição humana, da escravidão mental, do tédio da repetição, da tristeza da mentira social. Trata-se de um livro pequeno, formado por capítulos curtos, que se não são aforísticos, ao menos tendem a clareza e a concisão. O livro inclui várias fotografias de mulheres em poses fetichistas, sensuais, típicas dos anos 1950 ou 1960, uma provocação explícita às convenções do mundo politicamente correto. Pondé pergunta menos do que afirma, do que responde. Ele não se preocupa em convencer ou justificar completamente para o leitor as suas verdades (ou as verdades que parece extrair dos livros de Nelson Rodrigues). De qualquer forma ele alcança fazer o leitor pensar sobre temas que por demasiado óbvios nos escapam na correria dos dias. Num país como o Brasil, onde praticamente ninguém pensa com independência, preferindo repetir mecanicamente idéias prontas dos outros (de políticos, jornalistas, professores, religiosos e outros farsantes) pessoas como Pondé são normalmente classificadas como politicamente incorretas, quando não achincalhadas com dureza. Não é o meu caso. Gosto de seu estilo. Ele não é hipócrita ou tenta seduzir o leitor com argumentos dúbios. Tampouco tem medo em nos lembrar que tudo o que está ou não institucionalizado no Brasil, das regras de conduta que aceitamos aos juízos de valor que praticamos, certamente irá se esgarçar, piorar, destruir-se até, e muito, muito mesmo, antes de melhorar. Diminuir um tanto o pântano em que vivemos deveria ser a ambição genuína dos jovens brasileiros, caso eles tivessem interesse em viver no futuro em um país menos patético, tosco e ridículo como o Brasil é hoje, mas, paciência, o desejo, até esse meu, é sempre triste.
[início: 16/11/13 - fim: 19/11/13]
"A filosofia da adúltera: Ensaios selvagens", Luiz Felipe Pondé, São Paulo: editora LeYa, 1a. edição (2013), brochura 16x22,5 cm., 190 págs., ISBN: 978-85-8044-862-7

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

o cerne da matéria

O prêmio Nobel de física de 2013 foi conferido conjuntamente a François Englert e Peter W. Higgs, pelo desenvolvimento teórico do mecanismo que explica a origem da massa das partículas sub-atômicas. A confirmação experimental deste mecanismo foi anunciada em meados de 2012, após a detecção de um bóson de Higgs (cuja energia é de aproximadamente 126 GeV) em experimentos realizados no Grande Colisor de Hádrons (LHC) do CERN (laboratório europeu de pesquisas nucleares). A explicação mais simples e didática que conheço para explicar o significado do campo de Higgs (e do bóson de Higgs) é uma idéia original de um sujeito chamado David J. Miller. "The Higgs Boson Explained", vídeo produzido no CERN também pode ajudar um neófito em ciências a entender a cousa. Mas a idéia aqui não é colecionar links sobre o bóson de Higgs, mas sim registrar a maravilha que é este pequeno livro, "O cerne da matéria", de Rogério Rosenfeld, professor do Instituto de Física Teórica (da UNESP). Rogério passou um ano sabático no CERN, exatamente no período de funcionamento do LHC onde foram feitas as primeiras coletas de dados experimentais que resultaram na observação de um bóson de Higgs. Com o entusiasmo daqueles cientistas que percebem estarem perto de uma grande descoberta ele participou de seminários, palestras e reuniões onde anúncios dos resultados preliminares obtidos eram divulgados. E também estava lá no seminário do dia 4 de julho de 2012, quando foi feito o anúncio oficial da descoberta há tanto esperada. "O cerne da matéria" é um livro realmente bom pois alcança apresentar rapidamente, mas com correção, tanto o básico da teoria da física de partículas elementares quanto a engenharia do processo de construção dos aceleradores de partículas. Rogério consegue juntar admiravelmente bem muitas informações, de diferentes áreas da física e da história da ciência, da história do CERN e dos outros grandes aceleradores de partículas já construídos, da biografia de dezenas de cientistas envolvidos na grande aventura que ele quer descrever. Os capítulos curtos, focados em temas específicos, ajudam o leitor a acompanhar suas reflexões. A sorte de repórter iniciante (ou o tino de cientista bem preparado) o ajudou, pois por acaso ficou hospedado num apartamento cujo proprietário foi o primeiro dos jornalistas dedicados a atividades de relações públicas no CERN, Roger Anthoine, que deve ter ajudado Rogério a entender as implicações políticas dos primeiros anos de construção do laboratório. Ele faz no livro menção às contribuições brasileiras na física de partículas; inclui boas (e atualizadas) notas de referência; um bom número de ilustrações e suas idéias sobre os caminhos que a física de partículas poderá seguir a partir da comprovação experimental do bóson de Higgs. Fiquei realmente impressionado com a qualidade deste livro. Acho que no ano que vem ninguém tira o prêmio Jabuti de Ciências Exatas do Rogério. Evoé Rogério. Evoé!
[início: 12/11/13 - fim: 14/11/13]
"O Cerne da matéria: A aventura científica que levou à descoberta do Bóson de Higgs", Rogério Rosenfeld, São Paulo: editora Companhia das Letras, 1a. edição (2013), brochura 14x21 cm., 212 págs., ISBN: 978-85-359-2346-9

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

o gato e o diabo

Em 2012 toda a obra de James Joyce tornou-se de domínio público. Centenas de trabalhos (traduções dos livros, além de montagens teatrais, adaptações cinematográficas, exposições de artes plásticas) inspirados em Joyce foram publicados. "O gato e o diabo", carta que Joyce escreveu a seu neto Stephen, originalmente publicado em 1936, ganhou recentemente sua terceira edição brasileira. A primeira foi publicada em 1980, em tradução de Antônio Houaiss e com ilustrações de Roger Blanchon. A segunda edição foi publicada no início de 2013 pela Cosac Naify (a tradução é assinada por Lygia Bojunga, com ilustrações de Lelis - Marcelo Eduardo Lelis de Oliveira - ilustrador e quadrinista mineiro). E esta terceira edição tem tradução assinada por Dirce Waltrick do Amarante (que também traduziu "Os gatos de Copenhagem"), com ilustrações de Michaella Pivetti. Dentre as duas últimas, publicadas neste 2013, gostei mais das soluções de Lélis, mas esta é opinião de um velho, cansado e aborrecido senhor. Talvez o público alvo destes livros - o público infanto-juvenil - pense de outra forma. E viva Joyce! Evoé!
[início - fim: 28/10/2013]
"O gato e o Diabo", James Joyce, tradução de Dirce Waltrick do Amarante, ilustrações de Michaella Pivetti,  São Paulo: editora Iluminuras (selo Livros da Ilha), 1a. edição (2013), brochura 21,5x23 cm., 32 págs., ISBN: 978-85-7321-418-5 [edição original: The Cat and the Devil (Letters of James Joyce, edited by Stuart Gilbert) London: Faber and Faber, 1957]

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

os mortos

Foi por puro deleite que resolvi reler essas histórias. Também achei que voltar a elas seria o jeito correto para homenagear o industrioso don Caetano Waldrigues  Galindo, que ganhou o Prêmio Jabuti semanas atrás por seu monumental trabalho de traduzir o Ulysses de James Joyce. Evoé Galindo, Evoé. São três mimos, três jóias. Duas delas são contos, extraídos do Dublinenses, a outra é o capítulo final do Ulysses, o monólogo de Molly Bloom, uma das partes mais lidas e interessantes do livro (que de resto sempre é incrivelmente interessante). "Os mortos" está além das descrições possíveis. É um conto tão poderoso, uma história que quase sempre provoca no leitor associações e experiências que vão do encantamento a raiva, da felicidade ao medo, que não há porque furtar-se de relê-lo sempre que possível. "Arábias" é menos intimista, mas talvez seja ainda mais cruel, já que faz qualquer leitor lembrar-se de suas aventuras da infância e juventude, dos aborrecimentos e das felicidades mirradas que conseguimos extrair de um mundo sempre cruel e enganador. O "Monólogo de Molly Bloom", extraído do Ulysses, parece ter vida própria. São oito partes que progressivamente transportam o leitor para o mundo dos pensamentos e lembranças de Molly Bloom, naquela madrugada do 17 de junho de 1904, que conhecemos logo após os sucessos de Poldy em seu primeiro e seminal Bloomsday. Ah Galindo, obrigado mesmo. Sempre sim ao Joyce, sempre sim ao Ulysses. Sim.
[início: 18/10/2013 - fim: 29/10/2013]
"Os mortos", James Joyce, tradução de Caetano W. Galindo, São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras (coleção Grandes Amores), 1a. edição (2013), brochura 13x20 cm., 135 págs., ISBN: 978-85-63560-63-6 [edição original: Dubliners (London: Grant Richards) 1914 e Ulysses (Paris: Shakespeare and Company) 1922]

terça-feira, 29 de outubro de 2013

minha vida ridícula

Adão Iturrusgarai é um dos cartunistas (e quadrinista e chargista) mais criativos de sua geração (que vou definir como aqueles que nasceram na segunda metade do século passado, mas antes da queda do Muro de Berlim, simples assim). Ele é o inventor dos caubóis gays "Rock e Hudson" (personagens que foram criados bem antes do filme "The secret of Brokeback Mountain"); da garota Aline e seus dois namorados, Otto e Pedro (cujas histórias já foram adaptadas para a televisão); do Homem-Legenda (um super herói caçador de hipócritas) e tantos outros (há um bocado de diversão no site dele: "o mundo maravilhoso de adão iturrusgarai". Seguramente é dos mais debochados cartunistas que conheço. Não há assunto, tema ou grupo que escape de seus comentários sarcásticos. Lembro dele como uma espécie de penetra (ou mascote) no mundo bizarro dos cartunistas um tanto mais velhos que ele: Angeli, Laerte e Glauco, mas já se via que o sujeito tinha mesmo talento (e, de qualquer forma, Angeli, Laerte e Glauco jamais foram condescendente com ninguém, muito menos apadrinhadores de puxa-sacos). Recentemente precisei enviar coisas do Adão para um amigo espanhol (que descobri ser um entusiasta de seu trabalho - "JMG, sus libros pronto serán enviados a Madrid!") e resolvi aproveitar para ler os volumes também. São histórias autobiográficas, marca registrada dele, mas nada que deixe a vaidade contaminar os registros curiosos da vida contemporânea que faz (Adrian Tomine também é um sujeito que escreve histórias autobiográficas e, a exemplo de Adão, faz sociologia selvagem da sociedade, mas há muito menos humor e escracho em Tomine que nos quadrinhos do Adão). Ele incluiu também neste volume contribuições de amigos cartunistas (Eloar Guazzelli, Fido Nesti, Caco Galhardo, Allan Sieber, Otto Guerra, Estevan Santos, Arnaldo Branco, Zed Nesti, Gustavo Sala, André Dahmer, Rafael Coutinho e Benett), explora as possibilidades de produzir tiras em parceria com sua mulher (emulando algo que Robert Crumb já fez) e acrescenta até um punhado de fotos. Interessante. Atrevido, Adão termina o livro dizendo: "Sexo limpo e arte responsável não servem para nada". É mesmo rápido esse sujeito. Vou escrever mais sobre ele.
[início - fim: 27/10/2013]
"Momentos brilhantes da minha vida ridícula", Adão Iturrusgarai, Campinas (São Paulo): Zarabatana Books, 1a. edição (2012), brochura 21x28 cm., 63 págs., ISBN: 978-85-60090-44-0

domingo, 27 de outubro de 2013

felicidade demais

São dez contos. As histórias parecem simples, cotidianas, mas em algum momento, em todas elas, percebemos que tudo é muito mais complexo. Não apenas complexo, também violento, cruel, enganador. É assim também no mundo real, o homo sapiens sapiens sempre prefere acreditar na versão simples das coisas, na primeira impressão de um evento, de um relacionamento, de uma questão pública, antes de aceitar as camadas mais duras (e verdadeiras) de entendimento que as coisas sempre têm. Os contos parecem fáceis de emular. Nada mais falso. Um efebo, um aprendiz, poderia sim usá-los como modelo, claro, mas dificilmente alcançaria - com tanta economia e com um vocabulário tão corrente, comum - alcançar tal profundidade, desvelar tão bem os paradoxos da alma humana, descrever as facetas do temperamento das pessoas, registrar com tanta amplitude e precisão o cotidiano que compartilhamos todos, mas tão poucos tem a capacidade de entender (ou mesmo de aceitar). Os protagonistas das histórias - quase sempre mulheres, mas não apenas elas - são pessoas que vivem suas vidas como a grande maioria das pessoas vive: satisfatoriamente, sem grandes realizações, e sem se preocupar com as turbulências do mundo ou com o encantamento que tanto a arte quanto a ciência oferecem. São vidas marginais, mas exemplares, exuberantes em sua individualidade, como se Alice Munro fosse uma artífice de mitologias modernas. As histórias descrevem relacionamentos afetivos, casamentos e relações de amizade sem muita consideração, explicitando algo da hipocrisia que muitas vezes é a única coisa que os sustentam. A memória dos personagens sempre é seletiva. O ódio e o amor, o desejo e a frustração que brotam dos relacionamentos são, na forma como descritos por Munro, algo vívido, verossímil, real. Ela nunca conta cronologicamente suas histórias. Assim como nós, quando narramos algo para alguém, e até para nós mesmos, Munro superpõe informações que avançam ou retrocedem dias, semanas, décadas, uma vida inteira até, de forma a fixar maior dramaticidade ao que se conta (em nosso caso o fazemos porque somos sempre benevolentes e auto indulgentes com nossas biografias). Com duas ou três frases ela nós faz entender uma situação que poderia tomar páginas nas mãos de um escritor menos hábil. Há também sempre a incerteza sobre o desfecho das histórias. Será que entendemos todas bem? Assim como na vida real talvez seja mais fácil nos iludirmos e acreditarmos em finais ou totalmente felizes ou completamente trágicos. A economia psicológica é ilusória. Mas Munro nos oferece algo mais para reflexão. Sim, Alice Munro, duquesa de Ontario (com resolveu chamá-la o rei Xavier I de Redonda, uma história divertida que vale a a pena conhecer), é mesmo uma grande escritora. Boa surpresa conhecer os textos dessa senhora que acabou de receber o prêmio Nobel.
[início: 17/10/2013 - fim: 25/10/2013]
"Felicidade demais", Alice Munro, tradução de Alexandre Barbosa de Souza, São Paulo: editora Companhia das Letras, 1a. edição (2010), brochura 14x21 cm., 341 págs., ISBN: 978-85-359-1725-3 [edição original: "Too Much happiness: stories" (New York: Knopf Doubleday Publishing Group) 2009]

terça-feira, 22 de outubro de 2013

ithaca road

"Ithaca Road", de Paulo Scott, poderia ter como subtítulo "Os aborrecimentos de Narelle". Pois nesta curta história, ambientada em Sidney, na Austrália, acompanhamos como uma garota neozelandesa administra com estoicismo uns poucos, porém turbulentos, dias. O leitor jamais ficará sabendo (nem tampouco Narelle) os porquês dela abandonar suas atividades e trabalho numa galeria de arte para atender o pedido de ajuda de um de seus irmãos, Bernard (várias vezes citado no livro, mas nunca protagonista dele). Ao chegar a cidade ela descobre que Bernard saiu rapidamente da cidade, deixando a seus cuidados um restaurante que está sob investigação e eventualmente será liquidado judicialmente. O executor da falência a faz acreditar que ela é solidariamente responsável no processo e passa a assediá-la. Ao mesmo tempo em que Narelle administra questões da vida prática (além do executor da falência ela tem problemas trabalhistas, de logística e de compras para resolver), seu passado na cidade - sobretudo seus amores e relacionamentos afetivos - parecem assombrá-la de variadas formas. Ela conversa com uma antiga amiga e namorada (Trixie) sobre os dias em que moravam juntas; reflete sobre o pedido de casamento com um jornalista (Jörg) que não é capaz de aceitar; reencontra um amigo (Justin) que parece ainda apaixonado por ela e sabe coisas de seu passado que ela preferiria esquecer; pensa se deveria ou não entrar em contato com os pais e compartilhar com eles suas preocupações sobre os problemas do irmão; aceita sair com uma garota (Anna) que conhece num parque e que de alguma forma sabe algo das razões que fizeram seu irmão fugir da cidade. Gostei particularmente de como Scott faz sua protagonista lentamente preocupar-se menos com as questões puramente jurídicas do início da história para a partir da metade do livro concentrar-se nas questões mais abstratas e mundanas de sua vida pessoal. O livro trata de opções sexuais, feminismo, xenofobia, do modo de vida contemporâneo, escolhas e ritos de passagem da juventude para a vida adulta. Um escritor mais panfletário talvez usasse os temas deste livro para defender teses sociológicas, mas Scott alcança fugir desta armadilha. Nunca havia lido nada dele. Há algo nesse seu livro que lembra a ambientação daqueles romances sofisticados de Louis Begley, mas Scott parece não ter tanta fé quanto Begley na eficiência dos sistemas jurídicos. Interessante.
[início: 17/10/2013 - fim: 18/10/2013]
"Ithaca Road", Paulo Scott, São Paulo: editora Companhia das Letras (coleção Amores Expressos), 1a edição (2013), brochura 14x21 cm., 110 págs., ISBN: 978-85-359-2269-1

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

scenes from an impending marriage

Ao encomendar "32 stories" (o volume que reúne os primeiros de Adrian Tomine - os  mini-comics da série Optic Nerve) descobri este outro trabalho dele. Trata-se de uma série de histórias autobiográficas (na forma de comics, claro), onde ele descreve os preparativos para seu casamento. Entendi que a idéia original envolvia dar exemplares de um volume destes a cada convidado, como lembrança do casamento, mas o texto de apresentação não deixa claro se isso chegou mesmo a ser feito. Os episódios capturam com o humor característico de Tomine os contratempos típicos de um casamento,  começando com a decisão de se casar (com uma pessoa com quem obviamente já vive maritalmente a tempos) e seguindo pela via-sacra mundana que todos conhecem: a definição da data; lista de convidados de cada família; criação inventiva do convite; definição de um local agradável; escolha das músicas a serem executadas; preparativos com cabeleireiros, maquiagem, floristas e cozinheiros; listas de presentes; aluguel de roupas, limusine e segurança; além de infinitos detalhes que são esquecidas até, por fim, definirem um hotel para a lua de mel e finalmente voltarem a ficar a sós. O tratamento beira o sarcasmo, como sempre observa-se em suas histórias. Ele de fato é um sujeito que sempre usa sua biografia para tentar emular a psique da sociedade em que vive, mas aqui parece haver um tanto mais de vaidade, como se ele precisasse produzir o livro para provar que é um sujeito legal, capaz de demonstrar genuíno carinho por uma pessoa (em contraposição ao típico desnudamento - cruel desnudamento - de seus semelhantes). O livro garante um par de boas risadas, mas não muito mais do que isso. Talvez eu seja um sujeito cético demais em relação ao poder institucional destes ritos de passagem para me comover com a ironia (indulgente ironia desta vez) que Tomine reservou para este livro. Paciência.
[início - fim:  15/10/2013]
"Scenes from an impending marriage: a prenuptial memoir", Adrian Tomine, Montreal: Drawn and Quarterly, 1a. edição (2011), capa-dura 13,5x15,5 cm., 54 págs., ISBN: 978-1-77046-034-8

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

federico en su balcón

Deus não morreu, mas Friedrich Nietzsche sim, em 1900. Todavia, uma vez por ano (de acordo com o que inventa Carlos Fuentes neste curioso romance), Nietzsche tem licença para visitar uma vez mais o mundo dos vivos. Na maioria das vezes interage com pessoas comuns, neófitos de filosofia, o que o aborrece, mas há vezes em que tem mais sorte e encontra um bom interlocutor. É de um encontro destes, entre Nietzsche e um escritor, frente a frente nas varandas de seus quartos em um hotel, que brota "Federico en su balcón". O livro é dividido em quatro partes. Na primeira Nietzsche e o narrador do romance que se lê, ainda algo desconfiados um do outro, pois se percebem idênticos, tanto na fisionomia quanto na índole, discutem temas diversos, num viés filosófico: ironia, justiça, beleza, loucura, dor, violência, morte, política. Já nas três partes seguintes o leitor descobre que aquilo que o narrador contou ao filósofo para exemplificar o entendimento atual de sua filosofia é um romance, que trata basicamente de uma revolução política, seguida de um período de caos, ditadura, assassinatos e traições até, por fim, findar numa contra-revolução burguesa. Saúl, Dante e Aarón são os líderes (e são a síntese dos grandes revolucionários da história: Che Guevara, Danton, Fidel, Robespierre, Lênin, Marat, Mao, Stálin, Zapatta, Luther King, Ghandi). A revolução narrada é a síntese de todas que conhecemos (como a americana, a francesa, a cubana, a russa, a mexicana ou a chinesa), mas também podemos pensar que Fuentes tenha se inspirado nos desdobramentos da recente primavera árabe. Nietzsche e o narrador refletem sobre o quão incontroláveis são os movimentos sociais (que sempre foram e sempre serão manipulados, pois não há idealismo que vença a vocação para o erro nos homens). Falam também da dimensão humana nas revoluções, afinal a vida privada de cada um se contamina das grandes transformações sociais, que, por sua vez, não são apenas a soma dos atos e destinos de cada indivíduo que participa (ou não) delas. Como em toda revolução há muitas camadas de entendimento dos fatos. Cada um dos líderes tem relacionamentos amorosos complexos (três mulheres: Gala, María-Águila e Elisa, fazem par aos três líderes revolucionários), famílias amalucadas (um dos líderes, Dante, tem um irmão mais velho, Leonardo, que é seu duplo e seu oposto, um pai que deve ser "freudianamente" morto, uma mãe que reinventa seu passado e seu futuro). As personagens femininas são importantes nos desdobramentos da trama. Todos os personagens passam por metamorfoses (ideológicas, éticas, políticas, sexuais). A biografia e aspectos da filosofia de Nietzsche (a vontade de poder, o eterno retorno, o divórcio entre homem e natureza, a função da arte, a defesa da violência, os limites da capacidade humana) entram na trama. Talvez seja possível dizer que o livro pretende discutir o quanto sua filosofia é mal entendida, mal interpretada, deformada, para fins políticos e de propaganda. O livro é bem intrincado, experimental, difícil de ler, mas o resultado é bastante satisfatório. Fuentes, do meio para o final do livro, ajuda o leitor com mais referências históricas e sínteses (as conversas entre Nietzsche e o narrador servem basicamente para pontuar o que está sendo inventado no romance). Há um tanto de surrealismo e magia nele, mas nada absurdo. Alguém que conheça bem filosofia talvez aproveite melhor as alusões e associações de Fuentes, mas pode ser que seja eu quem esteja superestimando tudo isso. Compartilho algo do pessimismo do narrador (mas fica claro que Fuentes é essencialmente otimista; seu bom humor e fé na humanidade domesticam o livro). Por fim cabe aqui o registro de que este é um romance póstumo. Fuentes morreu em maio de 2012 e o livro foi lançado apenas em novembro daquele ano.
[início: 22/08/2013 - fim: 16/10/2013]
"Federico en su balcón", Carlos Fuentes, Buenos Aires: Aguilar, Altea, Taurus, Alfaguara (Santillana ediciones generales), 1a. edição (2012), brochura 15x23 cm., 304 págs., ISBN: 978-987-94-2671-4

terça-feira, 15 de outubro de 2013

fingidores

Seguro que Rodrigo Rosp deve ter se divertido no processo de invenção deste seu "Fingidores" (ele incluiu o subtítulo "comédia em nove cenas" nele, mas como uso um número limitado de tags em meus registros de leitura, classificarei seu livro de outra forma). O ritmo e o tema da história lembra um tanto as peças curtas de Woody Allen (como, por exemplo, aquelas reunidas em Adultérios), ou daqueles sketchs antigos do grupo inglês Monty Python. Trata-se de uma peça de teatro quase pronta para ser encenada. Não é exatamente fácil sustentar o tom certo de uma comédia, nem ao vivo, nem num texto. Mas Rosp, talvez lembrando de Edmund Gwenn (que disse: "Dying is easy, comedy is difficult."), alcança manter um bom ritmo (e, com isso, o interesse do leitor). Ri-se um bocado do humor que Rosp extraí da morte, do ciúme, do sexo, do medo e da traição. O protagonista da história é Caio, que parece morrer e experimentar uma sucessão de epifanias post mortem (através das quais faz um balanço do que viveu mais intensamente antes de aceitar seu destino). O texto de Rosp tem força e originalidade, e leva o leitor, cena a cena, por certos dilemas que todos experimentamos na vida (mundana ou espiritual). Caio é um cético clássico, arquétipo, o tipo do sujeito que amamos ter como amigo, como uma espécie de consciência canalha, que nos purga de nossa fácil hipocrisia. Acho que ainda verei trechos deste livro encenados. Vale.
[início: 09/10/2013 - fim: 10/10/2013]
"Fingidores: comédia em nove cenas", Rodrigo Rosp, Porto Alegre: Não editora, 1a. edição (2013), brochura 14x21 cm., 176 págs., ISBN: 978-85-61249-46-5

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

carta sobre a felicidade

Esta pequena plaquete contém apenas uma carta, a do filósofo grego Epicuro a um de seus discípulos, Meneceu. A edição é bilíngue e inclui uma pequena apresentação, que contextualiza o que é discutido na carta frente ao conjunto da obra de Epicuro (a tradução e a apresentação são assinadas em dupla, por Álvaro Lorencini e Enzo Del Carratore). Resolvi lê-lo agora pois justamente esse texto é citado em um outro com o qual estou envolvido nestes dias: "Federico en su balcón", de Carlos Fuentes. Achei que era uma boa coincidência encontrá-lo e que valeria a pena entender um tanto mais sobre Epicuro antes de voltar às invenções de Fuentes. Em sua carta Epicuro apresenta basicamente o que poderíamos chamar de instruções, como a de que a prática da filosofia deve ser sempre cultivada; que não há nada a se temer sobre os deuses ou sobre a morte; que a felicidade é algo que pode ser alcançado; que a dor é suportável; que a prudência e o hedonismo são valores supremos. Claro que a filosofia de Epicuro deve ser algo muito mais complexo do que se depreende destas poucas instruções (que de resto são suficientemente genéricas para serem aplicadas às mais variadas situações). Interessante (mas viver no Brasil já é suficientemente terrível, cruel e aborrecido para que a busca pela felicidade possa ter alguma chance de sucesso como Epicuro parece defender tão alegremente). Talvez eu devesse ser um tanto mais disciplinado e estudar mais os gregos, conhecer melhor os filósofos, voltar aos clássicos, mas o quê fazer com os outros projetos? Paciência. Vamos em frente. 
[início - fim:04/10/2013]
"Carta sobre a felicidade: (a Meneceu)", Epicuro, tradução de Álvaro Lorencini e Enzo Del Carratore, São Paulo: editora UNESP, 1a. edição (1997), brochura 10x14,5 cm., 52 págs., ISBN: 978-85-7139-397-4 [edição original: Ἐπίκουρος (300 a.c.), tradução para o português baseado na edição de Graziano Arrighetti 'Epicuro - Opere, Introduzione, testo critico, traduzione e note" (Classici della Filosofia) Turin: Einaudi, 1960]

domingo, 13 de outubro de 2013

sete fogos

Comprei esse livro ainda no início de 2012, um presente de aniversário. Li e experimentei algumas receitas (primeiro nuns dias divertidos em Itaara, quando Helga e eu para lá fomos descansar dos aborrecimentos do trabalho, depois ao adaptá-las à minha cozinha - uma quase heresia, comparada aos espaços amplos e a eterna luta contra o foto empreendida por Francis Mallmann). Em algum momento indiquei o volume para os amigos. Primeiro para don Robsón, senhor das hermenêuticas heideggerianas, depois para don Ronái, senhor dos caminhos e da luz pelo sul, e por fim a don Albano, dos pés ligeiros e filosóficos. Já em 2013, num dia glorioso, resolvemos visitar don Stein, em seu olimpo particular, lá nas terras altas de Morro Reuter e eis que o Robson levou junto exemplar, como presente. Mas fazia frio, e acabamos não assando nada ao estilo argentino naqueles dias. Agora com os dias mais quentes de primavera voltei a folhear este belo livro, em busca da inspiração certa para uma festa (que acabamos cancelando). Paciência. Francis Mallmann é um dos chefs mais famosos da Argentina. Mantém restaurantes em Mendoza e Buenos Aires, na Argentina, e em Gárzon, uma pequena cidade uruguaia (que Ronái, Robson e eu nos esforçamos para visitar, mas, ai de nós, tivemos de abandonar também esse projeto). Os livros de chefs famosos sempre são um enigma, já que alguns realmente inspiram o leitor, mas outros parecem artificiais, feitos por encomenda para aproveitar o desejo que todo neófito da culinária tem de ser tocado por alguma Musa glutona. Não é o caso deste belo volume. Repleto de imagens belíssimas, assinadas por vários fotógrafos: Santiago Soto Monllor (a maioria delas); Virginia Del Giudice, Miki Duisterhof, Peter Kaminsky, Jason Lowe e John Kernick (entre outros), tem a autoria é dividida com Peter Kaminsky, um americano especialista em escrever livros de culinária, exatamente em parceria com chefs famosos. As receitas não se limitam às carnes, diria até que enfatizam bastante o uso de vegetais e frutas, que não apenas acrescentam sabor e açucares aos pratos, mas também trazem um colorido ao processo, tornando o ofício do assador ainda mais mágico e luminoso. Talvez seja o caso de retomar aquele projeto, ir visitar Gárzon, fazer um desvio para o Uruguai em boa companhia, ir se inspirar nas travessuras gastronômicas argentinas sugeridas por Francis Mallmann. É tempo
[início: 04/03/2012 - fim: 12/10/2013]
"Sete fogos: Churrasco ao estilo argentino", Francis Mallmann, Peter Kaminsky, tradução de  Sandra Martha Dolinsky, São Paulo (Cotia): Vergara e Riba editoras, 1a edição (2011), capa-dura 22,5x26 cm., 278 págs., ISBN: 978-85- 7683-305-5 [edição original: Siete fuegos: mi cocina argentina (Buenos Aires: V/R editoras) 2011]

sábado, 12 de outubro de 2013

água na boca

Esse pequeno livro foi pertence a categoria dos divertimentos. Dois escritores italianos de sucesso, o quase nonagenário Andrea Camilleri e Carlo Lucarelli (trinta e cinco anos mais jovem que o colega), resolveram aceitar o desafio literário de um astuto editor (Daniele di Gennaro, da "minimum fax"). Juntos eles produziram um romance onde estão reunidos seus dois personagens principais, o comissário Salvo Montalbano (de Camilleri) e a inspetora Grazia Negro (de Lucarelli). O resultado é bom. Por conta dos projetos individuais de cada um o formato escolhido foi a de um romance epistolar. Cada um produzia um capítulo e enviava ao outro, que passava a desenvolver a trama. Vê-se logo nos primeiros capítulos que o objetivo de cada um nunca foi facilitar a vida do outro, antes o contrário. Ambos inventam situações difíceis ao final de cada uma de suas partes, tornando a tarefa do colaborador um jogo intrincado de adequação e possibilidades criativas (onde cada um aparentemente tentava ser fiel ao "physique du rôle" de seu personagem, mas aceitava as propostas apresentadas que desviavam algo delas). Acho que ambos se divertiram muito neste projeto, que tomou-lhes pouco mais de três anos. Nunca havia lido nada de Lucarelli e pouco sabia das habilidades investigativas de sua Grazia Negro, mas gostei desta brincadeira metaliterária. A história envolve mortes e a mão pesada do serviço secreto italiano (que fazem serviço sujo para o histriônico antigo primeiro ministro italino, Sílvio Berlusconi). Camilleri faz alguns de seus coadjuvantes aparecerem (a discreta e eficiente Ingrid, além do desastrado e inoportuno Catarella) e inclue sua cota de invenções gastronômicas. Lucarelli apresenta Grazia como implacável, porém sedutora, obstinada, porém prática. O único problema deste livro é ser pequeno demais para que possamos comparar melhor estes dois curiosos personagens.
[início - fim: 07/09/2013]
"Água na boca", Andrea Camilleri, Carlo Lucarelli, tradução de Joana Angélica d'Ávila Melo, Rio de Janeiro: editora Bertrand Brasil, 1a. edição (2013), brochura 14x21 cm., 106 págs., ISBN: 978-85- 286-1706-1 [edição original: Acqua in Bocca (Roma: minimum fax editoriale) 2010]

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

32 stories

Adrian Tomine nasceu em 1974 em Sacramento, California. No início dos anos 1990 mudou-se para Nova Iorque e entre 1991 e 1994, ou seja, entre os 17 e os 20 anos, produziu, editou e distribuiu os sete primeiros volumes de "Optic Nerve", mini-comics de tiragem limitada que tiveram grande repercussão, tanto de público quanto de crítica. Eram trabalhos quase artesanais, fanzines feitos a caneta e reproduzidos com xerox. Em 1995 ele passou a produzir seus trabalhos para a editora canadense de comics do circuito alternativo Drawn and Quarterly Publications. Posteriormente passou também a contribuir regularmente para jornais e revistas americanos, como a The New Yorker. Já tive chance de comentar aqui tanto os números de "Optic Nerve" produzidos para a Drawn and Quarterly ("Sleepwalk and Other Stories", que reúne os volumes 1 a 4; "Summer Blonde", volumes 5 a 8, e "Shortcomings", volumes 9 a 11) quanto os trabalhos produzidos para a The New Yorker ("New York Drawings"). Em "32 Stories" estão reunidos seus primeiros trabalhos. São histórias de iniciação, quase toscas muitas delas, onde vê-se claramente que trata-se de um autor que busca sua forma de expressão. A técnica vai se aprimorando, alguns temas são retomados, questões polêmicas são abandonadas. Em qualquer cidade centenas de garotos devem produzir todos os anos histórias assim. De alguma forma os trabalhos de Tomine se destacaram e ele conseguiu passar a ser editado regularmente. Em seus trabalhos iniciais nota-se algo da tensão entre aqueles que são mais fortes e ainda hoje interessantes (aqueles onde é feita apenas uma descrição da realidade, sem julgamentos de valor, exposição de teses sociológicas ou tentativas de antropologia selvagem) e aqueles que já restam rotulados (por estarem presos a alguma agenda política e/ou econômica da época). Apenas vinte anos se passaram desde a publicação original, mas o mundo parece ter sido varrido por transformações. A euforia dos anos que seguiram a queda do muro de Berlin e da redemocratização do Leste Europeu logo se esgotou. O controle tecnológico que experimentamos todos é pleno e poderoso, a espetacularização das vidas e da cultura é hoje completa e os problemas mais importantes continuam sendo os mesmos de sempre: a aparente inadequação do homem moderno para a vida em sociedade, a impossibilidade de compreendermos (ou aceitarmos) completamente os outros, a solidão, a dificuldade (ou antes a incapacidade) de amar. Tomine não me parece pretensioso a ponto de querer esgotar os temas, pontificar suas verdades como únicas. Há um humor discreto em seus trabalhos, por vezes os personagens parecem piscar para o leitor, algo cúmplices. Sujeito divertido esse Tomine.
[início: 04/10/2013 - fim: 06/10/2013]
"32 Stories: The Complete "Optic Nerve" mini-comics", Adrian Tomine, Montreal: Drawn and Quarterly, 3a. edição (1997), brochura 14x21,5 cm., 98 págs., ISBN: 978-1-896597-00-9

domingo, 6 de outubro de 2013

la sonrisa de angelica

"La sonrisa de Angelica" é o vigésimo-primeiro livro com as aventuras de Salvo Montalbano, o industrioso personagem inventado por Andrea Camilleri. O comissário Montalbano está quase com 60 anos, mas ainda é o gastrônomo e o sedutor adorável de sempre. Neste volume, que é inspirado e brota do "Orlando Furioso", de Ariosto, os jogos de paixão e ciúmes são explícitos. Camilleri nos apresenta uma série de crimes que assola a região de Vigáta, mas eles são elaborados demais - e concentrados demais em um grupo restrito de pessoas - para que Montalbano não imagine que eles sejam apenas distrações para um outro tipo de crime que deve estar sendo preparado. No curso das investigações ele conhece Angélica, uma mulher muito bonita (também ela vítima de um dos crimes cometidos), por quem o comissário imediatamente se apaixona (como Orlando se apaixonou a seu tempo). As mentiras adolescentes de um apaixonado sempre são cômicas, Montalbano se enreda nelas, afasta-se momentaneamente de Lívia, de seus comandados (Fazio, Catarella, Mimí Augello e os demais), de Ingrid (a amiga de ocasião, que já tantas vezes o ajudou) mas não perde sua extraordinária capacidade de investigação. Faz-se de bobo quando necessário, apura seu sentido de honra e alcança encontrar o nexo correto dos crimes. A trama é bem elaborada, mas crível (Camilleri surpreende com seu estoque inesgotável de truques - quase sempre cênicos, inspirados no ritmo do teatro, mas também com reviravoltas psicológicas, que brotam do mundo dos sonhos e do acaso e sempre se encaixam bem em suas histórias). Divertido, mas vamos em frente.
[início: 23/08/2013 - fim: 28/08/2013]
"La sonrisa de Angelica", Andrea Camilleri, tradução de Teresa Clavel Lledó, Barcelona: publicaciones y ediciones Salamandra, 1a. edição (2013), brochura 14x21 cm., 219 págs., ISBN: 978-84-9838-541-0 [edição original: Il sorriso di Angelica (Palermo: Sellerio editores) 2010]

sábado, 5 de outubro de 2013

pura picaretagem

Daniel Bezerra e Carlos Orsi, autores de "Pura picaretagem" (que tem o subtítulo "Como livros de esoterismo e autoajuda distorcem a Ciência para te enganar. Saiba como não cair em armadilhas!" impresso explicitamente na capa) são dois otimistas inveterados. Não fosse assim não teriam a disposição de publicar um livro que fala o que deveria ser óbvio para qualquer pessoa minimamente educada, mas só sendo muito otimista para acreditar que um dia a população brasileira deixará de se iludir com bobagens esotéricas amalucadas. Mas devemos louvar esse otimismo deles. Neste pequeno livro eles explicam como nenhum dos conceitos da mecânica quântica pode ser utilizado, nem remotamente, para resolver problemas da vida prática das pessoas, como a busca de sorte no amor e nos negócios, ou a experiência da felicidade nos relacionamentos e nas viagens, ou a eficiência técnica em questões jurídicas apresentadas em tribunais ou mesmo em projetos mirabolantes para alcançar sucesso nas carreiras profissionais de cada um. Enfim, deveria ser fácil de entender que não há nexo causal entre física quântica e a cura de problemas de saúde ou entre ciência e o poder de uma pessoa fazer seus desejos mundanos se concretizarem. Infelizmente a maior parte da população prefere explicações mágicas e o malabarismo mental de trambiqueiros ao invés estudar ciências. Bezerra é físico, Orsi jornalista, ambos escrevem regularmente sobre ciências, sociedade e literatura em blogs e jornais impressos. Nos capítulos iniciais do livro eles apresentam uma versão condensada da história da física dos últimos quatrocentos anos. Descrevem os conceitos mais importantes da física moderna, especialmente as interpretações da mecânica quântica e as implicações filosóficas que advém delas. O texto é bem curto e escrito numa linguagem coloquial, sem tecnicidades intransponíveis,mesmo para os neófitos em ciências. Nos capítulos finais eles desconstroem os argumentos de místicos, escritores de livros de auto ajuda, arautos do pensamento positivo e outros picaretas profissionais que usam argumentos da mecânica quântica em seus eficientes projetos de retirar dinheiro da mão dos tolos. É um bom livro. Talvez eu não devesse ser tão pessimista e compartilhar com Bezerra e Orsi algo deste entusiasmo no poder de convencimento das ciências.
[início: 12/08/2013 - fim: 19/09/2013]
"Pura picaretagem: Como livros de esoterismo e autoajuda distorcem a Ciência para te enganar. Saiba como não cair em armadilhas!, Daniel Bezerra, Carlos Orsi, São Paulo: editora LeYa, 1a. edição (2013), brochura 14x21 cm., 176 págs., ISBN: 978-85-8044-826-9

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

a maçã envenenada

Michel Laub apresenta em "A maçã envenenada" a história de um sujeito de quarenta anos, jornalista, que por alguma razão localiza num dilema moral, em um acontecimento fortuito de sua juventude, a origem de seu desconforto com a vida. Ao entrevistar uma ativista tútsi, sobrevivente do massacre de Ruanda (ocorrido início dos anos 1990), ele lembra que na mesma época do massacre um de seus ídolos, Kurt Cobain, o líder da banda Nirvana, havia cometido suicídio. O sujeito passa então a narrar seu conturbado relacionamento com uma garota, seu primeiro amor, um típico amor adolescente que desde o início está condenado ao fracasso. A garota é também vocalista de sua banda de rock, na Porto Alegre provinciana daqueles dias. O dilema moral que o narrador experimentou quando era jovem envolvia ir ou não com a namorada ver um show do Nirvana, em São Paulo, ao mesmo tempo que deveria decidir se aceitava ou não a extorsão pecuniária de um colega de sua turma do serviço militar, por conta de uma transgressão boba (que ele imaginava capaz de eventualmente destruir sua carreira profissional). Laub contrasta o suicídio de Cobain com o estoicismo e força da ativista tútsi e, simultaneamente, oferece ao leitor fragmentos da história do narrador, de sua namorada e da mãe dela, onde encontramos simetrias (trágicas simetrias) com aquelas duas histórias. A exemplo do que sempre acontece no mundo real, na história inventada por Laub os irrelevantes dilemas do narrador se evaporam (talvez não exatamente por acaso, mas de qualquer forma sua vida segue por novos caminhos). O narrador, em 2013, parece não estar convencido da eficácia efêmera do desgosto e continua aborrecido e culpado, preso ao passado. É um livro fácil de ler. E é de fato bem escrito, mas não empolga muito (as histórias de aprendizado raramente empolgam). Todavia Laub tem o mérito de exemplificar num bom texto que não há nada a se invejar da juventude (época dos milagres, como lembra divertido Josep Pla, mas que é boa e memorável exatamente porque acaba, quando todos nos metamorfoseamos um dia, afinal, em um adulto). Paciência. "Diário da queda" agradou-me muito mais. Aparentemente "A maçã envenenada" é o segundo volume de uma trilogia. Vamos esperar, e ler. Trivia: Laub enumera trechos de seu livro, de 1 a 101. Talvez seja uma bobagem, mas não há como deixar de pensar que a história que se narra é uma história de iniciação, de exercícios - como nos cursos 101 das universidades americanas.
[início: 06/09/2013 - fim: 07/09/2013]
"A maçã envenenada", Michel Laub, São Paulo: editora Companhia das Letras, 1a. edição (2013), brochura 14x21 cm., 119 págs., ISBN: 978-85-359-2311-7