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sexta-feira, 19 de abril de 2019

a arte do medo

Dilan Camargo é um escritor gaúcho respeitado e premiado que se dedica mesmo a divulgação de sua arte, sobretudo em escolas e bibliotecas públicas, ajudando a formar novas gerações de leitores. Ele já publicou muita coisa, mas dele só li e registrei aqui "O man e o brother", volume de contos que trata de questões afeitas ao público adolescente. No final do ano passado ele lançou "A arte do medo", um volume de poesias. São três seções: a que abre e dá nome ao livro, com 23 poemas; uma dita "O teatro da cachorra", com 32 e outra, final e curta, intitulada "A razão cínica", composta de 18 poemas numerados, como em lições, reflexões sobre um tema. Há uma unidade temática em todos os 75 poemas (além dos que citei acima há dois mais, um na página final e outro na contracapa, que funcionam como uma espécie de coda às três partes do livro). Dilan fala deste nosso mundo contemporâneo, duro, de contradições, incertezas, assombros, pequenas e grandes mazelas, delinquência e violência, tristezas individuais e coletivas. Na segunda seção (O teatro da cachorra) o poeta parece querer identificar ou dar voz às múltiplas facetas das gentes e coisas que vivem naquele duro mundo contemporâneo descrito na primeira seção. Na terceira seção Dilan explora o conceito de "razão cínica" engendrado pelo filósofo alemão Peter Sloterdijk e divulgado aqui, ainda nos anos 1980, pelo psicanalista brasileiro Jurandir Freire Costa, para quem o poema é dedicado. O livro tem um projeto gráfico que abusa de grafismos, ilustrações e tipografias, talvez pensando no apelo visual que esse tratamento poderá ter sobre um público leitor pouco habituado à leitura, notadamente poesia. Apesar de interessante achei o resultado final um tanto poluído demais. Acredito que os poemas sejam fortes o suficiente para prenderem a atenção do leitor, para oferecerem a ele temas de reflexão, cumplicidade. Cada um deles é um viático, um ensinamento sobre a arte de não ter medo da vida e das coisas. Vale! 
Registro #1383 (poesia #109) 
[início: 08/04/2019 - fim: 12/04/2019]
"A arte do medo", Dilan Camargo, ilustrações de Núbia Huff, Porto Alegre: Minha lei é ler, 1a. edição (2018), brochura 12x18 cm., 100 págs., ISBN: 978-85-54196-00-4

sábado, 30 de junho de 2012

o man e o brother

Li este pequeno livro de contos ainda no início de maio. O Dilan Camargo iria lançá-lo aqui em Santa Maria (na boa livraria Athena) e eu havia me programado para conversar com ele sobre suas histórias. Mas naquele dia mesmo Dilan sofreu um acidente sério e tudo teve de ser cancelado. Ele está bem agora, mas sabe-se lá quando virá para uma outra manhã de livros e festa. Logo veremos. "O man e o brother" é um livro pensado para o público adolescente. Os contos são morais, mas não com a moral tola daqueles que pensam em impingir regras, mas sim de um sujeito que sabe viver em uma sociedade complexa e acredita poder contribuir com idéias e propostas para fazer dela um lugar melhor.  Os pequenos contos são uniformes, narram a inaptidão e o estranhamento mútuo entre pais e filhos, ou melhor, entre pessoas mais velhas e pessoas mais jovens. Cinco deles parecem reflexões de filhos sobre as pessoas mais velhas que as cercam: acompanhamos registros das memórias sobre um pai ausente; de uma mãe que sabe ser ética e transmitir esta ética ao filho; do desespero esmagador de um pai; das limitações tecnológicas de um outro; do comportamento excêntrico de um tio distante. Em outros cinco o registro parece ser o de filhos que não vêem nas pessoas mais velhas (sejam seus pais ou não) nada digno de orgulho ou valor: Dilan nos apresenta um garoto que decide se afastar de uns bandidos; uma garota mimada e estúpida (quase sinônimos neste conto); uma outra, delirante e lasciva em uma clínica psiquiátrica; um grupo de garotos que joga bola, alheio ao mundo (como sempre deve ser); e por fim um garoto que tenta entender o comportamento de um mendigo soturno, calado. A linguagem é muito bem cuidada, os contos, nem sempre previsíveis (como costuma acontecer com histórias pensadas para o público infanto-juvenil) no limite do lirismo, mas sem ofender nunca a inteligência do leitor. A edição é muito boa. Vamos a ver se noutro dia consigo um autógrafo dele neste meu exemplar. [início 07/05/2012 - fim 08/05/2012]
"o man e o brother", Dilan Camargo, Porto Alegre: 8Inverso, 1a. edição (2012), brochura 14x21 cm, 96 págs. ISBN: 978-85-62696-11-4