quarta-feira, 21 de junho de 2017

fachadas

Encontrei essa "sanfona" do Rafael Sica lá no Instituto Goethe de Porto Alegre, quando acontecia a IX FestiPoa Literária, organizada sempre pelos prodígios do Fernando Ramos. Do Sica já li os bons "Ordinário" e "Fim". Em seu "Fachadas" estão reunidas 28 ilustrações sobre o tema título do livro e 28 vinhetas, no verso delas. A contra capa diz acertadamente que trata-se de "um livro sobre uma cidade que poderia ser qualquer uma". São instantâneos urbanos, ora realistas, ora amalucados, todos eles bem humorados, críticos, silenciosos como sempre nos trabalhos dele, evocativos de uma linguagem sutil que pode-se alcançar dominar, mas pouco praticamos, ai de nós, que é a empatia. Meu primeiro instinto foi o de separar as folhas da sanfona e enviar como cartões postais, mas como destruir uma obra de arte? Iinicialmente eu iria classificar "Fachadas" na tag "hq's, cartuns e mangás" deste blog, mas preferi identificá-lo como "livro de arte". Much more suitable!. O trabalho dele pode ser acompanhado na página: /RafaelSica. Bom divertimento.
[início/fim: 03/06/2017]
"Fachadas", Rafael Sica, São Paulo: editora Lote 42, 1a. edição (2017), sanfona/concertina 10,5x15 cm., 32 págs., ISBN: 978-85-66740-23-3

sexta-feira, 16 de junho de 2017

rua do odéon

Hoje é Bloomsday, o glorioso Bloomsday deste 16 de junho de 2017. Gosto sempre de tentar marcar a data com alguma citação literária em homenagem a James Joyce ou a seu "Ulysses". Neste ano escolhi este delicioso livrinho de Adrienne Monnier. No final de 1915 ela abriu uma livraria (que também funcionava como biblioteca de empréstimos para assinantes), a lendária "La Maison des Amis des Livres". Manteve a livraria até meados de 1951. Por ela passaram quase todos os escritores, compositores, poetas, jornalistas, pensadores, filósofos, intelectuais mais importantes da primeira metade do século XX, franceses e não franceses. Entusiasta dos livros e da literatura ela não apenas vendia e emprestava livros de poetas e escritores, sobretudo os modernos, referência da primeira metade do século XX, como editava aqueles que lhe pareciam inovadores e/ou importantes. Ela também editou revistas literárias, como a Le Navire d'Argent e La Gazette des Amis des Livres. Adrienne Monnier auxiliou Sylvia Beach, americana radicada em Paris, a fundar uma livraria igualmente icônica de Paris, a Shakespeare and Company, em 1919. Nos anos 1920 essas duas livrarias (a La Maison des Amis des Livres e a Shakespeare and Company) ocupavam a rue de l'Odeón, no Quartier Latin, à margem esquerda do rio Sena), posteriormente a Shakespeare and Company mudou-se para a rue de la Bûcherie, no mesmo bairro. Elas duas se envolveram com o projeto de edição do Ulysses. Sylvia Beach com a edição original, em inglês, em 1922. Monnier com a tradução francesa, publicada em 1929, feita por Auguste Morel (com a assistência de Stuart Gilbert, Valery Larbaud e o próprio Joyce). "Rua do Odéon" foi publicado originalmente em 1960, cinco anos após o suicídio de Adrienne Monnier. Ela em vida manifestou o desejo que os textos nele reunidos, anteriormente publicados em jornais ou apenas distribuídos aos amigos, fossem publicados em livro. O leitor encontra quatro conjuntos de textos. O primeiro, "Os amigos dos livros", têm a ver com sua vocação para livreira e a fundação da livraria, são textos escritos entre 1918 e 1939. O segundo conjunto, "Rua do Odeón" reune textos esparsos sobre o exercício do ofício de livreira, escritos entre 1926 e 1954. O terceiro conjunto reúne artigos que ela pretendia incluir em uma obra sem ligação com sua vida de livreira, são textos sobre suas viagens à Londres e a Itália, ainda na juventude, e sobre sua formação acadêmica. O livro inclui também relatos de contemporâneos dela, alguns produzidos ainda no início de sua carreira, de 1919, outros já posteriores a sua morte, obviamente elegíacos. Falar dos frequentadores da livraria de Adrienne Monnier ou das pessoas que são citadas no livro é fazer um censo daquilo que de melhor a Europa produziu na primeira metade do século XX. Ela trata de Fargue a Valéry, de Léautaud a Rilke, de Beckett a Hemingway, de Benjamin a Joyce, de Prévert a Cocteau, de Dujardin a Gide, de Aragon a Breton, de Apollinaire a Claudel, de Larbaud a Poulenc, de Reverdy a Perse. Que mulher industriosa. Viva Monnier. Viva Beach. Viva Joyce. Viva o Bloomsday. 
[início:24/05/2017 - fim: 29/05/2017]
"Rua do Odéon", Adrienne Monnier, tradução de Júlio Castañon Guimarães, Belo Horizonte: editora Autêntica, 1a. edição (2017), brochura 14x21 cm., 239 págs., ISBN: 978-85-8217-613-9 [edição original: Rue de l'Odéon (Paris: Les éditions Albin Michel) 1960, 1968, 2009]

quinta-feira, 15 de junho de 2017

vista del amanecer en el tropico

Comprei esse livro com don Miguel, na última feira do livro de Santa Maria. Coloquei o volume em uma pilha de leituras futuras, mas eis que numa noite, folheando besta o mimo recém comprado, noto por uma assinatura e carimbo (não um ex libris) que se tratava de um volume da antiga biblioteca do Roberto Valfredo Bicca Pimental, o velho e bom santa-mariense da gema, o Tatata Pimentel, morto em 2012. A ventura dos livros é algo que nem o mais imaginativo dos escritores saberá prever. Nem mesmo o acaso, o azar, talvez a estocástica, são tão inventivos quanto as narrativas dos destinos dos livros que acabamos descobrindo um dia. Pois este volume talvez seja uns dos que foram vendidos pela família para um sebo porto-alegrense, que foi comprado e descartado por alguém inominado, que chegou às mãos de don Miguel, na Calle Corrientes, e ato contínuo foi adquirido por mim. "You are mine, said he", já disse o cummings. Bueno. "Vista del amanecer en el tropico" reúne 101 pequenos fragmentos (viñetas, diz o autor em algum ponto) que tratam da história factual cubana. Trata-se de uma história em flashes, em episódios curtos, onde as sublevações, as contendas, os mártires, as revoluções se sucedem e se acumulam, como num palimpsesto de desgraças. Os primeiros remetem aos tempos pré colombianos, às lutas entre os indígenas que precederam a chegada dos europeus e africanos à ilha. As últimas podem ser associadas aos comandantes da revolução cubana, do início dos anos 1960. Mas Cabrera Infante nunca cita textualmente os nomes dos artífices da história cubana que ele conta. Antes faz uso de imagens poderosas, sejam de gravuras, desenhos, quadros ou fotografias que descreve com sua prosa sempre irônica e precisa, todos de alguma forma relacionados a personagens ou eventos de uma história de desgraças contínuas: suicídios, mortes violentas, perversões, discursos fúnebres, últimas palavras, sangue, fugas frustradas, fuzilamentos, torturas, mentiras, massacres, tramas cruéis. Um ou outro fragmento oferece uma espécie de descanso, fragmentos onde se fala de um dente cariado, de uma fruta madura que se come, de algo cômico, de um nascer do dia radiante, de um jogo de xadrez, da geografia de certos lugares, de algo fortuito que distrai os combates revolucionários da vez. Há algo nele que ecoa um poema do John Donne. O livro foi publicado originalmente em 1974, quando Cabrera Infante já vivia seu particularmente doloroso exílio (ele amava genuinamente sua Cuba fundamental). De qualquer forma, de lá para cá só se sabe de mais mortes e desgraças naquele país, somente admirado por escravos mentais, lorpas voluntários ou canalhas de ocasião. Mas a grande arte sempre sobrevive aos canalhas, por mais longevos e cruéis que sejam. E viva Guilhermo Cabrera Infante (e viva Tatata Pimentel por ter comprado um dia este livro). Evoé.
[início:19/05/2017 - fim: 25/05/2017]
"Vista del amanecer en el tropico", Guilhermo Cabrera Infante, Madrid: Randon House Mondadori (coleccíon Narrativa), 1a. edição (1987), capa-dura 14x21 cm., 226 págs., ISBN: 978-92-03092-72-2 [edição original: Letras del exilio, 1974]

segunda-feira, 12 de junho de 2017

romancista como vocação

Publicado originalmente em uma revista japonesa, "Romancista como vocação" reúne onze ensaios curtos. Haruki Murakami fala de seu ofício, conta algo de sua vida, inclusive a literária; oferece conselhos para jovens escritores; reflete sobre as alegrias e as dificuldades de sua profissão. Há alguma repetição de argumentos e de passagens de sua vida pessoal, mas nada que aborreça especialmente o leitor. Esse livro pertence a categoria de manuais de ofício. Todo escritor de sucesso já foi convidado a produzir algum. Lembro das versões de Mario Vargas Llosa, Ohran Pamuk e Umberto Eco (cito só essas três, mas há dezenas, para todo gosto e função, inclusive algumas sofríveis em seu cabotinismo ou bisonhice). A leitura é agradável. Murakami é realmente franco em suas observações. Ele defende que é o exercício de observar pessoas e situações que robustece os futuros atos criativos, que é o acúmulo de décadas de leitura que povoa a imaginação do escritor, que são a paciência e a disciplina diária da escrita que gera material digno de ser repetidas vezes burilado antes de tornar-se algo que alguém além do próprio escritor possa ler e opinar. O livro está repleto de ideias e sugestões razoáveis, não particularmente novas ou inventivas, mas honestas em sua descrição. O único argumento que acho difícil de defender, pois me parece específico demais de sua personalidade antes que uma regra que possa ser generalizada, é a prática de exercícios físicos diários para compensar o esforço criativo (ele descreve esse ponto detalhadamente no bom "do que eu falo quando eu falo de corrida". Assim como em sua literatura, Murakami não glamoriza, não usa palavras difíceis para dizer óbvio, não é pedante. Os capítulos iniciais são majoritariamente sobre técnicas e procedimentos literários, os quatro ou cinco finais são mais confessionais, não taxativos (estes me parecem os melhores do conjunto). Ele fala sobre sua relação com prêmios literários, sobre o que ele entende por originalidade, sobre como construir personagens e escolher assuntos, sobre o sistema educacional japonês, sobre o público leitor, sobre a relação com colegas escritores e a crítica, sobre sua necessidade de afastar-se de grupos - e até de seu país - para poder escrever em paz. Em uma época onde muita gente acredita ser fácil e possível escrever e publicar qualquer coisa que lhe venha à mente, um livro deste calibre tem mesmo valor. Mas sabemos, ai de nós, que a vaidade sempre será senhora da razão, impedindo que os escritores se inspirem nas palavras de Murakami (sejam eles neófitos ou já vetustos). Eu mesmo conheço vários beletristas capazes de continuamente publicar lixo apenas pela efêmera glória de lerem seus nomes impressos na capa de um livro. Dá pena, mas não muita pena. 
[início: 08/05/2017 - fim: 11/05/2017]
"Romancista como vocação", Haruki Murakami, tradução de Eunice Suenaga, Rio de Janeiro: Editora Schwarcz (Alfaguara / Grupo Companhia das Letras), 1a. edição (2017), brochura 15x23 cm., 166 págs., ISBN: 978-85-5652-038-8 [edição original: Hokugyo Toshite no Shosetsuka / 職業としての小説家 (Tokyo: Suitchipaburisshingu) 2015]

sexta-feira, 9 de junho de 2017

o tribunal da quinta-feira

No "Em busca do tempo perdido" há uma passagem em que Elstir, um respeitado, discreto e já idoso pintor, confessa ao narrador ter sido ele, em uma odiosa encarnação da juventude, um sujeito frívolo e tolo, chamado Biche ou Tiche (Proust é cruel inclusive por fazer seu narrador não lembrar exatamente o nome do sujeito). Todavia Elstir não confirma a descoberta desta identidade passada com medo de ficar exposto, arranhar sua reputação ou por culpa, antes, com sabedoria, aproveita a oportunidade para ensinar ao jovem e arrivista narrador da inevitabilidade das metamorfoses pelas quais passamos, falando da dolorosa experiência de amadurecer e conviver com todas as lembranças dos atos passados, bons e maus. O narrador de Michel Laub, nesse poderoso "O tribunal da quinta-feira" experimenta algo similar. Ao ter uma indiscrição do passado revelada, passa por uma súbita metamorfose, e acaba moralmente condenado a enfrentar o juízo de uma pessoa, no tal tribunal da quinta-feira do título do livro. Esse encontro acontece no último parágrafo do livro, o réu já desarmado de seu natural sarcasmo. Jamais saberemos o veredito. Laub habilmente oferece ao leitor acompanhar o processo dessa metamorfose, envolver-se no emaranhado factual das circunstâncias da indiscrição (ridícula, irrelevante, casual, como sempre acontece no mundo real). Ficamos a saber das ponderações, providências, tomadas de decisão desse narrador. O intrincado da cousa, cerebral e desapaixonada, lembra muito os melhores Philip Roth. A fronteira elástica e permeável entre a vida pública e privada em nossos dias é uma espécie de fantasma que assombra todo o livro. Como já disseram personagens de Javier Marías em "Tu rostro mañana": "Ninguém nunca deveria contar nada, (...) mas calar é a grande aspiração que ninguém realiza". A falta de privacidade é um mal da modernidade, apesar da hipocrisia não ser invenção nem um pouco recente. Laub realmente alcançou concentrar num livro, que é curto e se deixa ler em poucas horas, algo da vertigem deste nosso tempo inapelavelmente terrível. Muito interessante mesmo. Enfim, há livros que nem precisamos ler para sabermos que são muito bons. Caso sejamos capazes de conter nosso açodamento, o guardamos para um final de semana especial ou feriado, ou ainda postergamos as alegrias estéticas para dias felizes que, muitas vezes, nunca chegam. Comprei meu volume ainda nas festas de final de ano, logo após a morte de minha mãe e deixei o livro perdido em meus guardados. Felizmente encontrei um dia ideal para ler. Evoé Laub, evoé.
[início/fim: 30/05/2017]
"O tribunal da quinta-feira", Michel Laub, São Paulo: editora Schwarcz (Grupo Companhia das Letras), 1a. edição (2017), brochura 14x21 cm., 183 págs., ISBN: 978-85-359-2832-7

terça-feira, 6 de junho de 2017

apenas respire

"Apenas respire" é um conto de fadas urbano, uma fábula contemporânea. A narradora/protagonista da história, Isabella, é uma mulher jovem, de trinta e poucos anos. Após experimentar carreira como advogada e alguns aborrecimentos torna-se professora universitária e produtora musical. Por conta de um projeto de pós-graduação ela viaja para os Estados Unidos e passa uns meses trabalhando com uma banda de rock de lá, banda e músicos que ela conhece muito bem, como fã. Isso Rossana Almeida nos conta no primeiro capítulo de seu romance, em três ou quatro páginas. O que o leitor acompanha nos demais capítulos do livro são desdobramentos desta viagem, os destinos cruzados entre a protagonista e o líder da banda, as opções profissionais que surgem após esta experiência, as muitas viagens que ela faz, as conversas que tem com amigos sobre seus sentimentos, sobre aquilo que é provocado nela em outros relacionamentos. Trata-se de um romance otimista, que fala de habilidade que muitas pessoas têm de continuar lutando por seus sonhos, que encontram prazer no cotidiano, sem dúvidas transcendentais ou demasiadas preocupações sobre o futuro da humanidade. O formato, público alvo e a proposta do livro permitem vários clichês, repetições desnecessárias sobre o enredo, a previsibilidade de alguns sucessos e o acúmulo de informações irrelevantes. Todavia nada disto rouba do leitor a curiosidade sobre o destino da protagonista e o prazer de ler o livro. Certamente ouviremos falar mais da autora e de sua protagonista. Vale.
[início: 17/04/2017 - fim: 24/04/2017]
"Apenas respire: Rock e perfume: Paixão no ar", Rossana Cantarelli Almeida, Porto Alegre: Pro Innovation / Grupo Multifoco (Desfecho romances), 1a. edição (2016), 16x23 cm., 342 págs., ISBN: 978-85-5996-016-7

domingo, 4 de junho de 2017

antígona, intriga e enigma

No final dos anos 1980, quando estive por algumas semanas em Stuttgart numa missão acadêmica no Max-Planck-Institut für Metallforschung (hoje aquelas instalações pertencem ao Max Planck Institute for Intelligent Systems), quis a fortuna conceder-me a oportunidade de visitar Tübingen. Na verdade, assim como Virgílio conduziu Dante pelas páginas da Divina Comédia, fui guiado até lá por um amigo daqueles dias, o Gerhard Schneider. Era verão, as flores obviamente desabrochavam sozinhas, éramos jovens e estávamos felizes ali, cervejando sem culpa, literalmente sobre o Necker, falando dos amigos paulistas. I was drowning in honey, stingless. Antes de irmos ver Utte e o pequeno Mattias, que havia nascido há poucos meses, fizemos um desvio, cumprindo uma prometida peregrinação a torre de Hölderlin. "Hier lebte und entschlief Hölderlin" dizia uma placa, e aquele lebte und entschlief ressoava como se ele fosse mesmo viver e dormir para sempre, muito além dos 34 anos que passou ali. Lembrei-me vividamente daquele dia ao começar a ler "Antígona, intriga e enigma: Sófocles lido por Hölderlin". Trata-se de um poderoso ensaio, produzido pela industriosa Kathrin Rosenfield. Esse livro é resultado de acumulada reflexão e elaboração. Uma versão curta, ainda embrionária, foi publicada primeiramente em 1999, na New Literary History; progressivamente robustecido, o texto metamorfoseou-se diversas vezes, tendo sido publicado em revistas ou livros, publicados na França, Alemanha, Brasil e Estados Unidos (a presente edição é uma tradução da versão final, publicada em inglês, em 2010). As ideias centrais do ensaio foram discutidas em eventos acadêmicos, com diversos interlocutores, sobretudo filólogos, filósofos, tradutores e especialistas em literatura. Kathrin valeu-se também de produtiva troca de ideias com Lawrence Flores Pereira, durante o processo de sua tradução de Antígona (originalmente para fins de uma encenação teatral, que aconteceu em Porto Alegre nos anos 2004 e 2005, e posteriormente publicada em livro, em 2006, como já contei aqui num registro recente). Em "Antígona, intriga e enigma: Sófocles lido por Hölderlin" Kathrin argumenta em defesa dos procedimentos de tradução de Antígona como proposto por Hölderlin em sua tradução, de 1804, e em seus ensaios, sobretudo o "Anmerkungen zur Antigonä". Para Hölderlin o texto clássico deveria ser lido com um novo olhar, a leitura deveria ser renovadora. Mas Kathrin diz que, ao contrário do que argumentam os críticos de Hölderlin, desde o inicio do século XIX, "a aparente modernização da peca apenas realça o que havia de moderno e selvagem no imaginário clássico, (...) mudando o ponto de vista a partir do qual devemos contemplar os gregos, reconhecendo nas entranhas da cultura grega o inquietante e estranho daquela época". Segundo essa argumentação, a transcriação de Hölderlin, por mais inovadora que é, também é fiel ao original de Sófocles, pois o homo sapiens sapiens grego do século V antes da era cristã compreendia o paradoxo entre a sociedade gentilica, vinculada às tradições e aos vínculos de sangue entre seus membros, e a ascensão da sociedade política, onde os fins práticos das ações dos homens justificam todas suas implicações sociais. Nas palavras de um conhecido tradutor (Kurt Meyer-Classon), devemos apreciar a tradução de Hölderlin não por ele tentar melhorar Sófocles, o que seria uma coisa ridícula de se fazer (acréscimo meu), mas porque ele recria o antigo drama clássico, renovando-o. O texto de Kathrin é especialmente detalhado, completo. Ela, ato a ato, cena a cena, a cada problema técnico ou questão complexa, discute todas as implicações das soluções tradutórias e escolhas de Hölderlin, mas o faz à luz do que se sabe da filologia grega e da antropologia estrutural neste inicio de século XXI. Trata-se de um texto técnico, complexo, que pode ser apreciado mesmo por um leitor neófito (como eu, ai de mim), desde que a leitura seja feita com disciplina e rigor. Kathrin se propõe "a fazer critica literária sem abrir mão da seriedade do pensamento controlado, permanecendo lúdica, elástica, aberta às propostas estéticas e poéticas oferecidas por Hölderlin". Acho que ela alcançou este propósito. Enfim, aprendi um bocado. O livro inclui os mimos preciosos: uma genealogia dos mitos tebanos; um curto glossário; uma detalhada bibliografia. Cabe, por fim, registrar que essa edição é resultado de uma colaboração entre a icônica editora Perspectiva, a organização social de cultura Poiesis e a Casa de Cultura Guilherme de Almeida, também ele um tradutor de Antígona. Evoé Kathrin, evoé.
[inicio: 22/05/2017 - fim: 03/06/2017]
"Antígona, intriga e enigma: Sófocles lido por Hölderlin", Kathrin H. Rosenfield, São Paulo:editora Perspectiva, 1a. edição (2016), brochura 11x23 cm., 224 págs., ISBN: 978-85-273-1069-7 [edição original: Sofocle's art, Hölderlin's insight (Aurora/Colorado: Davies Group) 2010]

sábado, 3 de junho de 2017

detalhes de um pôr-do-sol

Os treze contos incluídos nesta coletânea foram escritos originalmente em russo, entre 1924 e 1935. Nesta época, Vladimir Nabokov, que havia fugido da revolução soviética, vivia exilado em cidades como Berlin, Paris e Riga (na Letônia). Os contos foram publicados em jornais e revistas de emigrados que eram editadas em russo nestes países. Posteriormente, em meados dos anos 1970, os contos foram traduzidos pelo próprio Nabokov e seu filho, Dmitri, do russo para o inglês. Nabokov faz uma pequena introdução em todos os contos, onde ele discute o contexto da publicação original e as opções estilísticas oferecidas pelos títulos e passagens mais herméticas dos textos (mestre supremo da ironia, Nabokov não se furta em alertar nestas introduções, ao eventual leitor, dos erros grosseiros de interpretação dos críticos originais das histórias). Trata-se de um escritor que exige um bocado do leitor, opera num padrão de invenção que impressiona, nada é ligeiro, fraco, mal acabado, irrelevante ou sem significado). Aprendizes do ofício têm muito a aprender com o sujeito. Os contos que mais gostei foram (i) "A campainha da porta", no qual acompanhamos o desconforto de um rapaz russo que reencontra a mãe após três anos, em Berlin, justamente na hora em que ela esperava um pretendente e provável noivo; (ii) "Uma fatia de vida", onde uma mulher conta como seu cunhado tentou matar a mulher após uma separação, obrigando-a a cruzar Berlin várias vezes, tornando-a um espécie de personagem da história; (iii) "Um homem ocupado", em que acompanhamos a obsessão de um homem com a probabilidade de morrer antes de completar seus 33 anos e (iv) "Natal", onde um sujeito lembra da morte de um filho pequeno e, ao mexer em seus guardados, presencia um prodígio que redime um tanto de sua dor. Cito apenas esta terça parte dos contos, mas poderia elencar pelo menos outros quatro igualmente surpreendentes e ricos. Nenhum conto parece deslocado nesta excelente coleção. Enfim, preciso procurar mais coisas dele. O Nabokov sabia mesmo contar histórias. Li há tantos anos seus romances e nunca me deparei com seus contos (essa edição da Companhia das Letras é antiga, de 2002, comprei por acaso na última feira do livro de Santa Maria, do Ricardo, lá da Disco Voador). 
[início: 07/05/2017 - fim: 15/05/2017]
"Detalhes de um pôr-do-sol", Vladimir Nabokov, tradução de Jorio Dauster, São Paulo: editora Schwarcz (Grupo Companhia das Letras), 1a. edição (2002), brochura 14x21 cm., 173 págs., ISBN: 978-85-359-0267-8 [edição original: Details of a sunset and others stories (New York: McGraw-Hill) 1976]

quinta-feira, 1 de junho de 2017

antígona

Talvez por ter sido incorporada por Freud ao núcleo central da teoria psicanalítica, a história de Édipo é conhecida mesmo por quem dificilmente lê sobre os mitos gregos. Édipo é o sujeito que mata o pai, Laio, rei de Tebas, casa-se com a mãe, Jocasta, torna-se rei de Tebas, tem filhos com sua mãe e pune a si mesmo vazando seus olhos, quando finalmente descobre o inusitado de sua situação. Vários dramaturgos gregos escreveram peças baseadas neste mito. Sófocles, que viveu no quinto século antes da era cristã, foi um deles. Antígona foi composta em 442 a.C.. Quando tornou-se rei de Tebas, Édipo teve quatro filhos, dois homens (Etéocle e Polinices) e duas mulheres (Ismena e Antígona). Após o exílio do pai (numa das versões do mito), Etéocle e Polinice lutam pelo poder em Tebas e morrem em combate. Creonte, general e principal conselheiro de Tebas, irmão de Jocasta, mãe dos irmãos mortos, assume a regência. A peça começa com Sófocles apresentando uma situação complexa: Creonte decide que à Polinices, que insurgiu-se contra o irmão com ajuda de forças estrangeiras, não se deve dar rituais funerários apropriados; decide também que se alguém desafiar esta resolução estará cometendo um crime contra o estado e deverá ser punido. Como Antígona desobedece esta ordem e enterra o irmão, Creonte decide que ela deverá ser morta. Na interpretação tradicional da peça o que se discute é se os atos de Creonte são justos (já que ele zela pela cidade e suas leis) ou intempestivos (já que com a morte de Antígona e sua irmã ele se alçaria a condição de tirano e regente de fato da cidade). De forma especular o que a peça discute é se Antígona é mesmo duplamente heroína, pois honra o irmão e também defende-se da tirania de Creonte explicitando sua condição de noiva epikler (estatuto jurídico que garante à filha de um rei morto sem descendência o direito e o dever de parir um descendente para seu pai, mantendo a linhagem de reis que a une diretamente à Cadmo, fundador de Tebas). Os desdobramentos dos vários impasses da trama (lei natural versus estatutos legais, obediência civil versus amor fraternal) são sutis demais para que sejam registrados aqui. Cabe ao leitor curioso ir ao texto e descobrir como Sófocles conduz sua tragédia até o desfecho. A tradução de Lawrence Flores Pereira, em dodecassílabos, foi encenada com sucesso nos anos 2004 e 2005, em Porto Alegre. Lawrence segue o procedimento utilizado por Hölderlin, onde as partes do coro (estásimos) e as partes dramáticas (episódios) são formalmente separadas. Nunca vi a peça encenada, mas a leitura do texto é muito agradável. Os versos são poderosos em associações, com um léxico rico e ao mesmo tempo, de compreensão clara. Nada parece rude ou fora do lugar. O livro inclui vários mimos: uma longa introdução e uma seção de notas comentadas, ambas assinadas por Kathrin Rosenfield, hiper especialista no assunto e colaboradora de Lawrence Pereira em vários projetos tradutórios;  um seção de comentários do tradutor, onde ele elenca suas escolhas e compromissos ao verter o texto clássico para o português lido e falado; um glossário de termos gregos e uma detalhada bibliografia. Que belo livro. Evoé Lawrence, evoé. Em tempo: Em breve foi registrar aqui um livro da Kathrin (Antígona: Intriga e enigma), onde ela discute a leitura de Hölderlin da peça. Logo veremos.
[início:16/04/2017 - fim: 18/05/2017]
"Antígona", Sófocles, tradução de Lawrence Flores Pereira, Rio de Janeiro: editora Topbooks, 1a. edição (2006), brochura 16x23 cm., 203 págs., ISBN: 978-85-7475-124-3 [edição/encenação original: Atenas, 442 a.C]

quarta-feira, 31 de maio de 2017

cacos e outros pedaços

Do Cassionei Petry li o romance "Os óculos de Paula", de 2014, e os contos reunidos em "Arranhões e outras feridas", de 2012. Recentemente ele lançou uma nova coleção de contos curtos (só dois têm mais que oito laudas, vários não mais que cinco e os menores não mais que uma ou duas). Já registrei aqui o entusiasmo do Cassionei pelo ofício da escrita, seu amor à literatura, sua disciplina, ambição e projetos (é possível acompanhar sua produção literária no blog "Cassionei lê e escreve"). "Cacos e outros pedaços" reúne vinte histórias, que ele classificou em três conjuntos: Eles em pedaços, Eu em pedaços, Vidas em pedaços. São histórias que flertam com o surrealismo, com o fantástico, com o humor contido, com o registro de um estranhamento ou inadequação. Parecem exercícios, sempre uma cousa boa. À experiência pessoal Cassionei acrescenta invenção e técnica, construindo narrativas quase sempre interessantes, poderosas. Várias delas envolvem um  protagonista que precisa enfrentar fantasmas do passado, fazer balanço de pretéritas escolhas, reagir rapidamente ao acaso. Os contos mais extensos são os que mais gostei: "Gabriel", "Mikaela" e "Lá em cima". São histórias que tratam literariamente temas arquetípicos, seja a brutalidade do processo de socialização que todos experimentamos na infância, ou o dilema moral intrínseco das convenções sociais, num mundo povoado por tribunais de correção política ou ainda a imaginação infantil como antídoto para o medo, como encontramos em todos os contos de fada. Vamos a ver o que esse sujeito inquieto nos apresentará em sua próxima fornada (Ele vive escrevendo que abandonará a literatura, mas eu duvido).
[início - fim: 31/03/2017]
"Cacos e outros pedaços", Cassionei Niches Petry, Guaratinguetá: Editora Penalux, 1a. edição (2017), brochura 14x21 cm., 92 págs., ISBN: 978-85-5833-152-4

sábado, 27 de maio de 2017

uma sensação estranha

Há mais de dez anos fiz uma viagem acompanhado de um pesado volume de Orhan Pamuk. Era "Meu nome é Vermelho", que não está registrado aqui, pois o li em 2004. À minha frente em uma fila para despachar bagagens num aeroporto estava um casal de turcos. Curiosos, eles perguntaram sobre minhas impressões do livro e vaticinaram ali mesmo que um dia ele receberia o Nobel, o que de fato aconteceu, apenas dois anos depois, em 2006. Com o tempo li "Neve", "O romancista ingênuo e o sentimental" e "O castelo branco", mas deixei passar vários outros livros dele, como "Negro", "Istambul", "O museu da inocência". Recentemente foi lançado esse "Uma sensação estranha". Talvez em função das notícias sobre os desastres da guerra da Síria e do papel dos turcos no conflito achei que era hora de voltar ao Pamuk. Trata-se de um romance longo, de quase 600 páginas, e que percorre um período de tempo também extenso, mais de quarenta anos, de 1969 a 2012. O protagonista é Mevlut, um sujeito industrioso, que experimentará várias atividades e ofícios, mas que se identificará sempre como um zeloso vendedor ambulante de boza, uma bebida popular, à base de cereais, açúcar e água, levemente alcoólica. Pamuk conta o trivial da vida deste sujeito, desde a juventude em uma aldeia, a imigração para a capital Istambul com seu pai, os conflitos familiares, serviço militar, seu casamento, nascimento dos filhos, viuvez ainda antes da maturidade, o nascimento dos netos e a velhice. Mas o que realmente surpreende no livro são os relatos sobre a complexidade da Turquia, sua ocidentalização abrupta, o choque do velho e do novo da sociedade turca, as regras de conduta de seu povo (no casamento, nas questões de honra, nos negócios, na política) e sua práticas morais e tradicionais (a violência e o machismo, mas também a musicalidade e o senso religioso). Em muitos momentos lembramos do Brasil, do quão labiríntico e complicado é um país, qualquer país, seja os "em eterno desenvolvimento", como Turquia e Brasil, seja um país rico ou com menor grau de desigualdade social. Racionalizações sociológicas à parte, no fundo o livro trata de uma história de amor, é um longo poema de amor a vida, de como um pecado original condiciona os destinos de um grupo de pessoas. Em "Uma sensação estranha" a fusão dos registros históricos dos últimos anos da Turquia à narrativa é notável. A inventividade de Pamuk na condução das vozes narrativas é sempre uma alegria de se ler. O sujeito parece tornar fácil uma delicada carpintaria literária. Bom livro. Vale. 
[início: 25/04/2017 - fim: 06/05/2017]
"Uma sensação estranha", Orhan Pamuk, tradução de Luciano Vieira Machado, São Paulo: editora Schwarcz (Grupo Companhia das Letras), 1a. edição (2017), brochura 14x21 cm., 589 págs., ISBN: 978-85-359-2869-3 [edição original: Kafamda Bir Tuhaflik (Istanbul: Yapi Kredi Yayinlari) 2015]

quinta-feira, 25 de maio de 2017

mitologia nórdica

Apesar de conhecer a série Sandman nunca li sistematicamente livros de Neil Gaiman. Neste blog só há um registro de leitura de cousas dele, o interessante "Objetos frágeis", de 2008. Recentemente ele publicou "Mitologia nórdica", uma leitura bem particular das sagas e dos mitos que, segundo ele mesmo, numa curta introdução, diz terem inspirado muito suas graphic novels ao longo da carreira. Assim como ele e eu, boa parte dos garotos nascidos no início dos anos 1960 tiveram seu primeiro contato com Asgard e seus habitantes por meio das revistas em quadrinhos do Poderoso Thor assinadas por Jack Kirby e Stan Lee. Gaiman, agora já com quase sessenta anos retomou esta paixão da infância, pesquisou as fontes primárias dos mitos, os Edda, textos escritos no início do século XIII, leu vários livros clássicos de interpretação, dentre eles os de Roger Lancelyn Green e Kevin Crossley-Holland. Sua linguagem é simples, direta, envolvente. Ele fala, descreve e reinventa os personagens principais (Odin, Thor, Loki), diz algo sobre a origem dos deuses e dos mundos, do entrelaçamento entre os mitos e a natureza, dos ciclos do herói e aventuras que os deuses nórdicos experimentaram, do Ragnarök inevitável. Lembrei-me do ritmo dos livros de Gustav Schwab sobre mitologia grega, que li ainda garoto na biblioteca pública de São Bernardo, já há tantos anos. Gaiman sabe estimular o leitor a procurar entender melhor as histórias, a ler outros livros e fontes, a interessar-se pelo tema (um tolo politicamente correto brasileiro diria apropriar-se dele, mas eu prefiro o velho e bom clichê que é mergulhar nos mitos e nos livros de mitologia). Como bem disse um grande amigo, o Robson Gonçalves: "Gaiman nos ilumina com informações e explicações dos termos, dos hábitos e da formação daquela cultura. Os 15 contos do livro abarcam o dia-a-dia, as festas, as lutas, as conquistas dos deuses escandinavos. Mas também seus temores, suas traições e sua crença num final de mundo absoluto. O fascínio da escrita e das estórias contadas por Gaiman, tornam ameno e bem palatável aquele cenário mítico". Verdade, don Robson, verdade. Grande livro.
[início: 20/04/2017 - fim: 21/04/2017]
"Mitologia nórdica", Neil Gaiman, tradução de Edmundo Barreiros, Rio de Janeiro: Editora Intrínseca, 1a. edição (2017), capa-dura 14x21,5 cm., 288 págs., ISBN: 978-85-510-0128-8 [edição original: Norse Mythology (New York: W.W. Norton and Company) 2017]

segunda-feira, 22 de maio de 2017

a sede das pedras

São nove contos curtos, muito bem escritos. Não é fácil dizer se Cassio Pantaleoni  destaca-se pelo apuro no uso da linguagem, pela inventividade das histórias que cria ou ainda pelas sutis reflexões que provoca. São histórias em que um narrador perscruta as razões ou o comportamento de indivíduos raros: uma mulher que parece provocar a morte de seus pretendentes; uma garota que convive nas férias com uma prima que enlouquece; uma mulher que almeja sobretudo a maternidade; uma industriosa migrante italiana recém chegada à Argentina; um garoto que é mal cantor e ainda pior piadista; um mendigo que grita na rua; um sujeito que olha o mar procurando consolo e memórias; um garoto que conta sobre um grupo felliniano que sonha com a expectativa do repasto de um bom bifes; o relato amalucado de um adolescente sobre uma lenda urbana, uma violenta competição entre garotas. Ao leitor Pantaleoni, ou ainda, esse narrador que é tão bom juiz de caráter quanto esteta, parece oferecer a oportunidade de preencher vazios, ligar pontos, completar o antes ou o depois das histórias, nunca esgotando apenas com as palavras cada tema e possibilidades. Muito bom.
[início: 21/04/2017 - fim: 22/04/2017]
"A sede das pedras", Cassio Pantaleoni, Porto Alegre: Editora 8Inverso, 1a. edição (2012), brochura 14x21 cm., 96 págs., ISBN: 978-85-62696-18-3

terça-feira, 16 de maio de 2017

stempenyu: um romance judaico

Li "Stempenyu" enquanto velava meu pai num hospital, exatamente num 23 de abril, dia do livro, dia de se lembrar de Shakespeare e Cervantes. Meu pai se recuperou bem de sua cirurgia e ambos continuamos a viver para lermos mais um tanto. Escrito originalmente em iídiche, no final do século XIX, essa novela de Sholem Aleichem fixa em palavras algo da vida dos judeus asquenazes nos "Shtetlech", bairros ou cidadezinhas da Europa oriental, no interior do Império Russo, cuja população era predominantemente judaica. Stempenyu é um violinista virtuoso, cuja música enfeitiça que a ouve. Músico principal de uma orquestra, viaja de vilarejo em vilarejo para tocar em festas religiosas e casamentos. É um sujeito sedutor, acostumado a provocar paixão nas garotas da região, sem nunca se envolver completamente com elas. A história não é contada cronologicamente. Aos poucos ele se lembra de um ou outro detalhe das aventuras ora verossímeis ora fantasiosas de seus personagens. Sendo assim, Aleichem antecipa ao leitor alguns sucessos, para logo voltar no tempo e justificar as razões dos protagonistas e os caminhos que os levaram até aquele ponto da narrativa. O tom é bem humorado, mas com o toque característico do melhor humor judaico, ou seja, que antes ri de si mesmo, perscrutando bem suas próprias limitações e defeitos, ao invés de ridicularizar um oponente ou interlocutor. O destino de Stempenyu será definido por duas mulheres, Rochalle e Freidel, mas não darei nenhum detalhe aqui. Ao longo do texto o narrador da história se dirige pontualmente ao leitor advertindo-o dos porquês de suas escolhas, sobre os sucessos da trama, as motivações dos personagens. Cabotino, diz ao leitor que seu romance não é interessante, por não conter cenas de ação ou descrever acontecimentos extraordinários, ou por não abusar do romantismo ou do melodrama. Mas o que Sholem Aleichem cria é algo poderoso, que faz o leitor descansar da loucura do cotidiano e sonhar. Esse livro faz parte de uma coleção de histórias curtas (A arte da novela, da Grua Livros, originalmente produzidas pela Melville House Publishing, das quais já li: "A briga dos dois Ivans", "A lição do mestre", "O colóquio dos cachorros", "Michael Kohlhass", "O véu erguido", "O homem que corrompeu Hadleyburg" e "O homem que queria ser rei" e "A pedra de toque"). Vale.
[início: 23/04/2017 - fim: 24/04/2017]
"Stempenyu: Um romance judaico", Scholem Aleichem, tradução de Adriana de Oliveira, São Paulo: Grua livros, 1a. edição (2014), brochura 13x18 cm., 216 págs., ISBN: 978-85-61578-36-7 [edição original: (St. Petersburg: Folks-bibliotek) 1888 e (London: Methuen and Co.) 1913]

sábado, 13 de maio de 2017

um pouco mais ao sul

"Um pouco mais ao sul" não é para leitores sensíveis, românticos em busca de entretenimento fácil, finais felizes, seres acostumados a narrativas descartáveis. Luiz Rebinski povoa seu romance com personagens sujos, amalucados, drogados, hiper sexualizados, em transe, visceralmente comprometidos com uma única causa, a de se conhecerem, desvendarem seu passado, entenderem-se uns aos outros. O narrador alterna duas histórias que em algum ponto se fundem. Primeiro ele nos apresenta dois irmãos, Vlad e Nóia, perseguidos por desconhecidos pelos subterrâneos e esgoto do Rio Ivo, em uma Curitiba fria e sufocante. Posteriormente o leitor é apresentado à Inácio, um terceiro irmão, que junta-se aos dois numa alucinante fuga, Paraná profundo adentro. A segunda história é de um antepassado deles, mais precisamente, do avô polaco deles, Bazyli, que radicou-se no Brasil após muitos sucessos, cruzando o Atlântico com um amigo, Volkov, e sua amante, a Gorda. O leitor é levado a rir dos desastres, tiroteios, bacanais, diálogos engraçados, enfim, do sarcasmo e inusitado da cousa toda. Com sua alegoria, repleta de citações cinematográficas e ricos registros linguísticos, Rebinski alcança provocar reflexões interessantes sobre como o homem contemporâneo confronta sua história de vida, equilibrando realidade e sonhos, planos e a inevitabilidade do acaso, o conforto do convencional e os perigos daquilo que é intuitivo, vivo. A ritmo do livro lembra muito "Medo e delírio em Las Vegas", de Hunter Thompson, o episódio "Circe", no Ulysses, de James Joyce e o "B*****", de Luciano Bittencourt. Divertido. 
[início: 07/03/2017 - fim: 25/04/2017]
"Um pouco mais ao sul", Luiz Rebinski, Curitiba/PR: Edições, 1a. edição (2016), 13x19 cm., 214 págs., ISBN: 978-85-917171-3-2

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Arte Impressa

O Grupo de Pesquisa CNPq "Arte Impressa" foi criado em 2012 por Helga Correa, artista plástica vinculada ao Departamento de Artes Visuais da Universidade Federal de Santa Maria. Ela também é professora do Curso de Artes Visuais e do Programa de Pós-graduação em Artes, ambos sediados na Universidade Federal de Santa Maria. Esse grupo de pesquisa desenvolve trabalhos nos quais busca expandir o conceito de construção reflexiva usando, entre outros modos, o formato livro. As linhas de pesquisa estão ligadas sobretudo a Gravura Contemporânea e a relação entre a multiplicidade da imagem e os processos gráficos de impressão, mas há também trabalhos associados a várias outras formas de expressão. Nas palavras de Helga: "A partir de diferentes abordagens formais,  o grupo pretende mostrar a inesgotável capacidade da arte em provocar reflexões, sentimentos, propiciar novos questionamentos e leituras sobre temas da realidade atual". Desde 2012 passaram pelo grupo diversos artistas/estudantes. Eles se envolveram em mais de uma dezena de exposições individuais, além da produzirem e divulgarem comunicações acadêmicas ligadas a seus cursos de graduação ou de pós-graduação. Coletivamente o grupo criou as exposições "Bloomsday 2015", "Livro Interferido", "Livro dos Artistas I", "Livro dos Artistas II", "Livros Arte e Bibliotecas do século XXI" e "Livro Interferido II", esse último ganhador do Prêmio Açorianos de Artes Plásticas 2016, na categoria “Destaque em Projeto Alternativo de Produção Plástica”. No início deste maio de 2017 eles publicaram uma revista com o registro da produção mais recente do grupo. Trata-se de um registro invulgar, de grande impacto visual, um verdadeiro e múltiplo livro arte. A revista inclui uma curta apresentação do grupo e de sua história, assinada por Helga Correa, além de um texto assinado por Bianca Knaak, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e também participante do grupo Arte Impressa, onde ela fala das bibliotecas como local de recepção da arte, bibliotecas como o lugar de conservação de acervos artísticos. Os dois textos verbalizam conceitos e propostas do grupo, mas os trabalhos incluídos nele sabem se defender sozinhos. Afinal, a principal idéia da revista, sua maior ambição, vamos dizer assim, é a de apresentar as propostas plásticas dos artistas do grupo para além do momento das exposições, para além do momento de contato do público com os trabalhos originais. Quando um eventual sujeito participa das exposições e visualiza a materialidade dos objetos a experiência é única. Já o registro bidimensional que encontramos na revista é uma festa para os sentidos. É algo que, tornando-se perene, regular, como parece ser a proposta do grupo, proporcionará a um número muito maior de pessoas a chance de conhecer uma poderosa e rica expressão artística contemporânea do Brasil. Em tempo: É possível entrar em contato com o grupo e comprar a revista pelo e-mail helgacor@gmail.com . E caso você esteja Santa Maria hoje, 12/5/2017, participe do lançamento desta revista, a partir das 17 horas, na Feira do Livro de Santa Maria. Se a idéia  é  conhecer arte original, de grande qualidade e apuro técnico, você não encontrará cousa melhor na Feira com a qual se deliciar. Bom divertimento.
[início - fim: 12/05/2017]
"Grupo de Pesquisa ARTE IMPRESSA", Helga Correa e Marcos Souto (editores), trabalhos de Raone Somavilla, Kekky Júlia Pfüller, Antonio Junior, Laura Lena, Stéfani Agostini, Viviane Tybusch, Jane Zofoli, Marcos Souto, Aracy Colvero, Edineia Peres, Carolina PK, Abrahão Quadros e Bruna Berger, Santa Maria, Edição do Autor 2017, brochura 14x21, 38 págs, sem ISBN.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

homenagem a barcelona

Admirado com o acabamento da boa edição que "As ilhas gregas" de Lawrence Dürrell ganhou da portuguesa Relógio D'água resolvi comprar outros volumes da coleção de livros de viagens deles. "Homenagem a Barcelona" é de Colm Tóibín, premiado escritor irlandês. Ele viveu em Barcelona por muitos anos e aprendeu a amar a cidade. Isso costuma acontecer após algum tempo, mas não com todo mundo, nem o tempo todo, pois não é fácil, como parece ao experimentarmos os primeiros deslumbramentos, entender as sutilezas e matizes do caráter dos catalães. Ele viveu em Barcelona quase ininterruptamente entre 1975 e 1978, mantendo-se com aulas de inglês e morando em apartamentos baratos. Depois voltou à cidade, em um ano sabático, já escritor experimentado e com algum dinheiro, em 1988, justamente por encomenda para escrever esse livro, antecipando a curiosidade dos leitores europeus com os sucessos que viriam com a Olimpíada de 1992. O livro é antigo, de 1990, foi parcialmente reescrito em 2002, mas muito daquilo que Tóibín registra é perene, já que nem de longe se trata de um livro para fins turísticos. Gostei particularmente de suas reflexões sobre história e política, sobretudo sobre a guerra civil espanhola, pois ele rapidamente, e com clareza, explica a complexidade das forças políticas e interesses cruzados experimentados pelos cidadãos, seja sobre o período da guerra civil, seja sobre o período que se segue a redemocratização, com a morte de Franco. Tóibín é muito feliz em sua técnica de utilizar um artista plástico, poeta, músico ou arquiteto (Picasso, Miró, Dalí, Casals, Lorca, Maragall, Cerdà, Montaner, Gaudí e Cadafalch) para com ele trilhar uma parte de Barcelona, um parque ou edificação, um período de tempo da história da cidade ou o interior profundo da Catalunha. Seus comentários sobre a língua catalã e as relações sociais dos catalães me pareceram menos brilhantes que os registros políticos e/ou históricos. Para entender algo sobre arte e arquitetura ainda prefiro o detalhamento que se encontra no livro de Robert Hughes, mas esse livro de Tóibín tem algo o Hughes não tem, parece ser mais familiar, quente, menos crítico, definitivo e frio. São experiências de leitura muito diferentes. Escritor talentoso como é, ele enfeitiça o leitor com sua prosa envolvente, criando imagens incríveis das festas, danças, explosões de fogos, dos bares e restaurantes, das mitologias antigas que brotam do chão e das pedras da cidade. Sua descrição das festas da paixão e de Páscoa em um pequeno vilarejo próximo a Girona, dos passeios solitários pela Costa Brava e da aglomeração na Diada (festa nacional da Catalunha, 11 de setembro) são impressionantes. Tóibín contrasta a cidade que conheceu em 1975 com aquela de 1988. Saudosista, faz coro com seus amigos catalães que reclamam dos turistas mal educados, daqueles que não apoiam a causa da independência catalã, dos imigrantes que não praticam o catalão e suas tradições sagradas. Não consigo imaginar o que ele diria da Barcelona de 2017, meca do turismo de massa, hiper cosmopolita. Cabe registrar que o título do livro faz homenagem ao escritor George Orwell, que lutou na guerra civil espanhola e escreveu sobre ela, em seu "Homenagem a Catalunha", de 1938. Vale.
[início: 09/04/2017 -  fim: 18/04/2017]
"Homenagem a Barcelona", Colm Tóibín, tradução de Ana Falcão Bastos, Lisboa: Relógio D'Água Editores (coleção Viagens), 1a. edição (2016), brochura 13x20 cm., 274 págs., ISBN: 978-989-641-640-0 [edição original: Homage to Barcelona (New York: Simon and Schuster Ltd), 1990]

domingo, 7 de maio de 2017

a pedra de toque

Nunca havia lido nada de Edith Wharton, mas sei agora que já conhecia algo dela, a história "A idade da inocência", que vi filmada no início dos anos 1990. "A pedra de toque" é seu primeiro romance, publicado em 1890, mas vou classificá-lo aqui como novela, pois esta coleção da Grua assim o definiu. Trata-se de uma história moral, no sentido em que o leitor é apresentado a um dilema moral sobre o qual deve refletir e ponderar como se estivesse na situação dos protagonistas do livro. Quando ainda bastante jovem, um medíocre advogado do interior nova-iorquino (do estado, não da cidade), Stephen Glennard, flertou com uma mulher mais velha, recentemente enviuvada, Margaret Aubyn. Ela emigra para a Inglaterra e se torna um escritora de sucesso. Durante todo o tempo em que viveu fora dos Estados Unidos enviou cartas para Stephen, cartas de um amor nunca correspondido. O tempo passa, Margaret morre, Stepehn está enamorado de um jovem, Alexa Trent, mas não tem os recursos necessários para se casar. Stephen fica sabendo por meio de um amigo que os biógrafos de Margaret pagariam um bom dinheiro por informações referentes ao período em que era desconhecida do grande público, quando ainda vivia nos Estados Unidos. O livro descreve muito bem o dilema e suas consequências, sobretudo pressão psicológica e culpa que a decisão de utilizar-se destas cartas, traindo a memória de Margaret para no fundo apenas proporcionar algum conforto material a Alexa, é um um subterfúgio sórdido demais para tolerado. Muito interessante. Esse livro faz parte de uma coleção de histórias curtas (A arte da novela, da Grua Livros, originalmente produzidas pela Melville House Publishing, das quais já li: "A briga dos dois Ivans", "A lição do mestre", "O colóquio dos cachorros", "Michael Kohlhass", "O véu erguido", "O homem que corrompeu Hadleyburg" e "O homem que queria ser rei"). 
[início: 30/03/2017 - fim: 31/03/2017]
"A pedra de toque", Edith Wharton, tradução de Bernardo Ajzenberg, São Paulo: Grua livros, 1a. edição (2015), brochura 13x18 cm., 160 págs., ISBN: 978-85-61578-52-7 [edição original: The touchstone / (New York: Charles Scribner's Sons) 1900]

quinta-feira, 4 de maio de 2017

muerte en mar abierto

Neste volume estão reunidos oito curtos contos policiais, histórias que eventualmente poderiam render um dos romances típicos da série Montalbano, mas que Andrea Camilleri optou por fixar em causos dos primeiros anos de um jovem comissário, no início dos anos 1980. Todos os personagens que gravitam o universo Montalbano aparecem, igualmente rejuvenescidos: o meticuloso inspetor Fazio, o lascivo vice-comissário Augello, o atrapalhado agente Catarella, o diligente motorista Galluzzo, a cozinheira Adelina, o sarcástico doutor Pasquano, os jornalistas Nicolò Zito e Pepo Ragonese, as famílias mafiosas Cuffaro e Sinagra. Livia, a eterna namorada de Montalbano também aparece, claro, ambos ainda numa fase amorosa, sexualmente vigorosa de seu relacionamento, ainda sem as crises de ciúmes e as traições que viverão no futuro literário inventado por Camilleri. Os conhecidos e eficientes truques de ofício de Camilleri povoam os contos: sonhos e insights psicológicos ajudam a desvendar as tramas, pequenos dramas do cotidiano espelham a narrativa principal, histórias em paralelo alcançam seu desfecho simultaneamente. Camilleri sabe que nem tudo precisa ser dito para que o leitor entenda as motivações para os crimes ou delitos e faz uso notável da estrutura das peças teatrais em suas histórias, estrutura que de fato sustenta e dá verossimilhança a tudo. Como se fosse um manual de escrita criativa os contos de Camilleri são todos exemplarmente divididos em quatro partes: introdução, desenrolar da trama, clímax e desfecho final. Os temas são variados (nos romances policiais pouco importa a natureza da história, qualquer uma se presta a ser entendida segunda a ótica de um detetive, no caso, de um comissário): um caso de amor e incêndio; um atentado por dinheiro; um acidente banal em um barco; uma chantagem que provoca desdobramentos incontroláveis; um falso roubo de banco; o terrível que pode brotar daquilo que acumulamos; o inusitado do instrumento da morte de alguém; a ajuda inesperada de um ladrão. Dá gosto ler Andrea Camilleri. Divertido, al solito.
[início: 09/04/2017 - fim: 12/04/2017]
"Muerte en mar abierto y otros casos del joven Montalbano", Andrea Camilleri, tradução de tradução de Carlos Mayor, Barcelona: publicaciones y ediciones Salamandra, 1a. edição (2016), brochura 14x21 cm., 283 págs., ISBN: 978-84-9838-762-7 [edição original: Morte in mare aperto e altre indagini del giovane Montalbano (Palermo: Sellerio editore) 2014]

segunda-feira, 1 de maio de 2017

noite dentro da noite

Do Joca Reiners Terron já havia lido três bons livros: "Não há nada lá", "Guia de ruas sem saída" e "A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves". "Noite dentro da noite" é seu lançamento mais recente. Assim como na conhecida peça de Eugene O'Neill, a longa jornada noite adentro de Terron cobra um bocado de esforço e atenção do leitor, mas o envolvimento com o livro provoca generosas recompensas, frutos de uma carpintaria literária povoada por efeitos hipnóticos, férteis, viscerais e provocativos. Enfim, como nos melhores jogos, o leitor é recompensado pela engenhosidade da cousa. No jogo de Terron o leitor é inicialmente induzido a acreditar que está a ler uma autobiografia, mas só o subtítulo engana, pois logo no primeiro parágrafo, quando esse leitor encontra um improvável Curt Meyer-Clason narrando um acidente que o protagonista não é capaz de lembrar, pois esqueceu-se dele, entende que se trata de uma paródia da construção de uma autobiografia. Quase no final do livro uma voz (em uma fita cassete, de longe no tempo e no espaço, que pode ser da pessoa que diz ser mãe deste protagonista, ou não) diz que "Esta história é sobre nós, mas você vai contá-la como se fosse sobre outros". É de fato isso que o leitor encontra nas quase quinhentas páginas do livro: a história de uma família (como na peça de O'Neill, disfuncional), que viveu e compartilhou sucessos e memórias, acidentes e alegrias, planos e desafios, surpresas e aborrecimentos, como toda família faz, cada uma de seu jeito. O problema é que esse protagonista sofreu um acidente e obnubilou esse passado familiar. Ele esqueceu, ou melhor, não consegue verbalizar suas emoções e lembranças. Ele parece esforçar-se conscientemente, em seu mundo interior, por entender esse passado, sua história, os acontecimentos mais marcantes de sua vida e família, mas nada verbaliza do que pensa. Um dos muitos narradores de Terron, o já citado Curt Meyer-Clason (alemão que de fato existiu, viveu no Brasil, foi preso pela ditadura Vargas e tornou-se tradutor do português, inclusive de João Guimarães Rosa), atua como uma espécie de tradutor das memórias mirradas do protagonista, como se Terron nos dissesse que apenas um tradutor do calibre de um Meyer-Clason poderia fazer com que uma pessoa entenda o que uma outra pessoa qualquer pensa, deseja, sonha ou lembra. Só mesmo um bom tradutor pode ser capaz de traduzir o livro imaginado pelo autor, que talvez esteja mesmo tentando entender melhor seu passado ou o passado recente de seu país e família, no livro escrito, materializado, que o leitor lê. Mas Terron é, claro, o tradutor de seu próprio livro. Os demais narradores do livro são todos igualmente prepostos das lembranças do protagonista, seja um tio que escreve, uma mãe que grava fitas, um outro tio que conta histórias, um suposto pai que deixa guardados para que o rapaz encontre e decifre. O livro incluí fotografias que sofreram algum tipo de intervenção artística, que funcionam como flashes, memórias que espoucam, mas que não fazem sentido algum. São epifanias com sinal trocado. Tudo o que o leitor pode até acreditar ser factual: um inverno de frio intenso no sul do Brasil; o impacto do golpe militar de 1964 na vida daquela família e em todas as demais famílias brasileiras; a eventual presença de nazistas no sul da América do Sul; a linguagem e a herbologia dos mbyá-guarani; o bullying entre estudantes de uma escola militar na fronteira entre Brasil e Paraguai; os ecos da guerrilha no Araguaia; os efeitos alucinógenos do fenobarbital; relatos antigos da guerra do Paraguai; o lento e permanentemente controlado processo de redemocratização do Brasil, entre tantos outros sucessos, são apenas migalhas, que Terron, como Ariadne antes dele deixou para Teseu no labirinto de Dédalo. Esses fatos/migalhas entretém os leitores, os mantém presos na leitura, em seu labirinto, em sua teia. Beckett já nos ensinou, quando escrevia sobre Proust, que "O homem que não se esquece de nada, nunca se lembra de nada". Talvez seja assim, esquecendo, por acidente ou por rejeição, por acaso ou invenção, que incorporamos, na vida que contamos a nós próprios, qualquer coisa, qualquer detalhe ou aventura possível, qualquer passado ou ascendência, qualquer causo mirabolante, verossímil ou mesmo vago. Assim vivemos, ai de nós! Interessante livro. Vale. 
[início: 04/04/2017 - fim: 10/04/2017]
"Noite dentro da noite: uma autobiografia", Joca Reiners Terron, São Paulo: Editora Schwarcz (Companhia das Letras), 1a. edição (2017), brochura 14x21 cm., 463 págs., ISBN: 978-85-359-2876-1

sexta-feira, 28 de abril de 2017

veneza, um interior

Um ano ser ler ou reler Javier Marías é um ano perdido. Quando soube que a editora portuguesa Relógio D'água havia reeditado algo antigo do Marías não perdi tempo e logo encomendei o livro. Nele estão incluídos dois mimos, crônicas que falam de Veneza e dos venezianos. Ambas foram publicadas originalmente em jornal e depois reunidas em livros. A mais recente é "O que cada um leva consigo", que  foi publicada em 2009 na revista El País Semanal (e depois incluído na coletânea "Ni se les ocurra disparar"). Nela Marías fala dos cinco anos em que viveu em Veneza, dos livros que lá escreveu, de sua rotina e das amizades que fez. Fala sobretudo sobre o tempo, sobre como o espaço é o depositário do tempo, o suporte de nossas lembranças (como Proust já nos ensinou). Sempre um frasista cativante, Marías diz "que só se perde realmente aquilo que esquecemos ou rejeitamos, o que preferimos apagar e já não queremos conosco, o que não fica incorporado na vida que contamos a nós próprios". O texto mais antigo, "Veneza, um interior", é um longo ensaio, tão robusto e bem escrito quanto completo. Um paradoxo, pois milhares de páginas e imagens podem ser escritas sobre a cidade sem esgota-la, porém Marías alcança no familiarizar com ela, sem ser pedante ou detalhista. Foi publicado em capítulos no jornal El País, em 1988 (e depois incluída na coletânea "Pasiones pasadas"). Nele acompanhamos as deambulações e digressões de Marías, com calma, atenção, encantamento. Ele fala das gentes e das ilhas, da luz e da noite, dos pintores e arquitetos; conta causos curiosos, entretêm o leitor transportando-o em transe para as pedras daquela cidade flutuante. Ah!, um sujeito não pode nunca se cansar de Veneza. Procurando, encontrei algo que compartilho com os leitores curiosos: o texto completo de "Veneza, un interior", que pode ser acessado aqui. Bom divertimento. 
[início -  fim: 11/04/2017]
"Veneza, um interior", Javier Marías, tradução de José Bento (Venecia, un interior) e Manuel Alberto (Lo que uno lleva consigo), Lisboa: Relógio D'Água Editores, 1a. edição (2016), brochura 13x20 cm., 57 págs., ISBN: 978-989-641-685-0 [edição original: El País, 22, 23, 24, 25 e 26 de agosto de 1988; El País Semanal, 14 de junho de 2009]

segunda-feira, 24 de abril de 2017

o fantástico na ilha de santa catarina

Esse livro foi presente da Marta, amiga querida, que emigrou já há tantos anos de sua São João do Polêsine fundamental para Florianópolis, em Santa Catarina. Neste "O fantástico na Ilha de Santa Catarina" estão reunidos 24 contos baseados em narrativas tradicionais de antigos ilhéus, descendentes dos ainda mais antigos e primeiros imigrantes, açorianos portugueses, que lá chegaram, entre 1748 e 1756. Franklin Joaquim Cascaes, catarinense que viveu entre 1908 e 1983, foi um dos maiores defensores da cultura de origem portuguesa de seu tempo. Autodidata e professor de uma escola de aprendizes de ofício de Florianópolis, ele coletou por anos histórias populares, mantendo em seus registros a forma de linguagem e o vocabulário utilizado pelos descendentes dos açorianos. Ele compilou também tradições religiosas, danças e cantigas, mitos populares, narrativas folclóricas. Nas 24 narrativas reunidas neste livro encontramos histórias de bruxas, possessão demoníaca, seres fantásticos que assombravam as noites dos pescadores da ilha. São histórias que certamente sobreviveram ao serem contadas de uma geração a outra, de avós a netos, de padres aos fiéis, ao redor de fogueiras ou em salas mal iluminadas onde o povo se reunia num dia de chuva e tédio. Não há exatamente ensinamentos morais ou psicologia camuflada neles. Cascaes se preocupa antes em contar bem seus causos, sem interpretrá-los, nem inventando alguma função que eles poderiam ter na sociedade em que foram criados (devemos sempre lembrar, como Robert Graves nos ensinou, que os mitos por vezes também tem funções especificas numa sociedade primitiva, seja de propaganda política, de lenda moral ou de alegoria filosófica). Nas narrativas de Cascaes sempre há uma metamorfose, de mulheres (ah, sempre as mulheres) à serviço de lucífer que são flagradas conjurando ou praticando um mal para logo reconverterem-se a fé cristã, humilhadas em sua nudez. Elas são perdoadas rapidamente, tão inocente parece ser o mal que causaram durante seus transes. Na escuridão, solidão e ignorância, ou melhor, vamos dizer simplicidade, em que viviam, isolados por distâncias difíceis de serem vencidas, os ilhéus criavam explicações mágicas para quase tudo: o adoecer e eventual morte de uma criança, a solteirice de uma pessoa feia ou deformada, o desaparecimento de uma rede de pesca ou ferramenta, os ruídos e as sombras das noites, a mudança súbita do comportamento de um animal. Mas, como disse meu pai um dia: "depois que inventaram a luz elétrica, os fantasmas desapareceram". Deveria ser assim, mas o homo sapiens sapiens ainda parece precisar de explicações amalucadas, pensamentos mágicos, soluções artificiais para seus problemas. O livro incluiu ilustrações e desenhos do próprio Cascaes para cada uma das 24 narrativas. Livro muito interessante. Ah!, não posso esquecer de registrar também que quem fez as vezes de correios, lá de Florianópolis para Santa Maria, foi outro amigo querido, o Juca.Vale.
[início: 03/01/2017 - fim: 10/04/2017]
"O fantástico na Ilha de Santa Catarina", Franklin Cascaes, Florianópolis: Editora da UFSC (Coleção Repertório), 1a. edição (2015), brochura 13,5x19 cm., 271 págs., ISBN: 978-85-328-0607-9

quinta-feira, 20 de abril de 2017

romping through dracula

A série de livros "Romping through" homenageia autores irlandeses famosos. Depois do "Romping through Ulysses" e do "Romping through Dubliners" (ambos de James Joyce) eis que registro agora algo sobre "Romping through Dracula", homenagem deles ao irlandês Bram Stoker. Como nas demais, nesta plaquete introduz ao leitor a ideia global de seu livro mais famoso, "Dracula" e fornece uma curta biografia do autor. Os autores (a turma do "At it again!", grupo teatral irlandês que produz esquetes ao vivo durante as comemorações festivas dos Bloomsday de Dublin) dão sugestões de várias atividades que expandem a experiência da leitura. Cada episódio ou capítulo do livro ganha uma ilustração, uma citação e alguma informação paratextual, como dados sobre a geografia atual de Dublin e a localização de alguns dos marcos literários da cidade associados a Stoker, como o local onde nasceu e o Museu que leva seu nome, em Clontarf, ao norte de Dublin; a biblioteca pública onde fica a maior coleção de seus livros; o teatro que ele costumava frequentar quando disputava com Oscar Wilde a atenção de uma atriz (Florence Balcombe, com quem acabou por se casar); parques, bares e castelos. O livro inclui dois pequenos mapas da cidade, que permitem a experiência de flanar por ela, procurando cousas relacionadas ao Stoker. São sempre divertidos esses livrinhos. Cabe lembrar que o povo do "At it again!" produziu também plaquetes dedicadas a Oscar Wilde e a Jonathan Swift, sobre os quais em breve falarei aqui. Vale, ou melhor, Sláinte!
[início: 25/02/2017 - fim: 26/02/2017]
"Romping through Dracula", Maite López, Jessica Peel-Yates, Niall Laverty (ilustrações), James Moore, Dublin: At it Again! (1a. edição) 2016, brochura 10,5x15,5 cm., 61 págs., ISBN: 978-0-9576559-5-9

terça-feira, 18 de abril de 2017

as fantasias eletivas

Só fiquei conhecendo algo da existência desse livro quando soube que uma tradução dele saíra em espanhol recentemente. Schroeder conta uma história inventiva, que trata de como pessoas se encontram e se desencontram, de como as motivações e escolhas de cada um de nós interferem, mesmo que quase com insignificância, nas motivações e escolhas de todos os demais que nos cercam, todos os demais com quem interagimos. Num romance de Goethe as afinidades eram eletivas, ou melhor resumindo, as afinidades entre pessoas se davam como as afinidades químicas e físicas entre os elementos. Para Schroeder são as fantasias, e também os sonhos, frustrações e ilusões o que miseravelmente escolhemos e eventualmente compartilhamos. A história que se conta é a de Renê, solitário recepcionista noturno de um hotel de Balneário Camboriú (cidade do litoral catarinense quase sempre povoada por turistas argentinos) e de Copi, travesti argentino que tenta fazer michê com os clientes do hotel onde Renê trabalha. Destino e história são detalhes. Acompanhamos os estados psicológicos e os dramas dos dois personagens com a curiosidade de quem ainda não se embruteceu completamente. O livro inclui reproduções das fotografias que Copi fez e legou a Renê. A cada fotograma corresponde um pequeno texto que antes de falar do que está fixado pela luz conta a solidão, tristeza e dor de quem escreve. O narrador da história inclui também o que seriam as poesias completas de Copi, sete versos bisonhos, que apenas os olhos de alguém apaixonado como Renê poderia valorizar. O livro é pequeno, muito interessante e poético. Notavelmente bem escrito. Vale.
[início: 31/03/2017 - fim: 01/04/2017]
"As fantasias eletivas", Carlos Henrique Schroeder, Rio de Janeiro: editora Record, 5a. edição (2016), brochura 14x21 cm., 111 págs., ISBN: 978-85-01-04114-2 [edição original: 2014]

domingo, 16 de abril de 2017

ninféias negras

Não lia um romance policial há meses. Em março, no dia de meu aniversário, ganhei de um casal amigo e querido, o Koff e a Fleig, esse "Ninfeias negras", de Michel Bussi. O entusiasmo deles me contagiou a princípio, mas a solução - ou antes, a proposta - que o autor escolheu para seu livro, não me agradou muito. Bussi faz uso de uma técnica há muito conhecida e explorada, a de iniciar sua história indicando que alguém dentre um pequeno grupo de personagens será a vítima ou o criminoso. O leitor é arrastado pelas regras de composição das histórias policiais (como Umberto Eco já nos ensinou) e apenas paramos de ler o livro quando somos apresentados a seu desfecho. Bussi compõe sua história em Giverny, santuário impressionista que Monet mandou construir e que tornou-se uma espécie de Meca das artes plásticas francesa, que atrai turistas sem fim há décadas para dentro de seus domínios, como uma diligente aranha arrasta presas a sua teia. O resultado final me pareceu frouxo, talvez por ser engenhoso demais. Aquilo que apreciamos no livro parece ser apenas um bom truque de composição. Não é possível que eu adiante aqui qualquer detalhe da trama do livro. Os leitores curiosos que se envolverão com a narrativa merecem tentar antecipar a descoberta de quem é vítima e quem é criminoso. Que cada um aproveite em paz seu naco de alegrias. Há outras cousas do Bussi por aí. Vamos a ver se me impressionam mais. 
[início: 26/03/2017 - fim: 28/03/2017]
"Ninfeias negras", Michel Bussi, tradução de Fernanda Abreu, São Paulo: editora Arqueiro, 1a. edição (2017), brochura 16x23 cm., 352 págs., ISBN: 978-85-8041-632-9 [edição original: Nymphéas Noirs (Paris: Presses de la Cité) 2011]

sexta-feira, 14 de abril de 2017

pequena madrugada antes da meia-noite

Semanas atrás estive no sertão pernambucano, em Serra Talhada, em uma missão acadêmica. Foram dias de muito trabalho, mas como a viagem era longa levei vários livros para ler. Um deles foi o "Máquina zero", do Ricardo Aleixo, que já registrei aqui. Outro foi esse "Pequena madrugada antes da meia-noite", do Marco de Menezes. Como das maravilhas que encontrei no livro do Aleixo já falei, é hora de me dedicar a tentar descrever o outro fino da lavra do Menezes. Ele nos apresenta quatro séries de poemas, quatro como as estações e as principais direções de uma rosa dos ventos. Os poemas são variados em temática e forma. Alguns deles poderíamos chamar de aforismos ou mesmo de sintéticos haikus. Os conjuntos são: manchúria (13), goleiro-linha (17), nada retira no silêncio (14), gabardine (13). Em "manchúria" os poemas tratam de fragmentos de lembranças, memórias da fronteira e do campo, registros de uma criança que olha, mas tudo é calmo, não há arrependimento, culpa ou dor. "goleiro-linha" reúne coisas urbanas, viagens, desabafos, saudades entranhadas, a lembrança de um outro poeta, que já foi muito amigo, mas não parece ser mais. "nada retira do silêncio" faz com o leitor um jogo de luz e sombra, mostra um poeta que enfrenta o abismo, tateia a natureza viva dos insetos e plantas, observa objetos e ausências como natureza morta. "gabardine" é o conjunto mais invernal, mais fúnebre, onde um narrador fala da morte de um amigo, da depressão e do suicídio, de um passado que oprime mas acaba por libertar. Não há nada frouxo nos poemas de Menezes, não há poemas fáceis, malabarismos e jogos verbais que iludem o leitor. A única ilusão que Marco de Menezes cria é aquela onde acreditamos que até parece fácil fazer poesia, poetar, escrever versos e publicá-los. Evoé Marco, Evoé.
[início: 27/03/2017 -  fim: 11/04/2017]
"Pequena madrugada antes da meia-noite", Marco de Menezes, Porto Alegre: Modelo de Nuvem, 1a. edição (2016) brochura 12x18 cm., 104 págs., ISBN: 978-85-81743-46-2


quarta-feira, 12 de abril de 2017

máquina zero

São doze poemas. Quase todos curtos, quase todos hiper destilados, potentes e cortantes, férteis em propostas e associações. Ricardo Aleixo os publicou no início destes anos 2000 (e fez a capa, projetou, editou, fabbro que é). Os poemas têm títulos, títulos-valise: (i) Máquina zero; (ii) Labirinto; (iii) Confidência; (iv) Paupéria revisitada; (v) Teofagia; (vi) Antropofagia; (vii) Autofagia; (viii) Como realmente é; (ix) Dois exercícios de língua pária; (x) O Belomorte; (xi) Exercícios de lira maldizente e (xii) Anti-ode: Belorizonte. Nos curtíssimos primeiros sete o poeta (i) deambula por Berlin e vê as gentes (se perde e se acha, entre sons, imagens e ideias); (ii) caminha como um grego por uma cidade que conhece como a sola de seus pés (mas sabe que o homem que nunca se perde nunca se acha); (iii) empresta do Machado sarcasmo e palavras duras para um poeta rival; (iv) volta a tomar emprestado, desta vez uma ironia, do e.e. cummings, sobre as dificuldades da poesia original ser entendida e publicada; (v) engole hóstia e passado mineiro, como um Chronos mirim; (vi) flerta e repasta os modernos, Oswald à frente; (vii) como velho putanheiro, perde conas mas não a verve. Os três seguintes (oitavo, nono e décimo) mostram: (viii) como o poeta usa sua arte como chave, como ferramenta para entender melhor os mecanismos do mundo e atuar: no oitavo para continuar uma reflexão importante de onde a Wislawa parou (faz um bicho homem vomitar seu ódio, humanizando-o); (ix) como provocar um outro tipo de terrorista, aquele que parece colega e igualmente usa a palavra, mas em vão e com eivada mão; (x) como deixar vazar da memória um primo mentiroso, cheio de imaginação. O penúltimo poema (xi) é o mais longo, e aquele onde o poeta descreve o mundo das letras, da literatura, fala de como seu ofício é corrompido por maus artífices (ou canalhas mesmo), onde disserta ativista e crítico, torna-se muso de si mesmo, inspira-se na aridez e não se furta acusar, apontar erros. No último (xii) ele confronta duramente sua cidade, sua belo horizonte fundamental, com um rabo do olho longe, lá na Alexandria de Kaváfis. Li o livro várias vezes, umas tentando contar quantas vezes a ideia de ofício aparecia, noutras conferindo citações e associações, por vezes só apreciando as ilustrações (capa, duas ou três reproduções fotográficas, duas ou três pequenas vinhetas/retrancas) e os aforismos do verso da capa. "Máquina zero", o livro, parece uma coisa só, onde forma e texto se amalgamaram tão completamente que cada detalhe explica o todo reunido, enfeixado nele. O livro inclui ainda dois bons textos de apoio: um curto ensaio assinado por Sebastião Nunes e uma apresentação de Marçal Aquino. Ô beleza. Evoé Aleixo, Evoé.
[início: 28/03/2017 -  fim: 11/04/2017]
"Máquina zero", Ricardo Aleixo, Belo Horizonte: Scriptum Livros (coleção Zaúm), 1a. edição (2004) brochura 12x18 cm., 64 págs., ISBN: 85-89044-06-8