sábado, 18 de fevereiro de 2017

a amiga genial

"A amiga genial" é o primeiro romance de uma tetralogia, de uma série, dita "napolitana". A autora assina "Elena Ferrante", mas os curiosos de plantão não teem ideia de quem mesmo é esta pessoa que produz tantos livros capazes de conquistar em pouco tempo sucesso de público e de critica (caso raríssimo e quase sempre improvável, por mais que editores tentem). O livro é realmente gostoso de ler. Os problemas vivenciados pelos protagonistas são verossímeis, o tom da descrição de seus conflitos emocionais e morais é sóbrio, não há improvisação nos sucessos da narrativa ou condescendência com as questões discutidas, dificilmente um leitor já experimentado pelos primeiros aborrecimentos da vida deixará de imaginar paralelos entre as vidas descritas por Ferrante e a sua, sobretudo se esse leitor ter vivido em um ambiente de imigrantes italianos, participado de casamentos, brigas, conflitos e festas italianas. A história se passa entre meados dos anos 1950 e o início dos anos 1960, em uma Nápoles ainda reinventando-se após a destruição causada pela segunda grande guerra. A narradora é uma senhora que conta sobre si quando bem jovenzinha, ainda garota, quase adolescente. Ela se chama Elena Greco e fala sobre si e uma curiosa melhor amiga, Raffaella Cerullo (embora eu prefiroa acreditar que a amiga genial do título seja ela mesmo, Elena Greco). Ambas, aparentemente, cruzaram sempre seus destinos ao longo da vida, e é o repentino desaparecimento desta amiga que leva a narradora a contar a história delas, parte como uma forma de mitificá-la, como quem conta repetidamente contos das mil e uma noites para um ouvinte ideal, enfeitiçando-o mais a cada dia, enredando-o nos sutis fragmentos do mar de palavras que é sua narrativa; parte como um exercício de memória voluntária que produz justamente o mesmo efeito que Proust nos ensinou, quando mostrou a potência da memória involuntária. Mas essa é outra história. Os acontecimentos são típicos de um Bildungsroman, um romance de formação: acompanhamos os sucessos de várias pessoas, mas o que realmente importa é como Elena se desenvolve moral, física, psicológica e intelectualmente, da infância até quase o fim da adolescência. Os temas são poderosos: luta de classes, ascensão social, regras de mundanidade, a educação como ferramenta de diferenciação entre as pessoas, história contemporânea, o fascismo e o nazismo, a culpa e os sonhos de toda uma geração de italianos. Como em todos os livros onde se fale verdadeiramente do cotidiano italiano aprendemos algo sobre como se dão os níveis de registro da língua, seja na norma culta ou nos dialetos, em como as convenções e os ritos dominam os atos das pessoas, em como a família e os amigos nos moldam e forjam nossos projetos de vida, mas também criam oportunidades para que nós mesmos passamos a inventar nossos próprios moldes e personas, nossos projetos e ambições de vida. Lembrei muito dos livros de Natália Ginzburg. Certamente muitas coisas acontecerão nos próximos volumes, mas esse já se defende sozinho, continuo curioso sobre os sucessos que esperam Elena Greco, Raffaella Cerullo e sua turma da periferia de Nápoles. Vale. 
[início: 17/01/2017 - fim 24/01/2017]
"A amiga genial: infância, adolescência", Elena Ferrante, tradução de Maurício Santana Dias, Rio de Janeiro: Editora Globo (coleção Biblioteca Azul), 1a. edição (2015), brochura 14x21 cm., 336 págs., ISBN: 978-85-250-6060-0 [edição original: L'amica geniale: infanza, adolescenza (Roma: Edizione E/O) 2011]

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

cinco peças e uma farsa

Otavio Frias Filho é jornalista, diretor de redação da Folha de São Paulo. É um ensaísta invulgar e dedicou-se nos anos 1990 (até pelo menos o início dos anos 2000), também a escrever textos dramáticos. Neste volume estão reunidas seis peças de teatro suas: "Tutankáton" (de 1990), "Rancor" (1992), "Típico romântico" (1991), "Sonho de núpcias" (2002), "Utilidades domésticas" (1992) e "Breve história de uma perversão sexual" (2004). Esta última ele chama de farsa. "Tutankáton" e "Utilidades domésticas" tiveram leituras dramáticas, não encenações. As demais passaram pelo crivo do público, já foram encenadas algumas vezes cada uma (no caso da última das peças: "Breve história de uma perversão sexual", apenas alguns episódios foram de fato encenados). Não vi nenhuma dessas encenações e/ou leituras dramáticas. A leitura das peças é interessante. "Tutankáton" discute a conversão ao monoteísmo experimentada por um faraó da XVIII dinastia, Amenófis IV. Quem já leu "O egípcio", romance do finlandês Mika Waltari, ou viu o filme homônimo dirigido pelo Michael Curtiz  (como todo mundo da geração de Frias, que é a minha, fez), aproveita melhor a peça. O autor faz um paralelo entre aquela conversão e a dissolução da URSS. "Rancor" é um jogo, onde se contrasta o mundo do jornalismo com o da academia, o mundo do talento genuíno e o das panelinhas artísticas. É um texto explicitamente centrado da teoria da angústia da influência, de Harold Bloom. A peça é uma caricatura de nosso provincianismo entranhado, de nossa vocação para o narcisismo. "Típico romântico" trata de jogos amorosos e de perversões familiares, lembra o esquema de leitura do mundo contemporâneo que encontramos nas peças de Edward Albee. A caricatura social criada por Frias Filho acontece a beira-mar. Os espectadores parecem ser os analistas leigos dos protagonistas que, quase desnudos na praia, contam suas misérias. Já "Sonho de núpcias" é uma história de detetives, fala das mentiras que os casais contam. Parece algo influenciado pelo absurdo das pecas de Ionesco, mesclado com aquele conto de Ryūnosuke Akutagawa, "Rashomon", em que os personagens contam suas versões de um mesmo acontecimento. "Utilidades domésticas" é uma comédia, mas também um terrível conto de fadas sobre o amor entre iguais e sobre como no amor  improvisações apenas retardam o inevitável. O autor faz brotar no palco um sincretismo farsesco, um pai de santo que reorienta os destinos dos personagens, como se fosse um demiurgo tosco e enganador. Por fim, "Breve história de uma perversão sexual", que é assinada em conjunto com o também jornalista Marcelo Coelho, encontramos um conjunto de seis esquetes dramáticos. São lições satíricas, feitas por encomenda para um clube fetichista de São Paulo. Acompanhamos uma espécie de história do sadomasoquismo, transgressões sexuais e da emancipação feminina, desde a pré-história (uma história dos hominídeos e a descoberta do fogo) e até o mundo contemporâneo (uma história de espionagem e de um quase Armagedon tecnológico). No fundo estes dois episódios, o primeiro e o último da peça, são duas micro versões bestas de filmes do Kubrick. As demais passam cronologicamente pelo império romano (e a devassidão); histórias de piratas (e o masoquismo); revolução francesa (e o sadismo) e a ascensão da psicanálise (e o sufragismo). Para mim o resultado é uma história do mundo para impúberes emocionais. Certamente o impacto de assistir as peças num teatro, acompanhar o jogo cênico de claridade e escuridão, ouvir as modulações de voz e ver a expressão dos atores provoca no espectador algo que o leitor apenas intui. Como exercício intelectual cada uma das peças oferece reflexões interessantes, algumas talvez datadas, já superadas pela velocidade das transformações sociais, outras ainda a serem entendidas melhor por cada um de nós, homo sapiens sapiens deste curioso início de século XXI. 
[início: 06/01/2017 - 21/01/2017]
"Cinco peças e uma farsa", Otavio Frias Filho, São Paulo: editora Cosac Naify, 1a. edição (2013), brochura 13,5x23 cm., 319 págs., ISBN: 978-85-405-0468-4

domingo, 12 de fevereiro de 2017

viagem ao harz

Lendo "Viagem ao Harz" tornamo-nos companheiros de Heinrich Heine pelos caminhos do Harz (cadeia montanhosa da Saxônia, na Alemanha). Ainda é verão, mas o outono logo chegará. O ar está límpido, puro; as trilhas são sinuosas; a natureza vibra em toda sua potência; o Brocken, majestoso, brincando com as nuvens, indica o objetivo da viagem. O narrador é um flâneur das colinas e montes, não tem pressa, um bom mês dura sua deambulação. Sair de Göttingen, a cidade universitária que desdenha, é imperioso; ali florescem apenas hipocrisia e mediocridade. Zombeteiro, genuinamente romântico, o poeta ambiciona civilizar-se, radicar-se em Paris, instruir (e ser instruído), não mais apenas divertir-se. Nada como a natureza, caminhar pelas terras alemãs dos contos de fada e refletir com calma para que esse projeto se justifique, ganhe força, se materialize. As vezes parece que ele caminha só, noutras há com ele um grupo de poetas, colegas da universidade, com quem compartilha experiências estéticas, ruídos, risos e cheiros, noites perto da lareira e roncos, o espetacular crepúsculo no alto do Brocken. Ele passa por cidades pequenas, conversa com as pessoas que encontra pelo caminho, flerta com mocinhas, fica em hospedarias onde encontra abrigo, alimenta-se frugalmente, visita igrejas e cemitérios. Alguns de seus interlocutores durante a viagem são gente quase rude do campo, outros notavelmente intelectuais. Com ambos discute filosofia e política, judaísmo e direito, a psiquê alemã e história. Serpenteante, ele passa Weende, Nörtheim, Osterode, Learbach, Clausthal, Zellerfeld e Goslar, encontra o alto Brocken e, já na descida dos montes, seguindo o curso de rios e de cachoeiras, chega a Ilsentein (a rota original pode ser conferida neste antigo mapa). A edição é muito bem cuidada. O texto inclui cinco poemas/canções de Heine; uma introdução do tradutor, Maurício Mendonça Cardozo; uma reprodução do prefácio à edição francesa, assinado por Théophile Gautier (amigo de Heine) e um excelente posfácio, assinado por Sandra Stroparo. Se você for suficientemente curioso e tiver algum tempo livre pode fazer um passeio pelo parque nacional de Harz e reproduzir a experiência de Heine (várias agências de turismo organizam Heinrich Heine Weg). Deve ser divertido.
[início: 09/01/2017 - fim: 10/01/2017]
"Viagem ao Harz", Heinrich Heine, tradução de Mauricio Mendonça Cardozo, São Paulo: Editora 34, 1a. edição (2013), brochura 14x21 cm., 141 págs., ISBN: 978-85-7326-547-7 [edição original: Die Harzreise (Hamburg: Der Gesellschafter / Hoffmann & Campe) 1826]

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

tentativas de fazer algo na vida

"Tentativas de fazer algo da vida" é um romance escrito na forma de diário. Acompanhamos os dias de um senhor idoso, oitenta e três anos, que vive em um asilo holandês, em Amsterdam. O ano é 2013. O narrador é um sujeito observador, perspicaz, ainda bastante lúcido e com mobilidade. Não é exatamente um interno. Assim como boa parte dos moradores do asilo, que é privado, ele pode sair livremente. Sua renda de aposentado é pequena, mas o asilo onde mora está longe de ser o mais modesto de seu país. O leitor descobre em algum momento que ele foi casado e que teve uma filha, que essa filha morreu jovem e sua mulher está internada em um outro asilo, em coma ou bastante debilitada por alguma doença neurológica, que visita esporadicamente (no ano do diário, uma única vez). O tom dos registros é sempre realista, nunca professoral, não há digressões filosóficas ou divagações sociológicas que ultrapassem o senso comum. Essa objetividade é o que sustenta o livro, que de resto é repleto de informações ligeiras, dados estatísticos sobre a economia e demografia holandesa, trivialidades de almanaque. O narrador fala de política, cultura, religião e economia; contrasta os marcos históricos mais visíveis do ano com os sucessos rotineiros do asilo. Se de um lado comenta a escolha do novo papa, o início do Tour de France, a coroação de um novo rei da Holanda, a pressão migratória de árabes e os acordos pré-eleitorais de seu país, também registra suas visitas ao médico, seu questionamento sobre as possibilidades da eutanásia, além das manias, comportamento, discussões e brigas, acidentes, mortes e os vários estágios das doenças de seus colegas internos. Em algum momento do ano o narrador e mais uns poucos amigos formam um grupo e passam a organizar passeios e jantares (a crise é dura e o futuro incerto, mas para se viver um pouco de hedonismo é necessário). A administração do asilo obviamente não aceita pacificamente as ações do grupo rebelde, contestador das normas e procedimentos institucionais. O sarcasmo dos registros de seu diário é dirigido mais a ele mesmo que aos demais moradores do asilo. Enfim, o que o livro oferece é uma exposição ficcional da realidade da velhice, da quase impossibilidade de nos prepararmos adequadamente para a decrepitude, solidão e morte, ou seja, "La vecchiaia è bruta" (coisa que certamente qualquer descendente de italiano ouviu dos avós ou dos pais quando era criança).
[início: 06/01/2017 - 17/01/2017]
"Tentativas de fazer algo na vida", Hendrik Groen, tradução de Mariângela Guimarães, São Paulo: Editora Planeta do Brasil (selo Tusquets), 1a. edição (2016), brochura 15x22,5 cm., 363 págs., ISBN: 978-85-422-0881-8 [edição original: Popingen iets van het leven te maken (Amsterdam: J.M. Meulenhoff), 2014]

domingo, 5 de fevereiro de 2017

a invenção da natureza

Ler livros de quinhentas páginas é uma típica ocupação maravilhosa das férias, mas este "A invenção da natureza" é tão bem escrito que é muito provável que o leitor acabe tendo de procurar algo novo para ler bem antes do que imaginava. Andrea Wulf nos apresenta o multitalentoso naturalista e explorador Alexander von Humboldt em detalhes. Trata-se de alguém sempre curioso das cousas do mundo, sempre em movimento, estudando e encontrando associações entre os mais variados assuntos. Na verdade Wulf não apenas conta a história da vida e das muitas descobertas do prolífico von Humboldt (homem dos séculos XVII e XVIII, que nasceu em 1769 e morreu em 1859). Ela também produziu e incluiu em seu livro extensas passagens biográficas de outros cientistas naturais, políticos, exploradores e pensadores tão produtivos e memoráveis quanto ele, como Goethe, Thomas Jefferson, Simón Bolívar, Darwin, Thoreau, George Marsh, Ernst Haeckel e John Muir. A vida de Humboldt e suas contribuições para a ciência e o mundo contemporâneo não cabem neste registro de leitura (não cabem nem na biografia de Wulf, a bem da verdade). O livro descreve cronologicamente a evolução do pensamento de Humboldt; suas principais contribuições científicas; o roteiro de suas grandes viagens (a primeira pelas Américas, do sul, central e do norte; a segunda pela Rússia dos czares, pela Sibéria); os temas de seus livros; a repercussão de suas pesquisas; a efetiva rede de colaboração científica criada por ele; sua habilidade política e gerencial. Lendo o livro nos convencemos da originalidade do pensamento de Humboldt, de suas preocupações ecológicas (foi dos primeiros a registrar o impacto das atividades humanas no clima e no geografia do planeta) e humanistas (era absolutamente refratário a ideia e a prática da escravidão). O livro é fartamente ilustrado, inclusive com uma reprodução do Naturgemälde (sua proposta para a geografia das plantas) e tantas outras maravilhas. Há também um extenso conjunto de notas e posfácio onde Wulf explica do que trata cada um dos volumes publicados da enorme produção de Humboldt. Grande sujeito. Vale a pena consultar os guardados da página eletrônica da Fundação von Humboldt. E vale a pena se aventurar por esta excelente biografia. 
[início: 27/12/2016 - fim: 05/01/2017]
"A invenção da natureza: A vida e as descobertas de Alexander von Humboldt", Andrea Wulf, tradução de Renato Marques, São Paulo: editora Planeta do Brasil (selo Crítica), 1a. edição (2016), capa-dura 16x23,5 cm, 589 págs., ISBN: 978-85-422-0755-2 [edição original: The invention of Nature (New York: Knopf Doubleday Publishing Group) 2015]

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

grito

De Godofredo de Oliveira Neto só conhecia os dois machadianos e curiosos contos reunidos em "Ilusão e mentira", de 2014. "Grito" é seu romance mais recente. Foi publicado no outono do ano passado. Trata-se de uma proposta também curiosa, que usa admiravelmente bem a linguagem para descrever o que se passa na cabeça de uma idosa atriz, Eugênia, mulher solitária, já aposentada e encerrada em um apartamento de Copacabana. Nos vinte e um "atos" em que é dividido o romance acompanhamos vinte e um "esquetes" teatrais que brotam da imaginação e fantasia de "dona" Eugênia. Alguns flertam com a realidade, mas a maioria deles são apenas sonhos, fragmentos de romances antigos, memórias em curto-circuito, ideias amalucadas para montagens teatrais. A consciência dela parece tentar entender a si mesma e os sucessos da vida de um vizinho, Fausto, rapaz que aparentemente afeiçoou-se a ela, pode ter planos de tornar-se ator e esporadicamente a recebe em seu apartamento. O que Godofredo de Oliveira mais acertadamente registra em seu livro são as dificuldades, quando não a impossibilidade, de comunicação. O entendimento que fazemos dos outros nunca é preciso. E na vida, sempre somos mais inventivos e criativos que na ficção. Isso é irrelevante, mas lembrei-me imediatamente de um filme antigo de Peter Yates, "O fiel camareiro" (The Dresser, no original) no qual acompanhamos os últimos atos de um ator senil (dois grandes atores, Albert Finney e Edward Fox, interpretam os protagonistas do filme, respectivamente, o velho ator e seu "fiel" camareiro). Assim como Yates, Godofredo de Oliveira Neto soube contar uma bela história. Vale.
[início: 05/01/2017 - fim: 06/01/2017]
"Grito", Godofredo de Oliveira Neto, Rio de Janeiro: editora Record, 1a. edição (2016) brochura 14x21 cm., 158 págs., ISBN: 978-85-01-10701-5

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

a borboleta e o sino

Há livros que são peças quase únicas, obras de arte rara, mimos travestidos em papel e tinta. Esses objetos são especiais, pois os colocamos nas prateleiras das estantes sempre em um lugar onde é fácil vê-los novamente, para um renovado fragmento de deleite bobo, cabotinos que inevitavelmente somos. É o caso do que farei com este "A borboleta e o sino", antologia de haikus de Yosa Buson, importante poeta e também pintor japonês do século XVIII, recentemente publicado pela editora catarinense Cultura e Barbárie. Sérgio Medeiros assina a seleção dos haikus e sua tradução (ele diz que os poemas foram "mudados" para o português). Os poemas estão agrupados em séries dedicadas às estações do ano: primavera (23 haikus), verão (49), outono (45) e inverno (34). Cada conjunto inclui reproduções de imagens muito bonitas do austríaco Egon Schiele e do próprio Yosa Buson (o belo projeto gráfico do livro é assinado pela designer Marina Moros). O leitor acompanha Buson pelo ano e seus muitos sucessos: a chuva e o terremoto; o desabrochar das flores e as folhas que caem; o cinza das brasas e da neve; o monge irritado na rua e o vendedor que boceja; o edredom curto e a lua refletida num lago; um arrebol e salmões empilhados. Tudo o que se sente, se vê, se ouve e se cheira é matéria para um poema. Numa introdução e num posfácio (ambos curtos), Sergio Medeiros fala algo de seu ofício, de seu interesse pelo idioma japonês, do quão exemplarmente os versos de Buson são objetivos e belos. Lembrei-me daquela velha história zen na qual se narra como um jardineiro retira do jardin que preparou para seu imperador a rocha que este tinha mais admirado do conjunto (para "torná-lo perfeito", reza a lenda). Como o habilidoso artífice do jardim de palavras de Buson em português, Sergio Medeiros opta por uma solução diferente daquela do jardineiro zen. Para finalizar seu livro ele não retira, mas escolhe incluir um poema mais, aquele que dá nome a sua antologia: "A borboleta e o sino". Agora sim, parece ele nos dizer, tudo está perfeito! 
[início: 08/12/2016 - fim: 06/01/2017]
"A borboleta e o sino: uma antologia de haikus", Yosa Buson, tradução de Sergio Medeiros, Desterro/Florianópolis: editora Cultura e Barbárie (selo Armazém), 1a. edição (2016), brochura 11,5x20,5 cm., 180 págs., ISBN: 978-85-63003-35-5

sábado, 28 de janeiro de 2017

as ilhas gregas

Publicado em 1978, mas reunindo textos que começaram a ser escritos ao final da segunda grande guerra, em 1945, "As ilhas gregas" foi originalmente concebido como um livro de viagens, um guia turístico, uma homenagem ao sol e ao mar gregos. A massificação do turismo e os quarenta anos de publicação certamente tiram do livro sua funcionalidade como guia, mas não o impacto nos sentidos, o doce encantamento, o fluxo sedutor de imagens e histórias criadas por Lawrence Durrell. Lê-se esse livro com calma, ou seja, com aquilo que definia a arte de viajar pelo menos até a primeira metade do século passado, bem mais uma experiência transformadora, de reflexão e aprendizado que a espécie de gincana que fazemos hoje em dia. Durrell viveu muitos anos na Grécia, sobretudo em Corfu, Rodes e Chipre (que hoje não é uma ilha grega, mas um estado independente). Ele pegava carona em barcos de cabotagem, cruzava a pé as ilhas mais remotas, dormia sob as estrelas e ao redor do fogo, como muitos dos heróis da Ilíada fizeram antes dele. Seu livro não faz o censo das quase duas mil ilhas gregas, mas se arrisca em contar a história e geografia dos conjuntos mais icônicos delas (as Jônicas, como Corfu e Paxos; as do mar Egeu, como Creta e Lesbos; as Espórades, como Rodes e Samos; as Cíclades, como Naxos e Mykonos e as Sarônicas, como Salamina e Spetses). Sua narrativa inclui digressões pela mitologia, linguagem, folclore, arte, causos pitorescos, filosofia, botânica, histórias de bar e de pescadores, reflexões sociológicas e políticas. Quem já leu o conjunto de volumes reunidos em "O quarteto de Alexandria" sabe o quão hábil Durrell sabe ser. Suas histórias ora são divertidas, ora líricas, alcançam emocionar o leitor e também instruí-lo. O tom das histórias lembra as de um outro grande escritor, o catalão Josep Pla, que também sabe contar o que vê quanto está longe de sua terra e deixa o leitor, debaixo de sua má estrela, invejoso do destino e das escolhas do viajante (como já nos ensinou Auden). Durrell é especialmente inventivo quando fala da arquitetura dos portos (em seu tempo vivido nas ilhas as travessias eram todas feitas em pequenos barcos à vapor); das técnicas de navegação, de coleta de esponjas e da pesca; descreve os templos em ruínas e as conversas com os lunáticos dos pequenos vilarejos (sempre os interlocutores mais fidedignos); interpõe às antigas lendas e mitos gregos a rotina e hábitos contemporâneos dos indivíduos com quem interage. Certamente aquelas ilhas não existem mais da forma que Durrell as viu, mas o que importa? A experiência de cada um que viaja e vê é a única que vale. Já é tempo, vamos em frente.
[início: 15/12/2016 - fim: 22/12/2016]
"As ilhas gregas", Lawrence Durrell, tradução de Carlos Leite, Lisboa: Relógio D'Água editores, 1a. edição (2016), brochura 13x20 cm., 331 págs., ISBN: 978-989-641-644-7 [edição original: The Greek Islands (London: Faber and Faber) 1978]

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

zona de sombra

Comprei esse "Zona de sombra" durante a Feira do Livro de Santa Maria, no início do ano passado. A ideia era ler rápido e presentear um afilhado meu que é um pequeno grande leitor, o Dante. Mas, ai de mim, envolvi-me em tantos projetos de leitura que esqueci completamente deste. Quantas vezes o Dante me cobrou o livro com aqueles seus olhos fulminantes! Só mesmo um padrinho velho e canalha como eu para os suportar sorrindo e postergar tantas vezes a entrega do presente, inventando uma desculpa besta a cada vez. Na última segunda-feira recebi dele um ultimato (e assinei um "documento" comprometendo-me em entregar o livro "na primeira oportunidade", uma licença de rábula amador). Bueno. Parei tudo e terminei rápido. É um livro bem interessante, que se deixa ler com facilidade. Luís Dill inventou trinta e duas possibilidades para o encadeamento de uma história de aventuras, com direito a tiroteios, lutas, encontros fortuitos, personagens curiosos, conversas entre gente muito diferente da protagonista, Tamara. A solução de cada uma das trinta e duas histórias só se dá nos últimos parágrafos. No primeiro capítulo, único comum a todas elas, encontramos Tamara, uma adolescente, que vai ao show de um cantor de quem é fã, presencia um crime e passa a ser perseguida por desconhecidos. Na fuga ela tenta esconder-se em um edifício de aspecto sombrio, ainda em construção, onde a iluminação difusa de alguns apartamentos denuncia que ali talvez alguém possa ajudá-la a telefonar para os pais ou para a polícia e voltar para casa. A partir daí começa o jogo "borgeano" de Dill, com uma sucessão de caminhos que se bifurcam: A garota deve subir ao primeiro ou ao segundo andar do edifício? Cada escolha implica em uma outra, e o jogo poderia seguir ao infinito. Como o livro deve ser finito Dill propõe apenas cinco vezes uma nova bifurcação. Tamara deve entrar num apartamento ou no outro de cada andar? Deve aceitar ou não a ajuda dos moradores de cada um deles? Deve voltar para o térreo ou não? Deve reagir de que forma às ameaças do líder da perseguição? Seu celular tocará num momento chave da trama ou não? Assim, o leitor encontrará trinta e dois futuros do jardim de caminhos de Tamara (mas não são todos os futuros possíveis, Borges nos diria). Gostei (e acho que o Dante vai gostar). Vamos ver o que ele diz.
[início: 04/05/2016 - fim: 19/01/2017]
"Zona de sombra", Luís Dill, Porto Alegre: Artes e Ofícios Editora, 1a. edição (2014), brochura 14x21 cm, 200 págs., ISBN: 978-85-7421-229-6