sexta-feira, 28 de abril de 2017

veneza, um interior

Um ano ser ler ou reler Javier Marías é um ano perdido. Quando soube que a editora portuguesa Relógio D'água havia reeditado algo antigo do Marías não perdi tempo e logo encomendei o livro. Nele estão incluídos dois mimos, crônicas que falam de Veneza e dos venezianos. Ambas foram publicadas originalmente em jornal e depois reunidas em livros. A mais recente é "O que cada um leva consigo", que  foi publicada em 2009 na revista El País Semanal (e depois incluído na coletânea "Ni se les ocurra disparar"). Nela Marías fala dos cinco anos em que viveu em Veneza, dos livros que lá escreveu, de sua rotina e das amizades que fez. Fala sobretudo sobre o tempo, sobre como o espaço é o depositário do tempo, o suporte de nossas lembranças (como Proust já nos ensinou). Sempre um frasista cativante, Marías diz "que só se perde realmente aquilo que esquecemos ou rejeitamos, o que preferimos apagar e já não queremos conosco, o que não fica incorporado na vida que contamos a nós próprios". O texto mais antigo, "Veneza, um interior", é um longo ensaio, tão robusto e bem escrito quanto completo. Um paradoxo, pois milhares de páginas e imagens podem ser escritas sobre a cidade sem esgota-la, porém Marías alcança no familiarizar com ela, sem ser pedante ou detalhista. Foi publicado em capítulos no jornal El País, em 1988 (e depois incluída na coletânea "Pasiones pasadas"). Nele acompanhamos as deambulações e digressões de Marías, com calma, atenção, encantamento. Ele fala das gentes e das ilhas, da luz e da noite, dos pintores e arquitetos; conta causos curiosos, entretêm o leitor transportando-o em transe para as pedras daquela cidade flutuante. Ah!, um sujeito não pode nunca se cansar de Veneza. Procurando, encontrei algo que compartilho com os leitores curiosos: o texto completo de "Veneza, un interior", que pode ser acessado aqui. Bom divertimento. 
[início -  fim: 11/04/2017]
"Veneza, um interior", Javier Marías, tradução de José Bento (Venecia, un interior) e Manuel Alberto (Lo que uno lleva consigo), Lisboa: Relógio D'Água Editores, 1a. edição (2016), brochura 13x20 cm., 57 págs., ISBN: 978-989-641-685-0 [edição original: El País, 22, 23, 24, 25 e 26 de agosto de 1988; El País Semanal, 14 de junho de 2009]

segunda-feira, 24 de abril de 2017

o fantástico na ilha de santa catarina

Esse livro foi presente da Marta, amiga querida, que emigrou já há tantos anos de sua São João do Polêsine fundamental para Florianópolis, em Santa Catarina. Neste "O fantástico na Ilha de Santa Catarina" estão reunidos 24 contos baseados em narrativas tradicionais de antigos ilhéus, descendentes dos ainda mais antigos e primeiros imigrantes, açorianos portugueses, que lá chegaram, entre 1748 e 1756. Franklin Joaquim Cascaes, catarinense que viveu entre 1908 e 1983, foi um dos maiores defensores da cultura de origem portuguesa de seu tempo. Autodidata e professor de uma escola de aprendizes de ofício de Florianópolis, ele coletou por anos histórias populares, mantendo em seus registros a forma de linguagem e o vocabulário utilizado pelos descendentes dos açorianos. Ele compilou também tradições religiosas, danças e cantigas, mitos populares, narrativas folclóricas. Nas 24 narrativas reunidas neste livro encontramos histórias de bruxas, possessão demoníaca, seres fantásticos que assombravam as noites dos pescadores da ilha. São histórias que certamente sobreviveram ao serem contadas de uma geração a outra, de avós a netos, de padres aos fiéis, ao redor de fogueiras ou em salas mal iluminadas onde o povo se reunia num dia de chuva e tédio. Não há exatamente ensinamentos morais ou psicologia camuflada neles. Cascaes se preocupa antes em contar bem seus causos, sem interpretrá-los, nem inventando alguma função que eles poderiam ter na sociedade em que foram criados (devemos sempre lembrar, como Robert Graves nos ensinou, que os mitos por vezes também tem funções especificas numa sociedade primitiva, seja de propaganda política, de lenda moral ou de alegoria filosófica). Nas narrativas de Cascaes sempre há uma metamorfose, de mulheres (ah, sempre as mulheres) à serviço de lucífer que são flagradas conjurando ou praticando um mal para logo reconverterem-se a fé cristã, humilhadas em sua nudez. Elas são perdoadas rapidamente, tão inocente parece ser o mal que causaram durante seus transes. Na escuridão, solidão e ignorância, ou melhor, vamos dizer simplicidade, em que viviam, isolados por distâncias difíceis de serem vencidas, os ilhéus criavam explicações mágicas para quase tudo: o adoecer e eventual morte de uma criança, a solteirice de uma pessoa feia ou deformada, o desaparecimento de uma rede de pesca ou ferramenta, os ruídos e as sombras das noites, a mudança súbita do comportamento de um animal. Mas, como disse meu pai um dia: "depois que inventaram a luz elétrica, os fantasmas desapareceram". Deveria ser assim, mas o homo sapiens sapiens ainda parece precisar de explicações amalucadas, pensamentos mágicos, soluções artificiais para seus problemas. O livro incluiu ilustrações e desenhos do próprio Cascaes para cada uma das 24 narrativas. Livro muito interessante. Ah!, não posso esquecer de registrar também que quem fez as vezes de correios, lá de Florianópolis para Santa Maria, foi outro amigo querido, o Juca.Vale.
[início: 03/01/2017 - fim: 10/04/2017]
"O fantástico na Ilha de Santa Catarina", Franklin Cascaes, Florianópolis: Editora da UFSC (Coleção Repertório), 1a. edição (2015), brochura 13,5x19 cm., 271 págs., ISBN: 978-85-328-0607-9

quinta-feira, 20 de abril de 2017

romping through dracula

A série de livros "Romping through" homenageia autores irlandeses famosos. Depois do "Romping through Ulysses" e do "Romping through Dubliners" (ambos de James Joyce) eis que registro agora algo sobre "Romping through Dracula", homenagem deles ao irlandês Bram Stoker. Como nas demais, nesta plaquete introduz ao leitor a ideia global de seu livro mais famoso, "Dracula" e fornece uma curta biografia do autor. Os autores (a turma do "At it again!", grupo teatral irlandês que produz esquetes ao vivo durante as comemorações festivas dos Bloomsday de Dublin) dão sugestões de várias atividades que expandem a experiência da leitura. Cada episódio ou capítulo do livro ganha uma ilustração, uma citação e alguma informação paratextual, como dados sobre a geografia atual de Dublin e a localização de alguns dos marcos literários da cidade associados a Stoker, como o local onde nasceu e o Museu que leva seu nome, em Clontarf, ao norte de Dublin; a biblioteca pública onde fica a maior coleção de seus livros; o teatro que ele costumava frequentar quando disputava com Oscar Wilde a atenção de uma atriz (Florence Balcombe, com quem acabou por se casar); parques, bares e castelos. O livro inclui dois pequenos mapas da cidade, que permitem a experiência de flanar por ela, procurando cousas relacionadas ao Stoker. São sempre divertidos esses livrinhos. Cabe lembrar que o povo do "At it again!" produziu também plaquetes dedicadas a Oscar Wilde e a Jonathan Swift, sobre os quais em breve falarei aqui. Vale, ou melhor, Sláinte!
[início: 25/02/2017 - fim: 26/02/2017]
"Romping through Dracula", Maite López, Jessica Peel-Yates, Niall Laverty (ilustrações), James Moore, Dublin: At it Again! (1a. edição) 2016, brochura 10,5x15,5 cm., 61 págs., ISBN: 978-0-9576559-5-9

terça-feira, 18 de abril de 2017

as fantasias eletivas

Só fiquei conhecendo algo da existência desse livro quando soube que uma tradução dele saíra em espanhol recentemente. Schroeder conta uma história inventiva, que trata de como pessoas se encontram e se desencontram, de como as motivações e escolhas de cada um de nós interferem, mesmo que quase com insignificância, nas motivações e escolhas de todos os demais que nos cercam, todos os demais com quem interagimos. Num romance de Goethe as afinidades eram eletivas, ou melhor resumindo, as afinidades entre pessoas se davam como as afinidades químicas e físicas entre os elementos. Para Schroeder são as fantasias, e também os sonhos, frustrações e ilusões o que miseravelmente escolhemos e eventualmente compartilhamos. A história que se conta é a de Renê, solitário recepcionista noturno de um hotel de Balneário Camboriú (cidade do litoral catarinense quase sempre povoada por turistas argentinos) e de Copi, travesti argentino que tenta fazer michê com os clientes do hotel onde Renê trabalha. Destino e história são detalhes. Acompanhamos os estados psicológicos e os dramas dos dois personagens com a curiosidade de quem ainda não se embruteceu completamente. O livro inclui reproduções das fotografias que Copi fez e legou a Renê. A cada fotograma corresponde um pequeno texto que antes de falar do que está fixado pela luz conta a solidão, tristeza e dor de quem escreve. O narrador da história inclui também o que seriam as poesias completas de Copi, sete versos bisonhos, que apenas os olhos de alguém apaixonado como Renê poderia valorizar. O livro é pequeno, muito interessante e poético. Notavelmente bem escrito. Vale.
[início: 31/03/2017 - fim: 01/04/2017]
"As fantasias eletivas", Carlos Henrique Schroeder, Rio de Janeiro: editora Record, 5a. edição (2016), brochura 14x21 cm., 111 págs., ISBN: 978-85-01-04114-2 [edição original: 2014]

domingo, 16 de abril de 2017

ninféias negras

Não lia um romance policial há meses. Em março, no dia de meu aniversário, ganhei de um casal amigo e querido, o Koff e a Fleig, esse "Ninfeias negras", de Michel Bussi. O entusiasmo deles me contagiou a princípio, mas a solução - ou antes, a proposta - que o autor escolheu para seu livro, não me agradou muito. Bussi faz uso de uma técnica há muito conhecida e explorada, a de iniciar sua história indicando que alguém dentre um pequeno grupo de personagens será a vítima ou o criminoso. O leitor é arrastado pelas regras de composição das histórias policiais (como Umberto Eco já nos ensinou) e apenas paramos de ler o livro quando somos apresentados a seu desfecho. Bussi compõe sua história em Giverny, santuário impressionista que Monet mandou construir e que tornou-se uma espécie de Meca das artes plásticas francesa, que atrai turistas sem fim há décadas para dentro de seus domínios, como uma diligente aranha arrasta presas a sua teia. O resultado final me pareceu frouxo, talvez por ser engenhoso demais. Aquilo que apreciamos no livro parece ser apenas um bom truque de composição. Não é possível que eu adiante aqui qualquer detalhe da trama do livro. Os leitores curiosos que se envolverão com a narrativa merecem tentar antecipar a descoberta de quem é vítima e quem é criminoso. Que cada um aproveite em paz seu naco de alegrias. Há outras cousas do Bussi por aí. Vamos a ver se me impressionam mais. 
[início: 26/03/2017 - fim: 28/03/2017]
"Ninfeias negras", Michel Bussi, tradução de Fernanda Abreu, São Paulo: editora Arqueiro, 1a. edição (2017), brochura 16x23 cm., 352 págs., ISBN: 978-85-8041-632-9 [edição original: Nymphéas Noirs (Paris: Presses de la Cité) 2011]

sexta-feira, 14 de abril de 2017

pequena madrugada antes da meia-noite

Semanas atrás estive no sertão pernambucano, em Serra Talhada, em uma missão acadêmica. Foram dias de muito trabalho, mas como a viagem era longa levei vários livros para ler. Um deles foi o "Máquina zero", do Ricardo Aleixo, que já registrei aqui. Outro foi esse "Pequena madrugada antes da meia-noite", do Marco de Menezes. Como das maravilhas que encontrei no livro do Aleixo já falei, é hora de me dedicar a tentar descrever o outro fino da lavra do Menezes. Ele nos apresenta quatro séries de poemas, quatro como as estações e as principais direções de uma rosa dos ventos. Os poemas são variados em temática e forma. Alguns deles poderíamos chamar de aforismos ou mesmo de sintéticos haikus. Os conjuntos são: manchúria (13), goleiro-linha (17), nada retira no silêncio (14), gabardine (13). Em "manchúria" os poemas tratam de fragmentos de lembranças, memórias da fronteira e do campo, registros de uma criança que olha, mas tudo é calmo, não há arrependimento, culpa ou dor. "goleiro-linha" reúne coisas urbanas, viagens, desabafos, saudades entranhadas, a lembrança de um outro poeta, que já foi muito amigo, mas não parece ser mais. "nada retira do silêncio" faz com o leitor um jogo de luz e sombra, mostra um poeta que enfrenta o abismo, tateia a natureza viva dos insetos e plantas, observa objetos e ausências como natureza morta. "gabardine" é o conjunto mais invernal, mais fúnebre, onde um narrador fala da morte de um amigo, da depressão e do suicídio, de um passado que oprime mas acaba por libertar. Não há nada frouxo nos poemas de Menezes, não há poemas fáceis, malabarismos e jogos verbais que iludem o leitor. A única ilusão que Marco de Menezes cria é aquela onde acreditamos que até parece fácil fazer poesia, poetar, escrever versos e publicá-los. Evoé Marco, Evoé.
[início: 27/03/2017 -  fim: 11/04/2017]
"Pequena madrugada antes da meia-noite", Marco de Menezes, Porto Alegre: Modelo de Nuvem, 1a. edição (2016) brochura 12x18 cm., 104 págs., ISBN: 978-85-81743-46-2


quarta-feira, 12 de abril de 2017

máquina zero

São doze poemas. Quase todos curtos, quase todos hiper destilados, potentes e cortantes, férteis em propostas e associações. Ricardo Aleixo os publicou no início destes anos 2000 (e fez a capa, projetou, editou, fabbro que é). Os poemas têm títulos, títulos-valise: (i) Máquina zero; (ii) Labirinto; (iii) Confidência; (iv) Paupéria revisitada; (v) Teofagia; (vi) Antropofagia; (vii) Autofagia; (viii) Como realmente é; (ix) Dois exercícios de língua pária; (x) O Belomorte; (xi) Exercícios de lira maldizente e (xii) Anti-ode: Belorizonte. Nos curtíssimos primeiros sete o poeta (i) deambula por Berlin e vê as gentes (se perde e se acha, entre sons, imagens e ideias); (ii) caminha como um grego por uma cidade que conhece como a sola de seus pés (mas sabe que o homem que nunca se perde nunca se acha); (iii) empresta do Machado sarcasmo e palavras duras para um poeta rival; (iv) volta a tomar emprestado, desta vez uma ironia, do e.e. cummings, sobre as dificuldades da poesia original ser entendida e publicada; (v) engole hóstia e passado mineiro, como um Chronos mirim; (vi) flerta e repasta os modernos, Oswald à frente; (vii) como velho putanheiro, perde conas mas não a verve. Os três seguintes (oitavo, nono e décimo) mostram: (viii) como o poeta usa sua arte como chave, como ferramenta para entender melhor os mecanismos do mundo e atuar: no oitavo para continuar uma reflexão importante de onde a Wislawa parou (faz um bicho homem vomitar seu ódio, humanizando-o); (ix) como provocar um outro tipo de terrorista, aquele que parece colega e igualmente usa a palavra, mas em vão e com eivada mão; (x) como deixar vazar da memória um primo mentiroso, cheio de imaginação. O penúltimo poema (xi) é o mais longo, e aquele onde o poeta descreve o mundo das letras, da literatura, fala de como seu ofício é corrompido por maus artífices (ou canalhas mesmo), onde disserta ativista e crítico, torna-se muso de si mesmo, inspira-se na aridez e não se furta acusar, apontar erros. No último (xii) ele confronta duramente sua cidade, sua belo horizonte fundamental, com um rabo do olho longe, lá na Alexandria de Kaváfis. Li o livro várias vezes, umas tentando contar quantas vezes a ideia de ofício aparecia, noutras conferindo citações e associações, por vezes só apreciando as ilustrações (capa, duas ou três reproduções fotográficas, duas ou três pequenas vinhetas/retrancas) e os aforismos do verso da capa. "Máquina zero", o livro, parece uma coisa só, onde forma e texto se amalgamaram tão completamente que cada detalhe explica o todo reunido, enfeixado nele. O livro inclui ainda dois bons textos de apoio: um curto ensaio assinado por Sebastião Nunes e uma apresentação de Marçal Aquino. Ô beleza. Evoé Aleixo, Evoé.
[início: 28/03/2017 -  fim: 11/04/2017]
"Máquina zero", Ricardo Aleixo, Belo Horizonte: Scriptum Livros (coleção Zaúm), 1a. edição (2004) brochura 12x18 cm., 64 págs., ISBN: 85-89044-06-8

segunda-feira, 10 de abril de 2017

amora

Nos 33 contos reunidos em "Amora" encontramos histórias de mulheres que fazem sexo uma com as outras; sentem ciúmes; visitam tios e avós aos domingos; tem crises depressivas e vontade de caminhar; experimentam o preconceito da família; gozam de prazer; ouvem palavras veladas, que entendem mas fingem não entender; se matam ou se deixam morrer; lamentam a ausência e a noite; contam mentiras bobas; são descoladas e modernas, ninjas da cultura pop; enfrentam demônios e decepções amorosas; trocam cartas frívolas e cartas de amor; sonham e choram; mentem, traem maridos e namoradas; envelhecem juntas; sabem todas as gírias do bas-fond; roubam namoradas das amigas; viajam; se orientam e se desorientam; tomam vinho barato em copos de plástico; entram de penetra em festas; vão a universidade; trepam em banheiros; se divertem ansiosas, mas sem culpa; são ingênuas ou calculistas; consultam psicólogos; passam por metamorfoses bruscas; divagam em dias de chuva; planejam vinganças; amam ir a enterros e cemitérios; são venenosas; desmascaram falsos amigos; desconfiam umas das outras; são espirituosas; flertam com estranhos; se machucam e sabem machucar; falam e vivem o amor. Enfim, são histórias de mulheres. E ponto. Natalia Borges Polesso ganhou o prêmio Jabuti de contos ano passado com esse livro (meu exemplar comprei em outubro de 2015, na Feira do Livro de Porto Alegre, com direito até a uma dedicatória dela, mas só agora ele saiu de meus guardados). A capa, assinada pelo Samir Machado de Machado, e o projeto gráfico, assinado por Guilherme Smee, fazem jus ao bom texto da Natalia. Vale.
[início: 08/03/2017 - 10/03/2017]
"Amora", Natalia Borges Polesso, Porto Alegre: Não Editora, 1a. edição (2015), capa-dura 14,5x21 cm., 256 págs., ISBN: 978-85-61249-56-4

quinta-feira, 6 de abril de 2017

outras dezessete noites

Se eram os diálogos e a experimentação com a forma que chamavam a atenção em "Finalmente hoje", o livro anterior de Marcio Renato do Santos, o que encontramos em "Outras dezessete noites", seu livro mais recente, é a força do instantâneo, do registro quase fotográfico de uma cena banal, costumeira, exemplarmente humana. É notável sua capacidade de capturar em pequenos registros a potência de certos fenômenos urbanos, do inusitado de muitos comportamentos socialmente aceitos, de chamar nossa atenção para as epifanias do cotidiano. O olho do narrador perscruta  personagens, tira deles os pensamentos mais entranhados e fugidios. Marcio Renato não exatamente faz seus personagens produzirem um fluxo contínuo de consciência, mas o leitor, a cada conto, parece estar em ambientes onde uma miríade de vozes particulares ecoam, mas apenas umas poucas são inteligíveis e acabam fazendo sentido, para logo serem substituídas por outro conjunto delas, igualmente brutais e interessantes. Os personagens estão sempre prestes a tomar uma decisão, ou parecem que irão postergar ainda um tanto mais decisões que já deveriam ter tomado. Ao leitor, voyeur da misérias humanas, cabe uma surpresa a cada história, a cada noite. Há uma discreta conexão entre os contos, transições sutis, como aquelas que intuímos ao vermos de longe uns escolhos de um mesmo rochedo que afloram d'água, próximo a costa ou mesmo em alto mar. Acho que já falei o quanto os contos do Marcio Renato me lembram as cousas do Raymond Carver. Vamos ver para onde esse curitibano inquieto nos levará. 
[início: 16/03/2017 - fim: 17/03/2017]
"Outras dezessete noites", Marcio Renato dos Santos, Curitiba-PR: editora Tulipas Negras, 1a. edição (2017), brochura 14x21 cm., 124 págs., ISBN: 978-85-917171-4-9

terça-feira, 4 de abril de 2017

sobre a brevidade da vida

Os estoicos já nos ensinaram que não é necessário preocupar-se com os deuses, nem ter medo da morte, explicaram também que a dor pode ser suportada e que é possível encontrar a felicidade. Sêneca nasceu em Córdoba, morreu em Roma, viveu sempre próximo ao poder, no período dos Césares imperiais, e foi um estoico dos bons. Por quase dez anos viveu exilado, na montanhosa e verde Córsega. Neste período escreveu muito, inclusive esse pequeno ensaio moral, na forma de cartas,  sobre a natureza do tempo e das paixões humanas. Sou mais afeito ao hedonismo franco que aos rigores do estoicismo, porém, no dia 04 do mês passado, ao completar meus 56 anos, resolvi reler esse livro, um tanto para mitigar os aborrecimentos e dores da idade, outro para me alegrar com a sabedoria compartilhada nele. Se fosse possível resumir essa pequena joia em um único aforismo eu escolheria este: "Pequena é a parte da vida que vivemos, pois todo o restante não é vida, mas somente tempo". O que fazemos de fato nos anos que nos cabem a não ser perder tempo com uma miríade de atividades tolas? Porque toleramos o tempo desperdiçado com objetivos sem sentido, sem valor; aceitamos em nome de preceitos sociais ou morais o convívio com escravos mentais, que apenas nos oferecem tonterias?;  investimos tempo e dinheiro com bobagens, futilidades, ilusões e mentiras?. Uma verdadeira Citera espiritual é aquela onde organizamos nosso tempo apenas para a educação dos sentidos, a reflexão filosófica, a digressões pelos textos onde resta acumulada toda a fortuna e engenho já criado pelos homo sapiens sapiens. É pouco? Vamos ver o que alcançarei aprender no tempo que me resta. Vale.
[início/fim: 04/03/2017]
"Sobre a brevidade da vida", Sêneca, tradução de Lúcio Sá Rebello, Ellen Itanajara Neves Vranas e Gabriel Nocchi Macedo, Porto Alegre: LPeM (Coleção LPM Pocket Plus, v. 548), 1a. edição (2015), brochura 11x14, 96 págs., ISBN: 978-85-254-1512-7 [edição original: De brevitate vitae, 49AD]

sábado, 1 de abril de 2017

história de quem foge e de quem fica

Assim como havia feito no final de "A amiga genial', a narradora de "A história do novo sobrenome" termina deixando o leitor em suspense. Mas a transição do segundo para o terceiro volume não é imediata como na vez anterior. Elena resolve dizer ao leitor que ao ter notícia do desaparecimento de Raffaella e iniciar a tarefa de escrever sua história ela não a via já há cinco anos, estavam bem afastadas. Retornando ao momento no final de 1968, quando está numa recepção de lançamento de seu livro e reencontra um velho amigo, a narradora passa a descrever os destinos cruzados delas duas até meados dos anos 1970. Intrigas e reviravoltas, traições e surpresas, frustrações e culpas se acumulam. Elena também passa pela experiência de ser mãe, sobrepor à vida pessoal e aos planos privados os cuidados e responsabilidade para com os filhos. Assim como os personagens ganham com educação formal ou com maturidade, ferramentas para enxergarem melhor a realidade que vivem, a narradora parece ter expandido sua capacidade de reflexão e interpretação. Suas digressões, antes, suas sessões de autoanálise,  promovem o diálogo, a comunicação, buscam compreender e ser compreendido. Nem sabedoria prática nem inteligência bastam. Não é possível comparar o conhecimento livresco das coisas e a experiência real da vida vivida. Esse volume explora com mais profundidade o que talvez seja mesmo o que dá força ao livro: a condição feminina. Todas as mulheres do livro passam por metamorfoses, algumas previsíveis, outras surpreendentes. Encontramos também descrições interessantes sobre política italiana, luta de classes, as dificuldades da criação literária  e os mecanismos de poder nas universidades, mas todo o tempo a narrativa segue acumulando reflexões sobre mulheres e sociedade. Elena e Raffaela, assim como Narciso e sua imagem refletida nas águas, têm naturezas diferentes, pertencem a mundos diferentes. E eu, o leitor, assim como Marcel, personagem de Proust, que cada vez menos entendia o caráter do barão de Charlus, entendo cada vez menos o caráter de Elena. Vamos ver o que a autora guardou para o último volume. Vale. 
[início: 11/02/2017 - fim 19/02/2017]
"História de quem foge e de quem fica: tempo intermédio", Elena Ferrante, tradução de Maurício Santana Dias, Rio de Janeiro: Editora Globo (coleção Biblioteca Azul), 1a. edição (2016), brochura 14x21 cm., 416 págs., ISBN: 978-85-250-6250-5 [edição original: Storia di chi fugge e di chi resta (Roma: Edizione E/O) 2013]

quarta-feira, 29 de março de 2017

41 inícios falsos

Depois de tanto tempo atordoado e quase acostumado com a leniência e preguiça mental da grande maioria dos críticos de arte e cultura brasileiros que li nos últimos anos, foi uma alegria encontrar estes dezesseis artigos de Janet Malcolm, reunidos em "41 inícios falsos". São textos muito diferentes em propósito e extensão. Três são obituários breves (dois de pessoas reais e um do projeto de autobiografia da autora); seis são resenhas literárias; cinco são ensaios sobre fotógrafos ou exposições fotográficas; dois são robustos ensaios dedicados às artes plásticas. Os artigos foram publicados originalmente nas revistas americanas "The New York Review of Books", "The New York Times Book Review" e "The New Yorker", entre os anos 1980 e os anos 2010. Janet Malcolm é jornalista e escritora de sucesso, muito respeitada por seus pares. Os ensaios que mais gostei foram aqueles sete nos quais ela fala de artes plásticas e de fotografia. Janet escreve muito bem. Seu texto esconde grande erudição, incluindo em suas análises referências histórias, literárias, filosóficas e também da cultura pop. Talvez seja o tipo de ensaística impossível de ser praticada extensivamente hoje, pois poucos detêm de fato conhecimento e talento para expressar-se sobre temas complexos sem parecer tolo ou irrelevante. O rigor e a precisão de sua linguagem impressionam. Os textos sobre fotografia tratam ou de artistas (Thomas Struth, Julia Cameron, Diane Arbus, Edward Weston, entre outros) ou de exposições, temas específicos (como o nu na fotografia, por exemplo). Os textos de literatura tratam do grupo Bloomsbury (Vanessa e Virgína Woolf, sobretudo) e de livros específicos de Edith Wharton, J.D. Salinger, Gene Stratton-Porter, Cecily van Ziegesar e Allan Shaw. Um dos dois artigos que tratam de artes é uma desconstrução acadêmica do pintor David Salle, mas, apesar do mal humor de Malcolm em relação a sua obra, ele continua firme e produtivo no mercado da arte.  No outro ela fala sobre a revista de arte contemporânea Artforum. Este artigo é antigo, de 1986, mas é realmente muito esclarecedor sobre os mecanismos internos do mercado da arte e das relações promíscuas entre galerias, marchands, curadores de exposições, diretorias de museus, jornalistas e os próprios artistas. Seus comentários são resultado de um ano de entrevistas com antigos colaboradores da revista, todos eles em algum momento professores universitários ou críticos de arte (Rosalind Krauss, Robert Pincus-Witten, John Coplans, Barbara Rose, Thomas McEvilley, Rene Ricard, Thomas Lawson, Carter Ratcliff e Marian Goodman); diretores de museus, como Willian Rubin, do Moma; artistas plásticos, como Richard Serra, Sherrie Levine, Julian Schnabel e Edit DeAk. O artigo gravita a personagem mais interessante de todos, a editora à época da revista, Ingrid Sischy. Malcolm nos ensina como extrair a informação mais importante e definitiva de cada entrevistado, além de não deixar que suas preferências estéticas, culturais ou políticas afetem o julgamento sobre o que cada um fala. Hoje, Janet Malcolm é uma senhora de mais de oitenta anos, mas estou seguro que privar de uns poucos momentos conversando com ela seria uma experiência dos diabos.
[início: 13/03/2017 - fim: 26/03/2017]
"41 inícios falsos: Ensaios sobre artistas e escritores", Janet Malcolm, tradução de Pedro Maia Soares, São Paulo: editora Schwarcz (Companhia das Letras), 1a. edição (2016), brochura 14x21 cm., 383 págs., ISBN: 978-85-359-2679-8 [edição original: Forty-One False Starts: Essays on Artists and Writers (New York: Farrar Straus Giroux (Macmillan Publishers) 2013]

sábado, 25 de março de 2017

early stones

Na última quinta-feira ficou comprovado que a grande maioria dos brasileiros padece daquele viés cognitivo conhecido pelos psicólogos como efeito Dunning-Kruger, fenômeno no qual indivíduos que possuem pouco conhecimento sobre um assunto acreditam saber mais que quaisquer outros. O fenômeno pode ser rapidamente entendido quando visualizado graficamente (caso você esteja curioso consulte esses dois links: Dunning-Kruger e Monte da Estupidez). Pois então. Aborrecido com a legião de imbecis que divulgaram suas impressões improvisadas sobre o significado da reforma da previdência em discussão, a ascensão de Donald Trump, o atentado terrorista em Londres ou a recente votação da terceirização pela câmara dos deputados (legião que conta com alguns indivíduos particularmente patéticos e canalhas, sobretudo entre jornalistas, músicos e atores tupiniquins), resolvi encontrar algum conforto em artistas que admiro e de fato têm algum estofo. Procurava a biografia do Frank Zappa, gênio dos gênios quando se tratava de fustigar a estupidez reinante em seu tempo, mas nos guardados da biblioteca eis que encontrei esse "Early Stones", sensacional seleção de fotos de Michael Cooper feitas na primeira década de existência dos Rolling Stones. Cooper era um fotógrafo e produtor muito talentoso que acompanhou de perto a banda, participando dos ensaios, shows, turnês e festas. Era amigo próximo de Keith Richards. Produziu em 1967 duas das capas de discos mais icônicas do Rock and Roll, uma dos Stones, a do álbum "Their Satanic Magestic Request", e outra dos Beatles, a do álbum Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band. Como muitos daquela turma e geração (Brian Jones, dos Stones, inclusive), Cooper morreu jovem. Deixou um acervo de mais de 70 mil fotografias, que é administrado por seu filho, Adam Cooper, sujeito que assina (com sua mulher, Silvia Cooper) a organização e edição deste livro, lançado originalmente em 1992. O livro inclui ensaios de Keith Richards e  Terry Southern, além de fragmentos de entrevistas com Keith, Terry, Marianne Faithfull, Ian Stewart e Anita Pallenberg. Mas são as fotografias que dominam o livro. Encontramos cenas do cotidiano, registros do que acontecia nos bastidores de estúdios e hotéis. O leitor pode experimentar algo dos momentos mágicos capturados por Cooper em várias coleções de fotos, como essa arquivada no Pinterest, ou simplesmente digitando no Google: Michael Cooper photographer. Incrível.
[início - fim: 23/03/2017]
"Early Stones: Fotografias legendárias do início da banda por Michael Cooper", Michael Cooper, tradução de Mariana Marcoantonio, São Paulo: Editora Planeta, 1a. edição (2012), brochura 20x24 cm., 326 págs., ISBN: 978-85-7665-981-5 [edição original: The Early Stones: Legendary Photographs of a Band in the Making 1963-1973 (Paris: Hyperion Books / Hachette book Group) 1992]

quinta-feira, 23 de março de 2017

ouça a canção do vento, pinball 1973

Neste volume estão reunidas duas novelas de Haruki Murakami. São suas duas primeiras publicações. Com "Ouça a canção do vento" ele ganhou um concurso literário importante, promovido pela revista literária japonesa Gunzo. "Pinball, 1973" foi publicado logo após a boa recepção do primeiro livro. Esses dois volumes e um terceiro ("Caçando carneiros") formam um trilogia, pois compartilham um protagonista, "Rato", e algo da temática, centrada na solidão e em nosso apego a bobas idiossincrasias. Foram escritos quando ele ainda era dono de um bar em Tokyo. Em "Ouça a canção do vento" acompanhamos três semanas de verão na vida do narrador, seu amigo Rato, um sujeito que tenta escrever romances, e o dono chinês de um bar à beira-mar que ambos frequentam. Eles vivenciam situações comuns, discutem temas banais e colecionam trivialidades. O narrador está de férias da universidade, lembra de uma antiga namorada que cometeu suicídio, se envolve com uma garota que conheceu no bar e trabalha em uma loja de discos, toma cerveja em demasia. Em "Pinball, 1973" o leitor reencontra os três personagens da novela anterior: o narrador, Rato e J (o dono de bar chinês). O narrador ganha a vida como tradutor, mas trata-se de uma atividade provisória, um cotidiano improvisado. Divide sua casa e cama com duas gêmeas, arranjo que gera cenas surreais e cômicas ao livro. Ele relembra coisas de seus dias de universidade (como o suicídio da antiga namorada) e conta algo sobre a complicada vida afetiva e familiar de seu amigo Rato. Também toma cerveja, lê Kant, ouve música clássica, passeia com as gêmeas por um campo de golf contíguo a sua casa nos finais de tarde de outono. No último terço do livro descobrimos que o narrador é um sujeito obcecado por máquinas de fliperama (Pinball, em português). Ele conta a história de seus recordes e de como um dia foi levado às instalações de um galpão onde um excêntrico colecionador armazena dezenas de máquinas de fliperama, de diversos modelos. Após terminar de jogar sua última partida em sua máquina favorita (momento em que, como num transe, parece ter sido suspensa a passagem do tempo) ele retoma sua vida. Nas duas novelas o importante não é exatamente o que se narra, a história, mas sim a sensação ambígua de familiaridade e estranhamento que os livros produzem no leitor. Nada importante parece acontecer, a solidão não é algo que incomoda as pessoas, a apatia do narrador parece refletir a de seus interlocutores, o tempo passa, as pessoas passam por uma metamorfose lenta. Interessante. 
[início: 13/02/2017 - fim: 22/02/2017]
"Ouça a canção do vento / Pinball, 1973", Haruki Murakami, tradução de Rita Kohl, Rio de Janeiro: Alfaguara Grupo Penguin Random House, 1a. edição (2016), capa-dura 15,5x24 cm., 267 págs., ISBN: 978-85-5652-029-6 [edições originais: Kaze No Uta O Kike - 風の歌を聴け (Tokyo: Gunzo) 1979 / Sen-Kyūhyaku-Nanajū-San-Nen no Pinbōru - 1979 1973年のピンボール (Tokyo: Kodansha) 1980]

segunda-feira, 20 de março de 2017

as crônicas do brasil

De Kipling conhecia apenas as histórias do menino Mogli e o poderoso "O homem que queria ser rei", já registrado aqui. Neste "As crônicas do Brasil" estão reunidas sete cartas de viagem que Kipling produziu entre fevereiro e março de 1927, quando fez uma visita ao Brasil. As cartas (mas podemos chamar de artigos) foram publicadas originalmente no jornal inglês Morning Post e, postumamente, em 1940, reunidas em livro. Cada carta é acompanhada por um poema. Kipling já era uma celebridade, havia ganho o prêmio Nobel de literatura em 1907. No final da década de 1920, adoentado, Kipling resolveu aceitar a recomendação de seu médico e fazer uma longa viagem marítima ao redor do mundo. As sete cartas descrevem um Brasil misterioso, que esconde prodígios ainda inacessíveis aos homens (o sujeito praticamente só conheceu o litoral, imagine só o que não diria caso se aventurasse aos grotões do interior). A primeira das cartas é escrita ainda no porto de partida, em Southampton, quando ele descreve o som do português e do espanhol falado pelos viajantes que rumam ao Rio de Janeiro ou a Buenos Aires. Depois de aportar ele começa os registros propriamente brasileiros: primeiro dos passeios pela exuberante paisagem da cidade do Rio de Janeiro, presa entre o mar e a montanha; depois da viagem por cabotagem até o porto de Santos e a descrição da letargia que as tardes de sol provocam nos marinheiros; logo fala sobre a visita que faz até o Instituto Butantã e do que aprende das cobras e da ciência praticada aqui; mais tarde é sobre uma grande fazenda de café que ele se dedica falar, reproduzindo os causos que ouve sobre o dinheiro fácil que o café produz; a mais impressionante das histórias trata do sucesso de engenharia que foi a construção da estrada de ferro entre São Paulo e Santos, vencendo o grande desnível e os perigos da Serra do Mar. A última carta é a mais panorâmica. Ele tenta descrever todos os contrastes que experimentou e as maravilhas que viu naqueles dias: discursos numa academia (talvez a de letras?); a loucura do carnaval; os quilowatt-hora que uma hidrelétrica produz; os relatos dos imigrantes que fugiram da primeira grande guerra e se radicaram no Brasil; a inspiração francesa dos intelectuais da época; a franqueza do jogo do bicho; a resistência ao álcool dos habitantes; as diferenças entre o Brasil e os demais países sul-americanos; a certeza dos paulistas sobre serem quatrocentões e mais trabalhadores que os demais brasileiros. Não dá para cobrar precisão para um viajante que fica dois meses em um país tão complexo quanto o Brasil. O exotismo intoxica o sujeito. A sociologia dele é selvagem, mas como observador experiente ele não deixa de apontar cousas que ainda nos assombram, noventa anos depois. Talvez culturalmente o Brasil já estivesse antenado para a modernidade, mas para o desenvolvimento industrial seria necessária a segunda grande guerra e o dinheiro norte-americano.  Em alguma parte das cartas ele escreve: "O Deus deles (...) é brasileiro". Sim, ele entendeu tudo, muitos brasileiros parecem mesmo acreditar nisto até hoje. O livro é bilíngüe e bem editado. Os poemas que acompanham os artigos são líricos, funcionam bem em inglês. Em tempo: Encontrei muito material sobre ele na página "Kipling society". Vale a pena dar uma olhada.
[início/fim : 07/03/2017]
"As crônicas do Brasil / Brazilian Sketches: edição bilíngue", Rudyard Kipling, tradução de Luciano Salgado, São Paulo: Editora Landmark, 1a. edição (2006), brochura 16x23 cm., 144 págs., ISBN: 978-85-88781-28-X [edição original: Brazilian Sketches (New York: Doubleday, Doran & Company) 1940]

sexta-feira, 17 de março de 2017

romping through dubliners

Quem já leu Dubliners, o genial livro de contos de James Joyce, sabe algo sobre a força de seu texto, de sua imaginação, de suas epifanias. No ano passado a turma do "At it again!", grupo teatral irlandês que produz esquetes ao vivo durante as comemorações festivas dos Bloomsday de Dublin, produziu sua versão do Dublinenses em sua série "Romping through" (da qual aliás, tempo atrás, li o divertido "Romping through Ulysses"). Trata-se de uma plaquete, que introduz ao leitor a ideia global do livro, o contexto de sua publicação (antes as dificuldades de sua publicação) e em que se faz uma curta sinopse de cada um dos contos. Eles sugerem também uma série de atividades que expandem a experiência da leitura. Na proposta do grupo o leitor pode visitar os locais citados nos contos; reproduzir algo que os personagens dos contos fazem, como preparar bebidas, visitar amigos, refletir sobre a vida, fazer jogos mentais, escrever cartas, vestir roupas de época, ler autores caros aos protagonistas das histórias. Cada conto ganha também uma ilustração, uma eventual citação e alguma informação paratextual, como dados sobre a geografia atual de Dublin e a localização de alguns dos marcos literários da cidade. O livro incluí vários mapas da cidade, que permitem a experiência de flanar por ela quase simultaneamente a leitura dos contos (que é mais ou menos a proposta original do grupo). Se o sujeito precisa de algo para inspirá-lo a imergir na obra de Joyce esse é um dos bons atalhos. Cabe lembrar que o povo do "At it again!" passou a produzir também plaquetes dedicadas a outros autores irlandeses, como Bram Stoker, Oscar Wilde e Jonathan Swift, sobre os quais em breve falarei aqui. Vale, ou melhor, Sláinte!
[início: 22/02/2017 - fim: 24/02/2017]
"Romping through Dubliners", Maite López, Jessica Peel-Yates, Niall Laverty (illustrations), James Moore, Dublin: At it Again! (1a. edição) 2016, brochura 10,5x15,5 cm., 61 págs., ISBN: 978-0-9576559-4-2

terça-feira, 14 de março de 2017

a camisa do marido

São nove contos que gravitam o mundo das mulheres. A narradora conta histórias, colhe memórias de uma tia, de uma mãe, de uma madrasta, de uma irmã ou sobrinha; dá voz a uma aldeã, a uma menina, a um poeta, a um filho perdido. As tramas são engenhosas. Há histórias algo bíblicas, com ecos faulknerianos, narrativas de vingança, ciúme e morte; histórias literárias, uma que brinca com uma passagem do Quijote e outra que fala dos aborrecimentos de Camões; histórias de família, onde mistério e mentira torturam as gentes. Nélida Piñon cria personagens femininas que não são cabotinas, não comungam falsos heroísmos ou poderes mágicos. São reais, respiram o mesmo ar que nós, receberão o mesmo naco de terra para descansar. Nas histórias sentimos algo da aridez da meseta ibérica, do silêncio calmo dos lugares que fogem dos ruídos do mar, da escuridão da mata fechada que dá aos dias a extravagância do mundo dos sonhos. O último dos contos, "A desdita da lira", é o que mais gostei. Nele não encontramos uma protagonista feminina, como nos oito contos anteriores, mas senti a presença da Musa de Camões assombrando o conto. O velho poeta lambe as feridas da vida, parece lamentar a força do poema que publicou, pois conhece dele as mentiras, os excessos, o ufanismo besta que num turbilhão sempre a tudo destrói. Para ele (como antes, para Terêncio) nada do que é humano é estranho, porém, numa coda amarga, que o próprio Terêncio não previu, sabe que é mesmo muito estranha a alegria de viver.  Esses nove e curtos contos confessam a boa artífice que os engendrou. Vale. 
[início: 21/02/2017 - fim: 22/02/2017]
"A camisa do marido", Nélida Piñon, Rio de Janeiro: Editora Record, 1a. edição (2014), brochura 14x21 cm., 158 págs., ISBN: 978-85-01-06633-6

sábado, 11 de março de 2017

estórias de boteco

Quem conhece o Valmor Simonetti sabe de sua dedicação a literatura, ao cinema e a nobre arte de contar causos. Há uns anos começou a fazer oficinas literárias e participou de várias publicações coletivas (já registrei uma delas aqui: "Amor a Porto Alegre", que é de 2010, mas ele teve contos seus publicados em pelo menos seis outras coletâneas desde 2009). Recentemente Valmor resolveu publicar um volume apenas com seus contos, defender-se sozinho. São 25 histórias, um quarto delas inéditas. Suas histórias gravitam os botecos, notadamente os porto-alegrenses, mas também há histórias que se passam em Buenos Aires, em Montevidéu e em Paris, assim como outras que nasceram nos pampas, na serra gaúcha ou na fronteira. Os contos brotam do bom humor, de uma visão otimista das coisas da vida, mas em algum momento o leitor sente também algo do amargor e da melancolia que gravitam as noites e acontecimentos típicos de um bar. O protagonista dos contos pode ser o Padre, o Jefraim, o Zagreu ou o Walter Ego, mas o narrador é sempre um Valmor que não se preocupa em disfarçar-se, que se dedica a procurar aquilo de mais humano e nobre nos interlocutores. Nove contos também ganharam versões em outras línguas, pois fizeram parte originalmente de publicações bilíngues nascidas da oficina de criação literária organizada pelo Alcy Cheuiche: quatro ganharam versões em francês, duas em espanhol e uma em guarani. Esse livro me pareceu aparentado com dois outros que li recentemente, o "Luz em nevoeiro", do Iuri Müller, e o "Lontanaza bar", do David Toscana. Sempre acho que há livros que viajam em bando, que os livros tem esse hábito de se aproximarem juntos de um sujeito. Os contos do Valmor ficaram sim em boa e adequada companhia. Vale.
[início: 30/01/2017 - fim: 31/01/2017]
"Estórias de boteco et alii", Valmor Braga Simonetti, Porto Alegre: editora AGE, 1a. edição (2016), brochura 14x21 cm., 95 págs., ISBN: 978-85-8343-285-2

quarta-feira, 8 de março de 2017

história do novo sobrenome

A narradora de "A amiga genial" termina sua história deixando o leitor em um suspense dos diabos. Ao final daquele volume não há como resistir a necessidade de saber qual seria a reação da protagonista (Raffaella) ao ver nos pés de um sujeito que ela abomina os sapatos que deu a seu marido, justamente na festa de seu casamento. O segundo volume da série, "História do novo sobrenome", explica os desdobramentos daquele choque e de muitos outros sucessos. Se no primeiro volume é a memória direta (porém traiçoeira) dos acontecimentos da infância e adolescência que trilha a história, nesse segundo volume a narradora (Elena) opta por um artifício literariamente conhecido e eficaz, o do fortuito acesso aos diários da pessoa sobre quem se escreve (Raffaella). A narrativa avança cronologicamente e as vidas paralelas de Elena e Raffaella se espelham continuamente. O livro navega em assuntos espinhosos: os conflitos sociais dos anos 1960; o papel e as lutas das mulheres italianas em uma sociedade abertamente machista; a descoberta do prazer e da sexualidade; a dificuldade de essencialmente entendermos as razões e o comportamento dos outros, por mais que os conheçamos; a impossibilidade de sermos fiéis ao mesmo tempo a nós mesmos e aos outros. A narradora em algum momento confessa não ter empatia por seu "eu" do passado (sabedoria prática que Proust já havia feito Elstir nos ensinar). A narradora descobre que a arte (a literatura, no caso) pode servir para que alguém se entenda, se descubra (descubra sua voz interior, entenda talvez até toda sua geração e país), ou seja, que todo homo sapiens sapiens sabe contar ao menos uma história universal, que é a sua. Descobrirá depois (já no terceiro volume) que inventar algo que tenha a potência da vida vivida é muito mais difícil que apenas apelar para a memória e que essas dificuldades cobram caro à autoestima de qualquer escritor. A narradora conta sobre seus anos de universidade e os aborrecimentos de sua amiga em um casamento condenado ao fracasso. Mas não são o suspense programado ou apenas a curiosidade provocada que sustentam o livro. O que realmente enfeitiça o leitor é a riqueza de detalhes dos processos mentais que a autora é capaz de emular. O fluxo de palavras e a consciência dos humores voláteis de cada personagem parecem reais, vívidos, convencem até o mais ranzinza dos leitores. A série napolitana é sim um único e caudaloso romance, dividido em volumes por razões comerciais, mercadológicas, editoriais. Como em todo Bildungsroman (romance de formação) vamos acompanhar as metamorfoses dos personagens principais e saber do destino deles, mas será a qualidade da narrativa que tornará a leitura sempre algo tão prazeroso. Vale. Vamos em frente.
[início: 05/02/2017 - fim 10/02/2017]
"História do novo sobrenome: juventude", Elena Ferrante, tradução de Maurício Santana Dias, Rio de Janeiro: Editora Globo (coleção Biblioteca Azul), 1a. edição (2016), brochura 14x21 cm., 472 págs., ISBN: 978-85-250-6122-5 [edição original: Storia del nuovo cognome (Roma: Edizione E/O) 2011]

sábado, 4 de março de 2017

nomes de lugares

Noutro dia encontrei esse volume das adaptações que Stéphane Heuet, designer e quadrinista francês, tem feito do ciclo "Em busca do tempo perdido", de Marcel Proust. A experiência de ler essas adaptações jamais substituirá os encantos dos originais, mas deve-se reconhecer que elas são muito bem feitas. O leitor entra no clima dos livros, alcança algumas das alegrias do texto por meio das soluções gráficas produzidas por Heuet. Neste volume (o sexto da coleção produzida até aqui por Heuet) encontramos um dos menores capítulos, "Nome de lugares: O nome", que é justamente o que encerra o primeiro volume do ciclo. Nele encontramos os fragmentos de memórias do narrador de seus dias de juventude, quando imaginava viagens para lugares caros à sua imaginação, como Florença, Parma, Balbec e Veneza, e quando fez os primeiros contatos mundanos com Gilberte, a filha de Odette e Swann, e também com a própria Odette. Assim, as tardes no Bois de Boulogne ou nos Champs-Élysées existem apenas para esses dois propósitos quase amorosos: os encontros para jogos e brincadeiras infantis com Gilberte ou a discreta corte à Sra. Swann, pessoa que a família do narrador interdita de visitá-los oficialmente. É difícil dizer se um dia Heuet alcançara terminar suas adaptações do ciclo. Gostaria mesmo de ver esse projeto finalizado. A edição brasileira continua bem cuidada. Incluí um mapa da Paris retratada no livro, bem como um glossário dos personagens e uma miríade de informações complementares, dirigidas àqueles pouco familiarizados com a obra de Proust e que possibilitam uma apreciação mais prazerosa do livro. Divertido, mas vamos em frente. Em tempo: [Semanas atrás morreu um sujeito que eu admirava muito, autor de um projeto semelhante a este de Heuet, um irlandês chamado Frank Delaney. Ele produzia podcasts semanais com segmentos do Ulysses, de James Joyce. Sua voz, ritmo e humor sempre foram uma inspiração. Ele chegou a gravar integralmente os nove primeiros capítulos do livro, e avançava bem pelo décimo, quando a morte interrompeu seu projeto no último 22 de fevereiro. É pena]
[início 20/02/2017 - fim 21/02/2017]
"Em busca do tempo perdido - No caminho de Swann: Nomes de lugares (volume 6)", Marcel Proust, adaptado e desenhado por Stéphane Heuet, tradução de André Telles, Rio de Janeiro: editora Zahar, 1a. edição (2014), capa dura 21x28 cm, 52 págs. ISBN: 978-85-378-1304-1 [edição original: À la recherche du temps perdu (Du côté de chez Swann - Noms de pays: le nom) Guy Delcourt productions, Paris 2013]

quinta-feira, 2 de março de 2017

a gata, um homem e duas mulheres

Neste volume encontramos duas novelas de Jun'ichiro Tanizaki. Elas foram escritas há mais de oitenta anos e é difícil dizer qual das duas é melhor. Em "A gata, o homem e duas mulheres" acompanhamos como, utilizando-se de uma gata, uma mulher ardilosamente pretende recuperar o marido que a havia rejeitado. Aprendemos um bocado como eram, no Japão do início do século XX as convenções matrimoniais, dentre outros rituais familiares e amorosos. Ao começar a história encontramos Lily, a gata, vivendo com o indolente Shozo e sua segunda mulher, Fukuko, uma rica e mimada herdeira. A primeira mulher, Shinako, costureira diligente e trabalhadora, que nunca havia sido aceita completamente pela sogra, encontra uma forma de forçar o casal a desfazer-se de Lily, como subterfúgio para atrair de volta o ex-marido, mas logo veremos que os encantos da gata mostrar-se-ão mais perenes, fortes e significativos. Eu, um legítimo senhor de gatos, adorei a história, principalmente pela forma como  Tanizaki registra todo o encantamento que os felinos alcançam conjurar quando enfeitiçam os humanos. Ao mesmo tempo, a vívida descrição do dia a dia da sociedade japonesa como que provoca um feitiço adicional, que prende o leitor à narrativa. "O cortador de juncos", a segunda novela do volume, tem um desfecho menos realista que a primeira, mas é igualmente bem escrita e interessante. Acompanhamos duas narrativas que se superpõe e se complementam, paralelas e especulares ao mesmo tempo. Tanizaki evoca uma antiga história do Japão feudal, para contar duas outras, sobre o amor de um homem por duas mulheres, duas irmãs. O leitor é transportado para as coxias do palco de um teatro, e parece viver junto com os dois narradores das histórias os destinos cruzados dos protagonistas. Essa história é repleta de notas assinadas pelos tradutores, que dão conta das muitas referências poéticas e dramáticas incluídas na narrativa. Segundo elas Tanizaki era um estilista da língua japonesa. Que beleza de histórias. Que livro.
[início: 01/02/2017 - fim: 03/02/2017]
"A gata, um homem e duas mulheres; O cortador de juncos", Jun'ichiro Tanizaki, tradução de Andrei Cunha, Clicie Araujo, Lidia Ivasa, Maria Luísa Vanik Pinto e Tomoko Gaudioso, São Paulo: Estação Liberdade editora, 1a. edição (2016), brochura 14x20,5 cm., 190 págs., ISBN: 978-85-7448-276-7 [edição original: Neko to Shozo to Futari no Onna / 猫と庄造と二人の女, 1936; Ashikari / 蘆刈, 1932]

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

lontananza bar

De David Toscana  já li os bons "Santa Maria do circo" e "O último leitor". Recentemente a editora santista Realejo publicou esse "Lontananza bar", que é um dos livros mais antigos dele, publicado originalmente em 1997. São nove contos curtos, autônomos sim, mas também algo aparentados, pois gravitam uma cidade (talvez a Monterrey natal de Toscana) e um bar (o Lontananza do título). São histórias de desilusões, de fracasso, de desesperança e solidão. Em cada uma delas uma pessoa, em geral um homem, pois nelas as mulheres são sempre coadjuvantes, passa por um momento terrível da vida e eventualmente acredita ser possível servir-se do bar como uma espécie de confessionário ou divã. Há uma cronologia sutil nas histórias. Se na primeira encontramos o proprietário do Lontananza, Odilon, ainda ativo e forte, na última ele já é memória, porém o bar continua. Estas pessoas, estes homens (Amaro, Odilon, Hildebrando, Rúbem, Alberto, Héctor, Ruço, Victor, Amílcar) vivem no bar ou próximo dele suas misérias, covardias, medos, mentiras e frustrações. O México que Toscana nos apresenta é um lugar amaldiçoado, onde os empregos desaparecem como por encanto e que dilui lentamente a dignidade e os sonhos de seus habitantes. Mesmo na história em que acompanhamos um sujeito que conseguiu se radicar no rico vizinho do norte, os Estados Unidos, o resultado é um desalento só. Não há o que invejar de quem nasceu naquela província árida e distante da fortuna. Tenho uns outros Toscana perdidos entre os guardados. Talvez seja a hora de retomá-los, lê-los com calma e atenção. Vale. 
[início: 31/01/2017 - fim: 02/02/2017]
"Lontanzana bar", David Toscana, tradução de Manoel Herzog, Santos: Realejo Livros e Edições, 1a. edição (2016), brochura 14x21 cm., 146 págs., ISBN: 978-85-99905-92-0 [edição original: Historias del Lontananza,  Ciudade de México: Editorial Joaquím Mortiz (Grupo Planeta) 1997]

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

luz em nevoeiro

Os doze contos reunidos em "Luz em nevoeiro" são muito bons. O Iuri Müller é jovem, formado em jornalismo e esse é seu primeiro livro de ficção. Talvez haja uma sutil ligação entre as histórias, mas isso não é relevante para a potência de cada uma delas. São contos peregrinos: quatro acontecem em Montevidéu, três em Porto Alegre, dois em Buenos Aires e os três restantes em Lisboa, Santa Maria e em uma cidade não nominada da Serra Gaúcha. São contos que parecem brotar das longas tardes dos domingos de inverno e frio, da solidão entranhada de quem sempre está esperando alguém, das caminhadas que fazemos quando precisamos tomar uma decisão ou refletir sobre um grave problema. No que mais gostei, "Llovizna", dois narradores parecem querer evitar um encontro impreterível. Um deles é uma jovem tradutora de Mario Levrero que está encerrada em um hotel de Montevidéu, onde trabalha e pesca palavras no dicionário e na memória; o outro é um jovem uruguaio que flana por vários bares, postergando o horário marcado para o tal encontro. Esse último pode ser o jovem editor uruguaio que imagina ter encontrado um autor que poderia salvar sua editora da falência (e que aparece em "Andava a te buscar", primeiro conto da coletânea). Já a primeira pode ser a garota que espera um telefonema enquanto vaga sem ânimo ou vaidade em uma crepuscular Montevidéu (em "Luz amarela sobre a cidade"). Ambos podem estar juntos na bela história de caminhos cruzados contada em "Como um sonho acordado", passada em uma Lisboa paralisada pelo desemprego e desesperança. "Edifício Paris", a angustiante história sobre a rotina do porteiro noturno de um edifício decadente da sempre decadente Porto Alegre também se destaca do conjunto de contos. Na verdade li pelo menos duas vezes cada um dos contos e a cada vez achava um melhor acabado que o outro. Olho. Iuri Müller é um cara para acompanharmos de perto. Vale.
[início: 31/01/2017 - fim: 01/02/2017]
"Luz em nevoeiro", Iuri Müller, Porto Alegre: Editora Modelo de Nuvem, 1a. edição (2016), brochura 12,5x18,5 cm., 160 págs., ISBN: 978-85-81743-45-5

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

a feijoada completa

Matthew Shirts é jornalista, nasceu nos Estados Unidos. mas está radicado no Brasil há pelo menos uns quarenta anos. Conhecia suas crônicas do Estadão e da Vejinha, mas nunca fui um leitor sistemático dele. De vez em quando meu pai, leitor fiel, separa algumas e as manda pelos correios (o Aguinaldo Severino original é um senhor muito zeloso da ideia de compartilhar os bons textos que lê). Aliás, hoje mesmo ele faz noventa e dois anos, portanto cabe aqui um "Feliz Aniversário!" para ele. Viva! Bueno. Noutro dia encontrei esse "A feijoada completa e outras crônicas", seleção de cousas que ele publicou entre 2011 e 2016. São cinquenta e três crônicas curtas, porém muito divertidas e realmente bem escritas. Shirts tem lá seus temas recorrentes: o pai; os filhos; o primeiro contato com o Brasil - em Dourados, numa missão de intercâmbio; as caminhadas pela cidade que adotou para viver e aprendeu a amar; os choques culturais; os restaurantes. Cada história/crônica é uma pequena aventura. Cidade complexas e múltiplas como São Paulo afortunadamente se permitem a infinitas leituras e descrições. As de Shirts são quase sempre otimistas e o sujeito sabe extrair de um cotidiano quase banal momentos mágicos e surpreendentes. Dá para ouvir o Matthew Shirts falando sobre coisas interessantes da cidade no site da Band News. Acho que deve haver compilações de coisas dele mais antigas por aí. Vou procurar. Vale. 
[início: 10/02/2017 - fim 11/02/2017]
"A feijoada completa e outras crônicas", Matthew Shirts, Santos: Realejo Livros e Edições (coleção Passarinho), 1a. edição (2016), brochura 12x17 cm., 166 págs., ISBN: 978-85-999-0591-3

sábado, 18 de fevereiro de 2017

a amiga genial

"A amiga genial" é o primeiro romance de uma tetralogia, de uma série, dita "napolitana". A autora assina "Elena Ferrante", mas os curiosos de plantão não teem ideia de quem mesmo é esta pessoa que produz tantos livros capazes de conquistar em pouco tempo sucesso de público e de critica (caso raríssimo e quase sempre improvável, por mais que editores tentem). O livro é realmente gostoso de ler. Os problemas vivenciados pelos protagonistas são verossímeis, o tom da descrição de seus conflitos emocionais e morais é sóbrio, não há improvisação nos sucessos da narrativa ou condescendência com as questões discutidas, dificilmente um leitor já experimentado pelos primeiros aborrecimentos da vida deixará de imaginar paralelos entre as vidas descritas por Ferrante e a sua, sobretudo se esse leitor ter vivido em um ambiente de imigrantes italianos, participado de casamentos, brigas, conflitos e festas italianas. A história se passa entre meados dos anos 1950 e o início dos anos 1960, em uma Nápoles ainda reinventando-se após a destruição causada pela segunda grande guerra. A narradora é uma senhora que conta sobre si quando bem jovenzinha, ainda garota, quase adolescente. Ela se chama Elena Greco e fala sobre si e uma curiosa melhor amiga, Raffaella Cerullo (embora eu prefiroa acreditar que a amiga genial do título seja ela mesmo, Elena Greco). Ambas, aparentemente, cruzaram sempre seus destinos ao longo da vida, e é o repentino desaparecimento desta amiga que leva a narradora a contar a história delas, parte como uma forma de mitificá-la, como quem conta repetidamente contos das mil e uma noites para um ouvinte ideal, enfeitiçando-o mais a cada dia, enredando-o nos sutis fragmentos do mar de palavras que é sua narrativa; parte como um exercício de memória voluntária que produz justamente o mesmo efeito que Proust nos ensinou, quando mostrou a potência da memória involuntária. Mas essa é outra história. Os acontecimentos são típicos de um Bildungsroman, um romance de formação: acompanhamos os sucessos de várias pessoas, mas o que realmente importa é como Elena se desenvolve moral, física, psicológica e intelectualmente, da infância até quase o fim da adolescência. Os temas são poderosos: luta de classes, ascensão social, regras de mundanidade, a educação como ferramenta de diferenciação entre as pessoas, história contemporânea, o fascismo e o nazismo, a culpa e os sonhos de toda uma geração de italianos. Como em todos os livros onde se fale verdadeiramente do cotidiano italiano aprendemos algo sobre como se dão os níveis de registro da língua, seja na norma culta ou nos dialetos, em como as convenções e os ritos dominam os atos das pessoas, em como a família e os amigos nos moldam e forjam nossos projetos de vida, mas também criam oportunidades para que nós mesmos passamos a inventar nossos próprios moldes e personas, nossos projetos e ambições de vida. Lembrei muito dos livros de Natália Ginzburg. Certamente muitas coisas acontecerão nos próximos volumes, mas esse já se defende sozinho, continuo curioso sobre os sucessos que esperam Elena Greco, Raffaella Cerullo e sua turma da periferia de Nápoles. Vale. 
[início: 17/01/2017 - fim 24/01/2017]
"A amiga genial: infância, adolescência", Elena Ferrante, tradução de Maurício Santana Dias, Rio de Janeiro: Editora Globo (coleção Biblioteca Azul), 1a. edição (2015), brochura 14x21 cm., 336 págs., ISBN: 978-85-250-6060-0 [edição original: L'amica geniale: infanza, adolescenza (Roma: Edizione E/O) 2011]

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

cinco peças e uma farsa

Otavio Frias Filho é jornalista, diretor de redação da Folha de São Paulo. É um ensaísta invulgar e dedicou-se nos anos 1990 (até pelo menos o início dos anos 2000), também a escrever textos dramáticos. Neste volume estão reunidas seis peças de teatro suas: "Tutankáton" (de 1990), "Rancor" (1992), "Típico romântico" (1991), "Sonho de núpcias" (2002), "Utilidades domésticas" (1992) e "Breve história de uma perversão sexual" (2004). Esta última ele chama de farsa. "Tutankáton" e "Utilidades domésticas" tiveram leituras dramáticas, não encenações. As demais passaram pelo crivo do público, já foram encenadas algumas vezes cada uma (no caso da última das peças: "Breve história de uma perversão sexual", apenas alguns episódios foram de fato encenados). Não vi nenhuma dessas encenações e/ou leituras dramáticas. A leitura das peças é interessante. "Tutankáton" discute a conversão ao monoteísmo experimentada por um faraó da XVIII dinastia, Amenófis IV. Quem já leu "O egípcio", romance do finlandês Mika Waltari, ou viu o filme homônimo dirigido pelo Michael Curtiz  (como todo mundo da geração de Frias, que é a minha, fez), aproveita melhor a peça. O autor faz um paralelo entre aquela conversão e a dissolução da URSS. "Rancor" é um jogo, onde se contrasta o mundo do jornalismo com o da academia, o mundo do talento genuíno e o das panelinhas artísticas. É um texto explicitamente centrado da teoria da angústia da influência, de Harold Bloom. A peça é uma caricatura de nosso provincianismo entranhado, de nossa vocação para o narcisismo. "Típico romântico" trata de jogos amorosos e de perversões familiares, lembra o esquema de leitura do mundo contemporâneo que encontramos nas peças de Edward Albee. A caricatura social criada por Frias Filho acontece a beira-mar. Os espectadores parecem ser os analistas leigos dos protagonistas que, quase desnudos na praia, contam suas misérias. Já "Sonho de núpcias" é uma história de detetives, fala das mentiras que os casais contam. Parece algo influenciado pelo absurdo das pecas de Ionesco, mesclado com aquele conto de Ryūnosuke Akutagawa, "Rashomon", em que os personagens contam suas versões de um mesmo acontecimento. "Utilidades domésticas" é uma comédia, mas também um terrível conto de fadas sobre o amor entre iguais e sobre como no amor  improvisações apenas retardam o inevitável. O autor faz brotar no palco um sincretismo farsesco, um pai de santo que reorienta os destinos dos personagens, como se fosse um demiurgo tosco e enganador. Por fim, "Breve história de uma perversão sexual", que é assinada em conjunto com o também jornalista Marcelo Coelho, encontramos um conjunto de seis esquetes dramáticos. São lições satíricas, feitas por encomenda para um clube fetichista de São Paulo. Acompanhamos uma espécie de história do sadomasoquismo, transgressões sexuais e da emancipação feminina, desde a pré-história (uma história dos hominídeos e a descoberta do fogo) e até o mundo contemporâneo (uma história de espionagem e de um quase Armagedon tecnológico). No fundo estes dois episódios, o primeiro e o último da peça, são duas micro versões bestas de filmes do Kubrick. As demais passam cronologicamente pelo império romano (e a devassidão); histórias de piratas (e o masoquismo); revolução francesa (e o sadismo) e a ascensão da psicanálise (e o sufragismo). Para mim o resultado é uma história do mundo para impúberes emocionais. Certamente o impacto de assistir as peças num teatro, acompanhar o jogo cênico de claridade e escuridão, ouvir as modulações de voz e ver a expressão dos atores provoca no espectador algo que o leitor apenas intui. Como exercício intelectual cada uma das peças oferece reflexões interessantes, algumas talvez datadas, já superadas pela velocidade das transformações sociais, outras ainda a serem entendidas melhor por cada um de nós, homo sapiens sapiens deste curioso início de século XXI. 
[início: 06/01/2017 - 21/01/2017]
"Cinco peças e uma farsa", Otavio Frias Filho, São Paulo: editora Cosac Naify, 1a. edição (2013), brochura 13,5x23 cm., 319 págs., ISBN: 978-85-405-0468-4