sábado, 28 de março de 2020

o grito da borboleta

João Dusi é redator do bom jornal Cândido, editado pela Biblioteca Pública do Paraná. Recentemente ele publicou um volume de contos: "O grito da borboleta".  São dez histórias curtas. Cinco delas gravitam os destinos de um curioso grupo, formado por Pablo, Amaro, Nádia, Pedro, Infante e Rorschach, que compartilham entre si o fato de viverem literalmente nas ruas de Curitiba, como mendigos, ou de estarem nas franjas da sociedade, marginalizados por drogas, estigmatizados por perdas, pelos azares da vida, escolhas ruins, trapaças auto infligidas, ou um outro cruel destino qualquer. Os cinco contos finais me parecem instantâneos biográficos de outros cinco sujeitos desgraçados por suas escolhas de vida: o real Ricardo López, um amalucado uruguaio que um dia foi apaixonado pela cantora islandesa Björk e suicidou-se; Alice, filha dos anos 1960, do movimento hippie, que não consegue fugir de um casamento violento; do real Stanislav Szukalski, um escultor polonês, que escapou do massacre nazista; de um erudito leitor inominado de Imre Kertész, vencedor do prêmio Nobel de literatura em 2002; de um suicida que decide abandonar a vida em uma praça de uma cidade costeira, em uma noite sem lua. Todas as dez narrativas, que são bem curtas, estão bem escritas, mas eu gostei mais do jogo das primeiras cinco histórias, nas quais personagens igualmente desgraçados parecem competir qual deles teve a pior das cotas, tornando a leitura um coisa realmente mágica. Os demais contos são mais convencionais. Corretos, porém estranhos. Provavelmente este seja um um erro de avaliação meu, uma desinteligência minha, de leitor capenga. Paciência. Livro interessante. Vamos a ver o que esse jovem autor nos apresentará no futuro. Vale! 
Registro #1508 (contos #175) 
[início - fim: 14/03/2020]
"O grito da borboleta", João Carlos Dusi, Guaratinguetá / SP : Editora Penalux, 1a. edição (2019), brochura 14x21 cm., 78 págs., ISBN: 978-85-5833-560-7

quinta-feira, 26 de março de 2020

a ponte flutuante dos sonhos

"A ponte flutuante dos sonhos" foi publicado originalmente em 1959, poucos anos antes da morte de Tanizaki. Trata-se de uma narrativa calma, povoada por imagens de jardins, de sons que são filtrados por uma floresta, de estímulos artísticos e musicais, de poemas, que conduzem o leitor sem pressa. O narrador, Tadasu Otokuni, é um jovem advogado, mas isso só descobriremos no final da leitura. Ele conta fatos de sua vida no início do século XX, quando era bem jovem, relata a vida com seus pais, membros de uma família tradicional japonesa, a morte de sua mãe, o casamento de seu pai com uma jovem cujo passado guarda um segredo e uma miríade de outros sucessos. Há uma perene sensualidade na história, um delicado rendilhado erótico. No início lembrei do jovem Marcel, de Proust, que conta sua dificuldade de dormir sem ser ninado/mimado pela mãe, em "No caminho de Swann". Mas Tanizaki não explora exatamente a psicologia de Tadasu, como faz Proust para falar depois sobre o destino de Charles Swann. Antes descreve como o amor filial de seu protagonista pela segunda esposa de seu pai confunde-se com o desejo, sempre sublimado, sempre algo envergonhado. Tadasu, ainda menino, percebe de alguma forma que aquele arranjo fora antecipado por seu pai e praticamente imposto a ele. Acompanhamos no livro algo sobre o tabu do incesto, o contraste entre classes sociais, as rígidas regras sociais japonesas do início do século passado. Lê-se "A ponte flutuante dos sonhos" em um par de horas, mas as sensações que o livro provoca parecem  fundir-se às lembranças mais caras que temos de nós mesmos, de nossa infância, do momento em que encontramos o sublime na arte, a beleza, de quando descobrimos nossa própria sexualidade. Muito bonito. ÔBeleza! Vale! 
Registro #1507 (novela #75) 
[início - fim: 19/01/2020]
"A ponte flutuante dos sonhos", Jun'ichiro Tanizaki, tradução de Andrei Cunha, Ariel Oliveira, Lídia Ivasa, São Paulo: editora Estação Liberdade, 1a. edição (2019), brochura 14x21 cm, 160 págs. ISBN: 978-85-7448-290-3 [edição original: Yume no Ukibashi 夢の浮橋(中央公論), 1959]

terça-feira, 24 de março de 2020

don juan

Don Juan é um personagem da literatura espanhola, do início século XVII, 1600 e poucos, inventado por Tirso de Molina. Já Giacomo Casanova foi um homo sapiens como nós, um veneziano de carne e osso, que viveu entre 1725 e 1798, mais de um século após a publicação do livro de Molina. Ambos são associados à sedução, à libertinagem, à compulsão, à conquista, ao sexo sem amarras ou culpas, são mulherengos inveterados. Enfim, Don Juan e Casanova já prestaram-se a centenas de adaptações literárias, dramáticas, cinematográficas, tanto na dita alta cultura, sofisticada, quanto na cultura pop, sempre mais facilmente palatável. As histórias de Don Juan e de Casanova de alguma forma se fundiram, e há tanto tempo, que é difícil dizer qual característica da cupidez de cada um é a melhor identificada a seus nomes. Já li várias adaptações destas singulares vidas, a real e a inventada. Gosto muito de “La amante de Bolzano”, de Sándor Márai, e assisto sempre que posso a versão operística de Joseph Losey, “Don Giovanni”, com Ruggero Raimondi, José van Dan, e Kiri Te Kanawa, três cantantes líricos que aprendi a venerar. Peter Handke nos oferece sua versão neste curto “Don Juan (narrado por ele mesmo)”, publicado originalmente em 2004. Acompanhamos a narrativa de uma semana da vida de um possível Don Juan contemporâneo, um Don Juan que convive com aviões e motocicletas, com a geografia mais ou menos atual de países europeus, com os ecos esparsos de sua própria lenda. Pode-se ler a versão de Handke de uma outra forma, não exatamente explícita: a de que o narrador de Handke seja um leitor das memórias de Casanova (ou ao menos do livro publicado no final do século XVIII, que é atribuído a ele). O narrador de Handke (um velho senhor que cuida de um albergue em uma pequena cidade do sudoeste parisiense, Port-Royal-des-Camps) se imagina conversando com aquela criatura inventada, convive com ele, ouve os sucessos de seus últimos dias, num melancólico palimpsesto de seduções contínuas de mulheres. Esta "semana de mulheres", como o narrador de Handke explica, antes é a crônica de um sujeito já entediado com o efeito sedutor, empático, que provoca nas mulheres e também nos homens. É através do olhar que ele parece enfeitiçar todos, ao acaso, numa repetição tediosa de situações mecânicas, onde o sexo, a conjunção carnal, é o que menos importa. Há também uma camada cristã de entendimento deste livro. Handke lembra ao leitor várias vezes que a narrativa se dá durante o período que antecede a festa de Pentecostes, a celebração da descida do Espírito Santo sobre os apóstolos de Cristo. Assim como aconteceu para aqueles discípulos o velho narrador do livro permanece em seu albergue ouvindo por sete dias as histórias de Don Juan, para ao final ficar apenas com a certeza que a única, definitiva e verdadeira história de Don Juan é aquela que acabamos de ler. Vale! 
Registro #1506 (romance #376) 
[início:13/03/2020 - fim: 14/03/2020]
"Don Juan (narrado por ele mesmo)", Peter Handke, tradução de Simone Homem de Mello, São Paulo: editora Estação Liberdade, 1a. edição (2007), brochura 14x19 cm, 144 págs. ISBN: 978-85-7448-133-3 [edição original: Don Juan (erzählt vom ibm selbst), Suhrkamp Verlag (Frankfurt am Main, Alemanha), 2004]

domingo, 22 de março de 2020

when hippo was hairy

Comprei esse livro quando estava na África do Sul, ainda digerindo experiências e assombros, como já contei aqui no "Livros que eu li", nos registros sobre a África e sobre Cape Town. O autor deste livro, Nick Greaves, é um fotógrafo e escritor inglês que vive na África há muitos anos (se é que entendi bem ele vive atualmente na Tanzânia). Greaves já publicou diversos livros sobre a vida selvagem africana, tanto de fotografias quanto de narrativas. Neste seu "When Hippo was Hairy" estão reunidas 36 lendas ou mitos sobre animais africanos. Ele conta causos sobre os big-five (Leão, Leopardo, Elefante, Rinoceronte e Búfalo) e também sobre vários outros: Babuíno, Girafa, Antílopes, Zebra, Javali, Lebre, Avestruz, Tartaruga, Guepardo, Hiena, Chacal e Hipopótamo. As histórias foram recolhidas do folclore de várias etnias e/ou povos africanos, dos povos das Bush ou das Savana: Batonka, Hambakushu, Ndebele, Zulu, Shona, Swazi, Hottentot, Makushu, Angoni, Swazi, Xhosa, Sesotho, Masai. Como todas as lendas deste tipo, as histórias se confundem, são contraditórias, algo ingênuas, mas são sempre inventivas, deliciosas, boas de se ouvir e certamente boas de se contar. O formato do livro é muito interessante. Após o registro dos mitos (em geral dois ou três sobre cada animal), o autor inclui uma seção com dados factuais sobre eles: sua distribuição geográfica (no passado e atualmente), seu habitat, hábitos, dieta, reprodução, dimensões e massa corporal, tempo médio de vida. Em geral as histórias tentam explicar uma característica física ou de comportamento do animal (porque o leão ruge, o hipopótamo não tem pelos no corpo, a girafa tem pescoço grande, a zebra listras, o javali se ajoelha para comer, o chacal é astuto, a lebre rápida, a tartaruga vive muito e assim por diante. As soluções são sempre mágicas, associadas aos mitos fundadores africanos, os mitos de Cagn e Mantis, os deuses que criaram todos os animais (dentro de um grande Baobá), e também criaram os homens, o povo das savanas, das bush, os Bushmen. Aprendi um bocado, como sempre deve ser. Vale! 
Registro #1505 (contos #173) 
[início: 18/02/2020 - fim: 02/03/2020]
"When Hippo was Hairy, and other Tales from Africa", Nick Greaves, ilustrações de Rod Clement, Cape Town / South AfricaCaxias: Struik Nature Publishers (Penguin Random House South Africa), 1a. edição (1988), brochura 17x22 cm., 144 págs., ISBN: 978-1-86872-456-7

sexta-feira, 20 de março de 2020

ao pó

Na mitologia grega, Erínias eram as forças primitivas que personificavam vingança, reclamavam com rancor, implacavelmente, o sangue daqueles que cometeram crimes. Em "Ao pó", Morgana Kretzmann apresenta, logo nas primeiras páginas de seu romance de estreia, um crime. Ao longo de sua narrativa, acompanhamos os desdobramentos desse crime na vida de um grupo familiar, em uma cidade do interior do Rio Grande do Sul, no final do século passado. Sofia ainda é adolescente quando percebe que a licenciosidade e cupidez de seu tio, outrora dirigidas a ela, desloca-se para sua irmã mais nova, Alice. Sendo jovem, Sofia não alcança saber como suportar esta situação. Ela foge, se radica no Rio de Janeiro e torna-se, em pouco mais de dez anos, uma atriz respeitada. Todavia, a ambição e arrivismo que a fizeram destacar-se na cena teatral carioca, antes de denotar força mental e auto controle apenas mascaram o desejo de vingar-se do tio. Para meu juízo, de leitor, o verdadeiro drama de Sofia é não ter a vocação certa para ser uma Erínia eficiente (e isto diria também um analista perverso). A história é bem contada, em capítulos curtos que se alternam com o que se pode imaginar serem sonhos ou pesadelos da protagonista, manifestações de seus mecanismos mentais de sublimação, cada vez menos satisfatórios, pois sua vida segue uma espiral de problemas, conflitos e mágoas. Trata-se de um romance curto, de forte carga emocional, que deixa-se ler em poucas horas. Bom livro. Vamos a ver o que essa curiosa autora nos oferecerá no futuro. Vale! 
Registro #1504 (romance #375) 
[início - fim: 16/03/2020]
"Ao pó", Morgana Kretzmann, São Paulo: Editora Patuá, 1a. edição (2020), brochura 14x21 cm., 164 págs., ISBN: 978-85-8297-893-1

quinta-feira, 19 de março de 2020

verão no fim do mundo

Luís Farinatti é historiador e professor universitário. "Verão no fim do mundo" é seu primeiro livro de ficção e com ele ganhou  o prêmio da Associação Gaúcha de Escritores de narrativa curta, em 2019. São doze histórias, que gravitam questões e problemas de pessoas que vivem em cidades pequenas, ou que levam estas questões e problemas consigo, mesmo quando vivem em grandes cidades, ou no exterior. Há um tom amargo nelas, uma melancolia indisfarçada, mas não pieguice ou ingenuidade. Farinatti escreve bem, mas não se trata de um autor especialmente inventivo, que use um léxico muito vasto, ou que tente seduzir o leitor com achados linguísticos e expressões raras. Enfim, o texto é correto, que segue a convenção do conto e ele sabe bem conduzir as histórias. Gostei especialmente de "Tarde de domingo" e "Forasteiro", narrativas de inevitáveis, porém distintas, brutalidades, e de "Noite adentro", na qual um delegado divorciado enfrenta uma vez mais, em uma noite fria e sob neblina, seus demônios familiares. As histórias são curtas. Nem sei porque esse livro ficou tanto tempo entre os guardados, esperando para ser lido. Paciência. Parabéns meu caro Luís, ficou bom teu livro de estreia. Vamos a ver o que você recuperará dos baús familiares, dos ecos literários que brotam da memória. Evoé! Vale!
Registro #1503 (contos #172) 
[início - fim: 02/03/2019]
"Verão no fim do mundo", Luís Augusto Farinatti, Caxias do Sul: Belas Letras (selo Modelo de Nuvem), 1a. edição (2018), brochura 12x18 cm., 136 págs., ISBN: 978-85-8174-432-2

terça-feira, 17 de março de 2020

mnemomáquina

Ronaldo Bressane oferece ao leitor em seu romance de estreia, Mnemomáquina, uma narrativa esquiva, onde eventos fantásticos se superpõem como em um palimpsesto, futuro e passado se fundem e personagens amalucados contam fragmentos de uma história (história que se não serve como alegoria definitiva de nada real ou contemporâneo, paradoxalmente provoca tantas associações quanto a imaginação do leitor dispuser-se a aceitar). Por vezes imaginei um homem dentro de um computador, com suas memórias fragmentárias disputando espaço com fragmentos de jogos, programas, aplicativos, planilhas, arquivos, filmes, ou simplesmente um homem de ressaca, que acorda ainda em um bar. Em uma São Paulo pós-apocalíptica, provavelmente em 2054, seu quinto centenário, parcialmente submersa pelas águas do mar, corporações disputam o controle das emoções dos indivíduos, operam mecanismos de segregação, alienação e dominação (mais ou menos como acontece hoje em dia, porém de forma mais dramática, teatral, operística). A vida segue, as pessoas já adaptadas ao arquipélago de prédios cujas garagens e andares mais baixos estão alagados, conformados à realidade do mundo aquático em que vivem. Quase todos os personagens ou têm poderes psíquicos, telepáticos, potencializados ou deprimidos por drogas, ou são agentes secretos de corporações que disputam um eventual poder supremo, global, ou são mutantes, seres geneticamente modificados, clones de alguém, cujas memórias são duplicadas em corpos/capas distintas (algo que lembra “Altered Carbon”, livro de Richard K. Morgan de 2002, que virou uma série recentemente). Uma revolução de zumbis e/ou segregados se aproxima e essa revolução (ou série de atentados anarcoterroristas) será transmitida em tempo real, como em um terrível e definitivo reality show. Publicado em 2014 pela Demônio Negro, Mnemomáquina cobra do leitor um bom tempo de leitura. Não se trata de uma narrativa que se deixa ler displicentemente, sem atenção. A edição é bem cuidada. Entre o prólogo, um capítulo [0] e o posfácio, um capítulo [X], estão enfeixados 43 capítulos, identificados por 14 vinhetas diferentes, que representam diversos protagonistas e/ou narradores (na capa há uma vinheta diferente de todas as demais, que talvez identifique o autor, mas isso pouco importa). Alguns dos protagonistas são mais falantes (Baby Gasoline domina muitos capítulos, também metamorfoseada em suas várias encarnações/nomes; Hannah, uma tubaroa, flutua naquele mar e funciona como ligação entre quase todos os demais personagens; Butthole, um macaco albino, guincha e distribui sopapos; Frabrizio Fabrizzianni, que joga xadrez com Hannah talvez seja um dos narradores supremos da história; Zed Stein, talvez filho de Fabrizio, é outro personagem em busca de redenção e calma). A maioria dos demais personagens aparece apenas episodicamente, para complementar uma ou outra situação. Já alinhei demasiados “ou” e "talvez" neste registro de leitura. Paciência. Há várias citações / homenagens: a J. D. Salinger e seus personagens, a Philip K. Dick e seu Blade Runner, a Elvis Presley, Michael Jackson, a cidade de São Paulo e sua geografia, ao clima de eterna festa que só se encontra em bares, como a Mercearia (São Pedro), citada algumas vezes no livro. Bressane distribui sarcasmo e crítica a trocentas coisas: ao mercado de arte, às fórmulas literárias, a diluição da TV, ao futebol, a falsa dicotomia entre sexo e amor. Quem já leu e gostou de Naked Lunch, do William S. Burroughs, há de se divertir com esse Mnemomáquina. Em tempo: como em toda boa distopia, um rosário de previsões brotam do romance (achei nele até uma gripe chinesa!). Bueno. Diverti-me à beça. Vale! 
Registro #1502 (romance #374) 
[início: 08/02/2020 - fim: 12/03/2020]
"Mnemomáquina", Ronaldo Bressane, ilustrações de Eva Uviedo, São Paulo: V. de Moura Mendonça Livros (Selo Demônio Negro), 1a. edição (2014), capa-dura 16x23 cm., 338 págs., ISBN: 978-85-66423-13-6

segunda-feira, 16 de março de 2020

a barata

Neste pequeno conto Ian McEwan nos oferece uma terrível fantasia, uma sátira contemporânea, uma narrativa irônica, uma descrição  alegórica dos desatinos aos quais se aferram quase sempre os homo sapiens, por mais educados, socialmente homogêneos e economicamente abastados que sejam. Invertendo a conhecida fórmula de Kafka, McEwan inventa uma barata cuja mente se apodera do corpo de um primeiro ministro inglês. E, a partir deste mote, oferece ao leitor imaginar um dos infinitos mundos possíveis decorrentes de nossas escolhas cotidianas (no caso específico dele, a decisão inglesa de romper com o Mercado Comum Europeu, o Brexit). Esse conto foi publicado antes que McEwan soubesse do desfecho das eleições inglesas de dezembro de 2019, eleições que confirmaram a maior vitória do partido conservador em sua história, e que garantiu a Boris Johnson, o atual primeiro ministro inglês, ampla maioria parlamentar, caminho fácil para oficializar a saída definitiva do Reino Unido da união europeia. Caso soubesse do real tamanho da derrota trabalhista McEwan provavelmente seria ainda mais sarcástico e cruel em seu livro, sobretudo com a personagem que representa o tolo Jeremy Corbyn (já sabemos que a realidade sempre será muitas vezes mais surpreendente que qualquer invenção literária, não nos iludamos). Não há muito sobre o que falar deste livro sem roubar o prazer individual e solitário da leitura. McEwan povoa seu texto com críticas ao populismo e a ignorância do eleitorado inglês, fala num tom amargo das regras de conduta e hábitos dos ingleses, ilustra nossa especial vocação para destruição e morte, pulsão que quase sempre nos domina, nos define. Dificilmente um leitor pouco familiarizado com o Brexit e as circunstâncias que regram as eleições gerais na Inglaterra poderá aproveitar adequadamente este livro, mas quem se importa. Divertir-me à beça com as amalucadas associações de Ian McEwan, mas a vida segue, as baratas estão em todas as partes e certamente sobreviverão aos homo sapiens. Vale! 
Registro #1501 (contos #171) 
[início: 05/03/2019 - fim: 07/03/2019]
"A barata", Ian McEwan, tradução de Jorio Dauster, São Paulo: editora Schwarcz (Companhia das Letras / Penguin Random House), 1a. edição (2020), brochura 14x21 cm., 102 págs., ISBN: 978-85-359-3310-9 [edição original: The Cockroach (New York: Anchor Books Knopf Doubleday Publishing Group) 2019]

sábado, 14 de março de 2020

nostalgia

Em 2015 e 2016 li bons livros do romeno Mircea Cartarescu: "El ojo castaño de nuestro amor", "El levante", "Lulu", "El ruletista" e "Las bellas estranjeras". Num destes anos comprei a tradução de Nostalgia para o espanhol, mas por alguma razão acabei não terminando a leitura, perdi-me na aventura (esses foram anos tremendos para mim!). Noutro dia encontrei a versão para o português, editada pela Mundaréu e traduzida por Fernando Klabin, diretamente do romeno. Resolvi começar e li em poucos dias, sobretudo nas horas vagabundas em que esperava voos de conexão durante minha recente viagem à África do Sul. Trata-se de um romance dividido em cinco partes, que até podem ser lidas e entendidas separadamente, como contos ou novelas curtas, mas que têm sim uma unidade (e se, de resto, o autor entende que produziu um romance, aceitemos pois). A primeira parte, dita prólogo, é justamente "El ruletista", primeiro livro de Cartarescu que li, e que foi publicado de forma independente, em espanhol, em 2010. Depois há uma seção chamada "Nostalgia", com três textos: "O Mendébil", "Os gêmeos" e "REM". O livro termina com um epílogo, dito "O arquiteto". Assim como já escrevi quando registrei algo sobre El ruletista, não me sinto à vontade de detalhar muito da trama, para não roubar nada do leitor. As cinco partes do livro compartilham temas que se desdobram, se espelham, enganam o leitor. Na minha forma de entender o livro os temas principais são: (i) a memória afetiva da infância e adolescência, os ritos de passagem; (ii) a descoberta dos espantos e azares do amor; (iii) a melancolia romena nas décadas de 1950, 1960, 1970 e 1980,  tempos da ditadura comunista de Ceauşescu; (iv) as associações entre cultura pop e literatura romena, entre filmes e manifestações culturais; (v) a fusão ou entranhamento entre realidade e ficção; entre sonho e razão; (vi) a repetição de imagens, como escadas, subterrâneos, corredores, espelhos, portais mágicos; (vii) o recorrente uso de descrições de estados alterados de consciência; (viii) o poder revelador dos sonhos; (ix) o poder purificador do fogo. Ao mesmo tempo em que os narradores das histórias descrevem situações quase sempre bizarras e surpreendentes, o autor as povoa com citações literárias, quase sempre de artistas plásticos e escritores romenos, mas também de outras nacionalidades. O livro faz a festa do leitor que gosta de mimos, de jogos intelectuais. Os narradores/autor provocam o leitor, falam sobre o ofício da escrita, os truques literários, de construção literária, de como a eterna luta contra o ego define os homo sapiens e especialmente os escritores. Ainda tenho dois livros de Cartarescu para ler, entre meus guardados: Solenóide, de 2015, e Orbitor, um portento que teima em crescer, já são três os volumes que o sujeito inventou. Vamos a ver se consigo lê-los ainda neste ano. Vale! 
Registro #1500 (romance #373) 
[início 09/02/2020 - fim: 15/02/2020] 
"Nostalgia", Mircea Cartarescu, tradução de Fernando Klabin, São Paulo: Mundaréu (Editora Madalena Ltda EPP), 1a. edição (2018), brochura 14x18 cm., 416 págs., ISBN: 978-85-682-592-14 [edição original: Nostalgia (București: Cartea Româneasca Publishing House) 1993]