quarta-feira, 5 de agosto de 2020

wine labels

Há tempos ganhei de presente de don Renato Cohen um pacote com vários livros de arte. Um deles foi esse Wine Labels, uma coleção de reproduções de rótulos de vinícolas e garrafas de vinho, bem antigas, coleção chamada Vintage Pictures and advertising. A ideia é que eles possam ser plastificados ou enquadrados, para serem usados em decoração, mas eu não fiz isto. Não há texto, nem identificação do responsável pela organização. São um pouco mais de cem reproduções. Ao leitor cabe apenas o deleite de ver, folhear o livrinho sem pressa, deixar-se levar pela aventura daqueles rótulos que provavelmente nunca encontrará adornando uma garrafa real, que se possa encontrar em uma loja de vinhos. O design dos rótulos é realmente antigo, acredito que da primeira metade do século passado, ou ainda mais velhos. O leitor pode ter uma amostra do efeito visual dos rótulos neste link Pinterest: clika! A experiência estética é agradável, prazerosa, algo tão difícil nestes tempos agressivos, cruéis, dementes, sombrios, de pandemia. Segue o baile. Vale! 
Registro #1555 (livro de arte #35l) 
[início - fim: 11/06/2020] 
"Wine Labels: Vintage Pictures and advertising", Hong Kong: Retro Books Team (CookLovers), 1a. edição (2012), capa-dura 14x17,5 cm, 64 págs. ISBN: 978-85622-4767-5

quinta-feira, 16 de julho de 2020

o verão tardio

De Luiz Ruffato só havia lido, há quase duas décadas, o bom "Eles eram muitos cavalos". Noutro dia achei perdido em meus guardados "O verão tardio", livro mais recente dele, publicado em 2019. Não é um romance para leitores sensíveis, deprimidos, ou leitores que estejam, nestes dias sombrios de pandemia, isolados e/ou particularmente preocupados com o futuro e o destino, com a saúde e a morte. Digo isso pois Ruffato descreve a realidade cruel deste desgraçado Brasil, um país de contínuo fracasso, de auto-engano, de hipocrisia, de fuga, de gente que se orgulha de sua estupidez, de indivíduos que voluntariamente tornam-se escravos mentais de partidos políticos, de ideologias, de completos canalhas. "O verão tardio" é um livro bem escrito, onde se destaca a linguagem, os diálogos fundidos à narrativa, à forma escolhida pelo autor para contar sua história. A narrativa gravita a vida de um sujeito de seus sessenta anos, Oséias, que volta a sua cidade natal, Cataguases, em uma espécie de balanço final de sua vida. Acompanhamos catálogos de fragmentos de sua história de vida, seu casamento e divórcio, sua relação com a família (pais e irmãos), seus amigos, sua cidade, seu ofício profissional. Todas as mazelas do Brasil são elencadas no livro em algum momento. Todos os temas que nos assombram há décadas são descritos. Ruffato não pontifica, deixa ao leitor o juízo ou simpatia pelos personagens que vagam por seu livro como fantasmas, em contínuo transe, todos eles igualmente lamentáveis, tristes, fracassados, à beira de um surto psicótico. Enfim, livro interessante, mas acho eu, o menor dos anões desta paróquia, que seja melhor que os leitores deixem para lê-lo em dias menos cruéis, menos terríveis, menos vagabundos, menos trágicos. Vale! 
Registro #1554 (romance #385)
[início: 20/06/2020 - fim: 21/06/2020]
"O verão tardio", Luiz Ruffato, São Paulo: editora Schwarcz (Companhia das Letras / Penguin Random House), 1a. edição (2019), brochura 14x21 cm., 232 págs., ISBN: 978-85-359-3211-9

quarta-feira, 15 de julho de 2020

no me cogeréis vivo

"No me cogeréis vivo" é um volume onde estão reunidos 167 artigos de Arturo Pérez-Reverte publicados originalmente em jornal (na coluna Patente de Corso do caderno XL Semanal), entre setembro de 2001 e julho de 2005. Esse período corresponde aos últimos anos do governo Aznar e os primeiros do governo Zapatero. Não preciso aqui repetir meu costumeiro entusiasmo  com a excelência de tudo que Pérez-Reverte publica (já falei sobre três volumes de artigos dele: "Una história de España", "Perros y hijos de perra" e "Los barcos si pierden en terra"). Pérez-Reverte fala do cotidiano espanhol, de política, das transformações pelas quais passa a Europa, seu país e suas fundamentais Madrid e Cartagena. Fala de questões filológicas e de la lengua espanhola, discutidas nas reuniões das quintas-feiras na Real Academia Espanhola, de questões náuticas, dos livros que lê, dos políticos e das muitas coisas estúpidas ditas pelos políticos. Comenta sobre a estupidez reinante dos hipócritas e canalhas que defendem ideias ditas politicamente corretas; sobre os censores de costumes e de comportamento; sobre questões ambientais. Louva indivíduos que o influenciaram, o educaram, as exposições que viu, as viagens que fez, os encontros que teve com amigos e de sua experiência como jornalista em conflitos bélicos. Com ele caminhamos pelo bairro de las letras de Madrid, vamos a restaurantes, lembramos de Cervantes, Quevedo, Góngora, Calderón de la Barca, de Lope de Vega. Ele faz brotar da infância sua admiração pelas histórias dos romanos, dos gregos, dos árabes de sua península. Com ele vamos aos portos, aos mercados, aos cafés, ao cinema, a lugares ermos e perigosos das cidades que ele visita. Suas crônicas/artigos/ensaios se distinguem de material comum, aquele que notadamente encontramos em jornais brasileiros, pois é notável sua coragem intelectual, sua capacidade de denúncia fundamentada, à quaisquer grupos ou indivíduos que mereçam sua atenção. Não se trata de ser um simples paladino de boas causas ou malabarista de palavras. Seu afiado senso de justiça, sua capacidade de saber dosar argumentação lógica com sonoros palavrões (que deixariam o coro purista e hipócrita de jornalistas brasileiros corados - e prontos para denunciá-lo nos tribunais de exceção de inspiração fascista que vicejam por aqui nestes podres dias de pandemia), tornam a leitura das quase 200 crônicas uma alegria, dias de genuíno prazer e educação. Pérez-Reverte não tem medo de ridicularizar quem quer que seja, desde o tonto mal educado que viaja a seu lado em um avião, até os ministros de governo, tão servis à programas políticos inúteis, contaminados por ideologias que alcançam o patético, quando não apenas servem para corrupção e desvio de dinheiro público. Seu colega articulista, Javier Marías - el perro inglés, ganha um punhado de citações, sempre bem humoradas, corteses, fraternais. ÔBeleza. Sorte que tenho ainda uns volumes de Pérez-Reverte escondidos nos guardados. Vale! 
Registro #1553 (crônicas e ensaios #275) 
[início: 11/02/2013 - fim: 01/07/2020]
"No me cogeréis vivo: artículos 2001-2005", Arturo Pérez-Reverte, Madrid: Punto de Lectura (Santillana ediciones generales / Penguin Random House Grupo Editorial), 1a. edição (2005), brochura 12,5x19 cm, 605 págs. ISBN: 978-84-663-1891-4

sábado, 11 de julho de 2020

com el agua al cuello

"Con el agua al cuello" é a vigésima nona aventura de Guido Brunetti, comissário da polícia veneziana. Foi publicado recentemente, em março. Mesmo com as dificuldades da pandemia consegui meu exemplar em poucos dias (graças a Casa del Libro e a DHL, por supuesto). Esse volume trata da sistemática contaminação das águas da cidade e de como um sujeito cuja mulher está em estado terminal, com câncer, é envolvido em uma trama de acobertamento, perpetrada justamente pela empresa responsável por verificar a qualidade da água. A história se passa no verão, com a cidade repleta de turistas, o que dificulta o deslocamento dos personagens pela cidade. Desta vez poucos dos costumeiros personagens se apresentam, como se fosse uma peça escrita para ser encenada em um teatro de bolso, com pouca movimentação e pouco público. Guido Brunetti e sua colega comissária Griffoni se encarregam de investigar as circunstâncias da morte de um químico, responsável pela coleta e análise de amostras da água que é servida para a população. Os dois contam com a ajuda da sempre eficiente secretária Elettra. A narrativa usa pouco como cenário o escritório da comissaria, preferindo levar os protagonistas e os leitores por vários cafés da cidade (com seus típicos tramezzini veneziani). Como sempre acontece nos romances policiais de Donna Leon a chave estrutural segue um drama grego clássico, no caso a trilogia de Orestes de Ésquilo: Agamemnon, Coéforas e Euménides. A questão moral em jogo, o tema, é a maldição que recai sobre aqueles que cometem um crime contra a cidade (a pólis). Todavia, assim como na peça final da trilogia, há uma nítida transição desde o ciclo sangrento do início (quando são as Erínias que comandam o destino das gentes) para o surgimento de uma justiça conciliadora, civilizada, na figura de Palas Atena. Donna Leon sabe tornar crível toda a trama, cujo tema é atualíssimo e certamente se repete por todas as cidades (ela inclusive cita uma tentativa recente de privatização das águas italianas, que não chegou a ser autorizada, após dois plebiscitos). A bem da verdade a trama é um tanto parecida com um outro volume dela, o décimo-quinto, "Veneno de cristal", que também fala sobre a fatal combinação entre a poluição das águas da laguna e a avareza. Entretanto, em "Con el agua al cuello" a solução é mais sutil, melhor resolvida dramaticamente, demonstrando como Brunetti é um personagem complexo e, como não, universal. A ver o que ela nos preparará para sua trigésima aventura, no ano que vem. Belo livro. Vale! 
Registro #1552 (romance policial #96) 
[início: 06/06/2020 - fim: 09/06/2020]
"Con el agua al cuello", Donna Leon, tradução de Maia Figueroa Evans, Barcelona: Seix Barral / Biblioteca Formentor (Editora Planeta S.A.), 1a. edição (2020), brochura 13,5x23 cm., 344 págs., ISBN: 978-84-322-3638-9 [edicão original: Trace elements (Zürich: Diogenes Verlag AG) 2020]

terça-feira, 7 de julho de 2020

lacombe lucien

"Lacombe Lucien", filme de Louis Malle, foi lançado em 1974, mas eu só o assisti em 1980 ou 1981. Lembro-me bem do filme, sobretudo porque naquela época eu lia muito Paulo Francis e ele era particularmente sádico em denunciar reiteradamente a sociedade francesa, falando do porco papel de boa parte daquela população durante a ocupação alemã, na segunda grande guerra. Recentemente comprei um pacote de livros do Patrick Modiano, dentre eles a versão original do roteiro do filme, que é assinado por ele e o diretor, Louis Malle. A leitura silenciosa do livro é tão impactante quando o filme. Não me cabe aqui contar detalhes do  roteiro/filme, claro. Só recomendo, como um dos filmes fundamentais, que todos deveriam tentar ver, mas sei que isso dificilmente acontece, tão anestesiados estão os viventes deste desgraçado país. Gostei de ler o roteiro. Não sou mais aquele jovem de vinte anos, que se instruía na vida, tentava ilustrar-se e que era praticamente imune ao cinismo. Hoje, já praticamente sessentão, vejo a desgraça dos atos e destino daquele protagonista como fruto do completo acaso, como quase tudo nesta vida. Retrospectivamente é fácil ser heroico, estar do lado certo da história, esbanjar bom mocismo, máximas éticas e morais. Noutro dia vi uma entrevista com um de meus gurus espanhóis, o escritor Arturo Pérez-Reverte, em que ele dizia desprezar muito mais a estupidez que a maldade. Segundo ele tendemos quase sempre a sermos condescendentes com as pessoas simples, mal educadas, idiotas, reputando a elas uma inocência que as blindaria dos funestos desdobramentos de suas insensatas escolhas e decisões. Lacombe Lucien é um destes sujeitos, que sempre existiram e existirão, que passam pela vida sem entender quase nada de sua complexidade. Grande livro. Grande filme. Grande Modiano e grande Louis Malle. Vamos em frente. Vale! 
Registro #1551 (drama #21) 
[início - fim: 12/06/2020]
"Lacombe Lucien", Louis Malle e Patrick Modiano, tradução de María Teresa Gallego Urrutia, Barcelona: editorial Anagrama (Panorama de Narrativas #981), 1a. edição (2018), brochura 14x22 cm., 156 págs., ISBN: 978-84-339-8011-3 [edição original: Lacombe Lucien (Paris: éditions Gallimard) 1974]

domingo, 5 de julho de 2020

potnia

"Potnia" é um livro de poemas, e também o livro de um único poema: extenso, estirado, multifacetado, polimorfo. Segundo Leonardo Chioda, logo no início de seu livro, "Potnia (...) é um título de honra, usado pelos poetas para exaltar deusas e mulheres de extremo poder". Estamos no mundo das ideias de Robert Graves, no mundo da "Deusa branca", aquela que sob vários nomes fez-se cultuar por todo o orbe, aquela que tornou-se a linguagem poética de todos os mitos e religiões originais, todos os gênesis, todos os círculos de renascimento e morte. Após um prólogo/contrato entre narrador e leitor, e de três cantos evocativos, emerge o livro, dividido em três partes principais: "Épura & Medula", "Nume" e "Axioma". No primeiro conjunto encontramos 74 poemas, onde um narrador, desde a orla de um mundo novo que vai sendo gerado a cada verso, contempla a vastidão de um grande mar (o signo que domina "Potnia" é o da água, em todas suas possibilidades, como James Joyce já nos ensinou: sua universalidade, vastidão, inquietação, quietude, imperturbabilidade, virtudes curativas, infalibilidade como paradigma e modelo, onipresença, metamorfoses como vapor, névoa, nuvem, chuva, granizo, neve e granizo). São poemas complexos, que cobram tempo e esforço do leitor, onde as imagens evocadas importam mais do que se está sendo descrito (descrições que se desdobram, em parênteses, travessões e chaves em cascata). No segundo conjunto, "Nume", o narrador é Ulysses, que faz-se ao mar, navega de volta a sua Ítaca fundamental. A água continua soberana e as musas condutoras dos poemas são as deidades aquáticas: as sereias, as ondinas, as nereidas, as náiades. Elas fazem 35 conjurações, 35 encantos, que provocam em Ulysses o melhor entendimento de sua jornada. Somos lembrados que se o corpo é quase água, que é branca, transparente, o sangue que flui por nossas veias é salgado e rubro. O porto do narrador neste conjunto não é Ítaca, mas a poesia forte de João Cabral de Melo Neto, que oferece lições ao narrador e ao leitor. O último conjunto de poemas é "Axioma", um conjunto de 30 poemas curtos e três codas, que tratam de conceitos/palavras, potências mitológicas, oferecem um contraste entre a tradição e o cotidiano, demonstram a circularidade da vida, o eterno retorno de todos nós, seres em busca da palavra perfeita, da capacidade de expressão, de comunicação. "Potnia" não me parece um livro fácil, mas recompensa o leitor diligente com imagens, metáforas e histórias realmente potentes. Lembrei de coisas da Hilda Hilst (um reverdeço, uma vida espessa, um respeito por nossa capacidade de amar, mas talvez isso seja apenas devido a coincidência de ter relido ela recentemente, acontece), e também da Teogonia (a invenção de um mundo). Enfim, vamos a ver se encontro outras coisas de Leonardo Chioda. Vale! 
Registro #1550 (poesia #132) 
[início: 16/06/2020 - fim: 21/06/2020]
"Potnia", Leonardo Chioda, São Paulo: V. de Moura Mendonça Livros (Selo Demônio Negro), 1a. edição (2016), brochura 16x23 cm., 198 págs., ISBN: 978-85-66423-29-7

sábado, 4 de julho de 2020

martini

Nestes dias funestos, abancado em casa, sem muita possibilidade de festejos etílicos, resolvi fazer um itinerário emocional, por minha memória, por minhas aventuras pelo universo dos coquetéis, dos combates de Baco, das transgressões. Vaguei por meus guardados, olhando sobretudo a seção dos livros dedicados aos prazeres, às aventuras, ao desejo. Esse "Martini", de Alexander Struminger, me acompanha há décadas, já li, emprestei, tive a sorte de receber de volta, mostrei em festas, desde os dias em que, titubeante, não me entendia entre continuar paulista, algo mundano ou tornar-me gáucho, provinciano como só neste estado se pode ser. Mas isso é história. Alas! Pois esse pequeno volume descreve a história, a mixologia, as receitas, os utensílios, as controvérsias, os procedimentos dos "bartenders" e a biografia de alguns dos grandes entusiastas deste icônico "cocktail". É um volume pequeno, fartamente ilustrado, que ensina o leitor a como aprender, a como melhor degustar os Dry Martinis, com a prática, o tempo, o exercício, o prazer. O certo deveria ser esta uma época de alegrias e descobertas, mas não, estamos aqui, neste baile macabro, contando mortos ao invés de contar bons momentos. Só mesmo algo intoxicado para suportar a estupidez reinante, a falta de caráter e bons modos, a notória vocação para a voluntária escravidão mental e subserviência à canalhas da grande maioria da população deste desgraçado país. Então, segue o baile, agora com uma taça de Martini à mão. Vale! 
Registro #1549 (gastronomia #44) 
[início: 17/05/2020 - fim: 22/05/2020] 
"Martini", Alexandre B. Struminger, New York: Todtri Productions, 1a. edição (1996), capa-dura 18,5x18,5 cm, 48 págs. ISBN: 1-57717-022-9

quarta-feira, 1 de julho de 2020

mil sóis

Neste volume estão reunidos 60 poemas de Primo Levi, produzidos entre janeiro de 1946 e janeiro de 1987. Os 49 primeiros foram selecionados pelo tradutor, Mauricio Santana Dias, dentre os 63 incluídos no volume "Ad ora incerta", premiada reunião de toda produção e tradução poética de Levi até junho de 1984. Outros 11 poemas, produzidos entre setembro de 1984 e antes da morte de Levi, em abril de 1987, também foram incluídos nesta seleção. Os poemas escritos logo após a segunda grande guerra são obviamente marcados por sua experiência no campo de concentração de Auschwitz. São poemas curtos, mas duros, que cobram do leitor não solidariedade, antes sim capacidade de indignação, de indignação frente ao horror, da necessidade de que todos guardem memória daquela tragédia. Nos demais poemas encontramos vários temas recorrentes: os animais e a natureza, a passagem no tempo, a velhice, as estações que governam o cotidiano dos homens, a ideia de viagem, afastamento, o Sol e a neve, o jogo de xadrez, as relações de trabalho e a necessidade do ócio, o contato social, humano. É um livro lírico, repleto de belas imagens, metáforas, que se lê com muito prazer. A edição é bilíngue, porém, ai de mim, meu italiano lamentável pouco ajudou-me na leitura. Cito aqui um dos poemas, "Despedida", de 1974, que diz: "Ficou tarde, meus caros; / Por isso não vou aceitar o pão ou vinho de vocês, / Somente umas poucas horas de silêncio, / As histórias de Pedro, o pescador, / O perfume de musgo deste lago, / O cheiro antigo dos sarmentos queimados, / O grasnido falastrão das gaivotas, / O ouro grátis dos líquens nas telas / E uma cama para dormir sozinho. / Em troca, lhes deixarei versos nebbich como estes, / Feitos para serem lidos por cinco ou sete leitores: / Depois seguiremos, cada um por si, / Pois, como eu dizia, ficou tarde". Li esse volume quase simultaneamente a um outro livro de poemas, de Wallace Stevens, muito cerebrais e diferentes destes de Primo Levi, mas esta é outra história. Sigamos pois, em nosso baile macabro. Vale! 
Registro #1548 (poesias #131) 
[início: 01/03/2020 - fim: 20/05/2020] 
"Mil sóis: Poemas escolhidos", Primo Levi, tradução, seleção e apresentação de Mauricio Santana Dias, São Paulo: Editora Todavia, 1a. edição (2019), brochura 13,5x21 cm, 160 págs. ISBN: 978-656-80309-19-1 [edição original: Ad ora incerta (Milano: Garzanti Libri / Gruppo Editoriale Mauri-Spagnol / GEMS)1984, 1990, 1998, 2004]

segunda-feira, 29 de junho de 2020

donde todo ha sucedido

Já contei aqui como descobri perdidos em meus guardados dois livros de crônicas do Javier Marías. Um deles era uma antologia de textos sobre futebol, "Salvajes y sentimentales", que já registrei aqui. O outro é "Donde todo ha sucedido", textos sobre cinema, sobre os quais falo agora. São 63 crônicas, publicadas originalmente em jornais, entre 1993 e 2004, e já reunidas em livro anteriormente. O interessante da releitura destas crônicas, no meu caso, é receber de uma só vez o impacto das impressões dele sobre este assunto. Quem já leu algum romance de Javier Marías sabe o quão influenciados pelo cinema eles são. O primeiro deles, "Los domínios del lobo", é uma colagem brutal de cenas cinematográficas, que emulam os filmes americanos que retratam o período que vai da guerra civil, no século XIX, até a grande depressão, nos anos 1930. Em todos os demais é comum encontrarmos alguma reflexão ou memória de uma cena de um determinado filme ou seguir a narrativa, pelos personagens de seus livros, dos atos de algum ator, num contraste sempre especial. Marías fala sobre questões técnicas de apreciação, o papel do cinema em sua geração de escritores e de seus filmes favoritos (que é uma coisa de momento, cambiante), mas que à época destas reflexões sobre cinema ele afirma serem The River, de Jean Renoir; The Man Who Shot Liberty Valance, de John Ford; Campanadas a medianoche, de Orson Welles; The Ghost and Mrs. Muir, de Joseph L. Mankiewicz; The Life and Death of Colonel Blimp, de Michael Powell e Emeric Pressburger; Singin' in the Rain, de Stanley Donen e Gene Kelly; North by Northwest, de Alfred Hitchcock; The Apartment, de Billy Wilder; The Wild Bunch, de Sam Peckinpah; The Dead, de John Houston. Escreve bastante sobre John Ford e sobre Orson Welles, seus diretores favoritos. Gostei particularmente de uma crônica sobre Leni Riefenstahl; outra sobre o dia em que dividiu uma mesa de bar madrileña com Hanna Schygulla; ainda outra sobre a influência de um tio seu, cineasta algo maldito, chamado Jesús Franco. Javier Marías fala sobre os grandes temas do cinema (que também são os grandes temas literários): a liberdade, a morte e a dor, o ódio e o amor, o ressentimento e o orgulho, a lei, a justiça e a maldade, a renúncia e a força. Também fala da política, sociedade, boa educação e questões de seu tempo. Nunca me canso de ler o que produz esse especial escritor, já se sabe. Vamos em frente. Vale! 
Registro #1547 (crônicas e ensaios #274) 
[início: 10/06/2020 - fim: 13/06/2020]
"Donde todo ha sucedido: Al salir del cine", Javier Marías, edicíon de Inés Blanca y Reyes Pinzás, Barcelona: Galaxia Gutenberg (Círculo de Lectores), 1a. edição (2005), capa-dura 13x21 cm., 286 págs., ISBN: 978-84-8109-513-3