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quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

giacomo joyce 3rd

Li pela primeira vez "Giacomo Joyce" na já icônica tradução de Paulo Leminski, publicada pela Brasiliense em meados dos anos 1980. Era um livrinho pequeno, com pranchas em fac-símile dos originais espelhadas à tradução de Leminiski. A obra é pequena, foi publicada postumamente, após ter sido encontrada nos guardados do espólio de James Joyce (de sua mulher, Nora Barnacle, mais precisamente), em 1968 (as anotações são de 1914, do período em que Joyce morava em Trieste. São aproximadamente cinquenta frases/aforismos/poemas livres. Lê-se em uns minutos, mas não se deve fazer isto. Os registros são como algo balsâmico, que precisam de mais tempo para aguçar todo seu poder, oferecer toda sua potência, demonstrar toda sua universalidade. Depois da de Leminski li meia dúzia de outras versões: a original, claro; as de José António Arantes e de Roberto Schmitt-Pryn, em português; e também várias em espanhol, catalão e italiano. Sempre é uma alegria voltar a estes registros, de um alter ego de Joyce, um professor que se enamora de sua aluna, mas sabe conter-se, purgando apenas literariamente sua lubricidade. Eclair Antonio Almeida Filho, tradutor e professor universitário (da UnB), publicou recentemente sua versão deste livro, editado pela pequena editora independente Lumme. O original do livro pode ser lido aqui! Diversão garantida. Vale! 
Registro #1485 (poesia #124) 
[início 02/01/2020 - fim 04/01/2020] 
"Giacomo Joyce", James Joyce, tradução de Eclair Antonio Almeida Filho, São Paulo, Lumme Editor, 1a. edição (2015), brochura 12x18 cm, 50 págs., ISBN: 978-85-8234-113-1

segunda-feira, 17 de junho de 2019

finnegans wake, por um fio

Para comemorar os festejos dos 80 anos de lançamento de "Finnegans Wake", de James Joyce, dediquei algumas horas das últimas semanas em livros que tratam dele. Já registrei aqui os bons "A Word in Your Ear", de Eric Rosenbloom e "Finnegans Wake, a plot summary", de John Gordon, verdadeiras bombas atômicas interpretativas do complexo romance. Hoje vou registrar algo sobre uma experiência de tradução de algumas passagens do livro, tradução engendrada por Dirce Waltrick do Amarante, respeitada professora da UFSC, que dedica-se há tempos na divulgação de cousas de Joyce. Trata-se de uma edição bilíngue, de pouco mais que 600 parágrafos ou frases do livro (que deve ter pelo menos 6000 parágrafos ou frases). Essa proposta tradutória fica a meio caminho daquelas já trilhadas por Haroldo de Campos e Augusto de Campos, no "Panorama do 'Finnegans Wake'", iniciada ainda nos anos 1960 e a de Donaldo Schüler, que publicou sua tradução integral do livro, em cinco volumes, entre 1999 e 2004. Digo isso pois essa proposta de Dirce W. do Amarante nem é exaustiva, ou pretende apresentar um único projeto de tradução, como no caso de Donaldo Schüler, nem tão inventiva e realmente original em língua portuguesa quanto a dos irmãos Campos, um verdadeiro portento de tradução. Claro, um neófito leitor, que nunca decidiu-se a enfrentar as robustas 628 páginas do original ganha muito com a proposta de Dirce. Em suas próprias palavras, no livro "(...) reconto o que eu ouvi de Joyce, ou o que eu quis ouvir; é a minha versão da história, meu fio narrativo". Em função deste projeto ela ressalta a história dos Earwicker e a notícia de um suposto crime que HCE teria cometido. Funciona. Mas a estranheza que o livro provoca continua ali, algo mais desfigurada pelo procedimento de recorte, de escolha, de seu singular e aleatórior fio  narrativo do livro. Em um curto posfácio Dirce Amarante descreve seus critérios de tradução, suas escolhas, fala dos artistas que a inspiraram: John Cage, Ana Hatherly e os irmãos Haroldo e Augusto de Campos. É isso. Não há atalhos na aventura de ler Finnegans Wake. Joyce demorou 16 anos para escrevê-lo e a cada ano certamente são publicados uma dezena ou duas de trabalhos acadêmicos e livros a respeito dele. Ontem foi dia de comemorar o Bloomsday, todo mundo já se divertiu. Talvez seja o caso agora de um curioso leitor começar a se preparar para o Bloomsday 2020, começar a singrar esse caudaloso mar de palavras e signos. E vamos em frente. Vale!
Registro #1418 (romance #357)
[início:12/04/2019 - fim: 16/06/2019]
"Finnegans Wake (por um fio)", James Joyce, organização, tradução e posfácio de Dirce Waltrick do Amarante, São Paulo: editora Iluminuras, 1a. edição (2018), brochura 15,5x22,5 cm., 184 págs., ISBN: 978-85-7321-575-5

quarta-feira, 29 de maio de 2019

cartas a harriet

Neste pequeno volume encontramos 62 das muitas cartas ou cartões postais que James Joyce enviou entre 11/11/1914 e 19/06/1939 para Harriet Shaw Weaver, sua amiga, editora, executora literária e também sua mecenas quase particular por muitos e muitos anos. É bobagem especular cousas assim, mas acredito ser bastante improvável que Joyce alcançasse publicar - da forma que publicou - seus três grandes romances: "Retrato de um artista quando jovem", "Ulysses" e "Finnegans Wake", sem a ajuda dela. E mais, seria muito improvável até que sua vida material - o pagamento de sua moradia, alimentação, cuidados da família e das muitas operações nos olhos que fez ao longo da vida - tivessem acontecido da forma que aconteceram. Edna O'brien, famosa especialista em Joyce, escreveu em um artigo que provavelmente Harriet Weaver transferiu (em dinheiro de hoje) mais de um milhão de dólares, dos quais jamais pediu compensação exata na forma de direitos autorais ou coisa que o valha. Joyce enviava-lhe seus manuscritos, mas isso jamais foi uma condição dela para as remessas de dinheiro. Mesmo depois da morte de Joyce, Harriet, que sobreviveu a ele quase vinte anos, continuou apoiando sua família, tendo sido responsável pelos funerais de Nora Joyce e os muitos cuidados hospitalares dedicados a Lucia Joyce. Aprende-se um bocado sobre o caráter e a biografia de Joyce lendo as cartas. Ele era um sujeito irascível e parte de suas obsessões restam registradas nas cartas. A organização do volume e tradução das cartas e cartões postais é de um casal industrioso lá de Santa Catarina, os professores universitários Dirce Waltrick do Amarante e Sérgio Medeiros (deles já registrei aqui vários livros e ainda tenho vários outros para ainda registrar, ai de mim). À edição eles acrescentaram um conjunto de mais de duzentas boas notas curtas e dois ensaios robustos, que contam algo da biografia e contextualizam as circunstâncias da troca de cartas entre Harriet Weaver e James Joyce. As cartas foram compiladas de quatro portentos editados nos anos 1950, 1960 e 1970 por Richard Ellmann, o seminal biógrafo de Joyce: os três volumes do "Letters of James Joyce" e o volume "Select Letters of James Joyce". É pena que nenhuma das cartas enviadas à Joyce por Harriet Weaver tenha sido incluída na seleção, mas trata-se obviamente de uma decisão autoral e editorial que se sustenta de várias formas. As cartas e postais dão conta de como Joyce circulava pela Europa e revelam doses mais ou menos equivalentes de generosidade, cumplicidade, lamentos, demandas e exploração, pura e simples. O leitor curioso pode aprender algo sobre esta notável mulher aqui: clika!, ou conferir um artigo de Edna O'Brien publicado na New York Review of Books: clika aqui!. Bueno. Em poucos dias estaremos a comemorar mais um Bloomsday, aqui em Santa Maria, em Dublin e em centenas de outras cidades ao redor do mundo. Nenhuma destas comemorações deveria existir sem que ao menos uma citação de louvor a Harriet Weaver fosse feita. Haverá mais registros sobre livros dedicados as cousas de James Jocye, muito em breve. Você já está preparado para o Bloomsday 2019? Vamos em frente. Vale!
Registro #1406 (cartas #9)
[início:12/05/2019 - fim: 16/05/2019]
"Cartas a Harriet", James Joyce, tradução de Dirce Waltrick do Amarante e Sérgio Medeiros, São Paulo: editora Iluminuras, 1a. edição (2018), brochura 14x21 cm., 128 págs., ISBN: 978-85-7321-589-2

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

ulisses

Já havia lido essa versão mangá do Ulysses numa tradução para o inglês (publiquei um registro da divertida experiência num já distante março de 2013). Recentemente a LPM publicou a versão brasileira. Os desenhos são exatamente os mesmos. A tradução para o português não me parece ter se utilizado de material de nenhuma das três traduções já consagradas do livro (a do Antônio Houaiss, a da Bernardina Pinheiro e a do Caetano Galindo). Continuo achando o que já escrevi naquele antigo registro. O resultado não é ruim, mas obviamente condensado demais para que um sujeito possa dizer que conhece o Ulysses de Joyce (muito embora neste curioso início de século XXI talvez seja possível afirmar que leu-se o Ulysses deste jeito). Apenas algumas passagens emblemáticas de cada um dos 18 capítulos do livro são apresentadas. Algumas soluções são realmente interessantes, outras algo equivocadas, literais ou frouxas demais, sem nada das sutilezas de Joyce (traduzir o "Mrkgnao! the cat said loudly" por "Miaaau", é uma bobagem). Falta muito do humor de Joyce no livro (claro, o mangá oferece alguma graça, mas nada que se compare ao que Joyce faz). É sempre divertido ver Bloom, Molly, Stephen e tantos outros personagens com aqueles olhos enormes característicos dos mangás japoneses. Após esta familiarização talvez um jovem leitor se anime e algum dia enfrente o original (ou uma cinco traduções disponíveis para o português, afinal além das três citadas lá em cima, há duas outras publicadas em Portugal, a do João Palma-Ferreira e a do Jorge Vaz de Carvalho). Os prazeres que o Ulysses oferece nunca se esgotam, já se sabe. E haverá muito mais Joyce por aqui antes do final do ano. Vale.
[início: 28/10/2016 - fim: 16/11/2016]
"Ulisses", James Joyce, tradução de Drik Sada, Porto Alegre: LPM (coleção Pocket Mangá, v. 1220), 1a. edição (2016), brochura 105,x17,5 cm., 400 págs., ISBN: 978-85-254-3413-5 [edição original: Ulysses (Tokyo: Kazuki / East Press) 2013]

sábado, 16 de julho de 2016

pomes penyeach

Neste último mês tive sim uma cota generosa de aborrecimentos, mas também pude descansar da loucura imergindo em meus livros, sem medo, sem temor. Logo após o Bloomsday, no último 16 de junho, resolvi continuar com as cousas do Joyce e ler os poemas reunidos em "Pomes penyeach". São treze pequenos achados, produzidos em Trieste, Dublin, Zürich e Paris, entre 1904 e 1924 (publicados originalmente em livro em 1927 pela icônica "Shakespeare and Company", de Sylvia Beach). Os poemas se deixam ler sem muitas dificuldades, as imagens que Joyce cria revelam um bom observador, mas não daquilo que está na superfície das coisas, antes sim do que é potência, possibilidade, destino. São poemas ligados a eventos de sua vida (a morte da mãe, a vitória do irmão em um evento náutico, sua vida difícil em Triste) mas o tom deles não é autobiográfico. Ele fala de uma flor que dá a sua filha; de alguém que chora um amor perdido; das águas calmas de uma fonte; de seus olhos glaucos, consumidos por uma inflamação; da solidão; de um pregador que grita na rua; de um pastor que leva seu rebanho pela colina. Nesta edição da Faber and faber (originalmente publicada em 1933) estão incluídos três outros poemas de Joyce: seu orgulhoso registro do nascimento do neto, Stephen Joyce, ("Ecce Puer", de 1932); uma sátira cruel sobre a Dublin literária ("The Holy Office", de 1904) e sua reação violenta à destruição da primeira edição de seu livro de contos, Dublinenses, ("Gas from a Burner", de 1912, onde ele não poupa vitupérios ao editor George Roberts, ao impressor John Falconer e a vários escritores irlandeses da época). Livros assim sempre fazem à alma um grande bem. Vale.
[início: 16/06/2016 - fim: 15/07/2016]
"Pomes penyeach", James Joyce, London: Faber and faber, 1a. edição (1991), brochura 12,5x20 cm., 32 págs., ISBN: 0-571-06630-3 [edição original: (Paris: Shakespeare & Co) 1927]

quinta-feira, 16 de junho de 2016

os mortos (bilíngue)

Essa é uma edição muito especial de "Os mortos", conto de James Joyce que encerra a coletânea "Dublinenses", publicada originalmente em 1914 (muito embora esse conto tenha sido finalizado um bom tempo antes, quando Joyce vivia em Trieste, em 1907). Trata-se de uma edição bilíngue e a tradução é assinada por Tomaz Tadeu. Nela o leitor tem direito a um conjunto robusto de notas, que explicam as passagens mais enigmáticas do livro, uma breve introdução e um link de acesso a um mapa onde os locais mencionados no conto estão assinalados (esse mapa pode ser acessado aqui). O tradutor alerta na introdução que foi obrigado a fazer ligeiras adaptações devido a uma restrição editorial, que foi a necessidade de deixar os parágrafos traduzidos com o mesmo número de linhas dos respectivos parágrafos originais, de forma a permitir a leitura em paralelo dos dois. Não me pareceu nada que prejudique essencialmente o texto. Como sabe qualquer sujeito que tenha lido "Dublinenses", trata-se de uma das histórias mais poderosas e bem escritas de Joyce. O leitor acompanha uma festa de epifania, um jantar de gala, com direito a música e bebidas, que acontece num dia 06 de janeiro, provavelmente o de 1904. Quem dá a festa são as irmãs Morkan, Kate e Júlia, duas senhoras idosas. Joyce utilizou duas tias avós maternas suas na concepção destas personagens. O local da festa é o número 15 de um dos "Quays" da margem direita do rio Liffey, aquele conhecido por "Usher's Island". Hoje esse endereço fica exatamente defronte a entrada sul da James Joyce Bridge, uma ponte projetada pelo arquiteto Santiago Calatrava. Nesse endereço ainda existe uma casa que foi propriedade das duas tias avós de Joyce e onde deveria funcionar um museu ou casa de cultura (mas que não está regularmente aberto ao público, infelizmente). Por uma sorte dos diabos, através de um amigo irlandês, o John Murphy, conheci o atual proprietário da casa, um sujeito chamado Brendan Kilty, e a visitei numa noite de inverno em 2015 alternando Irish whiskey e Guinness (mas esta é outra história, que um dia conto com detalhes). Pois no conto de Joyce acompanhamos os frenéticos preparativos para a festa e logo uma elaborada apresentação de todos os personagens que chegam. Gabriel Conroy, sobrinho das anfitriãs, que fará um discurso de encerramento do jantar, é um dos últimos a chegar. Conroy é um sujeito afetado, que imagina serem superiores suas opiniões sobre a complexa relação política e social entre Irlanda e Inglaterra. Mas o que o leitor acompanha na história são as sucessivas mostras de quão errado está Conroy, não apenas sobre a situação de seu país (não exatamente um país, pois a Irlanda ainda estava sob administração inglesa naquela época), mas também sobre a forma como ele se relaciona com os demais e com sua mulher. Após a festa Conroy e a mulher rumam para a O'Connell Street, onde fica o hotel em que ficarão hospedados. Conroy parece animado e ansioso , mas quando confronta a tristeza que nota na mulher ela lhe conta que uma das músicas cantadas na festa a fez lembrar-se de um rapaz por quem foi apaixonada e que morreu numa noite fria como aquela. Conroy percebe de súbito a tolice de sua vaidade, do vazio das palavras que proferiu no discurso e do quão pouco conhece sua mulher e a si mesmo. Sua existência é patética, sabe ele agora. Que história dos diabos. Cabe dizer que registrei aqui recentemente uma outra tradução de "Os mortos", a do industrioso Caetano Galindo. E, por fim, digo que um leitor inspirado pelo livro ganhará muito se ouvir os seis podcasts reunidos no "Joyce's Dublin". Ouro puro e fino. Vale. Leia o Ulysses, leia James Joyce. Sláinte. Happy Bloomsday, to you and all.
[início: 11/05/2016 - fim: 16/06/2016]
"Os mortos", James Joyce, tradução de Tomaz Tadeu, Belo Horizonte: editora Autêntica, 1a. edição (2016), capa-dura 14,5x21,5 cm., 144 págs., ISBN: 978-85-8217-802-7 [edição original: edição original: Dubliners (London: Grant Richards) 1914]

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

the ondt and the gracehoper

Há três anos Tom McNally, um filósofo e professor universitário irlandês, conseguiu através de financiamento coletivo (crowdfunding, em português) os recursos necessários para produzir esse livro ilustrado. Ele mesmo, também um artista plástico, produziu quarenta e seis ilustrações inspiradas em um episódio do "Finnegans Wake" de James Joyce, conhecido como "The Ondt and the Gracehoper". As ilustrações foram produzidas a partir de telas (50x70 cm.) originalmente pintadas à óleo e com tinta acrílica. A edição ficou a cargo da respeitada editora irlandesa Lilliput Press. O livro foi lançado em 2014, exatamente num Bloomsday (aquele que comemorava os 110 anos do dia imortalizado por Joyce em seu "Ulysses"). Além das quarenta e seis ilustrações, associadas a quarenta e seis trechos do episódio, encontramos no livro um longo ensaio assinado por McNally ("Philosophy, Art and the Search for Meaning in Finnegans Wake"), onde ele faz uma detalhada análise de seu entendimento deste episódio em particular e de toda a proposta original do livro. Ele simpatiza com aqueles que defendem que na concepção de Joyce o entendimento não é necessário, mas sim que o leitor deva concentrar-se sempre em ouvir sua própria voz durante a leitura e que através desta experiência ter acesso inconsciente ao idiossincrático senso de humor do livro. Trata-se afinal de um livro pleno de humor e jogos verbais. Para ele, afinal um sujeito especializado em filosofia da linguagem e também em Ludwig Wittgenstein, os conjuntos de letras do livro parecem inicialmente formar palavras conhecidas, mas a chave para o entendimento mais profundo do livro está no som que associamos aos novos arranjos de letras que Joyce propõe, inventa, grafa. Ele usa argumentos de filósofos da linguagem, sobretudo Donald Davidson, e de vários outros comentadores da obra de Joyce para justificar sua interpretação. Suas ilustrações foram criadas como um exercício de facilitação, uma forma de auxiliar o leitor a ultrapassar a história do episódio (de resto uma versão não moral da conhecida fábula de La Fontaine "A cigarra e a formiga") e explorar as muitas outras camadas de entendimento, como acontece com os livros para crianças. As ilustrações são de fato muito bonitas, algo geometrizadas, produzidas com uma paleta de cores suaves, frias. O livro inclui também uma apresentação assinada por Danis Rose, talvez o maior especialista em "Finnegans Wake", responsável pela edição definitiva e mais recente do livro, em 2010. Como já disse uma vez Margot Norris para entender o "Finnegans Wake" devemos aceitá-lo como um quebra-cabeças cuja chave é o próprio quebra-cabeças. O Finnegans jamais fará sentido como o "Ulysses", o "Retrato do artista quando jovem" ou qualquer romance convencional fazem, pois esperar isso implicaria em um quadro conceitual e numa epistemologia que Joyce propositalmente pretendia minar (textualmente ela diz - no 'The decentered universe of Finnegans Wake: a structuralist analysis', de 1976, "In other words, expecting the work to 'make sense' in the way Portrait, Ulysses or traditional novels 'make sense' implies a conceptual framework and epistemology that Joyce strongly intimated he wanted to undermine"). Beleza. Devemos agradecer os 91 sujeitos que contribuíram com os cinco mil euros necessários para a produção desse belo livro. E por fim, me cabe lembrar que hoje, 2 de fevereiro, é dia de aniversário do Joyce. Happy birthday Jim.
[início: 16/06/2015 - fim: 02/02/2016]
"The Ondt and the Gracehoper", James Joyce, ilustrações de Thomas McNally, Dublin/Ireland: Lilliput Press, 1a. edição (2014), capa-dura 17,5x25 cm., 136 págs., ISBN: 978-1-84351-627-9

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

giacomo joyce (over again)

Hoje se comemora o dia em que James Joyce nasceu (na Brighton Square de Rathgar, um subúrbio de Dublin, em 1882). Em sua homenagem resolvi reler o "Giacomo Joyce" (numa versão espanhola desta vez, que encontrei ano passado na livraria La Central, em Madrid, e trouxe comigo nesta nova viagem, sobre a qual contarei depois). Li esse livro pela primeira vez numa tradução de Paulo Leminski publicada pela Brasiliense, depois outra tradução, assinada por José Antônio Arantes, publicada pela Iluminuras, e mais recentemente uma terceira, assinada por Roberto Schmitt-Prym. Na verdade reencontrei e reli as mirradas páginas desse livro tantas e tantas vezes, sempre com alegria e espanto. Trata-se de uma pequena jóia, publicada postumamente. Richard Elmann, o conhecido biógrafo de Joyce, afirmou certa vez que "Giacomo Joyce" é "uma tentativa de educação sentimental de uma jovem italiana". Mas Joyce nunca fez chegar até sua amada de ocasião (Amalia Popper, uma de suas alunas de inglês em Trieste), essas poucas páginas de aforismos, reflexões, poemas em prosa, escritas em 1914 e somente encontradas por seu irmão Stanislaus em 1968, muito anos após sua morte. Nessa edição, além da tradução do texto encontramos prólogo muito bem escrito, assinado por Liliana Herr. "Giacomo Joyce" é sim para se ler com calma, saboreando as imagens, os sons que são pelo texto inspirados, aproveitando ao máximo a concisão e os efeitos provocados pela visão de uma bela e jovem mulher sobre um homem cuja imaginação não conhecia limites.
[início - fim: 02/02/2015]
"Giacomo Joyce", James Joyce, tradução de Micaela Ortelli, Buenos Aires: Ediciones Godot Argentina, 1a. edição (2013), brochura 10,5x12 cm., 80 págs., ISBN: 978-987-1489-68-8-1[edição original: Giacomo Joyce (Londres: Faber and Faber) 1968]

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

finn's hotel

Esse pequeno livro tem tem uma história muito controversa. Danis Rose, um reconhecido especialista na obra de James Joyce localizou no início dos anos 1990 manuscritos de um conjunto de episódios que ele entendeu como substancialmente diferentes dos manuscritos daquilo que viria a se tornar o último romance de Joyce: "Finnegans Wake". Seria assim um livro independente e até então inédito de Joyce, pois para ele os 10 episódios que ele reuniu em "Finn's Hotel" estão para o "Finnegans Wake" como os contos de "Dublinenses" estão para o "Ulysses". Os episódios teriam sido escritos em 1923, bem antes dos manuscritos iniciais daquilo que viria a se tornar o "Finnegans Wake". A maioria dos demais especialistas em Joyce nunca concordou com ele. O projeto original de Rose era publicar "Finn's Hotel" ainda em 1992, mas a reação da crítica assustou os detentores dos direitos autorais de Joyce e o projeto foi abandonado. Em 2011, quando a obra de Joyce caiu em domínio público, o projeto foi retomado. "Finn's Hotel" foi publicado pela Ithys Press em 2013 e ganhou a fama de ser "o livro perdido de James Joyce". Controvérsias a parte o livro existe e está aí, para o deleite dos leitores. Essa edição brasileira incluí uma apresentação curta de Danis Rose, um longo e fundamental texto crítico de Seamus Deane e uma seminal nota de tradução assinada pelo industrioso Caetano Galindo, certamente o maior especialista brasileiro na obra de Joyce. A edição inclui também a versão de Galindo do "Giacomo Joyce", poema em prosa de Joyce publicado postumamente, em 1968. Há também um conjunto de ilustrações assinadas pela designer Casey Sorrow. O quê dizer dos dez episódios de "Finn's Hotel"? São fábulas curtas alusivas à história e mitologia irlandesas (Deane as chama de "meditações cômicas"). Os textos são curtos, coisa entre 3 e 13 páginas pequenas, mas a leitura toma tempo e atenção (e vale cada minuto de esforço). Vamos a ver: Em (i) "A tintinjoss de Irlanda" o Bispo Berkeley ensina são Patrício como preparar uma sopa/salada com as ervas da Irlanda; em (ii) "Bondade com peixinhos" são Kevin nasce e é iniciado na fé cristã, usa uma bacia como pia batismal e se masturba; em (iii) "Uma história de um tonel" são Kevin cria sua igreja em um tonel (ilha às avessas) e toma banhos de assento como ritos de iniciação; em (iv) "Seus encantos dela" conta-se a história da mulher do diabo, de sua juventude a maturidade, de seus atributos e de como ela aprende a rezar um pai-nosso; em (v) "O grande beijo" acompanhamos Tristão e Isolda consumar sua paixão com sexo enquanto o velho rei cornudo Mark ouve cisnes cantarem sua desgraça; em (vi) "Bordões da memória" quatro ondas/mulheres reclamam dos invasores da irlanda e falam do cansaço nos casamentos; em (vii) "Firmamente ao estrelato" são descritos os problemas conjugais de Tristão e Isolda, as ofensas e reclamações cruzadas entre eles; em (viii) "A casa dos cem cascos" Roderick O'connor, o último rei da Irlanda toma um porre de whiskey e cerveja preta; em (ix) "Homem comum enfim" conta-se a origem de HCE, o homem comum que vive na Irlanda, suas falhas e fraquezas; em (x) "Eis que te carto" a mulher de HCE, Anna Livia Plurabelle Earwicker, escreve ao rei dando conta do amor por seu marido, sua confiança nas qualidades dele (que está sendo caluniado por um sujeito chamado McGrath). Mais que um mimo para joyceanos "Finn's Hotel" é um bom caminho para qualquer neófito da obra de James Joyce conhecer a linguagem infernal que ele utilizará no "Finnegans Wake". Em tempo: um leitor curioso sobre a precedência ou não do Finn's Hotel em relação ao Finnegans Wake pode consultar com proveito um recente estudo de estilo publicado na revista eletrônica "Genetic Joyce Studies", por John Sullivan. Em tempo 2: Em algum momento o Galindo irá publicar sua versão do "Finnegans Wake". Aí a festa dos joyceanos estará sim completa. Vamos a ver.
[início: 16/06/2014 - fim: 21/08/2014]
"Finn's Hotel", James Joyce, tradução de Caetano Galindo, São Paulo: editora Schwarcz (selo Companhia das Letras), 1a. edição (2014), brochura 12x18 cm., 153 págs., ISBN: 978-85-359-2455-8 [edição original: Finn's Hotel (Dublin/Irlanda: Ithys Press) 2013]

quinta-feira, 22 de maio de 2014

sobre la escritura: james joyce

Parte de uma coleção de textos de referência dedicados àqueles que têm ambição literária (e que portanto devem aprender a ler bem antes de aprender a escrever bem), nesse pequeno livro estão compilados textos curtos retirados de livros de James Joyce. A idéia é oferecer uma imersão no estilo joyceano e nos temas que são recorrentes em sua obra. O editor é Federico Sabatini, um professor universitário italiano. Sabatini assina um prólogo curto, onde apresenta seu projeto e as diretrizes que justificam a escolha das passagens originais de Joyce. O livro inclui uma pequena bibliografia (cabe dizer que livros de referência sobre Joyce contam-se em centenas, senão milhares de títulos). Trata-se então de algo um tanto vampiresco, mas a potência daquilo que tem vocação aforística em Joyce sustenta o livro. O leitor encontra dois conjuntos de textos. No primeiro estão aqueles onde Joyce fala o ofício artístico, da arte. Essa parte está dividida naquilo que pode ser entendido como suas definições a priori sobre literatura (no sentido em que ele já defendia quase todas estas idéias muito antes de ter editado seu primeiro livro): sua natureza; o efeito das epifanias; o processo da escritura; os estilos literários; a importância da imaginação; a necessidade de conhecer outras línguas; as relações com editores e críticos. No segundo estão textos específicos sobre a vocação literária, sobre as qualidades que um artista, escritor, crítico ou editor deve ter. Quem está familiarizado com a obra de Joyce sabe o quão diabolicamente cruel o sujeito sabia ser quando avaliava o trabalho dos outros. Portanto, nesse conjunto estão os textos mais ácidos e divertidos (nem sempre incontestáveis, claro). Federico Sabatini utiliza-se de um conceito de Vico para defender o procedimento que ele considera adequado ao nos aproximarmos de um autor tão seminal quanto Joyce: devemos lê-lo correndo riscos (perigosamente). Se é que eu entendi bem a idéia é não se dar por satisfeito com a primeira leitura (nem com as seguintes), tentando sempre fazer novas associações, procurar novas referências, novas abordagens, que impliquem num conhecimento maior sobre aquilo sobre o qual nos debruçamos. O Bloomsday está chegando. Talvez seja através de livros descompromissados assim que um leitor curioso das cousas joyceanas deveria se aproximar dele. 
[início: 04/05/2014 - fim: 07/05/2014]
"Sobre la escritura: James Joyce", James Joyce, Federico Sabatini (editor), tradução de Pablo Sauras, Barcelona: Alba Editorial (coleccíon Guías del escritor / Textos de referencia), 1a. edição (2013), brochura 14x21 cm., 116 págs., ISBN: 978-84-8428-861-9 [edição original: James Joyce. Scrivere pericolosamente. Riflessioni su vita, arte, scritura (Roma: Mininum Fax) 2011]

quinta-feira, 20 de março de 2014

o gato e o diabo

Em meados de novembro fiz um registro da leitura da terceira das traduções de "The Cat and the Devil" (de James Joyce) para o português (traduções essas assinadas por Antônio Houaiss, Lygia Bojunga e Dirce Waltrick do Amarante). Recentemente encontrei essa outra, publicada em Portugal. A tradução é de Joana Morais Varela e as ilustrações são de Tomislav Torjanac, um respeitado artista plástico croata. Ler um texto que conhecemos bem traduzido para o português de Portugal sempre é uma festa para o cérebro, pois as palavras estão no mesmo português que partilhamos, brasileiros e portugueses, mas sabemos que o ritmo e a entonação delas torna tudo diferente quando é lido por esse ou aquele sujeito, brasileiro ou português de nascimento. Divertido. O texto de Joyce, sua carta para o neto, Stephen, presta-se sempre a ser recontado para crianças de qualquer idade. Já as ilustrações dessa edição mais recente é um caso a parte. Das quatro edições que tenho, essas são as que mais gostei, as mais expressivas e cheia de sutilezas. Ulalá. Aparentemente há uma nova coleção surgindo de meus guardados. Veremos o que o tempo e as viagens proporcionarão. Vale. 
[início - fim: 04/03/2014]
"O gato e o diabo", James Joyce, ilustrações de Tomislav Torjanac, Lisboa: Nova Vega (colecção Lendas e Contos), 1a. edição (2013), capa-dura 22,5x30,5 cm., 22 págs., ISBN: 978-972-699-992-8 [edição original: The Cat and the Devil (Letters of James Joyce, edited by Stuart Gilbert) London: Faber and Faber, 1957]

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

o gato e o diabo

Em 2012 toda a obra de James Joyce tornou-se de domínio público. Centenas de trabalhos (traduções dos livros, além de montagens teatrais, adaptações cinematográficas, exposições de artes plásticas) inspirados em Joyce foram publicados. "O gato e o diabo", carta que Joyce escreveu a seu neto Stephen, originalmente publicado em 1936, ganhou recentemente sua terceira edição brasileira. A primeira foi publicada em 1980, em tradução de Antônio Houaiss e com ilustrações de Roger Blanchon. A segunda edição foi publicada no início de 2013 pela Cosac Naify (a tradução é assinada por Lygia Bojunga, com ilustrações de Lelis - Marcelo Eduardo Lelis de Oliveira - ilustrador e quadrinista mineiro). E esta terceira edição tem tradução assinada por Dirce Waltrick do Amarante (que também traduziu "Os gatos de Copenhagem"), com ilustrações de Michaella Pivetti. Dentre as duas últimas, publicadas neste 2013, gostei mais das soluções de Lélis, mas esta é opinião de um velho, cansado e aborrecido senhor. Talvez o público alvo destes livros - o público infanto-juvenil - pense de outra forma. E viva Joyce! Evoé!
[início - fim: 28/10/2013]
"O gato e o Diabo", James Joyce, tradução de Dirce Waltrick do Amarante, ilustrações de Michaella Pivetti,  São Paulo: editora Iluminuras (selo Livros da Ilha), 1a. edição (2013), brochura 21,5x23 cm., 32 págs., ISBN: 978-85-7321-418-5 [edição original: The Cat and the Devil (Letters of James Joyce, edited by Stuart Gilbert) London: Faber and Faber, 1957]

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

os mortos

Foi por puro deleite que resolvi reler essas histórias. Também achei que voltar a elas seria o jeito correto para homenagear o industrioso don Caetano Waldrigues  Galindo, que ganhou o Prêmio Jabuti semanas atrás por seu monumental trabalho de traduzir o Ulysses de James Joyce. Evoé Galindo, Evoé. São três mimos, três jóias. Duas delas são contos, extraídos do Dublinenses, a outra é o capítulo final do Ulysses, o monólogo de Molly Bloom, uma das partes mais lidas e interessantes do livro (que de resto sempre é incrivelmente interessante). "Os mortos" está além das descrições possíveis. É um conto tão poderoso, uma história que quase sempre provoca no leitor associações e experiências que vão do encantamento a raiva, da felicidade ao medo, que não há porque furtar-se de relê-lo sempre que possível. "Arábias" é menos intimista, mas talvez seja ainda mais cruel, já que faz qualquer leitor lembrar-se de suas aventuras da infância e juventude, dos aborrecimentos e das felicidades mirradas que conseguimos extrair de um mundo sempre cruel e enganador. O "Monólogo de Molly Bloom", extraído do Ulysses, parece ter vida própria. São oito partes que progressivamente transportam o leitor para o mundo dos pensamentos e lembranças de Molly Bloom, naquela madrugada do 17 de junho de 1904, que conhecemos logo após os sucessos de Poldy em seu primeiro e seminal Bloomsday. Ah Galindo, obrigado mesmo. Sempre sim ao Joyce, sempre sim ao Ulysses. Sim.
[início: 18/10/2013 - fim: 29/10/2013]
"Os mortos", James Joyce, tradução de Caetano W. Galindo, São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras (coleção Grandes Amores), 1a. edição (2013), brochura 13x20 cm., 135 págs., ISBN: 978-85-63560-63-6 [edição original: Dubliners (London: Grant Richards) 1914 e Ulysses (Paris: Shakespeare and Company) 1922]

segunda-feira, 29 de julho de 2013

fragmentos de ulises, 1926

Experimentei um assombro quando foi publicado o último número da excelente revista eletrônica Scientia Traductiones, editada na UFSC pelos industriosos Gustavo Althoff e Mauri Furlan. Pois nela li um artigo, assinado por Afonso Teixeira Filho, que dava conta de uma tradução de trechos do Ulysses de James Joyce para o galego em 1926, apenas quatro anos após a publicação original do livro. Claro que tornou-se imperioso para mim conseguir um exemplar desta tradução. O texto de Teixeira Filho explicava que os trechos haviam sido republicados em uma edição de 2003, que fiz a Abebooks alcançar. Essa edição inclui os trechos originais traduzidos por Ramón Otero Pedrayo em 1926 (e publicados originalmente em uma revista chamada Nós, que existiu entre 1920 e 1936) e uma introdução assinada por Kerry Ann McKevitt (uma especialista inglesa em literatura galega). A introdução é parte de um trabalho acadêmico, produzido na Universidade de Birminghan, e discute a gênese da tradução de Otero Pedrayo. Segundo a autora há duas correntes: em uma delas Otero Pedrayo utilizou para sua tradução apenas a edição original do livro, publicado em 1922; enquanto em uma outra ele teria utilizado também os primeiros trechos já traduzidos para o francês (por Valéry Larbaud, publicados em 1922). A primeira tradução integral do Ulysses foi para o alemão, assinada por Georg Goyert e  publicada em 1927; já a primeira tradução integral para o francês (assinada por Auguste Morel) só seria publicada em 1929. A conclusão de McKevitt é salomônica, ou seja, a de que Otero Pedrayo deve ter utilizado basicamente o original inglês, eventualmente recorreu à tradução francesa, mas que esta não teve papel decisivo em seu trabalho. Os trechos traduzidos são dos episódios Ithaca e Cyclops. Não é muita coisa a bem da verdade. Do Cyclops são apenas dois trechos curtos (dentre os 33 do original) e do Ithaca - meu capítulo favorito - uns 50 fragmentos dentre os 309 originais. Claro, os bons jogos verbais e sugestões infinitas que Joyce sempre provoca estão ali. O fato de leitores galegos terem acesso ao Ulysses já em 1926 deve ser mesmo algo a se comemorar. Mesmo agora, quando temos acesso a quatro traduções diferentes para o português, três outras para o espanhol, uma em catalão - e dezenas de outras em línguas que não me atrevo a dizer que conheço, ler Joyce em galego (na verdade ler todo ele em galego) é uma diversão. De fato trata-se de algo que não é português nem tampouco espanhol. Ver os sons que costumamos associar ao "J" e ao "G" (em nosso português) grafados com "X" provoca um explosão de associações curiosas e tudo só ganha sentido completo quando começamos a ler em voz alta. Desta vez o texto do pobre Joyce ficou em segundo plano. Vamos em frente.
[início: 16/06/2013 - fim: 20/07/2013]
"Fragmentos de Ulises, 1926", James Joyce, tradução de Ramón Otero Pedrayo (texto de James Joyce), tradução de Carlos Acevedo (introdução de Kerry Ann McKevitt), Vigo: editorial Galaxia (colección Illa Nova), 1a. edição (2003), brochura 12,5x22 cm., 89 págs., ISBN: 84-8288-646-0

quarta-feira, 24 de julho de 2013

the works of master poldy

Há livros que jamais serão editados em uma versão eletrônica, pois isso seria um anacronismo (antes seria uma trapaça perversa com o leitor, uma camisa de força limitante). Livros assim só tem sentido ao serem folheados, ao transmitirem pelo contato algo da magia do impressor, ao possibilitarem que todos os detalhes sejam devidamente apreciados, ao trazerem consigo os ruídos e os cheiros das oficinas onde foi produzido, ao exporem o resultado da colagem, da costura, dos cortes, do acabamento. "The works of Master Poldy" é o resultado da colaboração do industrioso Stephen Cole, um ativista cultural americano, com Jamie Murphy, um habilidoso impressor gráfico irlandês. Steve e Jamie produziram um livro que brota do Ulysses de James Joyce (na verdade brota da própria Molly Bloom, quase no fim do livro, no último episódio, Penelope, quando ela diz: "I declare somebody ought to put him in the budget if I only could remember the one half of the things and write a book out of it the works of Master Poldy yes”). Assim, nele estão reunidas frases e aforismos, reflexões e observações, passagens curtas quase todas, mas seminais cada uma, recolhidas pacientemente do Ulysses. O livro inclui também uma apresentação de Anne Fogarty, que discute como algo da sabedoria de Leopold Bloom foi destilada nele, para alegria dos apreciadores da obra de Joyce (e da legião de neófitos que sempre são atraídos por sua poderosa e encantadora prosa). O livro foi impresso nas oficinas da Distillers Press, parte do departamento de artes visuais do "National College of Art and Design" de Dublin e editado pela The Salvage Press, editora irlandesa especializada em pequenas edições e livros artesanais. O resultado é uma obra de arte, pura tipografia, puro gravado, puro deleite. Para Steve Cole esse é um pequeno tributo à visão libertadora de Joyce traduzida no Ulysses (assim como à beleza da arte da impressão e a perenidade desse personagem que gostaríamos de ter conhecido, que aprendemos a amar, leopold Bloom). Há um vídeo no YouTube onde Steve e Jamie apresentam o livro (que ajuda a entender o projeto, mas, acredite em mim, nada supera o prazer táctil de ter o volume ao alcance das mãos). Por fim, se você quiser saber mais, dê uma espiada nele no site da Salvage Press e bom divertimento.
[início: 24/06/2013 - fim: 24/07/2013]
"The works of Master Poldy", James Joyce, Stephen Cole, Jamie Murphy, Dublin: The Salvage Press, 1a. edição (2013), capa-dura 27,5x39cm, 36 págs., sem ISBN

quarta-feira, 10 de julho de 2013

os gatos de copenhague

A história de como uma carta de James Joyce para seu neto Giorgio metamorfoseou-se em livro já contei aqui, quando fiz o registro de leitura da versão original publicada no ano passado pela Ithys Press. Pois acontece que desde o início do ano passado a obra de Joyce está em domínio público e desde então um número grande de novas traduções e edições de sua obra têm sido publicadas, adaptadas e/ou encenadas. Foi o caso desta carta, escrita em 1936 e depositada há anos na Zürich James Joyce Foundation. Claro, há um detalhe antiético na forma como os originais foram apropriados pelos editores irlandeses, mas isto você, caro leitor curioso, pode descobrir no post original. Trata-se de uma história muito curta, mas divertida, onde Joyce descreve alguns aspectos da vida em Copenhagen. Nada transcendental, mas os entusiastas das cousas de Joyce não se cansam de colecionar mimos como este. Dirce Waltrick do Amarante, conhecida especialista em Joyce, professora da UFSC, assina esta primeira tradução para o português, editada pela Iluminuras. As ilustrações são assinadas por Michaella Pivetti, uma designer italiana radicada no Brasil. O humor de Joyce está ali no texto, mas como todo livro cujo público alvo é o infantil, depende muito de como um adulto leitor irá contar a história, como irá conduzir as reflexões que Joyce compartilha com seu neto. Eu, ai de mim, que havia prometido enviar o original em inglês para minhas sobrinhas Clara e Victória há tempos, lá nas férias de verão, ainda não o fiz. Paciência, agora tenho este outro belo volume para enviar também. Logo veremos se não vou me esquecer novamente. E viva Joyce! Evoé!
[início - fim: 16/06/2013]
"Os gatos de Copenhague", James Joyce, tradução de Dirce Waltrick do Amarante, ilustrações de Michaella Pivetti,  São Paulo: editora Iluminuras (selo Livros da Ilha), 1a. edição (2013), brochura 21,5x23 cm., 24 págs., ISBN: 978-85-7321-411-6 [edição original: Dublin: Ithys Press, 2012]

sábado, 16 de março de 2013

ulysses

Ler a transcriação de um portento como o "Ulysses" de James Joyce no formato de histórias em quadrinhos não é exatamente uma epifania, algo que se deva levar exatamente à sério, mas como sou um joycemaníaco completo não me furtei de experimentar a idéia assim que soube dela. Trata-se de uma colaboração criativa, de um grupo que se especializou na arte da transformação de clássicos da literatura ao formato mangá (a editora One Peace Books começou em 2006 como divulgadora de literatura japonesa em inglês, mas tem oferecido textos ocidentais também). O trabalho de produção do texto e as imagens não são assinados. Um coletivo (Variety Art Works) parece ser o responsável pela condensação. O designer da capa e a pessoa responsável pela tradução do original japonês são identicados, mas não se sabe quando a versão foi publicada pela primeira vez no Japão. Paciência. O resultado não é ruim, mas obviamente condensado demais para que um sujeito possa dizer que conhece o Ulysses original de Joyce. Apenas algumas passagens emblemáticas de cada um dos 18 capítulos do livro são apresentadas. Algumas soluções são realmente interessantes, outras algo equivocadas, literais ou frouxas demais, sem nada das sutilezas de Joyce. Falta também algo do humor de Joyce no livro (claro, o mangá oferece alguma graça, mas nada que se compare ao que Joyce faz). De qualquer forma é divertido ver Bloom, Molly, Stephen e tantos outros personagens com aqueles olhos enormes característicos dos mangás. Após esta familiarização talvez um jovem leitor se anime e algum dia enfrente o original (ou uma das dezenas de traduções disponíveis: a quinta delas em português está sendo prometida pela portuguesa Relógio d'água ainda para esse ano). Os prazeres que o Ulysses oferece nunca se esgotam, já se sabe. E vamos em frente.
[início - fim: 16/03/2013]
Ulysses: Manga Classics Readers, James Joyce, transcriação (texto e imagens de Variety Art Works), edição de Marie Lida, tradução de Glenn Anderson, New York: One Peace Books, 1a. edição (2012), 12,5x18 cm, 384 págs., ISBN: 978-1-93548-19-5

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

the cats of copenhagen

Para aqueles que gostam de James Joyce 2012 foi um ano particularmente importante, já que muito foi comemorado: os 90 anos da edição original do Ulysses (1922); os 130 anos da data de nascimento de James Joyce (1882); o lançamento de várias novas traduções do Ulysses (dentre elas a quarta tradução completa para a língua portuguesa, a de Caetano Galindo). Entretanto o mais auspicioso foi o fato de toda a obra de Joyce ter se tornado, desde janeiro de 2012, de domínio público. Os herdeiros de Joyce eram extremamente zelosos de sua obra e dificultavam seu uso em qualquer tipo de manifestação artística e/ou cultural. A realidade jurídica de não haver mais direitos de copyright sobre a obra de Joyce foi uma espécie de libertação, comemorada com alegria em todo o mundo. Além das várias traduções novas do Ulysses foram lançadas, vários outros livros de Joyce foram reeditados. O projeto literário mais rumoroso foi o lançamento de "The cats of Copenhagen", logo no início do ano passado, pela Ithys Press. Trata-se de uma carta manuscrita de Joyce, endereçada a seu neto Stephen, algo similar a uma outra que já havia sido transformada em livro nos anos 1960, The Cat and the Devil (e que já resenhei aqui). O problema é que a carta original "The cats of Copenhagen", datada de 5 de setembro de 1936, mas somente descoberta em 2006, fazia parte do acervo da Zürich James Joyce Fundation, que não tinha planos de editá-la em livro. Aproveitando o fato de não haver mais direitos de copyright a Ithys Press antecipou-se (numa manobra não exatamente correta e/ou ética) e transformou a carta em uma edição luxuosa (os exemplares foram comercializados por até 400 Euros). Fritz Senn, o diretor da Zurich James Joyce Fundation, certamente deve ter ficado muito aborrecido. Esse meu exemplar, publicado pela Simon and Schuster (Scribner) custou-me muito menos (uns 17 dólares), mesmo assim já é uma das jóias de meus guardados joyceanos. A tipografia é assinada por Michael Caine e as ilustrações pela designer Casey Sorrow. A história é curta, mas tem sua magia. Joyce descreve os gatos da capital dinamarquesa com seu humor particular, estimulando seu neto a acompanhar suas reflexões. Será que minhas pequenas sobrinhas, doñas Clara e Victória, irão gostar desta história? Logo veremos. Evoé!
[início - fim: 02/02/2013, James Joyce's 131st birthday]
"The cats of Copenhagen", James Joyce, ilustrações de Casey Sorrow, New York: Scribner (Simon and Schuster), 1a. edição (2012), capa-dura 24x16 cm, 32 págs. ISBN: 978-1-4767-0894-2 [edição original: Dublin: Itchys Press, 2012]

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

cartas a nora

Nos Bloomsdays que organizo aqui em Santa Maria, desde 1994, a leitura das cartas pornográficas de Joyce sempre alcança muito sucesso. Sempre deixo à mão a tradução de Mary Pedrosa ("Cartas a Nora Barnacle", de 1982, editada pelos industriosos Massao Ohno e Roswitha Kempf) ou a edição portuguesa da Hiena ("Querida Nora!", de 1994, cuja tradução é assinada por Carlos Valente e inclui comentários muito bons da biógrafa de Nora, Brenda Maddox). Agora certamente terei de incluir algo novo no balaio dos livros do próximo Bloomsday. E que belo livro! Sou mais que suspeito com as cousas de James Joyce, mas esta antologia de cartas, publicada recentemente pela Iluminuras está mesmo muito boa. Sérgio Medeiros e Dirce Waltrick do Amarante, reconhecidos especialistas em Joyce, assinam a tradução e também uma curta apresentação cada um. O volume inclui as poucas cartas de Nora dirigidas a Joyce que sobreviveram até nós, além de um bom texto, nas orelhas, assinado por Caetano Galindo, que publicou recentemente sua tradução do Ulysses. As cartas correspondem aos poucos períodos em que os dois estiveram afastados. Claro, as cartas realmente pornográficas ou escatológicas são umas poucas, talvez dez em um conjunto de mais de cinquenta, mas elas encantam pela franqueza, se destacam por escancarar o quão forte e nada platônico era o amor de Joyce por Nora, dão conta de como sexo e amor são centrais no relacionamento deles. Desde as primeiras cartas, cartões postais e notas curtas acompanhamos um James Joyce enfeitiçado, realmente apaixonado, ciumento, obsessivo, inseguro e frágil, mas também sem medo de reiteradamente identificar Nora como o descanso de suas loucuras, sem vergonha de contar da necessidade imperiosa de estar próximo dela. O Ulysses é a história mais humana já escrita. E o Ulysses e o Bloomsday nascem no dia em que Joyce se encontrou com Nora pela primeira vez. Nestas cartas vislumbramos um pouco da vida privada de Joyce, temos a chance de partilhar a intimidade dele e de quem foi tão fundamental para que ele engendrasse tudo o que publicou. Certamente Fernando Pessoa nunca teve acesso a estas cartas, mas pensou em coisas assim quando disse que apenas as cartas ridículas são verdadeiras cartas de amor. 
[início 23/11/2012 - fim 27/11/2012] 
"Cartas a Nora", James Joyce, organização, apresentação e tradução de Sérgio Medeiros e Dirce Waltrick do Amarante, São Paulo: editora Iluminuras, 1a. edição (2012) brochura 14x21cm, 149 pág. ISBN: 978-85-7321-398-3 [edição original: Selected letters of James Joyce, editor: Richard Ellmann (New York: Vicking Press) 1975]

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

epifanias

Para os cristãos epifania é a revelação divina de Jesus, a visita que ele recebeu dos três reis magos, evento comemorado no dia de reis, o seis de janeiro de cada ano. Já secularmente e/ou literariamente falando epifania é uma forma não divina de revelação, a súbita percepção de uma verdade, uma associação inusitada de idéias, um insight ou intuição sobre algo, ainda que não verbalizável. Joyce não inventou o conceito. Talvez o uso da palavra epifania para o conceito tenha sido uma escolha original dele (mas há quem diga que Ralph Waldo Emerson já o havia feito), enquanto Gerard Mankey Hopkins, William Wordsworth, além de místicos, como Hildegard of Binge e Marguerite Porete, também fizeram uso deste procedimento em suas produções poéticas. Joyce apresenta sua teoria pela primeira vez no inacabado "Stephen Hero" (em parte adaptado no romance "Retrato do artista quando jovem") numa passagem na qual descreve a conversa de uma moça com seu namorado e associa a hesitação da moça com a paralisia incorrigível da Irlanda. Joyce passou a  registrar o que ele entendia por epifanias em um caderno (e certamente utilizou parte delas no Ulysses e no Finnegans Wake). Dentre as prováveis 71 epifanias originais produzidas por Joyce descobriu-se os manuscritos de 40, que foram publicadas em livro no início dos anos 1990 [James Joyce: Poems and Shorter Writings, editors: Richard Ellmann, A. Walton Litz and John Whittier-Ferguson (Londres: Faber and Faber) 1991]. Comprei o livro com entusiasmo, mas não gostei muito do resultado. É mesmo uma pena, mas um leitor não familiarizado com a obra de James Joyce (e talvez também aquele não familiarizado com o aparato crítico sobre sua obra) pode até ter ouvido falar sobre epifanias, mas não vai entender nada sobre elas lendo esse livro. Claro, as 40 epifanias remanescentes estão ali, traduzidas e lado a lado com os originais. O livro oferece isso, óbvio, mas o eventual (e neófito) leitor dificilmente vai entender o que há nelas de belo e fundamental (ou o que há de revelador e questionador nelas). A apresentação assinada por Dirce Waltrick do Amarante, incluída nas orelhas, é boa, e ajuda um tanto ao convidar o leitor para aventurar-se com o livro, apontando para seu valor, mas o ensaio assinado pelo tradutor Piero Eyben é maçante demais, técnico e acadêmico demais, para que o leitor passe por ele antes de chegar às epifanias e tenha ainda algum ânimo. Paciência. Talvez a proposta editorial fosse esta mesmo. Apresentar as epifanias e deixar ao leitor o exercício de reconstruir o sentido de cada uma delas, forçando-o a fazer suas próprias associações. Sabe-se lá. Eu, vou em frente.
[início 16/11/2012 - fim 19/11/2012] 
"Epifanias", James Joyce, tradução de Piero Eyben, São Paulo: editora Iluminuras, 1a. edição (2012) brochura 14x21cm, 42 pág. ISBN: 978-85-7321-397-3 [edição original: James Joyce: Poems and Shorter Writings, editors: Richard Ellmann, A. Walton Litz and John Whittier-Ferguson (Londres: Faber and Faber) 1991]