quinta-feira, 17 de abril de 2014

fuera de aquí

"Fuera de aquí" é o livro perfeito para aqueles leitores que precisam de ajuda para decifrar cada um dos livros de Enrique Vila-Matas, ou seja, para todos os leitores possíveis e imagináveis de Vila-Matas. Claro, qualquer leitor pode inferir o que quiser de cada leitura que faz, de qualquer livro que lê, mas é bom por vezes ter um guia ou mapa de intenções de um autor para comparar seus projetos literários com as impressões que alcançamos após ler seus livros. O website mantido por ele (www. enriquevilamatas. com) é sempre fundamental para esclarecer um ponto enigmático ou outro de seus livros, mas as entrevistas reunidas neste livro também têm seu valor. André Gabastou, o tradutor de Vila-Matas na França, conduz as entrevistas cronologicamente, percorrendo cada livro publicado e cada experiência memorável e/ou transcendental de seu entrevistado. Os elementos paratextuais do livro fazem a festa do leitor. Encontramos trechos grandes de cada uma das histórias de Vila-Matas publicadas (à exceção de seu último "Kassel no invita a la lógica"). Há também muitas reproduções fotográficas, de pessoas, capas de livro, paisagens e de artes plásticas, distribuídas nas laterais do texto, que acompanham o que está sendo discutido e/ou citado nas entrevistas. Por fim encontramos uma bibliografia e um índice onomástico. Além desse material todo encontramos sete textos inéditos de Vila-Matas no livro. Nesses textos ele discute objetivamente questões formais sobre seu projeto literário, esclarece o leitor sobre a recorrente hibridização de seus textos (que tem sempre componentes inventivas, ficcionais, mescladas a ensaios e a crítica), explica seu conceito de intertextualidade e seu emprego de metaliteratura, ironiza sobre a necessidade de um texto ser absolutamente verdadeiro (ou falso). Vila-Matas sempre é generoso com os amigos, cita repetidas vezes o quanto sua vida social, as conversas com seus amigos e colegas escritores o sensibilizam para temas que depois serão explorados em sua produção literária. Ao mesmo tempo não se cansa de vergastar a crítica literária (e o cenário cultural como um todo) da Espanha. O livro termina com uma "Autobiografia literária", onde cada livro recebe dele mesmo um pequeno resumo que parece responder àquela definição de Vladimir Nabokov: "A melhor parte da biografia de um escritor não é a crônica de suas aventuras, mas sim a história de seu estilo". "Fuera de aquí" certamente conta uma boa história do estilo de Vila-Matas. Em tempo: Se há um sujeito que vai gostar de ler esse livro é o Kelvin Falcão Klein (bom divertimento meu caro).
[início: 25/02/2014 - fim: 14/04/2014]
"Fuera de aquí: Conversasiones con André Gabastou", Enrique Vila-Matas, André Gabastou, Barcelona: Galaxia Gutenberg / Circulo de Lectores, 1a. edição (2013), capa-dura 16x24 cm., 265 págs., ISBN: 978-84-15863-04-5

quarta-feira, 16 de abril de 2014

pileques

Uma editora como a Companhia das Letras deveria se envergonhar de publicar um livro assim, mas a culpa não é só dela, afinal apenas traduziu um livro caça níqueis editado em 2011 pela New Directions. Que fiasco. São seis conjuntos de narrativas de F. Scott Fitzgerald. Apenas um deles, "O colapso nervoso" vale os reais que paguei pelo livro. Neste texto, em poucas páginas, Fitzgerald, sem a menor autopiedade mas com toneladas de sarcasmo e ironia total, descreve como uma pessoa fracassada e deprimida se sente (trata-se de texto de 1936, algo anterior aos ansiolíticos, a psicanálise e outras modalidades  contemporâneas de fuga). Ele morreu em 1940, aos 46 anos, mas já se sentia inútil e dispensável desde bem antes dos 40 anos. "O colapso nervoso" é uma narrativa muito poderosa, cheia de frases memoráveis, algo que dificilmente deixa um leitor indiferente. Qualquer pessoa que já tenha experimentado aborrecimentos nesta vida (o que, convenhamos, reúne quase a totalidade dos homo sapiens sapiens) saberá apreciar esse capítulo do livro, que lembra algo de um outro famoso fracassado no fim da vida, Oscar Wilde, em seu "De profundis". Os outros textos são incrivelmente ridículos, devem ter sido compilados de algum cartapácio de coisas de Fitzgerald e incluídos aqui somente para fazer com que o livro pudesse ter esquálidas 100 paginas. Patético. "Seleções dos cadernos de notas" tem dez páginas de algo que originalmente deveria ser enorme; "Acompanhe o sr. e a Sra. F. ao quarto número..." é uma vagabunda compilação de experiências em hotéis, escritas entre 1921 e 1934; "Dormindo e acordando" é uma crônica besta sobre insônia; "Minha cidade perdida" é uma razoável homenagem a New York e ao mesmo tempo uma autobiografia ligeira de Fitzgerald, que percorre as transformações posteriores à queda da bolsa de valores americana em 1929 nele e na cidade, mas nada excepcional; "Seleções das cartas" é a infame reunião de três cartas curtas, uma endereçada a Edmund Wilson e duas a John Peale Bishop. Argh! Não é possivel levar um livro assim à sério. Vamos em frente. 
[início: 13/03/2014 - fim: 15/03/2014]
"Pileques: drinques e outras bebedeiras", F. Scott Fitzgerald, tradução de Donaldson M. Garschagen, São Paulo: editora Companhia das Letras (Má Companhia), 1a. edição (2013), brochura 14x21 cm., 108 págs., ISBN: 978-95-359-2317-9 [edição original: On Booze (New York: New Directions Publishing) 2011]

terça-feira, 15 de abril de 2014

a máquina do tempo

Quando o mais recente livro de Adão Iturrusgarai foi lançado decidi que era hora de pagar minha dívida com Jesús González, talvez o maior dos fãs de Iturrusgarai em Madrid. Decidi que compraria o livro, juntaria com os demais que já havia prometido enviar-lhe e os colocaria no correio naquele mesmo dia. Mas, ai de mim, o Jesús terá de esperar um tempo mais, paciência. Em "A máquina do tempo de Adão Iturrusgarai" encontramos trabalhos variados, personagens antigos e novas propostas, 64 páginas de humor corrosivo e certeiro, sem nenhuma concessão para a hipocrisia e ao politicamente correto (como o humor de verdade deve ser). A apresentação inverte a ordem cronológica: começa com o trabalho mais recente, de 2013 e segue até o mais antigo, de 1983. É tempo. Vê-se que o sujeito trabalha mesmo um bocado. O livro inclui dois trabalhos feitos em colaboração com Laerte e um outro onde Gilmar Rodrigues assina o texto. O leitor percebe facilmente ao folhear o livro que o Adão não é escravo de um personagem ou traço. Há muita experimentação, tanto estética quanto temática. O que une todos os trabalhos é sua abordagem pessoalíssima na sátira, onde nada é tabu ou sagrado (as histórias parecem dizer que não se deve levar nada a sério, mas diz isso levando a sério tudo o que parece e é ridículo e podre na sociedade). Seria engraçado deixar um exemplar destes na sala de espera de consultórios de analistas e/ou psicólogos. Acredito que provavelmente boa parte dos clientes resolveria ali mesmo seus problemas imaginários, sua eventual vocação para a intolerância, a falta de humor crônica ou inaptidão social. É coisa para se pensar.
[início: 18/03/2014 - fim: 28/03/2014]
"A máquina do tempo de Adão Iturrusgarai", Adão Iturrusgarai, Campinas: Zarabatana Books, 1a. edição (2013), brochura 21x28 cm., 64 págs., ISBN: 978-85-60090-54-9

sábado, 12 de abril de 2014

desde que te vi morir

"And in the twilight toward me a man / comes, class. I recognize / your energetic stride. You haven't / changed much since your died. // Y en el crepúsculo viene hacia mí / un hombre, llama. Reconozco / tus enérgicas zancadas. No has cambiado / mucho desde que te vi morir." Encontramos em "Desde que te vi morir" dezoito poemas de Vladimir Nabokov, escritos entre 1919 e 1956, publicados quase todos em revistas e jornais antes da edição em livro, em 1970. Javier Marías os traduziu em 1979. Em 1999, no centenário de nascimento de Nobokov, os poemas foram revistos e reeditados numa bela edição da Alfaguara. O livro inclui dezoito problemas de xadrez inventados por Nabokov (que era um aplicado jogador). Estes problemas e suas soluções fazem parte da edição original e foram traduzidos por Félix de Azúa, que assina também uma nota prévia ("La poesía del ajedrez"). Encontramos por fim cinco ensaios curtos assinados por Marías ("Para que Nabokov no se le cargue - presentación o disimulo"; "Los imposibles pasos del exiliado ruso"; "Vladimir Nabokov en éxtasis"; "El canon Nabokov"; "La novela más melancólica - Lolita recontada"). Assim, neste pequeno livro encontramos ao menos três alegrias distintas: alguns dos poemas de Nabokov, as opiniões fortes de Marías sobre um de seus autores mais admirados, uma desafiadora amostra da paixão de Nabokov por xadrez. Começo por este último conjunto: não é tarefa para amadores. Os problemas são difíceis, mas como há soluções e variantes, aprendemos com elas. Féliz de Azúa nos explica que há um paralelo entre a estrutura argumental básica de alguns livros de Nabokov com o tema dos problemas enxadrísticos, pois a peça de xadrez (ou o protagonista) que se movimenta provoca sua destruição (e é a nostalgia de sua posição/status anterior  - que gera o movimento inicial - que implicará nesta queda e/ou morte). Interessante. Senti saudades de meus dias de enxadrista furioso. Os ensaios de Javier Marías sempre são um assombro. Ao mesmo tempo que informam sobre a vida de Nabokov eles dão pistas sobre suas escolhas literárias e método de tradução (afinal Nabokov é também o tradutor de sua obra, quase sempre escrita em russo e depois transcrita por ele para o inglês, ou como no caso de sua obra mais conhecida, "Lolita", escrita originalmente em inglês e depois vertida para o russo). Nos poemas a paisagem parece não existir. O narrador está sempre olhando o céu, as estrelas, ou um mundo interior, abstrato, onde há apenas o vazio, os pensamentos, as idéias. Num poema o leitor encontra um corredor, um hotel, uma vela, mas logo essa última se apaga e deixa narrador e leitor novamente na escuridão. São poemas densos, que deixam-se ler com vagar e cobram um bom tempo de reflexão. São poemas que antecipam as névoas de um inverno longo e frio mas ao menos parecem dizer: ainda podes se preparar, há tempo.
[início: 22/02/2014 - fim: 10/04/2014]
"Desde que te vi morir (Vladimir Nabokov: una superstición)", Vladimir Nabokov, tradução de Javier Marías e Félix de Azúa, Madrid: Alfaguara (Grupo Santillana de Ediciones), 2a. edição (1999), capa-dura 19x27,5 cm., 141 págs., ISBN: 978-84-204-7853-9 [edição original: Vladimir Nabokov, Poems and Problems (New York: McGraw-Hill, 1970), edição original da tradução: revista Poesía, n0. 4, verão de 1979 (Madrid, Espanha)]

terça-feira, 8 de abril de 2014

kassel no invita a la lógica

Aos livros de Enrique Vila-Matas sempre dedico uma atenção desconfiada (que é derivada de uma frase de Churchill: "Russia is a riddle, wrapped in a mystery, inside an enigma; but perhaps there is a key". A charada e o mistério e o enigma mais recente de Vila-Matas: "Kassel no invita a la lógica", foi publicado no início deste ano. Trata-se de um romance, uma narrativa ficcional, mas também é um relato de uma experiência e ainda um ensaio sobre arte contemporânea (ou talvez uma outra cousa qualquer que eu, ai de mim, não entendi completamente). Ele foi convidado a participar da Documenta 13 (de Kassel), uma das mais respeitadas exposições de arte moderna e contemporânea. A proposta da diretora artística e da curadora daquela edição (respectivamente Carolyn Christov-Bakargiev e Chus Martínez) era que diversos escritores se instalassem sucessivamente em um restaurante chinês nos arredores de  Kassel durante a Documenta e se dedicassem a escrever em público (além de Vila Matas fizeram parte deste projeto os escritores Etel Adnan, Aaron Peck, Mario Bellatin, Adania Shibli, Holly Pester, Marie Darrieussecq e Alejandro Zambra). Vila-Matas, confessadamente neófito em artes plásticas, aceita o inusitado convite e no verão europeu de 2012, na última semana da exposição, experimenta uma espécie de imersão estética no mundo da arte contemporânea de vanguarda. Sua ambição foi a de utilizar essa experiência com artes plásticas para verificar como sua produção literária poderia "localizar e efetuar uma reanimação dos elementos mágicos e humanos" nestes tempos sombrios e estúpidos em que vivemos. Segundo ele "Kassel no invita a la lógica" é um convite otimista aos leitores para que encontrem alegria na vida e na arte. Se é que eu entendi bem (não da proposta, que pode ser encontrada em suas entrevistas publicadas em jornais ou em seu sempre ótimo website), mas do que eu entendi do resultado dessa proposta, seu livro "Kassel no invita a la lógica" é uma tentativa de discutir com o leitor os dias que correm, uma tentativa de definir o que de fato pode ser considerado contemporâneo, importante, válido, relevante (ou antes, como um homo sapiens sapiens nos dias que correm pode viver e refletir plenamente seu tempo, não apenas reproduzindo idéias e chavões de terceiros, verdadeiros escravos mentais que somos quase todos). Terminamos o livro e entendemos que ao menos ele, entusiasmou-se tanto com a Documenta 13, incorporou em si tanto do que viu nas instalações expostas lá, que viu-se novamente como em seus anos iniciais de artista, como escritor; recuperou de alguma forma o que ele considerou sempre sagrado, seu pertencimento ao vanguardismo total (ou seja, se é que entendi bem, ele testou até que ponto sua arte, sua ficção literária, após quarenta anos de prática, de fato poderia ser considerada de vanguarda). O resultado é interessante, mas não arrebatador. Talvez, assim como nas jornadas místicas, experiências deste tipo não possam de fato serem compartilhadas; talvez a única coisa realmente válida seja o convite para que antes de criticarmos indolentemente a arte contemporânea (ou a defendermos bovinamente) cada um de nós devesse utilizá-la como um antídoto contra a estupidez reinante, cada um de nós fizesse uso dela como uma forma de entendermos melhor nossa própria vida, entendermos melhor a geografia, a política, a cultura e a história do lugar onde vivemos. Nas palavras de Chuz Martínez, transcritas no livro: "... a arte não é nem uma questão estética nem uma questão de gosto, mas de conhecimento." Louvo o otimismo de Vila-Matas, mas acho que continuarei algo cético com o poder da arte - e de resto da ciência, da educação e de qualquer outra forma de conhecimento - ,ao menos neste lugar triste e desgraçado que chamamos de Brasil. Talvez seja o caso de incluir aqui uns links: (i) a lista completa dos artistas que participaram da Documenta 13; (ii) um tour fotográfico com as obras lá exibidas; (iii) a lista com os livros/cadernos de leitura produzidos por 100 artistas/escritores durante o evento; (iv) a página eletrônica de Vila-Matas dedicada a esse livro; (v) a página eletrônica da próxima Documenta, que acontecerá no verão europeu de 2017. Já me escalei mentalmente para lá estar em 2017, mas haverá em 2017 um Brasil de onde poderemos sair para visitar uma exposição de arte contemporânea desse porte? Haverá em 2017 um país chamado Brasil? Haverá alguma vida inteligente (e arte) em 2017? Logo veremos.
[início: 30/03/2014 - 05/04/2014]
"Kassel no invita a la lógica", Enrique Vila-Matas, Barcelona: Editorial Seix Barral Biblioteca Breve (Grupo Planeta) 1a. edição (2014), brochura 13,5x23 cm., 300 págs., ISBN: 978-84-322-2113-2

quinta-feira, 3 de abril de 2014

ulysses the manual

Dentre os muitos mimos joyceanos que consegui amealhar em 2013 o que veio de mais longe foi o "Bloomsday Survival Kit": livro/objeto/arte do coletivo (que é a palavra da moda para designar grupo) irlandês At it Again!. Trata-se de uma caixa com uns guardados que todo confrade que dispõe-se a participar de um legítimo Bloomsday dublinense precisa ter à mão e consultar. A caixa (o "Kit" propriamente dito) contém um bom mapa de Dublin, sugestões de passeios pela cidade (que se inspiram, claro, nas caminhadas de Leopold Bloom por lá), ítens variados que pretendem estimular o flâneur / leitor a fazer suas próprias associações com o Ulysses, um par de ilustrações muito bonitas e por fim um pequeno livro, um manual para se entender o Ulysses. Esse manual é muito bem produzido e informativo. Encontramos ali uma pequena biografia de James Joyce (que todo neófito rapidamente precisa decorar); um hiper resumo do livro; a localização em Dublin de cada um dos dezoito episódios do livro; descrições dos personagens principais; sugestões de adereços e roupas que podem ser usadas nas comemorações (sim, porque em Dublin centenas de pessoas vestem roupas do início do século XX para entrarem no ritmo certo da festa). O leitor é também estimulado a fazer suas anotações encontrar registros de Bloom e Joyce por Dublin  e eventualmente encontrar o povo do At ir Again! por lá. O bom humor, que dá a tônica trabalho teatral da turma do At it Again! (e que pode ser apreciado em vídeo), contamina o leitor. Claro. Cabe dizer por fim que foi don Thiago, jovem físico dos bons, joycista amador, gremista inveterado e dublinense honorário quem conseguiu me enviar, lá de Dublin, esse meu manual (que agora ninguém tira mais de mim). Sláinte Thiago!
[início: 01/10/2013 - fim: 31/03/2014]
"Romping through Dublin: Ulysses, The Manual", Maite López, Jessica Peel-Yates (text), Niall Laverty, James Joore (illustrations), Dublin: At it Again! (1a. edição) 2013, brochura 10,5x15,5 cm., 61 págs., ISBN: 978-0-9576559-0-4

quarta-feira, 2 de abril de 2014

de vuelta del mar

Em 1980 a editorial Hiperión madrilleña publicou uma primeira seleção de poemas de Robert Louis Stevenson assinada por Javier Marías. Recentemente a editora fundada pelo próprio Marías (Editorial Reino de Redonda) reeditou estes poemas (sabe-se que alguns foram retraduzidos e a que a seleção deles foi algo modificada). Trata-se de uma edição bilíngue, que inclui 66 poemas. Marías nos explica, em sua apresentação do livro, que esses são os poemas que "admitem" tradução, não sendo Stevenson um poeta especialmente brilhante (muito embora tenha produzido coisas muito boas). Marías é um autor que leva o ofício de tradução muito a sério (basta ler Gareth J. Wood para se convencer disso) e gasta um bom número de páginas do prólogo justificando suas escolhas e procedimentos tradutórios. De qualquer forma a produção poética de Stevenson não é particularmente grande (são aproximadamente 350 os seus poemas ). Ele é mais conhecido (e celebrado) por suas novelas e romances (principalmente "A ilha do tesouro" e "O estranho caso do Dr. Jeckyll e Mr. Hyde"), mas foi um escritor prolífico, que publicou romances, contos, ensaios, peças de teatro, música e crítica literária, além de poesias. Os poemas de Stevenson falam do mar, dos amigos e da família, das viagens, da morte e das terras altas de Edinburgh. Um outro tema que aparece recorrente neles é o farol (ele estudou engenharia e sua família era especialista na construção deles). Alguns poemas foram pensados para serem musicados; muitos incluem dedicatórias. Não há demasiada melancolia nos poemas, mas percebe-se que sua doença (ele sofria de tuberculose) ditava seu ritmo e suas escolhas. Alguns poemas falam do amor, mas parece um amor cerebral demais, quase artificial. "De vuelta del mar" é o tipo de livro que transporta o leitor para um lugar e a um tempo onde só os prazeres e as epifanias são permitidos. Pena que esse transe seja temporário, fechamos o livro e logo voltamos a vida, ao mundo real. Impossível não ler os poemas do ciclo final da vida de Stevenson incluídos no livro e não lembrar de Cees Nooteboom e seu "Tumbas - de poetas e pensadores". Com Nooteboom como guia não precisamos ir a Samoa visitar a tumba de Stevenson e ler ali, de frente ao mar, aquelas palavras fortes que parecem perdoar a soberana morte: "Under the wide and starry sky, / Dig the grave and let me lie. / Glad did I live and gladly die, / And I laid me down with a will. / This be the verse you grave for me: / Here he lies where he longed to be; / Home is the sailor, home from sea, / And the hunter home from the hill." 
[início: 20/02/2014 - fim: 31/03/2014]
"De vuelta del mar: Antologia poética", Robert Louis Stevenson, tradução de Javier Marías, prólogo de Luis Antonio de Villena, Madrid: Reino de Redonda (1a. edição) 2013, capa-dura 14,5x23 cm., 244 págs., ISBN: 978-84-936887-4-5 [edição original: Poems (New York: Charles Scribner's Sons) 1895; Poems Including Underwoods, Ballds, Songs of Travel (London: Chatto and Windus) 1917; New Poems and Variant Readings (London: Chatto and Windus) 1918; Home from Sea, Poems for Young Readers (London: The Bodley Head) 1970; edição original da tradução: (Madrid: Hiperión) 1980]

domingo, 30 de março de 2014

botchan

Publicado em 1906, "Botchan" rapidamente tornou-se um dos livros mais populares no Japão. Há quem o compare com "O apanhador do campo de centeio", de J.D. Salinger. Para mim trata-se de um Bildungsroman clássico, um romance de formação ou aprendizado, no qual o leitor acompanha as experiências de uma personagem de ficção na transição entre sua juventude e sua maturidade (muito embora ao final do livro não sabermos se aquelas experiências realmente modificaram a forma com que o personagem entende o mundo). Botchan é um jovem nascido em Tóquio que ao formar-se em ciências naturais resolve dar aulas em uma escola pública de uma região bastante afastada (Shikoku, a menor das quatro grandes ilhas do Japão, que fica aproximadamente 600 Km ao sudoeste da capital). Lá ele é forçado a aprender a interagir socialmente com pessoas de moralidade bem distinta da sua, processo pelo qual passa por inúmeros aborrecimentos. Sendo o professor mais jovem da escola ele não conquista o respeito nem de seus colegas (que o vêem como imaturo e irresponsável), nem dos alunos (que o vêem apenas como mais um velho e rígido representante da instituição escolar). Botchan alterna confiança e desprezo por dois professores mais velhos (Akashatsu e Yamaarashi), já que ele não consegue perceber as sutilezas do comportamento de ambos, seja a retidão moral e senso de justiça deste último ou o maquiavelismo e dissimulação do primeiro. Logo no início do livro o leitor já sabe que a experiência de ser um "professor de províncias", um professor que sai de uma cidade cosmopolita como Tóquio e experimenta pela primeira vez o provincianismo da vida rural não dará certo, mas Soseki alcança manter a atenção do leitor o tempo todo sobre o destino de seu protagonista. O que mais gostei nesse livro é a facilidade com que Soseki descreve as mudanças de opinião de Botchan. Gostei também de ter agora como exemplificar, ao menos literariamente, aquilo que sempre me pareceu uma idealização demasiado forçada: o respeito automático que os japoneses - e de resto outros povos - têm pela educação e por seus professores (como usualmente lê-se na mídia hoje em dia, como forma de contrastar a atrasada e medíocre educação formal dos brasileiros com aquela já alcançada por outros povos). Para mim, que me considero suficientemente iconoclasta, é claro que hipocrisia, violência, mentira e artifícios condenáveis para não se submeter às regras de conduta vigentes de uma sociedade é algo comum a todos os homens, em qualquer tempo e lugar. Mas essa é uma discussão para um outro tempo e lugar. Enfim, Soseki não é nem um pouco panfletário em seu livro, apesar de Botchan ser exemplarmente moral e ético. Bom romance. Cabe-me ainda registrar que cronologicamente "Botchan" é o segundo livro de Soseki, publicado um ano após sua estréia, como "Eu sou um gato" (1905) e antes de "Sanshiro" (1908), "E depois" (1909) e "Kokoro" (1914), já resenhados aqui.
[início: 22/03/2014 - fim: 25/03/2014]
"Botchan", Natsume Soseki, tradução de José Pazó Espinosa, Madrid: Editorial Impedimenta (1a. edição) 2012, brochura 13x20 cm., 237 págs., ISBN: 978-84-935927-7-6 [edição original: Botchan (坊っちゃん) Tokyo, 1906]

terça-feira, 25 de março de 2014

javier marías's debt to translation

Há vários livros que comprei e comecei a ler ainda em 2013, mas abandonei, ai de mim, com alguma culpa e decepção, por motivos variados. Após os sucessos das férias resolvi retomar esses projetos (e é essa a ambição de 2014: terminar tudo o que foi esquecido ou em 2013 ou ainda mais atrás no passado). "Javier Marías's debt to translation" é uma pequena jóia. Trata-se de uma tese de doutoramento que foi transformada em livro. O autor, Gareth J. Wood, é atualmente professor na Universidade de Londres e foi orientado na tese que originou o livro por um amigo de Javier Marías chamado Eric Soutworth, professor na Universidade de Oxford desde os tempos que Marías trabalhou por lá. No livro Wood demonstra o nexo cronológico entre a produção ficcional de Marías com seus projetos de tradução.  Segundo ele todos os autores aos quais Marías dedicou tempo e atenção como tradutor de alguma forma foram incorporados em sua ficção, confessadamente ou não, em maior ou menor grau. Wood descreve detalhadamente como Marías emula o estilo e as idéias dos autores que traduziu. Trata-se de um livro onde há muitas citações (denunciando sua origem como tese acadêmica), mas isso não atrapalha a leitura. Wood apresenta o que se pode chamar de método de tradução de Marías, que envolve afinidades (eletivas, por supuesto) entre as idéias do autores a serem traduzidos e do sujeito que se propõe a traduzir. Há um longo capítulo dedicado a tradução que Marías fez de "The Life and Opinions of Tristram Shandy, Gentleman" (de Laurence Sterne), com a qual ele ganhou o Prêmio Nacional de Traducción espanhol, em 1979. Após discutir um tanto o que pode-se entender como manifestação da angústia da influência experimentada por Marías em relação a Sterne, Wood passa a discutir as traduções que Marías fez de textos de Thomas Browne, Vladimir Nabokov, Isak Dinesen, Robert Louis Stevenson e Joseph Conrad e de como cada uma destas traduções, de alguma forma, foi absorvida em sua prosa, em sua ficção. No capítulo final Gareth Wood discute como todos os experimentos tradutórios de Javier Marías plasmam-se em ficção de alta qualidade no seu "Tu rostro mañana", seu livro mais ambicioso. Cabe dizer que "Tu rostro mañana" é talvez o livro que melhor explique hoje como o homo sapiens sapiens se comporta moralmente neste complexo início de século, onde todos os valores, regras de conduta, juízos de valor, contratos sociais e tradições estão sendo modificados, radicalmente modificados. Enfim, "Javier Marías's debt to translation" é um livro que não apenas discute o valor de todos os livros já publicados de Javier Marías, mas também um livro que indica as fontes primárias das teorias de tradução utilizadas por ele, fontes de seus mais entranhados valores e convicções. O livro inclui uma extensa, completíssima, bibliografia e um índice remissivo que não deixa nenhum leitor desatento sem conforto ou resposta. Que livro bem editado. Cabe registrar ao final que esse "Javier Marías's debt to translation" de Gareth J. Wood e o "A companion to Javier Marías" de David E. Herzberger, já resenhado aqui, se complementam. Nesse último encontramos análises mais propriamente literárias dos romances de Javier Marías (à exceção de "Los enamoramientos", publicado em 2011). Em "Javier Marías's debt to translation" encontramos uma espécie de espelho, onde à crítica soma-se uma camada de influências literárias (através de seus projetos de tradução). Como não gostar de livros assim? Se o Javier Marías não publicar nada novo esse ano é capaz de eu ser obrigado a reler seus livros (ou ainda, por completude e melhor, é capaz de eu enfim decidir-me em terminar de ler Laurence Sterne (e me divertir um tanto). Vamos a ver. 
[início: 20/06/2013 - fim: 18/03/2014]
"Javier Marías's debt to translation: Sterne, Browne, Nabokov", Gareth J. Wood, Oxford:  Oxford University Press, 1a. edição (2012), capa-dura, 14,5x22,5 cm., 351 págs., ISBN: 978-0-19-965133-7