sábado, 21 de outubro de 2017

minha estrada real

Paulo Mendes reúne em "Minha Estrada Real" o registro detalhado de sua experiência em uma de suas aventuras ciclísticas, que ele chama de cicloviagens. Como ele mesmo diz "Foram 1.860 km bem pedalados, boa parte por estradas de terra. Segui a Estrada Real, mas fiz desvios e ajustes da forma que pensei ser melhor e mais interessante". Portanto neste livro encontramos o relato dos quarenta e cinco dias e dos 1.860 Km entre o aeroporto de Confins, em Minas Gerais e o aeroporto de Campinas, em São Paulo. Ele vai de Confins a Diamantina, de lá para Ouro Preto, segue o Caminho no Ouro até Paraty e de lá sobe a Serra da Mantiqueira até Campinas. Boa parte do trajeto  percorre essas trilhas da Estrada Real, que descobri agora ser a maior rota turística do Brasil desta natureza, com infraestrutura adequada, pousadas bem identificadas, restaurantes, cartografia, roteiros e pacotes de viagem muito bem organizados. Milhares de turistas, muitos deles estrangeiros, aventuram-se por ali há tempos. Como é grande e surpreendente esse Brasil. Paulo cruza os montes míticos da Serra do Cipó, da Serra do Caraça (lembrei do Pedro Nava, claro), da Serra de Carrancas, da Serra da Mantiqueira, da Serra da Bocaina, da Serra do Mar. Quase sempre ele passa apenas por vilarejos pequenos, de dois, três mil habitantes, evitando quando possível as grandes cidades e as estradas muito movimentadas, asfaltadas. Paulo é um ciclista experiente, já fez várias outras longas viagens (e as registrou em blogs sempre muito bons), sabe dos segredos da preparação, do condicionamento físico, de como é estar o menos só possível que é estar a sós consigo mesmo (como já disse um dia Catão, ensinou-nos Hannah Arendt). Essa sua viagem pela Estrada Real registrada no livro pode ser acompanhada ipsis litteris no blog "Aventuras de Bicicleta", com a vantagem que o leitor ter lá a disposição um conjunto enorme de fotografias que ilustram os assombros dele. Paulo fala de seus avanços diários, do tipo de terreno que encontra, dos animais que fotografa, do dinheiro que gasta, das pousadas em que se hospeda, da gastronomia mineira, do linguajar das gentes e das cervejas que toma, mas sua boa prosa se destaca no registro das pessoas com quem conversa, da usual generosidade do interlocutores, das trocas de experiências, da segurança absoluta que sentiu em todo o trajeto. Esse livro me lembrou imediatamente a experiência de Robert Louis Stevenson nas Cèvennes e as histórias de viagem de Josep Pla. Vale a pena ler também sua boa prosa e ver suas impressionantes fotografias das outras cicloviagens: por quatro países europeus (em 2015, e que ele publicou em um livro eletrônico pela Amazon, nas versões em português e em inglês); ao litoral do nordeste brasileiro (em 2016) e a mais recente, recém terminada, pelo centro e sul da Itália (em 2017). O Paulo também mantém um blog de registros literários (o sujeito sabe mesmo surpreender), o Kindle Babel. Evoé Paulo, evoé! Beleza acompanhar tuas aventuras. Que texto bem escrito. Grande abraço. 
Registro #1226 (crônicas e ensaios #216) 
[início: 09/10/2017 - fim: 14/10/2017]
"Minha Estrada Real: Diário de Viagem", Paulo Mendes, Recife:Editora Muribara (Cartonera Aberta), 1a. edição (2017), Cartonera 15,5x21 cm, 144 págs., sem ISBN

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

a idolatria poética

"A idolatria poética ou a febre de imagens" é um texto experimental de Sérgio Medeiros. Trata-se de um poema - ou de vários livros justapostos - que flerta(m) com o drama, uma provocação aos sentidos, uma legítima proposta literária, uma reinvenção dadaísta, uma inventiva forma narrativa, um jogo non-sense, tudo isso e mais um pouco. Li esse livro quase simultaneamente ao "Graal", de Haroldo de Campos, que já registrei aqui e com o "Antiboi", de Ricardo Aleixo, que em breve registrarei. Haroldo de Campos aparece citado por Sergio em uma curta passagem, como o sujeito que em Nova York perdeu um caderno de poemas, mas o recuperou, por sorte. Já os vários narradores de "idolatria poética", sujeitos obsessivos, temerosos de perderem seus cadernos de notas, cadernos em que anotam aquilo que chamam descritos, esperam a partir deles produzir um texto, uma narrativa, um livro, toda uma obra. O amor excessivo pelo que capturam com olhos e ouvidos e que plasmam em letras, palavras, narrativas, bem como o desejo de absorver toda a poesia da vida de seu entorno e a vertigem das imagens que pululam numa miríade de associações parece intoxicar esses narradores (sempre identificados como idólatras, numerados 1, 2, 3, e assim por diante, até um apostólico 12 final). Esses idólatras/narradores fingem estabelecer diálogos, concentrados sim em seus projetos individuais de escritura. Entre os diálogos encontramos três "livros rêmora", que correspondem a excertos que se grudam ao veio poético principal, como as rêmoras se grudam ao corpo de seus hospedeiros naturais, os tubarões. São "livros Barnacle", diria um cínico joyceano da gema. Outros livros do autor, Sergio Medeiros, se metamorfoseiam pelo poema, cobrando espaço, se autopoetanto um tanto. Entendo esses livros como o resultado do olhar febril de um autor. Um autor/narrador que, acamado um dia em sua casa na praia, ao invés de contemplar, como rotineiramente faz, apenas escunas e canoas ao longe,  vê desta vez pela janela de seu quarto os costumes e comportamento pernóstico de um grupo de turistas que alugou um apartamento próximo. Esses turistas escancaram suas misérias, cabotinos que são, mentem sobre literatura e viagens, dão engulhos ao autor, que se vinga incorporando-os à trama, tentando dar nexo naquilo tudo, deixando sua mente viajar. Sabe-se lá! Os experimentos originais e vanguardistas do Sérgio sempre provocam o leitor. O convite para o entendimento resta impresso, cabe a cada leitor trilhar sozinho essa aventura da linguagem. Whither? Para onde? Vamos a ver o que o Sérgio nos oferecerá na sequência.
Registro #1225 (poesia #88) 
[início: 13/09/2017 - fim: 08/10/2017]
"A idolatria poética ou a febre de imagens", Sérgio Medeiros, São Paulo: Editora Iluminuras, 1a. edição (2017), brochura 13,5x20,5 cm, 64 págs. ISBN: 978-85-7321-565-6

terça-feira, 17 de outubro de 2017

millor: obra gráfica

"millôr: obra gráfica" é um mimo produzido pelo Instituto Moreira Salles como catálogo de uma exposição onde foram reunidos 500 desenhos originais de Millôr Fernandes (que correspondem apenas a uma parte bem pequena da produção plástica dele, cabe lembrar). Essa exposição aconteceu no período entre abril e agosto de 2016, no Rio de Janeiro. Caso tivesse tido ciência deste livro antes o teria comprado e enviado a meu pai, grande admirador do Millôr, mas meu pai, eu sei, morreu há quatro meses. O original Aguinaldo Severino era um homem de manias, comprava regularmente jornais e revistas. Uma das que comprou até sua extinção foi a Revista O Cruzeiro, que lembro-me folhear desde muito pequeno, equilibrando-a nas mãos (era uma revista grande). Pois foi na Revista Cruzeiro que Millôr publicou boa parte do material da exposição do IMS e resta agora reproduzido neste belo catálogo. Artista autodidata, de muitos talentos, pois foi jornalista, dramaturgo, humorista, tradutor, editor, gravador, artista gráfico e plástico. O livro inclui três curtos ensaios críticos, assinados por Agnaldo Farias, Paulo Roberto Pires e Julia Kovensky. Inclui também uma cronologia biográfica (assinada por Jovita Santos de Mendonça) e indicações sobre a publicação original dos 500 desenhos reunidos na exposição. Os trabalhos estão divididos em cinco grandes conjuntos temáticos, não cronológicos: "Millôr por Millôr", autorreferentes, marca registrada dele; os trabalhos do caderno "Pif-Paf", da revista O Cruzeiro, entre 1945 e 1963, sobretudo leiautes, ainda com as indicações sobre o tamanho da mancha da edição; "Brasil", esse tema obsessivo dele, sempre numa relação de amor e ódio, com humor mas com sarcasmo; "Condição humana", trabalhos mais líricos, filosóficos, contidos; e "À mão livre", os mais autorais, no sentido em que fala neles não o cronista de costumes e de política, mas o artista plástico, o autor criativo que experimenta técnicas, materiais, cores e formas. Trata-se de um livro fartamente ilustrado, com reproduções fotográficas de seu estúdio/atelier (uma cobertura que ele ocupou por quatro décadas, em Ipanema). Os textos rendem homenagem ao sujeito complexo e irrequieto, inventivo e mestre do humor, curioso sobre as técnicas que surgiam (foi um dos primeiros artistas gráficos a incorporar a computação em sua produção). A edição é muito bem cuidada e destaca toda a força de Millôr na preparação dos originais, na equilíbrio das cores, na reinvenção de alfabetos e tipografias, nos grafismos. Poderia classificar esse livro aqui como um genuíno livro de arte, mas vou me render a classificação original do IMS, como catálogo. Esse sim é um livro para se folhear com calma e sem critério, sem pressa. Na falta dele, o quê fazer? Bueno. Desde 2013 o IMS é mantenedor do acervo original de mais de seis mil desenhos, impressos e gravuras de Millôr (os trabalhos e objetos de outra natureza - obras teatrais, obra literária, biblioteca - foi dividido entre outras instituições). Essa exposição não existe mais, mas o leitor curioso pode dar uma espiada em alguns registros do acervo no site do IMS. Assim sendo, vá rá, bom divertimento. E Evoé Millôr, evoé!
Registro #1224 (catálogo #7) 
[início: 11/06/2016 - fim: 11/10/2017]
"millôr: obra gráfica", Millôr Fernandes, São Paulo: Editora Instituto Moreira Salles, 1a. edição (2016), brochura 23,5x30 cm, 288 págs. ISBN: 978-85-8346-033-6


domingo, 15 de outubro de 2017

graal

"Graal" é uma peça dramática, uma bufotragédia mefistofélica ou mefistofarsa bufotrágica, nas palavras do autor, Haroldo de Campos. Foi escrita em 1952, nunca havia sido publicada em livro. Era conhecida por uns poucos, filhos e amigos somente, gente que privava da intimidade e da generosidade de Haroldo. Em duas oportunidades, em 2014 e 2016, cenas da peça chegaram a ser lidas nas edições do Hora H, evento já tradicional que acontece na Casa das Rosas paulistana, em homenagem ao poeta. Pois um grupo de valorosos cavaleiros saiu em busca deste cálice poético, há muito deixado esquecido entre os guardados do grande Haroldo, trazendo-o à luz, ao papel, ao público leitor, aos afortunados e crentes na fé dos Campos. A organização é do ator e diretor teatral Carlos Antônio Rahal, mas o livro conta com a colaboração do venerável crítico Jacob Guinsburg, e dos multitalentosos poetas Lucio Agra e Claudio Daniel. Em quatro robustos ensaios críticos eles exploram as muitas experiências provocadas pela leitura de "Graal" e contextualizam a peça não apenas no panorama poético da sempre instigante e seminal produção de Haroldo, mas também em sua interlocução com o teatro brasileiro (desde seu interesse pela obra do Padre Anchieta, passando pela peças de Oswald de Andrade e chegando a suas contribuições nas encenações de Gerald Thomas e Bia Lessa, já nos anos 1980). Outro bom poeta da távola haroldina, Marcelo Tápia, assina uma curta nota na contracapa. O livro inclui também uma reprodução fac-símile do original datilografado da peça, e que contém esparsas anotações e correções manuscritas. "Graal" é uma peça em dois atos, curta, não sei avaliar quanto tempo duraria caso encenada. Cada ato é dividido em quatro cenas. A cenografia é sempre precisa: jornais e recortes de jornais, peças de carne e sangue, dinheiro em maços e avulso, cifrões metálicos. Há por vezes o som de muitas máquinas de escrever e o alarido dos homens, na rua. Três coros conduzem a peça (um dos iguais, um dos sem cabeça e um dos sem braços, para mim um dos hipócritas, um dos que não pensam e um dos que não trabalham). Do texto brotam citações mil e ironias a granel, miríades de associações são possíveis a partir do que é dito. A fusão de palavras e a musicalidade lembram claramente Joyce. Por vezes parecia ouvir a voz de Haroldo ao longe, ou na cantilena das Galáxias, ou declamando aqueles fragmentos do Finnegans Wake que tão bem traduziu. Na primeira cena do primeiro ato nasce o protagonista da peça, Graal, dito arquivista, anunciado pelos três coros; na segunda, talvez cem anos à frente, Graal trabalha e recebe uma sibila ou moira funesta, memória dos tempos, dita Dame Mémoire, sua mãe; na terceira um sujeito, Messine Le Mot, faz à Graal uma proposta de negócios indecente; na quarta e última cena do primeiro ato, Tinnula, uma criança, e dois dos coros, anunciam que é hora de Graal sair para uma festa, com Aureamusa/Áurea (a primeira é a que ele vê, a segunda é o que ela é, mulher sempre bifronte). Na primeira cena do segundo ato Graal está só, tentado por Todaluz/Luciphalus, como tantos outros deuses e homens também já foram tentados; na segunda cena Dame Mémoire parece fazer o tempo recuar (o arquivo é filho da memória, nos lembra o poeta) e lembra Graal, como boa mãe, que ele já foi tentado antes a tornar-se popular e bem querido, a aceitar Vox Populi, mas renegou a ambos (como Stephen renegou a igreja e a mãe, no "Retrato de um artista quando jovem"); na terceira cena recuamos ainda mais no tempo, talvez para o momento em que Graal e Aureamusarondinaalúvia acordam após terem descoberto o sexo, num amor aprendiz, como Tristão e Isolda; na última cena o casal (e os coros, e os demais personagens) estão em uma mesa de banquete e fausto, dirigem-se ao público, como no final de uma Commedia della'arte medieval, agradecendo a audiência, lembrando que o amor é primo da morte (como já disse Carlos Drummond de Andrade). Terá Graal se consubstanciado naquele último repasto, numa última metamorfose? Cada leitor é o juiz. A beleza da linguagem é perene na peça. Haroldo inventa e encanta. Há imagens muito bonitas, imagens que certamente encontrariam boas soluções nas mãos de bons cenógrafos (para além das determinantes indicações do autor, sempre preciso). Eu, menor dos anões desta província, as imaginei como brotando exóticas como as das páginas de "Às avessas", do Huysmans, impressionantes e facetadas, como nas telas de um Francis Bacon. Que beleza esse livro. Evoé Haroldo, evoé! 
Registro #1223 (drama #10) 
[início: 21/09/2017 - fim: 08/10/2017]
"Graal, Legenda de um cálice", Haroldo de Campos, organização de Carlos Antônio Rahal, São Paulo: Editora Perspectiva, 1a. edição (2017), brochura 15x20,5 cm, 112 págs. ISBN: 978-85-273-1109-0

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

dandara

"Dandara" é uma mini graphic novel, um bom trabalho produzido por dois jovens talentosos aqui de Santa Maria. O Pedro eu conheço muito bem, desde pequeno, filho de meus amigos Jamila e Marcos. A Jade só conheço de lenda (talvez um dia ele me apresente). Noutro dia encontrei com os Carara no glorioso Ponto de Cinema (não posso deixar de citar que o Dante também estava presente, sempre direto em suas observações e comentários, sempre querendo saber das cousas que leio, curioso dos bons que é). O Pedro mostrou-se esse seu primeiro trabalho no formato fanzine, vamos chamá-lo assim, pois antes ele se dedicava a intervenções urbanas com grafite e matrizes em lambe-lambe. Li ali mesmo, no Ponto. Disse a ele que não me furtaria de fazer um pequeno registro aqui no "Livros que eu li", afinal de contas a ideia é sempre registrar o que leio, fazer curtos comentários que substituirão um dia minhas memórias, no tempo em que o velho e paciente Alzheimer derretê-las, levá-las para o infinito, arre!, ai de mim. A "Dandara" do Pedro e da Jade rende homenagem a uma mulher negra e forte, guerreira, dos tempos do Brasil colônia. Como os autores registram, ela quase sempre é lembrada como "a esposa de Zumbi dos Palmares", mas esse tratamento diminui sua importância e valor. O pouco que se sabe dela Pedro e Jade registraram em seu fanzine: era boa em capoeira, tinha talento para estratégia, luta armada e era boa caçadora. Li noutro lugar que ela pode ter tido três filhos com Zumbi e suicidou-se na prisão, recusando-se a voltar à condição de escrava. Eu nunca havia ouvido falar nela, portanto aprendi uma coisa boa naquele dia. As coisas permanecem e são transmitidas de uma geração a outra quando são ouvidas e contadas e quando restam registradas num meio que sobrevive ao tempo de vida dos homo sapiens. O Pedro e a Jade fizeram a sua parte. E eu faço a minha. Longa vida a memória de Dandara! Evoé Dandara, evoé! 
Registro #1227 (hq's cartuns e mangás #65)
[início - fim: 03/10/2017]
"Dandara", Pedro Carara e Jade Malagmam, Santa Maria / RS: Editora do autor, 1a. edição (2017), fanzine 7,5x10 cm., 6 págs., sem ISBN

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

o palácio da memória

Esse curioso livro é uma genuína invenção caetanogalindonesca, pois foi graças a seu engenho que rematerializaram-se em papel as histórias narradas por Nate DiMeo e mantidas em podcast desde novembro de 2008. Nate DiMeo é um jornalista americano de quarenta e poucos anos, especialista em usar o rádio como mídia. As histórias dele brotam de fatos e biografias verídicas, sobretudo histórias que fazem parte de uma espécie de mitologia dos deserdados americanos (americanos do norte, vamos combinar), aquele tipo de história que parece ser o que dá liga às narrativas épicas dos pilares da sociedade americana, aqueles pilares dos grandes ícones, dos grandes feitos, das grandes conquistas, do grande sonho. Claro, as historias impressionam pelo que há de universal nelas, pelas epifanias que evocam, pelo que fixam da experiência humana (acontece que os americanos, do norte, se especializaram em deixar vistos perenes destes feitos, destes acontecimentos). O leitor acompanha em curtos episódios causos que se equilibram entre o inusitado, quase bizarro, e o tocante, quase piegas. Há um lirismo, que enternece o coração cínico que quase todos temos hoje; uma fé no valor intrínseco da aventura humana, que não julga, não culpa, não achincalha; um registro físico, que oferece às futuras gerações de homo sapiens algo para reflexão. As histórias contam cousas dos anos 1800 e da primeira metade dos anos 1900 (acho que os sucessos da segunda grande guerra e da conquista da Lua são as mais recentes registrados no livro). Há um leve engajamento, uma escolha temática talvez, que valoriza contar os sucessos e as tragédias daqueles mais vulneráveis e deserdados, que experimentaram mais aborrecimentos e desgraças. Se pessoas como Nate DiMeo não fizer esse tipo de trabalho, quem o fará? Edmund Wilson cunhou o bom aforismo que nos ensina "não haver segundo ato na vida dos americanos" (se é que me lembro bem ela pensava na obra e biografia de Scott Fitzgerald quando escreveu isso). As histórias de Nate DiMeo parecem ilustrar muito bem a ideia de Wilson. Gostei particularmente das historias sobre a influência das ações do homens em grandes extinções, ou quase extinções (de lagostas, castores, populações indígenas). Gostei também dos causos derivados da guerra civil americana e daqueles relacionados a luta pelos direitos civis. As histórias sobre trambiqueiros, ilusionistas, mentalistas, gente que vive de enganar os outros, e também a se enganar, são tocantes. Há várias histórias em que se registra a antiga prática de usar jornais e revistas para enganar a população crédula (precisamos sempre lembrar que as "fale news" não são invenção recente). As histórias sobre inventores amalucados e suas obsessões são as mais divertidas. Lembrei imediatamente daqueles livros do Schott, dos almanaques de antigamente, que enfileiravam curiosidades e efemérides, e serviam para abastecer o repertório dos leitores que não tiveram educação formal. Galindo conta em um curto posfácio o assombro que a primeira audição dos podcast lhe causou. A força das narrativas de Nate DiMeo deixou-o sem sono e sem fôlego. E graças a esse assombro temos esse livro em mãos. Evoé Caetano, evoé! Em tempo: Vale a pena acessar o "The Memory Palace" original. Bom divertimento. 
Registro #1221 (contos #143) 
[início: 13/09/2017 - fim: 23/09/2017]
"O palácio da memória", Nate DiMeo, tradução de Caetano W. Galindo, São Paulo: Editora Todavia, 1a. edição (2017), brochura 14x21 cm, 256 págs. ISBN: 978-84-93828-01-0 [edição original: The Memory Palace, a podcast, since Nov 12, 2008]

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

acqua alta

Esse é o quinto volume da série de romances policiais assinados por Donna Leon dedicados aos sucessos do Comissário Guido Brunetti. Neste volume são novamente escaladas na trama duas personagens que apareceram originalmente no primeiro livro dela, "Morte no teatro La Fenice", a cantora lírica Flávia Petrelli e a americana especialista em arte Brett Lynch. As histórias de Donna Leon seguem o ritmo das estações. O leitor encontra Brunetti num fevereiro frio e ventoso, época em que não há muitos turistas em Veneza, pois a cidade experimenta o perene fenômeno de "Acqua alta", as marés altas que invadem a laguna e anunciam a proximidade do início da primavera. Lynch, que ao final do "Morte no teatro La Fenice" prometia viajar a China para o início de uma missão de escavações arqueológicas, está de volta a Veneza. Num domingo vagaroso, que seria aparentemente calmo, hedonista, Lynch ouve displicente o canto de sua amiga Petrelli, que na cozinha, preparando o almoço delas, também exercita sua voz, pois a temporada de ópera, a da primavera, no Scala de Milão, logo começará. Ao atender inadvertidamente a porta, dois homens entram em seu apartamento e logo passam a agredi-la com bastante violência, só interrompidos pela presença firme de Petrelli, que saiu da cozinha com uma faca na mão. Brunetti só se envolverá na investigação das motivações desta agressão muitos dias depois e acaba chamando para si a responsabilidade por fazer justiça. Curtos episódios biográficos dos familiares e colegas de trabalho de Brunetti são incorporados à narrativa puramente de suspense. O leitor entende um tanto melhor os humores e a personalidade da secretária Elettra, do policial Vianello, da esposa Paola e dos filhos, Chiara e Raffi. E quem já esteve em Veneza num inverno entende as repetidas descrições do clima e dos muitos desvios que os personagens devem fazer devido às inundações. O livro trata de contrabando de arte, mas também fala da soberba, do orgulho, da arrogância. O caso se resolve, mas como nos livros anteriores dela, não completamente. A vida não é como um jogo, como um quebra-cabeças que montamos e recuperamos de sua desordem. Sempre algo se perde, fica ao sabor da lentidão da justiça e da burocracia, da corrupção e do tédio dos homens. O diabo sempre está nos detalhes. Não há o que fazer. A vida sempre segue. 
Registro #1220 (romance policial #65)
[início: 25/07/2017 - fim: 26/07/2017]
"Acqua alta (Brunetti #5)", Donna Leon, tradução de Celso Mauro Paciornik, São Paulo: Editora Schwarcz (Grupo Companhia das Letras), 1a. edição (2009), brochura 12x18 cm., 296 págs., ISBN: 978-85-359-1439-9 [edição original: Acqua alta / aka Death in High Water (New York: Harper Collins) 1996]

sábado, 7 de outubro de 2017

tartarin de tarascon

Aborrecido em uma fila de supermercado eis que vejo em exposição esse livrinho, produzido para ser distribuído e vendido em bancas de jornal. Lembrei de quando li as aventuras de Tartarin de Tarascon pela primeira vez, numa edição já surrada que encontrei na boa e velha biblioteca pública de São Bernardo do Campo, que já havia retornado dos campos do esquecimento quando li a versão do Neil Gaiman dos mitos nórdicos, recentemente registrada aqui. Essa versão do grande livro de Alphonse Daudet, que foi publicado originalmente em 1872, é em quadrinhos e faz parte de uma coleção de clássicos ilustrados. Tartarin é um sujeito falastrão, que conta prodígios que nunca vivenciou. É uma espécie de fusão entre Don Quijote e Sancho Panza, mas sem a nobreza confusa do primeiro ou a capacidade de autocrítica do segundo. Pressionado por seus concidadãos em Tarascon, cidade da Provença francesa, ele parte para a Argélia para caçar leões e confirmar sua fama. Tendo mais sorte que juízo (como se diz aqui pelo sul do Rio Grande do Sul) mesmo experimentando infortúnios sem conta ele acaba voltando para casa, com a pele de um leão cego, que abateu por acaso, e também com uma dromedário apaixonada. Daudet alcança descrever com humor o que há de mais ridículo na condição humana. Tartarin é um personagem trágico, patético, que lamenta sua própria desgraça e tem consciência que foi o artífice das ilusões que perdeu, enfim, trata-se de um homem ridículo, como quase todos os homens são, que só consegue sobreviver e suportar as vicissitudes da vida sempre e progressivamente mentindo para si próprio, mentindo muito mais do que mentirá ou enganará os demais. Ulalá. Talvez seja a hora de reler o texto de Daudet. Cousa boa.
Registro #1219 (hq's cartuns e mangás #64)
[início - fim: 05/04/2017]
"Tartarin de Tarascon", Alphonse Daudet, tradução de Caroline Chang, adaptação, roteiro e desenhos de Pierre Guilmard, colorização de Louisa Djouadi, Levallois-Perret / France: Hachette Filipacchi Médias / Del Prado do Brasil (Grandes clássicos da literatura em quadrinhos, vol. 22), 1a. edição (2014), capa dura 19,5x26,5 cm., 60 págs., sem ISBN [edição original: (Levallois-Perret/France: Editions Adonis) 2010; Aventures prodigieuses de Tartarin de Tarascon 1872]

sábado, 30 de setembro de 2017

berta isla

É pouco provável que seja verdade, mas nos acostumamos a identificar em um homem, Homero, o autor de duas das maiores criações da espécie humana, que são os poemas épicos que chamamos Ilíada e Odisseia. Se no primeiro poema se canta a ira de Aquiles, um breve episódio da longa guerra entre gregos e troianos, no segundo se conta as aventuras de Ulisses/Odisseu em sua longa jornada de volta à Ítaca. Pois ao terminar esse notável "Berta Isla", livro mais recente de Javier Marías, senti-me como um efebo grego do século VIII antes do inicio desta nossa era (in)comum, que ao redor de uma fogueira, após terminada a frugal refeição do cair da noite, pede a um velho aedo que conte uma vez mais os sucessos daqueles heróis que alternavam batalhas sangrentas com holocaustos e libações aos deuses. Javier Marías, venerável aedo contemporâneo nosso, com seu engenho inventou um novo portento, tão bom e instigante quanto seu "Tu rostro mañana", de forma que para mim "Berta Isla" está para a Odisseia como Tu rostro mañana está para a Ilíada. Vamos a ver. "Berta Isla" é longo, quase 550 páginas, dividido em dez cantos/capítulos, ora narrados por um observador onisciente, em terceira pessoa, ora pela heroína da historia, Berta, em primeira pessoa. O que o leitor encontra no livro são as lembranças de Berta (lembranças contemporâneas, de 2016, 2017), sobre as circunstâncias de como conheceu nos anos 1960 um rapaz, Tomás Nevinson, casou-se e teve um casal de filhos com ele, nos anos 1970, e ficou treze anos, de 1982 a 1994, sem ter a certeza se esse seu marido estava morto ou vivo. Trata-se, como o próprio Marías diz em um teaser, da história de uma espera, uma espera como a de Penélope na Odisseia. Tomás (ou Thomas ou Tom) é daquela estirpe de protagonistas de Marías que tem um especial talento para línguas, para imitação de acentos e comportamentos, posturas, para interpretar rapidamente o caráter de seus interlocutores (como Jaime Deza em Tu rostro mañana ou narrador sem nome de Todas as almas, entre tantos outros). Após conhecer Berta em um colégio interno na Madrid franquista, na segunda metade dos anos 1960, Tomás, filho de uma espanhola com um cidadão inglês, viaja para a Inglaterra para seus estudos universitários, onde acaba conhecendo Peter Wheeler (o grande hispanista, professor de Oxford, que já conhecemos de Tu rostro mañana) e, por um desvio do destino, que define todo o livro, o diabólico Bertram Tupra, também personagem daquele livro e que talvez seja mesmo o alter ego ideal de Javier Marías (sempre imagino Marías dizendo para mim don't linger or delay, toda vez que postergo uma tarefa ou decisão). Ao voltar para Madrid e casar-se Tomás assume um posto importante na embaixada inglesa, mas suas viagens recorrentes e ausências logo fazem Berta entender que seu marido atua não em tarefas burocráticas, mas em algo relacionado a espionagem, ligado ao serviço secreto inglês. Não me atrevo a descrever mais detalhadamente o livro, pois estaria roubando do leitor o prazer de uma miríade de descobertas. Não se trata de um romance de época, onde se fala da sociedade espanhola ou europeia dos anos 1970, 1980 ou 1990, que retrate panoramicamente estes anos, o ambiente e acontecimentos destes anos. Todavia, ao acompanharmos as reflexões e digressões de Marías, aprendemos algo sobre como o destino dos indivíduos é aleatório e único, como é impossível que uma acepção simples, como "anos 1980", por exemplo, identifique algo que seja válido para não mais do que apenas um punhado de pessoas que viveram naquela época ou estudaram detalhadamente sobre aqueles tempos. Enfim, mesmo a lembrança dos fatos que vivemos é construída. Talvez eu volte a esse registro e escreva mais. Escreva sobre Little Gidding, poema de Eliot, tão presente no romance; sobre as metamorfoses de Tomás Nevinson; sobre o caráter de Tupra; sobre como Lord Wheeler lembra as Moiras gregas; sobre Eric Southworth, amigo real de Marías, inserido no livro, como já vimos Marias fazer com Francisco Rico em "Los enamoramientos"; sobre o papel do cinema na imaginação de Marías; sobre uma passagem retirada do Henry V, de Shakespeare; sobre a figura dos fantasmas; sobre a manipulação, de indivíduos e de toda a sociedade, em todos os tempos; sobre o fato de também Ulisses ter ido a guerra de Tróia por força de um ardil; sobre a força da frase: "Desde cuándo la gente ha elegido sus vidas?"; sobre os livros que há em Berta Ilsa (há uma boa compilação deles no Librotea); e sobre tantas outras coisas. Mas não consigo fazer isso agora. Paciência. Preciso e vou reler o livro. Não consegui conter-me e o li quase de um fôlego só, um longo fôlego de quatro dias. Marías terminou de escrever "Berta Isla" em abril deste ano, o livro foi impresso em agosto e lançado oficialmente no 02 deste setembro que hoje termina. Recebi o livro na manhã do dia 10 (não pelo inútil serviço dos correios brasileiros, claro, mas pela DHL, graças aos esforços da Casa del Libro espanhola), comecei a ler naquele dia mesmo e terminei na quarta-feira, dia 13. Que dias felizes! Termino de escrever esse registro hoje, 30 de setembro, véspera do plebiscito que poderá definir a independência da Catalunya e uns poucos dias antes do anúncio do prêmio Nobel de literatura (e eu sempre aposto no Marías, claro). Evoé Marías, evoé!
Registro #1218 (romance #326)
[início: 10/09/2017 - fim: 13/09/2017]
"Berta Isla", Javier Marías, Madrid: Alfaguara (Grupo Santillana de ediciones / Penguin Random House Grupo Editorial), 1a. edição (2017), brochura 15x24 cm, 544 págs. ISBN: 978-84-204-2736-2

terça-feira, 19 de setembro de 2017

descendo a rua da bahia

Uma de minhas maiores alegrias como caçador de livros em sebos aconteceu em meados dos anos 1980, quando encontrei um exemplar de "Chão-de-Ferro", do Pedro Nava, volume raríssimo naquela época. Aprendi um bocado com seus livros de memórias ("Baú de Ossos", "Balão Cativo", "Chão-de-Ferro", "Beira-Mar", "Galo-das-Trevas", "O Círio Perfeito" e o incompleto e póstumo "Cera das almas") e também nos muito livros que foram escritos sobre ele. Esse "Descendo a rua da Bahia" reúne a correspondência entre Nava e Carlos Drummond de Andrade, cujas poesias sempre li pouco, ai de mim. São 63 documentos, manuscritos e datilografados, a maioria cartas, mas também cartões postais, recortes de jornal, telegramas. A edição é uma beleza. Uma miríade de ilustrações enfeita o livro, reunindo fotografias, reproduções de manuscritos, crônicas publicadas em jornais e revistas, poemas elegíacos, capas de livros, cópias de bilhetes. O leitor até esquece que há textos no livro, que também são belíssimas as cartas e os mimos que trocam entre si, que são os textos que contam algo melhor a genuína amizade que durou mais de sessenta anos, amizade iniciada em um longínquo fevereiro de 1922, em um bar em Belo Horizonte frequentado por jovens intelectuais e maio de 1984, quando Nava decide se matar. Eram dois sujeitos quase da mesma idade esses mineiros que tornaram-se cariocas, Carlos Drummond era uns poucos meses mais velho que o Nava. Além de duas breves apresentações assinadas pelas organizadoras do livros, as especialistas Matildes Demetrio dos Santos e Eliane Vasconcellos, o livro inclui um posfácio generoso de Humberto Werneck e, num apêndice, poemas e crônicas escritas por Drummond após a morte de Nava, onde ele canta a saudade do amigo ausente e exalta sua obra. Que belo livro. Lendo algo sobre o Nava e a amizade lembrei-me, claro, da Misa, para quem dei de presente aquele raro volume do "Chão-de-Ferro" encontrado num sebo. Logo depois ela se separou do Péricles e se afastou dos amigos dele, como eu, que perdi a amiga e as conversas sobre Proust, Hilda Hilst e, quase sempre, o Nava, mas essa é outra história. 
Registro #1217 (cartas #7)
[início: 04/09/2017 - fim: 12/09/2017]
"Descendo a rua da Bahia: A correspondência entre Pedro Nava e Carlos Drummond de Andrade", Eliane Vasconcellos e Matildes Demetrio dos Santos (organização e notas), São Paulo: Bazar do Tempo, 1a. edição (2017), brochura 14x21 cm., 240 págs., ISBN: 978-85-69924-24-1

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

a roda do mundo

Esse curioso livro reúne dois conjuntos de dez poemas, "Nos, os bianos" e "Orikis", de dois autores da mesma geração e igualmente fortes, Edimilson de Almeida Pereira e Ricardo Aleixo. Do Aleixo já li vários livros ("Modelos vivos", "Impossível como nunca ter tido um rosto", "Máquina zero"), do Edmilson nunca havia lido nada. Como o antropólogo e também poeta Antonio Risério explica em uma breve introdução ao livro, os dois poetas retrabalham coisas e espíritos muito antigos, característicos de lugares distintos do continente africano, dando-lhes a roupagem para que sejam incluídos no repertório cultural contemporâneo brasileiro. Edmilson é tributário da etnolinguística Banto e Aleixo das culturas Jeje e Nagô. Os dez poemas de "Nos, os bianos", de Edimilson, parecem cânticos, letras de uma teogonia fragmentada, fundida a elementos de um sincretismo em construção. Nos dez de Aleixo, em "Orikis", faz-se um censo poético dos orixás, com o poeta - feito um Janus - olhando simultaneamente para os arquétipos desses ancestrais divinizados e para o leitor desse nosso tempo conturbado. O livro inclui um glossário de termos bantos e iorubás, além de uma pequena bibliografia. São vinte poemas brevíssimos, mas muito poderosos. Evoé.
Registro #1216 (poesia #87)
[início: 02/09/2017 - fim: 08/09/2017]
"A roda do mundo", Ricardo Aleixo, Edimilson de Almeida Pereira, Belo Horizonte: Objeto Livro / Segrac,  2a. edição (2004), brochura 11x20 cm., 48 págs., sem ISBN

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

morte e julgamento

No quarto volume da série de romances policiais dedicados aos sucessos do Comissário Brunetti, "Morte e julgamento", se fala sobre o tráfico humano e a exploração do sexo. Homens e mulheres inescrupulosos mantém uma complexa operação, um negócio sujo, que envolve dezenas de pessoas e muito dinheiro, mas cuja rentabilidade é altíssima. São implacáveis as forcas invisíveis do mercado, a lei de oferta e procura, a cupidez humana. Donna Leon situa sua história nos anos que se seguiram à queda do Muro de Berlin e do consequente fluxo de imigrantes do leste europeu para as grandes e ricas cidades do continente, no caso deste volume, do fluxo de imigrantes romenos (quem já leu os livros de Herta Müller sabe do desastre irreversível que foi a ditadura comunista romena). Brunetti precisa resolver um crime que acontece em sua jurisdição, Veneza, correlato a um outro, acontecido em Padoa. Sua sagacidade e capacidade de trabalhar em equipe são testadas (e nesse volume descobrimos o quão dissimulado e bom ator ele sabe ser). Além da prostituição, Donna Leon acrescenta à trama uma outra camada de ignominia, ao descrever uma faceta inusitada, porém crível, do cenário de horrores da Guerra dos Balcãs. A solução dos crimes reside em uma questão puramente moral de um indivíduo, que Brunetti, sempre escravo de  sua retidão, resolverá, mas já sabendo ou antecipando que a grande  máquina de hipocrisia e poder italiana saberá blindar os verdadeiros culpados, as pessoas influentes demais para chegar a pagar por seus deslizes. Se ao longo do livro o leitor encontra momentos de alegria e hedonismo (os jantares familiares, a cumplicidade entre pai e filha, os passeios calmos pelas ruelas venezianas, as citações dos livros clássicos que os personagens lêem), seu desfecho, a exemplo dos demais que já li dela, deixam um travo amargo, uma nota duramente cinica, que obriga o leitor a reconhecer que não há remissão para o homo sapiens sapiens, espécie sempre capaz de sempre tentar esconder seus crimes e vileza, seu caráter dúbio e vocação para destruição e morte. O Brasil aparece na trama, mas da pior maneira possível (prova da verossimilhança que a autora dá a seus livros). Entre as prostitutas arrimentadas pelo tráfico há varias brasileiras, e quando uma pessoa quer fugir para justiça, obviamente tenta fugir para o Brasil. Bom livro, de uma poderosa escritora (que parece se vingar, por meio da literatura, de aborrecimentos que experimentou nos anos em que viveu na Itália).
Registro #1215 (romance policial #64)
[início: 01/08/2017 - fim: 08/08/2017]
"Morte e julgamento (Brunetti #4)", Donna Leon, tradução de Luiz Araújo, São Paulo: Editora Schwarcz (Grupo Companhia das Letras), 1a. edição (2008), brochura 12x18 cm., 267 págs., ISBN: 978-85-359-1163-3 [edição original: Death and Judgment / aka A Venetian Reckoning (New York: Harper Collins) 1995]

sábado, 9 de setembro de 2017

livro aberto

Foi Helga Correa, senhora das gravuras, das colagens e dos livros de artista, quem primeiro perguntou-me se eu conhecia "Livro aberto", de Marcelo Tápia. Como eu estava envolvido com a leitura do notável "Refusões", livro mais recente dele, onde está reunida sua produção poética, de 1982 a 2017, resolvi garimpar por aí um exemplar e consegui. Um livreiro lá do Rio de Janeiro tinha um volume, que acabou incorporado a meus guardados. "Livro aberto" é antes de tudo um conto, mas também é um livro-objeto, um experimento de design gráfico, uma inventiva proposta narrativa. O volume, impresso em preto, com identificação apenas na lombada, tem 82 páginas, com um retângulo recortado em todas elas e na capa. Lembra imediatamente o obturador de uma câmera escura (quando o livro fica na vertical) ou um poço de elevador (quando o livro repousa na horizontal), atraindo nos dois casos o olho do leitor para uma escuridão no fundo (que é o verso da contracapa, único elemento não vazado do livro). Ao abrir o livro o leitor parece entrar em um teatro, momentos antes de uma peça começar a ser encenada, com os elementos cenográficos já instalados num palco. O conto envolve seis personagens (narrador, marido, assistente, esposa, amante, inimigo) e tem uma chave de leitura, na forma de um diagrama. Cada personagem da trama se apresenta apenas em espaços previamente determinados (dois espaços acima, dois espaços abaixo e em cada um dos dois lados do retângulo recortado das páginas. O "narrador" e o "inimigo" têm liberdade para ocupar os espaços dos demais. Cada voz narrativa se diferencia graficamente por ter uma fonte tipográfica distinta. O livro inclui breves citações, também diferenciadas tipograficamente. A história que se conta pode ser separada em três atos, de mais ou menos dez páginas cada um. Os seis personagens, funcionários de um escritório e que se conhecem muito bem, entram em um elevador que trava, deixando-os na escuridão. A cada página o autor registra breves e episódicos pensamentos deles, em geral apenas de um ou dois a cada vez. A consciência do quinteto (marido, assistente, esposa, amante e inimigo) flui recortada, enquanto o narrador conduz o leitor ao entendimento do drama, da história e tensões acumuladas entre eles. Na cabine escura do elevador o tempo congela, passado, desejos, medos e pulsões dos personagens se fundem. Há um clima de sonho, onde se misturam sexo e crime. Eventualmente o grupo será resgatado, mas será que o leitor não ficou demasiado tempo focado no poço, no abismo, no jogo do livro, não terá perdido alguma coisa? Volte a ler ou conte melhor a história, conte outra história, parece sugerir o autor. Interessante mesmo. Mas agora é hora de voltar às imagens poderosas dos cinco livro reunidos no "Refusões". Vale.
Registro #1214 (conto #142)
[início: 04/09/2017 - fim: 06/09/2017]
"Livro aberto", Marcelo Tápia, São Paulo: Editora Olavobrás,  1a. edição (1991), brochura 18x23 cm., 82 págs., sem ISBN

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

vestido para morrer

Esse é o terceiro volume da série de romances policiais assinados por Donna Leon dedicados aos sucessos do Comissário Guido Brunetti. Para além da trama essencialmente policial de seus romances, Donna Leon sempre acrescenta a eles um tema forte e contemporâneo. No "Morte no teatro La Fenice" descreve-se algo sobre questões de gênero e o papel das mulheres na sociedade italiana; em "Morte em terra estrangeira" se fala de questões ambientais, das injunções políticas que limitam o debate franco sobre o meio ambiente; já em "Nada como ter amigos influentes" se fala da corrupção doméstica, do dia a dia, em contraste com aquela sistematizada, das grandes corporações (como qualquer governo ou a máfia). Nesse "Vestido para morrer" o tema que aparece lentamente na trama é a hipocrisia das ligas morais, dos grupos ou instituições que em nome de alguma fé se apresentam para ajudar a população. É verão, a contragosto Paola e os filhos adolescentes deixam Brunetti só, em uma Veneza impossível, repleta de turistas, investigando a morte de um travesti, pois todos os demais comissários da cidade estão impossibilitados. Já que as férias foram estragadas e a morte é sempre o único fator que importa, Brunetti, com esforço e engenho, conseguirá identificar os responsáveis e as razões do crime. Neste volume somos apresentados a Elettra, a diligente secretária do procurador Patta. E vê-se que Brunneti se apresenta algo mais conservador, refratário a presença de turistas mal educados e mal vestidos, mas que sabe usar suas raras habilidades para extrair de cada um que se apresente a informação que o ajudará a comprovar as suspeitas que tem desde o início da trama. Em algum momento o narrador lembra da morte recente do juiz Falcone (um dos responsáveis pela operação "Mãos Limpas", investigação judicial que varreu o mapa político italiano nos anos 1990). Noutro se fala da expansão econômica europeia; da aids; da onisciência que os italianos parecem zelar como qualidade básica de seu caráter; dos prazeres da boa comida. Boa trama, bom livro. Vale.
Registro #1213 (romance policial #63)
[início: 09/08/2017 - fim: 12/08/2017]
"Vestido para matar (Brunetti #3)", Donna Leon, tradução de Luiz A. de Araújo, São Paulo: Editora Schwarcz (Grupo Companhia das Letras), 1a. edição (2006), brochura 12x18 cm., 286 págs., ISBN: 978-85-359-0877-3 [edição original: Dressed to death (New York: Harper Collins) 1994]

terça-feira, 5 de setembro de 2017

pássaros pretos

De Mirian Mambrini só conhecia o bom "A bela Helena", que li por sugestão da Heloísa Mesquita, amiga querida, lá de São Paulo, mas que não vejo há mais de um ano, ai de mim. Como estará grande sua pequenina Inês?, e a adolescente Rebeca?, e como estará o Samuca em seus combates? Logo veremos, espero. Esse "Pássaros pretos" é um romance policial canônico. Um crime acontece e o leitor é levado a acompanhar os caminhos que identificarão o assassino. Mirian Mambrini faz uma garota, uma jovem que pretendia passar um tempo de estudos em Paris, voltar para o Brasil por conta da morte violenta de seu pai, poucos dias após sua viagem rumo à Europa. Essa garota, dona de um inusitado nome, Íris Flora, reunirá em Cabo Frio, região praiana à leste do Rio de Janeiro, uma confraria de investigadores (um ex-namorado, um policial, um escritor), que com as informações colhidas com seu irmão, sua mãe, sua tia e outros indivíduos da população do lugar) a ajudarão descobrir as circunstâncias do crime. É um livro que se defende bem e oferece descrições interessantes, tanto de alguns personagens, quanto da paisagem natural ou da passagem do tempo, mas é um livro preso à forma, ao formato, ao gênero. Nada que deprecie o livro, mas o leitor precisa entrar no jogo da investigação rapidamente para realmente gostar do livro. Acho que há uns personagens que têm estofo para outras aventuras. Vamos a ver o que Mirian Mambrini nos reservará no futuro. Evoé. 
Registro #1212 (romance policial #62)
[Início: 16/08/2017 - fim: 31/08/2017]
"Pássaros Pretos", Mirian Mambrini, Rio de Janeiro: Editora 7 Letras, 1a. edição (2017), brochura 14x21 cm., 197 págs., ISBN: 978-85-412-0557-5

domingo, 3 de setembro de 2017

sobre gatos

Nunca havia lido nada de Doris Lessing. Quando ela ganhou o prêmio Nobel de literatura, há dez anos, cheguei a folhear vários livros dela, mas não acho que comprei algum (se os comprei eles perderam-se nos guardados). Como sou um senhor dono de gatos escalei-me para comprar "Sobre gatos" assim que entrou em pré-venda (foi o Daniel Dago quem fez o anúncio, com meses de antecedência). Essa edição brasileira é tradução da original inglesa, publicada em 2002, que inclui três conjuntos de histórias que foram publicadas inicialmente de forma independente, em 1967 (Gatos em particular), 1989 (Rufus, o sobrevivente) e 2000 (A velhice de El magnífico). As histórias de gatos do primeiro conjunto começam ainda na infância, na África, e são as mais violentas (não é fácil se acostumar, mesmo por meio da ficção, literariamente, com a realidade da vida selvagem e da vida prática de quem vive no campo). Mas logo há um salto, e Lessing começa a contar as aventuras de duas gatas dos tempos em que morava em Londres. O período não é identificado no livro, mas deve ser no início dos anos 1950, quando ela emigrou para lá. De resto há também uma citação sobre um grande nevoeiro, que pode ser o de 1952. Estas duas gatas, sem nome, apenas "a gata cinza" e "a gata preta", convivem, tem suas ninhadas, disputam território, atenção e preferência, ficam doentes e se salvam, caminham por uma Londres cheia de gatos, algo suburbana. Lessing ainda é uma dona de gatos aprendiz, não entende certas mudanças de humor das gatas, força sua humanidade à elas. A história de Rufus é de meados dos anos 1980. Neste intervalo Lessing certamente conviveu com vários outros gatos, não nominados e que não mereceram o registro em livro. Ela conta como a chegada de um gato maltrapilho, que virá a chamar-se Rufus e acabará conquistando sua atenção e abrigo. Os dois gatos oficiais naquele período, Charles e Butch, sabem bem que não perderão a posição que têm na casa, dominam o jovem e maltratado Rufus só com o olhar. Todavia Lessing parece se interessar especialmente pela inteligência e sabedoria felina dele, sujeito que deve ter tido toda sorte de aborrecimentos, porém que soube aprender como funcionam as engrenagens morais dos humanos e de como ganhar deles algum carinho (seu ronronar forçado e maroto é cousa de um ator nato). O ultimo episódio do livro trata dos anos finais de um gato especial dela, Butch, o mesmo da história anterior, apelidado "El magnifico". Quem convive com gatos sabe como cada um torna-se especialissimo a seu tempo, com suas manias, suas metamorfoses, seus nomes que variam e incorporam fragmentos da vida e humores de seus donos. Ela aceita os gatos e seu instinto, de um jeito que eu, dono de gatos de apartamento, que não experimentam a vida da ruas e seus perigos, jamais saberei. De qualquer forma Lessing mostra ser uma boa observadora, na medida em que seja possivel entender animais tão mutáveis como os gatos, seres que permitem infinitas variações em sua descrição. O curioso das histórias é que só há gatos em sua vida, apenas incidentalmente ela cita um "nós" e fala de quem vive com ela. Em algum momento ela fala de duas mulheres e que a ajudam a enterrar sobre a chuva uma ninhada indesejada (uma cena poderosa, que lembra obviamente aquela das três bruxas do inicio do Macbeth). Mas é só. Se eu soubesse há dezesseis anos que gostaria tanto de gatos, teria iniciado naquela época um diário das aventuras deles, algum tipo de registro, para não depender de minha estropiada memória ao falar deles. Paciência.
Registro #1211 (crônicas e ensaios #215)
[Início: 24/08/2017 - fim: 28/08/2017]
"Sobre gatos", Doris Lessing, tradução de Julia Romeu, Belo Horizonte: Autêntica Editora, 1a. edição (2017), brochura 14x21 cm., 187 págs., ISBN: 978-85-513-0252-1 [edição original: On Cats (London: Flamingo / Harper Collins Publishers) 2002]

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

poesia vista

Ler e ver os poemas de Joan Brossa sempre é um assombro. Já registrei aqui os "99 poemas" traduzidos por Ronald Polito e editado pela Demônio Negro. Nesta seleção, organizada por Vanderley Mendonça, que é também o tradutor, encontramos 23 poemas visuais; 31 poemas escritos (acompanhados dos originais em catalão) e 17 poemas-objeto. O que são "poemas escritos" não precisa ser explicado, muito embora sempre pode ser controversa a interpretação de um poeta sobre a natureza de seu jogo, seu ofício, sua leitura da realidade, sua interpretação do mundo. Grosso modo pode-se dizer que nos "poemas visuais" texto, imagens e símbolos são organizados de tal forma que é o elemento visual que tem função organizacional na obra, eventualmente até prescindindo de símbolos de escrita para sua caracterização como poesia, afastando-se da linguagem que pode ser vocalizada. E, por fim, "poemas-objeto" são, na acepção de Brossa, poemas que não geram linguagem, que suprimem completamente a linguagem, uma variante mais selvagem dos poemas visuais. A edição incluí ainda dois bons prefácios. Um é assinado por Haroldo de Campos. Ele conta como foi que João Cabral de Melo Neto fez a poesia de Brossa ser conhecida no Brasil e de como os poetas concretistas brasileiros mantiveram produtivo contato com ele até sua morte, em 1998. O segundo é assinado por Glòria Bordons, especialista em sua obra, organizadora de vários livros sobre ele e por um período responsável pelos guardados da Fundació Joan Brossa. Ela apresenta uma curta biografia do poeta catalão e explica algo de seu caráter único, heterodoxo, não comprometido com modismos e tendências, louva sua poesia e atitude, canta o quão irrelevante para ele eram definições de gênero, de fronteira entre as artes, a classificação das formas. Vale a pena gastar um tempo e apreciar sua poesias visuais nesta aba do site da Fundació. Visca Brossa! Visca Catalunya! 
Registro #1210 (poesia #86)
[início: 10/07/2017 - fim: 05/08/2017]
"Poesia vista", Joan Brossa, tradução de Vanderley Mendonça, São Paulo: Ateliê Editorial, 1a. edição (2005), capa-dura 14,5x21,5 cm., 124 págs., ISBN: 978-85-7480-290-5 [edição original: Glòria Bordons / Poemes escollits (Barcelona: Edicions 62) 1995]

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

contos da tartaruga dourada

Estão reunidos neste livro os cinco "Contos da Tartaruga Dourada" remanescentes dos escritos produzidos pelo poeta coreano Kim Si-seup, no final do século XV. Essa obra é considerada o primeiro registro de prosa ficcional da literatura coreana. São histórias fantásticas, onde homens e divindades interagem, fantasmas procuram gente solitária ou em crise, onde magia e realidade são registros igualmente válidos, nas quais ensinamentos morais e análise sociológica se fundem, sutilmente. Os fundamentos expressos nos contos brotam do budismo, do confucionismo, do taoismo. A influência é sempre chinesa, dos clássicos chineses, na escrita, nas histórias que se contam e inspiram os personagens, nos mitos, mas o autor se sabe distinto dos chineses, sabe pertencer a um reino especial (Kim Si-seup viveu nos tempos do Grande Rei Sejong, o promulgador do código de escrita do alfabeto coreano). Os contos são escritos sim em prosa, mas há longas seções poéticas neles (talvez um quarto ou um terço do total do livro). A poesia é na verdade o instrumento utilizado pelos personagens quando interagem entre si, nenhuma ideia, nenhum conceito é verbalizado em prosa, quando não fazem reflexões para si mesmos eles expressam seus sentimentos através da poesia. Há um jogo licencioso em quase todas as histórias, uma sexualidade camuflada, um duplo sentido que elide a mecânica do ato sexual. Em geral são deidades femininas que se apresentam a homens, mas há também deuses que ficam curiosos de um destino humano e convocam o vivente para um colóquio divino, honrando neles sempre a sabedoria e a capacidade de expressão poética. Em "Um jogo de varetas no Templo das Mil Fortunas" um rapaz reza e pede a Buda uma noiva; Em "Yi espreita por cima da mureta" um rapaz seduz uma garota que vive encerrada em uma espécie de pavilhão dourado; em "Embriaguez e deleite no Pavilhão do Azul Suspenso" um belo rapaz se embebeda e passa uma noite de sonho com uma "mulher que não faz parte do reino dos homens", frase sempre repetida nas histórias de Si-seup; em "Visita à Terra das Chamas Flutuantes do Sul" um sábio estudioso do confucionismo é convocado para visitar o reino dos mortos e de alguma forma preparado para tomar o lugar daquele rei (lembra o mito de Éaco); e no conto "O banquete esvanecido no Palácio do Fundo das Águas" um outro estudioso é levado a um reino mágico, desta vez como convidado de honra, como se o rei do lugar quisesse mostrar a seus súditos que há sabedoria também no mundo dos homens. O livro inclui uns mimos: curtos ensaios que contextualizam vida e obra do autor e de seu país, a Coreia, uma bela apresentação assinada pelo poeta Nelson Ascher e uma nota explicativa da tradutora, Yun Jung Im, sobre os procedimentos e método que utilizou. Muito interessante.
Registro #1209 (contos #141)
[Início: 11/08/2017 - fim: 16/08/2017]
"Contos da Tartaruga Dourada", Kim Si-seup, tradução de Yun Jung Im, São Paulo: Estação Liberdade, 1a. edição (2017), brochura 13,5x19 cm., 175 págs., ISBN: 978-85-7448-284-2 [edição original: Geumo Shinhwa 금오신화 (Reino das manhãs calmas, Dinastia Joseon, Coreia) séc. XV]

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

múltipla escolha

"Múltipla escolha" é uma espécie de acerto de contas de Alejandro Zambra com o Chile de sua infância e juventude, aquele da ditadura de Augusto Pinochet). Vou classificá-lo aqui como romance na falta de uma definição melhor. É um livro totalmente dispensável, que não vale o esforço de ser lido, nem os trinta e poucos dinheiros que se paga por ele. Lixo puro. Há um jogo irônico entre seu livro e a prova de aptidão verbal chilena, modelo de seleção utilizado para ascensão ao ensino superior de lá, entre 1966 e 2002. Tratava-se de um conjunto de testes de múltipla escolha, progressivamente mais longos e complexos (e ambíguos, e irrelevantes, e amalucados). Mas essa ironia, que explicita a estupidez e mediocridade do governo que patrocinava tal processo seletivo, esgota-se logo no primeiro conjunto de testes. O leitor entende o bizarro da coisa e fica a perguntar-se se não há ao alcance da mão um outro livro para dedicar-se a ler. Claro, Zambra não reutiliza os testes reais das provas, ele cria enunciados, conjuntos de asserções, argumentos, silogismos e pequenos contos, onde se fala algo do Chile daquela época (e certamente também sobre o Chile contemporâneo), mas aquilo que resta a ser decifrado no livro não me convenceu nem um pouco. Paciência. Seu livro anterior, de contos, "mis documentos", que é de 2014, já tinha me aborrecido um pouco; seu segundo  romance "la vida privada de los árboles", de 2007, era um tédio só; "bonsai", de 2006 e "formas de volver a casa" de 2011, defendem-se bem, mas não são nenhum portento. O livro dele que mais me interessou foi "no leer", de 2012, ensaios poderosos sobre literatura e arte, talvez essa seja mesmo sua boa vocação. Vou esperar um bocado antes de procurar alguma coisa nova dele. E segue o baile, a "Múltipla escolha" só resta ser esquecido em alguma esquina, para que tenha melhor sorte com um outro leitor, um leitor mais generoso do que eu posso ser.
Registro #1208 (romance #325)
[início: 22/07/2017 - fim: 01/08/2017]
"Múltipla escolha", Alejandro Zambra, tradução de Miguel Del Castillo, São Paulo: Editora Planeta, 1a. edição (2017), brochura 15x22,5 cm., 112 págs., ISBN: 978-85-422-0829-0 [edição original: Facsímil (Ñuñoa/Santiago/Chile: Editorial Hueders) 2015]

sábado, 26 de agosto de 2017

na ilha de falesá

Depois de ler os relatos de Stevenson sobre as viagens solitárias e as Cévennes, eis que encontrei essa sua história de aventuras dos mares do sul. O enredo lembra um tanto o fundamental "Coração das Trevas", mas não ele não alcança o tom trágico da história de Joseph Conrad, muito embora faça uma potente descrição do encontro de civilizações partindo do comportamento e escolhas de homens comuns (as "civilizações", lembremos, são apenas abstrações que inventamos para poder definir com algum apuro aquilo que lembramos da história de nós mesmos). Stevenson narra a chegada de um sujeito (Wiltshire) que assume um entreposto comercial em uma remota ilha do Oceano Índico (certamente um lugar semelhantes as ilhas Samoa, para onde ele emigrou, em 1888, pouco mais de seis anos antes de morrer). A ideia é vender aos ilhéus quinquilharias em troco da polpa seca dos cocos da região, para que seus contratantes ingleses possam posteriormente extrair deles óleo, um produto de grande valor no século XIX. Wiltshire chega à ilha após a morte de pelo menos três outros homens antes dele, mortes por loucura, doenças inexplicáveis ou suicídio. Trata-se de um mundo corrompido por missionários, padres, religiosos e agentes coloniais (da Inglaterra, Holanda, França, Alemanha, que competem entre si). Sem saber exatamente os costumes do lugar ele descobre-se estar sob a marca de mau olhado, uma proibição tribal, que impede que os ilhéus façam negócios com ele. Com engenho, diplomacia, alguma violência e arte ele descobre a origem das intrigas que fizeram com que ele fosse hostilizado desde sua chegada. A narrativa que se conta é retrospectiva. Já sabemos, no início do livro, que é um velho Wiltshire quem conta os sucessos desta fase remota de sua vida, de como não conseguiu jamais retornar a Londres, abrir uma taverna como planejava, tornando-se um velho das colônias, criando filhas mestiças, que imagina ser possível casar com homens brancos. Há uma não disfarçada melancolia neste final. Se pessoas como ele não forem para o inferno, filosofa ele, é porque o inferno não existe. Interessante. Esse livro faz parte de uma coleção de histórias curtas (A arte da novela, da Grua Livros, originalmente produzidas pela Melville House Publishing, das quais já li: "A briga dos dois Ivans", "A lição do mestre", "O colóquio dos cachorros", "Michael Kohlhass", "O véu erguido", "O homem que corrompeu Hadleyburg", "O homem que queria ser rei", "A pedra de toque" e "Stempenyu: um romance judaico"). Vale.
Registro #1207 (novela #69)
[início: 05/06/2017 - fim: 01/08/2017]
"Na ilha de Falesá", Robert Louis Stevenson, tradução de Bernardo Ajzenberg, São Paulo: Grua livros, 1a. edição (2017), brochura 13x18 cm., 136 págs., ISBN: 978-85-61578-62-6 [edição original: (London: The Illustrated London News) 1892]

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

dias de feira

Ganhei esse "Dias de feira" de don Renato Cohen, amigo dos bons. São textos curtos, crônicas que brotaram da experiência profissional do autor, Julio Bernardo. Nascido em 1973 ele acompanhou desde pequeno os pais em feiras livres pela região da Lapa, em São Paulo, e também, já como feirante independente, nos municípios de Osasco, Cotia e Itapevi. Após a morte do pai, em 1997, Julio trabalhou como chefe de cozinha e DJ por uns dez anos. Depois manteve um blog de critica gastronômica (o botecodojb.blogspot.com) por oito anos, de 2007 a 2015. Aparentemente o blog alcançou grande repercussão e influência, sustentou polêmicas e recebeu centenas de comentários, tanto elogiosos quanto refratários. Todavia Júlio cansou-se das dificuldades, das reações às suas ácidas resenhas e do inevitável tédio que a manutenção deste tipo de trabalho. Atualmente ele mantém no ar suas crônicas gastronômicas no YouTube e começou um outro blog sobre gastronomia, vida noturna de São Paulo e outras insignificâncias, o edificiotristeza, bem mais sereno e reflexivo, senhor de si mesmo, sem se importar com os anônimos detratores, e em parceria com vários colegas de ofício. Mas vamos falar de seu livro. O "Dias de feira" reúne cinquenta crônicas. Eu diria que uma parte pertence ao plano da memória, da historiografia ligeira, do registro documental, mas há uma maioria que me parecem mais próximas ao território da invenção, da criação literária, da licença poética, da imaginação livre. Há verdade no texto, mas uma verdade mascarada, que ilude. Júlio trata do microcosmos das feiras livres, numa sociologia selvagem, confessional. Apresenta ao leitor o funcionamento das feiras, sua organização, suas regras e personagens típicos. Há violência, álcool, drogas, trambiqueiros, presidiários e sexo nas narrativas. E há também nelas humor e sarcasmo de sobra, quase sempre em estalos episódicos, em causos, que poderiam ser recontados rapidamente por qualquer um, como uma piada que se aprende e é incorporada a um repertório pessoal. Quase metade dos textos são curtas e livres biografias de sujeitos emblemáticos da memória afetiva de Júlio: seus pais, seus colegas e funcionários, os amigos de infância e do bairro, Vila Hamburguesa e adjacências, uma nau dos insensatos paulista, ou da Lapa, melhor dizendo. Algo das transformações pelas quais passou esse tipo de negócio está incorporada ao livro. Cabe dizer que as feiras continuam na paisagem paulista (são 120 por dia da semana, umas 900 por mês, não é pouco). Ele não chega a ser saudosista, sabe que a cada período de tempo novas regras, procedimentos, normas de conduta e regulação pública modificam esse oficio. Sujeito interessante. Vale a leitura.
Registro #1206 (cronicas e ensaios #214)
Inicio: 31/07/2017 - fim: 02/08/2017
"Dias de feira", Júlio Bernardo, São Paulo: editora Schwarcz (Grupo Companhia das Letras), 1a. edição (2014), brochura 14x21 cm., 189 págs., ISBN: 978-85-359-2432-9

terça-feira, 22 de agosto de 2017

morte em terra estrangeira

Depois de ler o nono volume da série de Donna Leon dedicada as aventuras de seu comissário Guido Brunetti ("Nada como ter amigos influentes") resolvi ler preferencialmente os demais na ordem cronológica de sua publicação. O primeiro volume, "Morte no teatro La Fenice", já registrei aqui na semana passada. O segundo é esse "Morte em terra estrangeira". Assim como o anterior não é um romance policial convencional. O texto é longo, as digressões bem variadas e o desfecho não tem nada de heroico e brilhante, antes verossímil e falho, como na vida real costumam ser os desfechos dos crimes e seus desdobramentos mundanos. Brunetti investiga as circunstâncias da morte de um militar americano em Veneza. O que poderia parecer apenas latrocínio mostra-se algo bem mais complexo e sutil. A história envolve questões ambientais; a presença de militares americanos (milhares deles) em território italiano, como num mundo à parte; as diferenças entre o norte e o sul italiano; a influência da máfia na sociedade; os caminhos do dinheiro e do poder. Os detalhes curiosos da vida de um casal de venezianos, o comportamento de seus filhos adolescentes assim como as reflexões sobre as variantes dialetais da população e as regras de convivência entre as classes sociais dão estofo à narrativa puramente policial, de mistério, que se conduz no livro. A geografia da cidade, o labirinto movente suspenso nas águas, é como um personagem a mais na trama. Os diálogos entre os personagens são muito bons e a descrição do clima, da arquitetura e dos estados de espírito dos protagonistas igualmente bem construídas. Sim, haverá mais volumes desta curiosa escritora em breve. Vale.
Registro #1205 (romance policial #61)
[início: 26/07/2017 - fim: 28/07/2017]
"Morte em terra estrangeira (Brunetti #2)", Donna Leon, tradução de Luiz A. de Araújo, São Paulo: Editora Schwarcz (Grupo Companhia das Letras), 1a. edição (2004), brochura 12x18 cm., 339 págs., ISBN: 978-85-359-0585-5 [edição original: Death in a strange country (New York: Harper Collins) 1993]

domingo, 20 de agosto de 2017

fraturas de relações amorosas

Acho que foi o Weaver Lima quem me falou do Cláudio Portella, mas não estou certo. Será que inventei uma amizade entre eles apenas pelo fato de ambos serem de Fortaleza e da mesma geração? Não sei dizer. De qualquer forma, um dia comprei esse "Fraturas de relações amorosas" e deixei-o numa pilha de guardados para ler mais tarde. Esqueci-me do livro, claro, mas reencontrei-o por acaso no mês passado, quando tirei uns dias para só viajar e ler, sem aborrecimentos. Trata-se de uma narrativa experimental, um monólogo teatral, um jogo dramático. Vou identificar o livro aqui nestes registros como romance, mas talvez o Portella o classifique de outra forma. São 417 cantos curtos, numerados em algarismos romanos, onde se faz um censo dos dias do relacionamento entre dois sujeitos, das metamorfoses pelas quais passam seus corpos, das facetas do amor entre eles. O narrador (Felipe) vive amasiado com um travesti, Marcelo, que depois torna-se Cassandra. Entretanto Felipe também vive com uma mulher, Aparecida, com que tem um filho, que em algum momento morrerá. Marcelo não tem ciúme de Aparecida ou das outras mulheres com quem Felipe se relaciona, mas não suporta a ideia de que ele se envolva com um outro travesti. O narrador a quem Portella dá voz não tem pudor, diz como Felipe e Marcelo fazem sexo e amam, afinal sexo e amor são o sal da vida, precisam ser praticados para que a vida tenha sentido. O narrador conta sem medo sua odisseia particular, se desnuda, expõe-se, faz uma autoanálise selvagem de si e de seus atos, garimpa sua memória e a mistura com aquilo que parece inventar. Seu monólogo é uma forma de suportar os desastres desta vida. No livro não há julgamento, cabotinismo, hipocrisia, moralismos bestas. Apenas uma realidade lírica. No mundo selvagem, fragmentado e doido que o Portella nos apresenta, reinam sim o amor e a vontade. Sujeito curioso esse Portella. Há outros livros dele por aí. Vou procurar. 
Registro #1204 (romance #324)
[início: 06/06/2017 - fim: 02/08/2017]
"Fraturas de relações amorosas", Cláudio Portella, Fortaleza: Edições CP, 1a. edição (2016), brochura 14x21 cm., 100 págs., ISBN: 978-85-420-0767-1

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

solidão e outras companhias

Com esse seu "Solidão e outras companhias", o jovem jornalista Márwio Câmara foi finalista de um prêmio literário fluminense no ano passado. Recentemente  alcançou ser editado pela boa Oito e meio. São treze contos, quase todos bem curtos, mas suficientemente bem escritos para que Márwio mostre seu domínio do ofício. Os contos gravitam o mundo da cultura, notadamente em suas expressões mundanas, da literatura, da música, do cinema. Todos os narradores, homens ou mulheres, têm ambições literárias, projetos de ficção, refletem sobre o processo e as técnicas de construção dos livros. Num dos contos ("Luz nas pupilas") encontramos uma boa e original variante daquele aforismo de Chuang-Tzu, em que o filósofo se pergunta se sonhou ser uma borboleta ou é afinal uma borboleta que sonha ser homem. Similarmente, todos os contos podem ser lidos como histórias que um autor inventa (histórias que de certa forma acaba descartando, abandonando, por preciosismo) ou fragmentos da vida de um autor que ama a literatura e experimenta na ficção uma espécie de fuga da realidade. As histórias tratam também de relações familiares, do tédio na vida, da educação sentimental, do cotidiano dos jovens universitários que estudam ou tem trabalhos provisórios. Mesmo quando Márwio flerta com clichês (memórias de amantes em Paris, a musa literária travesti, o sexo acrobático, a história ouvida do taxista, o consultório de psicanálise como palco) ele se safa bem e salva muito bem os contos. Ojo, esse é um jovem autor que vale a pena acompanhar. Vale.
Registro #1203 (contos #140)
[inicio: 15/07/2017 - fim: 30/07/2017]
"Solidão e outras companhias", Márwio Câmara, Rio de Janeiro: editora Oito e meio, 1a. edição (2017), brochura 13,5x20,5 cm., 93 págs., ISBN: 978-85-5547-043-1

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

os prazeres dos lugares inóspitos

Esse livro faz parte da boa coleção da Relógio D'Água dedicada a relatos de viagem. Foram publicados já uns quinze volumes, dos quais registrei aqui apenas dois: "Homenagem a Barcelona", de Colm Tóibín, e "Veneza: Um interior", de Javier Marías. Neste estão reunidos dois textos de Robert Louis Stevenson, o conhecido autor de "A ilha do tesouro" e de "O estranho caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde". O primeiro texto é o ensaio que dá nome ao livro, "Os prazeres dos lugares inóspitos", publicado originalmente num jornal escocês, em 1874. O segundo é um relato de viagem propriamente dito, "Viagens com uma burra pelas Cévennes", publicado em livro em 1879. Se no ensaio o leitor acompanha reflexões e argumentos teóricos, derivados de experiências de viagem e do entendimento prático da solidão dos viajantes, no segundo encontramos algo menos cerebral, algo muito vívido, já que se tratam das transcrições de um diário de viagem. No ensaio Stevenson propõe um paradoxo estóico: para ele qualquer lugar é suficiente bom para nele habitarmos, mas apenas em uns poucos alcançamos passar horas realmente agradáveis. Ele fala da quase impossibilidade de explicar a alguém o prazer das viagens. Ora é apenas o conforto de uma sombra que marca todo um conjunto de sensações, ora as epifanias chegam por conta de uma paisagem ordinária, comum, dos vapores de uma torta recém preparada, do som difuso do voo dos pássaros, do crespo e sombrio mar ou de nossa imaginação, que teima em provocar associações sem fim entre a paisagem e nosso mundo interior, nosso continuamente mutável estado de espírito. No relato da viagem pela Cévennes, região montanhosa da parte sul do maciço central francês, ao norte de Montpellier, acompanhamos doze dias de aventuras de Stevenson. Ele não era exatamente jovem na época deste passeio, início do outono de 1878 (tinha já quase trinta anos). Cévennes é conhecida por ter sido palco de uma importante rebelião de protestantes calvinistas no início do século XVIII, a dos Camisards. Exatamente por isso boa parte das reflexões de Stevenson contrasta os hábitos católicos e protestantes, assim como a geografia acidentada daquele lugar e de sua Escócia natal. Nos doze dias de viagem, Stevenson percorre cerca de 200 Km, de Le Puy-en-Velay a Saint-Jean-du-Gard, quase sempre rumo ao sul, acompanhado de uma burra, Modestine, que tem um papel relevante nas histórias, dada a inaptidão de Stevenson como condutor de animais. O ambicioso projeto de Stevenson é "uma aventura puramente descomprometida, tal como aquela dos viajantes heroicos dos primórdios", que oferecesse a ele a experiência de "encontrar-me sem saber orientar-me, tão pouco familiarizado com o que me rodeasse como o primeiro homem na terra, qual náufrago explorando um território". Pioneiro do que hoje chamamos de camping selvagem, Stevenson percorre colinas e vales, frequentemente longe dos vilarejos, perde-se e retorna às trilhas do lugar, testa a confiança e desconfiança dos habitantes, pouco acostumados a forasteiros que não fossem vendedores (ele sempre se apresenta como um "autor"). A maioria das noite ele dorme no campo, mesmo quando venta forte ou chove. Em algumas encontra abrigo em estalagens e em um monastério trapista. O registro de Stevenson lembrou-me de dois outros diários de viagem que li recentemente: o de Heine em sua "Viagem ao Harz" e os de Josep Pla, pela catalunha, em seus "Cartas de lejos", "Cinco historias del mar", e pela Itália no "Cartas de Itália". Interessante mesmo.
Registro #1202 (crônicas e ensaios #213)
[início: 25/07/2017 -  fim: 28/07/2017]
"Os prazeres dos lugares inóspitos", Robert Louis Stevenson, tradução de Frederico Pereira, Lisboa: Relógio D'Água Editores (coleção Viagens), 1a. edição (2016), brochura 13x20 cm., 169 págs., ISBN: 978-989-641-651-4 [edição original: On the Enjoyment of Unpleasant Places (Edinburgh: Portfolio) 1874; Travels with a Donkey in the Cévennes 1879]