terça-feira, 22 de agosto de 2017

morte em terra estrangeira

Depois de ler o nono volume da série de Donna Leon dedicada as aventuras de seu comissário Guido Brunetti ("Nada como ter amigos influentes") resolvi ler preferencialmente os demais na ordem cronológica de sua publicação. O primeiro volume, "Morte no teatro La Fenice", já registrei aqui na semana passada. O segundo é esse "Morte em terra estrangeira". Assim como o anterior não é um romance policial convencional. O texto é longo, as digressões bem variadas e o desfecho não tem nada de heroico e brilhante, antes verossímil e falho, como na vida real costumam ser os desfechos dos crimes e seus desdobramentos mundanos. Brunetti investiga as circunstâncias da morte de um militar americano em Veneza. O que poderia parecer apenas latrocínio mostra-se algo bem mais complexo e sutil. A história envolve questões ambientais; a presença de militares americanos (milhares deles) em território italiano, como num mundo à parte; as diferenças entre o norte e o sul italiano; a influência da máfia na sociedade; os caminhos do dinheiro e do poder. Os detalhes curiosos da vida de um casal de venezianos, o comportamento de seus filhos adolescentes assim como as reflexões sobre as variantes dialetais da população e as regras de convivência entre as classes sociais dão estofo à narrativa puramente policial, de mistério, que se conduz no livro. A geografia da cidade, o labirinto movente suspenso nas águas, é como um personagem a mais na trama. Os diálogos entre os personagens são muito bons e a descrição do clima, da arquitetura e dos estados de espírito dos protagonistas igualmente bem construídas. Sim, haverá mais volumes desta curiosa escritora em breve. Vale.
Registro #1205 (romance policial #61)
[início: 26/07/2017 - fim: 28/07/2017]
"Morte em terra estrangeira (Brunetti #2)", Donna Leon, tradução de Luiz A. de Araújo, São Paulo: Editora Schwarcz (Grupo Companhia das Letras), 1a. edição (2004), brochura 12x18 cm., 339 págs., ISBN: 978-85-359-0585-5 [edição original: Death in a strange country (New York: Harper Collins) 1993]

domingo, 20 de agosto de 2017

fraturas de relações amorosas

Acho que foi o Weaver Lima quem me falou do Cláudio Portella, mas não estou certo. Será que inventei uma amizade entre eles apenas pelo fato de ambos serem de Fortaleza e da mesma geração? Não sei dizer. De qualquer forma, um dia comprei esse "Fraturas de relações amorosas" e deixei-o numa pilha de guardados para ler mais tarde. Esqueci-me do livro, claro, mas reencontrei-o por acaso no mês passado, quando tirei uns dias para só viajar e ler, sem aborrecimentos. Trata-se de uma narrativa experimental, um monólogo teatral, um jogo dramático. Vou identificar o livro aqui nestes registros como romance, mas talvez o Portella o classifique de outra forma. São 417 cantos curtos, numerados em algarismos romanos, onde se faz um censo dos dias do relacionamento entre dois sujeitos, das metamorfoses pelas quais passam seus corpos, das facetas do amor entre eles. O narrador (Felipe) vive amasiado com um travesti, Marcelo, que depois torna-se Cassandra. Entretanto Felipe também vive com uma mulher, Aparecida, com que tem um filho, que em algum momento morrerá. Marcelo não tem ciúme de Aparecida ou das outras mulheres com quem Felipe se relaciona, mas não suporta a ideia de que ele se envolva com um outro travesti. O narrador a quem Portella dá voz não tem pudor, diz como Felipe e Marcelo fazem sexo e amam, afinal sexo e amor são o sal da vida, precisam ser praticados para que a vida tenha sentido. O narrador conta sem medo sua odisseia particular, se desnuda, expõe-se, faz uma autoanálise selvagem de si e de seus atos, garimpa sua memória e a mistura com aquilo que parece inventar. Seu monólogo é uma forma de suportar os desastres desta vida. No livro não há julgamento, cabotinismo, hipocrisia, moralismos bestas. Apenas uma realidade lírica. No mundo selvagem, fragmentado e doido que o Portella nos apresenta, reinam sim o amor e a vontade. Sujeito curioso esse Portella. Há outros livros dele por aí. Vou procurar. 
Registro #1204 (romance #324)
[início: 06/06/2017 - fim: 02/08/2017]
"Fraturas de relações amorosas", Cláudio Portella, Fortaleza: Edições CP, 1a. edição (2016), brochura 14x21 cm., 100 págs., ISBN: 978-85-420-0767-1

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

solidão e outras companhias

Com esse seu "Solidão e outras companhias", o jovem jornalista Márwio Câmara foi finalista de um prêmio literário fluminense no ano passado. Recentemente  alcançou ser editado pela boa Oito e meio. São treze contos, quase todos bem curtos, mas suficientemente bem escritos para que Márwio mostre seu domínio do ofício. Os contos gravitam o mundo da cultura, notadamente em suas expressões mundanas, da literatura, da música, do cinema. Todos os narradores, homens ou mulheres, têm ambições literárias, projetos de ficção, refletem sobre o processo e as técnicas de construção dos livros. Num dos contos ("Luz nas pupilas") encontramos uma boa e original variante daquele aforismo de Chuang-Tzu, em que o filósofo se pergunta se sonhou ser uma borboleta ou é afinal uma borboleta que sonha ser homem. Similarmente, todos os contos podem ser lidos como histórias que um autor inventa (histórias que de certa forma acaba descartando, abandonando, por preciosismo) ou fragmentos da vida de um autor que ama a literatura e experimenta na ficção uma espécie de fuga da realidade. As histórias tratam também de relações familiares, do tédio na vida, da educação sentimental, do cotidiano dos jovens universitários que estudam ou tem trabalhos provisórios. Mesmo quando Márwio flerta com clichês (memórias de amantes em Paris, a musa literária travesti, o sexo acrobático, a história ouvida do taxista, o consultório de psicanálise como palco) ele se safa bem e salva muito bem os contos. Ojo, esse é um jovem autor que vale a pena acompanhar. Vale.
Registro #1203 (contos #140)
[inicio: 15/07/2017 - fim: 30/07/2017]
"Solidão e outras companhias", Márwio Câmara, Rio de Janeiro: editora Oito e meio, 1a. edição (2017), brochura 13,5x20,5 cm., 93 págs., ISBN: 978-85-5547-043-1

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

os prazeres dos lugares inóspitos

Esse livro faz parte da boa coleção da Relógio D'Água dedicada a relatos de viagem. Foram publicados já uns quinze volumes, dos quais registrei aqui apenas dois: "Homenagem a Barcelona", de Colm Tóibín, e "Veneza: Um interior", de Javier Marías. Neste estão reunidos dois textos de Robert Louis Stevenson, o conhecido autor de "A ilha do tesouro" e de "O estranho caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde". O primeiro texto é o ensaio que dá nome ao livro, "Os prazeres dos lugares inóspitos", publicado originalmente num jornal escocês, em 1874. O segundo é um relato de viagem propriamente dito, "Viagens com uma burra pelas Cévennes", publicado em livro em 1879. Se no ensaio o leitor acompanha reflexões e argumentos teóricos, derivados de experiências de viagem e do entendimento prático da solidão dos viajantes, no segundo encontramos algo menos cerebral, algo muito vívido, já que se tratam das transcrições de um diário de viagem. No ensaio Stevenson propõe um paradoxo estóico: para ele qualquer lugar é suficiente bom para nele habitarmos, mas apenas em uns poucos alcançamos passar horas realmente agradáveis. Ele fala da quase impossibilidade de explicar a alguém o prazer das viagens. Ora é apenas o conforto de uma sombra que marca todo um conjunto de sensações, ora as epifanias chegam por conta de uma paisagem ordinária, comum, dos vapores de uma torta recém preparada, do som difuso do voo dos pássaros, do crespo e sombrio mar ou de nossa imaginação, que teima em provocar associações sem fim entre a paisagem e nosso mundo interior, nosso continuamente mutável estado de espírito. No relato da viagem pela Cévennes, região montanhosa da parte sul do maciço central francês, ao norte de Montpellier, acompanhamos doze dias de aventuras de Stevenson. Ele não era exatamente jovem na época deste passeio, início do outono de 1878 (tinha já quase trinta anos). Cévennes é conhecida por ter sido palco de uma importante rebelião de protestantes calvinistas no início do século XVIII, a dos Camisards. Exatamente por isso boa parte das reflexões de Stevenson contrasta os hábitos católicos e protestantes, assim como a geografia acidentada daquele lugar e de sua Escócia natal. Nos doze dias de viagem, Stevenson percorre cerca de 200 Km, de Le Puy-en-Velay a Saint-Jean-du-Gard, quase sempre rumo ao sul, acompanhado de uma burra, Modestine, que tem um papel relevante nas histórias, dada a inaptidão de Stevenson como condutor de animais. O ambicioso projeto de Stevenson é "uma aventura puramente descomprometida, tal como aquela dos viajantes heroicos dos primórdios", que oferecesse a ele a experiência de "encontrar-me sem saber orientar-me, tão pouco familiarizado com o que me rodeasse como o primeiro homem na terra, qual náufrago explorando um território". Pioneiro do que hoje chamamos de camping selvagem, Stevenson percorre colinas e vales, frequentemente longe dos vilarejos, perde-se e retorna às trilhas do lugar, testa a confiança e desconfiança dos habitantes, pouco acostumados a forasteiros que não fossem vendedores (ele sempre se apresenta como um "autor"). A maioria das noite ele dorme no campo, mesmo quando venta forte ou chove. Em algumas encontra abrigo em estalagens e em um monastério trapista. O registro de Stevenson lembrou-me de dois outros diários de viagem que li recentemente: o de Heine em sua "Viagem ao Harz" e os de Josep Pla, pela catalunha, em seus "Cartas de lejos", "Cinco historias del mar", e pela Itália no "Cartas de Itália". Interessante mesmo.
Registro #1202 (crônicas e ensaios #213)
[início: 25/07/2017 -  fim: 28/07/2017]
"Os prazeres dos lugares inóspitos", Robert Louis Stevenson, tradução de Frederico Pereira, Lisboa: Relógio D'Água Editores (coleção Viagens), 1a. edição (2016), brochura 13x20 cm., 169 págs., ISBN: 978-989-641-651-4 [edição original: On the Enjoyment of Unpleasant Places (Edinburgh: Portfolio) 1874; Travels with a Donkey in the Cévennes 1879]

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

acre

Flanando por São Paulo nestes dias de intervalo entre semestres letivos, eis que soube do lançamento de "Acre", segundo romance de Lucrecia Zappi e um dos primeiros livros editados pela recém fundada todavia, spin-off da cia das letras, digamos assim. A sessão de autógrafos do livro, lá na boa livraria da vila (madalena), foi precedida por um bate papo rápido entre a autora e Michel Laub, autor dos bons "Diário da queda" e Tribunal da quinta-feira. Ele soube perguntar, extrair de Lucrecia algo da gênese do livro, de seu processo inventivo e ambição, deixar a audiência curiosa sobre a narrativa. O livro é curto e se deixa ler com calma. Nele se contrastam questões ambientais e transformações na paisagem urbana; a violência mais natural do campo com aquela que se preferiria fosse invisível numa grande cidade; o tolo cabotinismo da classe média com os ardis de quem acostumou-se com a aspereza da vida; a memória idílica de uma juventude em Santos (uma Santos provinciana dos anos 1980) com a realidade da São Paulo contemporânea, cidade que talvez não tenha mais a capacidade de devorar deserdados sem regurgitar uma grande maioria. Uma sequência de coincidências percorre os capítulos (e se você não gosta de spoilers abandone agora mesmo esse registro): um sujeito volta para São Paulo após quase trinta anos justamente para o apartamento lindeiro ao de um casal que ele conheceu muito bem na juventude; esse sujeito presencia um crime que lhe granjeará uma vantagem indevida na relação com esse casal; sempre há alguém no livro que oportunamente torna-se uma espécie de coro grego, esclarecendo o protagonista do que se passa na trama (no seu drama, afinal). "Acre" é de fato um livro bem escrito, notadamente pela forma de fundir os diálogos no corpo do texto, mas me senti incomodado em vários momentos (e não pelos temas  que surgem na trama, mas sim por uma frouxidão constante que talvez se corrigisse esclarecendo menos, tornando as escolhas dos personagens mais ambíguas, menos previsíveis). Talvez o que o livro mais acertadamente nos lembre é que ninguém fica casado trinta anos impunemente. Ojo, vamos a ver o que essa curiosa autora nos preparará no futuro.
Registro #1201 (romance #323)
[Inicio: 01/08/2017 - fim: 03/08/2017]
"Acre", Lucrecia Zappi, São Paulo: editora Todavia, 1a. edição (2017), brochura 13,5x21 cm., 204 págs., ISBN: 978-85-93828-00-3

sábado, 12 de agosto de 2017

across the land and the water

Os poemas reunidos em "Across the Land and the Water" foram escritos por W.G. Sebald entre 1964 e 2001. Trata-se de um livro de 2008, publicado postumamente, organizado pelo editor Sven Meyer. Estão nele reunidos tanto poemas que já haviam sido incluídos em produções anteriores, como material inédito, hoje depositado nos arquivos Sebald da "Deutsche Literaturarchiv Marbach". Os dois livros de poemas dele que já registrei aqui: o pequeno e belo "Sin contar / Unerzählt", de 2003, e o longo e ambicioso "Del natural / Nacht der Natur", de 1988, não fazem parte desta seleção. Os poemas foram traduzidos, do alemão para o inglês, por Iain Gaibraith. Os quatro conjuntos de poemas (Poemtrees, School Latin, Across the Land and the Water, The Year Before Last) falam de fronteiras, viagens e paisagens, de leituras e registros do passado, do tempo e da memória, de mitos, lendas e tradições alemãs, do conforto da erudição, da experiência do exílio. Alguns destes poemas foram publicados em revistas e jornais anteriormente, mas nunca em livro. É difícil dizer se há um padrão neles (vamos combinar: sou o menor dos anões quando se fala em ler sistematicamente poesia; li esses poemas traduzidos e meu inglês é apenas regular; não se aprende muito das sutilezas de uma proposta poética apenas com a leitura ligeira que meu método de leitura utiliza; como sintetizar quarenta anos de produção poética, considerando que todos nos metamorfoseamos continuamente?). Todavia foi com a inteligência afetiva (em termos proustianos) que me aproximei destes versos. Os 88 poemas deixam-se ler e encantam. Estão distribuídos cronologicamente. Ora o narrador fixa nos versos uma epifania, cerebral ou mágica, ora uma bobagem qualquer, corriqueira, que nós, os não-poetas, nunca somos capazes de sentir, e ver, e escrever, mas entendemos quando lemos, como se fosse algo preso dentro de nós, subitamente revelado. Sempre só e curioso, fala do mundo e de si, congelando o tempo. Os poemas crescem em tamanho ao longo do tempo: os mais antigos são curtos, crípticos; os mais longos acadêmicos, intrincados sim, mas com sutis chaves de leitura. O título, retirado de um dos conjuntos de poemas, provavelmente escrito ainda nos anos 1980, dá conta daquela experiência que temos ao viajar sobretudo em trens, quando a paisagem se movimenta relativamente a nós em grande velocidade, tirando o foco de quase tudo, mas preservando uns pontos de referência, cinzas, verdes e azuis quase sempre, escolhos da vegetação e das águas que cortamos, como o deus Mercúrio corta o ar. O livro inclui um longo apêndice onde as alusões mais crípticas dos poemas são explicadas pelo tradutor. Um leitor verdadeiramente interessado na obra poética de Sebald tem nestas notas farto material de interpretação. Um Ulisses brota de um poema, a memória de umas férias em Marienbad doutro; o passageiro em trânsito vê da janela um mundo que passa veloz e pensa, inventa mundos, faz associações. O mundo mágico de Sebald é elástico, contém multidões whitimanianas, surpreeende sempre o leitor. Num poema, talvez em um erro tipográfico, aparece Saõ Paulo, ao invés de São Paulo, quando ele faz o censo das tribos viajantes de um aeroporto. Saõ Paulo, eh, Saõ Paulo, mas que diabo quer dizer isso?. Quando soube da morte de meu pai, o legítimo Aguinaldo Severino, no último 11 de julho, um domingo aziago, às 21h30min, fiz os preparativos de viagem, levando na bagagem até São Paulo apenas esse Sebald para ler. Logo após o sepultamento, há exatos dois meses, num início de tarde, como agora, 14 horas mais ou menos, do 12 de junho, eu repetia mentalmente, como um mantra, as palavras de Sebald: "Life is beautiful, but my day is truly wrecked".
Registro #1200 (poesia #85)
[início: 19/12/2016 - fim: 11/07/2017]
"Across the Land and the Water: Select poems, 1964-2001", W.G. Sebald, tradução de Iain Galbraith (do alemão para o inglês), London: Penguin Books, 1a. edição (2012), brochura 13x20 cm., 213 págs., ISBN: 978-0-141-04486-6 [edição original: Über das Land und das Wasser. Ausgewählte Gedichte 1964–2001 (München: Carl Hanser Verlag) 2008]

terça-feira, 8 de agosto de 2017

morte no teatro la fenice

Impressionado com a boa prosa de Donna Leon, após ter lido "Nada como ter amigos influentes" resolvi procurar outros livros dela. Encontrei entre tantos seu primeiro livro da série dedicada aos sucessos do comissário Guido Benetti, "Morte no teatro La Fenice". Não é um romance policial convencional, daquele tipo em que um problema é apresentado e rapidamente os passos lógicos da dedução do crime se seguem, com um ou outro pequeno desvio narrativo (ou uma questão política, sociológica, moral ou até mítica). O texto é longo, quase quatrocentas páginas. Donna Leon descreve os estados de humor, fisionomia e caráter dos personagens em detalhe e não se furta fazê-los divagar de quando em quando, abandonando completamente o problema ou crime a ser resolvido. Neste volume o leitor é apresentado a morte de um famoso maestro alemão durante os atos de uma peça no teatro La Fenice, emVeneza (uma joia sereníssima, que vale uma visita se o sujeito está por lá). A geografia da cidade e sua arquitetura dominam o livro. Brunetti cruza várias vezes os canais entre as ilhas da cidade para estabelecer o nexo entre às circunstâncias da morte do sujeito e sua história, que remonta os tempos da ascensão do nazismo, seus casamentos, seus admiradores e detratores. Como usualmente acontece neste tipo de livro, mesmo os suspeitos mais óbvios são afinal suspeitos que devem ser investigados. Brunetti conta com a colaboração de um eficiente médico legista, Rizzardi, o apoio de sua mulher, Paola, uma professora universitária e com a pressão de um cabotino procurador, Patta. Preciso ler mais livros dela para completar esse elenco, mas esse tipo de personagens são caricatos ao limite nos romances policiais. Brunetti não, parece ser um personagem com estofo, com invulgares qualidades morais e habilidades próprias de seu ofício. Ao contrário de seu congênere ficcional, o comissário Montalbano, de Andrea Camilleri, Brunetti nunca se exalta, é cordato e educado, porém firme em suas decisões. O livro aborda muito bem uma questão de gênero, ou melhor, as várias facetas das relações entre homens e mulheres no século XX. Acho que continuarei sim a ler livros desta "grande senhora do crime", como seus editores costumam chamá-la. Logo veremos. 
[início: 08/07/2017 - fim: 13/07/2017]
"Morte no teatro La Fenice (Brunetti #1)", Donna Leon, tradução de Lídia Geer, Lisboa: Planeta Manuscrito (Grupo Planeta), brochura 12,5x19 cm., 365 págs., ISBN: 978-989-657-198-2 [edição original: Death at La Fenice (New York: Harper Collins) 1992]

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

nombre falso

Li uma ou outra cousa do Piglia há muitos anos. Lembro-me sobretudo de "Respiração artificial" e de um livro de ensaios sobre literatura que comecei, mas não cheguei a terminar, "Formas breves". Sei que está nos guardados, mas onde?, ai de mim. Depois que ele morreu, no início deste ano, resolvi procurar novamente seus livros. Encomendei também os volumes dos Diários de Emílio Renzi, sua autobiografia disfarçada, mas como ler esses volumes antes de voltar às primeiras encarnações de Renzi e de Piglia? Encontrei "Nombre Falso" na última feira do livro de Santa Maria, pelas mãos, claro, de don Miguel, lá da Calle Corrientes. Trata-se de contos antigos, produzidos em 1975. A bem da verdade "Nombre falso", que da nome ao livro, é uma novela. O leitor acompanha os sucessos da gênese e descoberta de um raro manuscrito atribuído a Roberto Arlt, importante escritor argentino, da geração imediatamente anterior a de Piglia. Em ritmo de histórias policiais a narrativa homenageia Arlt, misturando trechos realmente inventados por Arlt com pastiches, situações rocambolescas e reflexões sobre o processo de criação literária e o mercado dos livros. Os contos propriamente ditos são cinco. Em "El fin del viaje" acompanhamos um sujeito que viaja de ônibus pelo interior argentino e conversa com mulher, que teria sido cantora de ópera e que aparentemente cometerá suicídio; "El Laucha Benítez cantaba boleros" é uma história de amor e morte entre dois boxeadores; "La caja de vidrio" é o relato de um rapaz aprisionado em uma relação com uma pessoa mais velha, um sedutor que reflete todas as misérias que o rapaz imagina serem dele; em "La loca y el relato del crimen" um jovem repórter de jornal decifra um crime através do entendimento da linguagem de uma mulher perturbada, mas a situação é bizarra demais para ser publicada por seu editor; por fim, em "El precio del amor", uma mulher recebe a visita de um amante, que lhe furta um bibelô junto com a ideia do amor entre ambos. Com uma dessas histórias ("La loca y el relato del crimen"), Piglia ganhou um curioso prêmio literário em 1975: duas passagens para Paris e quinze dias de estadia pagos. Apesar de não ser propriamente um iniciante, pois já havia publicado dois ou três livros antes, esses dias de escritor premiado em Paris deram-lhe a ilusão ou auto estima que faltava para começar a exercer seu ofício com maior disciplina. Todavia, ele ficou boa parte do tempo da viagem com medo de ser desmascarado como escritor medíocre. Sujeito divertido esse.
[início: 14/05/2017 - fim: 05/07/2017]
"Nombre falso", Ricardo Piglia, Buenos Aires: Debolsillo / Random House Mondadori (coleccíon Contemporánea), 1a. edição (2014), brochura 13x19 cm., 184 págs., ISBN: 978-987-566-979-6 [edição original:  Buenos Aires / Argentina: Siglo Veintiuno Editores, 1975]

quinta-feira, 27 de julho de 2017

O método albertine

Quem primeiro falou-me deste livro foi don Ronai Rocha, filósofo dos bons. Trata-se de um pequeno volume, coisa de quarenta ou cinquenta páginas, onde Anne Carson, elenca um conjunto de asserções derivadas da relação entre Albertine Simonet e o narrador do ciclo "Em busca do tempo perdido", aquele que convencionou-se chamar de Marcel, como seu inventor, Marcel Proust. A tradutora e organizadora do livro é Vilma Arêas, ensaísta e professora paulista. Carson reúne em seu livro 59 sentenças, enunciados, que a tradutora preferiu chamar de fragmentos, e 16 apêndices curtos, que tratam de conceitos e temas derivados daqueles fragmentos iniciais. Se quase todos fragmentos e apêndices falam do universo que brota dos volumes "La Prisonnière" e "Albertine disparue", percebe-se que alguns focam na natureza da paixão e ciúme, do ponto de vista sociológico e psicológico, enquanto outros tratam dos limites entre ficção e realidade, da transposição de elementos da vida privada na literatura. Há duas coisas no livro e/ou na tradução que me irritaram. Não entendi exatamente o porquê da escolha do "método" no título, em transcriação de "workout". E os apêndices onde se discute a diferença entre metáfora e metonímia podem funcionar em inglês, mas a tradução para o português torna tudo enigmático demais. Enfim. No livro há grandes sacadas e frases francamente tolas, mas o conjunto é bom. A grande questão do livro (para o meu gosto) fica escondida em um curto fragmento, onde Carson cita um "deserto pós-Proust", definido como o lugar onde vivem a legião dos leitores que realmente leram todo o ciclo de Proust. Assim como a um depressivo é intolerável encontrar forças para continuar a vida após aborrecimentos ou mesmo o tédio, decidir-se a ler outra coisa após ter lido Proust é impossível. Restam então perguntas do tipo: (i) é possível definir-se na vida após um grande fracasso, uma desilusão amorosa ou mesmo a absoluta glória e reconhecimento?; (ii) haverá dedicação ou bravura possível para vencermos a inação e partirmos para um novo projeto?; (iii) não é mais provável que a grande maioria de nós sucumbirá e passará a reler apenas aquele grande livro, incapaz de seguir em frente?. Acredito que todo leitor Proust gostaria de escrever um livro assim (ou deveria ser tentado a tentar escrever um livro assim, explicitando sua obsessão ou familiaridade com o texto). Mas, como já nos ensinou Beckett, a equação proustiana nunca é simples. Cada leitor se aproxima do texto e solidifica suas memórias das passagens de uma forma diferente (nunca conheci quem tivesse exatamente o mesmo sentimento que eu sobre o conjunto dos personagens, à exceção de don Renato Cohen, com quem li quase simultaneamente todo o ciclo, nos gloriosos anos 1980). É isso. Bom divertimento.
[início: 02/07/2017 - fim: 04/07/2017]
"O método Albertine", Anne Carson, tradução de Vilma Arêas e Francisco Guimarães, São Paulo: Editora Jaboticaba, 1a. edição (2017), brochura 14x21 cm., 45 págs., ISBN: 978-85-93478-00-0. [edição original: The Albertine Workout (New York: New Directions / New Directions Poetry Pamphlet - book 13) 2014]

quinta-feira, 20 de julho de 2017

romping through dorian gray

A série de livros "Romping through" homenageia autores irlandeses famosos. Depois do "Romping through Ulysses", do "Romping through Dubliners" (ambos sobre obras de James Joyce) e do "Romping through Dracula" (sobre Bram Stoker), eis que "Romping through Dorian Gray" rende homenagem a Oscar Wilde. Como nas anteriores, esta plaquete introduz ao leitor a ideia global de seu livro mais famoso, "O retrato de Dorian Gray" e fornece uma curta biografia do autor. Os autores (a turma do "At it again!", grupo teatral irlandês que produz esquetes ao vivo durante as comemorações festivas dos Bloomsday de Dublin) dão sugestões de várias atividades que expandem a experiência da leitura. Cada episódio ou capítulo do livro ganha uma ilustração, uma citação e alguma informação paratextual, como dados sobre a geografia atual de Dublin e a localização de alguns dos marcos literários da cidade associados a Oscar Wilde: como o local onde nasceu, na Westland Row; o Trinity College, onde estudou; a localização de um monumento em sua homenagem, no belo parque público Merrion Square (e que fica defronte a casa onde a família de Wilde morou por muitos anos); o teatro que ele costumava frequentar quando disputava com Bram Stoker a atenção de uma atriz (Florence Balcombe, com quem Stoker acabou casando); e os demais parques, pubs e hotéis de Dublin. Um outro mapa identifica os locais de Londres onde se passam os sucessos de "O retrato de Dorian Gray": o estúdio onde Basil Hallward pinta o retrato de Dorian; as casas de Henry Wotton, Lady Agatha e Dorian Gray, próximas ao Hyde Park; o teatro onde atua Sibyl Vane e o hotel Bristol, onde Henry anuncia seu noivado com Sybil. Esses mapas permitem antecipar algo da experiência de flanar por Dublin e Londres, procurando cousas relacionadas ao Oscar Wilde ou Dorian Gray. São sempre divertidos esses livrinhos. Agora só me falta registrar a última das plaquetes, aquela dedicada à Jonathan Swift. Sláinte!
[início: 19/05/2017 - fim: 21/05/2017]
"Romping through Dorian Gray", Maite López, Jessica Peel-Yates, Niall Laverty (ilustrações), James Moore, Dublin: At it Again! (2a. edição) 2016, brochura 10,5x15,5 cm., 60 págs., ISBN: 978-0-9576559-6-6

domingo, 16 de julho de 2017

mari hirata sensei

Como já disse em um registro antigo (sobre o delicioso "As minhas receitas japonesas"), um dia, lá dos tempos do IFUSP, conheci o Toninho, e depois a Alice, que me apresentaram a Beth e o Fábio, que por sua vez me convidaram para estudar inglês na casa da Sibele, que muito depois me apresentou o Koji, que é irmão da chef Mari Hirata. Se é que eu me lembro bem estive apenas uma vez com ela, em jantar na casa da Sibele e do César Koji, mas não estou certo. Fica-se velho e a invenção começa a substituir a memória, como nos livros, nos romances, na ficção. Se aquele "As minhas receitas japonesas" era um livro assinado ela, esse "Mari Hirata Sensei" é um livro sobre Mari Hirata, assinado desta vez por Haydée Belda. Haydée é uma aprendiz mas não uma amadora. Ela tem uma memória afetiva da culinária de suas avós e nos anos 1990 teve aulas com grandes cozinheiros americanos. Em algum momento, em Paraty, convidada a participar de uma série de aulas na cozinha de uma amiga, ela tornou-se aluna da Mari. O encantamento foi imediato. Um dia Mari convidou-a para registrar em livro a sua habilidade de ensinar a cozinhar. A ambição de Mari e Haydée era que esse livro capturasse de fato todas as etapas necessárias para que um leitor curioso conseguisse produzir os pratos nele descritos, sem intimidação, sem medo, sem temor. As fotografias que ilustram as receitas são poderosas, assinadas por dois sujeitos, um japonês (Masaharu Hatta) e um brasileiro (Andreas Heiniger). As receitas são apresentadas na forma convencional: dos pães às entradas; das saladas às sopas; dos peixes às carnes e aves; das sobremesas às geleias. Separadamente estão descritas as receitas básicas da culinária da Mari: arroz, dashi, gari, tsuyu, ponzu, massas e caldas. Há também mimos no livro: O leitor encontra um glossário dos termos gastronômicos e ingredientes mais importantes, curtas biografias de Mari e Haydée, uma lista com endereços de mercados, produtores e chefs japoneses (de Tóquio, basicamente). Os livros de gastronomia são quase sempre previsíveis, mas há vezes em que além das receitas o leitor encontra algo do encantamento e magia que apenas aqueles verdadeiramente compromissados com o oficio de preparar alimentos sabem transmitir. Por mais inusitado que seja, esse livro lembrou-me aqueles editados por Manuel Vazquez Montalbán, como o "La boqueria". Que alegria ler livros assim. Continuo achando que é pena que junto com as belas fotografias o livro não traga também um tanto dos aromas e dos sabores dos pratos.  Evoé Mari, evoé. Evoé Haydée, evoé.
[início 11/04/2017 - fim 15/07/2017]
"Mari Hirata Sensei", Haydée Belda, fotografias de Andreas Heiniger, Masahuru Hatta, São Paulo: Editora Beî Comunicação, 1a. edição (2016), brochura 18,5x25cm, 279 págs. ISBN: 978-85-7850-140-2

quarta-feira, 12 de julho de 2017

história da menina perdida

Vamos a ver. A tetralogia napolitana de Elena Ferrante, iniciada com "A amiga genial" e continuada com "História do novo sobrenome" e "História de quem foge e de quem fica" se encerra com a "História da menina perdida". Esses quatro volumes formam um projeto literário ambicioso, muito bem escrito, e que granjeou sucesso com o público leitor e reconhecimento da crítica literária especializada, cousa não muito fácil de ser simultaneamente alcançada. Nas quase 500 páginas de "História da menina perdida" tudo que estava em suspense na narrativa resta resolvido, todas as circunstâncias e sucessos são explicados, ao leitor é oferecido um rosário de detalhes que contextualizam as transformações pelas quais passam as duas protagonistas da historia (Elena e Rafaella, Lenu e Lila) e todos os demais personagens relevantes. Há uma grande sacada na tal historia da menina perdida, porém mais não posso falar. Cabe ao leitor curioso procurar o volume (ou o google) e ler. Ferrante descreve os anos  maturidade e velhice de Lenu e Lina. A Itália em transformação é confrontada com seus fantasmas (a corrupção entranhada no Estado, o terrorismo, as ações das brigadas vermelhas, a onipresença da máfia). O país purga (ou não purga) juridicamente esses crimes coletivos (mas apenas prendendo os suspeitos de sempre, livrando da cadeia os canalhas de sempre). O contraste entre os papeis dos homens e mulheres na sociedade italiana continua o tema relevante do livro. Não há explicitamente juízo de valor, mas uma exposição realista sobre a condição feminina na Itália da segunda metade do século XX. Elena e sua amiga Rafaella criam suas filhas pequenas, veem e interferem nas transformações pelas quais passam Itália e Nápoles, amigos e inimigos, os parentes e a natureza (até sobre um grande terremoto, o de 1980, a narradora tem tempo de falar na trama). O volume começa com a volta de Elena à Nápoles, em 1979, no início de sua escalada para tornar-se de fato uma escritora respeitada, cheia de compromissos. Segue até 2010, fechando o ciclo, quando as duas amigas alcançam seus 66 anos. É muita informação para se incluir em 500 páginas. Ao contrário do que faz Proust (oká, bem sei que é covardia comparar o ciclo de Elena Ferrante com o ciclo de Marcel Proust, mas releve um pouco a assimetria entre os dois e me acompanhe, se for o caso) Nesse ultimo volume a narrativa é acelerada demais para o meu gosto. São tantos anos de metamorfoses comprimidos, tantos causos e reviravoltas, tantas discussões, mudanças de opinião, surpresas e acasos, quanto a soma dos anos descritos nos três primeiros volumes (que corresponde a mais ou menos trinta anos). Claro, o leitor, já enfeitiçado pela boa prosa de Ferrante percorrerá alegremente os caminhos trilhados pelo livro, mas muito dificilmente terá a oportunidade absorver todo o processo de composição e invenção. E é exatamente essa experiência mágica o que Proust nos dá, ao nos impregnar lentamente com a passagem do tempo, preparando-nos nos dois volumes finais de seu ciclo, para no sétimo e último nos forçar ao choque de revelações em cascata, quase simultaneamente, em uma espécie de câmara lenta. Não quero dizer com isso tudo que esse quarto volume de Elena Ferrante seja ruim. Só não vejo a utilidade de detalhar tantas irrelevâncias apenas para postergar um final digno para aquilo que realmente da força ao livro, ou seja, o contínuo embate, rivalidade, competição e estranhamento mútuo entre as duas amigas. Assim como todos nós, que vivemos nossas vidas apenas com entendimentos provisórios sobre as pessoas que amamos ou odiamos, compreendemos apenas parcialmente o caráter dos sujeitos com quem estudamos ou trabalhamos ao longo da vida, experimentamos apenas a camada mais superficial e mutante da persona daqueles que nos cercam e com os quais convivemos, Lenu e Lila talvez nunca tenham se conhecido completamente. É essa para mim a constatação final e cruel, porem necessária, do livro. Jamais entenderemos as motivações e atos de quem quer que seja, a menos que seja preferível para nos mesmos vivermos continuamente nos iludindo. E é essa exatamente a magia e a potência da vida, a magia e a potência da literatura, aquilo que nos faz continuar. Vale.
[início: 12/06/2017 - fim: 18/06/2017]
"História da menina perdida: maturidade, velhice", Elena Ferrante, tradução de Maurício Santana Dias, Rio de Janeiro: Editora Globo (coleção Biblioteca Azul), 1a. edição (2017), brochura 14x21 cm., 480 págs., ISBN: 978-85-250-6310-6 [edição original: Storia della bambina perduta (Roma: Edizione E/O) 2014]

sábado, 8 de julho de 2017

mergulho na região do espanto

"Mergulho na região do espanto" é o terceiro volume de um ciclo sobre Ouro Preto, tendo sido precedido por "Boca de chafariz" e "Quando os demônios descem o morro". Nunca havia lido nada escrito por Rui Mourão, romancista e professor universitário mineiro, mas os livros tem lá seus caminhos para me encontrar e este, mais açodado que os demais, chegou-me antes que os irmãos mais velhos. Muito bem escrito, o livro oferece ao leitor ao menos duas camadas de leitura. A primeira é aquela da proposta inicial do livro, mágica, que apresenta a convocação fantasmagórica recebida pelo narrador do livro para partir de Belo Horizonte para Ouro Preto, onde estava sendo aguardado. Esse narrador é um solteirão, já aposentado, que na juventude envolveu-se com livros, mas que trocou essa ambição literária pelo pragmatismo da contabilidade, as responsabilidades filiais e a respeitabilidade da vida como bancário. Após a morte da mãe, enterrada em Ouro Preto, ele havia voltado a morar em Belo Horizonte. Hospedado em um hotel da cidade, cujas ladeiras e maravilhas já conhecia bem, o narrador é visitado quatro noites seguidas por fantasmas de antigas encarnações suas, sujeitos ligados ao ciclo de ouro de Minas Gerais (ou, como já nos ensinou o Nava, do Caminho Novo das Minas dos Matos Gerais). Esses relatos, que terminam sempre em violência, são bastante engenhosos e de certa forma independentes. Lembram a estrutura de "Viva o povo brasileiro", de João Ubaldo Ribeiro, onde partindo de um poleiro das almas personagens se apresentam para contar algo de sua história de vida. Todavia, após o leitor ter vencido mais de um terço do livro, quando já acredita que seguiria até o fim em sua toada de narrativas históricas, cada uma com sutis variações linguísticas e temporais, eis que o narrador oferece a segunda forma de rastrearmos o entendimento do que estamos a ler. O narrador volta a Belo Horizonte. Agora o leitor percebe que o livro não trata somente do ouro e de um período da história de Minas Gerais, mas sim do processo criativo de um escritor, da literatura como terapia, do amor pela linguagem como um descanso da loucura (um pouquinho de saúde, já disse o Guimarães Rosa). Assim o livro passa, a exemplo de seu narrador, por uma metamorfose, tornando-se um romance psicológico, policial, onde o analista ou detetive é o alter ego do autor que parte em busca de seus personagens e de sua história. Eu poderia detalhar o que acontece a seguir, as outras viagens do narrador à Ouro Preto, as novas aparições fantasmagóricas, mas privaria o leitor deste registro do encantamento provocado pela boa prosa de Rui Mourão. Muito interessante mesmo. Vamos a ver se um dia encontro outros livros dele. 
[início: 29/04/2017 - fim: 02/07/2017]
"Mergulho na região do espanto", Rui Mourão, Belo Horizonte: Editora UFMG, 1a. edição (2015), brochura 14x20 cm., 341 págs., ISBN: 978-85-423-0142-7

quinta-feira, 6 de julho de 2017

história da chuva

Depois de conhecer o bom "As fantasias eletivas" resolvi procurar mais cousas do Carlos Henrique Schroeder. E foi justamente há um mês, em Blumenau, em uma missão acadêmica, que encontrei esse "História da chuva", publicado originalmente em 2015, como se estivesse sempre lá, esperando por mim. Assim como em vários romances de Vila-Matas há um narrador na história que encarna a biografia e os atos de alguém que se chama Carlos Schroeder, mas, claro, não se trata do autor, mas sim de um preposto literário que tem mais liberdade para conduzir a narrativa e brinca sobre o que é real e o que é ficção. O Schoreder real, autor e dono do texto, alterna três narrativas, coordenadas em muito sentidos, mas ao mesmo tempo simultaneamente ímpares, que saberiam defender-se sozinhas, caso ele decidisse construir cada uma das histórias individualmente. O leitor acompanha os sucessos biográficos de um sujeito, um titereiro, Arthur Sobrossa, que morreu afogado em uma das recorrentes enchentes do rio Itajaí, a de 2008. Ora acompanhamos a história de Arthur e seu amigo Lauro, parceiros em um grupo de teatro; ora a história do narrador (o sujeito Carlos H. Schroeder, mascate das letras que organiza eventos literários pelo interior de Santa Catarina e parece fugir de uma musa dominadora); ora a história/peça de teatro que um personagem, Satin, escreve por inveja para vingar-se simultaneamente de Schroeder e de Arthur. Como arqueólogos que inspecionam um velho palimpsesto deciframos no livro os vestígios das histórias que mais nos interessam, cada uma delas relevante e interessante por si só.  Escrever é inventar mundos, com lógica e verossimilhança apenas verificáveis nos limites impostos por capa e contracapa. Schroeder nos faz curiosos da biografia e destino de seu homônimo e do titereiro que morrerá afogado, naquele terrível 2008, dois sujeitos que partilham o ingrato ofício de operador da cultura, neste país onde falar de cultura parece ser sempre uma ofensa pessoal para alguém (geralmente alguém com o poder de decidir algo). No final do primeiro capítulo de "Orlando", de Virgínia Woolf, o protagonista, abandonado por Sasha, enfrenta tormenta, degelo e as ondas do mar, vê destruição e morte, sente suas lágrimas confundirem-se com a chuva, emite a frase combinada: "Jour de ma vie!" mas, sem obter retorno, logo começar a imprecar maldições às mulheres. Em resposta a tanto sofrimento o mar lhe devolve apenas um espelho partido e uma pedrinha verde. O narrador de Schroeder experimenta no final de "História da chuva", ensopado e cercado pelos escolhos do rio barrento que roubou-lhe o amigo, um desalento semelhante ao de Orlando. Grande livro. 
[início: 01/06/2017 - fim: 09/06/2017]
"História da chuva", Carlos Henrique Schroeder, Rio de Janeiro: editora Record, 1a. edição (2015), brochura 14x21 cm., 157 págs., ISBN: 978-85-01-10538-7

quarta-feira, 5 de julho de 2017

noite adentro

"Noite adentro", de Tailor Diniz, é o terceiro volume de um ciclo de romances que tem muita chance de passar a ser conhecido como sua trilogia da fronteira. Assim como em "A superfície da sombra", de 2012, e "Em linha reta", de 2014, Tailor torna protagonista a fluida, misteriosa e permeável fronteira física entre o Uruguai e o Rio Grande do Sul, no sul do Brasil. E assim como nesses dois romances, em "Noite adentro" confundem-se as fronteiras entre sonho e realidade, entre o vivido no passado e no presente, entre o desejado e o praticado, entre a lei escrita e as convenções estabelecidas entre amigos, entre euforia e desalento, entre o português e o espanhol. No primeiro romance um sujeito cruza a fronteira para visitar uma amiga doente, mas o que seria um exercício de cortesia torna-se uma sucessão de experiências amalucadas (cabe registrar que a fronteira neste caso é seca, uma rua em comum entre duas cidades e países, num centro urbano). No segundo uma garota de programa cruza na fronteira as várias vidas, perigos e sucessos de seus clientes (desta vez as fronteiras estão no campo, afastadas, obrigando os personagens a passar por estradas onde apenas viajantes experientes sabem identificar quando se trata de um país ou outro). Em "Noite adentro" a fronteira é um grande rio, que cobra dos homens mais paciência para cruzar, seja por uma ponte com policiais aduaneiros, seja furtivamente, de barco, fazendo força nos remos. Um sujeito, Antônio, cruza pela primeira vez essa fronteira pela ponte ao anoitecer de um dia frio de inverno, numa espécie de auto exílio. Chega à casa de Inácio, um velho conhecido dos tempos de universidade (e talvez também de algum tipo de atividade clandestina). A narrativa que o leitor acompanhará trata das pouco mais de doze horas desta noite, até o início da manhã do dia seguinte. Após beberem um tanto comemorando o reencontro e os relatos de praxe sobre o passado em comum, Inácio diz a Antônio ter um compromisso já agendado para esta noite, o aniversário de um amigo, e que Antônio deveria acompanhá-lo. Para isso eles cruzam a fronteira, mas desta vez de barco, silenciosamente. Nos capítulos que se sucedem Antônio conhece esse aniversariante, sua mulher e os demais personagens da história, todos envolvidos em uma espécie de conspiração que envolve a chegada de alguém, ou algo, chamado de "El Penitente" e também nas circunstâncias da morte de um sujeito, um brasileiro. Não há sentido em revelar mais que isso da trama. O importante é registrar que o leitor levará muito menos que as doze horas da história para ler o livro. Tudo acontece rapidamente. Bebe-se o tempo todo (um dia destes vou reler o livro apenas para ter uma ideia precisa de quanto cada personagem bebeu); o fogo sempre acesso aquece os viventes; armas são eloquentes extensões do corpo dos homens; carnes são postas a assar, como nas oferendas dos gregos à seus deuses; as mulheres bruxuleiam como as chamas das parrillas, expondo suas carnes aos homens e escondendo segredos; as vozes, versões e histórias truncadas se confundem, como numa litania religiosa. Assim como nos dois romances da fronteira anteriores algo do livro parece brotar do "Traumnovelle", romance de Arthur Schnitzler, que foi adaptado em filme muito bom por Stanley Kubrick (De olhos bem fechados): é o caso, desta vez, da ideia de penitência, do "El Penitente". Bueno. O leitor sempre ganha algo quando lê um livro do Tailor. Em tempo: "Noite adentro" será lançado oficialmente hoje mesmo, 05 de julho, às 19h30min, em Porto Alegre. Perderei esse lançamento, é pena, mas num outro dia vou tentar entrar em contato para conseguir uma dedicatória. Evoé Tailor, evoé.
[início 03/07/2017 - fim 04/07/2017]
"Noite adentro", Tailor Diniz, São Paulo: editora Grua livros, 1a. edição (2017), brochura 14x21 cm, 174 págs. ISBN: 978-85-6178-63-3

segunda-feira, 3 de julho de 2017

blumenau planeta verde

Em um dia de maio, por conta de uma missão acadêmica, tive a sorte de visitar Blumenau. Meus anfitriões da IBES, generosos, presentearam-me com esse belo volume comemorativo dos 150 anos de fundação da cidade. Trata-se de uma edição trilíngue, com textos reproduzidos em português, inglês e alemão. Fartamente ilustrado, o livro é bem mais que um objeto decorativo que poderíamos encontrar e  folhear displicentemente em uma sala de espera qualquer. Acontece que depois que o abrimos dificilmente o deixamos de lado. As imagens são impressionantes. As cenas capturadas registram vividamente os momentos festivos, a passagem do tempo, a rica arquitetura, a diversidade do povo, o colorido da flora e fauna do lugar. As fotografias são assinadas por dois irmãos, Rafael e Daniel Curtipassi. Os textos, assinados por Daniel Curtispierre, dão conta dos acontecimentos mais importantes da cidade: as circunstâncias de sua fundação, os ciclos migratórios que recebeu, a biografia das pessoas que viabilizaram seu crescimento, sua vocação industrial, as atividades culturais e esportivas, a Oktoberfest, o empreendedorismo de sua gente, o terrível impacto das grandes enchentes do rio Itajaí-Açu, a alegria das festas e a diversidade da rica gastronomia que definem aquele lugar. Os textos são bacanas, mas o livro impressiona mesmo pela qualidade das fotografias incluídas nele. Para conhecer melhor as cidades que visito costumo comprar livros de autores locais, pois sei que não é raro que uma cidade tenha sorte e conte com bons cronistas. Não tive tempo de apurar qual é o sujeito que registra o cotidiano de Blumenau com mais engenho e arte. Arrisquei e comprei dois livros de uma escritora de lá, Urda Klueger, mas ainda não tive tempo de ler seus contos e causos. De qualquer forma, sei que juntamente com "Blumenau planeta verde" os livros da Urda me ajudarão a conhecer melhor essa bela cidade. Agradeço mesmo o Mário Henrique e toda sua equipe pelo belo presente. Inté.
[início: 05/05/2017 - fim: 10/07/2017]
"Blumenau: Planeta verde / Green Planet / Grüner Planet", Daniel Curtipassi, Rafael Curtipassi e Daniel Curtipassi (fotografias), Curitiba: Editora Laz Audiovisual, 1a. edição (2001), capa-dura 28,5x28,5 cm., 164 págs., ISBN: 978-85-88417-01-4

quinta-feira, 29 de junho de 2017

contos holandeses

Só conheço o Daniel  Dago virtualmente, em função de nosso interesse mútuo pela Holanda. Ele é um estudioso das cousas holandesas, é um jovem tradutor e entusiasta divulgador daquele país e cultura. Eu sou apenas um disciplinado leitor de Cees Nooteboom. Recentemente o Daniel alcançou convencer uma editora brasileira a publicar cousas que ele vem traduzindo há pelo menos uma década. Felizmente foi a Zouk quem encampou o projeto dele. Que edição bonita, bem acabada, gostosa de ler. A capa-dura remete a um grafismo do Mondrian. Cada história vem acompanhada de um curto registro biográfico de seu autor. São 18 contos, de 18 escritores diferentes, escritos entre 1839 e 1939, cronologicamente distribuídos. Os contos mais antigos, seis deles, são anteriores a virada do século XIX para o XX. São as propostas mais estranhas, mais impenetráveis, que cobram mais paciência do leitor. Gostei particularmente das histórias de Frederik van Eeden (uma fábula sobre a justiça) e de Jacobus van Looy (o assustador relato da morte de uma gata). O estranhamento com os demais talvez seja similar ao que experimentamos caso fôssemos obrigado a reler autores brasileiros do século XIX. Paciência. Nos demais, ou seja, dentre os doze restantes, aqueles originalmente publicados já no século XX, encontrei historias mais próximas de meu gosto. Diverti-me com seis delas, aquelas assinadas por Carry van Bruggen, Alberto Verwey, Louis Couperus, Marcellus Emants, Simon Vestdijk e Arthur van Schendel. São propostas bem diferentes entre si, formando um panorama, como prometeu o Dago em sua boa apresentação do livro. Há contos que abusam da fantasia ou algo similar ao realismo mágico, já outros que flertam com o realismo e com experimentações modernas. De qualquer forma, mesmo nos contos mais realistas, engajados socialmente, não há artifícios bestas camuflando deficiências literárias e estruturais. Encontrei nos contos coisas bem interessantes: o relato do terrível tratamento que recebe um garoto judeu na escola ("O incompreendido", de 1907, de Carry van Bruggen); o registro político e social travestido de fábula sobre o destino de dois irmãos ("Leonard e Juliaan", de 1909, de Albert Verwey); o divertido conto sobre a compulsão que acomete um sujeito ao ouvir Wagner ("O binóculo", de 1920, de Louis Couperus); as contradições de um louco de aldeia que refletem as contradições de todos os que achincalham dele ("Um excêntrico", de 1920, de Marcellus Emants); a vertiginosa ascensão econômica de um sujeito ("O menino da lojinha de óleo", de 1929, de Theo Thijssen); o exemplar conto onde cinco minutos da consciência de um sujeito são registrados detalhadamente ("Um dois três quatro cinco", de 1933, de Simon Vestdijk) e o conto que descreve o estranho caso que provoca um dilema moral em um advogado ("Teresa Immaculata", de 1938, de Hendrik Marsman). Muito diferentes entre si essas histórias produzem encantamento e ilustração no leitor. Evoé Dago, evoé. Vamos esperar que se concretize a publicação dos demais textos de autores já traduzidos por ti. Vale. 
[início: 01/06/2017 - fim: 05/06/2017]
"Contos holandeses (1839 - 1939)", Hildebrand, Multatuli, Arnold Aletrino, Frederik van Eeden, Jacobus van Looy, Herman Heijermans, Jacob Israël de Haan, Carry van Bruggen, Albert Verwey, Louis Couperus, Marcellus Emants, Theo Thijssen, Jan Jacob Slauerhoff, Edgar du Perron, Aart van der Leeuw, Simon Vestdijkm Hendrik Marsman, Arthur van Schendel, organização, apresentação, tradução e notas de Daniel Dago, Porto Alegre: editora Zouk, 1a. edição (2017), capa-dura 16x23 cm., 240 págs., ISBN: 978-85-80490-47-3

terça-feira, 27 de junho de 2017

as brasas

Foi um colega recifense, o Francisco Fernando, zootecnista dos bons, quem falou-me deste "As brasas" pela primeira vez, com entusiasmo. Estávamos os três, ele, Marlene Cristina e eu, numa tarde quente no sul de Minas Gerais, após uma missão acadêmica, quando livros e literatura entraram na conversa. Eu havia lido apenas um livro de Sándor Márai (o bom "A amante de Bolzano"). Trata-se de um livro compacto, muito bem escrito, cerebral - é a palavra que primeiro me ocorreu. A narrativa trata de uma questão de honra, de um jogo de máscaras sobre a amizade, da tensão quase sexual que existe entre amigos de longa data, das semelhanças entre orgulho e covardia, de uma discussão sobre a solidão e a incapacidade que todos temos de compreender completamente alguém (e mesmo compreender as motivações e desejos de nós mesmos). Escrito originalmente em 1942, "As brasas" permaneceu censurado na Hungria natal de Márai até a redemocratização do país, após o esfacelamento da União Soviética e a morte dele, em 1989. Muito do livro lembra aquilo que é escrito num tom épico e marcial no excelente "Marcha de Radetzky", de Joseph Roth. Afinal, o pano de fundo da narrativa de Márai é a letargia, a inação e decrepitude do Império Austro-húngaro, mas o livro não descreve essa decadência em detalhes, como no livro de Roth, mas sim trata de algo mais fundamental e definitivo para nós, homo sapiens sapiens, que é o amor e a nossa capacidade de amar, sobretudo quando esse amor é posto à prova. Um general aposentado recebe, após quatro décadas, um colega militar de quem foi muito próximo, tanto na juventude quanto na carreira, apesar de serem de classes sociais bastante distintas. O que o leitor acompanha factualmente é a noite de jantar e conversas entre esses dois velhos militares, em aposentos iluminados por brasas bruxeleantes e povoados por suas memórias vívidas e doloridas. A expectativa, ou antes, a certeza deste encontro foi a única razão para que eles continuassem vivos boa parte das quatro décadas de afastamento mútuo. Descrever mais da trama estragaria boa parte do prazer que encontramos no livro, por isso me calo. As digressões, ou antes, o congelamento do tempo narrativo alcançado por Márai, lembram as melhores passagens de Javier Marías, senhor das narrativas onde tudo é dito de forma elíptica, por ilações, onde tudo se esclarece, convence, lentamente. Como disse um amigo, livraço! Grato pela dica meu caro Fernando, inté uma próxima (vamos a ver se aquela ideia do carnaval prospera). Lembrei de outra cousa: Curiosamente tenho um amigo chamado Sandor, o Melo. Preciso perguntar a ele se há raízes húngaras em sua família.
[início: 11/05/2017 - fim: 01/06/2017]
"As brasas", Sándor Márai, tradução de Rosa Freire D'Aguiar, São Paulo: editora Schwarcz (Grupo Companhia das Letras), 1a. edição (1999), brochura 14x21 cm., 172 págs., ISBN: 978-85-7164-954-5 [edição original: A gyertyák csonkig égnek 1942]

sábado, 24 de junho de 2017

nada como ter amigos influentes

Nunca havia lido nada de Donna Leon, mas conhecia algo de sua fama, dos mais de vinte romances policiais que já havia escrito, dos prêmios que havia recebido (ela ganhou o Pepe Carvalho, dedicado exatamente à literatura policial, em 2015). Quando vi a capa deste "Nada como ter amigos influentes", justamente num dia em que planejava uma viagem de volta à Veneza, não tive dúvidas que estava na hora de conhecer sua prosa. Trata-se mesmo de um bom romance policial. Claro, preciso ler mais cousas dela para entender melhor psicologia, manias e método de seu protagonista, o Comissário Guido Brunetti, mas esta primeira incursão agradou-me bastante. Assim como o Montalbano de Andrea Camilleri, Brunetti é o tipo de sujeito que combina  um entendimento prático de como funciona a complexa sociedade italiana, sobretudo nas diferentes concepções de justiça partilhadas pelos cidadãos, e de como opera a psiquê daqueles que usualmente cometem crimes, sobretudo os crimes menos notórios, de difícil condenação. Não se trata de uma narrativa onde se espelha o mundo contemporâneo, os sucessos dos dias que correm. Ao menos neste volume o comissário Brunetti fala de uma Veneza dos tempos anteriores a implantação do Euro como moeda corrente (a edição original é de 2000). Ele é casado com uma professora universitária, fato curioso, pois sabe-se que professores e policiais têm ao menos uma coisa importante em comum, já que ambos convivem com a decadência, os primeiros da capacidade de cognição das novas gerações, os últimos da moral pública praticada por quase todos atualmente. Brunetti também tem dois filhos adolescentes, mas eles pouco influenciaram a trama deste volume. O medo, ou antes, a ignorância sobre a AIDS, serve de chave para a solução de um dos problemas apresentados na história. Já o entendimento da engrenagem da corrupção institucionalizada e o uso da violência, nunca novidade para os italianos, ajuda a solucionar outro. As descrições da sociedade veneziana, o zêlo por seus segredos centenários e o cabotinismo da população parecem exemplificar muito daquilo que encontrei no bom guia histórico sobre Veneza, que li há tempos, assinado por Jan Morris. Donna Leon usa um artifício típico dos romances policiais clássicos, que é o de alternar a investigação sobre duas histórias, dois crimes, para no desfecho do livro fazer com que seu protagonista apresente a solução dos enigmas quase simultaneamente. Assim como nas histórias de Camilleri o comissário Brunetti tem em seus ajudantes personagens bem interessantes: uma secretaria  diligente, Elettra; um braço direito sempre pronto para o combate, Vianello; um médico-legista sarcástico, Bocchese; um promotor venal, Patta; um jornalista que o ajuda quando necessário. As duas histórias que se alternam tratam de drogas (o vício em heroína) e da corrupção que brota dos problemas financeiros dos indivíduos. É certo. Vou procurar mais livros desta senhora.
[início: 19/06/2017 - fim: 21/06/2017]
"Nada como ter amigos influentes (Brunetti #9)", Donna Leon, tradução de Carlos Eugênio Marcondes de Moura, São Paulo: editora Schwarcz (Grupo Companhia das Letras), 1a. edição (2017), brochura 13x21 cm., 261 págs., ISBN: 978-85-359-2915-7 [edição original: Friends in High Places (New York: Penguin Books) 2000]

quarta-feira, 21 de junho de 2017

fachadas

Encontrei essa "sanfona" do Rafael Sica lá no Instituto Goethe de Porto Alegre, quando acontecia a IX FestiPoa Literária, organizada sempre pelos prodígios do Fernando Ramos. Do Sica já li os bons "Ordinário" e "Fim". Em seu "Fachadas" estão reunidas 28 ilustrações sobre o tema título do livro e 28 vinhetas, no verso delas. A contra capa diz acertadamente que trata-se de "um livro sobre uma cidade que poderia ser qualquer uma". São instantâneos urbanos, ora realistas, ora amalucados, todos eles bem humorados, críticos, silenciosos como sempre nos trabalhos dele, evocativos de uma linguagem sutil que pode-se alcançar dominar, mas pouco praticamos, ai de nós, que é a empatia. Meu primeiro instinto foi o de separar as folhas da sanfona e enviar como cartões postais, mas como destruir uma obra de arte? Iinicialmente eu iria classificar "Fachadas" na tag "hq's, cartuns e mangás" deste blog, mas preferi identificá-lo como "livro de arte". Much more suitable!. O trabalho dele pode ser acompanhado na página: /RafaelSica. Bom divertimento.
[início/fim: 03/06/2017]
"Fachadas", Rafael Sica, São Paulo: editora Lote 42, 1a. edição (2017), sanfona/concertina 10,5x15 cm., 32 págs., ISBN: 978-85-66740-23-3

sexta-feira, 16 de junho de 2017

rua do odéon

Hoje é Bloomsday, o glorioso Bloomsday deste 16 de junho de 2017. Gosto sempre de tentar marcar a data com alguma citação literária em homenagem a James Joyce ou a seu "Ulysses". Neste ano escolhi este delicioso livrinho de Adrienne Monnier. No final de 1915 ela abriu uma livraria (que também funcionava como biblioteca de empréstimos para assinantes), a lendária "La Maison des Amis des Livres". Manteve a livraria até meados de 1951. Por ela passaram quase todos os escritores, compositores, poetas, jornalistas, pensadores, filósofos, intelectuais mais importantes da primeira metade do século XX, franceses e não franceses. Entusiasta dos livros e da literatura ela não apenas vendia e emprestava livros de poetas e escritores, sobretudo os modernos, referência da primeira metade do século XX, como editava aqueles que lhe pareciam inovadores e/ou importantes. Ela também editou revistas literárias, como a Le Navire d'Argent e La Gazette des Amis des Livres. Adrienne Monnier auxiliou Sylvia Beach, americana radicada em Paris, a fundar uma livraria igualmente icônica de Paris, a Shakespeare and Company, em 1919. Nos anos 1920 essas duas livrarias (a La Maison des Amis des Livres e a Shakespeare and Company) ocupavam a rue de l'Odeón, no Quartier Latin, à margem esquerda do rio Sena), posteriormente a Shakespeare and Company mudou-se para a rue de la Bûcherie, no mesmo bairro. Elas duas se envolveram com o projeto de edição do Ulysses. Sylvia Beach com a edição original, em inglês, em 1922. Monnier com a tradução francesa, publicada em 1929, feita por Auguste Morel (com a assistência de Stuart Gilbert, Valery Larbaud e o próprio Joyce). "Rua do Odéon" foi publicado originalmente em 1960, cinco anos após o suicídio de Adrienne Monnier. Ela em vida manifestou o desejo que os textos nele reunidos, anteriormente publicados em jornais ou apenas distribuídos aos amigos, fossem publicados em livro. O leitor encontra quatro conjuntos de textos. O primeiro, "Os amigos dos livros", têm a ver com sua vocação para livreira e a fundação da livraria, são textos escritos entre 1918 e 1939. O segundo conjunto, "Rua do Odeón" reune textos esparsos sobre o exercício do ofício de livreira, escritos entre 1926 e 1954. O terceiro conjunto reúne artigos que ela pretendia incluir em uma obra sem ligação com sua vida de livreira, são textos sobre suas viagens à Londres e a Itália, ainda na juventude, e sobre sua formação acadêmica. O livro inclui também relatos de contemporâneos dela, alguns produzidos ainda no início de sua carreira, de 1919, outros já posteriores a sua morte, obviamente elegíacos. Falar dos frequentadores da livraria de Adrienne Monnier ou das pessoas que são citadas no livro é fazer um censo daquilo que de melhor a Europa produziu na primeira metade do século XX. Ela trata de Fargue a Valéry, de Léautaud a Rilke, de Beckett a Hemingway, de Benjamin a Joyce, de Prévert a Cocteau, de Dujardin a Gide, de Aragon a Breton, de Apollinaire a Claudel, de Larbaud a Poulenc, de Reverdy a Perse. Que mulher industriosa. Viva Monnier. Viva Beach. Viva Joyce. Viva o Bloomsday. 
[início:24/05/2017 - fim: 29/05/2017]
"Rua do Odéon", Adrienne Monnier, tradução de Júlio Castañon Guimarães, Belo Horizonte: editora Autêntica, 1a. edição (2017), brochura 14x21 cm., 239 págs., ISBN: 978-85-8217-613-9 [edição original: Rue de l'Odéon (Paris: Les éditions Albin Michel) 1960, 1968, 2009]

quinta-feira, 15 de junho de 2017

vista del amanecer en el tropico

Comprei esse livro com don Miguel, na última feira do livro de Santa Maria. Coloquei o volume em uma pilha de leituras futuras, mas eis que numa noite, folheando besta o mimo recém comprado, noto por uma assinatura e carimbo (não um ex libris) que se tratava de um volume da antiga biblioteca do Roberto Valfredo Bicca Pimental, o velho e bom santa-mariense da gema, o Tatata Pimentel, morto em 2012. A ventura dos livros é algo que nem o mais imaginativo dos escritores saberá prever. Nem mesmo o acaso, o azar, talvez a estocástica, são tão inventivos quanto as narrativas dos destinos dos livros que acabamos descobrindo um dia. Pois este volume talvez seja uns dos que foram vendidos pela família para um sebo porto-alegrense, que foi comprado e descartado por alguém inominado, que chegou às mãos de don Miguel, na Calle Corrientes, e ato contínuo foi adquirido por mim. "You are mine, said he", já disse o cummings. Bueno. "Vista del amanecer en el tropico" reúne 101 pequenos fragmentos (viñetas, diz o autor em algum ponto) que tratam da história factual cubana. Trata-se de uma história em flashes, em episódios curtos, onde as sublevações, as contendas, os mártires, as revoluções se sucedem e se acumulam, como num palimpsesto de desgraças. Os primeiros remetem aos tempos pré colombianos, às lutas entre os indígenas que precederam a chegada dos europeus e africanos à ilha. As últimas podem ser associadas aos comandantes da revolução cubana, do início dos anos 1960. Mas Cabrera Infante nunca cita textualmente os nomes dos artífices da história cubana que ele conta. Antes faz uso de imagens poderosas, sejam de gravuras, desenhos, quadros ou fotografias que descreve com sua prosa sempre irônica e precisa, todos de alguma forma relacionados a personagens ou eventos de uma história de desgraças contínuas: suicídios, mortes violentas, perversões, discursos fúnebres, últimas palavras, sangue, fugas frustradas, fuzilamentos, torturas, mentiras, massacres, tramas cruéis. Um ou outro fragmento oferece uma espécie de descanso, fragmentos onde se fala de um dente cariado, de uma fruta madura que se come, de algo cômico, de um nascer do dia radiante, de um jogo de xadrez, da geografia de certos lugares, de algo fortuito que distrai os combates revolucionários da vez. Há algo nele que ecoa um poema do John Donne. O livro foi publicado originalmente em 1974, quando Cabrera Infante já vivia seu particularmente doloroso exílio (ele amava genuinamente sua Cuba fundamental). De qualquer forma, de lá para cá só se sabe de mais mortes e desgraças naquele país, somente admirado por escravos mentais, lorpas voluntários ou canalhas de ocasião. Mas a grande arte sempre sobrevive aos canalhas, por mais longevos e cruéis que sejam. E viva Guilhermo Cabrera Infante (e viva Tatata Pimentel por ter comprado um dia este livro). Evoé.
[início:19/05/2017 - fim: 25/05/2017]
"Vista del amanecer en el tropico", Guilhermo Cabrera Infante, Madrid: Randon House Mondadori (coleccíon Narrativa), 1a. edição (1987), capa-dura 14x21 cm., 226 págs., ISBN: 978-92-03092-72-2 [edição original: Letras del exilio, 1974]

segunda-feira, 12 de junho de 2017

romancista como vocação

Publicado originalmente em uma revista japonesa, "Romancista como vocação" reúne onze ensaios curtos. Haruki Murakami fala de seu ofício, conta algo de sua vida, inclusive a literária; oferece conselhos para jovens escritores; reflete sobre as alegrias e as dificuldades de sua profissão. Há alguma repetição de argumentos e de passagens de sua vida pessoal, mas nada que aborreça especialmente o leitor. Esse livro pertence a categoria de manuais de ofício. Todo escritor de sucesso já foi convidado a produzir algum. Lembro das versões de Mario Vargas Llosa, Ohran Pamuk e Umberto Eco (cito só essas três, mas há dezenas, para todo gosto e função, inclusive algumas sofríveis em seu cabotinismo ou bisonhice). A leitura é agradável. Murakami é realmente franco em suas observações. Ele defende que é o exercício de observar pessoas e situações que robustece os futuros atos criativos, que é o acúmulo de décadas de leitura que povoa a imaginação do escritor, que são a paciência e a disciplina diária da escrita que gera material digno de ser repetidas vezes burilado antes de tornar-se algo que alguém além do próprio escritor possa ler e opinar. O livro está repleto de ideias e sugestões razoáveis, não particularmente novas ou inventivas, mas honestas em sua descrição. O único argumento que acho difícil de defender, pois me parece específico demais de sua personalidade antes que uma regra que possa ser generalizada, é a prática de exercícios físicos diários para compensar o esforço criativo (ele descreve esse ponto detalhadamente no bom "do que eu falo quando eu falo de corrida". Assim como em sua literatura, Murakami não glamoriza, não usa palavras difíceis para dizer óbvio, não é pedante. Os capítulos iniciais são majoritariamente sobre técnicas e procedimentos literários, os quatro ou cinco finais são mais confessionais, não taxativos (estes me parecem os melhores do conjunto). Ele fala sobre sua relação com prêmios literários, sobre o que ele entende por originalidade, sobre como construir personagens e escolher assuntos, sobre o sistema educacional japonês, sobre o público leitor, sobre a relação com colegas escritores e a crítica, sobre sua necessidade de afastar-se de grupos - e até de seu país - para poder escrever em paz. Em uma época onde muita gente acredita ser fácil e possível escrever e publicar qualquer coisa que lhe venha à mente, um livro deste calibre tem mesmo valor. Mas sabemos, ai de nós, que a vaidade sempre será senhora da razão, impedindo que os escritores se inspirem nas palavras de Murakami (sejam eles neófitos ou já vetustos). Eu mesmo conheço vários beletristas capazes de continuamente publicar lixo apenas pela efêmera glória de lerem seus nomes impressos na capa de um livro. Dá pena, mas não muita pena. 
[início: 08/05/2017 - fim: 11/05/2017]
"Romancista como vocação", Haruki Murakami, tradução de Eunice Suenaga, Rio de Janeiro: Editora Schwarcz (Alfaguara / Grupo Companhia das Letras), 1a. edição (2017), brochura 15x23 cm., 166 págs., ISBN: 978-85-5652-038-8 [edição original: Hokugyo Toshite no Shosetsuka / 職業としての小説家 (Tokyo: Suitchipaburisshingu) 2015]

sexta-feira, 9 de junho de 2017

o tribunal da quinta-feira

No "Em busca do tempo perdido" há uma passagem em que Elstir, um respeitado, discreto e já idoso pintor, confessa ao narrador ter sido ele, em uma odiosa encarnação da juventude, um sujeito frívolo e tolo, chamado Biche ou Tiche (Proust é cruel inclusive por fazer seu narrador não lembrar exatamente o nome do sujeito). Todavia Elstir não confirma a descoberta desta identidade passada com medo de ficar exposto, arranhar sua reputação ou por culpa, antes, com sabedoria, aproveita a oportunidade para ensinar ao jovem e arrivista narrador da inevitabilidade das metamorfoses pelas quais passamos, falando da dolorosa experiência de amadurecer e conviver com todas as lembranças dos atos passados, bons e maus. O narrador de Michel Laub, nesse poderoso "O tribunal da quinta-feira" experimenta algo similar. Ao ter uma indiscrição do passado revelada, passa por uma súbita metamorfose, e acaba moralmente condenado a enfrentar o juízo de uma pessoa, no tal tribunal da quinta-feira do título do livro. Esse encontro acontece no último parágrafo do livro, o réu já desarmado de seu natural sarcasmo. Jamais saberemos o veredito. Laub habilmente oferece ao leitor acompanhar o processo dessa metamorfose, envolver-se no emaranhado factual das circunstâncias da indiscrição (ridícula, irrelevante, casual, como sempre acontece no mundo real). Ficamos a saber das ponderações, providências, tomadas de decisão desse narrador. O intrincado da cousa, cerebral e desapaixonada, lembra muito os melhores Philip Roth. A fronteira elástica e permeável entre a vida pública e privada em nossos dias é uma espécie de fantasma que assombra todo o livro. Como já disseram personagens de Javier Marías em "Tu rostro mañana": "Ninguém nunca deveria contar nada, (...) mas calar é a grande aspiração que ninguém realiza". A falta de privacidade é um mal da modernidade, apesar da hipocrisia não ser invenção nem um pouco recente. Laub realmente alcançou concentrar num livro, que é curto e se deixa ler em poucas horas, algo da vertigem deste nosso tempo inapelavelmente terrível. Muito interessante mesmo. Enfim, há livros que nem precisamos ler para sabermos que são muito bons. Caso sejamos capazes de conter nosso açodamento, o guardamos para um final de semana especial ou feriado, ou ainda postergamos as alegrias estéticas para dias felizes que, muitas vezes, nunca chegam. Comprei meu volume ainda nas festas de final de ano, logo após a morte de minha mãe e deixei o livro perdido em meus guardados. Felizmente encontrei um dia ideal para ler. Evoé Laub, evoé.
[início/fim: 30/05/2017]
"O tribunal da quinta-feira", Michel Laub, São Paulo: editora Schwarcz (Grupo Companhia das Letras), 1a. edição (2017), brochura 14x21 cm., 183 págs., ISBN: 978-85-359-2832-7

terça-feira, 6 de junho de 2017

apenas respire

"Apenas respire" é um conto de fadas urbano, uma fábula contemporânea. A narradora/protagonista da história, Isabella, é uma mulher jovem, de trinta e poucos anos. Após experimentar carreira como advogada e alguns aborrecimentos torna-se professora universitária e produtora musical. Por conta de um projeto de pós-graduação ela viaja para os Estados Unidos e passa uns meses trabalhando com uma banda de rock de lá, banda e músicos que ela conhece muito bem, como fã. Isso Rossana Almeida nos conta no primeiro capítulo de seu romance, em três ou quatro páginas. O que o leitor acompanha nos demais capítulos do livro são desdobramentos desta viagem, os destinos cruzados entre a protagonista e o líder da banda, as opções profissionais que surgem após esta experiência, as muitas viagens que ela faz, as conversas que tem com amigos sobre seus sentimentos, sobre aquilo que é provocado nela em outros relacionamentos. Trata-se de um romance otimista, que fala de habilidade que muitas pessoas têm de continuar lutando por seus sonhos, que encontram prazer no cotidiano, sem dúvidas transcendentais ou demasiadas preocupações sobre o futuro da humanidade. O formato, público alvo e a proposta do livro permitem vários clichês, repetições desnecessárias sobre o enredo, a previsibilidade de alguns sucessos e o acúmulo de informações irrelevantes. Todavia nada disto rouba do leitor a curiosidade sobre o destino da protagonista e o prazer de ler o livro. Certamente ouviremos falar mais da autora e de sua protagonista. Vale.
[início: 17/04/2017 - fim: 24/04/2017]
"Apenas respire: Rock e perfume: Paixão no ar", Rossana Cantarelli Almeida, Porto Alegre: Pro Innovation / Grupo Multifoco (Desfecho romances), 1a. edição (2016), 16x23 cm., 342 págs., ISBN: 978-85-5996-016-7