sábado, 3 de dezembro de 2016

strong opinions

Esse livro me acompanha há tempos. Lembro-me de ter começado a lê-lo em um hotel madrilenho, ainda no início do ano passado. Desde então ocupei-me de tantas outras coisas e leituras, mudei de apartamento, tentei organizar meus livros em suas novas e alvas moradas, mas esqueci as "strong opinions" de Nabokov na pilha de guardados. Reencontrei-o no início desta primavera brasileira, terrível e estúpida como poucas. Ler Nabokov sempre é uma festa para os sentidos. O sujeito domina tão completamente a linguagem, expressa-se com tal precisão, encadeia argumentos e silogismos tão bem escritos que nunca aborrece o leitor. Em "Strong opinions" estão reunidos três conjuntos distintos de textos dele. A primeira parte é justamente a mais extensa. Envolve a transcrição de 22 entrevistas, originalmente publicadas em jornais ou revistas, entre 1962 e 1972. Há uma natural repetição das perguntas (jornalistas não são usualmente reconhecidos por sua originalidade), mas a cadência e o tom das respostas refletem distintos estados de ânimo de Nabokov, que por vezes enfatiza um aspecto ou outro dos questionamentos. Zeloso de tudo o que produzia, Nabokov só respondia perguntas por escrito, inclusive cobrando a correção do material imediatamente antes da composição final e/ou impressão. O período das entrevistas corresponde aos anos que se seguiram ao sucesso absoluto de seu livro "Lolita" e da versão cinematográfica dirigida por Stanley Kubrick. Parte em função da notoriedade e parte em função da estabilidade financeira alcançada permitiu que Nabokov deixasse de ministrar aulas (já registrei aqui as transcrições de seus cursos de literatura russa e aquele dedicado, grosso modo, a literatura em língua inglesa, francesa e alemã). Nesta época ele radicou-se na Suíça e passou a dedicar-se exclusivamente a produção literária (e as inevitáveis excursões de caça a borboletas). A segunda parte é bem curta. São reproduções de cartas que Nabokov enviou a redação de jornais e revistas literárias, entre 1961 e 1971. São cartas curtas, onde em geral ele corrige furiosamente alguma informação pouco acurada sobre seus livros, sua vida ou suas declarações públicas. A terceira e última parte é mais técnica. Estão nela reunidos 14 ensaios longos, produzidos entre 1939 e 1970, publicados originalmente em jornais especializados ou revistas científicas. Cinco deles são registros de classificação de borboletas por ele coletadas (Lepidopterologia nunca foi apenas uma distração). Uns três ou quatro são ensaios sobre o ofício da literatura, de seu entendimento da técnica e da inspiração, do ofício da crítica. Um outro traz diatribe feroz dirigida as opiniões de Edmund Wilson sobre seu livro "Ada" (de 1969). Os demais são críticas literárias produzidas por encomenda. Nabokov fala de Hodasevich, um importante poeta russo; de Sartre; de sua própria tradução de "Eugene Onegin" (de Pushkin); de uma questão jurídica associada a tradução francesa de "Lolita"; de Mandelstham, outro grande poeta russo; de uma outra tradução de "Eugene Onegin", produzida por uma americana que o aborreceu (talvez ela nunca tenha lido nada em russo na vida, diz ele). Quase todos os textos deste livro são cheios de humor, quando não ferino sarcasmo. Envolvem registros de memória, dos tempos vividos na Rússia, na Europa e nos Estados Unidos, refletem um conhecimento refinado das coisas (não apenas de literatura, mas também de política, relações internacionais, interações pessoais, cultura, arte e da sociedade de seu tempo). Devia ser um inferno conviver com ele, mas o sujeito sabia defender suas opiniões e sua obra. Vale.
[início: 20/09/2016 - fim: 24/11/2016]
"Strong opinions", Vladimir Nabokov, New York: Vintage International edition (Penguin Random House , 1a. edição (1990), brochura 13x20cm., 340 págs., ISBN: 978-0-679-72609-8 [edição original: (New York: McGraw-Hill Book Company) 1973]

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

a pedido do embaixador

Desde meados dos anos 1970, quando comecei a ler com método e disciplina, nunca me preocupei muito com o gênero, extensão, idade ou nacionalidade dos livros que me caem às mãos. Claro, aprendi cedo (e foi com a Dorothy Parker) que há livros que ao invés de serem abandonados displicentemente na estante e esquecidos merecem sim ser jogados pela janela, com fúria. Neste "Livros que eu li" é raro que eu fale muito mal de algum livro, pois desde o momento em que decido continuar com a leitura e terminá-la, sei que há algo neles que pode ser registrado, por mais ruim que tenha sido a experiência. Não é o caso deste "A pedido do embaixador". Que livro absurdo.  Fernando Perdigão deve ter ficado algo intoxicado após assistir muitas séries policiais na televisão ou lido toda uma coleção de romances policiais e resolveu escrever o seu. Inventou um protagonista, um detetive ("incorrigível" diz ele, informação que o editor achou importante incluir na capa). Todavia, o que o leitor encontra no tal detetive Andrade é uma caricatura patética, um personagem sem nenhum vestígio de verossimilhança e que não se presta nem para fazer o leitor dar boas risadas do absurdo da coisa toda. O elenco de personagens coadjuvantes brota completo de um manual de fórmulas para o gênero: um aprendiz (no caso uma aprendiz, uma inspetora recém promovida); um chefe que despreza seu comandado; um informante com contatos tão decisivos quanto improváveis; uma empregada cínica que é boa cozinheira; uma namorada que é prostituta nas horas vagas. Tudo é previsível, a trama é repetida e resumida para o leitor várias vezes, mas é frouxa e mirabolante demais. O narrador arrasta o leitor por páginas sem fim apenas para dar oportunidade e palco para o detetive pontificar com seu rosário de comentários homofóbicos, racistas e misóginos, xenófobos e machistas; repetir piadas de duplo sentido; disparar ameaças em todas as direções; explicitar mil vezes seus preconceitos, intratabilidade, truculência e inadequação social. Acho as iniciativas e leis politicamente corretas uma marca negativa de nosso tempo, sobretudo no Brasil, onde qualquer tentativa de uniformização social está fadada ao fracasso. Paciência. O mundo real e o mundo dos livros estão repletos de lorpas, de pessoas grosseiras e irascíveis, selvagens ou abobalhadas, limitadas e patéticas com as quais é possível conviver, porém o que Fernando Perdigão criou é apenas um pastiche que serve para nos lembrar das muitas vantagens da boa educação. E é só por isso que registro seu livro aqui. Vamos em frente (afinal o Nabokov já nos ensinou que não devemos nunca levar personagens literários a sério).
[início: 30/06/2016 - fim: 18/07/2016]
"A pedido do embaixador: Um caso ordinário do incorrigível detetive Andrade", Fernando Perdigão, Rio de Janeiro: editora Record, 1a. edição (2015), brochura 13,5x20,5 cm., 239 págs., ISBN: 978-85-01-10479-3

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

ensino de filosofia e currículo

Há dois meses, o acaso, sempre um fiel camareiro, colocou Ronai Rocha e eu próximos em uma fila de aeroporto. Íamos num mesmo voo para São Paulo. Ali não podíamos conversar, mas ao fazermos escala antes de nos tocar o outro trecho da viagem, o dele mais ao norte, o meu mais a oeste, deste pródigo e desgraçado Brasil, conseguimos dividir uns pães de queijo e um café. Ele contou-me detalhes de uma notícia desagradável, relacionada a um livro que acabara de escrever e fora rejeitado por conta de uma chicana jurídica. Cerrei os dentes para não escarnecer em voz alta o nome da tola viúva do Paulo Freire que o havia prejudicado. A estupidez, já se sabe, sempre provoca calamidades. Paciência. Pouco tempo depois, já de volta, como Mário de Andrade, abancado à escrivaninha, só que em Santa Maria, na minha casa da Rua Quintino Bocaiúva, de supetão senti um friúme por dentro. Lembrei a história que ouvira do Ronai e da falta de tino e tato (sem falar da falta de instinto e competência editorial) de todos os envolvidos na rejeição do livro. Novamente, como o velho Mário, fiquei algo trêmulo, comovido. Resolvi reler a reedição de um livro que ele havia publicado em 2008 (e que já registrei aqui): Ensino de Filosofia e Currículo. Essa segunda edição passou por uma revisão completa e ganhou uma formatação mais caprichada. O texto atualizado discorre sobre os temas mais importantes relacionados ao ensino de filosofia (e de resto fala bastante sobre o ensino médio brasileiro). As ideias do Ronai não são apenas seminais. Ele as apresenta com clareza e sofisticação. Os argumentos são sólidos e o encadeamento deles sempre próximos do irrefutável (meus adjetivos tendem ser mais taxativos que os do Ronai, já se vê, mas é nele e em seu livro que o leitor deve confiar, não em mim). Sua discussão sobre as dificuldades na inserção da filosofia no currículo do ensino médio, sobretudo quando não se considera que cada uma das demais disciplinas também propõem conteúdos específicos que necessariamente devem ser conectados de forma didaticamente eficaz uns com os outros, é a chave do livro. O prefácio a essa segunda edição, assinado por Gisele Secco, dá conta do impacto do lançamento original do livro na comunidade de educadores e filósofos. Os argumentos de Ronai de certa maneira antecipam alguns dos desastres que acabaram por encetar a reforma do ensino médio atualmente em discussão (cabe dizer para os mais açodados ou simplesmente tolos que as linhas gerais da atual proposta de reforma já haviam sido delineadas pelo glorioso Ministério da Educação ainda no início do trágico governo anterior). Com a reforma nem o mais atrevido dos analistas sabe prognosticar qual será o futuro da formação básica dos estudantes brasileiros. Livro atualíssimo, "Ensino de Filosofia e Currículo" merece ser lido por todo aquele realmente interessado em filosofia e educação básica deste país. E eu, nem sempre otimista, estou seguro que aquele outro livro do Ronai, o livro explicitamente novo dele sobre o tema, encontrará em breve o caminho para sua edição. Ulalá. Vai ser divertido. Vale.
[início: 10/10/2016 - fim: 21/11/2016]
"Ensino de Filosofia e Currículo", Ronai Pires da Rocha, Editora da UFSM, 2a. edição (2015), brochura 15x24cm, 221 págs. ISBN: 978-85-7391-230-2

domingo, 27 de novembro de 2016

yo, otro libro egocéntrico

Foi Sílvia, amiga querida, que lá de sua atrevida Barcelona sugeriu a Helga que comprasse algo do Juanjo Sáez. Juanjo é um quadrinista, roteirista e ilustrador espanhol, ou melhor, catalão (não podemos confundir essas cousas quando falamos de um legítimo barcelonês). Começou em seu ofício com fanzines e revistas alternativas, de arte e cultura. Posteriormente manteve colaborações com jornais e revistas de grande circulação. Desde do início dos anos 2000 publicou quase uma dezena de volumes de antologias de seus cartuns e histórias em quadrinhos (para ele mesmo, que assina uma introdução, trata-se de uma forma de fixar em livro coisas que desapareceriam com os jornais e também uma forma de organizar-se mentalmente). O traço é curioso. Seus personagens não tem olhos, nariz ou boca. Só nos momentos em que experimentam uma forte emoção é que ganham traços de alguma parte da anatomia de seus rostos. Em compensação seus personagens falam, muito, tem opinião sobre tudo, refletem sobre si e o mundo. As histórias reunidas em "Yo, el otro libro egocéntrino" foram publicadas originalmente nos anos 1990 e 2000 (o livro é de 2010). O livro oferece justamente o que o título promete. São histórias centradas no autor, que sempre é um personagem em suas histórias. Ele também faz uso de um alter ego que policia suas ideias, critica continuamente suas escolhas, reclama de sua timidez e inação. Parece uma brincadeira contínua com o shakespeariano fantasma do pai do Hamlet. Como todo bom cartunista ele abusa da ironia e do sarcasmo, nunca edulcora a vida e o comportamento dos homens (nem tampouco utiliza seu traço para fazer proselitismo político, explicitando alguma servidão mental e política a algum grupo - cousa que muitos de seus congêneres brasileiros se orgulham em fazer). Enfim, gostei. Grato Sílvia pela lembrança. Vamos a ver se a encontro (e encontro mais coisas do Juanjo) numa próxima viagem à Espanha. Em tempo (1): Juanjo coloca no Facebook e no Twitter um bocado de ilustrações bacanas. Em tempo (2): Conceitualmente, o estilo de Juanjo lembra as coisas do Angeli, apesar do Angeli não ser nada verborrágico e utilizar-se mais da força de seu traço comparativamente a seu texto. Sei lá. Talvez um teórico dos quadrinhos um dia possa me explicar se essa associação tem algum valor. Vale. 
[início: 06/11/2016 - fim: 15/11/2016]
"Yo: El otro libro egocéntrico", Juanjo Sáez, Barcelona: Reservoir Books (Random House Mondadori), 1a. edição (2010), capa-dura 24,5x16,5 cm., 232 págs., ISBN: 978-84-897-2230-4

terça-feira, 22 de novembro de 2016

written in my heart

Como já contei em um outro registro, no início de 2015 aventurei-me por Dublin, com cópias anotadas das páginas do "The Ulysses Guide" debaixo do braço. Esforcei-me para não perder nenhum dos lugares bacanas da cidade relacionados à James Joyce e seu Ulysses. Foi divertido. Mesmo o mais severo dos especialistas em Joyce reconhece que o livro de Robert Nicholson é preciso e completo, muito útil, mas não é o tipo de guia que um turista pode carregar facilmente em uma viagem longa. Recentemente foi publicado um novo livro com referências joyceanas, um guia mais moderno, compacto, com informações igualmente precisas, porém mais objetivas, sintéticas: "Written in my heart". A diagramação e os roteiros sugeridos são mais simples de seguir. Enquanto no livro do Nicholson os roteiros seguem mais ou menos a ordem dos dezoito capítulos do Ulysses e os passeios de Leopold Bloom e Stephen Deadalus, neste novo nove roteiros são distribuídos geograficamente pela cidade. São roteiros longos, que cobram tempo do flâneur, mas quem vai a Dublin com pressa? Mark Traynor e Emily Carson, dois experientes jovens dublinenses, ligados ao James Joyce Centre, acompanham o leitor pelas ruas da cidade, fazendo referência aos edifícios, parques, pubs, hotéis e monumentos que são ou citados nos livros de Joyce ou foram frequentados por ele e pessoas de seu círculo de amizade. Esses pontos de referência são identificados em mapas por meio de ilustrações estilizadas (assinadas por uma jovem designer, Fuchsia Macaree). O texto inclui citações curtas dos livros de Joyce, associadas a cada um dos pontos de parada. Para facilitar a vida do leitor cada um dos nove roteiros se distingue dos demais pela cor. Mesmo em uma época em que aplicativos para smarphones oferecem bons serviços de localização e referência às cousas do Joyce (há o Digital Dubliners, o Walking Ulysses e o bom mapa do Daniel Gray), esse livro me parece uma boa alternativa, principalmente para quem não conhece muito das referências literárias de Dublin. Ô beleza. 
[início: 14/11/2016 - fim 16/11/2016]
"Written in my heart: Walks through James Joyce's Dublin", Mark Traynor, Emily Carson, ilustrações de Fuchsia Macaree, Dublin: The O'Brien Press, 1a. edição (2016), brochura 13x19,5 cm., 96 págs., ISBN: 978-1-84717-820-6

domingo, 20 de novembro de 2016

homens elegantes

Ao finalizar a leitura de “Homens elegantes”, romance mais recente de Samir Machado de Machado, escrevi numa rede social que se tratava do romance mais “camp” que eu já havia lido, acrescentando pouco depois que era uma narrativa que merecia leitura por bons e variados motivos. De fato “Homens elegantes” é um romance divertido; exagerado; repleto de amalucadas e criativas citações; povoado de personagens extravagantes; recheado com uma miríade de informações (aquele tipo de informações que quanto mais irrelevantes e tolas, mais saborosas são, pois fazem festa nos sentidos do leitor). O que Samir Machado oferece é um jogo, onde cabe ao leitor descobrir até qual camada de entendimento ou associação é capaz de alcançar. Na mais superficial das camadas o que temos é a paródia de um romance histórico (que se passa na segunda metade do século XVIII). Nele acompanhamos os sucessos de um jovem oficial brasileiro que é enviado à Inglaterra para descobrir a origem de um contrabando muito peculiar, o de livros pornográficos. Portugal é um capricho inglês, portanto os ingleses são o único aliado confiável. O que parecia apenas contrabando revela-se uma bizarra conspiração que envolve interesses cruzados dos serviços secretos de várias nações europeias. Os planos mirabolantes do vilão da história envolve associar sodomia a terremotos (como o que havia destruído Lisboa em 1755), alardear o fim dos tempos, influir nos planos jacobitas na tomada do trono inglês, provocar insurreições separatistas em cidades brasileiras para facilitar que o Brasil fosse tomado de Portugal pela coroa espanhola. A chave de leitura do livro é mesmo o humor, mas as digressões de Samir Machado oferecem ideias interessantes ao leitor. Apesar de ser um livro longo para o padrão das edições brasileiras, ele deixa-se ler rapidamente. O ritmo é continuamente acelerado. O intervalo entre a chegada do protagonista a Londres e o desfecho do livro, numa curiosa batalha naval no estuário do Tâmisa, é de apenas poucas semanas (como sempre acontece num romance ou filme de aventuras ou espionagem). Mas há tempo de sobra para o narrador explorar a geografia de Londres, visitar bordeis e teatros, seduzir e ser seduzido, mostrar suas habilidades de espadachim e sua invulgar cultura. O que mais positivamente me surpreendeu no livro é a forma como Samir Machado trata do homossexualismo e da cultura LGBT, com total desembaraço, sem afetação ou hipocrisia. O protagonista da história e praticamente todos os demais personagens relevantes são abertamente gays e interagem homoeroticamente sempre que uma brecha na narrativa permite. O livro também é um manual de mundanidade, onde aprendemos algo da linguagem dos leques; dos passos de danças de salão; das gírias e procedimentos de sedução gays; de etiqueta, vestuário, esgrima e moda; das variedades de chá e as técnicas de seu preparo; de atores shakespearianos; do valor da tipografia e do design na produção de livros; da arte da confeitaria; dos problemas de tradução e autoria nas obras de ficção; de receitas de drinks; de teoria musical e de óperas; dos jogos de cartas e das trapaças possíveis; da literatura de entretenimento; de religião e milenarismo; de geopolítica e historiografia; das piadas típicas do humor judaico; da tecnologia da impressão, edição e distribuição de livros. Todos esses mimos são incorporados naturalmente à trama. De resto, saber quantas citações contemporâneas de cinema, literatura e música, da cultura pop e dos games, do universo gay ou sobre a sociedade brasileira estão entranhadas no livro, só o Samir Machado poderá um dia responder. Muito original (mas como a ficção pode competir com a realidade quando temos notícia de que há quinze dias um padre acusou gays pela cólera divina que provocou um terremoto no centro da Itália?) Enfim. Bem escrito, "Homens elegantes" parece ter sido produzido à medida para ser filmado ou por um Baz Luhrmann (numa versão light) ou um John Waters (numa versão hardcore). Logo veremos. 
[início: 30/10/2016 - fim: 05/11/2016]
"Homens Elegantes", Samir Machado de Machado, Rio de Janeiro: editora Rocco, 1a. edição (2016), brochura 16x23 cm., 574 págs., ISBN: 978-85-325-3040-0

sábado, 19 de novembro de 2016

onde está mimi?

O Byrata das histórias gaudérias e de dinossauros eu já conheço muito bem. Não conhecia seus livros diretamente dedicados ao público infanto-juvenil, como esta historieta sobre uma gata chamada Mimi que sumiu. E essa gata existiu mesmo. Era a mascote da família Byrata, ali na Vale Machado, perto do Colégio Manoel Ribas, de Santa Maria. Num dia de verão desapareceu, virou um sopro, uma memória e também uma dor. Elaborar perdas, vivenciar o luto, assimilar a morte, sempre é algo que fazemos cada um a seu modo e a seu tempo. Byrata optou por registrar as buscas que ele e seus outros mascotes fizeram para encontrar Mimi. Acompanhamos os esforços de um cachorro chamado Toco e de um gato chamado Morcego em lembrar seu dono do sumiço da gata e até esperamos um final feliz, mas como sua gata é agora também um personagem que segue as leis da ficção literária, ficará para sempre na condição do final do livro: perdida sim, provavelmente morta, mas talvez até viva, porquê não?, em outra casa, com outra família, vivendo outras e novas aventuras. Lembra aquele gato famoso da física, o gato de Schrödinger, sempre paradoxalmente vivo-morto dentro de uma caixa  (enquanto a deixamos fechada, sem abrir), nunca apenas vivo ou apenas morto. Claro, vale lembrar que as leis da mecânica quântica não funcionam no mundo macroscópico, o nosso, dos homens e dos gatos, mas o símile de Schrödinger tem essa singular função didática. Grande Byrata. Sua Mimi sempre viverá na memória, na sua, na dos teus e de nós, os leitores deste lírico livrinho. Abraços. 
[início-fim: 10/11/2016]
"Onde está Mimi?: A história de uma gatinha que sumiu", Byrata (Jorge Ubiratã da Silva Lopes), Santa Maria/RS: editora Rio das Letras, 1a. edição (2016), brochura 20x20 cm, 24 págs., ISBN: 978-85-65172-24-0

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

ulisses

Já havia lido essa versão mangá do Ulysses numa tradução para o inglês (publiquei um registro da divertida experiência num já distante março de 2013). Recentemente a LPM publicou a versão brasileira. Os desenhos são exatamente os mesmos. A tradução para o português não me parece ter se utilizado de material de nenhuma das três traduções já consagradas do livro (a do Antônio Houaiss, a da Bernardina Pinheiro e a do Caetano Galindo). Continuo achando o que já escrevi naquele antigo registro. O resultado não é ruim, mas obviamente condensado demais para que um sujeito possa dizer que conhece o Ulysses de Joyce (muito embora neste curioso início de século XXI talvez seja possível afirmar que leu-se o Ulysses deste jeito). Apenas algumas passagens emblemáticas de cada um dos 18 capítulos do livro são apresentadas. Algumas soluções são realmente interessantes, outras algo equivocadas, literais ou frouxas demais, sem nada das sutilezas de Joyce (traduzir o "Mrkgnao! the cat said loudly" por "Miaaau", é uma bobagem). Falta muito do humor de Joyce no livro (claro, o mangá oferece alguma graça, mas nada que se compare ao que Joyce faz). É sempre divertido ver Bloom, Molly, Stephen e tantos outros personagens com aqueles olhos enormes característicos dos mangás japoneses. Após esta familiarização talvez um jovem leitor se anime e algum dia enfrente o original (ou uma cinco traduções disponíveis para o português, afinal além das três citadas lá em cima, há duas outras publicadas em Portugal, a do João Palma-Ferreira e a do Jorge Vaz de Carvalho). Os prazeres que o Ulysses oferece nunca se esgotam, já se sabe. E haverá muito mais Joyce por aqui antes do final do ano. Vale.
[início: 28/10/2016 - fim: 16/11/2016]
"Ulisses", James Joyce, tradução de Drik Sada, Porto Alegre: LPM (coleção Pocket Mangá, v. 1220), 1a. edição (2016), brochura 105,x17,5 cm., 400 págs., ISBN: 978-85-254-3413-5 [edição original: Ulysses (Tokyo: Kazuki / East Press) 2013]

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

gigantes invioláveis

Karen Wolf produziu esse pequeno livro para divulgar, sobretudo ao público infantil, aquilo que está escrito num dos artigos da constituição federal, o quinto, aquele que que trata dos direitos e garantias fundamentais dos brasileiros (e dos estrangeiros residentes no país). Ele inventou cinco personagens (uma gata, uma papagaia, uma ursa, uma formiga e uma elefanta) para representar os cinco direitos fundamentais descritos nesse artigo da constituição (o direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade). As ilustrações foram produzidas em cores fortes, quentes, são antropomórficas e divertidas. Os textos são curtos e objetivos, afirmam didaticamente o que cada um dos cinco direitos significa, numa linguagem simples, porém precisa. Um adulto que se dispor a ler esse livro para as crianças (e que tenha alguma imaginação ou tino) saberá seguir a ideia básica de Karen, que é a de facilitar o acesso a informação, de forma a permitir que todos, pouco importando a idade, tenham alguma noção destas garantias constitucionais. Claro, é preciso ser um tanto otimista para acreditar que sua oferta seja bem acolhida pela sociedade brasileira, a meu juízo praticamente afogada num mar de hipocrisia e desinformação, quase toda ela escravizada mentalmente por velhas ideologias e práticas das mais condenáveis. Mas o projeto de Karen, mais que otimista, nasce da certeza que as futuras gerações de brasileiros podem sim ser capazes de transformar nosso país em um lugar melhor e mais digno. Parabéns minha cara. Longa vida aos "Gigantes invioláveis". Que eles cresçam e encontrem sempre um lugar nos corações e mentes de todos os brasileiros. Mesmo sendo o cínico incorrigível que sou rendo-me a seus esforços e entendo o grande valor de sua iniciativa. Vale.
[início - fim: 15/10/2016]
"Gigantes invioláveis", Karen Emília Antoniazzi Wolf, ilustrações de Isadora Forner Stefanello e Tiago Forner Stefanello, Santa Maria: Stefanello Studio, 1a. edição (2016), brochura 20x19,5 cm., 33 págs., sem ISBN