domingo, 6 de dezembro de 2009

pawana

Comprei este livro na feira de Porto Alegre. Neste ano a maioria dos livreiros, jornalistas, escritores e especuladores de plantão reclamaram do formato, organização e vendas. Arautos, pregoeiros e cassandras anunciavam o fim do livro e do próprio futuro da feira. Em meio aos ventos e a grita geral o povo de uma banca, capitaneada pela czarina Gisela e seus fiéis boiardos Carlos e Claudio, parecia não se importar muito com as reclamações e seguia seu rumo, o de capitães de longo curso. Trabalhavam diligentes e sérios, com critério, vendendo livros de uma única editora (a Cosac Naify). Duvido que eles tenham vendido muito menos que nos anos anteriores. Acredito que a segmentação, a fuga da mesmice dos títulos encontrados na maioria das bancas seja o diferencial a ser alcançado. A CESMA também esteve na feira e teve boas vendas, calçada em seus bons títulos e no bom atendimento. "Pawana" é uma pequena novela que conta uma história terrível. Mesmo o mais otimista termina o livro um pouco mais descrente da raça humana, de seu futuro, de sua moral torta, de sua ética vaga. Le Clézio conta a história da descoberta de um local próximo ao sul da atual baixa Califórnia, na costa oeste do México, onde as baleias costumavam ir para ter seus filhotes. A matança é contada por dois sujeitos (o capitão de navio baleeiro, que descobriu a passagem, e um jovem marinheiro, em sua primeira viagem). O capitão parece se penitenciar pelo seu ato inaugural. O jovem acrescenta que à morte das baleias seguiu-se a destruição do lugar, da paisagem, da fauna, dos índios, até que em poucos anos não sobrasse nada além de areia e restos brancos das carcaças das baleias. Assim como viu as baleias o jovem vê uma jovem índia do lugar ser prostituída e descartada. A degradação toma conta simultaneamente das coisas e da alma dos homens. O leitor tem de ser corajoso e seguir, mesmo quando lê trechos como: "Acho que já não tínhamos alma, não sabíamos mais nada da beleza do mundo. Estávamos embriagados pelo cheiro de sangue, pelo ruída da vida que escapava com o sopro. Eu agora me lembro do olhar dos homens. Será que não notei na hora? Era um olhar decidido e sem piedade. (...) Lembro-me do olhar do garoto que estava com a gente, que me encarava com uma pergunta sem resposta. Hoje eu sei que pergunta era essa, a explicação que ele me pedia: como alguém pode matar o que ama?" Le Clézio consegue em um pequeno texto nos alertar e inspirar. As "Pawana", como os nativos esquimós chamam as baleias, continuam sendo massacradas, como se os homens continuassem incapazes de amar. Talvez seja assim mesmo, talvez sejamos capazes de apenas amar o passado, o lendário, o já morto e destruído. A edição da CosacNaify é belíssima, com ilustrações de Eloar Guazzelli que amenizam um tanto a crueza do texto. [início - fim 30/10/2009]
"Pawana", J.M.G. Le Clézio, tradução de Leonardo Fróes, ilustrações de Eloar Guazzelli, editora Cosac Naify (1a. edição) 2009, capa-dura 16x23, 63 págs., ISBN: 978-85-7503-848-2

sábado, 5 de dezembro de 2009

tempestade

Quando li recentemente "Pasiones Pasadas", de Javier Marías, eis que logo no início ele menciona um plágio, sofrido por ele, tempos idos, na temperamental Espanha dos anos 1990. O plágio teria sido praticado por um sujeito que Marías desdenha breve mas cruelmente, se furtanto de dar os nomes dos membros do corpo de jurados que deram ao livro plagiado um importante prêmio literário espanhol. A crônica plagiada era uma onde Marías descrevia seus dias na sereníssima e inafundável Veneza. Lembro-me bem como vários escritores e artistas citam Veneza em seus escritos: há textos belíssimos de Joseph Brodsky, Evelyn Waugh, Elias Canetti, Woody Allen, Richard Wagner, Igor Stravinsky, onde Veneza é descrita e louvada. Claro, Veneza para mim sempre será a mítica cidade descrita no "Brideshead Revisited", mas esta é outra história, cara talvez apenas ao Luiz Melo ou ao Renato Cohen. Procurei saber quem era o torpe plagiador descrito por Marías e eis que achei este "A tempestade", romance de Juan Manuel de Prada. Lembrei-me de ter visto muito recentemente um filme baseado neste livro. Resolvi lê-lo (há que se respeitar os fados, seguro que sim). É um romance bem acabado, mas nada que desperte muito entusiasmo no leitor. Manuel de Prada inventa um jovem doutorando de artes, que viaja à Veneza. Na noite de sua chegada eis que ele simultaneamente presencia um crime e se torna o principal suspeito do assassinato. Outros personagens se apresentam: um delegado minuncioso, uma concierge voluptuosa, um estafeta canalha, um curador de artes venal, uma artista/falsificadora desejável. O enredo envolve resolver o crime utilizando elementos que estão em um quadro importante de Giorgione (Giorgio Barbarelli da Castelfranco), pintor veneziano do início do século XVI, que se chama exatamente "A tempestade". Giorgone foi discípulo de Bellini ("which one", diria Lord Marchmain). Este enredo lembra, óbvio, o esquema fácil e apelativo de livros como o "Código da Vinci". Logo nas primeiras páginas o leitor já antecipa boa parte dos sucessos do livro. Não há muito o que acrescentar ao enredo. Aos poucos percebemos como será o desfecho. É um livro mal escrito (ou talvez mal traduzido, não sei a certo o que dizer). Manuel de Prada abusa de metáfaros sexuais como se fosse difícil a qualquer vivente emular as curvas e as pudendas de uma mulher, mas nele tudo soa artificial, assexuado demais na verdade. É um livro bobo do começo ao fim, incrível saber que ele ganhou um prêmio Planeta (afinal de contas trata-se de uma boa e tradicional editora, que outorga este prêmio já há tantos anos). Não encontrei exatamente quais foram as frases e/ou parágrafos plagliados. No livro de Javier Marías ele cita uma porção deles, mas eu não tenho paciência para procurá-las. Na internet achei várias menções a outras acusações de plágio entre autores espanhóis (inclusive com o nobelizado Camilo José Cela). Tudo muito ligeiro e irrelevante. Vamos seguir em frente e esquecer de vez este sujeito (mas não Veneza e o quadro de Giorgone, belíssimos). [início 05/11/2009 - fim 07/11/2009]
"A tempestade", Juan Manuel de Prada, tradução de Luiz A. de Araújo, editora Best Seller (1a. edição) 2003, brochura 13,5x21, 320 págs., ISBN: 85-7123-870-7

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

el premio

"El premio" foi publicado originalmente em 1996 e pertence ao último ciclo de histórias do detetive Pepe Carvalho, criação do industrioso Manuel Vázquez Montalbán. Os "hechos" do romance se dão na fase final do governo socialista de Felipe González (que ficou 14 anos no poder). Contam um tanto da conturbada transição para o governo liberal de José María Aznar (que ficaria seus 8 anos no poder). Foram anos onde escandalos de corrupção, crimes de grupos para-militares atuando à margem da lei, incertezas sobre o futuro da Espanha apontavam para a necessidade imperiosa de alguma renovação política. Certamente estes anos foram de desgosto para Montalbán, um sujeito que não suportava governos despóticos e populistas e teve de amargar o volta de um governo conservador à Espanha. Ele não chegou a viver para ver como os atentados terroristas em Madrid contribuiram para a derrota de Aznar nas eleições de 2004. Seguro que ele sairia pelo Raval pagando rodadas de Cava aos amigos. A história do romance é o que menos importa (trata-se de descobrir quem matou um rico empresário, um típico problema do crime na sala fechada, sempre utilizado em histórias de detetive). O tempo no romance vai e vem. Primeiro acompanhamos os sucessos dos momentos que antecedem a entrega de um importante prêmio literário, patrocinado pelo empresário, ainda rico, mas tecnicamente em risco de perder seu patrimônio e sem o respaldo político oficial que sempre teve em tempos mais favoráveis; depois o romance nos conta como Carvalho chegou a Madrid, contratado para proteger o sujeito que será morto na noite seguinte; na seqüência acompanhamos como o corpo do morto aparece, como é feito o censo dos principais suspeitos, todos presentes no salão de entrega do prêmio literário; volta-se novamente o tempo e seguimos Carvalho em um almoço glorioso (a gastronomia sempre presente em suas histórias) com o empresário; e assim segue o romance, indo e vindo no tempo, apresentando as impressões de Carvalho antes e depois da morte - inevitável, afinal sabemos, quase uma libertação para o enredado empresário. O romance serve para Montalbán refletir sobre a instabilidade dos anos finais do governo socialista, nos explicando como a vontade de manter-se no poder a qualquer custo, lentamente contamina a moral e a ética do mais despreendido e bem intencionado dos governantes. É algo muito parecido com o que vemos atualmente no Brasil. Não há aliança, não há apoio que seja constestado pelos ideólogos e dirigentes do atual governo. Tudo vale para dar continuidade ao modelo de gestão, péssima afinal de contas, e principalmente para manter os milhares de cargos públicos fartamente distribuídos aos amigos, quase sempre inéptos e despreparados. Montalbán nos ensina que a História não é uma ciência exata mas é o tipo de conhecimento que poupa muitos aborrecimentos a quem se dá ao trabalho de estudá-la, sem cabrestos ideológicos ou servilismos típicos do fascismo. A alternância no poder - nas democracias de fato - não é apenas desejável, mas profilática e saneadora. No romance Carvalho reencontra uma bela mulher, que já conhecemos do "Assassinato no Comitê Central", publicado em 1981. Nas conversas com ela e seu filho adolescente Montalbán nos apresenta como também a sociedade espanhola (não apenas o mundo político) estava em crise, como a "movida madrilleña" já era apenas um simulacro dos sucessos e do auge nos tempos de pós-redemocratização. "El premio" vale a leitura. Agora só me ficaram faltando "Tres historias de amor" e "Historias de fantasmas". Seguro que estes volumes me encontrarão um dia. Paciência então. [início 09/08/2009 - fim 28/10/2009]
"El prêmio", Manuel Vázquez Montalbán, editora Planeta (1a. edição) 005, brochura 15x23, 347 págs. ISBN 978-84-08-06001-7

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

pasiones pasadas

Estávamos os três, Lola, Manolo e eu, em uma terraza da Calle de Huertas de Madrid, mas precisamente no "La plateria bar museo", bem perto do Museu do Prado, como não citar isto também. Manolo dizia que a señora camarera era vasca, que era educada, que sabia alemão. Lola retrucava que seria impossível ele afirmar isto pois a señora apenas havia trocado uma ou duas frases conosco, como poderia ele saber quem era ela, de onde vinha? Eu me divertia com a conversa rápida e contei o que estava lendo naquela época mesmo, a história dos personagens Deza e Tupra do "Tu rostro mañana" do também madrileño (como eles) Javier Marías. Manolo parecia estar emulando a habilidade que os dois personagens tinham de interpretar rapidamente seus interlocutores. Falei de minha admiração por Marías, mas Lola me advertiu que ele escrevia bons livros, mas se comportava como uma "pessoa mayor". Na hora não entendi bem. Agora que comecei a ler seus ensaios e crônicas (li três livros, este é o primeiro que resenho) acho que entendi um tanto melhor. Neste "Pasiones pasadas" estão reunidas 31 crônicas publicadas em jornal entre os anos 1982 e 1990 (um terço deles neste último ano). São crônicas publicadas antes de seu primeiro grande sucesso de público e crítica (Corazón tan blanco, de 1992). Não é preciso ler muitas das crônicas para perceber que Marías é um anarquista (mas que soa conservador), um elitista (bem à sua maneira), politicamente incorreto quase sempre, zeloso e orgulhoso de sua individualidade. O desprezo que ele tem à memória de Franco e do franquismo é algo que pode levar o leitor ligeiro a incluí-lo ao campo dos intelectuais de esquerda, mas ele me parece muito honesto intelectualmente e esgrime seus argumentos sobre os mais variados temas atingindo, seguro que sim, sujeitos à esquerda e à direita do espectro político, sem piedade e sem temor. A edição que li tem um excelente prólogo de Elide Pittarello, as procedências de todas as crônicas e duas notas do próprio autor, a original de 1991 e uma outra de 1999, quando as recompilou. Nesta última nota ele reflete sobre as venturas pelas quais os textos passaram desde a primeira publicação. As crônicas são apresentadas por temas: lugares e viagens, pessoas e amigos, a sociedade e as transformações pelas quais passava a España, a literatura e a arte de escrever. O livro termina com um texto inédito em livro, apresentado originalmente na forma de conferência em uma universidade, onde ele descreve como foi sua inserção no mundo literário e como era o processo de manter-se nele mantendo alguma qualidade, originalidade e honestidade. Gostei do livro. Seguro que haverá mais do que falar sobre Marías nas próximas resenhas de seus livros de crônicas. Quando poderei convidar Lola e Manolo novamente para discutir Marías, perguntar para a señora camarera se ela sabe mesmo alemão, bebericar bons vinhos, tapear pela estival Madrid? [início 19/10/2009 - fim 23/10/2009]
"Pasiones Pasadas", Javier Marías, ediciones Debolsillo (1a. edição) 2008, brochura 13x19, 216 págs. ISBN: 978-987-566-379-4

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

beringelo

Em "Beringelo" Orlando Fonseca dá voz a um cachorro. O resultado é um pequeno livro voltado para o público infanto-juvenil. Beringelo conta um tanto de suas venturas, seus nomes, sua personalidade, suas lembranças (que são vagas, segundo ele mesmo). Conta principalmente como conquistou o amor de um jovem dono e sua família. O pequeno cachorro tem até de se virar como cão-policial, quando usa seus dotes para ajudar um delegado a resolver o sequestro do garoto que virá a ser seu dono. Orlando gosta de jogos verbais e trocadilhos, então faz seu personagem usá-los o tempo todo. Li recentemente "Eu sou um gato" do escritor japones Natsume Soseki, publicado em 1905. Nele o único personagem que fala é um gato vagabundo dos bairros de classe média da Tóquio de cem anos atrás. Claro que o romance de Soseki tem mais fôlego, ou melhor dizendo, que o gato de Soseki tem mais fôlego que o cachorro de Orlando Fonseca, mas isto não é um problema. "Beringelo" é um romance bem escrito e divertido de se ler. Eu teria dado um tratamento gráfico melhor, aumentaria o corpo das letras (pequenas demais para atrair um jovem leitor, acho eu), incluiria ilustrações mais generosas que as divertidas patinhas que percorrem as páginas do livro, mas talvez o projeto desta coleção da editora Movimento não permita muitas variações no design. Paciência. Parabéns ao Orlando por mais esta aventura literária. [início 23/10/2009 - fim 23/10/2009]
"Beringelo: uma au-autobiografia", Orlando Fonseca, editora Movimento (1a. edição) 2009, brochura 15,5x23, 21 págs., ISBN: 978-85-7195-145-7

domingo, 29 de novembro de 2009

in the dutch mountains

Publicado originalmente em 1984 "In the Dutch mountains" é um livro onde lemos um escritor escrevendo um livro (que virá a ser o livro que temos em mãos a ler). Como nos demais livros de Nooteboom que já li neste há elementos algo mágicos, ora flertando com os contos de fada, ora com o mundo interior dos indivíduos. Um espanhol, da região de Zaragoza, engenheiro e responsável pela manutenção das auto-estradas (as carreteras) da região, aproveita seus meses de férias para se isolar em um colégio e escrever ficção. Já publicou alguns livros, sem fazer muito sucesso de vendagem, mas é o tipo de sujeito que preza a literatura acima de tudo e prefere gastar suas férias escrevendo que viajando ou ficando com a família. Quando era jovem passou uma temporada nas terras holandesas e domina um tanto do idioma. O livro que ele está escrevendo (e sobre o qual reflete o tempo todo, criando planos entre a ficção produzida por ele e a ficção produzida por Nooteboom) é uma alegoria, um conto de fadas, mais ou menos baseado na história da rainha das neves. Se é que eu me lembro bem uma rainha do polo norte sequestra um menino (que tem uma farpa de gelo encravada em seu coração). A irmã do menino procura por ele e o encontra enregelado no palácio de gelo da rainha. As lágrimas da irmã despertam o menino e o livra do encanto, permitindo que ambos retornem para casa. No livro que o personagem de Nooteboom está escrevendo dois outros personagens, Kai e Lúcia, ideiais de beleza masculino e feminino, trabalhavam em um circo, que acabou de cerrar as portas. A falência do circo foi uma armadilha para atrair os dois para uma proposta de trabalho no sul da Holanda, que é quase outro país, com controle fronteiriço, máfias controlando todas as atividades. Kai é sequestrado por uma rainha das neves (uma mafiosa da fronteira). Lúcia é ajudada por uma anciã e um velho palhaço. A rainha das neves mantêm Kai como um escravo sexual (e ele aos poucos esquece da namorada). Lucia descobre que o palhaço que a ajuda é uma mulher. Elas conseguem entrar no castelo onde Kai está aprisionado e o salvam (após um tiroteio onde todos os personagens perversos - estafetas e prepostos da rainha das neves - morrem). O narrador/escritor espanhol fica feliz por ter alcançado um final feliz para o livro que está escrevendo. Ele fica sozinho no pátio do colégio jogando amarelinha, como se fosse novamente uma criança. Se é que todo livro tem um moral, eu diria que Nooteboom no fundo nos está apresentando os desafios da unificação européia, do conflito entre o norte frio, objetivo, refinado, organizado e o sul sangüineo, pobre, perigoso, violento. Ele discute um tanto sobre ideiais de beleza, sobre linguagem e filologia (que aproximam e afastam os homens), sobre a psicologia e a auto-imagem que cada um tem, sobre o poder das armas e da sexualidade. É um livro bom de se ler, que faz perguntas interessantes ao leitor. Nunca é demais elogiar o grande sujeito que é Nooteboom. [início 26/08/2009 - fim 14/10/2009]
"In the Dutch Mountains", Cees Nooteboom, tradução de Adrienne Dixon, Penguin books (1a. edição) 1987, brochura 13x19,5, 128 págs., ISBN: 0-14-011829-2

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

vento norte

Ainda no ínicio de 2004, depois de ler na Folha de São Paulo que Tarso Genro justificava a esquizofrenia dos primeiros dias do governo lula ao "rebaixamento do horizonte utópico do pt", percebi que tudo o que é dito por um petista só poderia mesmo ser entendido como peça ficcional, sem qualquer decalque no mundo real. Esta espécie de epifania poupou-me de muitos aborrecimentos. Recentemente don Ronai Rocha me disse que Tarso Genro havia publicado livros de poesias. Quase na mesma época consultei uns jornais velhos por conta de um texto que escrevia sobre o prêmio literário Fellipe d´Oliveira. Descobri neles que o mesmo Tarso ganhou um segundo lugar de poesias do Fellipe d´Oliveira em 1978 (perdendo para o médico Luiz do Prado Veppo). Ulalá pensei! Um Tarso Genro explicitamente ficcional deve ser divertido. Procurei na estantevirtual e achei três livros: Vento norte (1964), Acorda palavra (1969) e Luas em pés de barro (1977). Estes dois últimos não li, mas o primeiro, que Tarso assina "tarso fernando h. genro, estudante, 17 anos, santa maria, rio grande do sul" (quem já leu o "Retrato do artista quando jovem" vai lembrar do anacronismo desta fórmula) me pareceu tentador demais para não dedicar a ele um par de horas. É mesmo divertido. São versos brancos que falam das estações, da natureza, das moças e rapazes, das paixões juvenis, dos ruas e espaços públicos da cidade. Curiosamente ele escreve tudo em caixa baixa (em minúsculas, como e.e. cummings ensinou, mas Tarso não deveria saber quem era Cummings em 1964). Assim Fidel Castro, Hiroshima, Krushev, Lindon Johnson, França, Nagasaki são grafados fidel castro, hiroshima, krushev, lindon johnson, frança, nagasaki. Mas sua transgressão juvenil e coragem intelectual tem limites bem definidos. Ele não se permite uniformizar o estilo e escreve "Deus" (várias e várias vezes) e "Pai Universal" (uma única vez) em em caixa alta, como se grafar "deus" pudesse amaldiçoá-lo de alguma forma. Proust já nos ensinou que uma fila extensa de odiosas encarnações nos liga do berço ao esquife (na verdade é Elstir quem nos ensina isto, quando é flagrado pelo narrador com uma lembrança incômoda). Talvez o jovem tarso genro, estudante, 17 anos, fosse apenas um jovem beato e temente à deus, algo tolo e pueril, fazer o quê, mas ainda assim um jovem com licença para cometer poemas açucarados e banais, como qualquer jovem, de qualquer tempo e lugar. O atual Tarso, ex-prefeito, ministro, candidato, hoje já é vetusto demais, escreve e fala platitudes demais para que eu procure nelas alguma verdade. O narrador de "Em busca do tempo perdido" se satifaz com as explicações de Elstir, mas meu coração paulista é menos tolerante. Cabe o registro que o livro tem uma bela capa, assinada pelo artista plástico santa-mariense Eduardo Trevisan. [início 19/09/2009 - fim 26/09/2009]
"Vento Norte", Tarso Fernando Herz Genro, editora Manuzio (1a. edição) 1964, brochura 14,5x19,5, 45 págs., sem ISBN

sábado, 21 de novembro de 2009

venimos a cenar

Comecei a ler este pequeno livro de receitas ainda na velha feiticeira, mas não tive a chance de produzir as delicinhas que nos apresenta e ensina sua notável autora (que tem o cinematográfico nome de Margot Fontaine). Lembro-me que o encontrei em uma livraria da carrer Ferran, bem ao lado da lojinha de jóias de Sílvia Serra, catalana de quatro costados. As idéias que encontramos no livro são bem ao estilo "tapeo" espanhol, de comidas que podem ser encontradas em uma barra despretensiosa ou em uma cozinha modesta, escondida em qualquer cidade ibérica. São pratos que podem ser produzidos de improviso, quando um amigo telefona e pergunta se pode passar para uma conversa no final da tarde: lembramos o que há na geladeira ou na despensa e imaginamos rapidamente o que podemos preparar com o que temos à mão. Mais que um livro de receitas é um manual que ajuda a cada um de nós a celebrar a amizade e o saudável hábito de conviver com pessoas queridas, além do imaterial prazer de cozinhar para elas em meio a música e sol, bons vinhos e conversa franca. Não há porque (nem como) não se encantar com as propostas deste pequeno livro. [início 01/08/2009 - fim 19/10/2009]
"Venimos a cenar!: cocina para invitados imprevistos", Margot Fontaine, El cuerno de la abundancia [ José J. de Olañeta, editor ] (1a. edição) 2006, brochura 10,5x15, 126 págs., ISBN: 84-9716-482-2

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

summertime

Lembro-me bem da forte impressão que tive ao terminar a leitura de "Boyhood" (1975) e "Youth" (2002). O primeiro li logo que soube da existência de J.M. Coetzee, ganhador do Nobel de 2003, era uma edição já antiga da Best Seller. Já o segundo li assim que publicado pela Companhia das Letras em 2005. Lembro-me que dei ele de presente para a Cristina Polo, mas ela ficou preocupada com o ar sombrio do livro. Não são exatamente livros fáceis. Eles se inserem no que usualmente se chama "romances de formação". Neles Coetzee descreve o que ele chamou de "cenas da vida provinciana" de um garoto de ascendência boer na Africa do Sul que emigra posteriormente para a Inglaterra. Os paralelos com a vida do próprio Coetzee são óbvios, mas ele escreve sem se trair e sem deixar o leitor se interessar mais pelo escritor Coetzee que pelo personagem John. "Boyhood" lembra o "Retrato do artista quando jovem", claro, com descrições de sofrimento e ritos de passagem juvenis (portanto algo cerebrais demais) de um narrador que vive em uma terra inóspita, que conta suas preocupações com a mãe, o pai, a literatura, o desejo sexual, a presença incômoda e visível do apartheid. No final ele mostra seu caminho: "se ele não lembrar os livros e a existência de sua tia Anne, grande leitora, quem lembrará?" Já em "Youth" o narrador termina o nível superior ainda na Africa do Sul e emigra para a Inglaterra para trabalhar. Ele é matemático, mas como gostava das aulas de literatura e línguas, pretende ser afinal um poeta. Começa um mestrado em literatura. Os anos 1960 na Inglaterra são um parque de diversão para os sentidos, mas ele tem uma vida de imigrante dura e limitada, trabalha como programador para a IBM, um destino impessoal e inglorioso demais para quem se pretendia um poeta inovador. Seus relacionamentos afetivos são conturbados e insatisfatórios. "Summertime" é uma continuação óbvia destes dois romances. Lançado em 2009 foi finalista do prestigioso Booker Prize. Aquele que nós leitores podemos imaginar como o sujeito "John" dos romances anteriores alcançou alguma fama como escritor, mas já é morto. Um escritor pretende fazer uma biografia deste "John" e organiza entrevistas com pessoas que estiveram próximas a ele no período de cinco ou seis anos posteriores a emigração de volta à Africa do Sul após sua temporada londrina: uma amante de sua Africa do Sul natal, uma vizinha na verdade; uma prima africanner, sua amiga de infância; uma brasileira, forçada pelas filhas para contratá-lo a dar aulas de inglês a elas; um professor de inglês da Universidade do Cabo, com quem John disputou uma posição acadêmica; uma outra colega acadêmica, professora de francês na universidade, que também foi amante de John. Cada uma das entrevistas é escrita em um estilo diferente. Ora são quase transcrições literais das conversas, ora são textos já algo ficcionalizados para comporem um livro. Algumas são mais intelecutalizadas, outras mais diretas e objetivas. São quase exercícios literários. Os entrevistados e o entrevistador falam dos livros que John publica (onde parte do material ficcional é baseado na vida e no relacionamento dos entrevistados). São os livros que J.M. Coetzee publicou nos anos 1970 e 1980 (Dusklands, In the Heart of the Country, Waiting for the Barbarians, Foe). É um livro curioso, denso, mas bastante bem humorado (comparado com os dois primeiros). Aprendemos que Coetzee é um bom crítico de sua produção (afinal ele nunca deixou de ser um professor universitário). Os paralelos com sua vida são evidentes, mas o personagem John é apenas o veículo para o autor refletir sobre a vida, sobre as transformações por que passa, sobre as distintas percepções que cada um faz de si mesmo e dos outros com quem convive. No final o biógrafo nos mostra os últimos apontamentos de seu biografado, trechos fragmentários de romances que ele tensionava escrever, material para uso posterior em suas experiências ficcionais. A personagem brasileira é curiosa. Ela fugiu do Brasil por conta do golpe militar de 1960, emigrou para Angola e tentou a sorte posteriormente na Africa do Sul com o marido e duas filhas. O marido é morto em um assalto banal e ela tem grandes dificuldades em manter-se no país para onde emigrou. As dificuldades desta personagem lembram um tanto as dificuldades dos emigrantes africanos e latino-americanos na Europa deste cruel século XXI. Ao mesmo tempo a personagem brasileira é a única que incisivamente manifesta pouco apreço pelo personagem que está sendo biografado (pois ele acreditava que ele poderia assediar sexualmente suas filhas). Apesar desta personagem fazer o papel de vilã me parece que Coetzee a retrata como uma heroína a seu modo, uma mulher que consegue resistir às vicissitudes com determinação e força moral. Haverá espaço para uma continuação? Coetzee poderia inventar que alguém encontra por acaso romances não publicados daquele "John" morto precocemente, romances que seriam os do Coetzee nos anos 1990 e 2000. Já veremos o que este instigante escritor nos reserva para o futuro. [início 06/10/2009 - fim 19/10/2009]
"Summertime", J.M. Coetzee, editora Harvill Secker (1a. edição) 2009, capa-dura 14,5x22, 266 págs., ISBN: 978-1-846-55318-9