segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

tumbas

Tumbas. Eis um belo e bom livro para encerrar o ano. Com as festas de final de ano vou ficar atrapalhado, as meninas estão chegando de Barcelona, vou fazer mais festas e ler menos, portanto resenhas no "livros que li" só em janeiro de 2009. Claro, já li "Princesas, esquecidas e desconhecidas", belíssimo, que vou presentear a minha sobrinha Clara; já li "Cómo ser Europeos", pensando em dueña Helga; já li um livrinho sobre o Hemingway, li umas 100 páginas do "Crime e Castigo" e estou a ler um livro infanto-juvenil do Christopher Paolini, mas só em janeiro retomo a lida, pois ler é uma coisa, resenhar é outra. Este foi o ano em que descobri Cees Nooteboom e li vários livros dele. "Paraíso Perdido" é bom, mas gostei mais de "Caminhos para Santiago" e de "Dia de Finados". "Tumbas, de poetas y pensadores" é um livro feito por encomenda. Um sujeito convidou Nooteboom a registrar túmulos de escritores alemães e fazer comentários sobre a vida e a obra para um evento. O projeto cresceu e Nooteboom, que escreve livros de viagens a mais de trinta anos transformou a idéia original em uma peregrinação pelos túmulos dos escritores e escritoras (e filósofos e pensadores) com os quais ele mais tem afinidade. O resultado é um livro poderoso, onde ora temos longos trechos analíticos sobre a vida e a obra do escritor, ora temos apenas a fotografia do túmulo e um trecho de texto ou poesia onde o autor conta uma experiência com a idéia de morrer. As historias mais longas são mesmo as mais deliciosas: Bernhard, Casares, Borges, Cortázar, Dante, Goethe e Schiler, Hoffman, Antônio Machado, Mary McCarthy, Nabokov, Erza Pound, Murasaki, Nabokov, Sartre, Wittgenstein, Virgínia Wolf, Virgílio. As curtas também têm seu valor. O livro abre com uma história divertida, perto do túmulo do Machado de Assis no cemitério de São João Batista, Rio de Janeiro. "Qual é mesmo o primeiro nome de Machado de Assis pergunta o administrador do lugar?" Ninguém do grupo parece se lembrar e a lista das campas está em ordem alfabética! Curioso mesmo! Primeiro eu achei Tumbas em alemão, comprei só pelas fotografias (de Simone Sassen, mulher de Nooteboom), belíssimas, sente-se o silêncio entranhado destes lugares. Quem de nós, amantes dos livros e da literatura, não fez uma peregrinação ao túmulo ou ao local onde viveu um autor que nos agradasse. O livro chegou na semana em que soube da morte recente de meu amigo Johannes Musolf, um artista plástico alemão com quem eu me dava muito bem. Folheando o livro lembrei também daquela passagem do Proust onde o narrador reencontra o Barão de Charlus velhinho dizendo: "Hannibal de Bréauté, morto! Antoine de Mouchy, morto! Charles Swann, morto! Adalbert de Montmorency, morto! Boson de Talleyrand, morto! Sosthène de Doudeauville, morto!" Percebi logo que o texto de Nooteboom deveria ser tão poderoso quanto as imagens e acabei procurando e encontrando esta versão em espanhol. Valeu a pena. No ano que vem tem mais. Boas festas.
Tumbas: de poetas y pensadores, Cees Nooteboom, tradução de María Condor, fotografias de Simone Sassen, Ediciones Siruela, (1a. edição) 2007, capa dura 22x29, 264 págs. ISBN: 978-84-9841-115-7
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Balanço final [13.12.2008]
Fiquei feliz de ter terminado o ano com um livro espanhol e com um livro tão bonito quanto este. "Tumbas" é mesmo uma declaração de amor de um escritor a seus pares. Este 2008 ainda foi um ano de "espanholices": continuei com as leituras de Montalbán, mas aprendi um tanto mais sobre a Espanha buscando outras vozes, como a de Rosa Montero ou outros temas, como os livros de viagem do Cees Nooteboom (de fato minha grande surpresa deste ano.) Foi um ano onde li muitos livros de mulheres (sugestão de Cristina Gómez-Polo). Na segunda metade do ano conheci Rosa Montero, Amèlie Nothomb, Inês Pedrosa e Isabel Allende. Foi de fato o ano de grandes romances (de Melville, de McEwan, de Roth, de Nothomb, de Nooteboom) e muitos livros de crônicas ou ensaios. Li menos romances policiais (quase todos do Montalbán, meu grande guru espanhol), quase nada de poesia (tolo que sou), alguma gastronomia (cozinhei muito este ano.) Claro, continuei a ler solenes bobagens (as vezes a compulsão cobra caro sua fatura.) Foram 98 livros, mais precisamente 35 romances, 26 de crônicas ou ensaios, 8 de contos, 6 romances policiais, 5 novelas, 4 cartuns e mangás, 4 de gastronomia, 4 perfis ou memórias e 4 de outros gêneros (um único de poesia, dois infanto-juvenis, duas peças de teatro e 1 catálogo de exposição belíssimo, sobre o grande sertão veredas). Vamos a ver o que se passa em 2009. Minha lista de projetos sempre aumenta. Estou devendo os grandes russos, comecei tímido neste ano, mas os russos estão chegando sim. Desvios ocorrerão, os livros têm mesmo uma alma própria, seus segredos, suas sutis conexões com eles mesmos e conosco. Estou certo que haverá surpresas no próximo ano. Vale.

domingo, 7 de dezembro de 2008

solo

Vamos a ver. Se é que eu me lembro bem, durante a feira do livro de Porto Alegre vi uma entrevista com o autor deste livro, o Juremir Machado da Silva, onde ele dizia que três mulheres já haviam entendido seu livro Solo, uma com oitenta anos e as outras duas com quinze. Era uma "boutade" deste tipo. Acho que li este livro só por conta desta frase, fazer o quê? Trata-se de um romance onde o autor tenta nada discretamente defender algumas teses sobre nossa sociedade moderna: sua "balcanização", sua irrelevância, sua "espetacularização". No livro a ironia e o cinismo dominam do princípio ao fim. A cultura de massas é mesmo uma tragédia. Acompanhamos as venturas de um sujeito obcecado por televisão, por literatura de auto-ajuda, por caminhadas de auto-conhecimento, por psicologia de almanaque, por gauchismo e que tenta alcançar uma eventual redenção intelectual. A frase mais longa do livro deve ter 15 ou 20 palavras, nada que um aluno aplicado em oficinas pedestres de literatura não aprenda na primeira aula ou que um pateta qualquer não consiga ler sem perder o fio da meada. Aprendemos o óbvio: é fácil emular uma tolice como Paulo Coelho, inventar rotas místicas e dar sentido a qualquer bobagem inventada em minutos, convencer leitores cretinos de qualquer coisa, se imbecilizar nestes tempos bicudos. O personagem principal do livro vaga pelo Brasil (em uma tediosa história psicanilizada do Rio Grande do Sul), depois pela França, Roma, Veneza e por fim pelos altiplanos peruanos (onde se ri das possibilidades místicas de um deserto), retornando aos pagos gáuchos. Claro, o livro é bem escrito, articulado, moderninho, mas acho que muito poucos dentre os leitores acostumados com as platitudes da literatura contemporânea perceberão que é possível escrever livros de auto-ajuda a partir de qualquer bobagem que faça sentido, utilizando os elementos mais díspares e desconexos (se é que é este mesmo o projeto do livro, pode ser que a pretensão dele como escritor seja outra.) O ano está terminando e eu já esgotei minha cota de livros descartáveis faz tempo, preciso focar melhor, parar de ler qualquer coisa que me caia nas mãos. Vamos em frente. O "Tumbas" em espanhol chegou e vou terminar o ano com ele, revisitando os mortos.
Solo, Juremir Machdo da Silva, Editora Record (1a. edição) 2008, brochura 14x21, 367 págs. ISBN: 978-85-01-07833-9

sábado, 6 de dezembro de 2008

la suma de los días

Comprei este livro para dar de presente para minha amiga Eliana, mas quem disse que se eu não o visse novamente na CESMA não daria um jeito de comprar outro volume? Foi o que fiz e o li com muito prazer. É um livro confessional, onde se descreve o dia a dia de uma mãe que acabou de perder sua filha e que deve seguir vivendo, enfrentando novos desafios, lambendo as feridas, produzindo e tentando alcançar alguma felicidade. Esta mãe é exatamente a autora do livro: Isabel Allende. Trata-se portanto de um livro muito pessoal, onde a família tem um papel central. Todos os membros de sua família que autorizaram ser citados estão ali, sem pudor, com suas qualidades e defeitos, suas fragilidades e valores. Lembra um tanto Rosa Montero, mas é certamente menos cerebral e experimental que aquela. Além da descrição de como a família aceitou a morte de sua filha Paula, encontramos no livro muito da rotina de quem vive e trabalha nos Estados Unidos, do mercado livreiro de lá, de como os tabus sexuais, profissionais, pessoais e coletivos podem e devem ser enfrentados, das obsessões de cada membro da família, da espiritualidade e dos diferentes graus de misticismo com o qual todos daquele grupo convivem. Claro, qualquer pessoa que tenha experimentado uma perda importante e esteja disposta a discutir formas de elaborar o luto vai encontrar neste livro muitas reflexões interessantes, mas não se lê com prazer este livro apenas por conta disto. É um livro onde o mundo das mulheres ganha uma evidência especial, onde os homens são sim importantes e companheiros, mas são sempre afastados de propósito do centro da discussão, como se as mulheres devessem chamar para si responsabilidades especiais na sociedade moderna. Não sei se nós, homens e mulheres, homo sapiens sapiens deste início de século XXI ganhamos algo com isto, mas de qualquer forma é um belo livro, que se lê com vagar e muito prazer.
La suma de los días, Isabel Allende, Editorial Sudamericana (1a. edição) 2007, brochura 16x25, 363 págs. ISBN: 978-950-07-2859-1

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

guilherme de inglaterra

Este pequeno livro é difícil de classificar. Durante um certo tempo foi atribuído a Chrétien de Troyes, mas hoje em dia esta idéia foi descartada e seu autor deverá continuar anônimo para sempre. Foi escrito originalmente em verso, mas a versão em português publicada pela Lacerda editores está em prosa (os editores incluiram na edição a versão original o texto em francês medieval - langue d'oïl - do século XII). Atribuir este texto a Troyes dava um status indevido ao texto, que de fato é bem tolo e simples (nada posso dizer do valor como poema, pois nada sei de langue d´oïl. Trata-se de um romance de cavalaria típico, onde se conta sucessos dos cavaleiros da Távala Redonda, dos caveleiros do rei Arthur. Lê-se este livrinho em um par de horas, sem problemas. O texto mistura narrativas que soam realistas e outras perfeitamente surreais, absurdas. A história segue o roteiro típico destas narrativas: um rei recebe uma inspiração divina e se afasta de seu reino, levando sua esposa grávida. Esta dá a luz a gêmeos e os quatro se dispersam, cada qual para uma nova vida, sem saber que os demais continuam vivos. Após anos de bizarras aventuras uma caçada na fronteira entre dois reinos em disputa faz com o acaso os reaproxime. O rei é novamente coroado em festa na poderosa Londres. Nada espetacular, apenas diversão para dias de tédio.
"Guilherme de Inglaterra", Chrétien de Troyes (atribuído a), tradução de Maria Angela Vilela, Lacerda editores (1a. edição) 1997, brochura 12x17, 136 págs. ISBN: 85-7384-006-4

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

os alegres rapazes de atzavara

Após tantos livros de Montalbán o que eu posso ainda dizer? É sempre um prazer renovado encontrá-los, como este, publicado em Portugal (o que dá extranhas sonoridades à leitura), achado em um sebo portoalegrense noutro dia mesmo. Este Os alegres rapazes de Atzavara não pertence aos da série Carvalho, mas deixa transparecer a mesma preocupação de Montalbán em contar um tanto da história da Espanha. Se nas novelas policiais aprendemos algo sobre as mudanças econômicas e políticas espanholas pós morte de Franco neste mais diretamente acompanhamos as mudanças sociais, as mudanças de hábito da sociedade. No romance quatro narradores distintos comentam os fatos do verão espanhol/catalão de 1974, aquele em que o país descobre que Franco está muito mal de saúde, hospitalizado (sua agonia duraria ano e meio ainda, o que deu chance para todos os democratas oprimidos por décadas se abastecerem com garrafas de cava - espumantes - para comemorar o esperado passamento do sujeito, o que de fato aconteceu em novembro de 1975). Na ficcional cidade litorânea de Atzavara (Sitges talvez?) vive-se uma espécie de revolução sexual catalã (ecos algo tardios do que acontecia já a uma década nas demais grandes cidades européias e nos Estados Unidos). Os personagens são burgueses catalães algo heterogêneos: há os homossexuais liberados, mulheres divorciadas e senhoras de seu destino, casais convencionais talvez algo permissivos, profissionais liberais e intelectuais, além de dois pares de observadores externos a este grupo: dois operários simples e dois artistas plásticos jovens. Os quatro narradores comentam aspectos variados das relações entre eles e os outros, discutem os sucessos daquele verão, analisam como tudo aquilo influenciou suas vidas e seu futuro. É um Montalbám com suas obsessões de sempre mas desta vez sem a gastronomia e as visitas inspiradoras a restaurantes promovidas pelo detetive Carvalho. É um livro melancólico e triste, onde ao final vence a hipocrisia e o acomodamento. Difícil não simpatizar com Montalbám e suas escolhas morais, pois o livro é quase o testemunho de uma época, um estudo do coração humano. Em um trecho um personagem diz: "Finalmente ela também descobriu a mediocridade obscena da realidade. O que não evita que tenhamos de assumí-la, com todas as consequências, quando a ocasião o requer." Duro mas verdadeiro. Ainda tenho mais Montalbán nos guardados, mas eles vão ficar para a fornada do ano que vem.
"Os alegres rapazes de Atzavara", Manuel Vázquez Montalbán, tradução de Helena Ramos e Artur Ramos, publicações Don Quixote (1a. edição) 2001, brochura 15.5x23.5, 246 págs. ISBN: 978-972-20-1969-4

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

peixe dourado

"Peixe dourado" é um bom romance de J.M.G. Le Clézio, o ganhador do prêmio Nobel deste ano. Duas idéias estão na gênese desta história. Uma é explícita, está na epígrafe do livro. Trata-se de um provérbio mexicano onde se aconselha um peixinho dourado a cuidar-se bem, pois são demais as armadilhas deste mundo. A segunda idéia eu associo ao "O Africano", livro dele que li e resenhei abaixo, onde ele conta a história de seu pai e que descreve como para algumas tribos africanas o momento realmente importante da vida é o da concepção e não o do nascimento, pois no lugar e na hora da concepção algo mágico acontece entre a natureza e o novo ser que é gerado. Quando você volta ao lugar em que foi gerado há um recomunhão entre os elementos. Assim são os hábitos, tradições dos povos e nações que mal conhecemos, luminosos, sempre surpreendentes. A história de "Peixe dourado" segue então a partir destas duas idéias. Tudo é muito rápido no texto de Le Clézio, tudo muito cruel, mas sem choramingas, sem explicações reducionistas e bestas, como deve sempre ser em um livro que fale da vida. Uma menina de origem árabe chamada Laila (um nome que pode significar "bela como a noite") é sequestrada em algum lugar do Saara ocidental africano e se descobre escrava de uma senhora marroquina de origem judaica. A partir desta aparição em um lugar novo, desaparecido seu passado, sua vida segue em ritmo sempre frenético: vive com a senhora até a sua morte; é acolhida por outras moças abandonadas; faz amigos, parte para Europa, atravessando a Espanha para chegar a França; passa por experiências, aprendizados, agressões, encantamentos, sofrimentos, lutas, como qualquer emigrante que nem identidade tem (os papéis sempre podem ser forjados, mas uma identidade, uma história de vida dificilmente pode ser emulada); aprende música; emigra como que por acaso para os Estados Unidos; se apaixona, adoece, volta a Europa e depois para a África, para a região onde provavelmente vivia antes de ser sequestrada. Os detalhes destas peripécias são muito bem contados. O livro trata de assuntos duros, de um mundo xenofobista, onde a inclusão é sempre uma miragem, a marginalidade e o preconceito obsessivamente presentes, mas o livro se deixa ler com vagar, como se tratasse mesmo de acompanhar um pequeno peixe que nada em um mar gigantesco. É de fato muito bem escrito.
"Peixe dourado", J.M.G. Le Clézio, tradução de Maria Helena Rodrigues de Souza, editora Companhia das Letras (1a. edição) 2001, brochura 14x21, 216 págs. ISBN: 978-85-359-0150-4

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

o africano

Os livros têm entre eles sutis formas de comunicação. Acabei de terminar um livro de viagem (Nomad's Hotel) e encontro neste "O Africano", um outro tipo de viagem, aquela que fazemos para o interior de nós mesmos. O autor é Jean-Marie Gustave Le Clézio, o ganhador do prêmio Nobel deste ano. Já li dois livros dele, de fato interessantes. A edição deste é belíssima (a Cosac sempre ensina como um livro deve ser editado) e inclui uma bibliografia completa de e sobre Le Clézio, ótima para os não iniciados na sua obra, como eu. O texto é curto. Trata-se de um relato bastante pessoal sobre a história de seu pai. Ele descreve vividamente suas impressões e lembranças de seu pai, que nasceu nas Ilhas Maurício, no Índico, que na época era colônia inglesa mas havia sido antes uma colônia francesa (hoje é um país independente ligado ao Commonwealth.) Ele é um negro legítimo que vai para Londres com uma bolsa para estudar medicina. Quando se forma na escola de medicina deve "pagar" a bolsa trabalhando para o governo (os europeus e os americanos resolveram a questão do acesso às boas universidades há uns duzentos e cinquenta anos, sempre valorizando o óbvio, a meritocracia, mas o Brasil continua inventando bobagens patéticas como cotas, fazer o quê!). Um impulso o faz aceitar primeiro uma posição na Guiana Inglesa e logo depois uma posição permanente na região onde hoje é a Nigéria e o Camarões (estas terras haviam sido subtraídas dos alemães logo após a primeira grande guerra e foram colonizadas por ingleses e franceses.) Ele é o único médico de uma região enorme. Passa na África a maior parte de sua vida. Em uma de suas viagens casa-se com uma prima de segundo ou terceiro graus que também havia nascido nas Ilhas Maurício, mas que havia emigrado com a família para a França. Logo volta para seu posto na Nigéria, voltando apenas esporadicamente à França, como nas ocasiões dos nascimentos dos filhos (Le Clézio nasce em Nice, em 1940.) Quando a segunda grande guerra começa ele se encontra na África e sua esposa em Paris. Apesar de tentar atravessar a África para encontrá-los passa toda a grande guerra separado da família. A mãe tem ascendência judaica, se esconde dos alemães na França ocupada. Só depois da guerra, em 1948, torna-se possível que ele conheça o filho mais novo e reencontre a mulher. O estranhamento do garoto Le Clézio ao descobrir que seu pai é um "Africano" e o processo de reconhecimento entre os dois dá a tônica incial do livro. Durante uns dez anos ele mora com os país na África, mudando completamente de hábitos. O texto descreve com calma a vasta região onde seu pai viveu e trabalhou, o combate diário com as forças da natureza, a beleza da região e de seu povo, o tipo relações que manteve com os vários líderes tribais com os quais conviveu, as reflexões do pai sobre o futuro da África (cruéis quando ele mesmo se percebe apenas um eficaz agente colonizador.) Ao se aposentar do serviço seu pai emigra para a França. Em 1968 perde a cidadania inglesa pois as Ilhas Maurício se tornam um país independente. Tem planos de emigrar para a África do Sul ou para o Caribe, mas nada disto se materializa. Sofre com os desastres que assolam a África nas décadas de 1960 e 1970 (as muitas guerras tribais, o massacre de Biafra, a busca européia pelas riquezas minerais do continente.) O livro termina com reflexões sobre como cada um nós se define historicametne ou como a memória das experiências vividas por nossos pais são transmitidas para nós. Le Clézio adotou recentemente dupla cidadania, tornando-se cidadão das Ilhas Maurício, chamada por ele de "sua pequena terra natal". Para um livro tão pequeno há muito o que se pensar. Quando eu resenhar o outro livro que li de Le Clézio comentarei mais um tanto sobre isto. Belo livro.
O Africano, J.M.G. Le Clézio, tradução de Leonardo Fróes, Cosac Naify (1a. edição) 2007, capa dura 16x23, 136 págs. ISBN: 978-85-7503-589-4

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

nomad's hotel

"Nomad's Hotel: Travels in Time and Space" é um livro de crônicas de viagem. Algumas bem antigas, ainda do início da década de 1970 e várias outras já deste nosso nebuloso século XXI. Cees Nooteboom escreve como um Ulysses que vaga pelos mares do mundo sem nunca alcançar sua Ítaca. Quase todos os ensaios já haviam sido publicadas em revistas e bem recentemente foram compiladas por Nooteboom para o formato livro. Os ensaios e/ou crônicas (difícil determinar onde termina um estilo/formato e começa o outro) formam um mosaico bastante diverso. As vezes estamos em lugares sofisticados, em hotéis elegantes, imersos no colorido familiar da Europa ocidental, noutros ensaios estamos em territórios onde ninguém fala inglês, a paisagem é desconhecida, os costumes necessariamente ainda estão por serem compreendidos. Em comum nos ensaios está o fato de sempre encontramos neles a capacidade de Nooteboom de sintetizar impressões, generalizar conceitos, explicar discordâncias e afinidades entre povos distintos. Trata-se de um sujeito que aprendeu a viajar e a extrair conhecimento de cada uma das viagens, tanto as de caráter profissional quanto as de puro lazer. O texto sobre Veneza me lembra muito o que já havia escrito Joseph Brodsky sobre ela; em Zurich reencontro um Elias Canett diferente; o texto sobre Isfahan explica um tanto o que se passa no Irã de hoje, 33 anos após ter sido escrito; ao falar de um memorial de guerra australiano lembramos os horrores da segunda grande guerra vividamente; na descrição dos rigores da ilha de Aran encontramos o belo contraste entre as forças da natureza vibrantes e o caráter organizador do homem. Todo aquele que já viajou um tanto vai gostar de acompanhá-lo mundo afora. Nas palavras dele: "Quando estamos longe de casa a única companhia constante é a de nós mesmos. Apreciar esta companhia é uma habilidade, uma arte, que em geral leva-se tempo para alcançar. Viajamos para contemplar e aprender, com curiosidade e perplexidade, entretanto, mais do que tudo, o que aprendemos ao viajar é algo sobre nós mesmos."
Nomad's hotel, Cees Nooteboom, tradução de Ann Kelland, Vintage books (1st edition) 2007, brochura 13x20, 232 págs. ISBN: 978-0-099-45378-9

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

anjos caídos

Harold Bloom escreveu este pequeno livro, lindamente ilustrado, sintético, didático até, talvez pensando nos jovens que têm pouco tempo para ler ou nas pessoas que se interessam pela mítica dos anjos mas jamais leriam um livro técnico escrito por um especialista como ele sem torcer o nariz. Utilizando sua vasta cultura ele pinça de uma série de grandes obras literárias o uso prático do conceito de anjo, especialmente o de anjo caído. Os textos bíblicos, bem como os escritos de santo Agostinho, Shakespeare, John Milton, Ibsen e Tony Kushner (um dramaturgo de nosso agitado século) são algumas das fontes de Bloom na sua argumentação. Lê-se este livro com curiosidade, mas nem de longe ele esgota o assunto, apenas nos aponta o caminho, como que dizendo: vá para os clássicos, leia os grandes poetas, aprenda algo sobre si mesmo nos textos fortes do passado. Para ele os anjos representam tanto a morte e a queda quanto o amor e a própria humanidade. As idéias de Bloom nunca são simples e eu mesmo me sinto um tanto incomodado com o quase flerte com uma espécie de deidade que ele insiste em praticar, mas não há como negar que este livro é uma bela iniciação a seu estilo envolvente e sua argumentação forte.
“Anjos caídos”, Harold Bloom, tradução de Antônio Nogueira Machado, editora Objetiva, 1a. edição (2008), brochura 13,5x18,5cm, 83 págs. ISBN: 978-85-7302-919-2

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

as revoluções de ferran adrià

O elBulli é um dos mais conceituados restaurantes do mundo. Talvez não seja o mais caro, nem o mais sofisticado, nem mesmo o primeiro a alcançar e manter por longo tempo as três estrelas do Guia Michelin (manual de auto-ajuda dos gastrônomos endinheirados deste mundo), mas certamente é um dos mais badalados. Ele fica na Costa Brava catalã, perto da fronteira com a França. Fica aberto apenas metade do ano e somente 45 clientes conseguem ser admitidos por dia no salão. Isto dá mais ou menos 8.000 pessoas por ano e a fila de espera tem cerca de dez vezes este número. Como um restaurante alcança este status? Como o atávico e necessário ato de sair para comer tornou-se uma peregrinação digna das grandes religiões? Neste livro o jornalista alemão Weber-Lamberdière tenta explicar o fenômeno, descrevendo como Ferran Adrià induziu este processo e reinventou a cozinha contemporânea. Ele é quase uma unanimidade, mas tem lá seus detratores, como o também catalão e também três vezes estrelado Santi Santamaria, que questiona o uso de aditivos químicos na cozinha de seu colega. Eu, este menor dos anões paulista, acho que o que ele faz não é exatamente comida, mas sim entreterimento, teatro, show de variedades, arte até, talvez, mas o fato de sua arte ser comestível é um pequeno detalhe. O livro é escrito para ser fácil de ser lido, coisa de jornalista que conhece seu ofício. Rapidamente somos apresentados a história de Ferran Adrià, catalão, mas legítimo herdeiro da tradição gastronômica francesa, da "nouvelle cuisine", dos seminais Michel Guérard, Paul Bocuse, Alain Chapel, os irmãos Troisgros, Alain Ducasse, etcetera e tal. Ferran, que já tinha uma sólida formação como chefe de cozinha em 1984, quando assumiu os trabalhos no elBulli, lentamente, mas com intensidade, adaptou a "nouvelle cuisine" para o gosto catalão e mediterraneo, inovando-a radicalmente. O autor argumenta que hoje em dia "somente idéias" são servidas lá. É difícil dizer o que isto significa sem experimentar uma refeição, mas o livro tem lindas fotos das "espumas do mar", do "ravióli líquido", do "caviar de melão", dos "espetinhos de gelatina quente" e de tantos outros pratos coloridos e surpreendentes que fizeram a fama de Adrià. O livro não é uma biografia de Adrià mas um guia panorâmico da cozinha de vanguarda européia, fala também de tendências, dos manuais, dos livros, dos negócios cruzados, da industrial alimentícia, do papel da mídia. Inclui também um encontro entre Alain Ducasse e o grande costureiro alemão Karl Lagerfeld, que é muito divertido (o tema: criatividade, é mesmo próprio a muitos comentários patetas, estamos já um tanto cansados disto.) Recentemente Ferran Adrià e outros chefes espanhóis estiveram em São Paulo. Para participar do festival gastrônomico alguns viventes pagaram $5.000 reais (e disputaram a tapas o direito de gastar tudo isto.) O mundo está mesmo perdido!
“As revoluções de Ferran Adrià”, Manfred Weber-Lamberdière, tradução de Luciane Ferreira, L&PM editores, 1a. edição (2008), brochura 14x21cm, 188 págs. ISBN: 978-85-254-1792-3

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

o eterno marido

O eterno marido é um curto romance muito bom de se ler, uma belo livro de Dostoiévski. Trata-se de uma história perturbadora, violenta mesmo, que se deixa contar pelo autor como se fosse coisa corriqueira e fácil. Na história é narrado o reencontro de um sujeito chamado Páviel Pávlovitch Trussótzki (os nomes em russo são sempre curiosíssimos) com Aleksiéi Ivânovitch Vieltchânimov (Aleksei Ivanovitch é o nome do personagem principal de "o jogador", mas acho que não se trata do mesmo personagem). Este último havia sido amante da falecida mulher do primeiro. Enquanto o ex-amante é um jovem frívolo, fútil e indeciso o viúvo é agressivo, alcoólatra e violento. O reencontro é pleno de emoções, ódios represados, sofrimento psíquico, mas tudo é apresentado com um humor-negro que torna as situações socialmente toleráveis. Páviel faz saber Aleksiéi que sua mulher (Natália Vassílievna) havia tido uma filha (Lisa) com ele, ou seja, que ele Páviel sabia desde muito tempo da indiscrição de ambos, mas apenas agora, dez anos passados, tinha a coragem de confrontá-lo. Na verdade só teremos certeza disto no final, mas a história é perturbadora demais para que o personagem não se envolva com o viúvo e a jovem criança. A menina tem a saúde bastante frágil e, apesar dos esforços de Aleksiéi para salvá-la, acaba morrendo na casa de alguns amigos. Pouco tempo depois o viúvo aparece a Aleksiéi dizendo estar com planos para se casar com uma das filhas de ricos proprietários do campo. Em um exercício, talvez, de auto-punição, Aleksiéi acompanha o viúvo à propriedade da pretensa noiva, mas acaba por tornar o caráter pusilânime e tolo de Páviel ridiculamente visível a todos da família da pretendente. De volta a São Petersburgo Páviel ajuda Aleksiéi com um problema de saúde e ato contínuo tenta matá-lo em uma noite tensa, onde sonho e realidade se confundem. Pela manhã Páviel desaparece. Anos mais tarde Aleksiéi reencontra Páviel em um trem, casado com uma jovem do campo (talvez tão igualmente rica, quanto aquela que Aleksiéi demoveu de casar-se com Páviel). O eterno marido continua o mesmo tolo e bufão de sempre, aparentemente envolvido em um triângulo amoroso entre sua mulher e um jovem cadete, vagamente aparentado a ele. O trem com o casal parte e Aleksiéi fica na estação rumindo todo o patético desta curiosa história. O texto foi traduzido diretamente do russo por Boris Schnaiderman, que assina um bom e curto ensaio no final. Esta edição é mesmo super bem cuidada. Agora que tirei os escolhos da frente preciso afiar os dentes para enfrentar os tijolos de "os demônios", "crime e castigo" e "os irmãos karamazov". Veremos.
“O eterno marido”, Fiódor Dostoiévski, tradução de Boris Schnaiderman editora 34, 2a. edição (2003), brochura 14x21cm, 210 págs. ISBN: 978-85-7326-283-4

sábado, 15 de novembro de 2008

eldorado: a rádio cidadã

Quando eu ainda morava em São Bernardo do Campo ouvia muito rádio. Uma das minhas favoritas era a rádio Eldorado AM e foi meu pai quem me fez tornar-me um admirador da sua programação. Aos domingos tinha “Ópera completa”, narrada por um locutor que fazia os resumos de cada um dos atos de um jeito muito especial, citando trechos dos libretos. Quase tudo que sei sobre ópera aprendi naqueles domingos, ouvindo a música e procurando detalhes na infinita “Enciclopédia Trópico”. Ula-lá.. Gostava também de “Um piano ao cair da tarde”, “Concerto noturno”, “Jornal de 30 minutos”, “Noite de jazz” e claro, das vinhetas, que ainda martelam minha memória. Naquela época a programação terminava exatamente a uma hora da manhã, tocando um trecho de uma das Bachianas do Villa-Lobos (seria a terceira?). Aquilo embalou meu sono por anos (sempre que podia eu esperava a hora do encerramento da programação, pouco me importando se tivesse de acordar cedo.) As seis da manhã a programação voltava com uma marcha que havia sido composta durante a revolução constitucionalista de 1932, aquela em que meu avô mineiro dizia “ter matado muitos paulistas”, mas esta é mesmo outra história. Anos depois, quando já havia me mudado para São Paulo, passei a ouvir os programas da Rita Lee (que me apresentou a Lou Reed) e de Jô Soares e Ruy Castro (que me apresentaram o Jazz). Tenho vários destes programas ainda gravados em fitas K7. Pois foi em função destas lembranças que ao ver o livro “Eldorado: a rádio cidadã”, comprei e li de pronto, parando os outros textos que estava lendo. É um livro pequeno, editado pela Terceiro Nome. O autor é o João Lara Mesquita, membro da poderosa família Mesquita, o clã quatrocentão paulista. João Lara conta como foram seus vinte anos de administração na rádio. Descreve sua luta por inovação, gerenciamento moderno, programação sofisticada e como tentava, ainda por cima, dar lucro para a empresa da família. A rádio Eldorado administrada por ele grangeou muito respeito, principalmente por ser pioneira em oferecer serviços diferenciados à população paulista. Ele criou a cobertura por helicópteros do trânsito de São Paulo, iniciou a campanha de despoluição do rio Tietê, posteriormente encampada pelo estado; teve a idéia do prêmio Eldorado de Música e do prêmio Visa de MPB. Cobriu ainda eventos esportivos como o rali Paris-Dacar e competições de vela oceânica. Além disto sua programação musical e jornalística sempre foi excelente e diferenciada (seu pessoal sempre trabalhou duro pela originalidade e em prol da informação segura.) Seu feito mais notável (a meu juízo) foi ter lutado em todas as instâncias jurídicas para acabar com a obrigatoriedade da transmissão da “Voz do Brasil”, aquele serviço fascista de propaganda política, inventado ainda no primeiro governo Getúlio Vargas, ointenta anos atrás, e que ainda hoje algumas rádios toleram transmitir (aquelas que o fazem têm interesse político e financeiro nisto, pois já existe jurisprudência garantindo o direito de não se transmitir aquela tolice toda produzida pelos paspalhos de Brasília. Aliás o atual governo de plantão inclusive inventou uma expansão desta bobagem, ao criar a televisão estatal pró-governo, uma máquina estupenda de gastar dinheiro público, repleta de jornalistas incompetentes. Terrível como poucos aprendem alguma coisa neste Brasil.) O livro é bem escrito e objetivo. Em cada capítulo descreve uma aventura, campanha, ou evento importante que a rádio encampou e divulgou. Tive um assombro ao ler o que escreve sobre os anos 1980, pois parece que ele está falando de uma época remota, onde as facilidades de informática não existiam e tudo era feito na base do amadorismo e da improvisação. O tempo passa mesmo muito rapidamente. O livro termina com seu afastamento da rádio após o grupo Estado passar a ser administrado por um grupo de executivos profissionais (processo no qual toda a família Mesquita é demitida dos cargos). Foi mesmo o fim de um ciclo no jornalismo brasileiro, mas a rádio continua ali, com sua cativante programação.
Eldorado: a rádio cidadã, João Lara Mesquita, editora Terceiro Nome, 1a. edição (2008), brochura 14x21cm, 224 págs. ISBN: 978-85-781-6027-2

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

concerto barroco

"Concerto Barroco" é uma novela curta publicada pelo cubano Alejo Carpentier em 1974. Nunca havia lido nada dele. Anos atrás li no "Mea Cuba" de Guilhermo Cabrera Infante uma descrição nem um pouco favorável do caráter de Carpentier ("uma ave emplumada implorando um Nobel", dizia Infante, mas a maledicência entre escritores é sempre potente.) Lê-se "Concerto Barroco", com prazer, em um par de horas. É uma história curiosa: um sujeito sai do México, vaga pelo Caribe, por Madrid, Barcelona e Roma, chegando enfim a Veneza. Ele é um homem poderoso, um "índio", como os catalães definem alguém que sai de uma classe social inferior e enriquece rapidamente nas colônias da América. O rico senhor, chamado Montezuma, viaja com um fiel escudeiro, seu criado Filomeno. Chegando a Veneza participa de um baile carnavalesco, visita a ilha-cemitério de São Miguel e vê a primeira apresentação de uma ópera bizarra, chamada Motezuma, de Vivaldi, que tem como pano de fundo a derrocada dos Astecas pelas mãos dos conquistadores espanhóis. Esta ópera existe mesmo e foi encenada pela primeira vez exatamente em Veneza, em 1733. Há muita discussão sobre o poder da música. Os grandes músicos e compositores barrocos Antônio Vivaldi, Georg Friedrich Handel e Domenico Scarlatti são vívidos personagens. Igor Stravinsky e Richard Wagner (ambos enterrados em Veneza) surgem como fantasmas na trama. É um livro onde se tenta emular como a música encanta o homem (há uma passagem onde o criado Filomeno improvisa uma "jam session" caribenha para deleite dos três compositores sérios citados acima. Eu, que pouco entendo de música, gostei deste livro, principalmente das coincidências. No "Nomad's Hotel", de Nooteboom, que vou resenhar em breve, esta mesma Veneza, este mesmo cemitério, voltará a assombrar-me. Marcelo Tápia acabou de traduzir um outro livro de Carpentier, que já coloquei na pilha. Vale.
“Concerto Barroco”, Alejo Carpentier, tradução de Josely Vianna Baptista, editora Companhia das Letras, 1a. edição (2008), brochura 14x21cm, 91 págs. ISBN: 978-85-359-1301-9

terça-feira, 11 de novembro de 2008

a volta ao dia em 80 mundos

Há quantos anos eu não lia um Cortázar? Vinte, vinte e cinco anos anos? No final dos anos 1970 e início do anos 1980 li uma boa cota: “jogo de amarelinha”, “histórias de cronópios de de famas”,”o livro de manuel”, “todos os fogos, o fogo”. Naquela época todo mundo tinha uma teoria para aquela literatura instigante, todo mundo tinha licença para emulá-la, todo mundo discutia a literatura latino-americana e se impressionava com ela. Semanas atrás achei este “A volta ao dia em 80 mundos” na CESMA. Trata-se de compilação de textos em vários formatos: ensaios curtos, poesias, histórias, descrições, fábulas, traduções, comentários, pequenas biografias, fotografias, contos, ilustrações, citações. São textos publicados em 1967, quarenta anos atrás, vejam só, mas que ainda têm lá sua força. Como ele mesmo define são textos de um argentino sarcástico, que faz um panorama da arte européia e latino-americana da primeira metade do século passado. Há dois tomos deste livro. Li apenas este primeiro. Eles foram publicados juntos com outros dois outros tomos similares de Cortázar, nominados “Último round”. Eu diria para um neófito que estes livros não servem de porta de entrada para a sofisticada literatura de Cortázar. Um sujeito já acostumado com ele até se diverte um tanto (adorei, por exemplo, a história do gato chamado Adorno), mas o tempo disponível que temos é mesmo curto para tais desvios. Me cansei um tanto com este livro. Só para constar: seria nesta posição que o livro de don Ronái Rocha deveria ter sido resenhado, mas ele merecia que eu furasse a fila e o incluísse antes, exatamente no dia de seu lançamento, como fiz. Whiter now?
“A volta ao dia em 80 mundos – tomo 1”, Júlio Cortázar, tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht, editora Civilização Brasileira, 1a. edição (2008), brochura 9x18cm, 181 págs. ISBN: 978-85-200-0637-5

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

no tribunal de meu pai

Nunca conheci ninguém que tenha lido um único conto que seja de Isaac Singer e não tenha sentido um assombro. Para mim ele só perde em genialidade e invenção ao velho e cansado Joyce, senhor das palavras e das conexões entre as coisas. Este sujeito tem uma imaginação dos diabos e sabe mesmo contar uma história. Lembro sempre do prazer de lê-lo, tantas vezes, em circunstâncias tão díspares, sempre me surpreendendo, sempre aprendendo um tanto. Neste "No tribunal de meu pai", somos apresentados a relatos auto-biográficos, memórias de infância, descrições de como funcionava o tribunal rabínico (Bet Din em iídiche) de uma rua, de uma uma Varsóvia, de uma Europa, nos poucos anos que antecederam os desastres da primeira grande guerra mundial. Aquele mundo não existe mais, foi destruído na grande guerra e também pelas leis seculares da Europa do pós-guerra e do novo recorte político-geográfico europeu. Na época das histórias contadas neste livro (primeiras duas décadas do século passado), em algumas regiões que hoje fazem parte da Alemanha, Polônia, Rússia e arredores, judeus hassídicos viviam seu dia a dia praticamente desconhecendo o que se passava na Europa não-judaica. Os judeus praticantes destes bairros recorriam aos milhares de rabinos que se distribuíam por cada rua de cada bairro de cada cidade onde a comunidade judaica se organizasse, para dirimir litígios, arbitrar disputas, resolver pendências, buscar conselhos, encontrar explicações, não apenas para assuntos etéreos e religiosos, como também para questões morais, éticas, financeiras, afetivas, contábeis, de herança. O pai de Singer era um dos homens pios encarregados desta função e que viviam apenas para o entendimento, a cultura, a reflexão e o aprimoramento das convicções religiosas cultivadas pelos judeus nos últimos três ou quatro milênios, desde as leis da fé mosaica terem sido recebidas por Moisés. Originalmente publicadas em jornais americanos, estas histórias foram publicadas em livro em 1966. Na maioria o que se lê são causos típicos enfrentados pelo pai do narrador e que este último insiste em acompanhar quase sempre furtivamente. Há também histórias de família, reflexões mais pessoais de um sujeito que já quer definir-se para o futuro e que antevê ser um futuro bastante árido e difícil. A prosa de Isaac Singer é sempre excelente, não há outro adjetivo. Ficamos presos em sua teia de escritor que conhece como poucos seu ofício e que sabe encantar o leitor. Ao mesmo tempo que são crônicas de uma época, os textos são construções bastante originais, que surpreendem pela riqueza e densidade. Mesmo nas descrições dos episódios mais terríveis e duros ele sabe encontrar o tom certo, o tom que ilumina cada um de nós, seres humanos capazes de acreditar que o homem é o mesmo quando perpetra os atos mais cruéis ou quando atinge as mais plenas epifanias. A edição inclui um razoável glossário dos termos em iídiche mais empregados pelo autor. Eis um livro que conta uma história de um mundo distante, mas que leva o leitor a pensar em seu próprio futuro e no futuro dos seus semelhantes.
"No tribunal de meu pai”, Isaac Bashevis Singer, tradução de Alexandre Hubner, editora Companhia das Letras, 1a. edição (2008), brochura 14x21cm, 355 págs. ISBN: 978-85-359-1234-0

domingo, 2 de novembro de 2008

los pájaros de Bangkok

Em geral vou lendo meus livrinhos e fazendo rabiscos, anotando passagens nas guardas do volume, registrando impressões várias. Neste poderoso “Los pájaros de Bagkok” não fiz nada disto: comecei a história e “presto!”, em dois dias já tinha terminado. O “Tatuaje” resenhado abaixo é o segundo livro da série Carvalho e este é o sexto. Com ele Montalbán ganhou o Prêmio Nacional de Literatura espanhol do ano de sua publicação, 1983. Como sempre em Montalbán o enredo interessa mas não é realmente tão importante quanto a forma: uma amiga de Carvalho lhe telefona dando conta que está em dificuldades na distante Bangkok. A família e a embaixada espanhola confirmam a gravidade do caso. O detetive está quase sem assunto em sua Barcelona. Tenta ser contratado por um industrial para resolver um caso de desfalque familiar, mas o sujeito prefere ser enganado (isto acontece.) Ao mesmo tempo se envolve na investigação de um assassinato inusitado que descobriu pelos jornais. Interroga um grupo grande de pessoas, mas ninguém parece estar interessado em pagar por seus serviços (no final, apesar dos fatos terem sido compilados por ele quem vai solucionar este caso serão Charo, Bromuro e Biscuter). Esta história toma mais que um terço do livro e em nada se relaciona com o caso da amiga desaparecida. Para este acaba sendo contratado e parte em viagem. Mais que ajudar sua amiga a voltar de uma Tailândia exótica e perigosa, o que Carvalho faz é refletir longamente sobre a vida e a morte (até com monges budistas ele se encontra no caminho.) A violência, a doença e a morte estão o tempo todo rondando o detetive. Há contrastes interessantes no livro, como a descrição das camadas turísticas que todo país tropical tem e sua imersão nos subterrâneos verdadeiros porém duríssimos de sua população; ou a coexistência de poderes paralelos e conflitantes no sistema legal e policial dos países subdesenvolvidos; a óbvia dicotomia ocidente/oriente; ou também os ritmos diferentes das viagens para o exterior do mundo e pelo interior das gentes; e a irrelevância da razão quando estamos envolvidos afetivamente de fato com alguém (ou com alguma causa.), pois afinal de contas o ser humano sabe matar e também sabe morrer por amor. De qualquer forma percebe-se na narrativa que o Carvalho que volta à Barcelona está mudado. Continuará sabendo ser sarcástico e objetivo, mas ao passar pelas fronteiras da idade da razão perdeu mais que um tanto de frescor (e se fosse possível, de inocência.) Em “Milênio” Carvalho voltará a estes problemas, ao existencialismo, a esta região, mas desta feita sendo ele a pessoa que se persegue. Ula-lá. Agora é tarde, mas que bom teria sido se eu tivesse tido a chance de ler todos estes livros na ordem em que Montalbán os inventou. Paciência. Já é hora de mudar de rumo e de tom.
"Los pájaros de Bangkok”, Manuel Vázquez Montalbán, editora Planeta, 2a. edição (2007), brochura 15x23cm, 406 págs. ISBN: 978-84-08-05043-8

sábado, 1 de novembro de 2008

tatuaje

Se em “Yo maté a Kennedy” o personagem Pepe Carvalho é engenderado pela primeira vez, neste “Tatuaje” o encontramos já no formato em que ele passará a ser conhecido por sua legião de aficionados. É bom registrar que estes aficionados o seguiram como bacantes em festa por trinta anos, até o cárcere de “Milênio”, último volume da saga do detetive catalão (galego de nascimento.) Manuel Vázquez Montalbán em “Tatuaje” nos faz encontrar pela primeira vez vários personagens da série: o engraxate Bromuro, fornecedor de informações que só alguém das ruas e sem medo dos vapores que emanan das Ramblas (do Caganell diria mais apropriadamente o Robert Hughes que eu abandonei, mas a quem em breve voltarei); a voluptuosa Charo, prostituta que manterá um relacionamento curioso com o detetive até o final; o vizinho iconoclasta Fuster, senhor dos comentários curtos e dos conselhos econômicos e jurídicos invariavelmente trocados por comida; o estafeta Biscuter, ex-colega de cadeia, ou Ginés, o delegado ainda franquista, saudoso das masmorras da Via Laietana. Também temos vislumbres da serra de Collserola, do distrito de Vallvidrera, lugar mítico da casa de máquinas da cozinha terroir e primordial de Carvalho e é claro, como não, temos Barcelona, a eterna feiticeira. Todos aparecem ao menos um tanto. Acompanhamos Carvalho na solução de um crime pelos carrers de Barcelona e pelos canais de Amsterdan. Elipticamente ficamos sabendo uns poucos detalhes do passado de Carvalho, nada muito detalhado, apenas pinceladas de informação, que mais iludem que explicam. A política espanhola da metade da década de 1970 aparece, exuberante e contraditória, exatamente como o próprio detetive, que afinal foi comunista e agente da CIA, e que é um intelectual de formação universitária sólida, mas que também queima livros como se enfadasse da cultura. A solução do crime, descobrir como sempre quem afinal matou o homem tatuado das primeiras páginas é o de menos, pouco importa de verdade. Em “Tatuaje” aprendemos a respeitar este sujeito inverossímel, irreal, mas pleno de vida que é Pepe Carvalho Tourón.
"Tatuaje”, Manuel Vázquez Montalbán, editora Planeta, 1a. edição (2004), brochura 15x23cm, 226 págs. ISBN: 978-84-08-05131-2

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

santa maria do circo

Ano passado eu havia lido "O último leitor" do mexicano David Toscana quase de uma sentada só. Foi uma leitura bastante agradável. A imaginação deste sujeito é mesmo poderosa. O que ele faz não pode ser classificado como realismo mágico, o que seria um rótulo fácil, apesar de gasto, a ser aplicado a um escritor latinoamericano jovem. Andei procurando críticas de e sobre Toscana e ele prefere cunhar seu próprio rótulo chamado-o de "realismo desvairado". Segundo ele o leitor médio de hoje sofre um "mal do real", pois existe tanta informação disponível e estas são reeditadas tão rapidamente que este leitor médio acaba acreditando entender como funciona a realidade, mas na verdade opera em um mundo tão falso como aquele imaginado por Don Quixote por exemplo. Bom. Neste "Santa Maria do Circo" (que é uma piada pronta para nossa Santa Maria gáucha, mas esta é outra história) somos apresentados a um grupo singular de artistas que vaga por uma região não nominada do México natal do autor. O grupo acabou de ser formado pela divisão de um circo maior e acaba chegando a uma cidade abandonada. Eles resolvem se estabelecer por ali e sorteiam entre si cargos e ocupações aleatórios: um padre, uma jornalista, um militar, um camponês, um escravo, uma puta, uma médica, entre outros (até um diabo se revela no fim.) Numa sucessão de episódios observamos como cada um reage a sua sorte/azar/fortuna. O lado menos conhecido de cada um aflora e conflitos entre eles se sucedem. Várias vozes, vários narradores, contam suas histórias e também um tanto da história do México. O livro parece engraçado, mas é sombrio do começo ao fim. Gostei de uma técnica curiosa: os capítulos se sucedem de forma que a ação, o enredo de cada um, começe mais ou menos no meio do que foi descrito nos capítulos anteriores. Claro, o irrealismo assumido de tudo que se conta nos obriga a pensar como operamos nestes tempos sombrios em que vivemos, onde ninguém está fora do alcance de pequenas tragédias, surpresas desagradáveis, manipulações em escala global, bobagens terríveis repetidas todos os dias por atores de todas as classes sociais, de todas as regiões, de todos os credos, de todas as etnias. Já que a história oficial é feita pela repetição de versões; que a vida nada mais é do que contar uma história e se acreditar nela; que os arranjos pessoais se fazem na maior parte das vezes em um misto de hipocrisia e oportunismo, é possível se falar em esperança, em futuro, em evolução por exemplo? No Brasil especialmente, onde o governo de plantão opera como se toda a população fosse perfeitamente manipulável à sua cota de mentiras diárias, este livro serve como um alerta. Este é mesmo o tipo de livro, do tipo de autor, que se faz importante nestes tempos.
"Santa Maria do circo", David Toscana, tradução de Maria Alzira Brum Lemos, , editora Casa da Palavra, 1a. edição (2006) ISBN: 85-7734-00-66

sábado, 25 de outubro de 2008

a eternidade e o desejo

Este romance de Inês Pedrosa inclui várias citações de sermões do padre Antônio Vieira. São tantos e tão extensos que confesso parei de lê-los depois de um terço do romance propriamente dito. Depois de terminado o romance voltei às páginas iniciais e tentei ler apenas as citações isoladamente, mas novamente abandonei o projeto. Não sei dizer se a leitura dos trechos (sempre em negrito) ajudam ou atrapalham. Para mim pareciam escolhos abandonados no meio do rio de palavras do romance. Talvez seja um truque literário, uma experiência qualquer. Paciência. Um dia destes vou direto à fonte: tenho dois volumes robustos com os sermões completos de Vieira e em uma época mais cálida me concentrarei o suficiente para lê-los. Já sobre o romance posso falar um tanto. Ele é dividido em duas partes mais ou menos simétricas. Uma moça portuguesa, professora de literatura em uma universidade lisboeta, teve uma experiência amorosa limite. Primeiro apaixonou-se por um forasteiro durante um congresso acadêmico (o sujeito era um professor brasileiro). Nada absurdo. Um tempo depois decide visitá-lo na Bahia sem tê-lo avisado previamente, mas chega a encontrá-lo justamente no meio de uma discussão boba de bar com um desconhecido e acaba levando um tiro que lhe tira a visão (seu amante morre sem ao menos ter entendido como ela apareceu à sua frente naquele dia.) Anos depois ela novamente em um impulso decide voltar à Bahia, um tanto para purgar este amor perdido, um tanto para descobrir mais sobre a vida e os textos do padre Antônio Vieira (que era o objeto de pesquisa de ambos afinal de contas.) Nesta viagem ela se faz acompanhar por um amigo que quer tornar-se mais que amigo, sendo continuamente desestimulado por ela. De qualquer forma ele a acompanha (um misto de sacrifício pessoal e tentativa de tornar-se credor de seus carinhos.) Em terras brasileiras ela descobre mais que detalhes da vida do padre Vieira: descobre o sincretismo religioso, o candomblé, outras formas de amor, outras formas de sedução, outras formas de viver. Esqueçe mesmo que é cega e tem lá suas limitações físicas. O amor é mesmo primo da morte e da morte vencedor (sempre lembro do Drummond.) Seguindo a trilha de Vieira por Salvador e depois por Alcântara (no Maranhão) ela se descobre uma pessoa bem diferente do que era em Portugal. Progressivamente se afasta da terra natal, dos contatos acadêmicos, da vida universitária (curioso como li livros onde a vida acadêmica em universidades servem de plano de fundo para algum enredo.) Achei trivial demais a idéia piegas de ter um filho brasileiro no final. Mas como demonstrar o amor bruto ao Brasil que emana do livro? Os textos do Vieira ajudam ou atrapalham? Nunca vou saber, mas é boa escritora esta portuguesa. Agora é hora de voltar à Espanha, voltar aos últimos livros de Montalbán que trouxe na viagem, completar o ciclo Carvalho. Veremos.
A eternidade e o desejo, Inês Pedrosa, editora Alfaguara, 1a. edição (2008), brochura 15x23cm, 177 págs. ISBN: 978-85-60281-473

domingo, 19 de outubro de 2008

sábado

Sábado foi publicado em 2005 e descreve pouco mais de 20 horas de um sujeito, ou melhor, de uma família inglesa contemporânea. Em uma comparação ligeira poderíamos pensar em Ulysses, de James Joyce, no Mrs. Dalloway, de Virgínia Woolf ou nos Ratos, de Dyonélio Machado. Há ecos do 11 de setembro neste livro, ou seja, a idéia do terrorismo e do poder do estado pairam sobre o enredo e os personagens. Mas McEwan nunca é pedestre e nos oferece uma história onde podemos refletir um tanto sobre o quê é mesmo viver com medo e se vivemos com medo pelos motivos certos (se é que existem estes motivos.) Descrever o enredo é estragar boa parte do livro. Prefiro fazer só um resumo rápido, na forma que se segue: um sujeito acorda cedo em uma manhã de sábado e vê pela janela um avião em chamas sobre sua Londres quieta e escura (este fato aconteceu mesmo no início de 2003, com um avião de carga russo, cujos tripulantes genuinamente russos foram confundidos com árabes, xenofobismo comum nestes tempos bicudos em que vivemos.) Neste mesmo dia aconteceu também a maior manifestação de rua em Londres, um protesto contra o envolvimento da Inglaterra na guerra do Iraque. O personagem principal, um neurocirugião respeitadíssimo, sua mulher, seus filhos, seu sogro, têm planos de se encontrar na noite deste dia para um jantar de uma comemoração mundana qualquer. Ele tem compromissos corriqueiros neste dia: jogar squash, comprar peixes e especiarias; preparar o jantar, gelar os vinhos preferidos de seu sogro, pagar contas para sua mulher que está muito atarefada, visitar a mãe (que sofre de Alzheimer) em um asilo, assistir a um ensaio de seu filho músico, receber sua filha que volta a Londres após um longo período na França. Um acidente automobilístico besta entre ele e um grupo de sujeitos que parecem gângsters vai provocar no início da noite um reviravolta na vida desta família. Nada absurdo (como acontece mais comumente na vida real, mas o suficiente para fazê-los refletir sobre a redoma em que vivem.) Mais que nos mostrar como se passa um dia na cabeça de um personagem, McEwan nos mostra um panorama denso do homem moderno, com suas esperanças, seus medos, suas fragilidades mais entranhadas. Gostei particularmente do contrastre entre a descrição do que um sujeito pensa e as detalhadas descrições de intervenções cirúrgicas no cérebro feitas pelo neurocirurgião. Técnicas ao extremo, mas belíssimas de se ler. É um livro super bem escrito. Este sujeito é mesmo um excelente escritor.
"Sábado”, Ian McEwan, tradução de Rubens Figueiredo, editora Companhia das Letras, 1a. edição (2005), brochura 14x21cm, 336 págs. ISBN: 978-85-359-0746-9

sábado, 18 de outubro de 2008

café titanic

Uma coisa que acontece sempre que consultamos uma biblioteca ou passeamos por uma livraria é nos deparar com algo totalmente novo. Estes lugares são mesmo parques de diversão para os sentidos. Pois noutro dia eu estava na CESMA, matando tempo, sem compromissos, e vi a lombada de “Café Titanic”. O nome chamou-me a atenção e eis que naquela hora tive em mãos pela primeira vez um livro de Ivo Ándritch, que vim a saber depois, ganhou o prêmio Nobel em 1961. O mundo real mais uma vez mostrou-me que por mais que me esforce em ler tudo que me cai nas mãos (tolo que sou) sempre haverá autores novos, livros novos, literaturas inteiras novas, para serem descobertas. Pouco adianta ser este leitor contumaz. Mas vamos ao livro. Ándritch nasceu em 1892, em uma região dos balcãs que hoje faz parte da Bósnia (na época era parte do império austro-húngaro.) Grande erudito, linguísta, professor, escritor e diplomata por muitos anos (do antigo Reino dos Sérvios, Crotas a Eslovenos e depois também da antiga Yugoslávia), Ándritch foi um dos responsáveis por compilar lendas populares, histórias e relatos dos muitos povos e religiões que coabitaram os balcãs (sérvios, croatas, bósnios, albaneses, montenegrinos, eslovenos, russos, ciganos, árabes, judeus, cristãos, ortodoxos, muçulmanos.) Referência intelectual em seu país, chegou a ser assediado pelo regime comunista de Tito, mas manteve corajosamente sua independência. Em “Café Titanic” temos uma pequena mostra da versatilidade e da vívida imaginação de Ándritch. Como em um mundo mágico, os dez contos deste livro apresentam pessoas, lugares, paisagens e histórias sempre muito tocantes, plenas de humanidade. No conto que dá nome ao livro lemos sobre um judeu sefardita que vê seu mundo desmoronar quando o ódio entranhado de seus antigos vizinhos aflora durante a primeira grande guerra; em outro aprendemos algo sobre um laborioso arquiteto do império otomano que se esforça em construir uma ponte sobre um dos rios da Bósnia, apesar do descrédito e achincalhe dos moradores locais; em outro conto acompanhamos uma disputa judicial entre um servo e um senhor quando da mudança de governo em uma região (os governantes mudam, mas não as regras de classe, nos ensina sutilmente Ándritch.) Vários contos se passam em épocas remotas, são histórias de vizires, beis, emissários de um distante mas poderoso sultão. Em todos eles os usos da linguagem na comunicação entre os homens são ressaltados. Os contos tem um estilo bem particular, um tanto diferente do que tenho lido ultimamente. São fáceis de ler, mas tão bem escritos e repletos de informação, que parecem jóias lapidadas durante anos. É um livro bem editado, traduzido diretamente do sérvio por Aleksandro Javonović, que também assina uma boa introdução e um necessário glossário. Ninguém se torna um especialista nos eslavos do sul após ler este livro, mas certamente vai ter sua curiosidade aguçada para entender um tanto deste mundo pouco conhecido.
"Café Titanic”, Ivo Ándritch, tradução de Aleksandar Jovanović, editora Globo, 1a. edição (2008), brochura 14x21cm, 278 págs. ISBN: 978-85-250-4412-9

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

ensino de filosofia

Don Ronai Rocha é um sujeito de multimeios e realmente cativa os viventes com sua conversa rica, sua prosa bem lapidada, sua generosidade e sua curiosidade ampla. Semanas atrás ele publicou “Ensino de Filosofia e Currículo” mas o lançamento oficial em Santa Maria será exatamente hoje, dia do professor, 15 de outubro. Preciso fazer um parênteses aqui. Leio meus livrinhos e vou resenhando neste blog exatamente na ordem cronológia que termino de lê-los (eu começo e abandono muitos outros pelo tempo e espaço.) Acontece que ler é mais rápido que resenhar. Pelas minhas contas eu deveria resenhar este do Ronai somente daqui a um mês, depois de um Ándritch, de um McEwan, de um Toscana, de um Pedrosa, de dois Montalbán e de um Singer. Mas achei a coincidência em terminar de lê-lo logo agora era rara demais para desprezá-la e vou encaixar esta resenha aqui. Devolvendo uma gentileza antiga eu digo: o Ronai, como Irene, não precisa pedir licença. Mas vamos ao livro. O objetivo de “Ensino de Filosofia e Currículo” é exatamente contribuir para o debate sobre a inserção da filosofia no currículo do ensino médio. Apesar de ser lei, há muita controvérsia sobre qual filosofia deve ser ensinada e muito mais controvérsia ainda sobre como estes conteúdos devem ser trabalhados nas escolas. Ronai nos oferece a força de sua experiência e seus argumentos junto com sua prosa delicada. O livro é bem escrito e faz um uso pouco corriqueiro de precisas metáforas, sem cair no lugar comum e na redução rasteira. Ele detalha bem os documentos do ministério da educação que orientam o ensino no nível médio por isto ao menos estas partes do livro (uns 30% eu acho) poderiam ser lidas por qualquer professor, de qualquer disciplina, com idêntico aproveitamento. Os cinco primeiros capítulos podem ser lidos separadamente, mas estão organizados em um progressivo grau de complexidade, sendo sempre mais técnicos. Os três últimos capítulos me parecem descolados destes cinco primeiros. Neles ele me parece tentar definir uma fronteira para os usos da filosofia em outras áreas, como na psicologia da infância (cap.6), nas demais disciplinas ensinadas no nível médio (cap.7) e na linguística (cap.8). Me parecem algo como exemplos de aplicação do que havia sido levantado e proposto antes. Temas que poderiam eventualmente serem introduzidos pelo professor de filosofia em suas aulas nas escolas. Eu, que sou o menor dos anões desta paróquia, estou bem longe de ser um entendido nesta área, mas do ponto de vista literário acho que teria sido melhor encaixar ao menos parte deste material nos capítulos anteriores, ou utilizá-los como apêndices ao corpo principal do texto (o final do capítulo 8 não, pois é onde as idéias do livro se encontram em um fechamento.) Bom. Aprendi um bocado neste livro, principalmente sobre didática e sobre a história do ensino no Brasil. As vezes eu acho que o processo educativo brasileiro é como um ensaio destrutivo da mecânica ou da física: após obtermos informações sobre um corpo de prova nós o deixamos destruído. Aquela informação será útil para outros sistemas, outros materiais, outros modelos e teorias, mas aquele corpo de prova em particular foi destruído no processo. Por vezes muitas experiências pedagógicas e didáticas, notadamente no Brasil, tem o mesmo grau de preocupação com seus grupos de estudo e de controle, suas cobaias, seus corpos de prova, pois no final são abandonados ágrafos, néscios e sandeus ao sair da escola. (Estes dois últimos parágrafos são meus. Don Ronai não disse nada tão indelicado no livro dele, sou eu que sou o mau humorado de plantão que estou a pensar um tanto aqui, após ler seu livro.) Bem. Na quarta capa do livro é dito que Ronai argumenta em favor do ensino de Filosofia. Mais do que isto acredito que seu livro sustenta argumentações várias em favor do ensino adequado de todas as disciplinas que sabemos serem caras ao homem. Farei propaganda deste livro sem medo, sem temor, (nec spe, nec metu) seguro que qualquer professor tem muito a ganhar profissional e pessoalmente com as reflexões de don Ronai Rocha.
Ensino de Filosofia e Currículo, Ronai Pires da Rocha, editora Vozes, 1a. edição (2008), brochura 15x24cm, 208 págs. ISBN: 978-85-326-3711-6

sábado, 11 de outubro de 2008

instrucciones

Meses atrás, quando estive em Madrid, este livro de Rosa Montero tinha acabado de ser lançado. Ele era visto aos montes, vermelhos e reluzentes nas prateleiras, a capa dura nos indicando que não era a melhor opção de livros para se despachar para casa (nem na bagagem, nem nas “cajas verdes” dos correos de lá.) Mas noutro dia, em plena Bienal de Livros paulista, eis que o vermelhão e a salamandra da capa me apareceram de novo, agora em brochura. Esta edição foi publicada na Argentina (os danados dos espanhóis tomaram conta de várias editoras latino-americanas, mas esta é outra história). “Instrucciones para salvar el mundo” é um bom livro. Depois de ler vários livros de um mesmo autor vamos aprendendo seus truques, suas manias, suas obsessões. Este segue um esquema 121212 (alternando duas histórias, de dois personagens da mesma geração mas de mundos distintos, que sabemos destinados a se cruzar no romance.) Um é taxista. Acabou de perder a mulher e está algo desnorteado nos suburbios de Madrid. O outro é médico. No meio de uma crise conjugal, deixa o tempo desaparecer enquanto brinca em um computador. Claro, em função disto é totalmente irresponsável no trabalho. Aos dois se somam uma prostituta africana, fugitiva de alguma guerra absurda daquele desgraçado continente e uma velha senhora caduca, ex-física, ex-professora, agora habitante do mundo cruel dos bares de beira de estrada. Como sempre acontece nos livros de Rosa Montero há assuntos demais sendo discutidos, ficamos ali tateando o romance, tentando entender para qual lado ele vai. Nisto ela se inspira na vida, que também se diverte em nos levar para todos os lados de uma vez. Há no livro a brutalidade do terrorismo, um tanto sobre o medo, a máfia, sobre negócios imobiliários escusos, sobre as relações entre homens e mulheres, sobre a fragilidade da ciência, sobre a inevitabilidade da solidão e da morte. É um romance bastante contemporâneo, sem anacronismos, realismos mágicos, soluções bestas. Rosa Montero enfatiza que a vida é muito mais exuberante e plena que nossa própria imaginação pode conceber. Por isto mesmo sempre gosto de lembrar que há coisas que acontecem na vida que surpreendem o mais cético dos escritores de ficção. Talvez eu não concorde com a esperança que brota do livro (talvez só mesmo as mulheres possam ter alguma esperança neste mundo), mas é um livro honesto, que vale o tempo do leitor.
Instrucciones para salvar el mundo, Rosa Montero, editora Alfaguara, 1a. edição (2008), brochura 15x24cm, 320 págs. ISBN: 978-987-04-1002-7

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

um pedante na cozinha

Gosto de cozinhar e de ler livros sobre culinária. Meu amigo Guga Pimenta diz vez ou outra que tenho mais livros de culinária que ele de qualquer outra coisa. Eu fico envaidecido e encabulado ao mesmo tempo e aí lembro da meia dúzia de livros de culinária que o Koji tem na sua cozinha. Ele sim é um cozinheiro de mão cheia, pleno de truques e habilidades, e que cultivou nos filhos e nos amigos o hábito prazeroso de ter nas refeições uma festa para os sentidos. Mas chega de reminiscências. “O pedante na cozinha”de Julian Barnes não é exatamente um livro de culinária, mas sim um razoável livro escrito por um bom autor. Um de meus livros favoritos é “O papagaio de Flaubert”, do mesmo Julian Barnes que assina este. Ele sabe contar uma história e há um sarcasco sutil em tudo o que escreve. Talvez estes textos tenham sido escritos antes para um jornal, vai saber, ou talvez ele tenha dado literariamente exatamente esta impressão de propósito, pois de fato é um escritor muito experimental. Mas eu disse que o livro é razoável, vejamos porquê: ele elenca questões importantes relacionadas aos livros de culinária: a falsa dificuldade ou simplicidade sempre alegadas de antemão pelos autores; a pretensão encarnada em todo autor e cozinheiro (a maioria já virou “chef” faz tempo); a ilusão das fotos e das cores; a criptografia das receitas mal formuladas; a ausência de tempos, quantidades e descrições corretas das especiarias e temperos, o fato dos utensílios e aparatos serem sempre distintos dos nossos; as obviedades e as extravagâncias que todo aprendiz de cozinheiro deve internalizar e/ou evitar. Seu livro fala basicamente de livros de autores ingleses, desconhecidos para este contumaz resenhador: Richard Olney, Nigel Slater, Marcella Hazan, Jane Grigson, Elizabeth David. Who? Esta última me soa familiar, mas eu não tenho nada dela em casa. Fazer o quê? Onde estão afinal os rodados Nigella Lawson, Jaime Oliver e Gordon Ramsay por exemplo? Contemporâneos demais, moderninhos demais parece dizer-me Barnes, caçoando. O livro de Barnes mostra o caminho: não ser escravo de um livro só, não ter medo de anotar as tuas próprias receitas, seguir seu instinto (o melhor seria dizer criar seu instinto culinário), não se prender a convenções tolas, tentar extrair prazer do processo e da companhia (sem isto não há jantar que resista). Para quem não tem medo de um forno e fogão vale uma folheada.
"O pedante na cozinha”, Julian Barnes, tradução de Jussara Simões, editora Rocco, 1a. edição (2008), brochura 14x19cm, 142 págs. ISBN: 978-85-325-2344-0

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

as catilinárias

Nos romances de Amélie Nothomb, sempre curtos, não há espaço para digressões supérfluas, portanto ela é invariavelmente direta, cortante, objetiva (mas também muito cruel, convenhamos.) Este romance é irritante do começo ao fim mas o leitor se deixa conduzir pela história e pela autora. Foi irritante para mim pois ela conseguiu fazer com que eu tivesse ganas de entrar na história e resolver tudo do meu jeito, tomar uma atitude guinesca contra o humor negro, o tédio, a vergonha, a inação e o sarcasmo dos personagens. Inevitável dizer que me surpreende muito a forma utilizada por ela para fisgar o leitor. Não há tempo para o sujeito inventar atalhos na leitura: ou é do jeito dela, com as imagens dela ou abandonas logo o romance. Terminado o livro entendo melhor o que está em jogo. Ela mostrou a que veio. O enredo é mesmo irrelevante: um casal de meia idade se muda para o campo e passa a ser progressivamente importunado por um vizinho bizarro. A incapacidade do ser humano de ser leal a si mesmo (em nome das convenções, da boa educação, da tradição) fica patente nesta história. O que no início é anacrônico no fim demonstra como podemos ser importunados (até mesmo por um livro afinal) à exaustão. Diferentemente das crianças (presentes em idéia no livro, apesar de haver poucas personagens jovens no texto) nós mais velhos dificilmente seguimos nossa intuição, nosso lado mais animal, selvagem, e aceitamos quase tudo sem reclamar. Para isto crescemos afinal. Não conheço muito a cultura francesa, mas até onde entendi o formalismo e a frieza nas relações francesas explicam muito o livro. Ao fim entendemos como inevitavelmente nos transformamos pelas ações (tanto nossas quanto dos outros). Se é para se resumir o livro em uma frase eu diria que o autoconhecimento é a única coisa honesta que um homem pode fazer a si mesmo. Notável escritora esta francesinha.
"As catilinárias”, Amélie Nothomb , tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht, editora Record, 1a.edição (1997), brochura 14x21cm, 144 págs. ISBN: 85-01-04914-X

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

rituais

Rituais é um bom romance. São três partes simétricas que se movimentam no tempo, primeiro estamos em 1963, voltamos para 1953 e por fim avançamos até 1973. Estamos a seguir um sujeito cuja vida é influenciada por duas pessoas que nunca se conheceram, pai e filho na verdade. Este sujeito, Inni Wintrop, é quem faz a conexão entre Arnold e Phillip Taads. O livro discute o quanto de um pai há num filho: será que genética é mesmo destino? Discute-se também sobre o quanto podemos ser cerebrais e frios mesmo sobre os assuntos mais pessoais e humanos. Além das simetrias de sempre há também o contraste entre a planície e a montanha, entre o mar e a neve, caros ao autor. Uma Holanda quase desconhecida para mim aparece neste livro. Também aprendi um tanto nas descrições do dia a dia do povo; da tradição e a religião; do hábito; da unificação européia; do papel do sexo, do amor e da morte na vida; da linguagem dura e áspera; do enfrentamento com a natureza. Nooteboom também me surpreende por juntar temas que me são caros há anos: Vermeer, gravuras japonesas, Espanha, mitologias. Há um erro absurdo de tradução, onde uma citação de um livro de Yasunari Kawabata, prêmio Nobel de 1968, que deveria ser algo como “mil tsurus”, “mil origames”, “mil garças”, se transformou em “mil guindastes”. Você está ali, totalmente budista, lendo sobre a cerimônia do chá, sobre os diferentes modelos de tijelas japonesas e de repente aparece um trator, um “crane” mal traduzido, o que significa que o livro foi traduzido do holandês para o inglês e depois para o português. Paciência. É mesmo um romance pequeno, duzentas e poucas páginas, mas muito bom de se ler e instigante mesmo. Lembrei por fim da Sibele e do Koji, que me ensinaram um dia como se deve estudar algo sobre o qual queremos entender mais: com informações precisas mas também com paixão. Entretanto, a idéia de que nem tudo pode ser aprendido nos livros paira sobre este, e isto leva um atento leitor a pensar.
"Rituais”, Cees Nooteboom, tradução de Irene Cubric, editora Nova Fronteira, 1a. edição (1995), brochura 14x21cm, 225 págs. ISBN: 85-209-0668-0

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

dia de finados

“Dia de Finados” é um belo romance de Cees Nooteboom. É um livro bem mais longo que os dois romances anteriores que li dele. As primeiras cem páginas são muito herméticas, obscuras mesmo, e eu tive de me esforçar muito para entender o que estava acontecendo, mas da mesma forma como repentinamente discernimos formas e cores em meio a uma espessa bruma matinal, de algum ponto em diante no romance tudo passou a fazer sentido, os personagens se materializaram (eles já estavam ali quase como fantasmas), o enredo se desdobrou. Um documentarista free-lancer, Arthur Daane, tem como projeto autoral fixar (em imagens e sons que filma e grava o tempo todo no livro) momentos quase imateriais, como o lento desaparecimento de pegadas sobre a neve, o ar se condensando próximo a nós em um dia muito frio, o gelo se formando sobre a superfície tépida de um lago, a amplidão de lugares públicos vazios. Há uma presença forte da morte e da perda neste livro. A mulher do personagem principal e seu filho morreram recentemente em um acidente de avião. Deslocados do texto principal vários acidentes, violências, descuidos e mesmo vontades ceifam os homens e as mulheres, personagens aos quais mal fomos apresentados. O livro se passa basicamente em uma Berlin invernal nos tempos imediatamente seguintes a queda do muro (início dos anos 1990), mas há algo sobre as rixas entre a Holanda e Alemanha, bem como sobre as rivalidades entre a esta última e a Rússia ou sobre o contraste entre o tradicional e o novo no Japão. Nooteboom gosta de simetrias (acho que isto também é um padrão nele), os personagens por vezes viajam pelo livro e pela Berlin enevoada seguindo os pontos cardeais. O restaurante onde os personagens principais se encontram lembra um tanto “La Colmena”, do Camilo José Cela. Seus amigos são Arno, um filósofo; Victor, um escultor; Zenóbia, uma física/astrofísica russa. Todos muito intelectuais e sofisticados, discutindo filologia, o sentido da vida, a política de seu tempo, a vida pessoal de cada um. O estranhamento e o deslocamento, a orientação vaga que temos durante as viagens, a experiência religiosa, o mundo acadêmico, a presença da Espanha, também são temas presentes no livro. Mas o que emerge da trama é a busca do entendimento do mundo feminino, afinal não estamos sempre a seguir uma mulher, falando algo seu nome, como um mantra? Uma mulher jovem aparece no livro. Ela estuda um período obscuro da história espanhola, quando uma rainha, Urraca, dominou León e Castela. Ala putcha! Como a Espanha sempre dá um jeito de aparecer nos livros de Nooteboom! A mulher aparece e desaparece de seu cotidiano como as imagens fugidias que ele perseguia no início do livro. Conhecer de fato esta mulher passa a ser a nova obsessão do documentarista. Nada transcendental, mas honesto e instigante. Gostei.
"Dia de Finados”, Cees Nooteboom, tradução de José Marcos Macedo, editora Companhia das Letras, 1a. edição (2001), brochura 14x21cm, 345 págs. ISBN: 85-359-0146-9

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

uma criatura dócil

Estive na Bienal do livro de São Paulo e, claro, fui ao estande da Cosac & Naify. Don Renato Cohen sempre me pede para esperar a queima de livros da Cosac que acontece em novembro dentro do campus da USP, mas eu sou um incorrigível gastador. Namorei uns tantos, mas acabei comprando apenas dois, um romance curto de Samuel Beckett e este "Uma criatura dócil", romance igualmente curto de Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski. Já faz tempo que ando pensando nos russos e estou devendo o início desta travessia literária, mas contorno a montanha e não me atrevo a enfrentá-la. Sou o fiel depositário de três tijolos de don Renato: Os demônios, Crime e Castigo e Os Irmãos Karamazov, ainda vou cumprir a promessa e lê-los na seqüência. Para afiar os dedos peguei "uma criatura dócil", romance que o autor chamou de "narrativa fantástica". A edição é muito bonita, claro, com ilustrações de Lasar Segall e dois ensaios que contextualizam o texto e as ilustrações. A história é simples, um sujeito ganha a vida em uma casa de penhores, explorando clientes e desesperos. Uma moçinha penhora um ícone da Virgem e para resgatá-la (pois trata-se do único objeto importante para ela) acaba por se casar com o vil proprietário da casa de penhores. Mais que um casamento o que se pactua é um sistema de humilhações cotidianas e degradações morais, pois há mais assimetrias entre eles que um afeto pode mitigar: assimetrias de classe, de idade, de poder (e claro, sexo.) O narrador é o agiota, transtornado, louco. Retrospectivamente ele tenta explicar como seguiu (por vezes acredita ter sido quase a contragosto) a espiral de assédio moral que obrigou sua mulher a buscar desesperadamente saídas radicais. Dostoiévski nos ensina como a opressão funciona mesmo nas relações mais cotidianas e como é difícil para um tirano e sua vítima escaparem da sina que os une. Belo livrinho.
"Uma criatura dócil", Fiódor Dostoiévski, tradução de Fátima bianchi, editora Cosac & Naify, 1a. edição (2003) brochura 13.5x20cm, 96 págs., ISBN: 978-85-7503-197-X

terça-feira, 9 de setembro de 2008

jornada ao oeste

Depois de ler aquela bobagem da Claudia Tajes fiquei sem ânimo para nada que precisasse de algum fôlego e fui ler um gibi, relaxar um tanto. Nada como uma irrelevancia assumida para nos garantir um par de horas agradáveis ao sol. "Jornada ao oeste" é o primeiro mangá publicado pela Conrad da série dedicada a Sun Wukong, o rei dos macacos, uma figura lendária importante na cultura chinesa (confesso que eu estava ainda com as imagens ufanistas das olimpíadas de pequim na cabeça quando resolvi comprar este livro.) O texto original foi escrito ainda no século XVI (por Wu cheng'en), mas as histórias datam de ao menos 900 anos antes. O romance (aqui na forma de mangá, com belas pranchas que originalmente deveriam ser gravuras, xilogravuras, melhor dizendo) unificou lendas associadas a um fato real: a peregrinação de um monge chinês, Xuan Zang, para a Índia, de onde volta com os ensinamentos básicos do Budismo, que a partir dele é introduzido na cultura chinesa. As histórias são divertidas. Um macaco se torna quase tão poderoso quanto os deuses e provoca confusões mil no mundo celestial. O próprio Buda o aprisiona sob uma montanha por quinhentos anos como punição. Para purgar-se definitivamente de suas estrepolias do passado ele deve tornar-se discípilo do monge chinês em viagem a China e protegê-lo dos muitos perigos da jornada. Nada espetacular, nada pretencioso, apenas um mito sendo contado para os crentes ao redor do fogo por um aedo inspirado. Segundo consta este personagem inspirou de alguma forma o mais moderno Son Goku, o Saiyajin do mangá e do anime Dragon Ball, mas esta definitivamente é mesmo outra história. Para quem gosta de mitologia vale uma missa.
"Jornada ao Oeste - o nascimento do rei dos macacos, vol.1", Wu Cheng'en, tradução de Adan Sun, editora Conrad, 1a. edição (2008) brochura 14x21cm, 466 pág., ISBN: 978-85-7616-284-1

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

as pernas de úrsula

Dorothy Parker escreveu em algum lugar que há livros que devemos abandonar com tédio na mesa de cabeceira da cama, mas há livros que devemos jogar pela janela, com força. Este "As pernas de Úrsula..." para mim não merece um destino diferente. Que livro vazio e sem nexo. Ela tenta emular como um homem pensa e reage à maturidade, aos compromissos afetivos, à paternidade, mas fracassa do começo ao fim. Se uma escritora inteligente como ela acredita que homens neste início de século XXI se comportam da forma inventada por ela estamos mesmo todos perdidos. Claro, o livro é escrito corretamente, as frases são curtas, o enredo se desenvolve sem malabarismos, mas tudo é redondinho demais, engraçadinho demais, artificial demais. Rosa Montero desenvolveu em seu "La loca de la casa" um raciocínio com o qual eu concordo: "Para a maioria dos leitores quando um homem escreve, seus personagens explicam o ser humano; mas quando uma mulher escreve, seus personagens explicam apenas as mulheres." Verdade, e cabe as escritoras fortes mudar esta percepção falsa. Mas este preconceito literário (se podemos chamá-lo assim) não vale para mitigar a qualidade de "As pernas de Úrsula", pois quando Claudia Tajes escreve seus personagens apenas repetem chavões sem fim, das mais diversas fontes, para os mais diversos usos mentais. Há frases feitas demais no livro dela, tudo é muito banal, previsível, esteriotipado mesmo. No final um epílogo explica os futuros distintos dos personagens, que afinal são rasos demais para que possamos nos interessar por sua sorte. Basta de Tajes, se é para ler literatura escrita por mulheres voltarei a Nothomb, a Montero, a Pedrosa, a Gopeguí, minhas musas de plantão neste ano.
As pernas de Úrsula e outras possibilidades, Claudia Tajes, Agir Editora, 3a. edição (2006) brochura 13.5x21cm, 128 pág., ISBN: 978-85-22-00751-9