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sexta-feira, 22 de maio de 2015

segunda fundação

Como já disse no registro anterior (sobre o volume "Fundação e Império": 'o leitor aprende rápido como funciona a proposta de Isaac Asimov: o tempo passa aos saltos (uma ou duas gerações, de forma que alguém sempre é aparentado de um avô ou neto de um personagem já conhecido); um conjunto novo de personagens descreve o quadro social e político de sua época; como num jogo de xadrez forças opostas se alinham e se distribuem pelo espaço (a galáxia inteira, sempre); uma guerra/crise acontece; um tipo de herói age para salvar o dia e o narrador descreve a nova configuração de poder. Enfim, o plano de Hari Seldon para minimizar o interregno entre dois impérios galáticos segue a sequência causal imaginada por ele'). Mas o que reserva Asimov para o fechamento da série? Mulo, o sujeito mutante que domina as ações no final da segunda parte da trilogia, empreende uma expedição para encontrar a mítica "Segunda Fundação". O leitor é apresentado ao grupo que controla essa outra Fundação e conhece seus poderes (sobretudo sua peculiar forma de comunicação). Mulo torna-se uma espécie de déspota esclarecido, desiste de expandir os seus domínios e morre de causas naturais. Sessenta anos depois não há mais um poder imperial hegemônico e o grupo que controla a Fundação original ainda tenta descobrir se será possível contatar os membros da Segunda. Eles promovem uma expedição a Biblioteca Galática (ou o que sobrou dela) no planeta onde tudo começou, Trantor, já que foi ali que Hari Seldon treinou os dois grupos que seriam os futuros administradores das duas fundações criadas por ele. O leitor descobre então o verdadeiro método inventado por Seldon e todo o livro passa a ser entendido a partir destas revelações finais. Toda a trilogia é interessante e movimentada, repleta de enigmas e reviravoltas típicas de livros de mistério ou detetive, mas já está na hora desse velho senhor experimentar livros que ofereçam um desafio maior. A ver.
[início: 19/04/2015 - fim: 20/04/2015]
"Segunda Fundação", Isaac Asimov, tradução de Marcelo Barbão, São Paulo: editora Aleph, 1a. edição (2009), brochura 16x23 cm., 235 págs., ISBN: 978-85-7657-068-4 [edição original: Second Foundation (New York: Gnome Press) 1953]

sexta-feira, 24 de abril de 2015

fundação e império

Após o primeiro volume o leitor já sabe como funciona a proposta de Isaac Asimov na série "Fundação": o tempo passa aos saltos (uma ou duas gerações, de forma que alguém sempre é aparentado de um avô ou neto de um personagem já conhecido); o conjunto novo de personagens descreve o quadro social e político de sua época; como num jogo de xadrez forças opostas se alinham e se distribuem pelo espaço (a galáxia inteira, sempre); uma guerra/crise acontece, um tipo de herói age para salvar o dia e o narrador descreve a nova configuração de poder. Enfim, o plano de Hari Seldon para minimizar o interregno entre dois impérios galáticos segue a sequência causal imaginada por ele no início da saga. No livro as leis da história são tão absolutas quanto as leis da física (considera-se apenas que as probabilidades de erro da história são maiores, afinal o número de homo sapiens sapiens na galáxia é menor do que o número de átomos, um mero problema estatístico). Assim sendo, não há como as ações de um único homem afetarem as tendências sócio-históricas de toda a galáxia (o determinismo histórico é sempre um deus ex machina, tanto na ficção quanto na realidade). Em "Fundação e Império" são duas as crises Seldon que devem ser enfrentadas pelos homens. A primeira cinquenta anos após o final do primeiro volume, a segunda após outros noventa anos. Na segunda parte do livro um novo personagem domina as ações, um sujeito conhecido como o "Mulo", que tem a habilidade de ajustar/modificar a mente e as emoções daqueles que o cercam. Esse sujeito torna-se o conquistador de toda a galáxia, mas sabemos que sua vitória é passageira. Assim como ele todos os demais personagens buscam encontrar a segunda Fundação criada por Hari Seldon, mas esse enigma só será deslindado na terceira parte da história. Logo veremos.
[início: 17/04/2015 - fim: 18/04/2015]
"Fundação e Império", Isaac Asimov, tradução de Fábio Fernandes, São Paulo: editora Aleph, 1a. edição (2009), brochura 16x23 cm., 244 págs., ISBN: 978-85-7657-067-7 [edição original: Foundation and Empire (New York: Gnome Press) 1952]

quarta-feira, 22 de abril de 2015

fundação

Com livros de ficção científica a fórmula simples: não importa o quanto é amalucada uma idéia ou proposta desde que a cousa mantenha-se auto-consistente durante o tempo de leitura (isso vale para qualquer dos infinitos gêneros e sub-gêneros fantásticos, mais do que vale para as narrativas realistas). Li a Trilogia da Fundação pela primeira vez no final dos 1970, antes de entrar na universidade, de ser um físico praticante, ver Star Wars no cinema, conhecer as idéias do Campbell, um tanto de mitologia, arte e filosofia, além de ter lido uns 1500 livros mais (entre eles o bom e velho Gibbon de "A história do declínio e queda do Império Romano"). Noutro dia o Marcos Fernandes, amigo paulista, economista dos bons e por vezes um otimista aprendiz de Hari Seldon, falou-me desta nova edição da trilogia e animei-me a voltar a ela. Claro, lê-se "Fundação" com prazer, o ritmo da narrativa é vertiginoso o suficiente para manter o interesse do leitor até o final, mas faltou-me a ingenuidade dos 16, 17 anos para poder apreciar melhor o livro. Aquilo que ele tem de melhor continua lá: enigmas e disputas como num bom romance policial, invenção realmente criativa de possibilidades tecnológicas e uso flexível de conceitos científicos corretos; mas confesso que me aborreci desta vez com as repetições no enredo, o fato de tudo ser demasiadamente explicado e a certeza de que nenhum personagem da história é digno de ser cultuado (a não ser o inefável Seldon, que desaparece fisicamente do livro nas primeiras cinquenta páginas para só aparecer ex machina de tempos em tempos quando é necessário resolver - artificialmente - um problema). A história é mais ou menos conhecida: num futuro absurdamente distante os homo sapiens sapiens vivem num regime imperial que domina toda a galáxia (algo com 25 bilhões de planetas onde vivem um quintilhão de pessoas, ou seja, "dez elevado a décima-oitava potência" pessoas). Hari Seldon é um psico-historiador que prevê a dissolução desse vasto império, um período de trinta mil anos de caos e o estabelecimento de um segundo império. Para evitar os tais trinta mil anos de sofrimento e morte, eis que ele e seus seguidores imaginam um plano que une algo de matemática avançada, métodos estatísticos, alta tecnologia e neurologia aplicada para minimizar o inevitável interregno para apenas mil anos. Esse plano implica no estabelecimento de duas entidades, duas Fundações, em extremos opostos da galáxia. Nesse primeiro volume são descritas as três primeiras ditas "crises do plano" imaginado por Seldon, uma cinquenta anos após seu exílio para a primeira Fundação, a segunda após outros trinta anos e uma terceira após mais setenta anos. Detalhar mais do que isso rouba o quê há de prazeroso no livro. É interessante, curioso, educativo; literatura de entretenimento que eu indicaria sem medo para meus sobrinhos adolescentes (caso eu os tivesse, claro), mas que chegou a aborrecer esse velho senhor e suas cãs. Vamos em frente.
[início: 15/04/2015 - fim: 16/04/2015]
"Fundação", Isaac Asimov, tradução de Fábio Fernandes, São Paulo: editora Aleph, 1a. edição (2009), brochura 16x23 cm., 239 págs., ISBN: 978-85-7657-066-0 [edição original: Foundation (New York: Gnome Press) 1951]

domingo, 14 de outubro de 2007

futuro

Alaor Chaves é um dos físicos brasileiros mais brilhantes de sua geração. Atual presidente da Sociedade Brasileira de Física é também autor de excelentes livros texto que são largamente utilizados nas universidades brasileiras em cursos de graduação de física e engenharia. Preocupado com o problema energético publicou recentemente um romance de ficção onde discute este tema. O romance é Nanocarbon, publicado pela Editorial LAB, selo da editora livros técnicos e científicos, LTC, muito conhecida no meio científico universitário. O livro é fácil de ler, o tom é francamente de divulgação científica, em que pese o esforço de Alaor Chaves em introduzir outros elementos ficcionais na trama. Toda a ação do livro se dá em um futuro não muito distante nos EUA. Um jovem físico desde seu curso de graduação demonstra um talento não usual em diferentes áreas da física, química e engenharia. Antes mesmo de terminar seu doutoramento tem uma idéia seminal que revoluciona o mercado mundial de energia e, com o dinheiro de um grande investidor, funda uma empresa que em um curto período de tempo, torna-se detentora do monopólio do fornecimento mundial de energia baseada em hidrogênio. A partir daí o tom é de um romance policial. O livro começa com um atentado terrorista em uma das instalações da empresa deste sujeito. Nos primeiros capítulos há uma fração maior daquilo que eu acredito ser o maior mérito do livro: a inclusão de conceitos importantes da ciência em uma linguagem bastante acessível sem a perda do ritmo da leitura e do desenvolvimento da trama. Mesmo correndo o risco de se tornar professoral demais Alaor Chaves consegue manter o interesse nestes temas espinhosos. Na segunda metade do livro estas definições e conceitos diminuem bastante pois o interesse se desloca em descobrir o autor do atentado e alcançar o desfecho da trama. De qualquer forma eu acho que o final do livro não ficou bom. Nos últimos capítulos o desfecho da trama foi muito acelerado e talvez em função disto eu não tenha entendido como uma pessoa que passou por tantas atribulações possa relaxar tanto a ponto de não se preocupar com algum tipo de vingança. Mas estamos no mundo da ficção e o Alaor é o senhor do destino dos personagens que criou e sabe para onde eles devem ir. Como toda a ação se passa nos EUA eu incluiria também algum jornalista na trama, para o bem da verossimilhança, pois me parece que seria impossível tudo o que acontece no livro se dar sem alguma cobertura feroz da mídia, mesmo se estamos falando de um futuro distante. Há pequenos truques literários na trama que fragilizam o texto, como um em que o personagem principal (logo após sofrer um atentado e ter se submetido a uma cirurgia plástica) telefona para meu antagonista (e provável mandante de um atentado) informando-lhe que estava vivo, tinha alterado a voz e estava com o rosto diferente. Qual a vantagem prática (mesmo para a trama literária) de dar estas informações ao sujeito? Como o livro se passa nos EUA há vários termos que me parecem brasileiros demais (pescou, detonou, tal e tal, gostosa, bagos, etc) que não se ambientam bem no cenário americano. Mas estou seguro que este é um livro que merece ser lido por todo aquele que gosta de um romance de ficção honesto. Se o livro fosse traduzido para o inglês e publicado nos EUA provavelmente faria algum sucesso. O tema é realmente atual e Alaor sabe como poucos as muitas implicações tecnológicas dos conceitos e idéias científicas básicas que incluiu na trama. Achei o livro bem escrito e como proposta editorial de fato interessante. Recomendo o livro sem medo.
Nanocarbon, Alaor Chaves, editora LTC (editorial LAB), 1a. edição (2007) ISBN: 978-85-216-1560-6

terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

nas fronteiras da ficção


Vamos a ver. Meu manual de boas maneiras diz que cortesias devem ser respondidas com cortesias, mas deve haver um razoável equilíbrio no processo de reciprocidade às cortesias. Pois bem. Recebi dos gentis e industriosos editores da santamariense Arquétipos Tríade Editorial, um exemplar do Projeto AIC – Metamorfose, de Lion Goya. E recebi em um dia feliz, de muita conversa boa e troca de experiências. Eu já conhecia o livro pelo comentário dos amigos. O projeto editorial é ambicioso, agressivo, ousado mesmo. Os banners e o material de apoio distribuídos quando do lançamento do livro no final do ano passado deixaram todos os colegas do conselho da CESMA e das reuniões do café impressionados. Saber que a editora é santamariense torna o projeto ainda mais louvável. É este o tipo de coisa que se espera dos jovens empresarios santamarienses: que apostem mesmo seu dinheiro em projetos sérios e inovadores, sem apoio do fácil dinheiro público. Nas últimas semanas tive minha cota de pesada de leitura: O livro do Magnoli me prendeu um bocado, o descanso com os poemas da Emily Dickinson foi só um aperitivo para os altos cumes do "Menina Má" doVargas Llosa, e o segundo Jeeves do ano, foi pura e fugaz diversão. Mas sobre tudo isto eu já escrevi no blog antes e não há mais nada a acrescentar, pois o tom do blog é fazer mesmo apenas curtas resenhasdas minhas experiências com os livros que vou lendo neste ano quente e agitado. Por conta desta cota de leitura o livro do Goya foi ficandopara trás, mas entre um Jeeves e outro cismei de começá-lo. Começei na quinta-feira mesmo, dia 08, quando terminei o segundo Jeeves e estou aqui a escrever na segunda, dia 12, quando vou começar um novo Jeeves.
Projeto AIC – Metamorfose é um livro fácil de ler e bem estruturado, mas com notas e guias de leitura que expõem toda a ossatura doprojeto: os objetivos, o processo editorial, as preocupações estéticasdo autor e o que é definido pelos editores e pelo autor por "projeto psicodinâmico do livro". Acontece que eu acho que há muitasimprecisões e mesmo afirmações no livro que não podem ser simplesmente relevadas. Como o livro é de ficção e deve ser lido como tal, toda liberdade criativa e narrativa é possível e todo compromisso com ofactual e o mundo real pode ser esquecido, em nome da infinita capacidade humana de criar novos mundos. Mas como posso ler um livroque registra tantas vezes argumentos pseudo-científicos sem sair com meu taco de beisebol mental pronto para o revide? Os apêndices nãoficcionais do livro não podem deixariam dúvida, por exemplo, de que nunca houve comprovação científica da existência de vida extraterrestre; de que formações circulares em plantações são obra de nós Homo Sapiens Sapiens e não de alienígenas; de que não há a menor evidência científica da existência de cura para HIV; de que não há comprovação científica que o HIV é obra de cientistas; de que mediunidade é uma impossibilidade e arma de charlatães; de que animais não ficaram sabendo "antes" do tsunami que atingiu a Ásia em 2005; de que a Igreja não é uma necessidade inata do homem pelo fato dele conviver com mitos religiosos há 100.000 anos e por aí, neste tom, eu poderia seguir por longos parágrafos, citando vários temas que são totalmente pseudo-científicos, inaceitáveis mesmo. Isto me faz acreditar que Projeto AIC – Metamorfose seria um livro pelo qual teria menos reservas caso todos os "extras", os "apêndices", que ganham nome variados como notas, glossário, curiosidades, entrelinhas, e, principalmente, a sessão inteira chamada "bastidores do projeto", fossem simplesmente eliminados. Mas isto seria questionar o próprio projeto editorial que viabilizou o livro e sua divulgação. Acredito mesmo que se cada um dos leitores tivesse a chance de construir por si mesmo algum entendimento do livro este último se salvaria como uma obra de ficção válida, já que os apêndices parecem apenas forçar o leitor a acreditar em bobagens olímpicas e inverdades científicas que fazem qualquer pessoa familiarizadas com estes temas a se afastar do livro com raiva (como dizia a Dorothy Parker que devemos fazer com alguns livros). Bom divertimento mas, por favor, não termine este livro acreditando em tolices, aprecie sim o enredo, que é mesmo repleto de conexões originais entre temas distintos, alguns muito conhecidos, mas muitos outros genuínos e novos, garimpados de forma ousada pelo autor. É isto.
Projeto AIC - Metamorfose, Lion Goya, editora Arquétipos TRED, 1a. edição (2006) ISBN: 85-60294-00-7