quinta-feira, 21 de junho de 2018

brava serena

"Brava Serena" é o segundo romance de Eduardo Krause. Li dele o primeiro, o bom "Pasta senza vino", em 2015. Em "Brava Serena", contrariando aquela frase feita que nos ensina nunca retornar a um lugar onde um dia fomos felizes, Roberto Bevilacqua, um brasileiro aposentado, resolve emigrar para a Itália e lá viver seus últimos anos. Roberto é um escravo dos hábitos, de sua rotina de remédios e controle alimentar, subprodutos de uma vida dedicada a cálculos de risco, especialista em seguros que era. É um sujeito que teve uma única filha, Clara, de quem se distanciou irreversivelmente e que ficou viúvo e solitário ainda jovem. O leitor acompanha sua chegada a Roma, onde retoma aulas de italiano e rememora os dias em que viveu ali em sua viagem de núpcias. Krause organiza a narrativa do contraste entre a rigidez algo inusitada desse brasileiro setentão e a vivacidade da filha da proprietária da pensão onde ele passa a viver em Roma, a Serena do título do livro. Serena é uma jovem italiana cuja alegria de viver, hedonismo e vitalidade transbordam por todo o livro. Vários temas são explorados por Krause: diferenças entre gerações, questões de gênero, estereótipos culturais, cinema e entretenimento popular, dificuldades de comunicação, memória e afeto, amor e morte. Trata-se de um livro leve, contido até, fruto de um olhar otimista sobre o envelhecimento,  da expectativa que temos do futuro e do entendimento prático que podemos ter da passagem do tempo sobre nós mesmos. Em algum momento da leitura senti falta de um tom mais trágico na existência daqueles personagens, algo mais próximo ao clima do neorrealismo italiano. Imaginei que algo verdadeiramente infausto pudesse tornar os personagens mais humanos, mais críveis. Mas ao final aceitei a proposta do Krause, que, invertendo o aforismo de Tolstoy, faz de seus personagens felizes cada um a sua maneira e talvez só essas particulares felicidades seja aquilo mesmo que cada um de nós merece ambicionar, esperar, receber, da vida. Belo romance. Viva Krause. E já espero o próximo volume de teu "il trittico". Vale!
Registro #1271 (romance #336) 
[início: 18/05/2018 - fim: 04/06/2018]
"Brava Serena", Eduardo Krause, Porto Alegre: Não Editora, 1a. edição (2018), brochura 14x21 cm., 320 págs., ISBN: 978-85-61249-65-6

quarta-feira, 20 de junho de 2018

paseos por venecia

Já enfeitiçado por Donna Leon e seus romances policiais, encomendei esse livro de Toni Sepeda. Nele estão descritos os caminhos trilhados por Guido Brunetti e os demais personagens dos livros de Leon, que sempre exploram a mítica Veneza. "Paseos por Venecia" entrega ao leitor exatamente aquilo que o título promete: são descritos doze passeios que um entusiasta dos livros de Donna Leon poderá percorrer a pé por Veneza, cada um deles em uma ou duas horas, assim como a indicação de como se deslocar até as ilhas da laguna veneziana: San Michele, Murano, Burano, Le Vignole, Lido, San Servolo e Pellestrina. Nos mapas correspondentes a cada passeio são apresentados os pontos principais que podem interessar o leitor: os palácios, restaurantes e bares, os museus, praças e pontes, os mercados, lojas e igrejas, os canais, cafés e monumentos públicos. Cerca de metade do livro corresponde a transcrições de passagens dos originais de Donna Leon, inseridas ao longo das rotas que a autora (Sepeda) oferece ao leitor. A edição original é de 2008, portanto estão incluídas nestas rotas transcrições dos primeiros dezessete livros (que somam hoje vinte e oito, Donna Leon sabe ser prolífica). Mas não são as transcrições o que mais interessam neste livro. O leitor acompanha o caminho de um afeto, o de Toni Sepeda pelos livros de Donna Leon, todavia cada leitor poderá inventar o seu, propondo outros cruzamentos, outras aventuras, afinal nem tudo é objetivo nas viagens, nem tudo segue o roteiro imaginado antes delas, e o melhor meio de conhecer uma cidade é perder-se nela, reencontrando-se apenas horas depois. Muito interessante. Vale! 
Registro #1270 (turismo #11) 
[início: 03/05/2018 - fim: 15/05/2018]
"Paseos por Venecia con Guido Brunetti", Toni Sepeda, tradução de Ana Maria de la Fuente, Barcelona: Seix Barral (Editora Planeta S.A.), 1a. edição (2014), brochura 13,5x23 cm., 326 págs., ISBN: 978-84-322-3183-4 [edicão original: Brunetti's Venice (Zürich: Diogenes Verlag AG) 2008]

terça-feira, 19 de junho de 2018

late essays: 2006-2017

Somente em Javier Marías encontro a capacidade de síntese e reflexão equilibrada, de estilística e generosas surpresas, de associações felizes e erudição absurda, completa, que são a norma dos textos de J.M. Coetzee. Nesse "Late essays: 2006-2017" estão reunidos seus ensaios mais recentes, 23 deles, produzidos após sua imigração definitiva para a Austrália e adoção de sua nova nacionalidade (lamentavelmente a África do Sul tornara-se demasiado tóxica para ele neste conturbado inicio de século). Não se trata de material inédito. Alguns ensaios foram publicados ao menos em uma versão abreviada na revista americana "New York Review of Books", outros publicados na forma de introdução a reedições de livros clássicos. O interesse manifesto nos ensaios quase sempre é o entendimento de uma obra especifica de um autor, mas há também analises do conjunto da obra de alguns. Coetzee reiterou um ensinamento dele que já havia percebido em seus demais livros de critica ("Inner workings", "Costas estrañas" e "Ensayos selectos"): preocupar-se com eventuais "spoilers" ao falar de uma obra é totalmente dispensável, uma perda de tempo, um zelo derivado e danoso desses tempos onde a obsessão com o politicamente correto como que nos tornou voluntariamente limitados. Ele analisa objetivamente tanto a narrativa ficcional, a invenção, quanto as motivações dos autores delas; avalia simultaneamente as intenções e os resultados alcançados pelos autores; especula sobre a verossimilhança dos personagens e as técnicas narrativas utilizadas; não tem paciência e nem oferece perdão a bizarrices autobiográficas, afeitas aos ditames em moda na sociedade e no mercado literário. Quando ele fala da vida dos autores o faz panoramicamente, não se atendo a fofocas ou a detalhes bobos sobre o comportamento e a psique dos sujeitos que analisa. Em geral ele aparenta ter lido tudo a respeito dos autores que investiga, como zeloso acadêmico que é (ele não parou de dar aulas e publicar artigos mesmo após ter ganho o financeiramente importante prêmio Nobel em 2003). Coetzee nunca fica preso a causos engraçados. Ele enfatiza em suas analises aspectos filosóficos, políticos, históricos relacionados as obras, sempre de forma fundamentada, factual. Enfim, mais que crítica literária o que encontramos aqui são aulas magnas de um professor experiente, um sábio que quase nos enfurece com seu absoluto domínio da matéria. Quando aponta as falhas específicas de cada livro ou autor que analisa, Coetzee oferece também indicações de como deve  preparar-se para seu ofício um sujeito que tenha a pretensão de tornar-se um bom escritor. Coetzee fala de Daniel Defoe, Nahaniel Hawthorne, Ford Madox Ford, Philip Roth, Goethe, Heinrich von Kleist, Flaubert, Irène Némirovsky, Juan Ramón Jiménez, Antonio Di Benedetto, Tolstoy, Zbigniew Herbert, Beckett, Patrick White, Les Murray, Gerald Murnane e Hendrik Witbooi, ou seja, não há espaço para cotas politicamente corretas e pruridos pós-colonialistas em suas escolhas, em seus objetos de crítica. Está certo ele, claro. Vale! 
Registro #1269 (crônicas e ensaios #227) 
[início: 22/04/2018 - fim: 15/05/2018]
"Late Essays: 2006-2017", J.M. Coetzee, New York: Viking Press (Penguin Randon House LLC), 1a. edição (2017), capa-dura 14,5x22 cm., 297 págs., ISBN: 978-0-73522-391-2

segunda-feira, 18 de junho de 2018

quebrantos e sortilégios

Nos dez contos curtos reunidos em "Quebrantos e sortilégios" somos apresentados por Ivo Bender a mundos de sonho, de fábula, de cinema antigo, nos quais o tempo flui nos dois sentidos e nem sempre é contínuo, onde vidas são como que miradas por meio de uma lente difusa, cuja opacidade nos impede de compreender a realidade das coisas. Lado a lado de fragmentos de citações que denunciam uma refinada erudição, trechos cifrados de mitologias, símbolos e histórias antigas, encontramos cenas de um gótico interior gaúcho, registros do cotidiano e do hábito dos emigrantes alemães e do impacto das migrações deles, do campo para a cidade, acontecidas sobretudo nos anos 1950 e 1960. "Quebranto", que dá nome ao volume, parece recontar o mito de Tirésias, que foi cego e viu mais que todos os gregos, que foi homem e mulher; "O general e suas mulheres" fala de como é justiçado um velho general torturador; Em "Jonas, Mauro e Horacina" dois velhos amigos experimentam uma paixão tardia por uma atriz mambembe; "Os caminhos de Corina" lembra muito aquele clima lírico e trágico que Fellini sabia mesclar, sobretudo em "Noites de Cabíria"; "O bosque encantadoé um conto de fadas sobre um rapazote de origem alemã e as três bruxas que ele encontra; em "As filhas de Teobaldo", outro conto de fadas, se fala das metamorfoses dos sétimos filhos dos sétimos filhos; "A fugitiva" fala das circunstâncias do exílio de uma cantora lírica no Brsil;  "A deusa de Arthur" brinca com o amor de um rapaz por Marilyn Monroe; "O graxain" funde o mito de Acteon com o golpe militar de 1964; "Ramiro Escobar e Salamanca" trata da tragédia de um velho senhor que perde tudo ao viver o sonho que sua babá havia lhe contado na infância. Ivo Bender alcança criar mundos que prendem o leitor às narrativas, enfeitiçados como seus personagens pela beleza barroca, botânica, visceral das coisas. Pena só ter conhecido suas invenções apenas agora. Vale!
Registro #1268 (contos #146)
[início: 28/02/2018 - fim: 03/03/2018]
"Quebrantos e sortilégios", Ivo Bender, Porto Alegre: Terceiro Selo, 1a. edição (2015), brochura 14x21 cm., 128 págs., ISBN: 978-85-68076-15-6

sábado, 16 de junho de 2018

ulisses: um estudo

Hoje se comemora o Bloomsday, evento internacional que celebra a obra do escritor irlandês James Joyce, autor do “Ulysses”, publicado em 1922. O elo comum entre os simpatizantes envolvidos nestas comemorações é o esforço por relembrar os acontecimentos das 18 horas vividas pelos personagens do "Ulysses" no dia 16 de junho de 1904. O Bloomsday é comemorado em dezenas de países, pelo menos desde 1954. O Bloomsday Santa Maria, desde 1994, é o segundo mais antigo evento desta natureza realizado no Brasil. O objetivo principal do Bloomsday é a "promoção e a divulgação de James Joyce em ambiente não acadêmico", através de leituras de sua poesia e prosa, exibição de filmes, debates, exposições artísticas e discussão sobre aspectos culturais e literários do “Ulysses” e das demais obras de Joyce. Qual não foi minha alegria quando um dia conheci Abdon Franklin de Meiroz Grilo e soube que ele mantinha um blog com notas de apoio a leitura do "Ulysses". Anos depois ele transformou esse blog em um livro, um portento, fazendo-me um convite honroso, dando-me o privilégio de escrever uma apresentação a seu belo “Ulisses Um estudo”. Apesar de ficar comovido pela deferência sei que minha missão é simples, pois ao percorrer as páginas deste livro o leitor descobrirá que tem em mãos uma contribuição das mais originais, relevantes e úteis da bibliografia especializada em português sobre o “Ulisses”, de James Joyce. Abdon Grilo nasceu em Natal, no Rio Grande do Norte, em 1935, mas por força de seu ofício (ele é médico e militar), viveu longos períodos em várias cidades brasileiras. Está radicado em Santa Maria há quase trinta anos. Pai de três filhas e avô de seis netos, ele sempre cultivou três paixões: os livros, as relações interpessoais e a História. Essas paixões, aliadas à sua curiosidade natural, fez com que ele sempre estivesse a estudar e acumular conhecimento (além de formado em Medicina, ele cursou também História e Teologia, e foi licenciado em Filosofia). Sua familiaridade com o Ulisses é antiga. Foi por meio de um artigo na “Revista Manchete” que foi despertado para o livro, no início dos anos 1970, quando morava em Santa Catarina. Conseguiu num sebo na Rua da Carioca, durante uma viajem ao Rio de Janeiro, um exemplar da tradução pioneira, a de Antônio Houaiss, publicada em 1966. Esse exemplar foi dado de presente para uma amiga, no início dos anos 1990 para incentivar a leitura de Joyce, com anotações suas em algumas páginas. Essa intenção de criar leitores não foi um episódio isolado, nesta mesma época Abdon presenteou com a tradução de Houaiss um seu fraterno amigo, professor da Universidade Federal de Santa Maria, e com outra tradução, a de Bernardina Pinheiro, a um seu genro. Em 2005, ao saber de uma nova tradução do Ulisses, feita por Bernardina Pinheiro, Abdon tornou a ler o livro. As notas de leitura incluídas nesta tradução o inspiraram a produzir algo parecido. Mas, segundo suas palavras, ele foi adiante do trabalho de Bernardina, passando a fazer um registro pessoal das diferenças entre as duas traduções. Posteriormente, em 2012, repetiu o processo de ler uma nova tradução, a de Caetano Galindo, terceira em português do Brasil, e continuou a fazer e registrar suas comparações entre elas. Ajudado por uma sobrinha, Isabel, conseguiu digitalizar todo o material que havia produzido até então e disponibilizou-o ao público. Lembro-me quando, por sugestão de um amigo nosso em comum, já no final de 2013, experimentei o espanto de conhecer a versão original de seu blog dedicado ao Ulisses (http://ulissesjoyce.wordpress.com). Percebi que se tratava de um trabalho original, minucioso. Abdon comenta sobretudo as traduções dos muitos termos em hebraico, grego e latim, idiomas que conhece bem. Ele compara também as soluções encontradas pelos três tradutores brasileiros do livro de várias citações e jogos de palavras, aponta nelas certos equívocos e contradições, bem como a origem das passagens mais enigmáticas e o acerto ou não das menções à cultura hebraica, principalmente no caso das datas festivas. Foi só alguns meses após este encontro virtual, já próximo ao Bloomsday de 2014, que conseguimos marcar um encontro e nos apresentar formalmente. Aí sim tivemos a chance de conversar sobre a sistematização de seu trabalho, sobre o Ulisses e sobre James Joyce. Fiquei ainda mais impressionado quando ele me disse que desconhecia a existência de trabalhos similares ao dele em língua inglesa. Falei-lhe do Don Gifford, do Weldon Thorton e do Stuart Gilbert, mas ele nunca havia consultado esses autores. Emprestei-os para que ele os consultasse e, entusiasmado, incentivei-o a produzir uma versão em livro. A partir desta época nossos encontros tornaram-se um hábito feliz (e não só de Joyce, Ulisses e literatura falamos). Cada encontro sempre foi uma renovada oportunidade que me foi dada de aprender algo das múltiplas facetas deste senhor sempre elétrico, definitivamente um legítimo “Grilo falante de Goianinha”, como o apelidou, um dia distante em 1946, Monteiro Lobato, então a prolongar seu exílio em Buenos Aires, na dedicatória que fez em um livro presenteado ao um Abdon ainda criança, mas já irrequieto e leitor sistemático. Enfim, após meses revisando cuidadosamente todos os verbetes do blog, episódio a episódio do livro, cotejando as três traduções para o português, polindo seu trabalho, com paciência, zelo e atenção, Abdon chegou a um resultado final, que é o livro que agora o leitor tem nas mãos. “Ulisses Um estudo” saberá defender-se sozinho. Nas muitas oportunidades em que tivemos de conversar sobre seu trabalho, Abdon, modesto, afirma que seu livro não tem a pretensão de interpretar Ulisses, como o professor Caetano Galindo magistralmente o fez ano passado em “Sim, Eu Digo Sim – Uma Visita ao ‘Ulisses’ de JamesJoyce”, publicado pela Companhia das Letras. Ele reitera sempre que apenas cometeu anotações de apoio à leitura, que instrumentalizam o leitor a construir sua própria interpretação. Um insone leitor ideal, aquele imaginado e desejado por Joyce, ou seja, todo verdadeiro leitor joyceano, não poderia esperar mais que esse cuidado. Evoé, Abdon, evoé! Vale! 
Registro #1266 (crônicas e ensaios #226) 
[início: 02/02/2018 - fim: 16/08/2018]
"Ulisses: um estudo", Abdon Franklin de Meiroz Grilo, Santa Maria: Editora Rio das Letras, brochura 21x28 cm., 736 págs., 2018, ISBN: 978-85-65172-47-9

sexta-feira, 15 de junho de 2018

inquérito policial família tobias

Não havia me interessado em ler esse volume de Ricardo Lísias quando foi lançado, com certo e calculado alarde, em 2016. Entretanto Helga, senhora dos livros arte, das gravuras e das colagens, encontrou-o na Feira de arte gráfica ReTina, no início de junho e acabei lendo. Trata-se de um jogo metaliterário, uma proposta de discussão sobre os limites entre ficção e realidade. Na verdade esse volume (na falta de uma palavra melhor para descrever o apanhado de folhas e plaquetes reunidas em uma pasta arquivo) é o subproduto de uma série de cinco e-books que Lísias publicou de forma seriada desde setembro de 2014. Nos e-books se conta a história de um escritor chamado Ricardo Lísias e da subsequente investigação capitaneada por um sujeito/personagem dito Delegado Tobias. No jogo proposto por Lísias uma camada de ficção soma-se a primeira, a partir do momento em que ele inventa que um Delegado Tobias real o teria denunciado ao Ministério Público Federal, instando a procuradoria a conduzir uma investigação de eventual falsificação de documentos públicos. Tudo falso, obviamente, mas a coisa é escrita com o intuito de deixar o leitor sempre em dúvida sobre o que eventualmente poderia ser real ou ficcional. Dezenas de jornalistas e/ou críticos literários e/ou blogueiros de plantão parecem ter voluntariamente se unido a Lísias na divulgação de que a Polícia Federal real o teria intimado, numa crítica explícita aos vagos critérios utilizados pela polícia para gastar recursos e tempo, enfim, dando eco a crítica generalizada das fragilidades de todo sistema judicial brasileiro. Paciência. O que importa aqui é que como peça de ficção esse "Inquérito policial família Tobias" é fraco, para dizer o mínimo, já que o volume nada mais é de que uma coleção de desastradas histórias familiares dos Tobias, gente incapaz de entender adequadamente a realidade, e que eventualmente morrem ou fracassam em função desta inabilidade. A brincadeira sobre se foi real ou não a tal denúncia e consequente inquérito do autor Lísias é frouxa demais. Vivemos em um país onde tudo que pode ser bizarro e inusitado prospera, alcança a categoria de insultos generalizados à inteligência, visto que se sabe que somente aqui é possível que criminosos condenados imaginem ser candidatos a presidência da república, que criminosos condenados continuem a legislar no parlamento federal, voltando ao cárcere após o expediente, que investigados de toda a sorte de crimes se apresentem como candidatos a cargos públicos sendo alegremente apoiados por legiões de escravos mentais e indigentes morais, de todos os estratos sociais. Enfim, Lísias só é um escritor cabotino demais, um escritor que deve imaginar que todos seus eventuais leitores são completos idiotas, é alguém incapaz de escrever algo que realmente empolgue e pague o tempo investido por seus leitores. Paciência. A vida é breve, o tempo de leitura curto. Vamos em frente. Nem como livro arte essa joça parece interessaante. Vale! 
Registro #1265 (romance #335)
[início: 07/06/2018 - fim: 09/06/2018]
"Inquérito policial família Tobias", Ricardo Lísias, São Paulo: Editora Lote 42, 1a. edição (2016), pasta com ferragem de garras 22,5x30 cm., 116 págs., ISBN: 978-85-66740-18-9

quinta-feira, 14 de junho de 2018

un mar de problemas

É maio, alta primavera, o calor já excita a imaginação dos venezianos. Uma boa ideia seria aproveitar que os turistas ainda não tomaram conta da cidade, ir as praias, descansar, mas, é inevitável, estamos em um romance policial, um crime acontece. Nesta aventura o comissário Brunetti é forçado a se deslocar ao sul, a Pellestrina, a ilha que junto com a muito mais famosa Lido (a Lido das praias e do festival de cinema), parecem proteger Veneza e sua laguna das águas serpeantes do Mar Adriático. Dois pescadores, pai e filho, são mortos em seu barco. Os ilhéus de Pellestrina são xenófobos demais para permitir que um investigar estrangeiro, de Veneza, alcance descobrir as razões do assassinato. Neste volume o leitor acompanha mais uma metamorfose de Elettra, a secretária  multi-meios de Brunetti, desta feita artífice dos movimentos que levarão a elucidação do crime e do desfecho da trama do livro, que envolve a influência silenciosa da máfia, a tensão penere entre o Norte e o Sul italiano, os compromissos atávicos que obrigam os sujeitos a comportamentos por vezes condenáveis. Nesse volume fiquei algo incomodado com os clichês e as citações, excessivos aqueles e frouxas demais essas, mas talvez seja meu mal humor de plantão que censure com demasia a fórmula narrativa de Donna Leon, sempre tão constante e previsível afinal de contas. Eu disse que Elettra passa por uma metamorfose, mas o certo seria registrar que todos os personagens parecem experimentar a passagem do tempo, o medo da morte, algum tipo de confronto moral, numa antecipação do balanço final que esperam poder fazer todos os prosélitos de algum porvir. Curioso. Tirei esse primeiro semestre para ler Donna Leon com disciplina, portanto haverá mais cousas desta senhora por aqui. Vale!
Registro #1264 (romance policial #69)
[início: 27/01/2018 - fim: 05/02/2018]
"Un mar de problemas (Brunetti #10)", Donna Leon, tradução de Ana Maria de La Fuente, Barcelona: Editora Seix Barral (booket, coleção Crymen y Misterio) , 1a. edição (2011), brochura 12,5x19 cm., 287 págs., ISBN: 978-84-322-1769-2 [edição original: A Sea of Troubles (London: William Heinemann / Penguin Randon House Group) 2001]

quarta-feira, 13 de junho de 2018

karen

Ana Teresa Pereira é uma escritora portuguesa experiente (publicou dezenas de livros desde 1989). É também uma escritora respeitada e premiada. Seu romance mais recente, "Karen", recebeu o prêmio Oceanos do ano passado. Publicado originalmente em 2016 ganhou esse ano uma versão brasileira, editado pela Todavia. É um romance psicológico, minimalista, um quebra cabeças sem solução explícita. É de fato muito bem escrito, em capítulos curtos, num clima de contos de fada, de fantasia, do vivido por alguém permanentemente intoxicado, de cinema de mistério. O leitor acompanha o desconcerto de uma mulher que acorda em uma casa do interior inglês, é identificada e reconhecida como sendo Karen, senhora de um casarão decrépito, mulher de um sujeito enigmático e recluso, e que é servida por duas mulheres, uma velha governanta e uma jovem de uma aldeia próxima, que faz a limpeza da casa. Todavia, ela desconhece essa realidade, tem consciência de não ser e não reconhecer uma mulher chamada Karen, muito embora tenha afinidade com o gosto estético por livros, cinema e galerias de arte reputado a ela. Não é o tipo de livro sobre o qual gostaríamos que alguém contasse o final, apesar de que pode-se imaginar várias possibilidades narrativas para explicar esse final. Assim como em nossas jornadas e escolhas pessoais, que são intransferíveis, a solução do enigma vivido por Karen só pode ser alcançada por ela mesma. Somente alguém perverso, que tenha prazer no sofrimento alheio, poderia dar continuidade a crise de identidade vivida por ela, mas quem sabe ser mais perverso e cruel que nós mesmos, limitados homo sapiens, que aprendemos a nos controlar, vigiar e punir. Os demais personagens, o narrador e até nós leitores, pouco saberão sobre a natureza e as justificativas para a imersão na escuridão e na intimidade que Karen vivencia (e que se não tem retorno, pois parece ser cíclica, permite um contínuo exercício intelectual, de auto investigação, até de aprimoramento). Interessante. Talvez seja o caso de conhecer outras narrativas dessa prolífica portuguesa. Vale! 
Registro #1263 (romance #334) 
[início: 13/02/2018 - fim: 15/02/2018]
"Karen", Ana Teresa Pereira, São Paulo:Todavia livros, (1a. edição) 2018, brochura 14x21 cm., 120 págs., ISBN: 978-85-93828-44-7 [edição original: Karen (Lisboa:Relógio D'Água editores) 2016]

terça-feira, 12 de junho de 2018

o livro das coisas verdadeiras

Da coleção de volumes de crônicas publicados pela Arquipélago já havia lido três do Luís Pellanda, senhor do tempo curitibano, mas ainda estou devendo os do Humberto Werneck, do Ivan Angelo e do Luiz Ruffato. Calma no Brasil, ainda há tempo, sempre digo eu, mas sei que eles podem se perder na confusão de casa. Noutro dia encontrei nesses guardados, da mesma coleção, esse "O livro das coisas verdadeiras", de Pedro Gonzaga, professor, poeta e tradutor porto-alegrense. São 53 crônicas, publicadas anteriormente em jornal, mas algo reinventadas, pois à elas Gonzaga acrescenta pequenos pós-escritos, comentários em que ele reflete sobre a perenidade da coisa, dos acertos e desacertos daquilo que engendrou, da eventual repercussão que à época elas provocaram. Ele optou por organizá-las no que chamou de ordem emotiva, portanto não cronológica, de forma que o leitor é guiado pela chave de um  afeto, mas um afeto de empréstimo, que talvez seja mais caro ao autor. Ele também usa neles a chave do humor, que sempre é um troço complicado. Não que não funcionem, mas os pós-escritos roubam alguma coisa das crônicas originais, que são belas, e sabem se defender muito bem sozinhas, acho eu. Acompanhamos um sujeito que sabe ver o mundo, não tem medo de recuperar as influências do passado, se espanta e analisa seus espantos cotidianos, registra seu amor aos livros, aos amigos, aos alunos e as viagens. Trata-se do produto de um escritor que esconde um leitor profícuo e disciplinado, pois escondidas nas crônicas há uma miríade de micro-citações, de estalos, associações e epifanias, cousas que fazem a alegria de nós, apressados leitores. Depois de conhecer esse volume passei a acompanhar as crônicas que Gonzaga publica semanalmente (clica aqui!, para ler pequenos trechos delas). Estão realmente saborosas e merecem metamorfose para o formato mais perene dos livros. Tomara que sim. Vale!
Registro #1262 (crônicas e ensaios #225) 
[início: 26/01/2018 - fim: 18/02/2018]
"O livro das coisas verdadeiras", Pedro Gonzaga, Porto Alegre: Arquipélago Editorial (A arte da crônica, vol. 8), (1a. edição) 2016, brochura 14x21 cm., 166 págs., ISBN: 978-85-60171-82-8