domingo, 19 de maio de 2019

torquato neto

Torquato Neto foi dos mais inventivos poetas de seu tempo, um tempo que ele mesmo abreviou, talvez por não suportar os terríveis anos que se sucederam a instalação do regime militar no Brasil, nos anos 1960, talvez por ser um depressivo crônico, talvez por ser o mundo um lugar revoltante para qualquer pessoa sensível, talvez por alcoolismo, vai saber. Muitas canções de sucesso de Gilberto Gil, Jards Macalé, Caetano Veloso, Edu Lobo, Titãs e tantos outros foram concebidas a partir de poemas seus. Cláudio Portella, poeta cearense e produtor/agitador cultural dos bons, organizou uma seleção de poemas de Torquato Neto para a Global, competente editora paulista. Dele, Portella, já havia lido o potente "Paraphoesia" e o provocante "Fraturas de relações amorosas". Do Torquato li minha cota selvagem nos anos 1980, mas acho que só lembrava das lendas e sucessos associados a ele que de sua produção poética. A bem da verdade fazia duas décadas que não lia algo dele. O resultado da seleção de Portella é um livro bem bacana, bem editado, que apresenta ao neófito leitor aqueles poemas viscerais de Torquato, que misturavam concretismo, jornalismo, forma, olhar privilegiado da realidade, denúncia, raiva, contracultura e genuíno amor pelas cousas do Brasil. São 113 poemas, livres e soltos, nem um pouco convencionais, supérfluos, nem um pouco malemolentes. O leitor é obrigado a gastar um tanto de tempo nos poemas, não são fáceis de ler. O livro inclui uma apresentação de Cláudio Portella e uma cronologia biográfica que pode ser lida no site Dicionário Cravo Albin da MPB, projeto bacana da UNIRIO. Vale!
Registro #1402 (poesia #113) 
[início: 19/01/2019 - fim: 21/03/2019]
"Melhores poemas: Torquato Neto", Torquato Neto, seleção de Cláudio Portella, São Paulo: Global Editora (Pocket / coleção Melhores Poemas),1a. edição (2018), brochura 13,5x18 cm., 200 págs., ISBN: 978-85-260-2380-2

sexta-feira, 17 de maio de 2019

poesia religiosa

Achtung! Não posso dizer que li esse livro completamente, mas li sim os poemas incluídos nele e algo esparso do rico material que Marcus de Martini acrescentou aos poemas religiosos de John Donne que traduziu. Acontece que esse volume da UFSC reúne pelo menos quatro portentos: a edição bilíngue de poemas religiosos de John Donne; uma exaustiva análise das circunstâncias e importância destes poemas (um robusto paper); uma miríade de notas de tradução, que dão conta dos critérios utilizados pelo tradutor e um "Excurso", uma digressão sobre a Poesia e a Teologia de John Donne, a recepção dos poemas ao longo do tempo (Donne é um poeta do século XVII). De resto também encontramos no livro uma apresentação de Lawrence Pereira, premiado tradutor e professor. Marcus de Martins é um jovem pesquisador, defendeu seu doutoramento em 2011 e é professor da UFSM. Em 2017 ele ganhou o Concurso Cleber Teixeira de Tradução de Poesia da UFSC. Isso possibilitou sua edição deste belo volume. Ao leitor é oferecido todo um aparato técnico de como deu-se a tradução dos poemas. Ojo. Vamos ver o que mais sairá da lavra deste jovem pesquisador. Enfim. Os poemas que de fato li são 26 sonetos, 3 hinos e 1 outro, de métrica diferente, também de inspiração religiosa, de tema religioso. Mesmo o mais ferrenho e endurecido coração ateu, como parece ser o meu, acompanha as belas propostas, imagens e o deslumbramento captado por Donne, com genuíno prazer. Comprei este livro na Feira do Livro de Santa Maria do ano passado e só lembrei, ai de mim, que devia registrar algo sobre ele aqui, por estes dias, quando a Feira deste ano também já terminou. Bom divertimento. Vale!
Registro #1401 (poesia #112)
[início: 16/05/2018 - fim: 19/04/2019]
"Poesia religiosa: Antologia", John Donne, tradução, seleção e notas de Marcus de Martini, Florianópolis: Editora da UFSC, 1a. edição (2017), brochura 12x19 cm., 319 págs., ISBN: 978-85-328-0809-7

quinta-feira, 16 de maio de 2019

o valor das ideias

Pedro da Silva Nava, o melhor dos memorialistas brasileiros, disse num dia dos anos 1980, em uma famosa entrevista: "A experiência é um automóvel com os faróis virados para trás, (...) só serve para o sujeito dizer 'fiz bem', 'fiz mal' ". Marcos Lisboa e Samuel Pessôa, bem mais jovens e otimistas que o velho Nava, parecem não acreditar na eficiência desta sentença. Neste "O valor das ideias" eles oferecem ao leitor algo das reflexões e experiências deles sobre o passado recente do Brasil e dos brasileiros, e acreditam que os possíveis futuros do Brasil poderão ser gestados a partir de diálogos, debates, interlocução inteligente. São ensaios que tratam do mundo das ideias, da economia e da política. Quase todos os 23 textos reunidos neste volume foram anteriormente publicados em jornal (Folha de São Paulo) e em uma revista (Piauí), por eles dois e outros 11 intelectuais brasileiros. Alguns textos foram publicados e podem ser acessados em um blog do Instituto Brasileiro de Economia (IBRE/FGV). Os ensaios estão organizados em quatro conjuntos, correspondendo a debates (ou a diálogos, como preferem os autores), que aconteceram em 2016, 2017 e 2018. Os diálogos foram travados sempre com vigor, algumas vezes no limite da fúria, mas sempre com civilidade, autocontenção (para usar um termo caro a todos os sujeitos que deles participaram). O mais longo dos quatro conjuntos de diálogos, que ocupa 40% do livro, foi entre Ruy Fausto e Samuel Pessôa, merecendo contribuições de Marcelo Coelho e de Marcos Lisboa. Trata-se de discussões sobre o papel das esquerdas na sociedade brasileira contemporânea, se as estratégias e as práticas deste grande conjunto de agremiações nos últimos anos devem ser modificadas ou mantidas. Dois outros conjuntos de ensaios, de igual extensão e que juntos somam 50% do livro, correspondem ao debate entre Fernando Haddad e Marcos Lisboa (sobre os quatorze anos de governos petistas em contraste com os oito anos de governo FHC) e ao debate entre Celso Rocha de Barros, Marcos Lisboa e Samuel Pessôa (sobre "comedimento", ou "senso de medida", ou como a "virtude que nos protege da tragédia", nas palavras de um interlocutor deles três, Helio Gurovitz, que pode ser acessado aqui: clika!). Um quarto e último conjunto, que é o menor de todos, é também o mais antigo e o mais frouxo deles, acho eu. Trata-se de ensaios onde são contrastadas as práticas de economistas políticos ortodoxos e heterodoxos. Com a exceção dos ensaios publicados no blog do IBRE, acho que já havia lido quase todos os demais, quando foram originalmente publicados. Relendo-os agora não é muito difícil de aceitar que naquela época ainda havia tempo para evitar a tragédia absoluta que experimentamos hoje, 2019, em todos os setores da sociedade. Agora parece tarde demais para tudo, serão décadas e décadas perdidas, em sucessão, antes que alguma inteligência volte a administrar as coisas por aqui. Todavia, a se acreditar no otimismo deles dois, e de boa parte de seus interlocutores, talvez seja possível que em algum momento o Brasil saia do absoluto atoleiro em que se encontra. Em tempo: Esse é o registro número 1400 deste Livros que eu li, 1400 leituras feitas desde janeiro de 2007. Foram 0,30 livros por dia, 2,2 por semana, 9,5 por mês, 117 por ano. Quantos mais terei a paciência de fazer? Não muitos mais, eu suponho. Vamos a ver. Vale!
Registro #1400 (crônicas e ensaios #256)
[início:01/05/2019 - fim: 15/05/2019]
"O valor das ideias: debates em tempos turbulentos", Marcos Lisboa e Samuel Pessôa, diálogos com Ruy Fausto, Fernando Haddad, Marcelo Coelho, Celso Rocha de Barros, Helio Gurovitz, Luiz Fernando de Paula, Elias M. Khalil Jabbour, José Luis Oreiro, Paulo Gala, Pedro Paula Zahluth Bastos, Luiz Gonzaga Belluzzo, prefácio de Renato Janine Ribeiro, São Paulo: editora Schwarcz (Companhia das Letras / Penguin Random House), 1a. edição (2019), brochura 14x21 cm., 459 págs., ISBN: 978-85-359-3215-7

quarta-feira, 15 de maio de 2019

guia fantástico de são paulo

Ángela Léon é uma ilustradora e designer espanhola. Durante um período longo ela morou em São Paulo e pelo jeito aprendeu a amar aquela cidade superlativa, de maravilhas e mistérios, de oportunidades sem fim e de inutilidades bizarras. Neste seu "Guia fantástico de São Paulo" ela oferece ao leitor uma centena de desenhos que retratam algo da arquitetura, das gentes, dos mercados, do cotidiano, feiras livres, bares e orografia da cidade. São peças que certamente foram produzidas ao ar livre, não em um atelier ou estúdio, são trabalhos impregnados da vida pulsante dos paulistanos e demais viventes daquela infinita urbe. Ela divide os desenhos em dois grandes conjuntos, o das paisagens (dos rios, prédios, ruas e espaços públicos) e o das expressões culturais (ilustrando a passagem do tempo e das estações, os eventos e festas, registros da variedade ética da cidade). Uns curtos textos, fragmentos de reflexões sobre a cidade, complementam as ilustrações. Trata-se de um livro de arte, um volume ao qual podemos voltar displicentemente todas as vezes que as saudades de São Paulo se tornarem opressivas, tóxicas, insuportáveis. Só se cansa de São Paulo quem antes já se cansou da vida. Acho que a Ángela León soube bem disto. Vale!
Registro #1399 (livro de arte #29)
[início - fim: 22/02/2019]
"Guia fantástico de São Paulo", Ángela León, São Paulo: editora Lote 42, 2a. edição (2015), brochura 17x24 cm., 168 págs., ISBN: 978-85-66740-38-7

domingo, 12 de maio de 2019

una historia de españa

As 92 crônicas de Arturo Pérez-Reverte reunidas neste "Una historia de España" já haviam sido publicadas em jornal, na coluna "Patente de Corso" do XL Semanal. Elas foram produzidas aos poucos, publicadas ao longo de quatro anos, de maio de 2013 a agosto de 2017. Trata-se de "una visión muy personal de la historia de España", um projeto realmente ambicioso, certamente didático, acho que pensado originalmente para que os jovens espanhóis entendam um tanto melhor os fatos mais marcantes de aproximadamente 2000 e tantos anos da história de seu país. Revisadas apenas tipograficamente por ocasião desta edição em livro, as crônicas permitem a alguém que nunca se interessou pela história da Espanha ou que se aborreceu com ela nos bancos escolares, uma experiência realmente potente. Pérez-Reverte é senhor da linguagem jornalística, rápida, objetiva, precisa, substantiva. Ele nunca é hipócrita. Sempre escolhe um lado de qualquer questão espinhosa, sempre oferece ao leitor oportunidades de reflexão. Ele não se poupa de usar palavras fortes, ironias brutais, quase no limite da ofensa, mas as pessoas que ele achincalha ou já morreram há muitos anos ou vivem num justo ostracismo, por conta de seus crimes e atos vis. De fato são palavras duras e brincadeiras que antes facilitam o entendimento de temas que precisariam de parágrafos inteiros para serem bem explicados em tom solene. Pérez-Reverte navega pelos clichês que acostumamos a associar a Espanha e aos espanhóis ("A tierra de la paella, el flamenco y la mala leche"); por mitos históricos, lugares comuns e lendas urbanas ("nuestra siempre apasionante, lamentable y muy hispana historia"); por biografias romantizadas, invenções, personagens de romances e peças de teatro; esclarece temas mistificados por ideias feitas que frequentam tanto mesas de bar quanto gabinetes universitários ("España seria un país estupendo si no estuviera lleno de españoles"). Seu sarcasmo parece encantar até mesmo conservadores ou tradicionalistas, suas ironias devem por certo divertir a juventude apressada. Escritas cronologicamente, as crônicas tornam-se progressivamente mais amargas, mais cínicas, menos esperançosas. "Yo creo que esa pérdida - del control de la educación y la cultura - es irreparable, pues sin ellas somos incapazes de asentar un futuro", ele diz no parágrafo final. Talvez por isso mesmo ele pare de contar sua historia em meados dos anos 1980, quando da consolidação da redemocratização espanhola, da vitória do partido socialista nas eleições de 1982 e da entrada do país no Mercado Comum Europeu, em 1986. Talvez seu estilo jocoso não seja o mais adequado para falar dos dias que correm, de pruridos politicamente corretos. De qualquer forma ele não esgota nenhum assunto. O leitor só corre o risco de achar que fazer história (ou escrever sobre história) é fácil. Enfim, diversão e aprendizagem garantida. Em tempo: Ele incluiu, "a modo de prólogo", quase quarenta epígrafes mordazes, que parecem sintetizar com fúria a psique espanhola, desde autores clássicos gregos e romanos (Estrabón, Tito Lívio, Apiano), passando por Cervantes, Bartolomé de las Casas, Macaulay, Von Humboldt, Voltaire e Napoleão até autores e sujeitos do século XX, como Hitler, Ortega y Gasset, Garcia Lorca, Julián Marías. Impressionante compilação. Vale! 
Registro #1398 (crônicas e ensaios #255) 
[início: 18/04/2019 - fim: 08/05/2019]
"Una historia de España", Arturo Pérez-Reverte, Barcelona: Alfaguara / Penguin Random House Grupo Editorial, 3a. edição (2019), brochura 15,5x24,5 cm., 254 págs., ISBN: 978-84-204-3817-7

sábado, 11 de maio de 2019

melhores frases, sentenças e pequenos contos

Cláudio Portella é uma espécie de Karl Kraus cearense, nordestino, brasileiro. É jornalista, poeta, produtor cultural. Super original, mascate de si mesmo, sociólogo selvagem, ele produz livros, poemas e aforismos lapidares, como poucos no Brasil que eu conheça, sem fazer concessões a quem quer que seja, sempre usando sua mente e pena em direção a alvos certeiros. Ojo. Como ele mesmo lembra, "fazer crítica literária séria no Brasil é complicado: vivemos de metáforas e tapinhas". E eu aqui só nas metáforas e só nos tapinhas. Talvez essa minha crítica não seja séria. Paciência. Esse seu pequeno livro entrega o que o título bem promete. Trata-se de uma coleção de frases, sentenças e material que ele chama de pequenos contos. Decidi registrar aqui no Livros que eu li todos eles como aforismos. São peças realmente deliciosas, com as quais o leitor ora ri (quando as frases desnudam comportamentos estranhos a nossas práticas), ora repudia (quando as sentenças mostram uma nesga que seja de nossas pequenas misérias, mentiras e medos). As frases são quase sempre bem humoradas, provocativas, sarcásticas. De vez em quando o Cláudio se traveste de chato, e manda mensagens lá de sua Fortaleza fundamental, perguntando se queremos comprar o último livro dele (o sujeito é inquieto, sempre está a produzir algo). Mas não chega a ser mal educado. Aceita "de boas", como se dizia tempos atrás, nossas respostas elípticas. De qualquer forma, estou seguro que qualquer leitor que por acaso encontre este seu "Melhores frases, sentenças e pequenos contos de Cláudio Portella" é sim um leitor de sorte, que ganhará um bom par de horas de honesto entretenimento, um bom material para reflexão. Vale!
Registro #1397 (aforismos #10)
[início: 06/04/2019 - fim: 08/04/2019]
"Melhores frases, sentenças e pequenos contos de Cláudio Portella", Cláudio Portella, Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora  (Edições CP), 1a. edição (2018), brochura 12x19 cm., 16 págs., ISBN: 978-85-420-1249-1

quinta-feira, 9 de maio de 2019

terra e paz

Yehuda Amichai foi um dos mais importantes poetas israelenses de seu tempo, e é celebrado sempre pela força de seus poemas e perene lucidez de suas reflexões. Nesta antologia, assinada pelo professor da USP e especialista em literatura hebraica, Moacir Amâncio, encontramos 79 poemas. Quase todos os poemas são curtos, cantam a cidade de Jerusalém, a família, o mistério das palavras, as diferenças entre os homens, o amor pelo seu país, as festas e dias de celebração, os personagens da história judaica, a passagem do tempo no humor e na vida do poeta e de seus concidadãos, a força de sua história e seu idioma. Três poemas são mais longos, e prendem o leitor num redemoinho de emoções: um em que o narrador explica como não foi um dos muitos milhões de mortos no Shoá, um que fala de um menino que se perde na história de seu país inventado, um em que fala do filho que parte para a guerra. O narrador fala sobre o cotidiano, a vida, as coisas que experimenta. Percorre as ruas da cidade e captura fragmentos de memória e espantos. São poemas que se deixam ler com calma, que provocam reflexões e surpreendem todo aquele que se aproximar do livro com o coração leve, sem restrições, sem compromissos ideológicos. O último poema escolhido por Moacir Amâncio em sua antologia diz: "Dentro do museu novo em folha / uma sinagoga antiga. / Dentro da sinagoga / eu. / Dentro de mim / meu coração. / Dentro do meu coração / um museu. / Dentro do museu / uma sinagoga, / dentro dela / eu, / dentro de mim / meu coração, / dentro do meu coração / museu." Esse poema infinito explica Yehuda Amichai, que viveu para registrar as maravilhas e a fortaleza da cultura judaica. Vale!
Registro #1396 (poesia #111)
[início: 01/04/2019 - fim: 29/04/2019]
"Terra e paz: antologia poética", Yehuda Amichai, tradução de Moacir Amâncio, Rio de Janeiro: Bazar do Tempo Editora, 1a. edição (2018), brochura 14x21 cm, 184 págs. ISBN: 978-85-69924-45-6

quarta-feira, 8 de maio de 2019

o sonâmbulo canta no topo do edifício em chamas

De Joca Reiners Terron só havia lido livros de ficção, quatro densos e provocativos bons romances: "Não há nada lá", "Guia de ruas sem saída" e "A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves" e "Noite dentro da noite". Recentemente ele publicou um livro de poesias, "O sonâmbulo canta no topo do edifício em chamas". No miolo do livro estão 63 poemas e na capa, contracapa e orelhas 12 belas fotografias e um último poema. São poemas onde sempre um urbano, incógnito e algo preocupado narrador fala de seus afazeres, libera reflexões, canta seu cotidiano e dúvidas, narra fragmentos de memória. Um poema apresenta os demais: quatro conjuntos de poemas quase sempre curtos e dois longos, separados. Nos dois poemas mais longos o narrador queima ou vê queimar seu passado, os registros fotográficos de uma vida, numa espécie de inventário maldito, ou imagina se sua vida poderia ser emulada em um outro planeta, que orbita um estrela, parecida com o nosso Sol, distante. Nos poemas curtos o narrador fala da vida, de uma filha, de um casamento, faz sociologia selvagem e interpreta notícias, acontecimentos, com sarcasmo, vê pessoas de longe e imagina seus destinos, acompanha o burburinho da noite em sua cidade como se fosse um dramaturgo cruel e cínico. Talvez, talvez não, certamente, essa minha tentativa de enfeixar os poemas em temas, ritmos, musas, seja uma bobagem sem fim. Cada poema se defende sozinho, encontrará seu leitor, tocará uma fibra mental, provocará um efeito literário em alguém disposto a enfrentar os monstros alheios. Não mais que isso um bom e honesto poeta pode esperar. Evoé Terron, evoé. Vale!
Registro #1395 (poesia #110)
[início: 01/04/2019 - fim: 19/04/2019]
"O sonâmbulo canta no topo do edifício em chamas", Joca Reiners Terron, São Paulo: Pedra Papel Tesoura Editora, 1a. edição (2018), brochura 19,5x25 cm, 120 págs. ISBN: 978-85-907516-7-0

terça-feira, 7 de maio de 2019

sofrendo em paris

Athos Ronaldo Cunha é um sujeito que realmente acredita no poder da palavra, na possibilidade de indivíduos se entenderem literariamente. É engenheiro de formação, mas já publicou vários livros e é membro da Academia Santa-Mariense de Letras. Recentemente ele publicou este seu "Sofrendo em Paris". São 45 crônicas, dez delas finalistas ou premiadas em concursos literários dos quais participou Brasil afora. São narrativas curtas, que se resolvem quase sempre num susto, e são quase sempre otimistas, mesmo quando desnudam um erro, um ato vil, ou quando denunciam algo de nossas mazelas bem brasileiras.  Os temas não variam muito. Ele gosta de falar de política, de seu cotidiano em Santa Maria, de alguns sucessos relacionados ao futebol, de alguns fragmentos de memória, de seu passado e causos que experimentou quando era avaliador de penhor na Caixa Econômica Federal. Esse volume recebeu o primeiro prêmio de livros de crônicas não publicadas da UBE-RJ (Prêmio Alejandro Cabassa, União Brasileira dos Escritores), em 2017. Enfim, são crônicas que se deixam ler com calma, enfeixam reflexões de uma pessoa inquieta, que compartilha seus espantos e procura honestamente interlocutores, outros viventes que queiram entender um tanto melhor esse nosso complexo mundo. Não é pouco. Vale!
Registro #1394 (crônicas e ensaios #254)
[início: 27/04/2019 - fim: 02/05/2019]
"Sofrendo em Paris", Athos Ronaldo Miralha da Cunha, Guaratinguetá / SP : Editora Penalux, 1a. edição (2018), brochura 14x21 cm., 120 págs., ISBN: 978-85-5833-456-3