domingo, 19 de janeiro de 2020

100 vistas de tóquio

Shinji Tsuchimochi é um ilustrador japonês de aproximadamente quarenta anos. Entre 2013 e 2016 ele produziu uma série de ilustrações de ruas, restaurantes, paisagens urbanas e monumentos de Tóquio e arredores. A inspiração (também uma forma de homenagem) veio de uma série similar do famoso gravador Hiroshige Utagawa, mestre do ukyo-e do século XIX (o leitor curioso pode conhecer este trabalho na wikipedia e também neste ótimo site: woodblok prints). Os trabalhos de Tsuchimochi foram publicados originalmente em blog e também em redes sociais. As imagens não são reproduções fiéis dos lugares, há algo de surreal, artificial nelas, são quase sempre engraçadas, incluem apelos nostálgicos, emoções contidas, lirismo e esgajamento social. Em quase todas Tsuchimochi inclui ou referências da cultura pop ou típicos personagens folclóricos (yōkai, yurei, obake e kappa, entre outros), seres associados à forças sobrenaturais, demônios e monstros (li há tempos Hungry Ghosts, livro de Anthony Bourdain em que esses personagens aparecem). Tsuchimochi incluiu cinco ilustrações feitas em Osaka, os endereços exatos de todos os lugares, mapas da cidade, úteis para que alguém interessado em conhecer os locais originais possa fazer uma espécie de peregrinação até eles e também uma curta história em quadrinhos. A edição é bilíngue. O tradutor incluiu várias notas explicativas, que contextualizam a ideia básica das ilustrações. Trabalho realmente bonito, que merece ser visto com calma, talvez ao som de músicas tradicionais japonesas, ao som de shamisen, koto ou shakuhachi, sem medo, sem temor. Vale!
Registro #1486 (livro de arte #34) 
[início 05/01/2020 - fim 08/01/2020] 
"100 vistas de Tóquio", Shinji Tsuchimochi, tradução de Drik Sada, São Paulo: editora Estação Liberdade, 1a. edição (2019), brochura 14x21 cm, 128 págs. ISBN: 978-85-7448-309-2 [edição original: Shikaku Publishing Company (Tokyo, Japão), 2016]

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

giacomo joyce 3rd

Li pela primeira vez "Giacomo Joyce" na já icônica tradução de Paulo Leminski, publicada pela Brasiliense em meados dos anos 1980. Era um livrinho pequeno, com pranchas em fac-símile dos originais espelhadas à tradução de Leminiski. A obra é pequena, foi publicada postumamente, após ter sido encontrada nos guardados do espólio de James Joyce (de sua mulher, Nora Barnacle, mais precisamente), em 1968 (as anotações são de 1914, do período em que Joyce morava em Trieste. São aproximadamente cinquenta frases/aforismos/poemas livres. Lê-se em uns minutos, mas não se deve fazer isto. Os registros são como algo balsâmico, que precisam de mais tempo para aguçar todo seu poder, oferecer toda sua potência, demonstrar toda sua universalidade. Depois da de Leminski li meia dúzia de outras versões: a original, claro; as de José António Arantes e de Roberto Schmitt-Pryn, em português; e também várias em espanhol, catalão e italiano. Sempre é uma alegria voltar a estes registros, de um alter ego de Joyce, um professor que se enamora de sua aluna, mas sabe conter-se, purgando apenas literariamente sua lubricidade. Eclair Antonio Almeida Filho, tradutor e professor universitário (da UnB), publicou recentemente sua versão deste livro, editado pela pequena editora independente Lumme. O original do livro pode ser lido aqui! Diversão garantida. Vale! 
Registro #1485 (poesia #124) 
[início 02/01/2020 - fim 04/01/2020] 
"Giacomo Joyce", James Joyce, tradução de Eclair Antonio Almeida Filho, São Paulo, Lumme Editor, 1a. edição (2015), brochura 12x18 cm, 50 págs., ISBN: 978-85-8234-113-1

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

notes a peu de pàgina

Esse curioso livrinho foi publicado originalmente em 1997 por Antoni Pedrola, artista plástico e professor de pintura da Universidade de Barcelona. Em 2002 publicou esta segunda edição, ampliada e corrigida. Como resta registrado em seu subtítulo, neste livro estão reunidas anedotas, lendas e curiosidades do campo da pintura. São notas curtas, provavelmente resultado das aulas de Pedrola, onde ele fala da origem dos pigmentos, resinas e vernizes utilizados em pinturas (nos afrescos, pinturas a óleo, na tempera e nas iluminuras); de técnicas e procedimentos; dos maneirismos de alguns artistas; faz fragmentos biográficos de outros (Giotto, Rafael, El Greco, Delacroix). Não há preocupação em estender-se muito nos assuntos. Em geral as notas capturam apenas o aspecto lendário ou alegórico dos fatos. O livro inclui muitas referências, que aparentemente confirmam a origem das informações mais exóticas e surpreendentes, boa parte delas originalmente citadas em um livro do pintor Cennino Cennini (do Quattrocento italiano) e comentadas em quatro dezenas de livros catalães. Quatro belas e pequenas reproduções de gravuras também estão incluídas nele. Este livro brotou de minha organização recente da biblioteca. Veio na bagagem de doña Helga, de seus tempos barceloneses. Aprendi e diverti-me um bocado. Vale! 
Registro #1484 (livro de arte #33) 
[início 03/01/2020 - fim 06/01/2020] 
"*Notes a peu de pàgina: Llegendes, anècdotes i altres curiositats provinents del camp de la pintura", Antoni Pedrola, Barcelona: editora Addenda, 2a. edição (2002), brochura 13x19,5 cm, 65 págs., sen ISBN

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

antes não era tarde

De tempos em tempos cada cidade tem a fortuna de ter sua psique capturada com notável maestria (por sujeitos como João do Rio, Rubem Braga, Nelson Rodrigues ou Paulo Mendes Campos, no Rio de Janeiro; Luís Henrique Pellanda, em Curitiba; Humberto Werneck, em Belo Horizonte; Guilherme de Almeida, Lourenço Diaféria, Plinio Marcos, Antonio Penteado Mendonça e Matthew Shirts, em São Paulo, apenas para citar uns poucos). Aqui nos pagos do Rio Grande, nos últimos anos, tenho lido regularmente as cousas de Pedro Gonzaga. Leio ele no jornal gaúcho ZeroHora, usualmente nas quartas-feiras. É certamente meu favorito contemporâneo, dentre os cronistas sulinos. Suas cousas são exemplares no gênero, registros de um cotidiano específico (a sofisticação de quem gravita o mundo dos livros e da cultura aqui no Sul), que provocam empatia no leitor, mas não só isso. A riqueza da linguagem e o controle dos efeitos também se destacam. Há dois anos li "O livro das coisas verdadeiras", uma seleção cronológica de 53 de suas crônicas. Nesse "Antes não era tarde" Gonzaga reuniu outras 54, publicadas entre 2016 e 2019. Desta vez ele optou por uma reunião temática, que parte de registros da infância, segue pela juventude, depois por sua experiência como músico amador, seus anos de iniciação como cronista profissional e as mais recentes, que ainda ecoam notícias vagamente contemporâneas. Esta sequencia temática acompanha portanto seus anos de formação; sua constelação familiar, de amigos e professores; seu cotidiano de viagens, com os pais e depois com amigos; a experiência da leitura, influências, descoberta de autores, o amor pela palavra, o eterno aprendizado, seu auto adestramento no oficio de tradutor e escritor. As crônicas da última seção são mais experimentais, parecem exercícios com a forma, registros de espantos de um mundo que sabe ser maravilhoso, mas que pode nos brutalizar, se não nos permitirmos olhar as coisas com os olhos certos, os de quem antes é honesto consigo mesmo, não aos outros. Vale! 
Registro #1483 (crônicas e ensaios #266) 
[início 19/12/2019 - fim 03/01/2020] 
"Antes não era tarde", Pedro Gonzaga, Porto Alegre: Arquipélago Editorial (A arte da crônica, vol. 9), (1a. edição) 2019, brochura 14x21 cm., 144 págs., ISBN: 978-85-5450-033-7

domingo, 5 de janeiro de 2020

dois meninos

Em "Dois meninos", de Leonardo José Andriolo, administrador e professor universitário, encontramos onze contos curtos e uma breve crônica. São histórias honestas, se não exatamente inventivas, algo produzido por alguém que está se familiarizando com a forma e não tem medo de parecer piegas, de experimentar variações, de mesclar a memória afetiva de antepassados com alguma curiosidade literária. A ambição confessa do autor é "mexer com a sensibilidade do leitor e, se possível, surpreendê-lo". Os contos são bem escritos, e se deixam ler sem pressa. Alguns são relatos que brotaram de histórias familiares, são homenagens a pessoas queridas, a seu legado e esforço; um terço deles são causos que flertam com o gauchismo, com o realidade da imigração europeia nestas terras, aquele tipo de histórias que se contam em reuniões de amigos, de origem indeterminada, mas que parecem já ter sido ouvidas de/ou sobre algum parente; outro terço são contos clássicos, que exploram as possibilidades do gênero, com um tanto mais de liberdade, originalidade e risco. Gostei particularmente de "A moça dos olhos tristes", talvez uma boa releitura de uma novela de Dürrenmatt e de "A visita", uma boutade sobre o encontro entre o imperador Pedro II e um colono no interior do estado. Vamos a ver o que o Andriolo vai nos oferecer no futuro. Segue o baile. Vale!
Registro #1482 (contos #169) 
[início: 27/11/2019 - fim: 29/11/2019]
"Dois meninos", Leonardo José Andriolo, Cachoeira do Sul: Editora Coralina, 1a. edição (2019), brochura 14x21 cm., 140 págs., ISBN: 978-85-80360-10-9

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

marcelo grassmann

Na tarde quente do último dia do ano, para fugir mentalmente do frenesi e ansiedade dos festejos, decidi ler algo com calma. Como havia passado parte dos dias anteriores organizado os livros de casa, topei por acaso com esse volume do Marcelo Grassmann. Esse encontro conduziu-me a um lugar especial de meu palácio da memória, lugar que não frequentava há tempos. Lembrei-me que dei um exemplar deste livro de presente para a Helga, logo nos primeiros meses de nosso relacionamento, mas como eu não era indiferente à beleza do livro e ainda não imaginava que um dia nossos livros estariam todos juntos, num mesmo apartamento, tratei de comprar um outro exemplar, só para mim. Fiz isso com pelo menos uma vintena de outros livros de arte, ai de mim. Pois neste volume, publicado originalmente em meados dos anos 1980, estão reunidos mais de uma centena de reproduções de desenhos, litografias, xilografias e gravuras em metal de Marcelo Grassmann, para mim o mais especial dos muitos bons gravadores que nasceram no Brasil (ele era paulista, nasceu em 1925 e morreu há sete anos, em 2013). Grassmann era muito respeitado pelo seu domínio das técnicas gráficas e de impressão. Seu trabalho é povoado por figuras fantásticas, um universo plástico onde mitologia, surrealismo, fantasia, inconsciente e imaginação se fundem. Em função de sua atividade também como professor Grassmann conhecia bem História da Arte, de forma que são incorporados em seus trabalhos várias citações e elementos das formas artísticas. Seus trabalhos provocam mesmo aqueles que não têm o olhar treinado, de especialista, uma miríade de associações, uma festa para os sentidos. O jogo de claro e escuro, de luzes e sombras, particularmente importante nestas gravuras e desenhos, serviu-me para esquecer dos assuntos do dia, relaxar da mundanidade forçada às quais as redes sociais parecem querem nos prender, intoxicando-nos. Foram horas de puro deleite. O livro inclui um longo ensaio, assinado por Pedro Manuel, referências bibliográficas e uma curta cronologia da vida de Grassmann. Se em 2019 dediquei-me muito mais aos ensaios e à poesia que aos romances e aos contos, acredito que em 2020 farei mais incursões pelo mundo da arte, pelas exposições, pelas catedrais artísticas, pelos mitos, pelas Citeras espirituais, aquele tipo de aventura que oxigena nossos sentidos. Vamos a ver. Vale! 
Registro #1481 (livro de arte #32) 
[início: 31/12/2019 - fim: 01/01/2020]
"Marcelo Grassmann", Marcos A. Marcondes (organizador), São Paulo: Art Editora Ltda, 1a. edição (1984), capa-dura 24x30 cm., 140 págs., sem ISBN

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

balanço de 2019

Li bastante em 2019. Tantos livros quanto em 2018, muito embora naquele ano eu tivesse deixado pelo menos uns quinze volumes lidos sem registrar, cansado que estava no final. Neste 2019 alcancei registrar tudo que de fato li. As promessas literárias robustas anteriores, de 2017 para trás (reler o Cervantes, terminar o Tristram Shandy, ler as muitas novas traduções dos russos, terminar um fundamental Canetti, voltar com afinco aos gregos e aos mitos, etc e tal), restaram perdidas. Mas, assim como em 2018, fiz desvios felizes, encontrei bons veios literários, variados títulos, cousas que fizeram à essa alquebrada alma um grande bem. Neste ano produzi registros de leitura de 18 romances; 25 de volumes de crônicas ou de ensaios; 9 de contos; 21 de poesia; 16 de romances policiais; 9 de memórias, perfis ou relatos; 8 de gastronomia; 4 de livros de arte, 3 boas peças de teatro e 13 de outras classes de divertimentos (cartas, aforismos, técnicos, fotografias, catalogos de exposições, cartuns e mangás, infanto-juvenis). Li muita poesia neste 2019, como há muito não fazia. Continuei lendo os bons ensaios editados pela Âyiné. Li também minha boa cota de 33 livros em espanhol, aproximadamente 26% do total, mas apenas seis livros em inglês. Continuei com o bom ritmo de leituras dos romances policiais de Donna Leon, senhora de Veneza e da fina ironia. Li dois bons Paulo Scott e dois bons Joca Terron, dois autores que estão produzindo cousas muito mais robustas que a média dos demais autores brasileiros. Li boas traduções de autores holandeses, engendradas por Daniel Dago. O tradicional Ponto de Cinema (de Santa Maria), fechou definitivamente num 17 de junho, um dia após o Bloomsday, evento que não pude organizar adequadamente neste ano por variados motivos, inclusive o mais fundamental, a ausência do Ponto de Cinema, que nos recebia desde 1996, terceiro ano de nossos festejos locais. De qualquer forma, Doña Lourdes e Doña Ana estão em um novo local, o Bar da Casa, e o Bloomsday Santa Maria 2020 acontecerá nos domínios destas duas mulheres altas, melhorado e renovado. Minha média histórica de leitura segue estabilizada. Nos treze anos do blog li cerca de 114 volumes por ano, mais de 9 por mês, 2 por semana, um terço de livro por dia. Já há 1480 registros de leitura no "Livros que eu li" (desde 01 de janeiro de 2007). Resumidamente posso dizer que são 862 de ficção (romances, novelas, contos, poesia e peças de teatro); 373 de não ficção (ensaios, crônicas, biografias, perfis, didáticos e catálogos de arte) e 245 de divertimentos variados, absolutamente não classificáveis em categorias simples, mas todos eles de alguma forma prazerosos. Esse foi um ano em que dois prêmios Nobel de literatura foram outorgados (para o austríaco Peter Handke e para a polonesa Olga Tokarczuk); em que a aventura febril das livrarias Saraiva e Cultura alcançou a seara do estelionato, pois ambas jamais irão pagar o que devem a centenas de indivíduos e a dezenas de pequenas editoras; foi o ano em que fiz apenas minha cota regimental de viagens pelo Brasil para as avaliações do MEC. Helga e eu fomos as praias no verão e ficamos em casa nas férias de inverno. Morreu o genial Andrea Camilleri, de quem já li tantas maravilhas (agora espero a publicação do Riccardino, seu réquiem já há tanto tempo escrito, o livro sobre a morte do comissário Montalbano). Já se passaram três anos da morte de doña Vic e dois do primeiro e verdadeiro Guina. No final de 2019 morreu Salen, nosso Buda revivido e privado, que tantas alegrias nos deu. Das leituras de 2020 pouco sei dizer, sei antecipar. Os livros irão me encontrar, como sempre fazem. Organizei as estantes durante as festas de fim de ano. Tenho pelo menos 4 mil livros nas prateleiras, nas estantes, nos nichos, ao alcance da mão e do acaso. Sei que eles me encontrarão por aí, brotarão dos guardados, fazer-se-ão lembrados por uma epifania qualquer, como sempre acontece. Sei também que uma legião de escravos mentais e a turma podre do Alzheimer moral certamente continuará a tentar me incomodar, mas Humphrey Bogart já me ensinou que não se deve perder tempo desprezando alguém, basta esquecê-los, mantê-los por profilaxia bem distantes. Bueno. É quase hora de fazer-se ao mar bravio de 2020. Já é tempo, e, como já disse no ano passado: Thalatta! Thalatta!

sábado, 28 de dezembro de 2019

os judeus e as palavras

Esse livro acompanhou-me por muitos meses. Comecei a ler ainda em janeiro, semanas após a morte de Amós Oz, há exatamente um ano, num 28 de dezembro como hoje. De Oz, seminal escritor israelense, que tantas maravilhas produziu, só registrei aqui os poucos livros que li após 2007: Sumchi, Escenas de la vida rural, A caixa-preta, e El mismo mar. Todavia, logo o esqueci em algum canto, "Os judeus e as palavras" não era o tipo de livro que se deixava ser lido próximo ao mar e sob sol forte onde eu estava (muito embora deva ter sido escrito nestas condições, pois Oz vivia em Tel Aviv em seus últimos anos). Depois, no final de maio, passei a ler com disciplina, mas li aos poucos, tentando acompanhar bem as reflexões de Amós Oz  e sua filha, Fania Salzberger, uma professora universitária. Se trata-se de uma obra produzida a quatro mãos, o leitor aprende aos poucos a distinguir as ênfases particulares de cada um deles, mesmo quando não é lembrado explicitamente por meio da formula "o romancista entre nós" ou "a historiadora entre nós", que aparece várias vezes no livro. O volume é dividido em quatro capítulos que tem aproximadamente a mesma extensão, 40-60 páginas, e um curto epílogo. Em "Continuidade" é desenvolvido o argumento principal do livro, sua ambição grafada na apresentação: descrever como antes é o amor pelas palavras e a familiaridade precoce com a conversa, o diálogo, a experiência do debate, o que define especialmente o povo judaico de todos os demais. Dito de outra forma, eles argumentam que antes do étnico e do político, o que define os judeus é a história comum e sua interpretação, coletiva e sempre reconstruída, que é passada de indivíduo a indivíduo, de família a família, de rabino a rabino, de yeshiva a yeshiva, de Shtetl a Shtetl. No segundo capítulo, "Mulheres vocais", para mim o mais interessante do conjunto, os Oz defendem que nenhuma outra sociedade, antes do início da modernidade, deu voz às mulheres, as registrou em documentos, as mitificou em histórias tradicionais (ao menos nenhuma outra tem um conjunto tão poderoso de heroínas para cantar e louvar, desde o início dos tempos). Essas poderosas vozes femininas, que ecoam da Torá e do Talmude, são as vozes de uma miríade de mulheres que transmitiram desde sempre a seus filhos a condição e particularidade do povo judaico, alicerçando sua perenidade. "Tempo e atemporalidade", terceiro capítulo do livro, gravita em torno da evolução das palavras, da etimologia do hebraico, de como os jovens, estimulados a estudar a Torá, aprendiam a lembrar, a aprender, a discutir. No quarto e último capítulo, "Cada pessoa tem um nome; ou os judeus precisam do judaismo?", o tom é ligeiramente diferente. Oz e sua filha provocam o leitor a entender a separação entre o hebraico moderno e o hebraico bíblico, a separar a cultura israelita contemporânea da religião e das tradições, entender que o Israel, como estado, é algo bem diferente que o judaismo praticante em todos os lugares do mundo contemporâneo. Que judaismo é uma cicilização. No epílogo os Oz sugerem que o leitor tente imaginar ter lido este livro substituindo sempre  a palavra judeu pela palavra leitor. E é para este leitor - o leitor capaz de se incluir nesta aventura - que o livro foi imaginado. O leitor curioso pode fazer bom uso das extensas notas (chamadas aqui de fontes); de um fundamental glossário e de um detalhado índice onomástico. Apesar de ter terminado de ler há três ou quatro meses, resolvi finalizar o ano com este registro. O formato de interlocução louvado no livro é algo que deveríamos fazer. Claro, vivemos tempos terríveis, onde apenas ouvir os argumentos de outros parece ter se tornado impossível, mas se temos algum apreço pelas eventuais novas gerações, deveríamos ter essa crença na possibilidade de que alguma verdade ou valor possam ser transmitidos, de pais para filhos; de amigos para amigos; de vizinhos a vizinhos; e, até mesmo, entre completos desconhecidos. Talvez para isso - como se diz em um velho filme do Woody Allen - precisássemos de ter a capacidade de amar (pois o universo é indiferente aos homo sapiens). Paciência. Vamos em frente. Em 2020 tem mais. Vale! 
Registro #1480 (crônicas e ensaios #265) 
[início: 30/05/2019 - fim: 07/09/2019]
"Os judeus e as palavras", Amós Oz, Fania Oz-Salzberger, tradução de George Schlesinger, São Paulo: editora Schwarcz (Companhia das Letras / Penguin Random House), 1a. edição (201r), brochura 14x21 cm., 251 págs., ISBN: 978-85-359-2523-4 [edição original: Jews and Words (Berlin: Jüdischer Verlag Berlin) 2013]

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

patuá

Mell Renault, mineira de Belo Horizonte, oferece neste seu "Patuá" três conjuntos de propostas poéticas. No primeiro conjunto encontramos 37 poemas curtos, livres como a vida, que tratam das cousas da terra, dos elementos e dos fenômenos naturais, dos animas e das plantas, das estações e passagem do tempo. São construções que ambicionam congelar momentos, situações corriqueiras e mágicas da vida. No segundo conjunto a forma é distinta. Mell Renault faz uso de registros aforísticos (36 é o número exato), registros de estados de ânimo, reflexões curtas que mesclam o sonho e a memória, de um eu interior da poeta que se deixa observar, que parece filtrar-se nas palavras, que se declara, se posiciona. No terceiro conjunto, novamente com versos livres convencionais (38 deles), é onde o eu da poeta e as coisas interagem (é uma seção menos cerebral e distante que aquela primeira, onde apenas a abstração dos conceitos parecia ter força). Há algo mais visceral e orgânico nesta última seção, fala-se das  formas da água, das aves, flores e árvores, de um ser pensante que se relaciona de fato com a natureza, não apenas a observa ou descreve. A edição da Coralina é muito bonita, inclui várias ilustrações abstratas em preto e branco, assinadas por Carlos Figueiredo. É isso. Vamos em frente. Vale!
Registro #1779 (poesias #122) 
[início: 01/12/2019 - fim: 09/12/2019]
"Patuá", Mell Renault, Cachoeira do Sul: Editora Coralina, 1a. edição (2019), brochura 14x21 cm., 132 págs., ISBN: 978-85-80360-07-9