segunda-feira, 20 de agosto de 2018

pesado demais para a ventania

Mário de Andrade já nos ensinou que "há uma gota de sangue em cada poema". Já Ricardo Aleixo nos ensina que neles além de sangue há dor, revolta, angústia e memória de crimes, assim como também inteligência, estratégia, técnica e ação. Nesta poderosa antologia o leitor encontrará muitos exemplos do ouro fino que Aleixo tem garimpado na lavra das Musas desde o início dos anos 1990. Já registrei aqui vários dos livros nos quais esses poemas foram publicados originalmente: "A roda do mundo", de 2004; "Máquina zero", de 2004; "Modelos vivos", de 2010; "Impossível como nunca ter tido um rosto", de 2015 e "Antiboi", de 2017. Mas como não conheço todos seus livros anteriores, deve haver poemas coligidos de "Festim", de 1992; "Trívio", de 2002 e "Mundo palavreado", de 2013. A antologia "Pesado demais para a ventania" reúne 105 poemas distribuídos em seis conjuntos, envelopados por dois outros, soltos, um que abre o volume, como numa invocação, "Língua lengua", e outro que o encerra, "Meu negro", uma vibrante e potente coda. O que registrar dos seis conjuntos, sem falar muita bobagem, sem os macular com leituras tortas? Vamos a ver: (i) Em "Desde e para sempre" fala-se de família, de mitologia africana, de memórias de infância, genealogias, faz-se homenagens; (ii) Em "Outros, o mesmo" o poeta brinca e joga para valer com tipografia, com as palavras, com a métrica, registra certos espantos; (iii) Em "Ter escrito ainda não existe" reúne concretos jogos poéticos, reflexões sobre o ofício de poetar, nos conduz pelo caminho da gênese de conceitos, ideias, poemas e fragmentos da memória do autor; (iv) "O coração, meu limite" sensualiza o verso, fala-se de amor, consciência do corpo, musas mulheres, sexo; (v) Em "Multidão nenhuma" o poeta se metamorfoseia num ente noturno que caminha pela cidade, flana por ela, confronta sua belo horizonte fundamental, tenta olhar de longe e de perto as coisas, ajustando o foco da vida; (vi) Em "Queridos dias difíceis" o poeta rosna para o mundo, pisca bravo para a crítica, doma sua fera cidadã, fala dos caminhos sem volta, mostra-se pronto para um combate, pergunta-se. Os poemas quase sempre parecem brotar de algo marcante, da memória, da vida, do sangue, mas possuem, como num palimpsesto, camadas superpostas de técnica, erudição, intuição poética, influências, apuro, espantos. Sorte de quem ler esse livro, ler esses poemas, tentar decifrar esse negro enigma. Evoé Aleixo, evoé. Vale! 
Registro #1313 (poesia #98) 
[início: 10/06/2018 - fim: 15/08/2018]
"Pesado demais para a ventania", Ricardo Aleixo, São Paulo:Todavia livros, (1a. edição) 2018, brochura 14x21 cm., 196 págs., ISBN: 978-85-93828-66-9

domingo, 19 de agosto de 2018

veneno de cristal

"Veneno de cristal" é o décimo quinto volume com os sucessos do comissário Guido Brunetti, invenção da sereníssima Donna Leon. Desta vez a investigação é algo informal, um favor para um amigo do inspetor Vianello que enredou-se numa trama na qual se fundem a cobiça dos homens por poder e riqueza com a soberba daqueles que possuem um dom raro que não querem compartilhar com ninguém. O cenário muda um tanto. Brunetti e Vianello precisam ir mais ao norte de Veneza, ao pequeno arquipélago de Murano, ilha onde se concentram os sopradores de vidro,  fabricantes de cristal, artífices do fogo. O ritmo é lento, primaveril. Dificilmente, nos livros de Donna Leon, o crime acontece na primeira página e resolvido na última. Neste caso a única morte que precisa ser investigada acontece mesmo já na segunda metade do livro. O que se investiga mais atentamente é a poluição da laguna, os métodos que pessoas inescrupulosas utilizam para não seguir normas da comunidade europeia de proteção ambiental. Vianello mostra mais de seus matizes: leitor de artigos científicos, quase vegano, solidário à questões sociais, hábil hacker de computadores, cético sobre a união europeia, um livre pensador que respeita as mulheres. O ritmo tranquilo de almoços familiares e jantares onde comer, beber e desfrutar da companhia um do outro vividos por Paola, Brunetti e seus filhos sempre é invejável, muito embora saibamos que não se pode emular uma vida assim, fazê-la facilmente brotar desde um livro. O livro rediscute também temas já conhecidos do leitor da série: questões linguísticas, o problema crônico do turismo, as transformações urbanas da cidade, os "carteiristas não-comunitários", a sutil arte da etiqueta veneziana. Os crimes se resolvem por um detalhe, lugar onde o diabo mora, sempre. Falar em solução do crime talvez não seja apropriado. Os casos não são exatamente solucionados nos livros de Donna Leon. Quando muito sabemos a motivação, o como, quando, quem e porque de algo, mas nunca os mecanismos implacáveis da justiça em ação (isso é para otimistas ou ingênuos). Só o sarcasmo salva um sujeito da depressão, caso espere correção e ordem nas engrenagens do sistema de poder e no aparato judicial (de qualquer país e lugar, em qualquer tempo). Esse é o último dos livros dela que li fora da ordem cronológica, há mais de um ano. Agora os próximos volumes serão lidos e registrados na ordem certa. Outro bom e honesto volume esse "Veneno de Cristal". Vale! 
Registro #1312 (romance policial #75) 
[início: 18/07/2017 - fim: 24/07/2017]
"Veneno de cristal (Brunetti #15"), Donna Leon, tradução de António Carlos Carvalho, Lisboa: Planeta Manuscrito (Grupo Planeta), 1a. edição (2011), brochura 15,5x23,5 cm., 278 págs., ISBN: 978-989-657-173-3 [edição original: Though a Glass, Darkly (Zürich: Diogenes Verlag AG / Penguin Randon House Group) 2006]

sábado, 18 de agosto de 2018

viagem ao volga

Resolvi registrar este volume como um livro de arte, mas poderia incluí-lo aqui como um livro de memórias, ou um relato de viagens, ou de crônicas. Mas o pequeno milagre que é sua existência merece alça-lo ao status de uma peça artística. Trata-se de um curto relato, coisa de 70 páginas, produzido por um árabe que viveu no início do século X, chamado Ahmad Ibn Fadlan, dando conta dos sucessos que viveu em uma viagem de 4000 Km, de Bagdá a uma região próxima a confluência dos rios Volga e Kama, antigamente o reino dos búlgaros do Volga, hoje território russo. Em algum momento o manuscrito original de sua viagem perdeu-se e apenas fragmentos dele eram conhecidos, como parte de um dicionário geográfico do século XIX. Posteriormente, no início do século XX, a versão atualmente conhecida, ainda incompleta, foi descoberta em uma biblioteca iraniana e editada em livro. Ibn Fadlan integrou uma comitiva oficial enviada por um califa islâmico - líder máximo da religião - rumo a Bulgária do Volga. O objetivo da viagem era responder o pedido de ajuda do rei eslavo de lá, recém convertido ao Islã, para a construção de uma mesquita e de um forte. Seus inimigos são os khazares, povo de origem turca convertido ao judaísmo que dominou extensas regiões entre o Mar Cáspio e o Mar Negro. Responsável pela entrega de presentes do califa ao rei e a produção de registros da viagem, Ibn Fadlan narra não apenas as tratativas oficiais, os ritos diplomáticos de passagem pelas fronteiras serpeantes daqueles dias, mas também muito sobre a natureza e os hábitos culturais dos diferentes povos que encontrou. Tudo o que lhe espantou foi registrado, de sorte que o livro não parece ser aos especialistas exatamente um documento oficial, para fins diplomáticos. Bom observador e refinado diplomata ele é capaz se expressar com clareza e objetividade, não fazendo uso de atalhos retóricos que inevitavelmente redundariam em relatos fantásticos ou de cunho mitológico. O comentários mais interessantes são sobre um povo que ele chama de Rus', que os especialistas associam ou aos russos primitivos ou aos vikings. As descrições dos habitos de higiene e do funeral de um líder deste povo são terríveis. A versão romantizada e lírica dos funerais vikings não guarda nada da força do relato de Ibn Fadlan, detalhista da série de estupros, torturas, matança e destruição que acompanhavam o rito. Muito interessante também é o relato sobre o que podemos entender hoje como aurora boreal, muito embora a latitude daquela região não seja tão alta para que esse fenômeno fosse visível facilmente. A edição é bilingüe e a tradução, diretamente do árabe, é assinada por Pedro Martins Criado. A capa é muito bonita, produzida por uma técnica (hot stamping holográfico) que produz reflexão da luz incidente sobre ela em uma miríade de cores. O leitor pode ter uma ideia desse efeito no site da gráfica responsavel pela publicação (clica aqui: hot stamping holográfico, Ipsis Gráfica). O livro inclui ainda mapas, uma breve cronologia do islamismo e uma apresentação, também assinada por Pedro Criado. Vale! 
Registro #1311 (livro de arte #25) 
[início: 12/08/2018 - fim: 13/08/2018]
"Viagem ao Volga: Relato do enviado de um califa ao rei dos eslavos", Ahmad Ibn Fadlan, tradução de Pedro Martins Criado, ilustrações de Bruno Algarve, São Paulo: Editora Carambaia, 1a. edição (2018), capa-dura 12,5x21 cm., 144 págs., ISBN: 978-85-69002-40-6 [edição original: Risalat Ibn Fadlan, (Bagdá) 921-922 d.C.]

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

longe daqui, aqui mesmo

Encontrei esse livro por acaso, lá na boa Bamboletras, de Porto Alegre, onde estava o capitão de longo curso dos livros, don Gustavo Ventura. Há quanto tempo não nos víamos? Dez anos talvez! É muito tempo! Em "Longe daqui, aqui mesmo" estão reunidos oito contos curtos, assinados por Flávio Ilha, um experiente jornalista porto-alegrense, mas que nunca havia produzido narrativas ficcionais. Os contos foram produzidos como exercícios em uma oficina literária que o premiado romancista João Gilberto Noll ofereceu em 2016. São histórias curtíssimas, coisa de duas, três páginas, que brotaram do estímulo casual e aleatório inventado por Noll nos encontros semanais com seus alunos. São peças bem escritas, contidas, que se não explicitam algum virtuosismo, também não pecam por fórmulas e clichês. O leitor acompanha fragmentos de vidas: de uma menina que precisa ser rápida para bem enganar a mãe; da solidão entranhada de um sujeito que lembra dos pais; do registro de uma perda terrível aos olhos de uma criança, agora já metamorfoseados num adulto que entende a tragédia maior que viveu; da vertigem e atordoamento de um sujeito que foi espancado; das reflexões de uma mulher que acabou de transar com um desconhecido; do escrúpulo de um padre com as obrigações de seu ofício; do tédio que um artista plástico experimenta ao ser seduzido por uma modelo; da monotonia e vazio que brotam após uma traição. Não se sabe se os contos foram editados na ordem cronológica de sua composição, o que poderia implicar em uma evolução, maior apuro ou cousa que o valha, mas o último dos contos do livro, "Minhas férias", foi o que mais me agradou, pois é aquele em que solução do pequeno conflito é a mais original, menos familiar. Só raramente capturamos virtudes e defeitos de um sujeito apenas lendo um livro seu, assim, vamos a ver se Flávio Ilha inventará outras boas histórias como estas no futuro. Vale! 
Registro #1310 (contos #152) 
[início: 11/08/2018 - fim: 12/08/2018]
"Longe daqui, aqui mesmo", Flávio Ilha, ilustrações de João Salazar, Porto Alegre: Diadorim Editora, 1a. edição (2018), brochura 14x21 cm., 60 págs., ISBN: 978-85-93107-04-7

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

pedras ensanguentadas

Esses volumes de Donna Leon editados em Portugal são mesmo interessantes. Acompanhamos as rotineiras investigações de crimes na Veneza do comissário Guido Brunetti, porém o leitor brasileiro delas ganha uma pátina de linguística, que brota da presença de uma miríade de palavras que não usamos rotineiramente aqui, mas que são correntes em Portugal. Se no volume "Provas manipuladas" havia só anotado um par delas, neste "Pedras ensanguentadas" marquei dezenas, numa festa para os sentidos e imaginação.  Como não se deliciar com a súbita presença de um "marimbou-se", um "algures", ou "prendas", ou ainda "vou ter com elas", "mo dizer", "cacifo", "cabedal", "comezaina", "perorações", "cariz", "tisana" e "ecrã", entre tantos outros vocábulos. Claro, o sujeito sabe que já leu essas palavras um dia, entende o sentido, ainda que por elipse, mas não são cousas que estamos sempre a ouvir. Pois neste volume Brunetti vê-se envolvido em um crime que parece banal, o assassinato de um vendedor ambulante (em italiano um neologismo ofensivo, "vu'cumprà") de origem africana, mas que se revela uma trama que ascende a questões de estado, a geopolítica europeia, a vis interesses econômicos e as guerras civis que grassam pela África. As pedras ensanguentadas do título são aquelas pedras que Ruskin um dia descreveu, aquelas que fizeram o jovem Marcel de Proust experimentar uma de suas epifanias fundamentais, mas também são diamantes, motivação mais que suficiente para que tribos rivais, acidentalmente reunidas em um mesmo país pelos europeus no século XIX, lutem até a quase extinção. Mais que investigar, Brunetti tem que atuar como refinado diplomata, travestir suas intenções o suficiente para avançar, para entender um caso que será oficialmente encerrado sem punição alguma. Em paralelo a essa narrativa de cobiça e morte, Donna Leon acrescenta reflexões sobre como, quando jovens, somos capazes de emitir opiniões contraditórias, agir sempre sem limites, sermos cruéis e amorosos ao mesmo tempo. Um bom e honesto volume esse. Vale! 
Registro #1309 (romance policial #74) 
[início: 04/08/2018 - fim: 08/08/2018]
"Pedras ensanguentadas (Brunetti #14)", Donna Leon, tradução de Carlos Pereira, Lisboa: Planeta Manuscrito (Grupo Planeta), 1a. edição (2010), brochura 15,5x23,5 cm., 286 págs., ISBN: 978-989-657-097-2 [edição original: Blood from a Stone (Zürich: Diogenes Verlag AG / Penguin Randon House Group) 2005]

sábado, 11 de agosto de 2018

judeus errantes

De Joseph Roth já li bons romances ou novelas ("", "Marcha de Radetzky", "A lenda do santo beberrão", "Hotel Savoy" e "Fuga sin fin") e um espetacular livro de ensaios sobre "Berlin". "Judeus errantes" é um outro livro de ensaios, uma outra pequena maravilha. Joseph Roth viveu entre 1894 e 1939. Nasceu na Áustria e viu o poderoso império Austro-Húngaro fragmentar-se após a primeira grande guerra mundial, na qual voluntariou-se como jornalista, interrompendo seus estudos universitários. "Judeus errantes" é ainda mais impressionante que "Berlin". Foi publicado originalmente em 1927 e descreve as migrações de judeus do leste europeu, expulsos da Rússia e da Polônia após os conflitos decorrentes da Revolução Russa e ascensão do regime comunista. Esses judeus errantes eram os que vagavam rumo a Europa do oeste e também para os Estados Unidos. Não se trata apenas de uma descrição histórica. Roth faz uma sociologia multi fragmentada de um fenômeno que apenas estava se iniciando (ele não viveu para acompanhar a tragédia da segunda guerra mundial). Roth fala do abrigo que os judeus encontravam na periferia das cidades da Europa ocidental, nos guetos que ali se formavam; das dificuldades de seus documentos (quando existiam) serem reconhecidos e validados; das atividades profissionais as quais se dedicavam, do talento inato deles; de seus costumes e hábitos, que chocavam os ocidentais, tanto cristãos quanto protestantes, e também os judeus já estabelecidos nestes novos lugares. Roth chama esses últimos de judeus burgueses, sefarditas orgulhosos de sua raça antiga e nobre. Enfim, ele descreve bem as diferenças entre os judeus de origem askenazi e os de origem sefardita, fala do alvorecer do movimento sionista, daqueles que ele define como judeus proletários (que vivem sobretudo para a religião, mas não se furtam de trabalhar duro), judeus nacionalistas (que querem um estado próprio) e judeus burgueses (aqueles já radicados na Europa ocidental). Ele viajou a União Soviética em 1926 e escreveu uma última e curta sessão do livro, baseada nesta experiência. Apesar de otimista esta é a parte mais terrível do livro. Roth é uma espécie de visionário, antecipa questões que serão discutidas, e até violentamente discutidas, após o fim da segunda grande guerra, como a necessidade da criação de um estado nacional judeu, a importância dos judeus americanos no futuro dos judeus de todo o mundo, o recrudescimento do antissemitismo. O livro é dividido em sessões: uma que trata da definição de quem são os tais judeus errantes; outra que fala de como se organizava originalmente uma cidadezinha de minoria judaica, na Polônia e na Rússia; dos guetos ocidentais em Viena, Berlim e Paris; do status dos judeus que conseguiam emigrar para os Estados Unidos e sobre a situação dos judeus que continuaram na Rússia soviética. Hoje, para um leitor contemporâneo, seu livro parece algo que brota do trabalho de um arqueólogo, tamanha a força e o frescor das análises. O texto é jornalístico (alto lá: jornalismo como era praticado no século passado, não o pastiche idiotizado e medíocre que majoritariamente se encontra hoje em dia nas diferentes mídias). As frases são claras, bem escritas, convincentes. A sociologia é refinada. A editora Âyiné publicou um outro volume de Roth, "Viagem a Rússia", que li quase simultaneamente a este. Em breve o registrarei aqui. Vale! 
Registro #1308 (crônicas e ensaios #229) 
[início 19/07/2018 - fim: 05/08/2018]
"Judeus errantes", Joseph Roth, tradução de Simone Pereira Gonçalves, Belo Horizonte: Editora Âyiné, 1a. edição (2016), brochura 10,5x15 cm., 164 págs., ISBN: 978-85-92649-12-8 [edição original: Juden Auf Wanderschaft (Berlin: Verlag Die Schmiede) 1927]

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

O gato filósofo

No ultimo Natal dei de presente para algumas pessoas queridas volumes dos livros de Kwong Kuen Shan. Ela é uma artista plástica chinesa, nasceu em Hong Kong, vive radicada na Inglaterra há muitos anos. Seus livros combinam aquarelas com textos antigos, provérbios chineses, poemas e ensinamentos zen, ou seja, à reflexões de Confúncio, Mêncio, Lao-Tse e Chuang Tse (quando não de pensadores anônimos e aforismos tradicionais), somam-se aquarelas belíssimas. "O gato filósofo" é um deleite para os sentidos. Você não precisa necessariamente ler as coplas e poemas que acompanham as imagens, mas elas formam um belo conjunto, funcionam bem juntas. Todas as ilustrações obviamente incluem gatos. Para um senhor desavergonhado deles, como eu, isso sempre é uma alegria. O que Kwong Kuen Shan nos ensina é a magia decorrente da disciplina da observação, a calma e a paciência que são necessárias para que se conheça algo destes pequenos tigres domesticados, destes leões, pumas e panteras em miniatura que sabem ser enigmáticos e também cativantes. São quarenta as ilustrações incluídas neste volume. Às imagens são acrescentados também caracteres chineses e impressões de sinetes, que representam o estado de espírito do artista no momento de criação. Desta forma o leitor tem na verdade quatro camadas de informação a cada página: a imagem fixada pelo artista, o poema que a complementa, os caracteres que identificam o título da obra e os sinetes que identificam o que motivou o gesto do artista. Aquarelas não são gravuras, mas lembrei muito de doña Helga, senhora da tradição das gravuras, da imagem reproduzida, do ato da criação, da beleza intrínseca das coisas simples, cotidianas. Haverá outros livros de Kwong Kuen Shan por aqui. Vale! 
Registro #1307 (livro de arte #24) 
[início 01/02/2018 - fim: 19/02/2018]
"O gato filosófico", Kwong Kuen Shan, tradução de Denise Bottmann, São Paulo: Estação Liberdade, 1.a edição (2015), brochura 17x17 cm., 96 págs., ISBN: 978-85-7448-250-7 [edição original: The Philosopher Cat (Oxford/UK: Butterworth-Heinemann / Elsevier Group) 2004]

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

escalpo

Em algum momento das férias comprei esse livro, mas logo, com o início das aulas, o perdi nos guardados, ai de mim. Há poucas semanas o reencontrei e retomei a leitura. Terminei rápido, como sempre deve ser. Trata-se de um bom, como eu poderia dizer isso sinteticamente?, um bom "Road trip book político-sociológico-sexual pela América Latina", ou uma grande viagem dos sentidos, uma experiência limite, uma odisséia latina, um sonho que brota de um trauma. O narrador de Ronaldo Bressane neste seu livro mais recente, "Escalpo", deambula acompanhando seus personagens de São Paulo (desde a ubíqua Vila Buarque, cara aos livros descolados desses últimos tempos) a Punta del Diablo, de New York a Angoulême (na França do Zapico), de Santiago a Bogotá, e logo Montevidéu, Cabo Polônio, Porto Alegre e outras cidades mil até chegar a Paraty, no sul do Rio de Janeiro, para sua vertigem final. Um quadrinista premiado e arrogante, Ian, amalucado em virtude de um complicado processo de separação e uma inquestionável acusação de plágio, após passar anos incensado, badalado pela mídia, procura um apartamento barato para morar na região do Largo do Arouche, em São Paulo. Em uma das visitas que faz ao procurar apartamentos conhece um velho escritor de origem chilena, Miguel Ángel Flores, que vive paraplégico, preso a uma cadeira de rodas, com dois papagaios e a lembrança de um livro seu que fez algum sucesso. Poucas horas após ter visitado esse apartamento (e seduzido ou ter sido seduzido por uma outra provável locatária do lugar), Ian acaba participando de uma das passeatas que aconteceram no Brasil no inverno/primavera de 2013, onde acaba sofrendo uma concussão. A partir daí o livro torna-se o tal "Road trip book" que sugeri acima. Bressane digressa sobre vários temas: as tais manifestações de 2013, o destino dos filhos sequestrados pela ditadura Chilena de Pinochet, a violência que tomou conta das periferias de qualquer cidade brasileira, o ofício da literatura, o abuso e as delícias do sexo e das drogas, a política brasileira, política cultural e sei lá mais quantos outros pequenos temas. O ritmo do livro é mesmo rápido. O leitor quer saber até onde seguirá a busca de Ian pelos filhos perdidos de Miguel Ángelo Flores, se é mesmo que eles existem. O ritmo atordoante e folhetinesco do livro lembra o de "Medo e delírio em Los Angeles", de Hunter S. Thompson. As passagens onde Ian transa e trepa sem pudor são o ponto alto do livro, lembram o melhor de Philip Roth (sempre sou exagerado, mas eu vivo de fazer associações e forçar sinapses, fazer o quê?). O livro é resultado de uma residência literária (de três meses, concedida pela Sesc), mas isso não é exatamente um problema. Ronaldo Bressane explica em um curto posfácio que ele sabe cumprir prazos, não importa o quão complicada seja a experiência de escrever por encomenda. O leitor encontra bons momentos no livro (já falei das cenas de sexo, mas a emulação da linguagem ou registros de fala de distintos personagens, brasileiros e latino-americanos, também é algo que se destaca no livro). A bem da verdade nunca havia lido nada de Bressane. Vamos a ver se encontro algo antigo dele por aí. Vale! 
Registro #1306 (romance #346) 
[início 10/02/2018 - fim: 15/07/2018]
"Escalpo", Ronaldo Bressane, São Paulo: Editora Reformatório, 1.a edição (2015), brochura 14x21 cm., 256 págs., ISBN: 978-85-66887-33-4

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

sin brunetti

O título original deste livro ("On Venice: Music, People and Books") explica melhor que encontramos nele: ensaios sobre música (sobretudo erudita), pessoas (que vivem em Veneza) e livros (que Donna Leon leu, por prazer ou por encargo). O "Brunetti" do título desta edição espanhola é um óbvio chamariz para os leitores aficionados de seu famoso personagem. Paciência. São cinquenta e dois relatos, a grande maioria publicados em jornais ou revistas (a edição original é de 2005, mas o livro não dá indicações de quando exatamente os artigos foram escritos e publicados). Todos os relatos são curtos, crônicas de encomenda talvez, digressões não muito extensivas acerca de algo específico, objetivo (ela não dá saltos aleatórios, não muda de tema rapidamente, nem tenta mostrar sua bem provável vasta erudição). Para ser mais detalhista que o título original cabe registrar que o livro é de fato dividido em seis conjuntos. Vamos a ver. Os doze ensaios reunidos em "Sobre Veneza" são de reflexões panorâmicas da cidade, onde ela fala da história mais remota e também da contemporânea, dos problemas contemporâneos. A cronologia acompanha a de sua familiarização com os costumes do lugar, desde a primeira visita, turista deslumbrada como qualquer outra, até os eventuais dias nos quais o tédio se superpõe ao encantamento. "Sobre a música" reúne seis críticas profissionais sobre apresentações líricas, montagens que ela cobriu profissionalmente ou entrevistas com cantores líricos e diretores. Trata-se de um trabalho acurado, coisa de melômano, especialista. Enfim, como quase todo escritor Donna Leon deve ter sido obrigada a fazer trabalhos deste tipo antes de poder viver apenas dos direitos literários de sua obra. "De humanos e animais" é o conjunto menos interessante. São onze ensaios legítimos, ou seja, uma forma de prospecção d verdades e conceitos, mas os exemplos que ela utiliza e o sarcasmo discreto que recai sobre os indivíduos sobre os quais digressa são frouxos e nada específicos de Veneza, poderiam ser ditos de qualquer lugar. "Dos homens" enfeixa onze ensaios sobre as relações entre homens e mulheres. Não há neles um feminismo militante, explícito, de almanaque, porém as posições firmes e os argumentos sólidos demonstram que ela sabe defender-se e defender seu sexo, sem malabarismos retóricos. Sua descrição dos dias em que foi professora em uma universidade saudita deveria ser lida por qualquer mulher que tenha a pretensão de falar sobre a condição humana, como um todo, e da condição da mulher na sociedade, em particular. Nos seis relatos reunidos em "Sobre os Estados Unidos da América" sabemos algo das razões que a levaram a um auto exílio europeu, apesar de nunca ter renunciado a cidadania americana. Trata-se de um rosário de críticas, aos políticos, aos americanos "médios", ou seja, a ignorância média dos americanos, à mídia, ao sistema de saúde, ao mercado editorial. Por fim, em "Sobre os livros" Donna Leon dá seis lições práticas de como um neófito pode aventurar-se ao mundo da criação literária, especificamente a construção de romances policiais. Não são exatamente aulas de escrita criativa, antes são reparos que antecipam os erros mais comuns que um jovem escritor comete, sugestões para o aperfeiçoamento da técnica e da necessária obsessão para bem exercer este ofício. O quê acrescentar? Donna Leon é obviamente uma mulher muito inteligente e muito prática, que antes de inventar mundos, criar suas histórias de detetive, viveu (e vive) algo pleno, viajou pelo mundo, deu aulas (no Irã, na China, na Arábia Saudita, nos EUA, na Itália), conheceu pessoas, leu muito, estudou com disciplina, conversou com amigos, amou e foi amada. O Brasil, ai de nós, aparece rapidamente em uma das crônicas, quando ela escarnece de um livro qualquer comparando-o a um roteiro de novelas brasileiras, encerrando a crítica dizendo algo do tipo: "qualificar este livro de barato, sórdido, é coroar e louvar sua autora". Muito divertido. Vale! 
Registro #1305 (crônicas e ensaios #228) 
[início: 13/04/2018 - fim: 16/04/2018]
"Sin Brunetti", Donna Leon, tradução de Ana Maria de la Fuente, Barcelona: Seix Barral / Biblioteca Formentor (Editora Planeta S.A.), 4a. edição (2014), brochura 13,5x23 cm., 261 págs., ISBN: 978-84-322-2800-1 [edicão original: On Venice: Music, People and Books (Zürich: Diogenes Verlag AG) 2005]