domingo, 22 de julho de 2018

trinity

"Trinity", nome código do teste real ocorrido em 16 de agosto de 1945,  é uma versão em quadrinhos sobre o projeto que culminou na fabricação e explosão da primeira bomba atômica. Trata-se de um trabalho factualmente muito acurado. Jonathan Fetter-Vorm, jovem ilustrador norte-americano, baseou-se em trabalhos acadêmicos, uma dezena de livros sobre a história do projeto Manhattan e nas biografias dos dois principais envolvidos no projeto: o físico Julius Robert Oppenheimer e o general Leslie Groves (para os aficionados, há uma curiosa escultura dos dois em Los Alamos, clica aqui). Metade do livro conta rapidamente sobre os conceitos físicos relacionados a questão técnica de como construir uma bomba, das contribuições daquela brilhante geração de físicos que atuou no final do século XIX e na primeira metade do século XX (Pierre e Marie Curie, Rutherford, Einstein, Bohr, Heisenberg e outros tantos). Fala também da capacidade operacional e logística de Groves, que alcançou fazer com que milhares de pessoas trabalhassem no projeto de construção da bomba em dezenas de lugares diferentes do território americano - sobretudo os cientistas contidos em Los Alamos, no Novo México - sem saberem exatamente o que estavam fazendo, qual a finalidade daquilo tudo. Dizer que o projeto era secreto é quase um eufemismo. A segunda metade do livro é mais acelerada. Dá conta dos sucessos posteriores a primeira explosão experimental da bomba, a escolha dos lugares no Japão onde bombas daquele tipo poderiam ser lançadas (e o foram, em Hiroshima, no 06 de agosto e Nagasaki, no 09 de agosto, de 1945), o recrudescimento da guerra fria e da corrida armamentista, algo sobre os efeitos da radioatividade na saúde humana e sobre as questões éticas envolvidas no projeto. Óbvio, apesar da precisão das informações trata-se de uma graphic novel, de uma abordagem ingênua e sucinta de uma história complexa e cujos desdobramentos em certa medida ainda vivenciamos, pois a possibilidade de extinção da vida humana em decorrência de uma guerra nuclear total é algo tangível, real, desde 1945 até hoje. Mas, para um neófito no assunto iniciar sua jornada de estudos sobre a física dos processos nucleares ou a geopolítica da corrida armamentista não poderia pensar em algo melhor, mais apropriado. Sempre me lembro daquele pequeno fragmento de um documentário sobre Oppenheimer, em que ele fala da experiência de ver a primeira explosão da bomba (clica aqui). Ele usa os ensinamentos que Krishna (avatar de Vishnu, um dos três principais deuses do hinduísmo) dá a Arjuna no Bhagavad Gita para de alguma forma justificar-se (a vaidade nunca deixa de ser a mais curiosa e divertida das características humanas). Bueno. Em tempo: Ganhei esse livro de don Renato Cohen, amigo dos bons. E o li ainda em janeiro, quando estava em São Paulo, mas como resolvi enviá-lo pelos correios junto com tantas outras cousas que trazia de lá (e para não tê-las que carregar no avião) acabei deixando que ele fosse roubado, ai de mim. Não detalho aqui as circunstâncias do roubo reportado pela infame empresa que atende pelo nome de Correios brasileiros pois não quero irritar-me mais do que já me irritei neste ano. Apenas desejo que ela seja fechada, pois não serve nem para privatização, venda. É uma empresa canalha que precisa ser fechada e esquecida o mais rápida e definitivamente possível. Cabe dizer que tempos depois o Renato, sabendo de minha triste sina, mandou-me um novo exemplar. Vale! 
Registro #1297 (hq's, cartuns e mangás #69) 
[início - fim: 07/01/2018]
"Trinity: A história em quadrinhos da primeira bomba atômica", Jonathan Fetter-Vorm, tradução de André Czarnobai, São Paulo: Editora Três Estrelas (Grupo Folha de São Paulo), 1a. edição (2007), brochura 15,5x23 cm., 154 págs., ISBN: 978-85-65339-17-9 [edição original: New York: Farrar, Straus and Giroux / MacMillan Publishers) 2012]

sábado, 21 de julho de 2018

gigante figura

"Gigante figura" é uma narrativa de ficção, mas é também algo que brota de uma história bastante real, a de um sujeito nascido na Itália e que viveu na virada do século XIX para o inicio do século XX, um homem muito alto, de quase 2,40 metros, chamado Ugo Battista. Fabrício Silveira parte da vasta bibliografia sobre Ugo para construir um romance curioso, onde se reconstrói a personalidade de seu gigante protagonista. Seu processo criativo equilibra uma forma quase acadêmica, pois a linguagem é devidamente contida, factual, de frases curtas e objetivas, com um controlado uso de ricas imagens, metáforas e alusões, cousa de alguém bem preparado, apesar deste ser o primeiro livro publicado por Silveira, que é jovem e é gaúcho. Na verdade ele oferece ao leitor em ordem cronológica uma série de instantâneos da vida de Ugo Battista, desde sua infância, em Vinadio, cidade próxima aos Alpes italianos, até sua morte, nos Estados Unidos, em 1916. Por ser um dos homens mais altos de seu tempo Ugo Battista fez carreira apresentando-se em teatros e circos, na Itália, França e América do Norte, eventualmente apenas deixando-se ver, noutras interpretando bizarros papéis em curtos esquetes. Os capítulos curtos dão pistas de sua curiosidade natural, de seu dom para línguas, de sua dolorosa consciência de estar sendo explorado e achincalhado, de sua persona pública, seus truques para encontrar paz de espírio. Ao leitor cabe imaginar aquilo que não é dito, as circunstâncias da mítica figura retratada por Silveira, refletir sobre o contínuo assombro que ele provocava em qualquer lugar. A edição é muito bem cuidada, inclui desenhos assinados por Denny Chang, outro jovem gaúcho. Os desenhos e o texto dialogam entre si, tornam o livro algo único, como se fosse mesmo um livro arte, um livro objeto, algo que admiramos em parte apenas por seu valor estético, pelo bom acabamento daquilo que temos nas mãos. Alias, cabe registrar aqui que só resolvi comprar esse livro por conta da força de um cartaz que vi na Feira do Livro de Santa Maria. Estava eu na fila para alcançar um autógrafo da Hilda Simões Lopes e de uma outra pessoa que estava lá naquele dia, não me lembro mais quem. Pensava também em eventualmente encontrar o  Ronai Rocha, o Noal, o Athos, o Byrata ou outro amigo na Feira. Quando vi o expressivo cartaz de propaganda do "Gigante Figura" resolvi conferir.  Folheei o volume e acabei me interessando pelo assunto, pelo tema.  Assim é a vida. São os livros, por algum mecanismo mágico, cada um a sua vez, que alcançam fazer-se chegar até nós. Pouco importam as listas que fazemos no início dos anos, os projeto de leitura, os conselhos dos amigos. São os diabretes incorporados em cada livro que nos fazem mudar de ideia, abandonar aquilo que nos aborrece, começar uma nova aventura, novas descobertas. Enfim, gostei da proposta do Fabrício (e dos desenhos do Chang). Vamos a ver o que eles vão produzir no futuro. Vale! 
Registro #1296 (romance #342) 
[início: 17/06/2018 - fim: 22/07/2018]
"Gigante figura", Fabrício Silveira, ilustrações de Denny Chang, Porto Alegre: Riacho editora, 1a. edição (2018), brochura 16x23 cm., 176 págs., ISBN: 978-85-920303-2-2

sexta-feira, 20 de julho de 2018

lira argenta

Nesse poderoso volume estão reunidos poemas de 37 autores, escritos originalmente em 14 línguas e traduzidos por 25 pessoas. Cabe registrar que um trigésimo oitavo autor, Étienne Dolet, também está presente no livro, já que um texto curto dele ("O modo de bem traduzir de uma língua a outra") é utilizado para apresentar o volume, fazendo as vezes de carta de intenções do projeto. Quem assina a edição/organização é o também poeta Vanderley Mendonça. Se há algo a se lamentar neste volume é a falta de indicação de como tal produção foi engendrada e reunida por ele. No cólofon do livro está dito que "a edição reúne as plaquetes impressas e editadas no ateliê do Hussardos Clube Literário, entre 2013 e 2014", mas não consegui encontrar muita informação sobre esse grupo/projeto (o tempo anda ligeiro). Claro, isso é uma bobagem, os poemas se defendem sozinhos. A edição é sempre bilíngue, apresentando lado a lado os poemas nas línguas originais e em português. Encontramos poemas em francês, inglês, catalão, alemão, italiano, latim, espanhol, provençal, friulano, russo, hebraico, romeno, polonês e grego. Os 25 tradutores são Álvaro Faleiros, Augusto de Campos, Claudio Willer, Cide Piquet, Danilo Bueno, Dirceu Villa, Fernando Klabin, Guilherme Gontijo Flores, Idalia Morejón López, Juliana Di Fiori Pondian, Larissa Peron, Maíra Mendes Galvão, Marcelo Ariel, Matheus Guménin, Monique Maion, Omar Pérez López, Piotr Kilanowski, Reynaldo Damazio, Ricardo Domeneck, Roberto Zular, Ruy Proença, Tatiana Lima Faria, Vanderley Mendonça, Walter Vetor, Willian Zeytounlian. O resultado é muito bom. Claro, não se trata de um livro que o sujeito precise ler respeitando a ordem da edição. No meu caso fui errante, deambulando por eles, primeiro por aqueles dos quais já conhecia alguma coisa (Paul Valéry, Emily Dickinson, Czeskaw Milosz, Wislawa Szymborska, André Breton, Derek Walcott, e.e. cummings, Guido Cavalcanti, Zbigniew Herbert, Vladimir Maikovski, Yehuda Amichai, Paul Celan, Ovídio, Sor Juana Inés de la Cruz, Charles Bukowski, William Faulkner) depois por aqueles de quem mal havia ouvido falar ou, ao menos, não suspeitava terem produzido poesias (Alda Merini, Arthur Cravan, Basil Bunting, Boris Vian, François Rabelais, David Lynch, Denise Levertov, Hans Harp, Meleagro de Gadara, Roberto Juarroz, Vitor Hugo, Mina Loy, Mitos Micleusanu, Maria Mercè Marçal, Heiner Muller, Ingeborg Bachmann, Joan Salvat-Papasseit, Nara Mansur Cao, Peire Vidal, Pier Paolo Pasolini, Robert Desnos). A edição inclui uma brevíssima biografia de cada um dos autores e eventualmente também uma pequena caricatura deles. Quase todos os poemas parecem ter sido vertidos a partir da língua original, mas uns poucos o foram a partir do inglês, num exercício cruzado. Aprende-se um bocado. Esse tem sido mesmo o tempo dos poetas e dos poemas. Nada mais adequado nestes tempos bicudos. Vale! 
Registro #1295 (poesia #97) 
[início: 12/05/2018 - fim: 18/07/2018]
"Lira argenta: Poesia em tradução", Vanderley Mendonça (organizador), São Paulo: V. de Moura Mendonça Livros (Selo Demônio Negro), 1a. edição (2017), brochura 16x23 cm., 384 págs., ISBN: 978-85-66423-34-1

quinta-feira, 19 de julho de 2018

de amor tenho vivivo

Nesse pequeno livro estão reunidos 50 poemas inspirados pelo amor, cousa que a autora deles viveu plenamente, sem amarras, sem pudor, sem afetação. Hilda Hilst sempre estará numa coletânea dos mais importantes poetas brasileiros de todo e qualquer tempo. Esse livrinho dá uma pequena mostra da técnica e capacidade alegórica de Hilda, funciona como uma porta de entrada para seu universo mágico. Os poemas foram produzidos e publicados em um largo período de tempo, os mais antigos em "Presságio", livro seu de 1950, os mais recentes no "Cantares do sem nome e de partidas", de 1995. A edição é caprichada (foi produzida por conta da homenagem que neste ano a FLIP faz a Hilda), oferece ao leitor ilustrações belíssimas de Ana Prata (cousas engendradas a partir de pinturas a óleo, encomendadas e inspiradas nesse projeto, nos poemas reunidos nele). Cada poema guarda uma alegria e uma dor, imagens sempre potentes e um rigor formal qualificado. Como todos poemas de amor já escritos pelos homo sapiens sapiens há lirismo no limite do patético e iras colossais, sanguíneas, coalescidas pela dor. Num curto posfácio se conta algo da agitada biografia de Hilda Hilst e se listam os livros de onde brotaram os 50 poemas nele reunidos: Presságio; Balada de Alzira; Balada do festival; Roteiro do silêncio; Trovas de muito amor para um amado senhor; Ode fragmentária; Trajetória poética do ser; Memória, noviciado da paixão; Da morte. Odes Mínimas; Cantares de perda e predileção; Poemas malditos, gozosos e devotos; Sobre a tua grande face; Amavisse; Do desejo; Da noite; Cantares do sem nome e de partidas. Não é possível que eu leia Hilda Hilst e não lembre da Misa e do Péricles, daqueles dias em que vivíamos todos "drowing in honey, stingless". Estes poemas não foram feitos para serem lidos em dias sombrios. O sujeito leitor precisaria ser obrigado a guardá-los para dias alegres, estivais, plenos. Vale! 
Registro #1294 (poesia #96) 
[início: 12/05/2018 - fim: 16/07/2018]
"De amor tenho vivido: 50 poemas", Hilda Hilst, ilustrações de Ana Prata, São Paulo: Editora Schwarcz (Grupo Companhia das Letras), 1a. edição (2018), capa-dura 15,5x20,5 cm., 96 págs., ISBN: 978-85-359-3089-4

quarta-feira, 18 de julho de 2018

a gruta de calipso

Em "A gruta de Calipso" Celso Gomes faz uso do mito grego, da história de Calypso, a ninfa do mar que mantém Ulysses por sete anos preso em sua ilha, Ogygia, para contar algo sobre as vicissitudes da vida, do quão enganadora é a ideia de que podemos controlar nossa vida, forjar nosso destino. Jardel, um jovem médico judeu, foge clandestino da Alemanha Nazista em um navio. A primeira terça parte do romance descreve exatamente como Jardel e alguns amigos conseguem a oportunidade de fugir, sobre a ruptura com família, amores e passado que essa fuga implicava. O navio acaba naufragando e Jardel vê-se resgatado em uma vila de pescadores na região de Cabo Frio, no litoral carioca. Logo depois, já recuperado, mesmo ainda mal dominando a língua e os costumes do lugar suas habilidades como médico fazem com que ele auxilie os ilhéus a debelar uma epidemia. Com a entrada do Brasil na guerra, em 1942, Jardel é mantido oficialmente prisioneiro em uma ilha, apesar de ser benquisto pelo comandante daquela região. Os dois terços finais do romance descrevem como Jardel usa sua sabedoria prática para não se aborrecer tanto com as limitações físicas da prisão e a ausência daqueles que ama, sobretudo uma mulher com quem estava comprometido na Alemanha. Ele se envolve com mulheres, participa de um grupo de caçadores de relíquias de navios naufragados, fala sobre literatura e filosofia com um de seus carcereiros, tenta entender algo da sociologia do lugar e das motivações da grande guerra que acontece distante, porém repercute e afeta o cotidiano de todos, também no Brasil. O homem solitário lamenta seu destino, mas é estoico o suficiente para não dar mostras públicas disto. Há uma sabedoria grega no livro, assim como há um bocado de citações literárias, mitológicas, musicais e bíblicas espalhadas por ele. Celso Gomes alcança seduzir o leitor assim como Calypso um dia seduziu Odisseu/Ulysses. Os capítulos finais de "A gruta de Calipso" são como um sonho, uma vertigem, na qual acompanhamos o desfecho dos sucessos de Jardel. Lembrei-me de meu pai, que contava histórias de meu avô, que nunca conheci, José Ildefonso de Paula Severino. Em uma delas ele jactava-se ter cumprido seu dever cívico ao prender um japonês que havia descumprido o toque de recolher noturno ao qual todos os italianos, alemães e japoneses estavam submetidos durante a guerra. As vezes o "prender" da história virava um "esfaquear". Nem meu pai soube exatamente o quanto havia de fantasia e realidade neste ato dele, mas sabendo o quão mercurial ele era, creditava essa e tantas outras histórias como verdadeira. Livro bem interessante esse de Celso Gomes. Mas vamos em frente. Vale! 
Registro #1293 (romance #341) 
[início: 29/03/2018 - fim: 02/04/2018]
"A gruta de Calipso", Celso Gomes, Rio de Janeiro: Editora Macabéa, 1a. edição (2017), brochura 15x20,5 cm., 284 págs., ISBN: 978-84-66002-09-6

terça-feira, 17 de julho de 2018

un nido de víboras

Esse é o vigésimo-sexto livro da série Montalbano, de Andrea Camilleri. "Un nido de víboras" explora um tema que Camilleri abandonou quando publicou em 2008 seu nono romance da série: "La luna de papel", que é o do incesto. Se naquele volume sobrava apenas a insinuação de uma relação amorosa entre mãe e filho em "Un nido de víboras" toda a trama gravita pelos amores cruzados entre vários membros de uma família. De qualquer forma não é fácil para Montalbano chegar a entender a sequencia factual dos delitos e dos crimes que lhe cabe investigar e, sobretudo, separar o que é público, de ser desvendado, publicizado, constar dos autos do processo e o que é de foro íntimo e, por terrível que seja, deve ser mantido em segredo. Há um longo intervalo temporal entre dois crimes violentos, o afogamento de uma senhora e o assassinato de um pacato advogado de família. Os personagens secundários da série ganham importância aqui. Fazio e Mimi argumentam, enquanto Montalbano parece um Eáco, um Minos, um Radamanto, a julgar serenamente mortos e vivos. A cozinheira Adelina e Sílvia, a eterna amante de Montalbano, continuam se detestando e trocando farpas, mas de suas mútuas intrigas surge o caminho para entender algo dos crimes que esperam solução. Como em uma das comédias de Shakespeare ("Much Ado about Nothing") é um personagem menor e algo obtuso quem de fato resolve os crimes, identifica os culpados. Camilleri sempre faz bom uso da fantasia, dos sonhos, das técnicas do teatro, tanto na criação de cenários quanto no ritmo da narrativa. Agora que estou familiarizado com os romances policiais de Donna Leon, entendo melhor as referências cruzadas sobre as notáveis diferenças entre o povo e a cultura do Norte e do Sul italiano. Brunetti e Montalbano compartilham senso de dever e comportamento ético, mas se utilizam de ferramentas de dedução diferentes, Montalbano é sanguíneo, mercurial, quase dissoluto nos costumes, Brunetti metódico, regrado, introspecto. Já recebi o próximo volume da série, lançado no ínício deste 2018. Logo haverá mais Camilleri por aqui. Vale! 
Registro #1292 (romance policial #72) 
[início: 24/02/2018 - fim: 28/02/2018]
"Um nido de víboras", Andrea Camilleri, tradução de tradução de Carlos Mayor, Barcelona: publicaciones y ediciones Salamandra, 1a. edição (2017), brochura 14x21 cm., 223 págs., ISBN: 978-84-9838-784-1 [edição original: Un covo di vipere (Palermo: Sellerio editore) 2013]

segunda-feira, 16 de julho de 2018

fica comigo esta noite

De Inês pedrosa já tinha lido dois bons romances: "A instrução dos amantes" e "A eternidade e o desejo". Foi há dez anos, ai de mim. Em "Fica comigo esta noite", publicado originalmente em 2003, encontramos 12 contos curtos, sintéticos. Na verdade o volume reúne histórias que já haviam sido publicadas anteriormente em revistas, jornais ou coletâneas, entre 1993 e 2002. São histórias de amores rotos, frustrados, questões de casal, estratégias de sedução que terminam mal, um feminismo real, sem soluções de almanaque, sem rompantes panfletários ou ativismo besta. A edição é brasileira mas o sotaque é totalmente português. Inês Pedrosa constrói imagens belíssimas e toca temas que não perdem contundência ao serem tratados com lirismo, suavidade. Acompanhamos situações típicas de mulheres e homens que vivem neste início de século, porém são únicas e transcendentais para quem as vive: uma mulher que lembra de um homem que amou no passado, mas dele só era satisfatório o sexo; um casal que se separa, abandonando uma casa os dois, mas parece ser ela, a casa, quem mais sente a solidão; um pai que se aproveita de um assalto para entrar em contato com um filho de quem se afastou; um pai lembra da filha que morreu longe, nas torres gêmeas, no 11 de setembro, e chora; uma russa peregrina pela Europa, por Suécia, Espanha, França e Portugal, após o esfacelamento da URSS, fazendo um balanço de sua vida e sonhos; uma mulher vê na filha a repetição de um erro seu do passado, mas como trata-se de uma experiência afetiva de alguém que ama muito, sabe que não pode interferir. Não continuarei aqui o catálogo das 12 histórias, todas elas muito bem escritas e poderosas, encantadoras. Só uma delas foge algo do tom das demais, pois parece um conto de fadas, a descrição do mundo interior de uma criança que está prestes a nascer, sua mãe expulsando-a daquele mundo aquático e morno. Muito interessante. Espero não ficar outros dez anos sem ler Inês Pedrosa. Vale! 
Registro #1291 (contos #150) 
[início: 10/02/2018 - fim: 18/02/2018]
"Fica comigo esta noite", Inês Pedrosa, São Paulo: Editora Planeta do Brasil (Grupo Planeta), 1a. edição (2007), brochura 15,5x23 cm., 159 págs., ISBN: 978-85-7665-259-5 [edição original: Alfragide/Portugal: Publicações Don Quixote) 2003]

domingo, 15 de julho de 2018

a cozinha encantada dos contos de fadas

Comprei um exemplar desse livro e presenteei primeiro a Clara, ainda no final do ano passado, depois comprei outro e deixei para a Raquel, gurias queridas, filhas, respectivamente, da Cássia e da Heloísa. Entretanto, também eu quis ter meu exemplar. Trata-se de um volume que convida o leitor a experimentar a cozinha, emular as receitas que encontramos ao ler as historias de contos de fada. Ao mesmo tempo oferece versões resumidas de cada um dos contos. Katia Canton é uma mulher de muitos talentos. Por conta da Helga conheço algo de seus livros de critica de artes plásticas, seus trabalhos de curadoria, de seus ensaios, mas não sabia desta sua veia de autora de livros dedicados ao público infantojuvenil (descobri agora que é vastíssima essa sua experiência). Em "A cozinha encantada dos contos de fadas" ela oferece uma aventura lúdica, onde versões abreviadas de algumas destas histórias são acompanhadas de receitas. O publico alvo do livro são jovens curiosos por aventura e por gastronomia. São 16 contos de fadas de quatro autores diferentes, os três grandes clássicos: Charles Perrault ("Cinderela", "O Gato de Botas", "Barba Azul", "A Bela Adormecida" e "Pele de Asno"), Irmãos Grimm ("Chapeuzinho Vermelho", "Rapunzel, Branca de Neve", "João e Maria" e "Príncipe Sapo") e Hans Christian Andersen ("Polergazinha", "A Rainha da Neve", "A Princesa e a ervilha", "A pequena vendedora de fósforos" e "O patinho feio") e uma mulher que eu não conhecia, Madame de Villeneuve, a inventora da história "A Bela e a Fera". As 23 receitas que são explicadas num formato visual, em diagramas muito práticos. O livro todo é bem editado, com ilustrações coloridas e uma miríade de detalhes bacanas. É mesmo um livro para ser desfrutado na cozinha, em grupo, nos quais as pessoas envolvidas podem falar das receitas que estão a fazer e das histórias que as inspiraram. A memória afetiva de quem nos leu os primeiros contos de fadas nunca nos abandona e a memória sensorial das primeiras experiências na cozinha também é algo mágico, que nos acompanha vida afora. Vale mesmo dar uma espiada neste livro. Vale! 
Registro #1290 (infanto-juvenil #46) 
[início: 12/06/2018 - fim: 19/07/2018]
"A cozinha encantada dos contos de fadas: 23 receditas cheias de magia e fáceis de fazer", Katia Canton, São Paulo: editora Schwarcz (Grupo Companhia das Letras), 1a. edição (2016), brochura 18x27 cm., 88 págs., ISBN: 978-85-7406-635-6

sábado, 14 de julho de 2018

mac y su contratiempo

Noutro dia falávamos, Marcio Renato dos Santos e eu, sobre Enrique Vila-Matas. Ele dizia que há leitores que o cultuam e há os que o detestam. Disse também que ele havia emprestado vários volumes de Vila-Matas para um jovem amigo que tinha ambição literária, mas que a abandonou (junto com os livros do Marcio, acontece). Já eu disse a ele que havia lido um livro de Vila-Matas ainda em dezembro e não sabia como registrá-lo aqui. Ainda acho que é o tipo de livro que nos encanta porém  também nos rechaça. Preferimos ficar com nossos entendimentos e incertezas mais que as compartilhar com os amigos ou demais leitores. Semana passada, lendo um conto de McEwan, que já registrei aqui, veio-me uma chave desse possível registro. Vila-Matas trata em "Mac y su contratiempo" da vaidade e da inveja, irmãs siamesas da literatura e dos escritores (esse era justamente o tema do conto de McEwan). Vila-Matas advoga também em seu livro que escrever ficção e inventar mundos é um método particular de loucura. Se para James Joyce seu leitor ideal era um insone que dedicasse toda sua vida a decifrar seus livros, para Enrique Vila-Matas o leitor ideal é um esquizofrênico, um sujeito incapaz de distinguir o quê é ou não real, um sujeito que seja capaz de entender um romance tanto ou mais que os narradores, tanto ou mais que o próprio autor. Parece sim ser esse o ensinamento que "Mac y su contratiempo" nos oferece. O leitor é apresentado a reconstrução de um  conjunto de contos (que são, na verdade, episódios ou fragmentos de histórias do próprio Enrique Vila-Matas publicadas no volume "Una casa para siempre", de 1988). Mac, um neófito barcelonês, senhor aposentado que aparentemente vive do dinheiro de sua mulher, Carmem, resolve reescrever um livro antigo e esquecido de um sujeito famoso de seu bairro, chamado Sánchez, um alter ego de Vila-Matas. Mac se metamorfoseia, deixa de ser apenas mais um louco de bar, aquele tipo de sujeito que gasta sua energia criativa e ideias bebendo em bares, e passa a ser o ativo escritor de um diário que se tornará uma nova versão de um livro já publicado, ou seja, se tornará um plagiador, um falsário, mas continuará anônimo. O livro é dividido em capitulos curtos, numerados, superpostos a dois tipos de inserções, denominadas "Puthoroscopo" e "&", esse último o registro dos sonhos amalucados do narrador, Mac, aquele registros ainda mais amalucados, onde se emula um método de Beckett para entender textos alheios (se é que entendi bem "Whoroscope" é o nome do primeiro livro de poemas de Beckett). Os personagens do livro frequentam os bares do Raval e parecem procurar um autor a disposição de fixá-los em uma ficção. Acompanhamos o transe quase tóxico da vida de Mac e dos demais personagens que, afinal, brotaram de um outro livro, aquele de Vila-Matas de 1988. Na primeira metade do livro o narrador resume o que entendeu de "Una casa para siempre" para a seguir reescrever essas histórias como se fossem suas. Ao final Mac parece esgotado, sonhador, viajando (apenas em sua mente talvez), saindo da mesa de seu bar, saindo de seu bairro, do Raval, e vendo-se em Lisboa, Marrocos, Túnez, oriente médio, como se fosse por fim um personagem dos contos das mil e uma noites. Acostumado ao vórtice de citações de Vila-Matas comecei de brincadeira a anotar os nomes que surgiam, como escolhos num rio. Parei na página 50 (das 300 do livro) quando já listava 25: de Barthes a Bowie, de Zambra a Gogol, de Duchamp a Benjamim, de Kubrick a Cervantes, de Diderot a Mallarmé, de Schweblin a Foster Wallace, de Dinensen a Hemingway, de Walser a Nietzsche, dentre outros tantos. É fácil se afogar no mar de referências cruzadas com que Vila-Matas povoa seus livros. Mas, afinal, do que se trata "Mac y su contratiempo"? Da vaidade? Do abismo que é a folha em branco? Do comprometimento que um sujeito tem que ter com sua vida antes de ter com seus projetos literários? Vai saber! Segue o baile. Vale!
Registro #1289 (romance #340) 
[início: 25/11/2017 - fim: 09/12/2018]
"Mac y su contratiempo", Enrique Vila-Matas, Barcelona: Editorial Seix Barral Biblioteca Breve (Grupo Planeta) 1a. edição (2017), brochura 13,5x23 cm., 303 págs., ISBN: 978-84-322-2988-6

sexta-feira, 13 de julho de 2018

calculando com as fatias

Já contei aqui sobre minha amizade de décadas com o Antonio Neto, de sua dedicação ao oficio de bem ensinar Física e Matemática, e já registrei aqui algo sobre um volume desta mesma série dedicada ao ensino de Matemática focado no público jovem, que ele publicou em 2016, "Brincando com o conta-gotas". Nesse novo volume (que é o terceiro da série, estou devendo a leitura do segundo) ele fala de frações, de como as cousas podem ser divididas, de comparações, escalas, gráficos, porcentagens, unidades de medida, ângulos. Não há ingenuidade no livro. Há rigor cientifico e também metodologia, ludicidade, magia, encantamento. Acho que foi o Aníbal quem disse que o Toninho era o mais irônico de nós todos lá do curso de Física da USP nos anos 1980 e ele esta coberto de razão. Mas se ele é um mestre na ironia também o é na capacidade de invenção, de escolher exemplos do cotidiano para ilustrar conceitos chave em Matemática, reproduzir situações que todos experimentamos: a compra e divisão de uma pizza, a ida a um supermercado, o compartilhamento de uma prateleira, a leitura de um numeral qualquer, a interpretação de um gráfico ou ilustração de um jornal. Os livros desta coleção do Sesi-SP ficam bem em qualquer biblioteca de pais que têm filhos de qualquer idade. Em tempo: Ainda no início do ano, encontrei por acaso com o Toninho na rua, lá perto da esquina da Paulista com a Consolação, mas era difícil continuar a conversa e deixamos para nos ver no futuro. Será que um dia destes conseguimos? Logo veremos. Vale! 
Registro #1288 (didático #10) 
[início: 03/04/2018 - fim: 06/04/2018]"Calculando com as fatias", Antonio Rodrigues Neto, São Paulo: SESI-SP editora (Educação; Coleção: Para gostar de matemática), 1a. edição (2017), brochura 12x18 cm., 88 págs., ISBN: 978-85-504-0276-5

quinta-feira, 12 de julho de 2018

meu livro violeta

Em qualquer lugar do mundo há edições que são meros caça-níqueis, volumes produzidos para atacar o leitor consumidor quando entra inadvertidamente em uma livraria. É esse o caso de "Meu livro violeta", de Ian McEwan. Todavia, pelo menos desta vez, trata-se de um caça-níqueis com certo pedigree. Paciência. Mas, para o leitor incerto e menos perdulário com seus tostões, sugiro que leia esse conto completo na The New Yorker (foi publicado originalmente no volume de 28 de março de 2016, aqui segue o link) e estamos conversados. O volume incluí também o libreto de uma ópera em dois atos, que dura aproximadamente 140 minutos, intitulada "For You", que foi composta por Michael Berkeley e produzida originalmente em 2008 (o leitor pode encontrar vários trechos da composição no site oficial de Berkeley, segue aqui o link). As duas narrativas de McEwan, conto e libreto, compartilham os mesmos temas, um mesmo mundo de ideias: ascensão e queda, tensão sexual, a fronteira turva entre admiração e inveja. Em "Meu livro violeta" acompanhamos uma espécie de confissão, a descrição de como um escritor rouba o livro e a fama de um outro, um amigo de juventude e que inicialmente fez muito mais sucesso que ele. McEwan faz chamar-se Sparrow o escritor pirata e Jocelyn o escritor pirateado, piadas fáceis. A trama lembrou-me imediatamente um magnífico filme, protagonizado por Terence Stamp, "Tiré à part", de 1996, dirigido por Bernard Rapp e baseado em uma história original de Jean-Jacques Fiechter. Já "For You" conta a história de um mercurial e lúbrico maestro e compositor, Charles, enredado em uma trama de sexo, amor e morte da qual participam sua mulher, Antonia, o médico e amante dela, Simon, sua governanta, Maria, e seu assistente, Robin. A leitura do libreto é fácil, mas como não reproduzimos na leitura silenciosa os sentimentos e epifanias que os intervalos, ritmo e clima da apresentação da Ópera são capazes de provocar num espectador, perdemos algo da experiência. Há símbolos, associações e provocações suficientes para alegrar o leitor curioso. E por fim, há um curto vídeo no YouTube onde ambos, McEwan e Berkeley, falam do projeto e analisam seu resultado: clica aqui! Investi mais tempo procurando informações sobre essas duas histórias que efetivamente as lendo. Paciência. Segue o baile. Vale! 
Registro #1287 (contos #149) 
[início: 07/07/2018 - fim: 08/07/2018]
"Meu livro violeta", Ian McEwan, tradução de Jorio Dauster, São Paulo: editora Schwarcz (Grupo Companhia das Letras), 1a. edição (2018), capa-dura 12,5x18 cm., 127 págs., ISBN: 978-85-359-3123-5 [edição original: My Purple Scented Novel (New York: Vintage / Penguin Random House Group) 2016; For Your (New York: 2008]

quarta-feira, 11 de julho de 2018

paraphoesia

Claudio Portella é poeta, mas também editor, divulgador, distribuidor, mascate de si mesmo. Ele produz seus livros com esmero, acho que já editou  uns quinze pelo menos (li dele o "Fraturas de relações amorosas", um romance cáustico). As edições CP são bem cuidadas. "Paraphoesia" é de 2017.  São 37 propostas poéticas, que falam de um narrador antenado, um sujeito de seu tempo, que transforma comezinhas cousas em matéria poética. Armindo Trevisan, que assina a orelha do livro, diz que Portella se disfarça neste livro, ora se faz divertido, zombeteiro, ora ferino. É isso mesmo. Ele cita ou emula seus precursores afetivos, seus gurus poéticos: Rimbaud, Pessoa, Ponge, Cassia Eller, dentre outros; fala de cultura pop; de eleições; de papos-cabeça, de cinema e televisão. Parece ser um sujeito que domina não só a técnica, mas também sabe expressar sentimentos genuínos, não de almanaque, que não se furta expor-se e experimentar. Há uma sutil sensualidade nos poemas, algo visceral, fluido. Li "Paraphoesia" junto com os livros de outros poetas: Jean Moura, Ricardo Aleixo, Marcelo Tápia, Sergio Medeiros, Cássio Pantaleoni, o velho e bom Marcial, os da seminal antologia "Lira Argenta" organizada pelo Vanderley Mendonça. Ulalá. Haverá mais poesia por aqui, seguro que sim. Vale! 
Registro #1286 (poesia #95) 
[início: 08/04/2018 - fim: 10/04/2018]
"Paraphoesia", Cláudio Portella, Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora  (Edições CP), 1a. edição (2017), brochura 12x19 cm., 52 págs., ISBN: 978-85-420-1050-3

terça-feira, 10 de julho de 2018

augustus

Essa capa é ridícula, uma das mais feias que já vi, ganha até das cousas amalucadas da Martin Claret, mas a edição é caprichada e o texto, o livro em si, muito bom. John Williams é um autor que publicou pouco (quatro romances e dois livros de poesia), foi professor universitário e é ainda respeitado. "Augustus" foi seu último livro, publicado originalmente em 1972 e ganhou o prestigioso "National Book Awards" no ano seguinte. Trata-se de um romance epistolar, onde são apresentadas o que seriam cartas, diários e registros pessoais de vários personagens históricos que falam do primeiro dos grandes imperadores romanos, sobrinho e herdeiro de Júlio César, Caio Octávio, posteriormente divinizado como Augusto César. Ele governou Roma em seu apogeu, pelo maior período de tempo, mais de quarenta anos, e viveu sucessos sem conta. Williams divide seu romance em três grandes blocos. O primeiro vai do momento em que Júlio César decide adotá-lo e prepará-lo como sucessor (em 45 a.C.) até sua vitória sobre Marco Antônio e ascensão ao trono (em 32 a.C). O segundo bloco segue até 4 d.C, quando aos 66 anos envia para o exílio sua única filha, Júlia e escolhe como sucessor seu genro Tibério. O terceiro bloco continua até a morte de Augusto durante uma viagem em Capri, aos 76 anos, em 14 d.C. O Augusto reconstruído por Williams é um homem amargurado, que sempre confia em seu frio instinto de sobrevivência e em sua capacidade de compreender o caráter das pessoas que o cercam, mas que é capaz de idealizar e sonhar uma Roma menos corrupta, a acreditar na possibilidade de uma vida mais justa para todo o povo romano. Apesar de no livro dezenas de narradores terem a função de contar a história de Augusto o único que alcançamos compreender bem é ele mesmo. É um livro muito fácil de ler, o sujeito não precisa ser um especialista em história romana para acompanhar os sucessos da narrativa, a polifonia de vozes e personagens, a ascensão e queda dos amigos e inimigos do imperador, o desenvolvimento de seu caráter, de sua vida interior, do acúmulo de atos cruéis, por mais bem intencionados que fossem. "Augustus" lembra muito o ritmo de "A morte de Virgílio", de Hermann Broch, publicado em 1945, "Memórias de Adriano", de Marguerite Yourcenar, de 1951 e também "Juliano", de Gore Vidal, que é de 1964, livros que li naqueles mágicos anos 1980, onde parecia haver tempo para se ler tudo o que era publicado, ai de mim! Bueno, terminei noutro dia "Stoner", o romance anterior de John Williams, publicado em 1964, portanto em breve haverá algum registro sobre ele aqui. Vale! 
Registro #1285 (romance #339) 
[início: 06/04/2018 - fim: 10/04/2018]
"Augustus", John Williams, tradução de Alexandre Barbosa de Souza, Rio de Janeiro: Editora Radio Londres, 1a. edição (2017), capa-dura 14,5x22 cm., 378 págs., ISBN: 978-85-67861-23-4 [edição original: Augustus (New York: Viking Press / Penguin Random House Group) 1972]

segunda-feira, 9 de julho de 2018

assassínio na academia

Li "Assassínio na academia" há quase um ano, em julho passado, mas como havia resolvido só publicar meus registros de leitura dos livros de Donna Leon cronologicamente, eis que somente agora tenha a oportunidade de fazê-lo (não tenho ainda os vinte e oito volumes de aventuras do comissário Brunetti publicados por ela, mas estou perto, já que fui comprando edições portuguesas, espanholas e inglesas de suas obras). Vamos a ver. Neste volume Donna Leon embaralha, como sempre faz, vários temas, enfatizando um deles quando se prepara para finalizar a narrativa. O jovem filho de um médico, antigo e incorruptível deputado veneziano é morto na academia militar que frequentava. Esse deputado, membro de uma tradicional família de venezianos, havia produzido relatórios sobre sistemáticos desvios de dinheiro do exército italiano, mas acabou se afastando da política após a morte da mulher em um suposto acidente de caça. Brunetti começa a investigar o caso, mas Patta, particularmente insuportável nesse volume, tenta controlá-lo, justamente pelos interesses cruzados da máfia e pela secular corrupção entranhada na política italiana. Os temas importantes são apresentados rapidamente: a leniência do povo do Sul da Itália, os problemas com imigrantes, a corrupção e o controle político nas eleições (estamos nos tempos em que Silvio Berlusconi é primeiro ministro, cuja ascensão ao poder é resultado colateral da operação "Mãos limpas", a investigação judicial de grande envergadura que provocou profundas mudanças no quadro partidário italiano no início dos anos 1990, algo bem parecido com o que está acontecendo agora com a operação "Lava a jato"). Nesse volume também somos apresentados a novas facetas de Paola, que ajuda o marido com sua perspicácia, e descobrimos um Brunetti não tão olímpico, perfeito, mas sim um sujeito que num acesso de raiva e por falta de paciência põe tudo a perder. Ele sabe (como sabemos bem também nós, brasileiros) que um escândalo têm o mesmo prazo de validade que o de um peixe fresco, pois após três dias ambos são inúteis, ninguém mais se importa. Donna Leon sabe fazer seu protagonista e seus personagens secundários evoluírem, tornarem-se mais humanos e críveis. Esse talvez seja o mais amargo dos volumes que li desta série. Mas vamos em frente. Vale! 
Registro #1284 (romance policial #71) 
[início: 17/07/2017 - fim: 19/07/2017]
"Assassínio na academia (Brunetti #12)", Donna Leon, tradução de Maria José Santos, Lisboa: Planeta Manuscrito (Grupo Planeta), 1a. edição (2009), brochura 15,5x23,5 cm., 268 págs., ISBN: 978-989-657-018-7 [edição original: Uniform Justice (Zürich: Diogenes Verlag AG / Penguin Randon House Group) 2003]

domingo, 8 de julho de 2018

puto el que lee

Quando chega Maio e com ele a Feira dos Livros de Santa Maria sempre me preparo para reencontrar don Miguel Gómez, da porto-alegrense Calle Corrientes, senhor argentino dos livros, abrasileirado mascate dos bons. Dentre os portentos que garimpei este ano em sua banca estava esse divertido "Puto el que lee", subtitulado "Diccionario argentino de insultos, injurias y improperios". Mas antes de falar do livro deixe-me contar uma história. Quando mudei-me aqui para a fronteira, para Santa Maria, no já distante 1994, num dia contei uma piada, pois à época entendia que contar piadas era um instrumento válido e universal de acolhimento. Bueno. A ideia era contrastar o comportamento de um judeu, de um negro e de um argentino em virtude de uma confusão em uma maternidade. Pouco importa o desfecho da piada, mas após ouvi-la um de meu anfitriões disse: "se tu trocar (sic) o argentino desta piada por um paulistano sou capaz de rir". Foi bom o reparo dele, pois entendi rápido que aqui no Sul os argentinos não eram tão estigmatizados como em São Paulo, povo mais afeito a manifestar suas diferenças com os portenhos, e que algo dos gáuchos argentinos era caro aos gaúchos do Rio Grande. Pois no livro de Pablo Marchetti encontramos uma miríade de acepções algo chulas e provocativas utilizadas pelos argentinos no dia a dia. A ficha catalográfica do livro o chama de Dicionário de Lunfardo, que é exatamente a popular gíria dos malandros de Buenos Aires. Marchetti, jornalista e também músico, produtor de audiovisuais, editor e escritor, entrega o que promete no título do livro. As palavras estão ali, prontas para expressar raiva, desagradado, indignação, ódio, atacar e defender, rir e achincalhar, provocar sem culpa. Nas palavras do autor, "El insulto es liberador. El insulto es la última estación del combate dialéctico. El insulto nos conecta con la infancia. El insulto nos define. Por eso escribí este diccionario de insultos". Como todo dicionário não se trata de um livro para ser lido de capa a capa. Fiquei com eles ao lado da cama por semanas, treinando e escolhendo os insultos mais apropriados a meu estilo verbal e comportamento: quem me conhece sabe que não preciso de muito incentivo para me envolver em altercações, principalmente quando meu interlocutor é um solene canalha, um odioso escravo mental, um patético lorpa, sempre orgulhoso de sua ativa estupidez. Todavia a chance de eu usar os ensinamentos esse livro na vida prática são mínimos. Também sei ser cortês e não saio de casa para arrumar brigas de caso pensado. Inegável valor, principalmente nestes tempos de estupidez politicamente correta, o arsenal retórico compilado por Pablo Marchetti. Vale! 
Registro #1283 (dicionário #2) 
[início: 17/05/2018 - fim: 07/07/2018]
"Puto el que lee: Diccionario argentino de insultos, injurias y improperios", Pablo Marchetti, ilustrações de Jorge Fantoni, Ciudad Autónoma de Buenos Aires: Grupo Editorial Planeta, 2a. edição (2017), brochura 15x21 cm., 370 págs., ISBN: 978-950-49-5752-2 [edição original: Puto el que lee (Buenos Aires: Revista Barcelona) 2006]

sábado, 7 de julho de 2018

a filha perdida

Ainda nas férias de verão li esse "A filha perdida", de Elena Ferrante. Mas como, vagabundo, fiquei meses sem registrar minhas leituras, estou conseguindo apenas muito lentamente, aos poucos, organizar as cousas. Na verdade li no início do ano, simultaneamente, três livros de Elena Ferrante: de "Um amor incômodo" já falei aqui ainda em janeiro e de "Uma noite na praia", há poucos dias. Assim como no caso de "Um amor incômodo" em "A filha perdida" encontramos uma história que equilibra dois tipos de registro, um suficientemente lírico, leve e estival, contrastado a outro, amargo, denso e cruel. Uma professora universitária ainda jovem, com menos de cinquenta anos, divorciada já há muitos anos e com duas filhas já adultas e morando com o pai no exterior, decide tirar um mês de férias em uma praia do sul italiano, numa região em que ninguém a conhece. Nesse mês ela experimenta descobertas sobre si, e reflete sobre questões que de alguma maneira já a incomodavam: sua inadaptação para a maternidade; o porquê da tensão, nem sempre apenas sexual, entre homens e mulheres; o contraste gritante entre os italianos do norte e do sul; a rudeza dos napolitanos (que é sua ascendência, coisa que ela ou nega ou esconde); a rotina besta da vida universitária; as dificuldades de entender a linguagem e o comportamento das filhas; a oposição inconciliável entre cultura acadêmica e cultura popular; a impossibilidade de ser fiel simultaneamente a si mesma e aos outros. Por vários dias em que fica ao sol tentando ler algo na praia ela vê ao longe como um grupo familiar se comporta. Ela os crítica mentalmente, ri das confusões que eles provocam no ambiente, porém fica curiosa. Nesse grupo, de homens e mulheres jovens, crianças pequenas, idosos algo deslocados, chama a atenção da narradora uma jovem mãe, que cuida de uma menina que brinca com uma boneca de pano. Ela lembra de várias passagens de sua vida de casada, mãe com filhas pequenas, e contrasta sua experiência com aquilo que vê de longe. Apesar de ter aprendido com o Coetzee que pouco importa incluir ou não spoilers em um registro como esse, uma resenha de um livro bastante lido, não vou registrar aqui exatamente o que faz a narradora para se aproximar e tornar-se uma espécie de confidente daquela jovem mãe. De qualquer forma, após essa aproximação o leitor é apresentado a desdobramentos em série, como se a narradora nos tornasse detetives de sua vida, ou ao menos detetives que precisam desvendar aquele recorte de sua vida, aquela trama. Lembro de ter terminado o livro sentindo-me cúmplice da narradora, com aquele sentimento que experimentamos ao ouvir histórias amalucadas de um grande amigo ou de uma grande amiga. Sabemos serem íntimos demais e talvez algo romanceados, até o limite da invenção, mas sabemos também que não devemos contar aquilo para mais ninguém, não por ser o acaso daquela confidência um segredo valioso ou cousa que o valha, mas por ser o símbolo perene de uma especial cumplicidade e entendimento mútuo. Interessante mesmo. Vamos a ver o que essa curiosa e reclusa escritora irá produzir no futuro. Vale! 
Registro #1282 (romance #338)
[início: 17/02/2018 - fim: 19/02/2018]
"A filha perdida)", Elena Ferrante, tradução de Marcello Lino, Rio de Janeiro: Editora Intrínsica, 1a. edição (2016), brochura 14x21 cm., 176 págs., ISBN: 978-85-510-0032-8 [edição original: La Figlia Oscura (Roma: Edizioni e/o) 2006]

sexta-feira, 6 de julho de 2018

ojo de monje

Nos meses em que vagabundo me abstive de registrar sobre o que lia encontrei muitos livros de poesia. Um deles em particular é por demais poderoso para que eu o lesse sem muito refletir, sem atenção e cuidado, por isso mesmo demorei bons meses para finalizá-lo (se é que se pode dizer que terminamos um livro de poesias, já que elas ficam ecoando em nós, profundamente). Cees Nooteboom é o sujeito que não canso de recomendar, que produz ensaios belíssimos (quase sempre sobre a dupla e bifronte arte de viver e desgraça de sobreviver nestes tempos bicudos). Ele é também poeta (já registrei aqui dele a antologia "Luz por todas as partes" e o volume "autorretrato do otro"). "Ojo de monje" é um conjunto de 33 poemas. A forma poética deles é fixa: três estrofes de quatro versos e uma quarta estrofe com um único verso. Na dedicatória - a Remco Campert, também ele escritor holandês quase nonagenário - Nooteboom diz: "las viejas amistades no se oxidan". Lembrei do Cohen e do Landgraf, do Melo e do Frank, do Péricles e do Oscar, do Sander, da Sibele. Ai de mim, grande vinagre. Os poemas são apresentados no original e impenetrável holandês lado a lado com o mais familiar para mim espanhol, muito embora eu não seja o mais versátil dos leitores do espanhol quando se trata de poesia e sim um sujeito que se esforça, se anima a aprender sempre algo novo.Do que falam os 33 poemas? Sabemos da história de Nooteboom, de sua eduçacão em colégios religiosos (franciscanos, agostinos), de sua curiosidade, de seus livros sobre Zurbarán, sobre El Bosco, sobre arte. Os símbolos são importantes para ele, sempre, como não. Há algo de breviário nos poemas, de livro de horas. As imagens são poderosas, o ritmo lento, as palavras ecoam sugerindo um mundo que termina, num crepúsculo pesado. A palavra "tenebrae", em latim, aparece várias vezes. É assim que se diz da missa da sexta feira santa, quando o Christo ainda está morto. Nooteboom fala também de uma ilha no mar Frísio, da mãe, dos amigos mortos, das viagens e das estrelas no céu, da vida calcificada nas conchas, da areia que pouco guarda registros da presença dos homens, sempre renovada pelas águas do mar, dos mestres gregos, sobretudo Sócrates em seu Fedro. Natureza e vida citadina se fundem. Você pode se afastar do mundo, abraçar o campo e a solidão de uma ilha, mas a realidade dos sujeitos que vivem na cidade irão te perseguir, como os cães perseguiram Actéon um dia. Somos todos como ele, por conta de vislumbrar a deusa, condenados a sermos dilacerados por nosso próprios cães. Tudo é metafórico e mítico na vida, tudo já foi escrito, pensado, vivido, experimentado. Como pode o velho poeta suportar o tédio disto tudo e seguir? Na semana passada don Daniel Dago me avisou que em outubro sairá um livro dele dedicado a Veneza. Saber que em dois ou três anos uma versão espanhola dele deverá ser publicada dá sentido a vida, justifica a espera, garante uma sonhadora vilegiatura. Vale!
Registro #1281 (poesia #94)
[início 23/03/2018 -  fim: 13/06/2018]
"Ojo de monje", Cees Nooteboom, Fernando García de la Banda, Madrid: Visor Libros (coleccíon Visor de Poesía), 1a. edição (2017), brochura 12,5x19,5 cm., 86 págs., ISBN: 978-84-9895-317-6 [edição original:  Monniksoog (Amsterdam: Uitgeverij Karaat) 2016]

quinta-feira, 5 de julho de 2018

uma noite na praia

"Uma noite na praia" é um conto de fadas. Trata-se de uma versão dirigida ao público infantil de "A filha perdida", um complexo livro de Elena Ferrante que já li há tempos, ainda nas férias de verão, mas, ai de mim, não registrei aqui. Se em "A filha perdida" a narrativa é conduzida por uma mulher madura e sofisticada, aqui, em "Uma noite na praia" Ferrante faz uma boneca de pano contar sua versão da experiência do abandono, de ser esquecida na praia por sua dona após um dia de verão, jogos e alegrias. É uma história que poderia ser inventada por qualquer mãe ou pai que precisasse embalar o sono de uma criança que perdeu ou esqueceu algo de que gostava muito, e se recusa a dormir. No escuro da noite a boneca vê-se rodeada por seres assustadores, areia úmida, um gato, os marulhos das ondas, alguém que limpa a praia dos destroços abandonados pelos turistas, preparando-a para um novo dia. Leitura divertida, que nos faz lembrar dos dias de verão, das praias, da infância e das crianças. Domani vou falar da versão adulta desta história. Logo veremos. Vale! 
Registro #1280 (infanto-juvenil #45)
[início -  fim: 13/02/2018]
"Uma noite na praia", Elena Ferrante, ilustrações de Mara Cerri, tradução de Marcello Lino, Rio de Janeiro: Editora Autêntica, 1a. edição (2016), brochura 16,5x21 cm., 40 págs., ISBN: 978-85-510-0036-6 [edição original:  La spiaggia di notte (Roma: Edizioni e/o) 2007]

quarta-feira, 4 de julho de 2018

retratos imateriais

"Retratos imateriais" reúne 48 poemas curtos, curtíssimos até. Os versos são livres como se é possível ser livre na vida. Os temas são variados: o tempo; a musa fugidia com quem o poeta conversa; a escala do mundo; o cosmos e o infinito; as confessas influências; a perspectiva do olhar e do ofício; o rigor do artista. O poeta se apresenta nos versos, registra fragmentos da vida e do mundo como se fosse um médico a fazer anamnese de um paciente. Jean Narciso Bispo Moura é jovem, um baiano radicado em São Paulo já há tempos e que já publicou vários outros livros. "Retratos imateriais" inclui um posfácio longo, assinado pelo poeta e professor Fabiano Garcez, que analisa em detalhe não apenas esse volume, mas também os trabalhos anteriores de Jean Moura. Não se aprende muito lendo apenas um livro de um determinado autor. Vamos a ver se um dia acabo encontrando outras propostas poéticas deste sujeito. Vale! 
Registro #1279 (poesia #93)
[início: 12/05/2018 - fim: 18/05/2018]
"Retratos imateriais", Jean Narciso Bispo Moura, São Paulo: Editora Singularidade, 1a. edição (2017), brochura 14x21 cm., 68 págs., ISBN: 978-85-94086-04-4

terça-feira, 3 de julho de 2018

aqui de dentro

"Aqui de dentro" é o penúltimo dos livros publicados de Sam Shepard, morto em meados de 2017. O livro foi publicado originalmente no início do ano passado, mas no final do ano, após sua morte, foi publicado o que é considerado seu réquiem autobiográfico, "Spy of the First Person". Um dia destes falo sobre ele aqui. Mas hoje vamos falar de "Aqui de dentro". São 56 registros curtos, mais ou menos autônomos, que vão completando aos poucos um mosaico complexo, um quebra-cabeças que não necessariamente precisa ser finalizado. Um narrador, que facilmente podemos pensar ser um alter ego de Sheppard, parece estar nas altas montanhas "Sangre de Cristo", no Novo México, não muito longe da fronteira com o México. Faz frio, o lugar é remoto, isolado, a solidão preenche o tempo livre de um sujeito/narrador que lembra do pai, de uma namorada do pai que acabou seduzindo-o  (e lhe trouxe prazer e aborrecimentos). Lembra de outras namoradas ou ex-mulheres, de seus filhos, de seu ofício de ator, da rotina e do medo. O relacionamento mal resolvido com seu pai e a ex-mulher do pai são contrastantes. Também  há ambiguidade no seu relacionamento com uma mulher que o visita, ex-mulher ou ex-namorada, com quem ainda e possível algum carinho e convivência pacífica. O sujeito é mesmo um ator o tempo todo, fala dos textos que deve ler e talvez produzir, a rotina das locações onde as filmagens são feitas, lugares e ambientes de vidas provisórias, de gente que aprende a ser nômade e se entranha de despojamento, de desapego. Quando criança ela imaginava poder ser golfista ou veterinário, como foi possível tornar-se ator? Ele fala da experiência com drogas (há uma passagem no livro envolvendo overdose e fuga que é bem bacana). Cada episódio ou registro termina e começa como no cinema clássico, com fade ins e fade outs, nos quais imagens desaparecem por completo, escurecendo a sala de cinema, antes que outras imagens voltem à tela. Uma garota aparece, tentando chantageá-lo. Sua velha caminhonete e seus cães parecer ser os únicos por quem ele tem algum carinho e respeito. O sujeito se embriaga e sonha, sonhos que parecem realistas demais, complicados demais. Sabe de uma amiga que cometeu suicídio, lamenta-se disto, pensa na morte e no amor. Passado e presente se fundem. E um crime precisa ser desvendado. O livro inclui uma apresentação de Patti Smith, multitalentosa artista americana que o conhecia muito bem. Romance algo teatral, que fala de sentimentos entranhados, que parecem precisar da experiência do leitor para serem devidamente escavados. Vale! 
Registro #1278 (romance #337)
[início: 19/02/2018 - fim: 21/02/2018]
"Aqui de dentro", Sam Sheppard, tradução de Denise Bottmann, São Paulo: Estação Liberdade, 1a. edição (2017), brochura 14x21 cm., 208 págs., ISBN: 978-85-7448-286-6 [edição original: The One Inside (New York: Knopf Doubleday Publishing Group) 2017]

segunda-feira, 2 de julho de 2018

escrito em el cielo

Houve um período em que morei em Madrid, ali na calle Fuencarral, numa pensão chamada Sonsoles, próxima ao edificio Telefónica, que fica na Gran Via. A proprietária e minha anfitriã era Victoria, que por coincidência era o nome de minha mãe, dueña Vic, sempre preocupada com minhas distâncias. Quando soube da edição deste volume não demorei em encomendá-lo. "Escrito em el cielo" é um livro de difícil classificação, preferi escolher a classificação do afeto e registrá-lo como livro de arte. Trata-se de um conjunto de trechos de romances ou ensaios que falam de Madrid. Os editores Antón Casariego, Martin Casariego e Fernando Lafuente escolheram 154 autores que publicaram livros nos quais Madrid é o cenário dos sucessos das narrativas, muito embora há vezes em que a cidade quase se personifica, se não como protagonista, pelo menos como a feiticeira que encanta ou o narrador, ou os demais personagens e ou leitor. Eles optaram por um recorte particular, aquele correspondente aos anos de redemocratização espanhola, após a morte do ditador Francisco Franco e promulgação das leis de reforma política, em 1977. Assim, os textos correspondem a quarenta anos, de 1977 a 2017, ano de edição deste belo livro. Digo belo pois o livro oferece ao leitor mimos que tornam sua leitura prazerosa: o formato, a capa dura, a miríade de fotografias e ilustrações, o mapa da cidade indicando em que local se passam os trechos citados de cada obra. Cada autor ganha uma única pagina, nas quais encontramos o trecho citado e uma curta analise de como narrativa e cidade se plasmam ali. Não há detalhes biográficos dos autores além da data de nascimento de cada um, afinal o importante no livro é Madrid e não eles. Nem todos são espanhóis, nem tampouco madrilenos. Há pelo menos um inglês e quatro dezenas nascidos na América espanhola: peruanos, mexicanos, cubanos, colombianos, chilenos, venezuelanos, uruguaios e bolivianos (curiosamente não há nenhum argentino). Há também muitas fotografias panorâmicas da cidade, belíssimas, que simplesmente encantam. Li os trechos aleatoriamente. Muitos autores e livros eu já conhecia: Camilo José Cela, Maria Dueñas, Belén Gopegui, Almudema Grandes, Antônio Muñoz Molina, Arturo Pérez-Reverte, Carmem Posadas, Juan Carlos Onetti, Manuel Rivas, Mário Vargas Llosa e Javier Marías, claro. A maioria nunca li, nem tampouco conhecia. Não será um único trecho de livro que nos explicitará as qualidades ou deficiências de um autor, mas o livro se presta para esse tipo de prospecção, de descoberta, de novos caminhos de leitura. Aprendi lendo há mais de cinquenta anos que são os livros e os diabretes incorporados neles que nos encontram e não o contrário. Vamos a ver o quê da literatura ambientada em Madrid me encontrará no futuro.Vale! 
Registro #1277 (livro de arte #23) 
[início: 09/03/2018 - fim: 29/06/2018]
"Escrito en el cielo: Madrid imaginada en la literatura 1977/2017", Antón Casariego, Martín Casariego, Fernando Lafuente (editores), Barcelona: Alfaguara / Penguin Random House Grupo Editorial, 1a. edição (2017), capa-dura 20x26,5 cm., 256 págs., ISBN: 978-84-204-3288-5

sábado, 30 de junho de 2018

trio pagão

Em "Trio pagão" Sérgio Medeiros enfeixa três propostas poéticas distintas e  complementares: "Esculturas de caligrafias", "Enrique Flor, o novo" e "[O] Rio perdido". Cada proposta do tríptico poético é acompanhada por uma pequena nota introdutória do autor, onde ele detalha a gênese de suas invenções, e uma apresentação, cada uma delas assinadas, respectivamente, por Gonzalo Aguilar, eu mesmo e Odile Cisneiros. "Esculturas de caligrafias" é um conjunto de vinte e três poemas visuais, desenhos como aquele que é reproduzido na capa do livro, nos quais a mão do poeta emula garatujas similares aquelas que uma vez ele viu um índio xavante produzir no final dos anos 1980. Esse índio, Jerônimo Tsawé, respeitado pelos seus, tornou-se uma espécie de guru do autor e é citado em outros trabalhos seus. Essa parte do livro se encerra com a reprodução de um artigo de Sérgio Medeiros, publicado originalmente em um jornal paulista, em 2011, onde ele explica as circunstâncias dos encontros que teve com aquele seu mestre xavante e traça paralelos entre os sonhos de Tsawé e as experiências da Alice de Lewis Carroll. Como fiz a apresentação da segunda proposta, "Enrique Flor, o novo", reproduzo-a aqui para melhor esclarecer o que entendi dela: “Enrique Flor”, o poema, é uma proposta refinada, sutil, onde inspiração e referências eruditas se plasmam. Nele encontramos novas aventuras de Enrique Flor e também algo sobre a evolução de sua música vegetal, de sua arte vegetal. Mas quem é afinal Enrique Flor? Quando lemos o “Ulysses”, de James Joyce, encontramos primeiro Bloom, depois Flower e depois Flor. Leopold Bloom e Henry Flower aparecem quase juntos no quarto episódio do livro, no início da manhã, e são na verdade a mesma pessoa, pois Bloom só vive suas breves metamorfoses como Flower quando troca cartas e flerta com uma amiga virtual. Já Enrique Flor o leitor só conhecerá brevemente no décimo segundo episódio, já no final da tarde, após muitos e variados sucessos de Bloom. Pois esse Enrique Flor é citado como o músico que tocou órgão com notória habilidade em uma missa de núpcias, no dia anterior ao dia de Bloom, o Bloomsday. As cenas deste décimo segundo episódio do “Ulysses” são paródicas, tudo é exagerado, hiperbólico, retórico, típico de conversas irrelevantes e risíveis de bar (os personagens estão em um pub, o “Barney Kiernan”). A curta passagem em que encontramos Enrique Flor, parte de um relato sobre um casamento arbóreo, contrapõe, à sua música de inspiração vegetal, o desmatamento da Irlanda provocado pelos invasores ingleses. Em 2012, no “Totens”, também editado pela Iluminuras, Sergio Medeiros imaginou uma deliciosa biografia desse músico português radicado em Dublin e citado por James Joyce, contando-nos algo daquelas notórias habilidades musicais que ele praticava. Medeiros recria o espírito de sua obra musical e composições, fala de seus concertos, de suas preocupações ecológicas e ambientais. Preocupações que o fizeram sair de Dublin, voltar a sua querida e igualmente desmatada pátria, Portugal, não antes de uma curiosa visita às selvas da América, onde deixa um discípulo brasileiro, que posteriormente adotaria seu nome, mas multiplicando-o, quando passa a chamar-se Henrique Flores. Nesse novo livro, que inclui um apêndice visual, “O olhar das plantas”, formado por quinze pranchas em branco onde é registrado o surreal ato botânico de plantas fitarem poemas não escritos, telas em branco. Enfim. Sergio Medeiros é um poeta que experimenta o mundo, sempre curioso e com método. Um poeta antenado, que parece não ter medo de testar as possibilidades de seu ofício, de criar sua própria vanguarda, de provocar – concretamente – o leitor. Ele procura entendimento e expressão na linguagem, tanto a linguagem que pode ser vocalizada e é mais cerebral, construída, quanto outra, que parece brotar diretamente do mundo sensível a nossa volta, a linguagem do mundo físico, natural, o mundo das formas, sons e cores, o mundo material que se irradia e preenche o espaço, o mundo das árvores e das flores, dos elementos. Um humor, joyceano (na falta de outra palavra), preenche o livro, conduz o poema. Nele o leitor encontra o novo Enrique Flor em Dublin, ora metamorfoseado nas festividades do Bloomsday, talvez o mais sofisticado “Cosplay” de nossos tempos, ora em chamas, junto com as árvores do incêndio de Pedrógão Grande, em Portugal. O poema alterna episódios que tratam da nova encarnação de Enrique Flor e outros que marcam as horas do dia, horas que funcionam como estásimos corais de uma tragédia grega e cantam as deambulações de uma família de turistas num Bloomsday. O Enrique Flor que refloresta o mundo, que distribui sementes, sementes que brotam pela cidade, bloomzeiros em flor, será sacrificado em Portugal, num sonho, como aquele de Molly Bloom, no final de Ulysses. Após incêndios a vegetação devastada naturalmente se recupera. O solo, fertilizado pelas cinzas, fará brotar novos botões e ramos nas árvores calcinadas, fará eclodir as sementes para repovoar a terra. Não é improvável que outro Enrique Flor desabroche no futuro no jardim poético de Sergio Medeiros. Logo veremos. A terceira e última proposta, "[O] Rio perdido", é dito ser uma prosopopéia pagã, ou seja, é um poema (ou peça de teatro - o próprio autor explicita não ser fácil distinguir entre os gêneros) em que sentimentos humanos são como que vocalizados por seres inanimados. Medeiros dá voz a uma rocha do Rio perdido, um rio que corre pelo Mato Grosso do Sul, no Parque Nacional da Serra da Bodoquena. Essa rocha fala da ação do tempo, desde quando era ígnea, depois retangular, lentamente esculpida pela ação das águas e finalmente grafitada por algum vivente. O "marulho" que se ouve quando nos aproximamos das águas é a voz desta pedra. O grafite na rocha também é uma encarnação de uma ninfa das águas, Dona Primitiva. O poema conversa obviamente com o Finnegans Wake de Joyce, com Anna Livia Plurabelle, a personificação do Rio Liffey que corta Dublin. Ao contrário do que disse um dia Proust sobre o mar ("La Mer  ne  porte  pas  comme  la  terre  les  traces  des  travaux des  hommes  et  de  la  vie  humaine"), os vestígios dos trabalhos dos homens não apenas deixam traços como destroem tudo inexoravelmente, inclusive os rios, como o Rio perdido e inclusive a paciência de suas ninfas, como Dona Primitiva. Esse registro já ficou enorme, portanto pouco importa se eu acrescentar umas linhas. Semanas atrás, em São Paulo, por uma coincidência dos diabos comprei esse livro para presentear Heloísa, mulher de um grande amigo, que descobri que Claudia, irmã da Heloísa, conhecia bem don Sérgio Medeiros e sua mulher, Dirce. Essa aldeia é mesmo muito pequena. Vamos em frente. Vale! 
Registro #1276 (poesia #92) 
[início: 25/04/2018 - fim: 28/06/2018]
"Trio pagão", Sérgio Medeiros, Florianópolis: Editora Iluminuras,1a. edição (2018), brochura 13,5x19 cm., 216 págs., ISBN: 978-85-7321-576-2

terça-feira, 26 de junho de 2018

nem vem

Indicado com certo entusiasmo por um amigo querido, pensei que iria me envolver mais e apreciar esse "Nem vem", de Lydia Davis, mas não foi o caso. Talvez eu pudesse dizer a ele e ao eventual leitor, de forma elíptica e confortável, que trata-se de um livro interessante, acrescentar uma ou outra ambiguidade, mas não vai ser este o caso. Paciência. As 122 curtas narrativas que forma o livro estão divididos em cinco conjuntos, mas não há diferenças notáveis entre eles. Há algo de aleatório, monótono, idiossincrático nas histórias, que são bem escritas, mas logo cansam o sujeito, como exercícios fúteis que sabemos fazer e pouco acrescentar a nosso engenho. Talvez eu entenda o porquê. Praticamente todo o material já havia sido publicado originalmente em jornais e revistas. Lidos separadamente são potentes e instigantes, mas quando enfeixados num volume deixam explícita a irregularidade no acerto de cada um. Os relatos ou narrativas, contos enfim, na falta de uma palavra melhor, envolvem o registro cáustico de cousas banais do cotidiano, o olhar irônico sobre o hábito, a rotina e as convenções sociais. O leitor encontra o registro laborioso de sonhos bastante engenhosos, sonhos dela mesma e de amigos; invenções com verniz autobiográfico; cartas formais envolvendo questões práticas, direitos privados ou reclamações públicas; espantos com o inusitado da vida; fragmentos de memórias; mini contos amalucados; sociologia selvagem; tiradas de humor; conversas roubadas; epifanias artificiais; jogos verbais; uma falsa biografia de uma meia irmã mais velha. Há também várias reconstruções de passagens das famosas cartas que Flaubert escreveu para Louise Colet, nas quais ele fala sobre a gênese de seu romance Madame Bovary. São interessantes, reconheço, mas prefiro o resultado obtido por Julian Barnes em seu "O papagaio de Flaubert", derivado do mesmo assunto e material. É muita "angústia da influência" para um livro só. Paciência velho e cansado Guina, paciência. Vamos em frente. Vale! 
Registro #1275 (contos #148) 
[início: 15/02/2018 - fim: 28/02/2018]
"Nem vem: ficções", Lydia Davis, tradução de Branca Vianna, São Paulo: Editora Schwarcz (Grupo Companhia das Letras),1a. edição (2017), brochura 13,5x20,5 cm., 302 págs., ISBN: 978-85-359-2962-1 [edição original: Can't and Won't (New York: Farrar, Straus and Giroux / MacMillan Publishers) 2014]


segunda-feira, 25 de junho de 2018

guía madrid diferente

Os guias de viagem costumam envelhecer mal, pois tudo de factual neles pode muito bem mudar (e certamente muda), mas eles também guardam para nós algo que foi vivido quase sempre com intensidade, com gozo e, talvez por conta disto, nos recusamos facilmente a desfazer-se deles. O caso desse "Guía Madrid diferente" não caberia ser apresentado assim. Afinal comprei esse volume apenas no início desse ano e não o utilizei efetivamente em uma viagem, ao menos não nessa sua metamorfose, a de um livro impresso. Na última vez em que estive em Madrid consultei sim sua versão digital, que foi muito útil e me facilitou descobrir cousas novas pela cidade (nunca conheceremos completamente nem a cidade onde nascemos, o que dizer daquelas que apenas visitamos brevemente ou nas quais vivemos por temporadas longas apenas depois de já cínicos e mal acostumados pelo hábito, fiel e cruel camareiro. Só sei que aprendi um bocado com esse guia. Ao alcance de seu celular ou num computador você encontra tudo o que precisa saber sobre a cidade: onde comer e fazer compras, hospedar-se, desfrutar de tudo com calma e sem culpa, encontrar a agenda de eventos e espetáculos, os serviços essenciais. Ótimo, entretanto a versão em livro oferece algo mais. Trata-se de um objeto mágico, um livro de arte, colorido e ilustrado, repleto de informações e histórias nas quais dificilmente prestamos atenção na versão digital, apressados que estamos. Claro, nada supera a realidade de uma viagem, daquela sensação que tão bem Josep Pla descreveu como um "milagre vivido". Esses escolhos na forma de livros que eventualmente distribuímos pela casa nos fazem voltar calmamente àqueles dias de magia e encantamento, de ansiedade e descobertas, de epifanias sem fim, em que vivemos "drowning in honey, stingless". Vale!
Registro #1274 (turismo #72) 
[início: 25/01/2018 - fim: 11/02/2018]
"Guía Madrid diferente: La cara más genuina de la ciudad", Martín López Cano, Madrid: Ediciones La Libreria (Madrid Diferente),1a. edição (2016), brochura 15x21 cm., 256 págs., ISBN: 978-84-9873-340-2

domingo, 24 de junho de 2018

a certeza das coisas impossíveis

Marcio Renato dos Santos é o senhor das histórias curtas, curtíssimas. De sua imaginação brotam coisas inusitadas que a princípio resistimos a aceitar, talvez por algum mecanismo de defesa, já que somos todos parecidos com aqueles homens ocos e bizarros que ele descreve, em histórias que se resolvem num sopro, como na vida. "A certeza das coisas impossíveis" é seu sétimo volume de contos publicados (os anteriores são, pela ordem, "Minda-au", "Golegolegolegolegah!", "2,99", "mais-laiquis", "Finalmente hoje" e "Outras dezessete noites"). Nesse estão reunidas onze histórias recortadas, nas quais saberemos apenas um fragmento epifânico da vida de alguém: de uma mulher que imagina o homem certo que deve entrar em sua vida; de um sujeito que por ansiedade sonha uma situação amalucada; da cinéfila que vê seu mundo de fantasias ruir; do solitário que publica sobre si em classificados de jornal; de uma deusa grega metamorfoseada e revivida no mundo moderno; do vendedor que acorda ao lado de uma amante morta; de um militar corrupto que imagina poder repetir o mito de Odisseu; de dois rapazes que discutem sua relação após a morte de um amigo; de um sujeito que sonha poder higienizar seu caminho para o trabalho. Algumas histórias são melhor resolvidas que outras, mas o conjunto é bom. Gostei particularmente de "Vertigo [Passo a passo]", uma espécie de "Vidas paralelas" de Plutarco adaptado para contar os sucessos de dois curiosos anônimos curitibanos. Há humor nas histórias, mas as parcas parecem velar silentes por todos contos, terríveis e inevitáveis que são. Vale! 
Registro #1273 (contos #147) 
[início-fim: 19/06/2018]
"A certeza das coisas impossíveis", Marcio Renato dos Santos, Curitiba: Editora Tulipas Negras, 1a. edição (2018), brochura 11,5x18,5 cm., 104 págs., ISBN: 978-85-917171-7-0

sábado, 23 de junho de 2018

noite escura

Apesar de pequeno esse "Noite escura" é poderoso. São apenas 72 páginas no formato A6, o tamanho de um cartão postal (para quem não se lembra, cartões postais eram uma forma de mídia que utilizávamos para nos comunicar, mas essa é outra história). Rodrigo Ungaretti Tavares, que assina literariamente R. Tavares, nos conta os sucessos de uma noite, desde pouco antes da meia noite até o arrebol da manhã seguinte. Marco, um matador de aluguel, precisa resolver um trabalho que não foi bem finalizado e, junto com seu ajudante Juvêncio, toma rumo a uma fazenda na fronteira do Rio Grande do Sul com o Uruguai. Nada mais escrevo para não furtar do leitor o encanto de acompanhar como a questão prática e profissional daquele matador acaba se resolvendo. O texto é limpo, objetivo, sem muitas digressões. O ritmo é cinematográfico, lembra obviamente westerns antigos, revistas Tex, as cousas reinventadas por Quentin Tarantino, sobretudo pela estilização da violência, sempre gratuita, mesmo quando é pura ficção. Tavares não cai em armadilhas morais, nem oferece ao leitor o lenitivo de, por exemplo, uma redenção mítica. Baita livro, diria um gaúcho do campo, da fronteira, tão bem cantada por Tavares neste pequenino livro. Ojo, seguro que se ouvirá falar deste sujeito por aí. Em tempo: quase esqueço de dizer que o sujeito é apadrinhado literariamente por Alcy Cheuiche, que assina um prefácio. Só isso já vale uma missa, mas descobri que ele é primo do Botelho! Só me faltava agora ele ser parente do Giuseppe. Aí sim. Vale! 
Registro #1272 (novela #71) 
[início-fim: 17/06/2018
"Noite escura", Rodrigo Ungaretti Tavares, Porto Alegre: Martins Livreiro Editora, 2a. edição (2018), brochura 10x15 cm., 80 págs., ISBN: 978-85-7537-272-2