segunda-feira, 5 de novembro de 2018

a culinária caipira da paulistânia

Carlos Alberto Dória é doutor em sociologia e um dos maiores especialistas sobre a história rica e variada da culinária brasileira. Dele já li o pequeno porém poderoso Formação da culinária brasileira, livro que me foi sugerido pela Heloísa, amiga querida, já há tantos anos. Nesse volume, "A culinária caipira da Paulistânia",  recém publicado, ao leitor são oferecidas duas formas de familiarizar neste vasto assunto: o caminho da análise acadêmica e o caminho das receitas e produtos desta culinária. Na primeira abordagem Dória parte de sua tese central, que é a definição do que pode ser entendido como culinária caipira, para apresentar um panorâmico registro de sua história, evolução e os atributos quase míticos que hoje possui. Trata-se de uma espécie de arqueologia, a procura de registros de algo que em grande parte se perdeu, metamorfoseou-se, talvez seja melhor dizer. A Paulistânia é um enorme território, que abrange hoje a totalidade dos estados de São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná, Santa Catarina e partes dos estados do Rio de Janeiro, Espírito Santo e Rio Grande do Sul. O elemento central e inicial desta culinária é o uso do milho e suas farinhas, em contraposição às farinhas de mandioca, que reinavam nas demais regiões do país. A maior facilidade de processamento das farinhas de milho possibilitou que indígenas autóctones da Paulistânia (sobretudo guaranis), depois os mamelucos, e ainda depois que os ditos bandeirantes, promovessem a lenta e grande expansão das fronteiras do Brasil, ainda na primeira fase colonial, definindo esta região como um território gastronômico. Dória fala da dieta indígena, cartografa a geografia desta culinária, fala de história e sociologia, define o sítio (que é algo diferente de uma fazenda), a casa e a comida que ali se produzia, fala dos produtos que eram utilizados e sua evolução. Apesar de ser um trabalho apresentado com todo um rigor acadêmico trata-se de um livro fácil de ler, é muito bem escrito e inventivo. O livro inclui extensas notas, vários mapas, uma robusta bibliografia e um fundamental índice, que ajuda o leitor a percorrer o livro em busca de conceitos e definições. A segunda parte do livro, a segunda abordagem que é oferecida ao leitor, é também assinada por Marcelo Corrêa Bastos, chef e proprietário de restaurantes em São Paulo. Carlos Dória apresenta um vasto conjunto de produtos e técnicas culinárias que são episodicamente comentadas por Marcelo Bastos em curtos parágrafos. Não se tratam propriamente de receitas, antes sim de registros sobre como se preparavam o desjejum, os cozidos e as caças; o milho, o arroz e o feijão; as conservas, os refogados e os mexidos; as farofas, as frituras e os empadões, biscoitos e pães. Além desses produtos os autores descrevem algo das tecnologias afeitas à culinária: a evolução dos fogões, as técnicas de refrigeração, as máquinas de processamento e moagem, a seleção de sementes, a logística, o sistema de vendas e distribuição de produtos. Na conclusão Dória produz uma coda amarga ao livro, aquela que identifica a cozinha realmente caipira como uma ilusão, uma miragem somente acessível por meio da arqueologia de algo que já se perdeu, que é conhecido e praticado por poucos. A explicação para este distanciamento é complexa, associada ao falso refinamento decorrente da rápida industrialização de São Paulo e a chegada de imigrantes europeus na segunda metade do século XIX, a pasteurização do gosto, a necessidade que qualquer povo tem de reinventar seu passado, idealizando-o. Bueno. Aprende-se um bocado neste livro. Um leitor curioso pode experimentar a prosa de Dória em seu blog (e-Boca livre). Vale! 
Registro #1342 (gastronomia #34) 
[início: 22/10/2018 - fim: 26/10/2018]
"A culinária caipira da Paulistânica", Carlos Alberto Dória, Marcelo Corrêa Bastos, São Paulo: Editora Três Estrelas (Grupo Folha), 1a. edição (2018), rochura 14x21 cm., 368 págs., ISBN: 978-85-68493-53-3

sábado, 27 de outubro de 2018

sabotaje

Com "Falcó" Arturo Pérez-Reverte começou sua série de volumes dedicados aos anos de ascensão do franquismo. Os sucessos gravitavam uma fictícia tentativa de resgate José Antônio Primo de Rivera, líder dos falangistas, logo no início da guerra civil, em novembro de 1936. "Eva", o segundo volume da série, se passavam em Tánger, no Marrocos, no início de 1937. No recentemente publicado "Sabotaje", Pérez-Reverte faz o tempo avançar uns poucos meses deste mesmo ano, para o início do verão europeu. A nova missão de Falcó envolve eliminar um francês, Leo Bayard, sofisticado brigadista internacional que apóia os republicanos na guerra civil. Simultaneamente, ele deve sabotar um quadro que Pablo Picasso pintava por aqueles dias, o impressionante Guernica, que todos conhecemos, sabemos que está exposto no Centro de Arte Reina Sofia, em Madrid, incólume e digno, ainda cumprindo seu papel de ícone contra o militarismo, sua força expressiva ainda manifestando repúdio à violência e os horrores da guerra, de todas as guerras. Como sempre nos livros de Pérez-Reverte a narrativa é acelerada, cheia de reviravoltas, deliciosas tramas paralelas, algum sexo, uma miríade de referências cinematográficas e chistes, de forma que dificilmente o leitor alcança abandoná-lo. Falcó é um anti-herói, alguém que luta contra um governo legítimo, ao lado de quem aprendemos identificar como fascistas, mas Pérez-Reverte soube dar matizes a seu protagonista, que é mais que um cínico, que um niilista, e faz o leitor aceitar que em situações complexas nem sempre é possível identificar todos os personagens como bons ou ruins, e todas as ações como absolutamente certas ou erradas, justificáveis ou condenáveis. Fascistas, comunistas, anarquistas, trotskistas, nacionalistas e tantos outros combatentes da guerra civil se equivalem, são capazes de atos vis ou honrados, de serem morais ou desonestos. Afinal, o ser humano vive sempre num carrossel de sentimentos contraditórios. Pérez-Reverte faz de Lorenzo Falcó uma espécie de James Bond dos anos 1930, um mestre da ironia, que sabe entender rapidamente a psique de seus interlocutores, agir da forma mais eficiente para cumprir suas tarefas. Não me cabe detalhar aqui os sucessos desta aventura, já que toda a graça do livro está em saber justamente como ele falhará em seu intento de destruir Guernica, como não será capaz de impedir Picasso de finalizá-lo. Ao terminar o volume, para mim o melhor dos três até aqui editados, já esperava encontrar a notícia de que algum outro está em produção. Mas talvez não seja o caso de ser tão açodado. Um escritor pode se aborrecer com personagens que teimam em roubar tempo e atenção. Estes três volumes foram lançados em menos de um ano, parecem ter sido escritos simultaneamente até. De qualquer forma a guerra civil factual ainda seguirá violenta e dura por mais um ano e meio, até abril de 1939. E depois dela haverão os horrores da segunda grande guerra, os anos da ditadura de Franco, e os da redemocratização espanhola. Falcó, que tem pouco mais de 35 anos neste volume poderia ser testemunha disto tudo. Será que Pérez-Reverte dará vida longa a seu personagem, o fará continuar suas aventuras? Logo veremos. Vale! 
Registro #1341 (romance #352) 
[início: 17/10/2018 - fim: 21/10/2018]
"Sabotaje", Arturo Pérez-Reverte, Barcelona: Alfaguara / Penguin Random House Grupo Editorial, 1a. edição (2018), capa-dura 16x24,5 cm., 373 págs., ISBN: 978-84-204-3245-8

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

instruções para os criados

O irlandês Jonathan Swift viveu entre 1667 e 1745. É bastante conhecido por seu livro "Viagens de Gulliver", sobre o qual mesmo quem nunca o leu verdadeiramente pode dizer que conhece e eventualmente gosta. É reconhecido como um dos maiores satiristas da língua inglesa. "Instruções para os criados" é - como o título promete - um conjunto regras dirigidas aos serviçais de um senhor (trata-se de trabalho ficcional produzido na primeira metade do século XVIII, portanto não há razão para que termos politicamente corretos do século XXI, como colaboradores, trabalhadores ou cousa que o valha, sejam aqui hipocritamente utilizados). Apesar de haver registros da existência dessas instruções desde 1731, elas somente foram publicadas postumamente. As instruções correspondem a regras gerais para todos os criados e instruções específicas para cada um, do mordomo a cozinheira, do lacaio ao cocheiro, e assim por diante, para porteiro, aia, leiteira, ama, governanta e todos os demais (a lista alcança dezesseis indivíduos, Swift foi deão da catedral de São Patrício boa parte de sua vida adulta, deve ter tido mesmo muita gente trabalhando para si). Não é fácil ler esse ensaio satírico de uma vez só. Claro, é brutalmente engraçado, cínico à exaustão, inverte todos os sinais do que possa ser certo ou errado no desempenho das tarefas do dia a dia dos criados, mas é muito repetitivo. O humor ácido sempre indica como correto exatamente o contrário daquilo que o senhor espera que seja realizado, para sua saúde física ou economia financeira. Nas primeiras instruções a narrativa funciona, o sarcasmo provoca um mais que um esgar, mas logo o acúmulo de clichês passa a incomodar o leitor. Desisti deste livro várias vezes, mas minha curiosidade sobre o alcance da verve ferina de Swift sempre foi mais forte. Enfim, divertido, porém só em pequenas doses, um pouco de cada vez. Vale! 
Registro #1340 (crônicas e ensaios #235) 
[início 01/10/2018 - fim: 06/10/2018]
"Instruções para os criados", Jonathan Swift, tradução de Priscila Catão, Belo Horizonte: Editora Âyiné (coleção Biblioteca Antagonista #4), 1a. edição (2016), brochura 12x18 cm., 133 págs., ISBN: 978-85-92649-04-3 [edição original: "Directions for servants" (London: R. Dodsley and M. Copper) 1745]

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

sobre o exílio

Nesse pequeno livro estão enfeixados três ensaios curtos de Joseph Brodsky, o poeta russo que recebeu o prêmio Nobel de Literatura de 1987. Já conhecia os três ensaios (já registrei aqui minhas impressões sobre o bom "On grief and reason"), mas sempre é bom reler cousas bem escritas. "A condição chamada exílio" foi produzido originalmente para uma conferencia sobre exilados em Viena, no final de 1988. "Uma face incomum" corresponde ao discurso de aceitação do prêmio Nobel, pronunciado na cerimônia de entrega dos prêmios em Stockholm, em dezembro de 1987. O último, um tanto menor, corresponde ao dito "discurso do banquete", pronunciado em um almoço na prefeitura de Stockholm, menos formal, solene, e que antecede a cerimônia noturna de entrega dos prêmios. Os três ensaios podem ser encontrados em inglês, ou no site da Fundação Nobel (Discurso de aceitação; Discurso do banquete), ou no site da The New York Review of Books (Exílio). Pois é a questão do exílio que paira perene nos três ensaios, nos três discursos. São ponderações de um sujeito que não apenas sabe se expressar com muita exuberância e clareza, mas de alguém que experimentou o cárcere e o isolamento por muitos anos antes de finalmente alcançar a liberdade e a condição de exilado. Não se trata portanto de abstrações conceituais. O sujeito sabe muito bem sobre o que está falando. Há gratidão nas palavras de Brodsky, aos que o convidam e aos que o premiam, e a seus predecessores, aqueles que reconhece como poetas fortes (Osip Mandelstam, Marina Tsvetaeva, Robert Frost, Anna Akhmátova e Wystan Auden), mas também um sarcasmo silente. Não me cabe aqui sintetizar os muitos e convincentes argumentos de Brodsky, que sabe bem conduzir o leitor / ouvinte ao entendimento de temas complexos, controversos até. Os temas que mais me impressionaram foram sua defesa da particularidade de cada condição humana, seu louvor da relação sem intermediários entre a arte e os indivíduos, da precedência da estética sobre a ética, do cuidado que se deve ter com arautos, com aqueles que se arvoram no direito de interpretar a realidade para os demais, da força inevitável da linguagem, dos inaceitáveis sacrifícios humanos que as doutrinas totalitárias cobram ao tentar alcançar um triunfo e concretizar promessas que nunca se realizam. Nesse bizarros tempos, imagino que só mesmo a hipocrisia ou o Alzheimer moral explicam como legiões de escravos mentais se negam a aceitar o fracasso das ideologias de esquerda e que, eventualmente, querem, num anacronismo perverso, implantar nestes trópicos. Não vale a pena perder tempo com isso. Vamos em frente. Evoé Brodsky, evoé. Vale! 
Registro #1339 (crônicas e ensaios #234) 
[início 12/10/2018 - fim: 16/10/2018] 
"Sobre o exílio", Joseph Brodsky, tradução de André Bezamat e Denise Bottmann, Belo Horizonte: Editora Âyiné (coleção Biblioteca Antagonista #2), 1a. edição (2016), brochura 12x18 cm., 76 págs., ISBN: 978-85-92649-02-9 [edição original: "The condition we call exile" (New York: The New York Review of Books) 1988 / "Noblelevskaja Rec'" and Acceptance Speech "The Nobel prizes, editor Wilhelm Odelbert (Stockholm: Nobel Foundation) 1987]

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

proust contra a degradação

O polonês Joseph Czapski foi pintor, escritor, crítico de artes, ativista político. Em setembro de 1939, data que marca o inicio da segunda grande guerra na Europa, engajado como oficial do exercito polonês, Czapski foi aprisionado pelos russos (a União Soviética e a Alemanha dividiram entre si o território polonês). Prisioneiro em um convento abandonado, a mais de 400 Km de Moscou, e demasiadamente debilitado para os trabalhos forçados aos quais estavam condenados todos os demais, ele fazia anotações durante o dia sobre assuntos de suas áreas de especialização, sobretudo pintura e literatura francesa. A cada noite, parte destas anotações eram pronunciadas como palestras a seus colegas oficiais poloneses. Cabe registrar que Czapski foi um dos poucos sobreviventes dos quase 25.000 oficiais prisioneiros dos russos que foram mortos em Katyn - um leitor curioso deveria ver o belo e terrível filme já feito sobre esse assunto. Junto com Czapski sobreviveu o manuscrito de suas conferências, que resta transcrito nesta edição da Âyiné. Naqueles dias terríveis, Czapski fala de Proust e sua obra, sem o auxilio de livros, anotações ou cousa que o valha, citando longos trechos do livro de memória (mas não aquela cara a Proust, a memória involuntária). Ele emula aos colegas prisioneiros o que sabe de livros que havia lido vinte anos antes. Um leitor já familiarizado com Proust apreciará o livro sem reservas, encontrará em Czapski um confrade de longe, alguém com quem compartilhar espanto e admiração (don Renato Cohen certamente deverá ler esse livro). As passagens que ele rememora, escolhe e conta para seus colegas prisioneiros são aquelas que encantam qualquer leitor (a morte da avó do narrador, o sofrimento de Swann, a decrepitude de Charlus, o chá e as madeleines, as recepções na mansão da duquesa de Guermantes, a mundanidade encarnada nos personagens), mas é a forma como elas brotam da memória de Czapski que guardam algo de mágico. A bem da verdade ele não se limita a contar as histórias dos livros de Proust. Czapski fala de sua vida, contrasta autor e obra com todos os movimentos artísticos, não apenas na literatura, mas também nas artes plásticas, na música, na dança, do final do século XIX e início do século. Fala dos autores russos, que ele conhecia bem, de política, de psicologia, de filosofia, de autores poloneses - a passagem sobre Conrad é soberba. Trata-se de um livro curto e potente. Essas edições da Âyiné são excelentes, porém só oferecem um aperitivo ao leitor, não saciam sua fome, deixam o sujeito nervoso ao terminar a leitura; e custam caro. Paciência. Escrevo este registro na véspera do dia que é dito do professor aqui no Brasil. Uma passagem de Czapski me fez pensar muito sobre essa data e a terrível situação em que esse desgraçado país se encontra, em que legiões de escravos mentais vagam e votam, deixando a impressão que sua grande maioria é incapaz de tomar decisões sensatas, de colaborar para construir um futuro minimamente digno. Paciência. Mas o que Czapski registra e me fez lembrar, numa lição, é que Proust jamais foi estritamente didático, engajado ou tendencioso em sua obra, jamais foi professoral. Para Proust é a forma, o compromisso estrito, rigoroso, absoluto, com as formas puras na arte, que conseguirá transmitir verdades ao leitor. É a vontade de saber e de compreender todos os sentimentos, todos os estados da alma e gestos dos homens, mesmo quando incompatíveis entre si, que poderá fazer com que possamos alcançar alguma verdadeira sabedoria. Proust nos obriga, a cada leitura, a uma revisão de toda nossa escala de valores, a despertar nossas frágeis faculdades de pensamento e sentimento. Efeitos assim não se alcançam com livros panfletários, ideologicamente comprometidos, que parecem ser o repasto da maioria dos - poucos - leitores contemporâneos. (Nem incluo aqui das informações que as pessoas compartilham nas redes sociais, quase sempre admiravelmente eivadas de vícios e mentiras). É mesmo tempo de reler Proust, de blindar-se da degradação, afastar-se dos miasmas, da abominável ignorância que grassa por este país. Vale! 
Registro #1338 (crônicas e ensaios #233) 
[início 13/10/2018 - fim: 14/10/2018]
"Proust contra a degradação: Conferências no campo de Griazowietz", Joseph Czapski, tradução de Luciana Persice, Belo Horizonte: Editora Âyiné (coleção Das Andere #6), 1a. edição (2018), brochura 12x18 cm., 110 págs., ISBN: 978-85-92649-36-4 [edição original: Proust contre la déchéance: Conferences au camp de Griazowietz (Lausanne: Editions Noir sur Blanc) 1987 & 2011]

domingo, 14 de outubro de 2018

insolitudes

Com "Insolitudes" Tiago Feijó venceu o premio Ideal Clube de Literatura de 2014. São nove contos curtos, bastante engenhosos, produção de alguém que é jovem, mas tem domínio das boas técnicas de sua arte. Três dos contos são mais explicitamente metaliterários, falam do mundo dos livros; os outros seis são menos brincalhões com a literatura, exploram certos espantos da vida. Todas as narrativas compartilham aquilo que o título promete: algo de insólito, bizarro, deslocado, ou no tempo, ou no espaço. Em "A insólita morte de Ernesto Néstor", Feijó inverte um aforismo de Nabokov que obriga os personagens a serem sempre escravos do autor e faz seu narrador ser dominado e eventualmente eliminado por um personagem; em "Josés" um sujeito recebe o fantasma de José Saramago e alcança escrever um livro em nome dele, num transe ; "Conto tirado de um poema" dá conta de um sujeito que é rechaçado pela namorada e decide tornar seu suicídio um acontecimento literário, coreografando, encenando, seu aborrecimento e morte; "O olho" é uma história que deve algo a Kafka ou Borges, no qual um olho surge em uma parede e, ao se expandir, deixa obcecado o morador daquele ambiente; "O caso do cartão" brinca com os sucessos retrospectivos de uma paixão vivida por um rapaz por uma garota que havia o abandonado; "Aqui, dentro de mim" trata dos ritos do luto de uma mulher que perde filho e nora para os elementos, o mundo natural; em "Uma noite na vida do sr. Lameque" uma mãe, talvez inebriada pelo Alzheimer, recrimina o filho que vela por ela pela morte de um outro filho, seu gêmeo ou irmão mais velho, num remoto acidente; " Há uma gota de orvalho em cada criança" descreve uma cena que adultos tratariam com mundanidade, hipocrisia, mas que no mundo das crianças brota livre, sem amarras, sem engajamentos artificiais, como sempre deveria ser; "A morte e a pequena Ana" conta como uma menininha pensa o suicídio do pai, tentando interpretar o mundo e as pessoas que, por sua vez, não a imaginam ser capaz disto. Ojo, acho que é o caso de acompanhar o que o Feijó inventará no futuro. Vamos em frente. Vale! 
Registro #1337 (contos #157) 
[início: 18/09/2018 - fim: 25/09/2018]
"Insolitudes", Tiago Feijó, Rio de Janeiro: Editora 7Letras, 1a. edição (2015), brochura 14x21 cm., 101 págs., ISBN: 978-85-421-0383-0

sábado, 13 de outubro de 2018

querida kombini

Na semana passada, próximo ao dia destas bizarras, ridículas eleições, quase todos os cadernos culturais dos jornais que li davam conta da edição desse "Querida Kombini", de Sayaka Murata. Todos falavam do sucesso de vendas (mais de 700 mil exemplares vendidos no Japão) e das boas críticas (o livro ganhou o respeitável prêmio Akutagawa do ano passado). De fato o livro é bem escrito, registra literariamente uma experiência limite, descreve um comportamento social contemporâneo, alcança fazer algo que um trabalho sociológico acadêmico não alcançaria, além de provocar uma reação empática no leitor. A história é simples. Uma mulher ainda jovem, menos de quarenta anos, com estudos universitários completos, Keiko, é funcionária em uma loja de conveniência de Tóquio ("Kombini" é o nome destes lugares no Japão). Esse tipo de trabalho é em geral ocupação de estudantes, mulheres bem mais velhas que precisem ajudar no orçamento familiar, imigrantes com pouca qualificação. Todavia Keiko parece adaptar-se perfeitamente àquela função, onde antes habilidades mecânicas, rapidez e diligência são mais importantes que capacidade de abstração, raciocínio complexo ou iniciativa. O leitor acompanha os dias de Keiko, a monótona rotina de seu trabalho, algo de sua biografia, do estranhamento que provoca em familiares e amigos (se é o que ela vivencia são mesmo relações familiares ou de amizade, pois trata-se de uma pessoa socialmente deslocada em todos os aspectos). Gostei de ler o livro, mas não achei particularmente marcante, já conhecemos todos algo deste tipo de história. Para um leitor estrangeiro o exotismo da cousa, o bizarro da situação, explica algo do interesse que a história provoca, mas como explicar o sucesso de público e crítica no Japão? Talvez a história desnude aquilo que não seja fácil para eles mesmos verbalizar: a intrínseca melancolia e solidão daquela sociedade; o contraste entre o conforto material e as tensões psicológicas experimentadas pela população; a quase impossível mobilidade social; a rigidez que condena todos ou a mais completa submissão às tradições ou ao escracho total, a negação completa das convenções sociais. Esse livro lembra muito um dos primeiros livros da belga Amélie Nothomb, "Medo e Submissão", no qual ela descreve ficcionalmente sua experiência de quase servidão humana, de anulação de personalidade, vivenciada quando trabalhava como tradutora em uma grande empresa japonesa no início dos anos 1990. Lembra muito também aquele poderoso conceito de Elias Canetti: "A inversão do temor de ser tocado", mas esta é outra história e eu já especulei um bocado neste registro de leitura. Vamos em frente. Vale! 
Registro #1336 (romance #351) 
[início 06/10/2018 - fim: 08/10/2018] 
"Querida kombini", Sayaka Murata, tradução de Rita Khol, São Paulo: Editora Estação Liberdade, 1a. edição (2018), brochura 14x21 cm., 152 págs., ISBN: 978-85-7448-295-8 [edição original: Kombini Ningen コンビニ人間  (Tokyo: Bungeishunju) 2016]

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

uniões

No início deste 2018, qual não foi minha alegria ao saber que dois amigos queridos, a Kathrin Rosenfield e o Lawrence Pereira, estavam envolvidos com a tradução de Vereinigungen, um volume de contos de Robert Musil cuja leitura eu havia abandonado há pelo menos vinte anos. Desta vez, pela força da tradução deles e guiado por dois soberbos ensaios críticos da Kathrin, consegui terminar a leitura e entender algo das histórias. Musil publicou esses dois contos ("A perfeição do amor" e "A tentação da quieta Verônica") em 1911. Ele já havia alcançado reconhecimento em 1906 com a publicação de "O jovem Törless", mas o volume com os contos, nos quais dedicou mais de dois anos de trabalho, foram recebidos com indiferença ou ácidas críticas. De fato são histórias complexas, que cobram do leitor concentração, envolvimento, atenção e contínuas reflexões. Nem tudo é dito, explicitado, factual. Nem tudo é linear ou auto-consistente. Em "A perfeição do amor" acompanhamos Claudine, uma jovem senhora, que ao visitar sua filha em um colégio interno, afastada do marido, permite-se testar a atração que provoca nos homens e também testar o alcance do amor que sente por seu marido. Em "A tentação da quieta Verônica" o leitor é apresentado a uma curiosidade de mesma natureza, mas neste caso a protagonista, a Verônica do título, não precisa consumar uma conjunção carnal com um estranho para entender o que sente ou sentia pelos dois homens que a sufocavam (e continuarão a restringir suas ações de certa forma): Johannes e Demeter. Esses dois resumos são obviamente incompletos, falseantes, restritivos. Os dois contos (ou as duas novelas, numa classificação talvez mais precisa) oferecem ao leitor camadas de interpretação, ilações, pistas. Trata-se de exercícios de estilo, através dos quais Musil parece querer demonstrar literariamente as transições de nossas vontades, de nossos gestos, de nosso entendimento da realidade, das razões que entendemos justificar cada uma de nossas ações. Não são narrativas que reduzem as sutis variações de nossa humanidade à psicologia, mas uma tentativa de entender a contradição intrínseca de nossos desejos, de nossas escolhas. Escritas há mais de cem anos, as duas histórias soam frescas, provocativas, apropriadas para descrever até mesmo nós, cínicos e tolos viventes deste inicio de século XXI, ainda encerrados nas mesmas masmorras ideológicas do final do século XIX, incapazes de entendermos a realidade que nos cerca, o mundo natural, nossa psicologia. Mais não digo sobre as histórias. Mas talvez valha a pena contar algo mais sobre meu envolvimento com esse livro. Há quase vinte anos, flanando por uma estival Barcelona, num domingo, lá pelos lados do Mercat de Sant Antoni, comprei "Uniones", a versão espanhola dos contos de Musil, contos sobre os quais nunca havia tido notícia. Meses antes, ainda no Brasil, eu havia terminado de ler uma tradução (assinada por Lya Luft e Carlos Abbenseth) de "Um homem sem qualidades" e estava curioso em saber mais cousas do Musil. Porém, meu espanhol medíocre daqueles dias não me fez avançar muito (meu volume da Seix Barral está pouco rabiscado, quase não amassado, sinal que fui vencido sem dó pelas narrativas). Essa dificuldade, esse desconforto, aliás, também experimentou Thomas Mann ao ler os contos, aprendi isso nos notáveis ensaios da Kathrin, ensaios que por si só já justificam a edição. Enfim, restou ao livro perder-se nos guardados de minha biblioteca. Consultando-o agora vejo que além dos contos a edição inclui alguns mimos: (i) sete curtos relatos ficcionais que foram publicados em jornais e revistas por Musil entre 1923 e 1930 - posteriores, portanto, aos contos; (ii) seis fragmentos ficcionais que só foram publicados após a morte de Musil, em 1942, mas que foram escritos na mesma época da produção dos contos. Esses dois conjuntos de relatos eu já havia lido, estão bem rabiscados (pelo menos isso consegui, o fracasso não foi completo). Não posso finalizar esse registro sem falar mais sobre a edição brasileira, do belo "Uniões" publicado pela Perspectiva. A edição é muito bonita, inclui um conjunto de dezessete ilustrações, reproduções de gravuras em metal de três artistas plásticos (Marcos Sanches, Maria Tomaselli e Raul Cassou). As gravuras foram produzidas por encomenda, fazem parte do projeto editorial do livro e já foram expostas em Porto Alegre e em São Paulo. A edição inclui também uma sobrecapa feita pela dobradura de uma folha em formato A3, impressa dos dois lados, com reproduções das gravuras. Enfim, o livro tem algo de livro arte, de livro objeto, é uma festa para os sentidos. Todavia, convenhamos, são os dois contos do Musil o melhor desta festa sensorial. Grato a Kathrin e ao Lawrence por traduzi-los. Vale! 
Registro #1335 (contos #156) 
[início 01/09/2018 - fim: 04/10/2018] 
"Uniões", Robert Musil, tradução de Kathrin Rosenfield e Lawrence Flores Pereira, ilustrações de Marcos Sanches, Maria Tomaselli e Raul Cassou, São Paulo: Editora Perspectiva (Coleção Paralelos #35), 1a. edição (2018), brochura 14x21 cm., 240 págs., ISBN: 978-85-273-1122-9 [edição original: Vereinigungen - Zwei Erzählungen (München: George Müller Verlag) 1911]

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

nenhum mistério

Você termina de ler "Nenhum mistério" e se sente esgotado, como se tivesse passado horas no mais extenuante dos trabalhos. Todavia, o primeiro impulso após terminá-lo é voltar aos poemas iniciais, folhear o livro para encontrar aquela passagem particularmente feliz, aquele verso que nos arrebatou de vez, retornar ao assombro, ao encantamento. Nas ultimas semanas li vários livros, inclusive de poesias, como o bom "Coral e outros poemas", de Sophia Andresen, que já registrei aqui. Entretanto, nunca deixei longe esse volume de Paulo Henriques Britto, voltei aos poemas enfeixados nele várias vezes. São apenas 27 poemas, alguns anteriormente publicados em jornais e revistas, do Brasil, de Portugal e do Peru. Algumas partes de alguns poemas foram escritas originalmente em inglês (Britto é um dos mais seminais e respeitados tradutores brasileiros). Os poemas tratam das perdas, do vazio, da inutilidade da vaidade, do ofício do tradutor e do poeta, dos rancores contidos, da melancolia, dos esgares provocados pela consciência das limitações alheias, do fluir do tempo, das barreiras, dos limites (do Metron e da Húbris, diria um grego). Cada poema provoca no leitor uma reflexão dura. Somos senhores de nós mesmos ou detritos orgânicos que são continuamente arremessados de um lado para o outro, por acaso, por capricho de uma deidade brincalhona? Já li vários conjuntos de poemas de Paulo Henriques Britto ("Mínima lírica", de 1989; "Trovar claro", de 1997; "Macau", de 2006; "Formas do nada", de 2012), mas esse é o que mais me impressionou. Que poeta dos diabos. Que assombro, que potência, que festival para os sentidos. Qual poema reproduzir aqui? Como dar uma ideia ao eventual leitor das maravilhas que ele cria? Escolho esse (Dos nomes), bom divertimento: "Os nomes se enchem aos poucos, / Um dia eles perdem o estofo, / aos poucos, ou então de repente. / Então ficam ocos. // O mundo está sempre se enchendo / de cascos vazios deste tipo. / Inúteis. No entanto, assim mesmo / continuam sendo, // ocupando tempo e lugar, / iludindo quem os assume, / prestando falso testemunho / do que já não há. // E o mundo se presta a essa farsa. / É como se já não bastassem / as coisas e os nomes das coisas / que as coisas disfarçam. // E há quem (imagine!) ache pouco, / e abrace esses nomes sem estofo / e diga e rediga esses ocos / feito louco". Vale! 
Registro #1334 (poesia #101) 
[início 05/09/2018 - fim: 10/10/2018] 
"Nenhum mistério", Paulo Henriques Britto, São Paulo: Editora Schwarcz (Grupo Companhia das Letras), 1a. edição (2018), brochura 14x21 cm., 70 págs., ISBN: 978-85-359-3137-2

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Coral e outros poemas

Cada poeta é um universo, um mundo, um país, uma aldeia, uma voz. Nunca havia ouvido falar de Sophia de Mello Breyner Andresen. Noutro dia, vagabundo por uma livraria, encontrei esse volume. A organização, seleção e apresentação desta antologia é assinada pelo também poeta Eucanaã Ferraz, que conheço pouco, mas que é sempre citado em cadernos culturais como uma das boas referências de sua geração. Pois em sua apresentação, Eucanaã nos ensina sobre uma poeta forte, que viveu muito, viajou muito e publicou muito, sendo ainda seminal e respeitada em seu Portugal fundamental. Os poemas foram retirados de quatorze livros que ela publicou, desde o de estreia, em 1944, até o ultimo, de 1997 (ela morreu em 2004). Segundo Eucanaã ela adestrou seus versos em vagas, em fases, desde os três primeiros volumes ("Poesia", de 1944; "Dia e mar", de 1947; "Coral", de 1950), com os quais ganhou consagração; passando por "No tempo dividido", de 1954, e "Mar novo", de 1958 (livros de continuidade nos temas, mas com mudanças estilísticas); "O Cristo cigano", de 1961, que ela um dia renegou, mas fez ainda em vida voltar às edições de sua obra completa; "Livro sexto", de 1962, e "Geografia", de 1967 (livros que brotaram de uma espécie de angústia da influência de nosso João Cabral de Melo Neto, de uma fase sua onde a arte parecia negar a vida, da descoberta do Brasil); "Dual", de 1972, e "O nome das coisas", de 1977 (volumes que tratam de sua redescoberta de Portugal, de Fernando pessoa, do impacto da esperada Revolução dos Cravos, quando Portugal tardiamente livrou-se da ditadura de António de Oliveira Salazar); "Navegações", de 1983, e "Ilhas", de 1989 (volumes onde são as viagens e o mar que povoam a experiência da poeta); e os dois últimos, "Musa", de 1994, e "O búzio de cós e outros poemas", de 1997, com os quais Sophia faz-se uma Janus, olha para trás, avalia sua trajetória artística, porém, bifronte, encara o futuro e unifica sua obra, numa coda calma e feliz. Seus temas são aqueles sempre caros aos poeta fortes: o mar, a presença grega, uma deidade ou religião, as viagens, a consciência da linguagem, o fluir do tempo. Se aprende um bocado lendo alguém assim. Várias vezes, dentre os poemas recolhidos por Eucanaã, descobrimos uma ânfora. Curioso, fiquei a imaginar se essa imagem é mesma algo perene em sua obra (esta antologia só nos ensina uma fração dela, só nos dá um vislumbre de uma vastidão de palavras). Imaginei-a como um navio repleto de ânforas poéticas, que repentinamente foi resgatado do mar. Eucanaã fez essa antalogia, mas nos convida em sua apresentação a elegermos a nossa, navegarmos no mar de poemas de Sophia Andresen, descobrirmos nós mesmos seus versos, suas imagens, seu mundo. Vale! 
Registro #1333 (poesia #100) 
[início 15/08/2018 - fim: 08/10/2018] 
"Coral e outros poemas", Sophia de Mello Breyner Andresen, São Paulo: Editora Schwarcz (Grupo Companhia das Letras), 1a. edição (2018), brochura 14x21 cm., 390 págs., ISBN: 978-85-359-3079-5

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

a fada sem cabeça

Acho que já li tudo o que Luís Henrique Pellanda publicou em livro. As crônicas curitibanas dele são imbatíveis, difícil dizer qual de seus livros ("Asa de sereia", "Nós passaremos em branco" e "Detetive à deriva") é melhor. Já registrei aqui a sorte que uma cidade tem quando um bom cronista navega por ela, recolhendo histórias e produzindo pequenos milagres literários, que a eternizarão. Pellanda também já havia publicado alguns contos seus em "O macaco ornamental", seu livro de estreia, de 2009. Nesse "A fada sem cabeça", seu mais recente lançamento, estão reunidos 28 contos, produzidos entre 2010 e 2017, sendo 14 anteriormente publicados em cadernos culturais, jornais ou revistas, 5 publicados em um blog (Asa de sereia) e 9 inéditos. As narrativas quase sempre brotam da memória de um sujeito sobre seus dias de juventude, não exatamente da infância, mas de uma época em que ele era jovem o suficiente para experimentar assombros, vivenciar descobertas marcantes, encantar-se sem medo de ser piegas. Há um clima de contos de fada ou de sonho em todos eles, como se o passado precisasse de uma pátina de fantasia ou ilusão para ser devidamente aceito, entranhado, absorvido pelo sujeito que rememora. Onze dos vinte e quatro contos, um tanto mais curtos, são enfeixados em um sessão dita "Pesadelos possíveis", impressos em folhas azuis, que contrastam com o branco convencional dos demais. Nestes onze a ambientação mágica, de fábula, de faz-de-conta é ainda mais marcante, o leitor viaja para longe, para seu passado de criança, quando ainda ouvia e lia contos de fada e se encantava com as invenções. Nunca é tarde para voltar a ser criança e entender das coisas metaforicamente, sem barreiras intelectuais. Claro, há um travo amargo em todas as histórias, que carregam um fracasso, uma derrota, um pequeno horror, talvez uma negação. Nada finalizador, incontornável, definitivo, mas que nos faz lembrar do poder do acaso na vida, de uma eventual estagnação de nossas vontades, dos caminhos de infinitas bifurcações que trilhamos todos nós, cegos sendo guiados por cegos. Ojo. Grande escritor esse Pellanda. Vamos a ver o que ele inventará a seguir. Vale! 
Registro #1332 (contos #155) 
[início 11/09/2018 - fim: 15/09/2018] 
"A fada sem cabeça, Luís Henrique Pellanda, Porto Alegre: Arquipélago Editorial, (1a. edição) 2018, brochura 14x21 cm., 176 págs., ISBN: 978-85-5450-014-6

terça-feira, 25 de setembro de 2018

queria ter ficado mais

"Queria ter ficado mais" é o resultado de um projeto bacana, que aposta na emoção, na sensibilidade, na paixão. Doze mulheres, doze jornalistas, foram convidadas para produzir relatos sobre alguma experiência de viagem. A ideia era elaborar narrativas que não servissem para fins práticos, como num guia de viagens, antes sim que evocassem o clima e a magia das viagens, o impacto de experiências que nos transformam. A edição é bem caprichada e inusual, bonita mesmo (como em geral são os livros da Lote 42). Trata-se de doze envelopes do tamanho de um cartão postal com cartas curtas, endereçadas ao eventual leitor, como em uma confissão. Os envelopes são ilustrados com aquarelas muito bonitas, assinadas pela artista plástica Eva Uviedo. As autoras quase sempre escrevem retrospectivamente, não durante as viagens, mas relembrando delas, falam daquilo que de marcante viveram em um determinado momento de suas vidas. Quase todos os destinos, ou melhor, sete deles, são mais ou menos óbvios: New York, Barcelona, Berlim, Paris, Roma, Londres, Buenos Aires. Três (Istambul, Tóquio, Israel e Valência) são só algo extravagante de se escolher em uma primeira viagem internacional. O único exótico e realmente diferente é Yangshuo (no sul da China, a aproximadamente 460 Km de Hong Kong). Na verdade esta foi a única história que realmente gostei, que alcançou comigo compartilhar a epifania que eventualmente experimentamos em uma viagem, o deslumbramento e alegria da descoberta, a sensação de que a vida vale a pena ser vivida sempre daquela forma. As demais são histórias convencionais, povoadas por clichês: correrias, atrasos em vôos, flertes ou sexo eventual, caminhadas ao luar, festas amalucadas. Talvez seja apenas minha natural rabugice que me impediu apreciar melhor as cartas, os relatos. Talvez se fossem histórias contadas por amigas de fato, ou por gente que falasse de suas aventuras em uma mesa de jantar ou numa noite na praia, para um grupo grande, rindo e detalhando as coisas ao sabor das reações dos demais, o efeito fosse mais marcante. Vai saber. De qualquer forma, sempre é uma boa ideia viajar, viver. Vale! 
Registro #1331 (cartas #8) 
[início 01/07/2018 - fim: 21/09/2018] 
"Queria ter ficado mais", Barbara Heckler, Bruna Tiussu, Cecília Araújo, Cecília Arbolave (organização), Clara Averbuck, Clara Vanali, Florencia Escudero, Isis Gabriel, Ligia Braslauskas, Lívia Aguiar, Luciana Breda, Olívia Fraga, ilustrações de Eva Uviedo, São Paulo: Editora Lote 42, 1a. edição (2015), 12 envelopes, 16x11 cm., 107 págs., ISBN: 978-85-66740-10-3

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

contos da vida expedicionária

Foi o Samuel Pessoa, amigo querido, quem falou-me dos contos de Celso Furtado, na tarde mágica de um sábado do último maio, em que falamos do passado (dos tempos do IFUSP e dos amigos de então), do presente terrível (eram os dias da greve dos caminhoneiros) e do futuro (dos planos para as férias de inverno e as viagens que faríamos). Também ouvi da Heloísa histórias maravilhosas sobre literatura, amizade e vida, conheci amigos deles, acompanhei a vibração e alegria contagiante da pequena Inês. Só faltou para mim rever a Raquel, que estava com a Silvia no Rio de Janeiro. Foi o dia em que fizemos libações e sonhamos, uma vez mais "drowning in honey, stingless". Algo sobre o Celso Furtado político, intelectual brasileiro de primeira linha, ministro e imortal da Academica Brasileira de Letras eu já sabia (sou um velho e cansado senhor, já se sabe). Todavia, não tinha ciência desta incursão dele pela ficção, destes contos escritos na juventude, quando não tinha ainda 25 anos. São dez histórias curtas, produzidas no período em que ele fez parte da Força Expedicionária Brasileira, como oficial de ligação junto ao V exército americano, sediado na Toscana italiana, entre janeiro e agosto de 1945. A segunda grande guerra já se encaminhava para seu desfecho. Os contos explicitam uma mente sofisticada, erudição indisfarçada, curiosidade intelectual. De situações banais, na medida em que algo que aconteça durante uma guerra devastadora pode ser banal, Furtado constrói contos morais, reflexões sobre o comportamento humano, faz observações sobre decisões e escolhas, análises finas sobre geopolítica, psicologia e economia. O narrador de Furtado sempre é um oficial brasileiro, como ele, Tenente, que experimenta uma situação limite, nem sempre envolvendo combates e mortes, o trágico da guerra, antes sim sobre aquilo de essencialmente humano que transparece dos escombros de uma civilização. Numa história um pracinha, cansado, sonha com o furto de uns cigarros e o suicídio de um prisioneiro alemão; noutra um pracinha experimenta a cumplicidade de uma combatente italiana, numa espécie de aprendizado sobre o papel da mulher na sociedade; noutra ainda se descreve a aventura de um brasileiro que se encanta com sua imersão nos séculos de história de uma Florença que conhecia apenas livrescamente. Há historias envolvendo vingança e honra. Numa um negro mata um prisioneiro alemão por conta de um bombardeio no qual morre uma velha senhora italiana que ele mal conhecia; noutro um oficial salva a vida de uma jovem, acusada de ter sido simpática aos invasores nazistas. Há histórias nas quais certos aspectos da psiquê brasileira são explorados, como aquela em que uma italiana que pretendia casar-se com um soldado brasileiro para emigrar para o Brasil descobre ser ele casado e mulherengo, e uma outra, uma releitura divertida da Divina Comédia de Dante, em que vários amigos falam das diferenças entre as mulheres do Brasil e da Europa, histórias que beiram o preconceito, mas como trata-se de histórias de caserna, estão longe de ser misóginas. De três contos eu gostei especialmente. O primeiro é uma espécie de road-movie, no qual dois oficiais brasileiros saem de folga numa viagem de Milão a Paris, em busca de sexo e alegria, interagindo com americanos, franceses e até prisioneiros alemães, contrastando hábitos e costumes desses povos; no segundo se narra dias de festejos em uma praia italiana, nos quais uma antropóloga dinamarquesa se espanta com a erudição de um seu confrade brasileiro, que imaginava viver de tanga e a tocar tambores; já o último basicamente trata do debate intelectual entre um oficial americano e um brasileiro, em que se digressa, no limite da civilidade, os diferentes hábitos e história dos dois povos, se desnuda, numa sociologia selvagem, aquilo que os une e os afasta. Seguro que esses contos não brotaram só da experiência de Furtado, devem ter sido ouvidos, em uma miriade de versões, de seus confrades combatentes, sujeitos que inventam e exageram seus sucessos e conquistas, que seletivamente usam a memória. De qualquer forma, Furtado inclui nas histórias reflexões sobre o Brasil, fala da riqueza de sua composição e diversidade étnica; da funesta vocação para o subdesenvolvimento brasileiro, derivada de sua posição periférica; da falta de objetividade da elite brasileira, incapaz de colocar seu refinamento intelectual a serviço de projetos e em ações que transformem seu pais. São contos otimistas, de alguém que espera reverter essa inação, sabedor dos desafios que enfrentará. Os narradores de Furtado vão a museus, a concertos, discutem sobre Brahms e Verdi, são algo lascivos, como não, fazem uso do exotismo para angariar simpatias, são intelectualmente curiosos, dominam as regras de etiqueta e civilização, sabem argumentar e ferir com a linguagem, mais que com a espada. Ao retornar ao Brasil, em agosto de 1945, Furtado começou sua caminhada no palco dos embates políticos, econômicos, sociológicos. Inegável é sua perene presença nos debates acadêmicos sobre o sempre futuro desenvolvimento brasileiro. Não conheço suficientemente sua obra econômica para dizer se suas idéias ainda são válidas, se suas análises sobre as raízes de nosso subdesenvolvimento de alguma forma devem ser levadas em consideração hoje, em que vivemos décadas de crescimento econômico pífio. Como leitor, apenas destes dez bons contos, imagino que talvez o Brasil tenha perdido um bom artificie da língua, um bom escritor, um sujeito cuja intuição literária talvez poderia contrastar e tornar-se mais seminal que aquela de um Jorge Amado, por exemplo. Difícil dizer. Vamos a ver o que o Samuca dirá sobre ele, no livro que prepara e promete publicar ainda neste funesto ano, de eleições, em que teremos todos de tomar decisões cujas consequências são terríveis. A ver. Vale! 
Registro #1330 (contos #154) 
[início 21/09/2018 - fim: 23/09/2018] 
"Contos da vida expedicionária (Obra autobiográfica de Celso Furtado, Tomo1)", Celso Furtado, Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra (Grupo Editorial Record), 1a. edição (1997), brochura 14x21 cm., 367 págs., ISBN: 85-219-0282-4

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

algum tempo depois

Estive em uma missão de trabalho no interior do Espírito Santo e achei por lá, por um feliz acaso, esse livro de Manoel Carlos Karam, de quem nunca havia lido nada. O volume chamou-me a atenção pois só há um par de meses eu havia tido notícia de Karam e de sua obra, informado pelo industrioso Marcio Renato dos Santos, imortal curitibano, jovem jornalista que conhece como poucos o mundo dos livros e da literatura deste país (o negócio dos livros e a arte da narrativa não são exatamente sinônimos). Em "Algum tempo depois" acompanhamos as reflexões de um homem que é uma espécie de espião industrial, um agente ou operador de uma empresa que oferece serviços sujos ao mercado. O romance me parece uma metáfora da vida vazia, da rotina e do tédio de que padecem, em qualquer tempo ou lugar, a maioria dos trabalhadores, no exercício de qualquer tipo de atividade. O narrador de Karam não tem nome, o leitor jamais saberá em que cidade ele vive, em que ano se sucedem os acasos da história. Esse narrador é obcecado por certos temas, repetitivo, incapaz de surpreender-se de fato com a vida. Os temas que lhe são caros são o tempo, os vinhos, a ideia de usar óculos, a seriedade de sua ocupação, os resultados esportivos, o silêncio, os sonhos, as variações de caminhos entre sua casa e seu escritório, as regras de sua atividade, a possibilidade do riso, as viagens de sua mulher (que é uma espécie de duplo seu, igualmente distante, enigmática, vazia). É um livro bem escrito, bem humorado, fácil de ler. Mas esse facilidade é cousa pensada, articulada, pois o leitor é continuamente provocado a conferir se não é uma espécie de espelho mágico aquilo que está a ler, se aquele tédio entranhado não é igual ao seu. Muito interessante. Vamos a ver se acho outras cousas dele para ler. Vale! 
Registro #1329 (romance #350) 
[início 28/08/2018 - fim: 11/09/2018] 
"Algum tempo depois", Manoel Carlos Karam, Curitiba: Arte e Letra Editora, 1a. edição (2014), brochura 13x19 cm., 176 págs., ISBN: 978-85-60499-61-8

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

monstruário

A ideia até que é bacana, as ilustrações bonitas, mas não gostei desse "Monstruário", de Katia Canton. Sou um velho e cansado leitor, já se sabe, talvez não saiba exatamente por quais caminhos se deve sensibilizar os jovens para lhes possibilitar compreensão de temas complexos. Paciência. Katia Canton nos oferece um catálogo com doze tipos de monstros modernos, que assombram gente jovem e adultos, como não, também disponibilizando um antídoto adequado aos efeitos perniciosos provocados por eles. Os doze monstros de seu catálogo são alegorias de vícios, emoções dolorosas ou manias bem humanas, como o medo, a gula, a raiva, a ansiedade, a mentira, a culpa, o preconceito, a falta de autoestima, a depressão (e de todas as demais variantes possíveis). Funciona se o leitor entender o jogo, aquilo que não é explicitado no texto ou nas ilustrações. Talvez se uma pessoa mais velha lesse as histórias, como num conto de fadas, o efeito seja apreciável. Todavia, acho difícil que um adolescente, que é quem mais é afetado por estes males da contemporaneidade, aceite que um adulto leia em voz alta um livro para eles. Se para as crianças os argumentos utilizados são sutis demais para o real entendimento e se para um adolescente soam pueris, aborrecidos, talvez o livro só funcione para pais adultos, que precisam de alguma informação para entender as variações no humor de seus filhos. Muitos talvez para um livro só. Vamos em frente. Vale! 
Registro #1328 (infanto-juvenil #47) 
[início - fim: 07/09/2018] 
"Monstruário", Katia Canton, ilustrações de Maurício Negro, São Paulo: Editora DCL, 1a. edição (2013), brochura 16x23 cm., 32 págs., ISBN: 978-85-368-1593-0

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

recuerdos durmientes

Fazia tempo que não lia algo de Patrick Modiano. Entre 2014 e 2015 li pelo menos uns quinze romances dele. Encontrei esse volume junto com um ótimo livro do Vargas Llosa, lá em Buenos Aires, como já registrei aqui. "Recuerdos durmientes" é um pequeno romance, que gravita um mundo de mulheres, da lembrança de mulheres que vagamente foram importantes para um sujeito. O narrador, Jean D., que pode ou não ser um alter ego de Modiano, pois tem a mesma idade, ofício, hábitos e preocupações estéticas, recolhe fragmentos de seu passado. Os acontecimentos que o narrador resgata são sobretudo da primeira metade dos anos 1960. O jovem Jean, solitário e tímido, caminha pela cidade, como sempre deve ser, sem rumo, perdendo-se, para logo encontrar algo interessante e vívido, surpreendendo-se.  As mulheres que Jean quer retrospectivamente decifrar são "a filha de Stioppa", um amigo de seu pai, provavelmente um contrabandista de origem russa; Mireille Ourousov, que o havia ajudado quando ele teve uma enfermidade durante uma viagem de seus pais; Geneviéve Dallame, leitora solitária que ele conhece num café e com quem se envolve afetivamente; Madeleine Péraud, uma velha amiga de Geneviéve, dona de uma livraria especializada em ciências ocultas; Madame Hubersen, uma colecionadora de máscaras e esculturas africanas; Martine Hayward, que organizava festas para dançarinos e artistas; um garota inominada, que com ele partilha atração e curiosidade sobre os mistérios de Paris, e que ele ajudou a esconder-se de um crime. O livro oscila, como num sonho, entre o período em que está sendo escrito, 2017, os anos 1990 e 2000, em que o narrador reencontra por acaso aquelas mulheres, já metamorfoseadas, e os anos 1960, vividos por ele, mas suficientemente soterrados por camadas de esquecimento, de forma que ele nunca fica seguro se realmente experimentou aquilo tudo ou apenas o inventou. O passado que se evoca é de fábula, mítico. O narrador, como sempre nos livros de Modiano, tem a especial capacidade de saber ouvir confidências de seus interlocutores, sem nunca devolver seus segredos, revelar-se. As velhas agendas, recortes de jornais e revistas, dossiês, fotografias, papéis com anotações indecifráveis, parecem brincar com o velho senhor que narra, inebriado consigo, com seu duplo do passado, curioso daqueles sucessos quase sem sentido, irrelevantes. Assim, enigmática e bela, é a vida que todos experimentamos, e continuamos a experimentar. Vale! 
Registro #1327 (romance #349) 
[início 06/09/2018 - fim: 08/09/2018] 
"Recuerdos durmientes", Patrick Modiano, tradução de María Teresa Gallego Urrutia, Barcelona: editorial Anagrama (Panorama de Narrativas #982), 1a. edição (2018), brochura 14x22 cm., 104 págs., ISBN: 978-84-339-8012-0 [edição original: Souvenirs dormants (Paris: éditions Gallimard) 2017]

terça-feira, 11 de setembro de 2018

la llamada de la tribu

Em julho, Helga e eu zarpamos para Buenos Aires. Fazia bastante frio e choveu à beça, mas conseguimos aproveitar os dias nos cafés, nos museus, nas livrarias e também nas calles (como não flanar sem rumo em uma cidade como Buenos Aires?) Aconteceram várias cousas bacanas. Por uma coincidência dos diabos fiquei hospedado ao lado de um apartamento que já havia sido habitado pelo Garcia Lorca, em 1933. Pensei muito nele e em sua poesia. Tomamos vinho e passeamos, achamos por acaso lugares bacanas, como um piano bar que também funciona como livraria, chamado "Clásica y Moderna" e a "Quetec oliva y gourmet", na Avenida de Mayo. Na excelente Fundación PROA achei dois livros do Joyce recentemente publicados por lá: uma nova versão do Ulysses e uma nova versão de seus poemas. Em uma das excursões literárias que fizemos encontrei esse "La llamada de la tribu", livro de Mário Vargas Llosa, que quente como pão fresco ocupava várias estantes da boa livraria Cúspide. Li a introdução ao livro ainda lá em Buenos Aires e imaginava que em poucos dias terminaria a leitura, mas não foi isso que aconteceu. Trata-se de um volume robusto, denso, que cobra atenção e reflexão do leitor. Na verdade são sete pequenas biografias o que Vargas Llosa engendrou. Há algo explicitamente autobiográfico na escolha dos sujeitos sobre os quais ele fala: Adam Smith, José Ortega y Gasset, Friedrich von Hayek, Karl Popper, Raymond Aron, Isaiah Berlin e Jean-François Revel. A estes sete sujeitos, sete filósofos, Vargas Llosa atribuiu sua formação e conversão ao cânone liberal, a defesa desta doutrina (que não é única, nem invariante no tempo) como opção mais viável para a melhor convivência entre os homo sapiens deste planeta. A leitura sistemática destes autores, em suas próprias palavras, "moldou sua forma de pensar e ver o mundo nos últimos cinquenta anos". Não é pouco. Apesar de saber ao menos os nomes e fragmentos biográficos, nada li sistematicamente dos gurus ideológicos de Vargas Llosa, com a exceção de um único livro de Isaiah Berlin, que já registrei aqui, sobre as raízes do Romantismo, e de Karl Popper, de quem li dois poderosos volumes por indicação do Manoel Robillota, num curso de evolução dos conceitos da Física, que fiz no IFUSP, na flutuante primeira metade dos anos 1980. Ainda tenho os surrados volumes de "A sociedade aberta e seus inimigos" em minha biblioteca que fica guardada no campus da UFSM. Lembro-me bem que meu colega de aventuras neste tempo era o Samuel Pessoa, ainda não metamorfoseado no seminal doutor em economia que é hoje. Bueno. Um outro autor, seduzido pelas ideias liberais, talvez fizesse outras escolhas, mas eu entendo as dele. Nos ensaios (pois é disso que se trata), Vargas Llosa analisa vida e obra de cada um dos sujeitos biografados. A ênfase é em seu envolvimento pessoal com a obra deles, mas os aspectos mais relevantes são antes literários que biográficos. Levei várias semanas para encontrar o ritmo adequado de leitura. Cada autor cobra uma percepção diferente. Todavia, aprendi um bocado. De Adam Smith , Raymond Aron e Ortega Y Gasset só conhecia umas piadas, uns fragmentos biográficos, uns chistes; de von Hayek e Revel nada de nada. Há muitas pérolas neste livro. Fiquei impressionado sobretudo com as reflexões de Raymond Aron, Jean Revel e Isaiah Berlin. Os sete cavaleiros de Vargas Lllosa acreditam que viver civilizadamente implica na aceitação tácita da liberdade e da legalidade, do individualismo e da propriedade privada, da luta pelos direitos humanos, boa convivência humana e paz. O livro serve como uma síntese política do século XX, das transformações sociais  e conflagrações pelas quais passamos. Helas! Não se pode fazer tudo na vida, ler tudo, dedicar-se com disciplina a assuntos que não são exatamente afeitos a seu ofício ou ocupação. Mas como não digressar pelas ideias dos outros, sem medo, sem temor, mas também sem esperança, sem a certeza de que aquilo nos servirá para entendermos melhor o mundo, enquanto ainda somos curiosos. Se o Vargas Llosa só ficou sabendo da existência de "Rumo a estação Finlândia", de Edmund Wilson, uns dez anos depois de mim (que o li em 1986), tudo é possível. Outros livros já cobram meu tempo, minha atenção, mas este ficará em minha memória como um livro de aprendizado, um volume de encantamentos. Talvez devesse ser sempre assim. Vale! 
Registro #1326 (crônicas e ensaios #232) 
[início 27/07/2018 - fim: 10/09/2018]
"La llamada de la tribu", Mário Vargas-Llosa, Cíudad Autônoma de Buenos Aires: Alfaguara / Penguin Random House Grupo Editorial, 1a. edição (2018), brochura 13x21,5 cm., 312 págs., ISBN: 978-987-738-452-9

sábado, 8 de setembro de 2018

o gato e as orquídeas

Como já mencionei ao falar de "O gato filósofo", no último Natal dei de presente para algumas pessoas queridas volumes dos livros de Kwong Kuen Shan. Disse também que ela é uma artista plástica chinesa, havia nascido em Hong Kong e vivia radicada na Inglaterra há muitos anos. Neste volume sua arte gravita o mundo dos gatos e dos arranjos florais. As ilustrações - aquarelas - são muito bonitas e, a exemplo daquele volume anterior, compartilham espaço com textos chineses antigos, provérbios tradicionais, poemas e ensinamentos zen. Trata-se do tipo de livro que folheamos sem pressa, esboçando risos, respirando lentamente, em paz; experimentamos algum espanto ao virarmos uma determinada página. Textos e imagens formam um belo conjunto, funcionam bem juntos. Há alguma magia na disciplina que decorre da observação, ganha-se algo naqueles momentos em que, com calma e paciência, necessárias para que se mergulhe verdadeiramente naquele mundo flutuante e sutil, nos entregamos completamente às flores e aos gatos ali representados. Novamente encontramos quarenta ilustrações, e novamente às imagens são acrescentados caracteres chineses e sinetes, que representam o estado de espírito da artista no momento de criação. ÔBeleza. Vale! 
Registro #1325 (livro de arte #27) 
[início 18/05/2018 - fim: 19/05/2018]
"O gato e as orquídeas", Kwong Kuen Shan, tradução de Denise Bottmann, São Paulo: Estação Liberdade, 1.a edição (2018), brochura 17x17 cm., 96 págs., ISBN: 978-85-7448-296-5 [edição original: Le Chat à l'orchidée (Paris: Editions L'Archipel) 2015]

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

valerian 3

Esse é o terceiro volume das aventuras de Valerian e Laureline, invenção genial de Pierre Christin e Jean-Claude Mézières. Já contei algo aqui sobre os dois primeiros álbuns, bem editados pela Editora Sesi-SP (volume #1 e volume #2). As três histórias reunidas neste terceiro álbum, a exemplo do que se vê nos anteriores, são icônicas dos tempos de contracultura e transformações sociais dos anos 1970. Em "O embaixador das sombras", publicado originalmente em 1975, o leitor acompanha uma destemida Laureline, comprometida em resgatar Valerian, que foi sequestrado por um povo estranho, antiquíssimo e sábio, e cuja função no universo é conter a arrogância natural e despotismo dos terráqueos. Há uma miríade de curiosos seres alienígenas na trama, habitantes de uma espécie de ONU galática, lugar onde são debatidos temas de interesse tão complexos e contraditórios quanto aqueles que povoam a nossa, real. Christin e Mézières são otimistas, fazem seus personagens lutar pelo bem comum e a livre determinação dos povos da galáxia. Em "Nas terras falsificadas", de 1977, Laureline é novamente protagonista frente a um empalidecido Valerian (já existia empoderamento feminino nos anos 1970, esqueceram de avisar para as feminazis do século XXI). Acompanhamos o diletantismo de uma pesquisadora terrestre que usa Valerian para emular infinitas alternativas históricas para os séculos XIX e XX, nas quais clones dele repetidamente morrem. Trata-se de uma espécie de pesquisa acadêmica estéril e irrelevante. A história explicita críticas às universidades, ao afastamento entre o mundo acadêmico e o mundo real, das pessoas comuns, que são afetadas por descobertas científicas e processos de engenharia social engendrados por pesquisadores que mal conhecem as necessidades verdadeiras de seus concidadãos. Já na terceira das histórias deste álbum, "Os heróis do equinócio", o tema principal é o envelhecimento e a educação dos filhos. Valerian junta-se a três outros alienígenas numa competição que visa escolher quem melhor fecundará um planeta, repovoando-o. A história metaforicamente contrasta três alternativas de organização social, igualmente perigosas e perversas: o fascismo, o comunismo e a alienação pelas drogas, a fuga da realidade, a vida de contemplação. Muito interessante. Espero mesmo que a SESI-SP continue editando estas curiosas histórias. Vale! 
Registro #1324 (graphic novel #71) 
"Valerian Integral (volume #3)", Pierre Christin, Jean-Claude Mézières, cores de Évelyne Tranlé, tradução de Fernando Paz, São Paulo: SESI-SP editora, 1a. edição (2018), brochura 22,5x29 cm., 172 págs., ISBN: 978-85-504-0668-8[edição original: Valérian Intégrale - tome 3 (Paris: Dargaud) 1978]

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

abaixo do paraíso

Nunca havia lido nada de André de Leones, jovem e premiado escritor goiano, radicado em São Paulo. Ele já publicou sete livros, o mais recente, "Eufrates", ainda quente, recém saído das rotativas (e já viajando pelas nuvens digitais). Recentemente li o romance imediatamente anterior dele, "Abaixo do Paraíso", publicado em 2016. Se o início do romance induz o leitor a pensar que se trata de algo relacionado a solução de um mistério, como numa história policial, rapidamente percebemos uma mudança de tom e de estofo, ao submergirmos na consciência, ora cínica, ora pesada, de um típico trambiqueiro da política nacional, aquela espécie de sujeito que vive de fazer favores aos detentores de mandato, aos corruptos de plantão. Esse sujeito, Cristiano, é ainda jovem, formado em Direito, mas sem nunca tendo exercido a advocacia. Seu pai é um fazendeiro do interior de Goiás, se não exatamente próspero, certamente sem problemas financeiros aparentes, já casado com outra pessoa e com uma filha universitária. Nos tempos em que frequentava o curso superior, mais preocupado em facilitar drogas para os amigos e seduzir mulheres no campus, conheceu Paulo, que o introduziu no mercado e na vertigem da política. O livro é de fato bem escrito, com diálogos sempre curtos, enfeixados por flashes nunca cronológicos, fluxos de consciência e reflexões sobre o Brasil contemporâneo. As referências bíblicas são óbvias e de certa forma estruturam o romance. Os temas que povoam a conturbada mente e memória de Cristiano gravitam os ritos de passagem, o luto, a morte de pessoas próximas, a culpa cristã, uma possível redenção, sua volta para casa como filho pródigo, a purificação de seus vícios de conduta, seus muitos pecados capitais. Nele estão entranhadas a perversão, o pecado original, seja pela genealogia viciada, seja pelo ambiente tóxico de sua atividade. No fundo quase todos os operadores do Direito brasileiro, esse apodrecido, enorme e inacreditavelmente caro sistema judiciário, são variantes de Cristianos, atuam nas margens turvas da lei para facilitar que os corruptos de sempre alcancem suas vantagens. Aos pequenos atravessadores sobram migalhas que eventualmente seus senhores mentais deixam para trás. Gostei. Vou procurar outros livros de Leones, seguro que sim. Cabe ainda acrescentar aqui uma cousa mais. Foi o Erwin, amigo de longe e também conhecedor de minhas falhas, quem perguntou-me noutro dia se eu havia lido algo do André de Leones e que, generoso, fez chegar um volume até mim. Grato meu caro Erwin, Viva. E segue o baile. Vale! 
Registro #1323 (romance #348) 
[início: 26/05/2017 - fim: 31/08/2017]
"Abaixo do Paraíso", André de Leones, Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1a. edição (2016), brochura 14x21 cm., 253 págs., ISBN: 978-85-325-2977-0

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

mares do leste

O sueco Tomas Tranströmer recebeu o prêmio Nobel de Literatura em 2011. Esse é o primeiro volume com poemas dele editado no Brasil. A seleção e organização é assinada por Marcia Schuback. Não se trata exatamente de uma antologia. Ela recolheu poemas de "17 poemas", primeiro livro dele publicado, em 1954; "Mares do Leste", de 1974; "Gôndola lúgubre", de 1996; "Prisão", de 2001 e "Grande enigma", de 2004. Ficaram de fora pelo menos oito outros livros, publicados entre 1958 e 1989. Àqueles cinco citados acima a tradutora acrescentou um texto inédito, de 1977, cedido pela viúva de Tranströmer e, separados, um conjunto de 64 robustos haikus retirados dos três últimos ("Gôndola funebre", "Prisão" e "Grande enigma"). De qualquer forma, metade do volume corresponde a haikus, forma poética de inspiração japonesa, na qual cinco, sete e novamente cinco sílabas formam três versos curtos. Essa constatação é óbvia,  vale sempre, para qualquer autor forte de poesia, mas especialmente aqui não se trata de material para ser lido depressa. Comecei e abandonei esse livrinho diversas vezes. Os poemas são densos, as imagens e metáforas cobram algum esforço. Curiosamente, nos meses em que fiquei com o volume à mão, assisti várias séries nórdicas na Netflix (algumas por sugestão do indefectível Renato Cohen, sempre antenado), assim sendo minha imaginação já estava povoada com a vastidão do horizonte, a paleta de cores frias, a onipresente neve, o silêncio tumular, o vertical assombro das compactas florestas de pinheiros, o céu plúmbeo repleto de aves de arribação em fuga. "Mares do Leste", que dá nome ao volume, é um poema longo, cheio de surpresas. "Preludio", recolhido de "17 poemas", também espanta pela falsa simplicidade dos achados. Os poemas de "Gôndola fúnebre" foram os que mais gostei. Tratam de viagens, pela Europa e pelo tempo. A edição é bilingüe, mas o sueco é tão impenetrável escrito quanto ouvido, não se pode alcançar saber tudo nesta babélica vida. Os haikus se defendem sozinhos. Há cousas típicas do mundo flutuante, o lago, o sapo, a árvore, o rio e o mosteiro, mas também cousas do Norte escandinavo, os fiordes, os mares de gelo, as sombras longas. Preciso em algum momento registrar os haikus do Bashô que me assombram desde janeiro, mas ainda não estou pronto, não é tempo. Em dezembro talvez. Vale!
Registro #1322 (poesia #99) 
[início: 16/05/2017 - fim: 31/08/2017]
"Mares do Leste e outros poemas", Tomas Tranströmer, tradução Marcia Sá Cavalcante Schuback, Belo Horizonte: Editora Âyiné (coleção Das Andere #2), 1a. edição (2018), brochura 10,5x15 cm., 231 págs., ISBN: 978-85-92649-32-6 [edição original:  (Stockholm/Sweden: Albert Bonniers Förlag) 2015]

domingo, 2 de setembro de 2018

aquela água toda

Nunca havia lido nada de João Carrascoza, premiado escritor paulista. Noutro dia, flanando sem pressa, encontrei lá nos domínios do Gus Ventura em Porto Alegre esse pequeno volume de contos. Interessantes. São onze histórias curtas, que gravitam o universo da memória, os fragmentos da infância, a reconstrução daquele mundo idílico e provavelmente inventado por nós mesmos, péssimos arqueólogos dos escombros de nossa vida. São bastante inventivos, sempre leves, mas de uma falsa simplicidade. Para produzir ficção assim o sujeito precisa dominar bem o seu ofício. Numa história o narrador traduz aquele consolo que só a imensidão do mar é capaz de oferecer a homens aborrecidos; noutra relembra o friúme de um primeiro encontro, num cinema; noutro ainda fala das estratégias toscas que só a ingenuidade infantil sabe criar. Nos contos não há digressões filosóficas, deambulações teóricas, escolhos retóricos. Uma situação é apresentada, desenvolvida com lirismo e cirurgicamente finalizada. Sem malabarismos, sem artifícios bestas. Gostei especialmente de "Recolhimento", onde um sujeito experimenta uma dolorosa epifania, e de "Mundo justo", que trata de como aceitamos retrospectivamente o luto, a perda. O livro inclui um conjunto de ilustrações assinadas por Visca, um artista plástico paulista (há coisas bacanas dele no Instagram: clica!). Vamos a ver quando o acaso irá me trazer outra pequena maravilha assim. Vale! 
Registro #1321 (contos #153) 
[início: 26/08/2017 - fim: 28/08/2017]
"Aguela água toda", João Anzanello Carrascoza, Rio de Janeiro: Editora Schwarcz (Alfaguara / Penguin Random House Grupo Editorial), 1a. edição (2018), brochura 12x18 cm., 112 págs., ISBN: 978-85-5652-023-4

sábado, 1 de setembro de 2018

quem sofre são as crianças

"Quem sofre são as crianças" é o décimo sexto volume com os sucessos do comissário Guido Brunetti, poderosa invenção de Donna Leon. Desta vez os temas abordados por ela são a maternidade, as infidelidades conjugais, as regras de adoção, o xenofobia, a privacidade de nossos dados e a questão do aborto. Brunetti não deveria envolver-se no caso (o sequestro de uma criança que supostamente foi adotada ilegalmente), pois trata-se de uma investigação sob a responsabilidade dos "Carabinieri", mas por um imperativo moral ele ao menos precisa saber qual a motivação e as circunstâncias do fato. Há algo de teatral neste volume, o ritmo é lento, como se cada tema precisasse maturar por bastante tempo antes de seguir-se ao próximo, criando um contínuo suspense. Brunetti sabe que de fato não há um crime a ser investigado, mas não consegue deixar de lado a oportunidade de estudar uma variedade nova do comportamento humano, perscrutar a moral serpeante dos hipócritas, refletir como se justificam os próceres da "Lega Nord", o partido político italiano que advoga a separação da Padânia (todo o norte) do resto do país. Paola, Vianello e sobretudo o sereníssimo Conde Orazio Falier, pai de Paola, o ajudam a entender vários aspectos da trama. Assim como "Veneno de cristal", "Pedras ensanguentadas", "Provas manipuladas" e "Assassínio na academia" esse volume foi editado em Portugal e oferece ao leitor o prazer extra de apresentá-lo a palavras incomuns, que a cada página brotam e o faz sorrir, cúmplice. Adorei saber o significado de coscuvilhice. Que palavra! Enfim, outro bom volume desta série. E vamos ao próximo, seguro que sim. Vale! 
Registro #1320 (romance policial #77) 
[início: 15/08/2017 - fim: 21/08/2017]
"Quem sofre são as crianças" (Brunetti #16), Donna Leon, tradução de Carlos Pereira, Lisboa: Planeta Manuscrito (Grupo Planeta), 1a. edição (2012), brochura 15,5x23,5 cm., 278 págs., ISBN: 978-989-657-291-4 [edição original: Suffer the Little Children (Zürich: Diogenes Verlag AG / Penguin Randon House Group) 2007]

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

o leitor como metáfora

Ler Alberto Manguel sempre é uma aventura pelo mundo dos livros, das bibliotecas, das obsessões literárias. Não é diferente neste "O leitor como metáfora". Somos apresentados a reflexões que remetem a ideia da leitura, ao contrato afetivo que se estabelece entre leitores e livros, ao vocabulário que lentamente se criou para identificar essa atividade, esse ofício, essa deliciosa sina. É um livro compacto, lê-se com folga em um bom final de semana. O volume é fartamente ilustrado, como para dar também uma ideia visual ao leitor da fortuna iconográfica, distinta daquela outra, original, que é a fortuna crítica dos investigadores dos hábitos de leitura dos homens. Manguel se concentra em três das muitas metáforas que podem ser associadas aos homens que leem: a do viajante, aquele que descobre o mundo mesmo estando a sós com as letras de um livro; a da torre, o claustro daqueles que preferem a solidão compartilhada com os livros que as viagens; a da traça, a dos ratos de biblioteca, daqueles que não se importam mais que exista um mundo e outras vidas acontecendo fora dos livros. A linguagem de Manguel não é empolada, artificial, entretanto o livro é formatado como num texto acadêmico, povoado por citações muito precisas, especialmente das ilustrações, epígrafes e referências. Quando lemos livros assim somos transportados à infância, aos tempos dos primeiros encantamentos com os livros, as primeiras descobertas, àquela sensação de cumplicidade, entre autor e leitor, que parecia brotar dos livros, e que parece continuar brotando, por sorte nossa. Belo livro. Vale! 
Registro #1319 (crônicas e ensaios #231) 
[início 24/08/2018 - fim: 26/08/2018]
"O leitor como metáfora: o viajante, a torre e a traça", Alberto Manguel, tradução de José Geraldo Couto, São Paulo:  Edições Sesc São Paulo, 1a. edição (2017), brochura 16,5x23 cm., 148 págs., ISBN: 978-85-9493-056-9 [edição original: The Traveler, the Tower and the Worm: The Reader as Metaphor (Philadelphia/USA: University of Pennsylvania Press) 2013]