domingo, 23 de dezembro de 2007

all souls

Este é o último livro que vou conseguir resenhar ainda neste ano. Ao final este foi um ano especial (rima pobre, fazer o quê?) mas este último também é um livro especial. Ganhei-o ainda em Madrid, presenteado por uma grande amiga. Fui lendo aos pouquinhos, talvez para manter a sensação boa de estar a fazer algo que lembrava a viagem e as conversas com os amigos. Terminei nestes dias de pré-festa de Natal. Cristina e eu na verdade nós trocamos livros (debolsillo! ela fez questão de dizer). Mais disciplinada ela já havia terminado aquele que eu havia lhe dado. Sombrio demais ela reclamou (meio de broma, meio preocupada com meu humor). Foi um dos livros semi-autobiográficos do Coetzee, um livro que eu gostei muito de ler no ano passado, mas ele é mesmo um tanto sombrio, mas foi o melhor que eu pude encontrar em espanhol naquele dia no El Corte Inglês. Ela achou este Javier Marias e intuiu que eu gostaria, pois disse que o tema é caro a nós, professores universitários que se encontram em outros países, em outras línguas. "Todas las almas" foi publicado em 2006 e segundo consta é o primeiro livro de Javier Marias onde há temas tão francamente autobiográficos. Ele é um escritor renomado, ganhador de muitos prêmios literários, mas também professor universitário respeitado da Complutense de Madrid e da Universidade de Oxford (descrita sem pejo neste livro), tradutor premiado do Tristram Shandy, entre outros predicados. Há uma nota longa no final do livro onde o autor tenta explicar as diferenças entre o eu narrador do livro, que experimenta um ano sabático na Universidade de Oxford e o eu autor, Javier Marias, de carne e osso, que resolveu contar uma história onde realidade e ficção são muito bem tramadas. Gostei muito do livro. Todo aquele que já teve a experiência acadêmica de ir trabalhar em um lugar diferente de onde está acostumado vai se identificar muito com este livro. Cada capítulo dá conta de uma destas experiências que são banais, mas plenas de significado para o viajante, pois quando viajamos estamos mais nus de que gostaríamos, mais vulneráveis, menos amparados pelo hábito e pelas circunstâncias. A academia, o amor, a amizade, a "estrangeirisse", a memória filtrada de cada gesto, a quase impossibildade de se entender uma outra cultura, um outro povo, uma outra pessoa, tudo está ali neste "Todas las almas", que aliás é o nome de um dos College de Oxford. Há um tanto de Lawrence Durrell nesta novela (de fato um dos personagens do livro é personagem também de Durrell). Lembrei do Fernando Landgraf, que me dizia fazer falta um livro que descrevesse o mundo dos encontros científicos, das viagens, das publicações, da vida acadêmica. Vou recomendar este livro para ele bem como para meus amigos que são verdadeiros "pci", ou puta-cientistas-internacionais, como gosto de dizer. Belo livro, belo presente. Obrigado Cristina.
Todas Las Almas, Javier Marías, editorial Debolsillo, 1a. edição (2006) ISBN: 978-84-8346-139-6
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Balanço final [24.12.2007]
Fiquei feliz de ter terminado "Todas las almas" ainda neste ano. Foi um ano de muita "espanholice"; da descoberta do Montalbán; das leituras de Perez-Reverte, Roberto Bolaño, Camilo José Cela e Sergi Pamiés no original; das leitura de Durrell, Wodehouse, Coetzee, Garcia-Roza, Pamuk, O'Brian, e tantos outros; de alguma leitura de poesia, sempre uma falha minha; de solenes bobagens e equívocos também, pois perdi algum tempo em coisas terríveis também. Foram 86 livros (e se é que a classificação foi correta são 23 romances, 14 de crônicas ou ensaios, 12 romances policiais, 8 de poemas, 7 de contos, 5 novelas, e 17 de outros gêneros (biografias, culinária, memórias, cartuns ou mangás, mini-contos, infanto-juvenis, ficção científica). Vamos a ver o que se passa em 2008. Há muita coisa "in progress" e muitos separados para leitura (alguns separados desde 2006, 2005, 2004, confesso), mas não é verdade que os livros têm alma própria e escolhem seus leitores somente quando estes estão preparados? Vale.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

não é difícil compreender

Em um dos encontros com o povo das quintas-feiras ganhei este livrinho. Quem será que foi mesmo o presenteador? Esqueci. Deixei o livro guardado em um desvão lá de casa, dona Leda deve ter colocado outros em cima dele, esqueci-me totalmente até que ele saltou-me aos olhos noutro dia e pude enfim retomá-lo. Escrevo tanto para chegar a um nada, pois achar e ler este livro foi mesmo um azar só meu. São dois conjuntos de dez, doze contos: um intitulado "Não é difícil compreender os ETs", que dá nome ao livro e outro "Valsa do poderoso chefão". São contos algo frouxos para o meu gosto, pois parecem querer terminar rapidamente, não por falta de técnica ou apuro, mas por falta do que mais dizer. Parece que este açodamento deve ser entendido como uma virtude, em detrimento dos mais saudáveis hábito (fiel camareiro, lembra o Proust) e a paciência (senhora do tempo, lembra Durrell). Inegavelmente Laís Chaffe domina a técnica de escrever bem, não comete erros bobos, tem estilo definido, mas eu acho que as histórias são quase irrelevantes. Nos contos mais longos, quando ela deixa o texto continuar, ela ganha algo de força. De resto tudo me parece artificial demais, com metáforas demais, adjetivos demais, advérbios demais. Na segunda parte os contos são mais oníricos, mais mágicos, esfumados, fantasmagóricos, góticos até. Lembrei da Dorothy Parker, que dizia que há livros que devem ser esquecidos na mesa de cabeçeira, pois isto faz bem a eles, devemos mesmo esquecê-los. No último livro que li (e resenhei aqui) "O livro dos livros perdidos" ficamos sabendo da imensidão de textos que se perderam ao longo dos séculos, por força do fogo, da água, do homem. Neste início de século, onde há tanto por se ler, talvez seja pretensão demais acreditar que tudo o que escrevemos tem alguma chance de sobreviver algo mais que o nosso curto período de vida. Há livros que são mesmo dispensáveis e a vida é curta. Talvez a sabedoria esteja mesmo em classificar melhor o que se ler e investir em livros mais nobres. Vou refletir sobre isto quando começar a lista dos livros a serem lidos em 2008 (um ano bissexto, com um dia a mais de tempo para a vida e a leitura).
Não é difícil compreender os ETs, Laís Chaffe, editora AGE, 1a. edição (2002) ISBN: 85-7497-099-0

perdidos

Apresentado com uma história das grandes obras que nenhum leitor jamais lerá "O livro dos livros perdidos" de Stuart Kelly é um catálogo com textos curtos sobre autores cujas obras se perderam ou sobreviveram apenas fragmentariamente. A escolha dos textos e dos autores é arbritária. O próprio autor confessa que está focado na tradição ocidental da literatura e que há miríades de obras em todos os cantos do planeta (em muitas e variadas línguas, conhecidas e desconhecidas) que foram perdidas igualmente. Não que a seleção apresentada por ele seja ruim, mas uma obra com a pretensão de identificar o que não-existe, ao contrário de catalogar o que existe, está previamente sufocada pela vastidão e incompletude. Os livros citados por ele não são apenas os queimados, rasgados, destruídos a marteladas, mas também aqueles simplesmente interrompidos ou abandonados por seus autores. As quase setenta escolhas de Kelly são bastante saborosas. Eu não desconhecia que apenas fração das obras dos autores clássicos gregos e romanos sobreviveram até nosso século XXI, mas não tinha idéia de que esta fração era tão pequena (em geral um décimo ou menos da produção de um grande autor sobrevive, ficamos sabendo). Há autores menos conhecidos de quem sabemos apenas o título de um ou outro livro, de uma passagem obscura de um poema, de uma citação amarga ou entusiasta feita geralmente fora de um contexto adequado. Desde Homero e passando cronologiamente a Eurípides, Ovídio, Dante, Racine, Ésquilo, Shakespeare, Dickens, Gogol, Chaucer, Carlyle, Pound, Eliot, Burroughs, Plath, Hemingway, dezenas e dezenas de poemas, dramas, ensaios e romances são catalogados. Nada é perene sobre o sol parece nos lembrar o autor. A edição é bem cuidada. Há um índice bastante útil e uma curta conclusão onde somos lembrados que nem a tecnologia atual pode previnir o que quer que seja da segura destruição em um futuro remoto. O acaso parece ser o guia ex-machina que traz este legado do passado a cada um de nós. Isto é a vida, e dela não se ri. Todo aquele que já perdeu um texto no computador por conta de um acidente qualquer ou mesmo aquele que tem pretenções literárias (e sonhos de imortalidade) vai gostar de ler este livro. Acho que é um livro bom de se ler pois diz muito sobre o que foi perdido mas também nos apresenta o que vale a pena ler do material remanescente de cada um dos sujeitos que teve a sorte de sobreviver a fúria inexorável e implacável do tempo.
"O livro dos livros perdidos", Stuart Kelly, tradução de Ana Maria Mandin, editora Record, 1a. edição (2007) ISBN: 978-85-01-0752-4

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

lua

Muitos anos atrás, ainda quando era um estudante de graduação, li os dois livros de memórias de David Niven. São dois livros deliciosos, cheios de histórias engraçadas em rápida sucessão. Em um capítulo estamos com David Niven em um internato inglês dos anos 1920, depois em uma sonolenta reunião do exército britânico em uma ilha distante do mediterrâneo, vendendo whisky falsificado nos EUA, namorando moças bonitas do Waldorf Astoria (sem estar hospedado lá), fazendo pontas em infindáveis filmes de segunda linha. A correria segue até vê-lo depois em uma batalha da segunda guerra mundial, voltando aos EUA, logo esquiando nos alpes suiços, velejando, contando histórias, filmando aqui e acolá com amigos e desafetos, escrevendo livros, descrevendo conversas com princípes e outras potestades, sempre dando a impressão que o terno bem cortado, a coluna ereta e o copo de gin tônica na mão faziam parte de um tipo de uniforme de trabalho. Até hoje conto algumas das histórias mais incríveis para os amigos. Especialmente "A lua é um balão" é um de meus livros favoritos. Esta biografia "O outro lado da lua" conta um tanto mais dos muitos problemas financeiros e profissionais pelos quais David Niven passou. Talvez por ter natureza extremamente fleumática e prática tentasse sempre relevar as dificuldades ou mesmo rir de si mesmo como alternativa a depressão. Sheridan Morley dá pistas para entendermos melhor as circunstâncias que o levaram a ter uma carreira tão prolífica (quase 100 filmes) onde apenas um punhado deles (menos de 10) têm algum valor cinematográfico. Gostei de ler esta versão. Cada um de nós tem camadas sucessivas de revelações pessoais para oferecer e não há porque aceitar como definitivas as primeiras avaliações, os primeiros contatos. A descrição dos últimos anos de sua vida, padecendo da doença de Lou Gehring (uma perda crônica do tônus muscular) é muito bem escrita e dignificante. De qualquer forma acredito que vale a pena ler os livros de Niven antes de embarcar nesta biografia. Cabe dizer também que apesar da edição conter um bom índice onomástico e uma completa cinematografia de Niven, a tradução é repleta de erros óbvios que irritam o leitor. O clássico "a importância de ser ernesto", no lugar de "a importância de ser prudente" (um trocadilho de uma peça de Oscar Wilde) é o menor deles.
"David Niven, o outro lado da lua", Sheridan Morley, tradução de Reinaldo Guarany, editora Francisco Alves, 1a. edição (1989) ISBN: 85-265-0155-0

sábado, 8 de dezembro de 2007

boleiros

Cyro Knackfuss é um vizinho meu e também um colega da universidade. Nos encontramos quase sempre por acaso e trocamos breves comentários sobre a cidade, sobre a UFSM, sobre o condomínio (ele é conhecido por ser muito bem informado sobre tudo o que se passa por aqui). Eu sou senhor de gatos, ele é cachorreiro. Isto o obriga a dar passeios matinais e também nos finais de tarde com sua cadelinha e por sorte eu o encontro nestes momentos (e como ninguém está com pressa proseamos sempre um tanto). Recentemente ele publicou este pequeno livro de crônicas de futebol. Perdi a festa de lançamento. Todo mundo que esteve lá (e foi gente à beça) diz que foi uma grande festa. Achei o livrinho em uma banca de jornal e comprei. O mundo do futebol é muito particular e tem lá suas regras, suas tradições, suas histórias entranhadas. Cyro compilou uma série delas com muito bom gosto. Algumas já haviam sido publicadas no "Garganta do Diabo", do notório Grupo de Risco (Byrata, Elias, Orlando e Maucio). A maioria delas ele escreveu recentemente, certamente incentivado por algum colega dos campeonatos e das peladas de finais de semana. Há muita informação sobre os times de futebol de Santa Maria e região, sobre os campos de várzea, os causos de vestiário, os seres mitológicos que povoam qualquer memória daqueles que cultuam o futebol. O livro tem ilustrações de Byrata, Maucio, Huan e Elias (uma zaga reforçada, de respeito). Traz também apresentação e guardas de Orlando Fonseca e Márcio Grings (dois meia-armadores). As outras posições Cyro vai preenchendo com sua prosa: são jogadores, peladeiros, palpiteiros, juízes, cartolas e entusiastas do futebol que já passaram alguma vez pela baixada melancólica (nome carinhoso do estádio do Inter de Santa Maria). Belo livro para se conhecer um tanto da história santamariense. Parabéns Cyro. Um dia destes vou seguir no elevador e parar no doze para pegar uma dedicatória tua.
Cabeça-de-Bagre (Histórias de Futebol), Cyro Knackfuss, editora Manuzio, 1a. edição (2007)

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

castelo branco

Se há uma coisa que faz a alma um grande bem é a leitura de um bom e honesto romance. Comprei este livro no sábado, na CESMA, meio preocupado até, pois estava com outros projetos já adiantados e não queria me dispersar muito. O Pamuk eu conheço do Neve, do Vermelho, do Negro, do Istambul (não terminei ainda estes dois últimos, fazer o quê). Este é o livro de estréia dele, escrito no final da década de 1970, quando ele tinha pouco mais de 25 anos. Os grandes temas dos romances, caros a muitos, estão lá: um manuscrito de origem duvidosa; o duplo; a busca de conhecimento; o jogo de espelhos; o poder dos sonhos; a religião e a ciência; o autor que conversa explicitamente com o leitor através do texto. Tentei me convencer de algumas metáforas: o contato entre religiões; o próprio Pamuk sendo o personagem dividido. Preciso pensar um tanto mais nisto. O que me impressiona neste sujeito dado a controvérsias (conheço muitos que não gostaram nem do Neve, nem de Meu Nome é Vermelho, apesar do meu repetido entusiasmo) é a capacidade de contar uma boa história a primeira vista bastante simples. A ação se passa no século 17, em Istambul, na órbita de paxás, vizires e sultões, mas também ao redor da gente simples dos bairros periféricos, das cidades pequenas do interior. Há um jogo mental entre os dois personagens principais, cada um tentando entender o outro e emular toda a vida do outro, como se (na metáfora do próprio Pamuk) nosso cérebro fosse formado de infinitas gavetas cujos conteúdos pudessem ser intercambiados entre os seres. Gostaria de levantar um outro ponto. Quando da publicação de Neve se falou um bocado sobre o fato da tradução ter sido feita a partir de uma tradução inglesa e não do apartir do original turco. Neste "Castelo Branco" a tradução é dita ter sido feita a partir de traduções francesa e inglesa. Acho que este fenômeno deve acontecer com outras línguas. De qualquer forma recomendo este livro sem a menor reserva.
"O Castelo Branco", Orhan Pamuk, tradução de Sérgio Flaskman, editora Companhia das Letras, 1a. edição (2007) ISBN: 978-85-359-1117-6

sete vidas



Este livro eu vi e comprei na hora, para dar de presente para minhas gatas catalanas. O livro é editado pela Cosac Naify, garantia de um volume com algo mais que letras impressas e uma boa história para se ler. O livro é repleto de belas ilustrações de Iran do Espírito Santo (meu amigo Navarra tem uma implicancia com o Iran, mas até que as ilustrações são bonitas - daí a ser arte grande é outra coisa). Os contos são miúdos, pequenos mesmo, mas todo gateiro vai entender logo o jogo proposto por ela. Podemos ficar horas tentando entender a posição do corpo e olhar de um gato, tempo de diversão, mas nossa compreensão sempre pode ser surpreendida pelas súbitas mudanças de humor deles. São histórias muito gostosas e tocantes. Espero que as meninas gostem tanto quanto eu este presentinho de natal (que vou postar ainda hoje). Tenho uma pilha de livros começados, encalhados, mal decifrados, quase lidos até, para serem terminados e resenhados. Será que estas esperadas férias vão me permitir colocar a leitura em dia? Veremos!
Sete Vidas, Heloisa Seixas, editora Cosac Naify, 1a. edição (2002) ISBN: 978-85-7503-172-4

ilhas austrais

Em junho eu já havia resenhado aqui um livro de O´Brian e havia dito que não havia gostado muito. Resolvi dar uma nova chance para o sujeito, afinal são vinte livros dedicado ao "Mestre dos Mares", sucesso no mundo da marinharia e dos romances históricos. Este último publicado no Brasil, "Expedição à Ilha Maurício", é muito bom. As reviravoltas, as descrições das batalhas, a análise da situação política da época e a arte do romance (afinal de contas estamos envolvidos nisto para ler uma boa história) tudo me pareceu muito satisfatório. A ação se dá no Oceano Índico desta vez, em torno de um conjunto de ilhas próximas a atual Madagascar, a grande ilha que um dia os portugueses sonharam manter no império colonial, mas que foi tomada pelos franceses. As batalhas descritas neste último livro se dão entorno das ilhas Maurício e Reunião e da cidade do Cabo da Boa Esperança, à época estratégico porto inglês. Apesar dos sucessos alcançados pelos ingleses no romance, Maurício é hoje um país independente e Reunião continua um departamento francês de além mar. Cronologicamente este é o quarto volume das aventuras de Jack "sortudo" Aubrey, com a patente provisória de comodoro. O enredo envolve batalhas reais que aconteceram por volta de 1810, durante as guerras napoleônicas. No romance vários outros capitães/personagens se envolvem nas batalhas e há uma honesta análise da psicologia dos personagens, demonstrando - ao menos para mim, um analista leigo dos mais pedestres - o refinado domínio de Patrick O´Brian em outros assuntos além da história náutica.
"Expedição à Ilha Maurício", Patrick O´Brian, tradução de Domingos Demasi, editora Record, 1a. edição (2007) ISBN: 978-85-01-075298-14

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

profundamente

Li este livro e ouvi este livro. Delícias duplas. Capa dura, costura, guardas, iconografia, ilustrações, belo projeto gráfico. Tudo está no lugar, pois esta é mais uma excelente edição da Cosac Naify. Neste belo livro estão coligidos 50 poemas de Manuel Bandeira. Além dos poemas há um generoso posfácio de Augusto Massi e Paulo Werneck e uma bibliografia das obras de Bandeira. Junto com o livro há um CD com 29 poemas lidos pelo próprio Bandeira. É curioso ler os poemas juntos com o ritmo e a entonação de seu inventor. O livro foi publicado originalmente em 1955 em uma coleção do Ministério da Cultura. As gravações são da mesma época, feitas para um selo carioca dedicado a gravações de poetas da época. Há nesta edição poemas que eu gosto muito pois me fazem lembrar de uma época quando lia Pedro Nava (um contraparente de Manuel Bandeira, aliás) que gostava de usar suas poesias em suas epígrafes. Li quase todos os poemas em um sábado de sol, apertando os olhos para enxergar melhor e pensando na vida e nos momentos da vida que podem ser capturados assim em um poema. Se alguém estiver na dúvida no que dar de presente de natal para uma pessoa querida esta é uma sugestão a ser considerada. Vou considerar este o meu presente de natal.
Manuel Bandeira, 50 Poemas Escolhidos pelo Autor, Manuel Bandeira, editora Cosac Naify, 1a. edição (2006) ISBN: 978-85-7503-434-0

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

anos 70

Perdi o lançamento deste livro de contos de Vitor Biasoli mas consegui uma dedicatória menos de uma semana depois, em nosso já tradicional encontro das quintas-feiras. A edição é da Movimento, bem cuidada, com apresentação e guardas escritas por amigos que são também leitores atentos. Os doze contos são curtos, acredito que escritos já há um certo tempo e burilados agora, com a mão de um autor já senhor de seu ofício. Os temas e o tratamento remetem o leitor a questões que eram caras a nós brasileiros nos anos 1970: a repressão política; as várias liberdades possíveis (política, artística, sexual); os conflitos entre pais e filhos. Há nostalgia nos contos mas o tratamento é sempre forte. Porto Alegre aparece explicitamente em um dos contos, mas é uma Porto Alegre triste e velha, provocando um amargor que ao menos para mim não é uma coisa ruim de se ter ao revirarmos estes baús e memórias. Em um ou outro (vigília; caminho sem volta; uísque sem gelo) o desfecho soa um tanto artificial e forçado, mas todos eles têm personagens fortes que ficam povoando nossa vida um tanto ao longo do tempo da leitura. Fico a pensar se o Vitor não guardou algum destes contos para ver se eles evoluiriam para um romance de aprendizado ou de formação. Esta é uma teoria boba na verdade. Basta o Vitor um dia me dizer que os contos foram todos escritos agora, novinhos como pão fresco, que eu perco a teoria e a razão. Mas que eu acho isto, lá isto eu acho. Belo livro.
Uísque sem Gelo, Vitor Biasoli, editora Movimento, 1a. edição (2007) ISBN: 978-85-7195-110-5

economia

Comprei este livro quando ele já estava quase saindo de moda, ainda no ano passado. Li o artigo que me interessava "Para onde foram parar os criminosos", entendi e gostei do estilo de Steven Levitt, mas acabei esquecendo o livro em alguma estante, envolvido em outros projetos. No mês passado o governador do Rio de Janeiro reavivou a polêmica ao sugerir que a liberação do aborto pode ser utilizada como instrumento de combate a criminalidade. Foi um prato cheio para jornalistas e os palpiteiros de plantão. Meu amigo Samuel Pessoa (que havia me recomendado o livro originalmente) entrou na conversa, escreveu no Estadão a respeito e eu resolvi voltar ao livro para conferir os outros capítulos. O livro se defende sozinho. Levitt é um economista que faz associações entre agentes e fatos econômicos com muita originalidade e não é difícil se convencer das suas análises. Qualquer pessoa minimamente familiarizada com metodologia científica acompanha seu raciocínio. O livro têm uma longa seção de referências. Não se trata nem de longe de um livro cheio de achismos e opiniões impossíveis de serem comprovadas. Gostei particularmente do artigo sobre as relações entre professores e lutadores de sumô (entusiasta do sumô que sou) e do artigo sobre o fato de traficantes usualmente continuarem morando com as mães (ao menos os traficantes americanos fazem isto). Os artigos sobre a influência dos nomes de batismo na carreira e no sucesso das pessoas depende muito da demografia americana, portanto não acredito que possamos aplicar um modelo deste tipo em um país como o Brasil (talvez só daqui a algumas décadas, quando a engenharia social que o atual governo está promovendo a fórceps - utilizando conceitos medievais e tolos de raça e cor - estiver em pleno funcionamento, poderemos tentar fazer alguma ilação deste tipo). Enfim, é um livro gostoso de ler e que conta com a inteligência do leitor para decifrá-lo.
"Freakonomics", Steven D. Levitt e Stephen J. Dubner, tradução de Regina Lyra, editora Campus, 7a. edição (2005) ISBN: 85-352-1504-2

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

campônios

Este livro é de uma brutalidade sem par. Acho que deveria dizer que é uma novela e não um romance, mas não tenho muita certeza da tecnicidade que permite esta separação entre estilos literários. "A Família de Pascual Duarte" tem pouco menos de 150 páginas e descreve a vida de um campones do interior profundo espanhol da primeira metade do século passado. A vida é tão dura e as circunstâncias impelem o personagem tão prontamente para sua desgraça particular que não podemos deixar de lembrar do mundo grego e das tragédias em série que engolfam deuses e heróis. O narrador da história é o próprio Pascual Duarte, que escreve algumas de suas lembranças na cela onde está esperando sua execução. Há algo que me lembrou o Guimarães Rosa, por conta do tom monocórdio com que o sujeito vai contando sua história, pouco modificando seu discurso mesmo na presença de algum eventual interlocutor. No final aparecem algumas cartas de outros personagens que auxiliam o leitor a entender algumas lacunas da história contada por Duarte. Este é um pequeno e poderoso livro, repleto de passagens memoráveis e cruéis, escrito como se o autor estivesse tomado por uma psicologia selvagem. Este é o livro de estréia de Camilo José Cela (que viria a se tornar um dos maiores escritores espanhóis do século passado e que ganhou o prêmio Nobel em1989). Foi escrito em 1942, discretamente publicado naqueles tempos bicudos da segunda guerra mundial, mas fez-se notar rapidamente e granjeou fama a seu autor. Curiosamente foi publicado no mesmo ano de "O Estrangeiro", de Albert Camus e têm muita semelhança com este outro intenso livro. Há destas coisas no mundo dos livros e dos escritores.
"A Família de Pascual Duarte", Camilo José Cela, tradução de Janer Cristaldo, editora Bertrand Brasil, 3a. edição (1995) ISBN: 85-286-0355-5

felinos

Este pequeno livrinho editado pela Publifolha faz parte daquela minha cota de bobagens solenes (mas despretenciosas) que tenho de ler de tempos em tempos. Na viagem para a feira do livro de Porto Alegre fiquei a ler o "Sobre a Verdade", tipo do livro que esgota um tanto o sujeito (há livros que simplesmente nos espancam intelectualmente). Depois de um destes, cheios de realidade real como gosto de dizer, há que se ler algo menos desgastante. Lá na sessão de infantis da feira achei este livro sobre gatos (mais um, fazer o quê?) e resolvi ler pois tinha planos de eventualmente mandá-lo para as catalanas se divertirem um tanto (mas mudei de idéia e vou mandar um outro, que é mais especial que este). Não é exatamente um manual sobre gatos ou uma enciclopédia sobre o mundo dos gatos. Trata-se de uma pequena compilação de histórias curtas sobre curiosidades, verdades e mitos sobre gatos. Quem já gosta de gatos certamente vai rir das descrições de seus hábitos e manias, bem como se identificar com os muitos admiradores deles. Não é o melhor livro que já li sobre gatos (eu sou um novato neste mundo, já que o Salem se adonou da Helga e passou a nos velar como um Buda há pouco mais de cinco anos apenas). De qualquer forma não deixa de ser um livro gostoso de ler e que tem sim alguma informação inédita para mim. Há uma página no final com referências, telefones de associações brasileiras dedicadas aos gatos e dicas de sites.
"Os Gatos Nem Sempre Caem Em Pé", Erin Barrett e Jack Mingo, tradução de Carlos Rosa, editora Publifolha, 1a. edição (2004) ISBN: 978-85-7402-600-X

terça-feira, 13 de novembro de 2007

verdade

Achei este livrinho na CESMA, um tanto sem querer. É mesmo um livro pequeno, 10x16cm, cento e poucas páginas, discreto na estante. Por sorte estava com don Robson ao lado que me disse na hora: "onde você achou? quero também um exemplar para mim!" Segundo ele Harry Frankfurt é um filósofo americano bastante respeitado (professor emérito em Princeton). Em meados dos anos 1980 publicou um livro traduzido no Brasil por "Sobre falar merda", que vendou muito no mundo todo. Sua idéia naquele livro é, (aparentemente, já que não li o livro, mas li sobre o livro) condenar a capacidade infinita que o homem moderno tem hoje de falar bobagens e platitudes sem fim sem o menor compromisso com a verdade. Mas este é um outro livro que eu vou ter de comprar e ler um dia destes. O que achei na CESMA é "Sobre a Verdade". Neste livro ele argumenta que a verdade sobre qualquer assunto e circunstância é de fato um bem muito importante para toda a humanidade e em hipótese alguma pode ser deixada de lado, permitindo que imbecis, néscios, sandeus, desmemoriados e embusteiros falem bobagens em seu lugar. O livro é pequeno o suficiente para não permitir muita digressão, mas certamente é convincente. Segundo ele o compromisso irrestrito com a verdade é o que separa racionalmente homens das bestas. Qualquer ser humano não comprometido com a verdade está assim preferindo voltar à nossas origens mais primitivas, fugindo das regras e do convívio social honesto. Para quem vive em um país especialmente perverso, onde a falsidade, o embuste e a mentira são mais do que moeda de troca circunstancial, mas o modo de vida da grande maioria da população, este é sim um livro importantíssimo. Gosto de dizer que na dúvida prefiro usar um taco de beisebol quando estou tratanto com imbecis. Não há meio termo: ou cultivamos nosso jardim de delícias e verdades ou voltamos a pastar nos capinzais da ignorância. Fundamental este livro. Longe de ser um panfleto é um pequeno roteiro de como devemos valorizar a verdade e até mesmo cultivar o hábito de verificar se estamos mesmo no caminho certo em cada escolha moral, em cada contrato, em cada decisão, em cada procedimento. Portanto, parece dizer ele aos canalhas de plantão, esqueçam esta quimera de acreditar existir meia ética, meia verdade, meia retidão: "É a verdade, estúpido!"
"Sobre a Verdade", Harry G. Frankfurt, tradução de Denise Bottmann, editora Companhia das Letras, 1a. edição (2007) ISBN: 978-85-359-1073-5

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

segredos

Uma das coisas que sempre me impressionam é o quanto nossos amigos de longa data conhecem bem nossos hábitos mais entranhados, mesmo após anos de separação. Fui visitar a Sibele, quanta saudade, e ela me indicou (e emprestou ali na hora) este "de Veludo Cotelê e Jeans", dizendo que eu ia gostar. E não é que eu gostei mesmo! Li devagarinho, me acostumando com o estilo de David Sedaris. Ele é um humorista e radialista americado que já foi nominado ao Grammy (prêmio americano dedicado ao mundo da música e da mídia em rádio e televisão) e já vendeu milhões de cópias de seus livros. Talvez pelo fato das histórias de seus livros já terem sido contadas e recontadas no rádio e em seus shows humorísticos o ritmo seja tão cativante. São sempre reminiscências de momentos e situações curiosas vividas por ele, sua família, seus amigos. Dono de um humor sarcástico e auto-depreciativo Sedaris é o tipo de sujeito para quem não deveríamos nunca confidenciar algo que gostaríamos de manter em segredo. Mesmo as situações mais bizarras vividas por seus familiares são expostas sem pudor por ele. Há que se reconhecer que o tratamento que ele dá as histórias nos faz refletir sobre nossos próprios hábitos e reações no dia a dia, frente a situações similares. Seu estilo é pleno de bom gosto, cabe dizer. Este tipo de literatura dá a falsa sensação de improvisação e de ser fácil emular, mas é mesmo fruto de um talento muito particular e trabalho duro. Não que as histórias sejam artificiais (ou pareçam sê-lo), mas pelo inusitado das situações: um jogo de strip-poker entre garotos; o planos dos pais de comprar uma casa na praia, o parto difícil de uma cunhada, a vagabundagem dos anos na universidade, o desleixo do apartamento da irmã, a tia excêntrica que lhe paga uma viagem à Grécia. O livro é muito divertido, cheio de esquisitices, mas divertido. Obrigado Sibele.
"De Veludo Cotelê e Jeans", David Sedaris, tradução de Sérgio Flaksman, editora Companhia das Letras, 1a. edição (2006) ISBN: 978-85-359-0813-7

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

nero

Se na viagem de ida a São Paulo li as aventuras do Capitão Alatristre e começei o "El Balneario", na volta optei por algo novo, que comprei na rodoviária, curioso que fiquei. Já havia ouvido falar de Rex Stout por conta de uma pesquisa que fiz tempos atrás sobre prêmios literários. Eu acredita que existiam o Nobel e mais um ou dois importantes, mas descobri que existem uns vinte pelo menos que são muito respeitados. Pois naquela época descobri que existe desde 1979 um prêmio chamado Nero Wolfe Awards exclusivo para autores de livros de mistério. Nero Wolfe é o nome de um personagem de Rex Stout, americano que viveu na primeira metade do século passado. Segundo consta ele escreveu mais de 70 livros. Seu personagem principal é portanto Nero Wolfe, um gordo detetive particular, maniático como poucos, que mal sai de sua casa e abandona seus hábitos estravagantes, mas que resolve enigmas e soluciona crimes como ninguém. Como todo herói desde o Quixote (sempre ele o Quixote assombrando quem tentar emular algo novo) Wolfe tem um auxiliar dedicado, um investigador chamado Archie Goodwin. A viagem de volta a Santa Maria foi longa, mas a leitura de "A Voz do Morto" foi rápida. É um livro bem escrito. Um crime acontece e as informações são levadas ao gabinete de leitura de Wolfe que, pacientemente, entre um jantar e o tempo dedicado ao cultivo de suas premiadas orquídeas, em um par de dias (e em pouco mais de 200 páginas) descobre a solução do enigma. Nada espetacular, nenhum fogos de artifício espoucando no céu, tudo se passa muito rapidamente. Não o linguajar, que certamente foi depurado pela tradução, mas certamente a ambientação da história me parece um tanto datada, afinal estamos falando de uma Nova Iorque dos anos 1940. Causam algum estranhamento muito dos procedimentos jurídicos, jornalísticos e policiais descritos no livro, mas paciência, não há o que reclamar, pois se estamos lendo uma recepção onde Hamlet está presente não podemos reclamar da decoração lúgubre ou do ressoar dos passos pelo chão áspero. Talvez um dia eu volte a ler algo mais de Rex Stout para conhecê-lo melhor (talvez em alguma outra rodoviária eu encontre um outro livro dele afinal), mas por enquanto tenho outras cositas para ler (estou a ler mas rapidamente que resenho, mas isto não é exatamente um problema).
"A Voz do Morto", Rex Stout, tradução de Daniel Argolo Estill, editora Companhia das Letras, 1a. edição (2007) ISBN: 978-85-359-1098-8

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

dieta

Já escrevi aqui que uma das minhas alegrias neste ano foi ter sido apresentado aos livros de Manuel Vázquez Montalbán. Este volume da série Carvalho garimpei no site de sebos estantevirtual, "barratinho, barratinho". Acredito que veio diretamente de algum balaio porteño, uma excelente edição da editora Planeta Argentina, com direito a um curto ensaio sobre a gastronomia sempre presente nos livros de Montalbán no final. Uma das coisas que me impressiona é a variedade de seus temas e a vívida imaginação deste sujeito: ele sabe mesmo como contar uma história, por mais inverossível que pareça. Isto o difere em muito do Garcia-Roza por exemplo, que te deixa brabo com umas coincidencias, uns desfechos, umas soluções, que são mesmo de amargar. Publicado originalmente em meados dos anos 80, El Balneario se localizano início da segunda metade da série de livros com o personagem Carvalho, ou seja, se o autor já havia se mostrado um mestre na prosa, ganho muitos prêmios literários e já era senhor de uma reflexão madura e inteligente sobre a Espanha, o personagem já devia estar um tanto acima do peso após a dezena de livros onde a gastronomia é um personagem de apoio, funcional e onipresente definitivamente. Desta vez o detetive Carvalho está de férias em um spa, um balneário, seguindo os conselhos de seu médico para se desintoxicar, perder peso, relaxar da vida dura em Barcelona. Curiosamente não há propriamente receitas neste livro (se é que as sopas ralas da dieta do balneario podem ser consideradas quitutes gastronômicos). Mas é a ausência de comida e as implicações das dietas em cada indivíduo que dá ritmo ao livro. Como diz o personagem principal do livro em um lugar como este nada acontece até o preciso momento em que algo acontece. Não um, mas uma série de crimes acontece e o autor fica a se perguntar se é possível convencer um leitor da verossimilhança disto tudo. O Balneario me parece uma metáfora da Espanha, ainda dividida entre a aproximação com a riqueza da Europa e do Mercado Comum e seu passado de Ouro (nos séculos XVI e XVII) e de crises (na Guerra Civil e no Franquismo). Há muita discussão sobre o papel da política, das greves, da história e da luta de classes, na vida das pessoas comuns, mais simples. No final uma outra metáfora: um baile de máscaras, no encerramento do período de tratamento de todos os internos do balneário. Gostei muito da trama, do tema, do tratamento. Este é mesmo um outro belo livro de Vázquez Montalbán. Junto com este volume recebi também da estantevirtual uma edição cubana de "La Soledad del Manager", e em breve também o resenharei aqui.
El Balneario, Manuel Vázquez Montalbán, editorial Planeta (Argentina), 1a. edição (1997) ISBN: 950-742-961-1

terça-feira, 6 de novembro de 2007

capa e espada

Eu já resenhei um outro livro do Pérez-Reverte aqui, o "Limpeza de Sangue". Foi erro meu pois aquele era o segundo volume das aventuras deste personagem, Diego Alatristre y Tenorio, que já ganhou até versão no cinema e faz parte da cultura espanhola contemporânea. Demorei para encontrar este volume. Quando o fiz dei sorte, pois li em uma longa sentada, durante minha viagem de ônibus para São Paulo. Não há muito o que dizer além do que escrevi na resenha anterior. É mesmo um livro bem escrito, um romance honesto e bem movimentado, uma curiosa mistura de história e ficção. Um dos personagens principais é o Conde-Duque de Olivares, que eu sempre lembro por conta do enorme quadro do Velásquez que o Museu de Arte de São Paulo tem em seu acervo. Aliás o livro é recheado de personagens históricos: O próprio Príncipe de Gales, o Duque de Buckingham, os dramaturgo Lope de Vega e Luís de Gongora, o poeta Francisco de Quevedo, o pintor Diego Velásquez, Felipe IV, etc e tal. Verifiquei nos meus guardados e de fato parece que o pai do Príncipe de Gales à época (Jaime I) tinha interesse em uma aproximação entre Inglaterra e Espanha naquele início do século XVII. Neste volume ficamos sabendo sobre os motivos que levaram Diego Alatristre a acumular tantos inimigos ao longo da vida (bem como sua forma de conseguir a admiração de personagens poderosos que por fim discretamente o ajudam). O narrador é o mesmo Íñigo Balboa, um curioso basco, que também tem antepassados Galegos. Vários dos personagens estão lá no segundo volume esperando sua deixa. O suspense é mantido até o final. Aliás há uma certa ironia nas páginas finais, pois não podemos deixar de associar a honesta pesquisa histórica que se depreende do romance aos atuais desafios da sociedade espanhola. Uma das mágicas da literatura é não haver estilo e tema que não possam ser utilizados para se contar uma boa história e encantar o leitor. Belo livro.
"O Capitão Alatristre", Arturo Pérez-Reverte, tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman, editora Companhia das Letras, 1a. edição (2006) ISBN: 978-85-359-0776-9

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

taxi


Arre! Terminei de ler este Berenice Procura e fui logo procurar algo com mais estofo, esgotado que fiquei. Chega. Vou ficar um bom tempo sem ler nada de Garcia-Roza para ver se aparece uma saudade do Rio de Janeiro que me faça voltar a ler algo dele. O livro é repetitivo, surreal, quase risível acreditar que algo ali possa ser verossímil: uma taxista se faz detetive e investigadora, pesquisa, conversa, interroga, achaca, confronta, tudo isto entre uma corrida de taxi entre ipanema e o leme, aprendendo filosofias com seus cerebrais clientes. Tudo me pareceu artificial demais. Uma caverna artificial escondida a meio caminho do posto 6 e da lagoa Rodrigo de Freitas, só frequentada pelo trio de personagens principais da trama. Incrível. A idéia inicial segue o manual dos livros de detetive: um sujeito vê um crime na praia, logo percebe que uma outra pessoa também testemunhou a cena. Dias depois o segundo sujeito morre, de forma que a primeira testemunha deve começar por si mesma desvendar um crime torpe demais para interessar delegados e investigadores. Aliás neste volume não temos o curioso delegado Espinosa (ao menos não explicitamente, ele bem que poderia ser um dos passageiros da taxista voluntariosa da trama). Berenice me lembra Miss Marple, personagem de Agatha Christie que se fazia de boba para descobrir as soluções para enigmas e crimes misteriosos. O final lembra um epílogo de teatro grego, onde os personagens principais discutem o desfecho da trama. De qualquer forma este livro está longe de ser interessante. Fiquei entediado mesmo e só meu estoicismo para fazer-me terminar de lê-lo. Vamos ao Javier Marias que eu deixei de lado e já está a se mostrar deveras interessante.
Berenice Procura, Luiz Alfredo Garcia-Roza, editora Companhia das Letras, 1a. edição (2005) ISBN: 85-359-0753-X

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

divâ


No mês passado comentei aqui que já que estava a ler os romances policiais de Montalbán sempre com renovado prazer havia chegado a hora de experimentar um autor brasileiro do mesmo gênero para compará-los. Li o primeiro Garcia-Roza publicado, ganhador do prêmio Jabuti, O silêncio da chuva. Fiquei dividido. O livro é bem escrito, mas a trama frouxa demais para meu gosto lapidado pelo Montalbán. Bom, a comparação é cruel, mas não há o que fazer. Resolvi ler dois dos últimos livros do Garcia-Roza publicados, fáceis de encontrar, para entendê-lo melhor. O que vou resenhar aqui é Espinosa sem saída, o outro, Berenice procura, ainda não li, mas vou resenhar na seqüência. Neste Espinosa sem saída temos uma trama que faz parte da experiência profissional do autor, um psicanalista, professor e autor de livros técnicos de psicanálise. Um crime incomum é cometido e um dos suspeitos é um sujeito casado com uma psicóloga bem-sucedida. O delegado Espinosa e sua brigada de auxiliares usam seu tempo livre para continuar a investigar um crime que usualmente seria arquivado pela irrelevância, pois o morto é um indigente, sem família, sem documentos, um não-cidadão. Um outro crime acontece e o desfecho do enredo entrelaça a elucidação de ambos. Esta elucidação passa pelos divâs dos personagens e também da própria cidade, assombrada por seus fantasmas e suas complexas camadas de extratos sociais. Uma farta descrição dos mecanismos dos traumas de infância, de perversões sexuais e patologias clínicas entram no enredo. Descobrimos quem são os assassinos. Fim do livro. Bem, o livro é bem escrito, os personagens interessantes, o cenário da zona sul carioca radiante em suas páginas, mas eu ainda não fui arrebatado por este delegado que gosta de literatura e filosofia e que tem uma ética incomum. Claro, vou me esforçar e ler mais livros deste sujeito. Quero tentar entender um tanto mais o Rio de Janeiro, que ele explica sem se utilizar dos argumentos batidos que usualmente associamos à cidade. Entretanto, assim como com o Montalbán, vou ter de garimpar nos sebos os livros mais antigos dele, esgotados que estão (este é mesmo um curioso fenômeno editorial brasileiro, as edições são tão pequenas, que mesmo um livro de relativo sucesso deve esperar anos para ser reeditado).
Espinosa Sem Saída, Luiz Alfredo Garcia-Roza, editora Companhia das Letras, 1a. edição (2006) ISBN: 85-359-0939-7

domingo, 14 de outubro de 2007

anarquia

Woody Allen é um de meus cineastas favoritos (se não for o favorito, eu mesmo não se dizer isto). Seus livros de ficção são igualmente instigantes. Tenho vários, desde livros de contos humorísticos (Sem Plumas, Efeitos Colaterais) até os roteiros (Zelig, Manhattan, Hanna e suas irmãs, Stardust) e peças de teatro (Sonhos de um Sedutor, A lâmpada flutuante). Este Pura Anarquia, editado pela Tusquets espanhola e recém publicado ganhei de presente de dueña Helga. São contos curtos publicados na revista americana The New Yorker. Quase todos são desenvolvimentos de fatos bizarros que ele leu em jornais (um ator que é sequestrado na India, uma empresa que lançou uma roupa que exala diferentes odores, uma escola que faz exames de admissão para crianças recém nascidas). Todos são francamente debochados e muito bem escritos. Há muito de fantasia, humor, claro, e expressionismo no texto. Parte considerável deles gira em temas do mundo do cinema americano (atores, roteiristas, diretores, jornalistas), mas há muitos outros onde é o americano médio que está sob análise. Os desfechos dos contos são como manda o manual: rápidos e surpreendentes. Há muitos jogos mentais entre os personagens e também entre o autor e o leitor. Entretanto acredito que não é um livro para se ler de uma vez, de uma sentada só. Como em uma sessão de piadas há uma cota certa para a diversão, precisamos tomar fôlego entre um set e outro. Se é que eu posso sugerir algo voltaria a este livro para ler os contos sem ordem, abrindo o livro aleatoriamente e me divertindo até cansar, mas parando quando isto acontecesse. Gostei particularmente de um terço das histórias: uma que envolve uma reforma maluca de um apartamento (a receita para um desastre); uma em que um bebê recém nascido foi reprovado em um teste de admissão para sua escolinha (seus pais experimentam um ostracismo social medonho); um onde Woddy Allen comenta o que um leitor comum entende das trancendentais teorias físicas que são publicadas nos jornais; um outro onde Mickey Mouse se defende em um tribunal ; ainda um onde ficamos sabendo dos hábitos gastronômicos de Nietzsche. Não que as outras sejam menores ou mal escritas, mas em uma coleção de contos naturalmente fazemos estas eleições mentais. Gostei muito do livrinho.
Pura Anarquia, Woddy Allen, tradução de Carlos Milla Soler, editores Tusquets, 1a. edição (2007) ISBN: 978-84-8383-010-0

futuro

Alaor Chaves é um dos físicos brasileiros mais brilhantes de sua geração. Atual presidente da Sociedade Brasileira de Física é também autor de excelentes livros texto que são largamente utilizados nas universidades brasileiras em cursos de graduação de física e engenharia. Preocupado com o problema energético publicou recentemente um romance de ficção onde discute este tema. O romance é Nanocarbon, publicado pela Editorial LAB, selo da editora livros técnicos e científicos, LTC, muito conhecida no meio científico universitário. O livro é fácil de ler, o tom é francamente de divulgação científica, em que pese o esforço de Alaor Chaves em introduzir outros elementos ficcionais na trama. Toda a ação do livro se dá em um futuro não muito distante nos EUA. Um jovem físico desde seu curso de graduação demonstra um talento não usual em diferentes áreas da física, química e engenharia. Antes mesmo de terminar seu doutoramento tem uma idéia seminal que revoluciona o mercado mundial de energia e, com o dinheiro de um grande investidor, funda uma empresa que em um curto período de tempo, torna-se detentora do monopólio do fornecimento mundial de energia baseada em hidrogênio. A partir daí o tom é de um romance policial. O livro começa com um atentado terrorista em uma das instalações da empresa deste sujeito. Nos primeiros capítulos há uma fração maior daquilo que eu acredito ser o maior mérito do livro: a inclusão de conceitos importantes da ciência em uma linguagem bastante acessível sem a perda do ritmo da leitura e do desenvolvimento da trama. Mesmo correndo o risco de se tornar professoral demais Alaor Chaves consegue manter o interesse nestes temas espinhosos. Na segunda metade do livro estas definições e conceitos diminuem bastante pois o interesse se desloca em descobrir o autor do atentado e alcançar o desfecho da trama. De qualquer forma eu acho que o final do livro não ficou bom. Nos últimos capítulos o desfecho da trama foi muito acelerado e talvez em função disto eu não tenha entendido como uma pessoa que passou por tantas atribulações possa relaxar tanto a ponto de não se preocupar com algum tipo de vingança. Mas estamos no mundo da ficção e o Alaor é o senhor do destino dos personagens que criou e sabe para onde eles devem ir. Como toda a ação se passa nos EUA eu incluiria também algum jornalista na trama, para o bem da verossimilhança, pois me parece que seria impossível tudo o que acontece no livro se dar sem alguma cobertura feroz da mídia, mesmo se estamos falando de um futuro distante. Há pequenos truques literários na trama que fragilizam o texto, como um em que o personagem principal (logo após sofrer um atentado e ter se submetido a uma cirurgia plástica) telefona para meu antagonista (e provável mandante de um atentado) informando-lhe que estava vivo, tinha alterado a voz e estava com o rosto diferente. Qual a vantagem prática (mesmo para a trama literária) de dar estas informações ao sujeito? Como o livro se passa nos EUA há vários termos que me parecem brasileiros demais (pescou, detonou, tal e tal, gostosa, bagos, etc) que não se ambientam bem no cenário americano. Mas estou seguro que este é um livro que merece ser lido por todo aquele que gosta de um romance de ficção honesto. Se o livro fosse traduzido para o inglês e publicado nos EUA provavelmente faria algum sucesso. O tema é realmente atual e Alaor sabe como poucos as muitas implicações tecnológicas dos conceitos e idéias científicas básicas que incluiu na trama. Achei o livro bem escrito e como proposta editorial de fato interessante. Recomendo o livro sem medo.
Nanocarbon, Alaor Chaves, editora LTC (editorial LAB), 1a. edição (2007) ISBN: 978-85-216-1560-6

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

fútebol

Don Cataldo encontrou este livro em um centro catalão de reciclagem e o trouxe consigo para o Brasil. Antes mesmo de ler foi generoso e emprestou-me. Os curtos dias em que esteve em Santa Maria foram suficientes para que eu lesse o livrinho e conseguisse devolvê-lo antes da sua partida para Porto Alegre. Este é um Montalbán do final dos anos 80 (1988 para ser exato). Corresponde a algo imediatamente antes do "Labirinto Grego", que eu já resenhei por aqui. Como o projeto literário de Montalbán envolvia fazer um panorama da Espanha da transição para a democracia seguro que um tema como fútebol, caro aos espanhóis, teria de ser abordado por ele. Neste curto livrinho Carvalho é contratado para descobrir quem são os sujeitos que estão a ameaçar um centroavante recém contratado (por um time que é a própria alma da Catalunha, o Barcelona, apesar de não nominá-lo explicitamente). O mundo da política, do futebol e da especulação imobiliária, às vésperas das olimpíadas, se entrelaçam. Para descrever como não há competição esportiva separada de interesses econômicos terríveis, um outro time catalão, da medíocre terceira divisão, é invocado, e um outro centroavante faz par ao primeiro, aquele ameaçado de morte. Ao redor deste segundo centroavante, um antigo ídolo da cidade, há o mundo dos drogaditos da movida espanhola, o mundo dos deserdados pela modernidade. O futebol pode maravilhar a muitos mas é apenas uma máquina de fazer dinheiro para uns poucos, parece dizer-nos Montalbán, não pleno de razão. Enquanto Carvalho teima em entender o que há de comum (e de diferente) entre os dois centroavantes seu principal infomante das ruas, espécie de faz-tudo do submundo catalão, o engraxate Bromuro, um antigo combatente da divisão franquista Condor nas estepes russas, padece de uma doença terminal. O velho engraxate divide as atenções de Carvalho com o complexo mundo do futebol profissional. O que dizer de mais este Carvalho: literatura da melhor qualidade. Lê-se mesmo com genuíno prazer. Em tempo: desta vez há poucas receitas, mas o tema do livro vai se tornando indigesto demais para lembrar-mos destes bárbaros rituais gastronômicos.
El Delantero Centro Fue Asesinado al Atardecer, Manuel Vázquez Montalbán, editorial Planeta, 3a. edição (1997) ISBN: 978-84-0802-087-5

terça-feira, 2 de outubro de 2007

carioquices

Quem me apresentou a este livro foi don Frank Missell, que agora é um habitante eventual do bairro peixoto e se sente feliz no Rio de Janeiro com um peixe nas ondas de um mar. Por sugestão dele comprei este livro quando estava com planos de ir ao Rio, participar do LAW3M. Li algumas partes ainda em trânsito e com os sucessos dos passeios com minhas anfitriãs Cristina e Taiane, bem como Guto, Gabriela e Samuel, ele se revelou muito útil mesmo. Acabei deixando de presente para Cristina, amiga de muitas baladas e que realmente é apaixonada pelo Rio de Janeiro sentimental que todo brasileiro deve conhecer, mas logo encomendei outro à CESMA. Noutro dia uma lembrança de lá me fez voltar ao livro e acabei de lê-lo, aproveitando as muitas receitas que ele oferece. O formato deste misto de guia turístico e gastronômico da cidade do Rio de Janeiro é um tanto diferente das edições anteriores. Aqui o foco são os petiscos e as comidas de bar, os bolinhos de bacalhau, a carne-seca, as casquinhas de siri, a feijoada, o cabrito, a rabada. Descritos os pratos e as receitas o guia dá sugestões dos lugares onde aquele petisco ou prato em especial é melhor servido na cidade ou, ao menos, servido da forma mais tradicional e consagrada. A memória gastronômica de cada um de nós é sempre surpreendente. Marx dizia que somente conhecemos um povo ao tomarmos contato com seu pão e seu vinho. Se é que ele estava certo, no caso específico dos cariocas, somente vamos entendê-los ao compartilharmos seus bolinhos de camarão, seu chopp, sua carne-seca, seu caldinho de feijão, sua caipirinha. Este belo livro, cuja diagramação e ilustrações lembram um tanto a poluição visual típica deixada pelas quinquilharias dos botecos reais mais "pé sujos" é de fato muito bonito e sem dúvida editado com bom gosto. Como nas edições anteriores temos uma seção de serviços bem feita, com os horários de funcionamento e o endereço completo de todos os bares e restaurantes citados. Há espaços generosos ao longo do livro para fazermos nossas anotações, registrarmos nossas experiências pessoais. Meu exemplar virou uma espécie de diário atrasado daquela experiência, com lembranças da Tasca do Edgar, do Lamas, do Belmonte, do Bar Luiz, do Bracarense, do Jobi, do Garota de Ipanema, do Nova Capela. Mas do que isto um diário dos passeios pelas praias e a água de coco das manhãs longas de agosto. Eu confesso que gostaria de uma edição de bolso, com uns bons mapas nas guardas para facilitar a aventura de percorrer estes templos sagrados da gastronomia brazuca, mas esta é só uma idéia de um viajor contumaz. Belo livro.
Rio Botequim, os melhores petiscos e comidas de bar, Guilherme Studart, editora Casa da Palavra, 7a. edi ção (2006) ISBN: 85-77-3402-52

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

haroldo

Este pequeno livreto editado pelo industrioso Marcelo Tápia em colaboração com Ivan de Campos foi publicado como uma espécie de homenagem ao Haroldo de Campos morto em 2003. Trata-se da tradução de curtos fragmentos de cinco dos cantos da Odisséia. Sabe-se que após a publicação em 2002 do segundo volume da tradução completa da Ilíada, Haroldo de Campos (que preferia o termo transcriação à simples tradução) foi muitas vezes perguntado sobre a continuação natural da empreitada, que envolveria prosseguir em sua investigação do mundo grego relatado por Homero iniciando a transcriação completa também da Odisséia. Mas como a tarefa de traduzir a Ilíada levou o mágico número de dez anos (número idêntico ao de anos da batalha pela cidade de Tróia), ele sabia que a Odisséia certamente comprometeria número similar de anos. O agravamento de seu estado de saúde logo após a publicação da Ilíada impediu-o de continuar mesmo com suas atividades regulares, o que dizer do trabalho de joalheria pura que foram suas traduções. Ficamos assim sem mais este trabalho de Haroldo de Campos. Trajano Vieira (que não lamenta este fato) faz uma breve apresentação do livro e dos motivos que levaram Marcelo Tápia e Ivan de Campos a publicarem estes pequenos extratos de tradução. É uma edição bem cuidada, com o texto original velando a transcriação. Foram incluidas várias reproduções manuscritas do autor, que mostram um tanto do processo do trabalho utilizado por ele e tornam o livro muito agradável de se ler. Resolvi encomendar este livro e lê-lo pois ainda estou envolvido com o combate que é a leitura da tradução de Donaldo Schüler publicada pela LP&M. Ainda vou resenhar aqui o terceiro volume dos cantos traduzidos por Donaldo e voltarei, seguro como Ulisses, a cotejá-la com este breve livrinho de Haroldo de Campos.
Odisséia de Homero, fragmentos, Homero, tradução de Haroldo de Campos, editora Olavobrás, 1a. edição (2006) ISBN: 978-85-88-9331-87

grande guerra

Lourdes, já faz tempo, virou uma leitora disciplinada, que aceita e dá sugestões para os amigos. Vi este "a menina que roubava livros" com ela e pedi emprestado. Ao terminá-lo fiquei um tempo a pensar sobre o tempo que já fazia desde minhas últimas incursões nos temas espinhosos que envolvem a segunda grande guerra, a morte de inteligentes e tolos, fortes e fracos, ricos e pobre, bem como a morte de ciganos, russos, judeus, negros, deficientes, azarados simplesmente ou apenas os diferentes de todas as outras classes, sempre em grande escala. O livro de Markus Zusak, um australiano descendente de alemães, foca sua descrição da guerra na experiência vívida de uma menina de pouco mais de dez anos, Liesel Meminger, em uma pequena cidade do sul da Alemanha. Os crescentes desastres e horrores da guerra e o contato da pequena menina com os livros são marcadamente contrastantes. Cada um de nós normalmente esquece estes anos mágicos em que somos apresentados aos livros e que aos poucos vamos aprendendo a amá-los. Não é o caso dela, pois todas suas experiências estéticas são marcadas pela brutalidade da guerra de uma forma muito particular para serem simplesmente esquecidas. Repleto de ironias e nem um pouco auto-indulgente o livro faz também algumas experiências literárias, incluindo verbetes de dicionário para explicar o desenvolvimento quase embrionário da linguagem e do vocabulário da pequena leitora e também incluindo uma narradora eficientemente onisciente: a própria morte. Nos anos oitenta eu me lembro repetindo uma piada do Woody Allen onde ele dizia ter como única curiosidade em relação a morte sabê-la boa de cama ou não. Hoje sei que a morte é ainda mais cruel que a mais indiferente das mulheres sabe ser, portanto não haverá este tempo para uma última cantada às margens do Estige, do Aqueronte, do Lete e do Cócito. Mas voltemos ao livro. Apesar do carimbo indelével de best seller é mesmo um livro que se lê com um genuíno prazer. Há algo nele que me lembra aquela série de livrinhos da Natália: "Desventuras em Série", mas esta é outra história. Recomendo sem medo.
"A Menina que Roubava Livros", Markus Zusak, tradução de Vera Ribeiro, editora Intrínseca, 1a. edição (2007) ISBN: 978-85-980-7817-5

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

velhice


Este é um dos últimos livros de J.M.Coetzee, prêmio Nobel de 2003. Já li vários livros dele e todos são muito interessantes mesmo. Este "Hombre Lento" não foge a regra. A ação se passa na Austrália. O enredo parte de um acidente bobo de estrada, em que um ciclista já sexagenário é atropelado por um carro e acaba por perder uma das pernas. Deprimido pelo sofrimento e perda da rotina, durante o processo de recuperação no hospital decide não utilizar uma prótese. Já de volta a sua casa, em uma das sessões de fisioterapia que tem, percebe-se algo apaixonado pela fisioterapeuta que o atende. Esta é uma emigrante croata que já está radicada na Austrália há muitos anos, mãe de três filhos e cujo marido trabalha com mecânica de automóveis. Neste ponto da narrativa (algo próximo da primeira metade do romance) aparece uma personagem que já se fez presente em vários outros livros de Coetzee: Elisabeth Costello, uma espécie de alter ego do próprio Coetzee. A partir daí o livro demostra a maestria do escritor em manipular as várias camadas (vamos dizer assim) de personagens de ficção. Elisabeth Costello é onisciente como só um autor sabe ser, mas desde o Quixote já estamos acostumados com estes truques narrativos. É um livro instigante, pois discute como nossa economia mental nos prepara para a velhice e para as limitações físicas. Há vários temas que são tratados mais ou menos surperficialmente: o estranhamento daqueles que não estão em sua própria terra natal (o próprio ciclista sexagenário é descendente de franceses e não um australiano autêntico); a função das fotografias (profissão original do ciclista, um colecionador de fotos antigas e raras) em uma sociedade plena de informação; a ambiguidade da experiência amorosa pura e da reflexão sobre esta experiência. Ao final do livro não há exatamente um final, mas sim um reposionamento dos personagens, talvez esperando que a vida real os tire daquela configuração. A companhia das Letras já publicou a tradução para o português (ISBN: 9788535910353).
Hombre Lento, J.M.Coetzee, tradução de Javier Calvo, editorial Nuevas Edicones de Bolsillo, 1a. edição (2007) ISBN: 978-84-8346-1327-2

domingo, 9 de setembro de 2007

minúsculas


Nos anos 80 uma edição do antigo Folhetim, suplemento literário da Folha de São Paulo trazia em letras grandes "I leaf falls on loneliness", mas não escrito assim, na horizontal, mas sim em linhas de um ou dois caracteres, tomando toda a vertical da página de jornal. Havia também parênteses, um número um que lembrava uma letra ele, pontos e vírgulas solitários. Foi uma surpresa visual que naquela época me tomou por completo. "Uma folha cai, solitude", dizia a tradução do Augusto de Campos, também na vertical, ao lado. Que arrebatamento. Desde então sempre tenho um cummings ao lado, pronto para me surpreender. Recentemente um grupo de poetas e tradutores curitibanos resolveu enfrentar o mestre e eis que agora sai este pequeno livro de poemas, em edição bilíngue. São apenas 30 deles, recolhidos desde os mais antigos, de 1922, até os publicados postumamente, em 1983. Em cummings sempre encontramos seus temas mais caros: o amor e a morte, o ritmo do tempo nas estações, as perguntas retóricas, as lembranças e a timidez. As traduções me pareceram muito honestas, em que pese o fato de não serem exatamente literais. Uma das soluções para a tradução de um dos poemas, grafado em minha memória com uma outra balada, causou-me estranheza: eu gosto mais do "isso é meu, disse ele; você é meu, disse ela", enquanto que Adalberto Müller preferiu: "valeu! ele disse; é Meu, ela disse." Bobagens. Este é um reparo bobo. Trata-se de um belo livro de poemas, que encantará todo aquele que ainda não conhece a obra de cummings e trará belas lembranças as fiéis leitores de outros tempos. No prefácio, escrito por um outro poeta curitibano, também participante do grupo de estudos de tradução dos outros três, li uma coisa realmente instigante. Trata-se de uma idéia que explica como cada um de nós foi separado fisicamente da escrita com a invenção da tipografia e de como agora, nestes tempos de tanta interferencia digital entre a idéia de literatura e sua fruição por um hipotético leitor, este mesmo distanciamento novamente se apresenta. Estaremos todos ficando fisicamente equidistantes das palavras a ponto delas ficarem menos fortes e menos caras a nossos corações? Esta é uma cousa para se pensar.
O Tigre de Veludo, e.e.cummings, tradução de Adalberto Müller, Mario Domingues e Maurício Cardoso, editora da UnB, 1a. edição (2007) ISBN: 978-85-230-0948-9

acho melhor não


Esta belíssima edição da Cosac e Naify já assombrava minhas estantes há meses, sem que eu me dignasse a continuar a leitura do ponto em que parei assim que comprei o livro. Acontece que a edição envolvia duas capas literalmente costuradas e folhas que por sua vez deveriam ser separadas por um estilete de plástico que acompanha o livro. Eu havia lido o posfácio de Modesto Carone meses atrás e havia deixado o curto texto da novela de Melville para dias de mais concentração. Eis que este dia apareceu quando meu amigo Luiz-Olyntho mandou-me um e-mail dando conta do quão boa era a leitura do "Bartleby e companhia" de Enrique Vila Matas. Prometi ao Luiz que leria o livro e faria alguns comentários, mas como ler o Vila Matas antes do original Melville? Foi o que fiz nestes dias quentes de feriado. Que livro estupendo. É uma história curta cujo desfecho nós mantem em suspense até o final. O recorrente "Prefiro não fazê-lo" (ou "acho melhor não", na versão de Irene Hirsch) fica nos incomodando (da mesma forma que incomoda o narrador). Pois Bartleby aparece na vida deste narrador, incomodando-o (como de resto a todos a sua volta) e por fim morrendo sem queixas e recriminações, como acontece quase sempre com pessoas cuja vida já ultrapassou toda a sorte de aborrecimentos e que se deixam levar pelo marasmo e destino. O que torna esta curta novela em algo realmente forte é a capacidade de Melville de sintetizar um comportamento limite em rápidos parágrafos, sem nos deixar com alternativas e rotas de fuga mentais. Por que é mesmo que por vezes fugimos dos problemas simplesmente os ignorando, parece nos perguntar Melville. Belo livro, bela edição. Agora vou ter mesmo de enfrentar o Vila Matas e postar algo aqui sobre o natural contraste com esta obra original.
"Bartleby, o Escrivão", Heman Melville, tradução de Irene Hirsch, editora Cosac Naify, 1a. edição (2005) ISBN: 85-7503-446-4

praça mauá


A capa é muito bonita, as indicações da contracapa generosas, os selos discretos do Jabuti e do prêmio Nestlé de literatura reluzindo como excelentes abre alas, mas eu não gostei deste livro. É um romance policial clássico: há um crime e um sujeito ambíguo demais para parecer um bom detetive se apresenta para resolver o problema após uma sucessão de sustos. Este formato funciona com Poirot, com Maigret, com Sherlock Holmes, com Miss Marple, com San Spade (principalmente quando Humphrey Bogart o interpreta) e, é claro neste ano espanhol, com o detetive, gastrônomo e catalão Pepe Carvalho. Claro que este "O Silêncio da Chuva" é bem escrito e tem passagens boas de se ler, mas não há como comparar a irônia e modacidade do Carvalho, por exemplo, com o Espinosa de Garcia-Roza. Os contrastes do Rio de Janeiro que todos conhecemos são bem descritos no livro, ficamos curiosos com os possíveis desfechos, mas eu, bem antes do meio do livro, já havia pensado que o assassino natural do livro seria o sujeito que ao fim é revelado pelo detetive. Isto não é exatamente um problema, mas deixa um travo na boca. As tramas dos romances policiais são sempre rocambolescas e repetitivas mas muito neste livro pareceu-me artificial demais para eu me tornar um viciado em Garcia-Roza como tornei-me do Vazquez Montalbán. Claro que vou dar outras chances ao Garcia-Roza (não sou tão definitivo assim). Há ao menos uma outra meia dúzia de títulos onde o detetive Espinosa se apresenta diretamente do 1o. DP (na praça Mauá) para levantar o tapete das sujeiras cariocas. Vamos acompanhá-lo pois neste que também é o ano dos romances policiais.
O Silêncio da Chuva, Luiz Alfredo Garcia-Roza, editora Companhia das Letras, 3a. edição (2005) ISBN: 85-7164-612-0

inquisição

Conhecia o Pérez-Reverte de ouvir falar, principalmente de um livro chamado "A carta esférica". Isto já faz alguns anos. Depois vi um filme na televisão baseado em um de seus livros de aventuras. Quando vi este "Limpeza de Sangue"na vitrine da livraria argumento resolvi experimentar. Vamos a ver do que se trata, pensei. Pois é um livro para se ler de uma sentada só. O enredo parece já ter sido escrito para ser um dia filmado, as imagens são fortes, a descrição da espanha seiscentista muito rica, as reflexões sobre a natureza da maldade nos homens algo mais que superficiais. De qualquer forma trata-se de um livro que já alcançou tiragens enormes no mundo inteiro. Este em particular é o segundo volume das aventuras do Capitão Alatriste (no cinema foi interpretado por Viggo Mortensen, um dos heróis membros da Sociedade do Anel, da série Senhor dos Anéis, para quem não sabe). Pois o Capitão Alatriste é o tipo do sujeito que a despeito de todas dificuldades salva o dia, a moçinha, mata o vilão bigodudo, graçeja com o cardeal gorducho, corteja a duquesa dos zanzóis. Um modelo de herói para filmes da sessão da tarde. Deixando o cinema de lado, voltemos ao livro. O livro em si deixa-se ler muitas dificuldades. É escrito retrospectivamente por um sujeito que em sua juventude deixou-se prender pelo Santo Ofício e foi torturado, escapando das chamas do auto-de-fé graças a engenhosidade do Capitão Alatriste e de seu lugar-tenente, ninguém menos que o poeta Francisco de Quevedo. Com isto não há climáx possível no livro pois sabemos que nem o narrador, nem o Capitão, nem seu amigo poeta sofreram dano algum, pois no tempo em que o narrador conta sua história já estão envolvidos em outros sucessos em outras terras (Flandres e Sicília, principalmente). Ficamos em suspense apenas no tocante a forma como o garoto será salvo das chamas e como os malvados de plantão serão punidos. De qualquer forma todo aquele interessado em história da Espanha tem neste curto livrinho uma fonte de inspiração para leituras mais consistentes e robustas. Mas do que isto não há muito o que esperar. Vou ainda experimentar o outro livro da série publicado no Brasil, mas não acho que seja muito diferente deste. Veremos.
"Limpeza de Sangue", Arturo Pérez-Reverte, tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman, editora Companhia das Letras, 1a. edição (2007) ISBN: 978-85-359-1023-0

terça-feira, 28 de agosto de 2007

bonnie and clyde


Claro que comprei este livro simplesmente pelo título. O "Joyce" ali na capa me atraiu como um ímã em meio a babel em que estava transformada a livraria da travessa naquele glorioso sábado de vagabundagem no rio de janeiro. Mas eis que comprei o livro e pus-me a ler para achar o tal Joyce escondido nele. Trata-se de uma novela curta com um acento policial. Um jovem catalão e sua namorada sul-americana começam a praticar uma série de assaltos violentos na Barcelona dos anos 1980. O tédio da vida medíocre de desocupados parece ter sido o motivo primordial para o início na vida de crimes. O tom é algo debochado. Escrito a quatro mãos por dois jovens à época do lançamento original deste livro, em 1984, "Consejos..." lê-se sem muitas preocupações em saber se afinal o casal será preso ou contará com a espécie de sorte de principiante que parece acometê-los. O jovem tem planos de escrever um grande livro, baseado um tanto nas peripécias de Stephen Dédalus pelos livros de James Joyce e igualmente nas andanças de Joyce por Paris. Jim Morrison e os the Doors fazem a trilha musical mental do sujeito enquanto ele fica a tentar entender como sua namorada pode ser tão fria e calculista (a mulher faz o homem, parece repetir-nos os autores). Como um James Joyce com sentimento de culpa o jovem do livro de Bolaño e Porta escreve cartas elípticas e cifradas para sua mãe, onde tenta explicar-se da perseguição policial. Lê-se este livro sem muita pretenção, mas trata-se mesmo de um esforço honesto de emular algo de Joyce. Como brinde o livro ainda contêm um curto conto na forma de diário chamado "Diário de bar", meio tolo pareceu-me, mas eu já estava cansado das trapalhadas dos dois assaltantes para pular para o tom mais cerebral deste conto (apêndice dispensável, eu, editor furioso, diria). Para um livro de estréia de ambos (o chileno Bolaño e o catalão Porta) trata-se mesmo de um belo livro.
Consejos de um discípulo de Morrison a un fanático de Joyce, Roberto Bolaño & A.G. Porta, editora Acantilado, 1a. edição (2006) ISBN: 84-96489-39-6

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

cuentos

Ganhei este livro de contos quando estive no Rio de Janeiro. Segundo don Jesus Gonzáles e suas meninas Maribel, Clara e Bárbara o livro foi lançado no ano passado em catalão e, traduzido pelo próprio autor para o castelhano. Relançado no início deste ano já está alcançou a quarta edição. São contos fantásticos, que lembram o Cortázar dos cronópios e famas e também o Borges do Aleph e do Livro de Areia. Os contos são realmente curtos, mas muito bem escritos e refinados, demonstrando que o autor conhece mesmo seu ofício (talvez demasiadamente destro, mas esta é outra história). Após terminar a leitura fiquei com uma má impressão do livro, pois parecia que eu queria terminá-lo logo não porque as histórias eram interessantes e bem escritas, mas sim porque já estava enfadado daquilo tudo. Isto nunca é um bom sinal. Os vinte contos envolvem histórias do cotidiano, por vezes estravagantes demais, parecendo exercícios de estilo, mas inegavelmente quase sempre têm um misto de graça e ironia. Claro que há histórias realmente memoráveis, mas eu acho que vou ter de ler mais volumes de Pàmies para me acostumar com seu ritmo. O livro inclui uma apresentação do escritor catalão Enrique Vila-Matas que a meu ver deveria ser colocada no final do livro. Digo isto pois caí no erro de lê-la antes dos contos de Pàmies e não posso compartilhar do genuíno entusiasmo de Vila-Matas com a qualidade dos contos. Talvez eu esteja mal humorado demais para ler contos nestes dias frios de inverno, mas a laudatória apresentação aumentou em demasia a expectativa que tive ao iniciar sua leitura. Vamos em frente que há muito ainda para ser lido neste ano.
Si te comes un limón sin hacer muecas, Sergi Pámies, , editora Anagrama, 4a. edição (2007) ISBN: 978-84-339-7147-0

terça-feira, 21 de agosto de 2007

coleções


Descobri recentemente que se mantiver meu ritmo dos últimos anos terei à idade de meu pai lido algo em torno de 2000 livros. Senti um friúme pois minha biblioteca pessoal já tem uns tantos mais volumes que este número mágico e minha cota de leituras pareceu-me já estar a priori definida pelas escolhas que fiz no passado. Entretanto, como os livros têm mesmo a capacidade infinita de nos surpreender, eis que resgatei de um desvão da estante este curioso livro de Alberto Manguel, publicado no ano passado. Em "A Biblioteca À Noite" ele analisa com muita precisão vários aspectos do processo de colecionar livros e apresentá-los sob alguma ordem em bibliotecas. Praticamente tudo relacionado ao procedimento de montar uma biblioteca é discutido: sua arquitetura, seus sistemas de catalogação, sua fragilidade, sua perenidade, sua presença no imaginário do homem contemporâneo, sua vastidão, a constatação do quão fortuitas são as escolhas de cada volume. Quem não passou bons momentos em uma vasta biblioteca pública ou em uma biblioteca repleta de sombras e ruídos estranhos de um tio ou um amigo mais velho de seus pais? Qualquer leitor que tenha experimentado a magia de ter, frequentar e montar uma biblioteca certamente encontrará neste livro um excelente guia e fonte de inspiração para reflexões sobre o hábito da leitura. Há várias reproduções ilustrando o livro e um bom índice remissivo. Apesar de achar que o tom francamente pessoal poderia ser um tanto mais velado, não há como não recomendar a leitura desde original livro.
"A Biblioteca À Noite", Alberto Manguel, tradução de Samuel Titan Jr., editora Companhia das Letras, 1a. edição (2006) ISBN: 85-359-0881-1

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

feiticeira


Quando vi este livro do Hughes e o ano da publicação fiquei curioso e ávido por ler, pois o outro livro dele "Barcelona", que li recentemente e reenhei aqui, havia realmente me impressionado muito. Será que ele continuaria a história da "velha feiticeira" do ponto em que parou? Acrescentaria alguma coisa? Infelizmente não é bem isto. Publicado em 2004, mais de quinze anos após o anterior, "Barcelona: The Great Enchantress" tem pouco material inédito. Feito de encomenda para o grupo National Geographic, em uma série de reportagens sobre cidades do mundo, este pequeno livrinho contem claro algumas das excelentes passagens do livro anterior, mas são realmente muito curtas para se ter uma idéia do que o outro livro apresentava. Não há o farto material iconográfico, as longas passagens sutis e inspiradas de antes. Não há os anexos bibliográficos e as sugestões de leituras mais técnicas. Claro, há um tom mais pessoal, agradável de se acompanhar e boas passagens que contam um tanto como o autor veio pela primeira vez a cidade e dos grandes amigos que fez (e manteve) ao longo dos últimos quarenta anos. Uma frase inédita que realmente eu gostei diz algo mais ou menos assim: Você é uma pessoas realmente afortunada caso, não muito tarde na tua vida, descubra uma outra cidade, distinta de sua cidade natal, que seja verdadeiramente a "sua" cidade. Eu acredito nisto também. Se identificar com um lugar a ponto de gostar de se apresentar como um nativo daquele lugar me parece um fenômeno que dá ao sujeito um prazer enorme e indistinto. Se é que eu posso sugerir algo para os eventuais e extemporâneos leitores deste blog eu diria que a leitura indicada segue sendo o original Barcelona, de 1988. Este livro é apenas um aperitivo que, ao menos para mim, de alguma forma pode até afastar o leitor do encantamento que a velha feiticeira pode provocar. De qualquer forma é um livro honesto a disposição de quem se inspire a enfrentá-lo.
Barcelona: The Great Enchantress, Robert Hughes, National Geographic Directions, 1a. edi ção (2004) ISBN: 0-7922-6794-X

sábado, 4 de agosto de 2007

nostos 1


Este segundo volume da tradução do Donaldo Schüler da Odisséia ficou esperando os outros projetos. Li aos poucos, sempre interrompendo para incluir outras urgências e outras prioridades. Não é a forma mais inteligente de se ler um livro, mas como eu já disse na resenha do primeiro volume desta tradução a Odisséia me acompanha já há anos demais para que eu tenha uma postura reverente em relação ao poema. Lembro da primeira leitura, em uma edição de bolso, emprestada da biblioteca central de São Bernardo, que lia enquanto cortava amostras de Nióbio, para um projeto que estava começando com o Frank Missell (o Brasil têm uma das maiores jazidas de Nióbio do mundo e sempre ficamos a nos perguntar o que fazer com isto, mas esta é outra história). Neste segundo volume o tema é o regresso (a primeira parte dele). Nele são contadas algumas das aventuras de Odisseu (do Ulysses) entre a saída da ilha de Ogígia, onde estava retido por Calipso, e a chegada à Ítaca, onde haverá a matança dos pretendentes. Retrospectivamente o próprio Ulysses contará o que aconteceu desde a saída de Tróia até a chegada a Ogígia. Estes cantos (do 5 ao 12) começam com a assembléia dos deuses onde é decidido já ser a hora do início da viagem de volta pelo mar. Calipso é avisada disto por Hermes e o auxilia, mesmo a contragosto, a preparar uma embarcação. Athena sempre vigilante auxilia-o na viagem pelo mar e apesar de algumas atribulações, geradas principalmente por Poseidon, que cobra os últimos tributos de castigo ao herói destruindo sua barcaça ainda em alto mar, Ulysses chega às terras do rei Alcínoo, dos Feáceos. Quem o ajuda no início é Nausícaa, filha do rei, e é de lá que o herói se preparará para voltar a Ítaca e retomar seu próprio trono (e finalizar o regresso). Estes oito cantos estão repletos de regras de diplomacia e de boa educação. Qualquer pessoa que hospeda e que se deixa hospedar com alguém deve ler estes cantos para aprender algo de etiqueta (mesmo após estes 3000 anos ninguém pode dizer que os gregos não cultivavam uma espécie de boa educação). Buenos. Após os cantos 5, 6 e 7 um banquete é preparado e jogos festivos são organizados. Ulysses ouve no canto 8 sua própria história dos tempos da guerra em Tróia sendo contadas por um aedo. Há um aspecto curioso aí pois como no Quixote, centenas de anos depois, um personagem ouve relatos de si próprio e a luz disto, modifica sua trajetória pessoal em uma história. Este tipo de efeito faz com que muitos atribuam multiplicidade de autores aos 24 cantos da obra (há quem defenda que este ciclo em especial foi escrito por uma moçinha, que descreve a costa da Sicília e as ilhas dos arredores, mas esta também é outra história). Nos cantos seguintes (9,10,11) Ulysses finalmente se apresenta e passa a contar o que aconteceu desde a saída de Tróia ao final da guerra. As histórias que usualmente associamos a Ulysses (com a exceção da matança dos pretendentes) acontecem nesta sessão: Ele e seus comandados são forçados por seus próprios atos impensados a deambular pelo mar Egeu e pelo mar Tirreno, se envolvendo com os Cicones, os Lotófagos, os Ciclopes (no canto 9), bem como com o rei dos ventos Éolo, os Lestrígones e a feiticeira Circe (no canto 10) que sugere que a volta só se dará após Odisseu descer ao inferno, onde ele deve consultar a alma de Tirésias. No canto 11 é descrita a descida e as conversações com os mortos. No canto 12 as últimas perturbações e a morte de seus últimos companheiros com a passagem pela ilha das sereias, pelo estreito entre Cila e Caribdes e o repasto indevido dos bois do deus Hélios. Mortos os companheiros Odisseu naufraga na ilha de Ogígia e ali ficará aos cuidados de Calipso por 7 longos anos. Apesar de ler com vívido interesse eu ainda não me convenci de todos os acertos da tradução de Donaldo Schüler, mas vou esperar terminar o terceiro volume para escrever algo mais objetivo sobre isto. Claro que ela é fácil de ler e nos apresenta o poema honestamente, mas há algumas soluções que me tiram do sério: "cuscos", "vapt-vupt", "tempão", "peidos na fuça", "salário", "canseira", "baboseira" e mesmo o singular "Nulisseu" ainda se batem com meus neurônios cansados. Volto a este ponto quando terminar o terceiro volume. Bom divertimento até aqui.

"Odisséia II - egresso", Homero, tradução de Donaldo Schüler, editora LP&M, 1a. edição (2007) ISBN: 978-85-254-1632-0

diversão

Talvez meu conceito de "livros que eu li" seja um tanto flexível demais, mas a função deste blog é manter uma lista atualizada de minhas leituras "ex officio", por mais variáveis que sejam. Minhas listas de livros lidos remontam a 1980, quando começei a usar as últimas páginas de minhas agendas para listar título, autor, editora e ano da edição dos livros que ia lendo. Como nunca jogo fora uma agenda tenho uma coleção de listinhas de livros lidos. Todavia minha letra é trabalhosa mesmo para mim (e as encarnações anteriores deste vivente geraram algumas garatujas realmente difíceis), por isto achei que por ser a inteligência muitas vezes confundida com computação, um uso inteligente mesmo das facilidades de informática era digitalizar as minhas listas. Há que se começar um dia e janeiro deste ano foi este "dia". Este mangá entra aqui pois ao longo dos anos eu sempre leio coisas inusitadas para relaxar: já li os Harry Potters, já li "gibis", enfim, leio que for escrito em uma língua que eu conheça os rudimentos. Sand Land é um mangá independente da primeira fase de Akira Toriyama, que estreiou nos mangás no final dos anos 1970 e fez muito sucesso com a série Dragon Ball, que já vendeu meio milhão de exemplares no mundo todo. A curiosa história de Sand Land mostra um mundo onde a água é produto raro e caro. Um militar aposentado e um par de demônios resolvem juntar esforços para descobrir se a lenda de uma fonte de água escondida em um deserto é mesmo verdadeira. Nada muito sofisticado (ou pretencioso). Personagens interessantes, desenho sempre ágil, enfim, um honesto mangá, para um final de dia estressante ou uma noite de insônia qualquer. Bom divertimento.
Sand Land, Akira Toriyama, Editora Conrad, tradução de Drik Sada, 1a. edi ção (2006)