quinta-feira, 24 de julho de 2014

história concisa da rússia

Na série de livros "História das Nações", editada originalmente pela Cambridge University Press, especialistas apresentam os fundamentos de um assunto equilibrando boa dose de erudição com a necessária capacidade de síntese. Li recentemente o "História concisa da Alemanha" e de fato aprendi um bocado. Semanas atrás, intrigado com as motivações conflitantes utilizadas por diversos jornalistas (dentre outros palpiteiros) para explicar a anexação da península da Criméia à Rússia (desdobramento de uma complexa crise entre ucranianos e russos que obviamente está longe de ser superada), resolvi enfrentar esse "História concisa da Rússia". Paul Bushkovitch é um reconhecido especialista no assunto e professor na Universidade de Yale. Trata-se de um volume mais extenso que aquele dedicado a história da Alemanha, mas lemos o texto sem sobressaltos. É difícil conseguir parar de ler antes de ao menos terminar mais um capítulo, como se tivéssemos nas mãos um folhetim de mistério ou aventura. A linguagem é realmente ágil, direta. Os fatos e as interpretações se acumulam em uma escala absurda, mas o autor alcança oferecer ao leitor associações e ferramentas teóricas para o bom entendimento do que está sendo apresentado. Gostei muito da forma com que Bushkovitch intercala entre os capítulos (que seguem a ordem cronológica da história russa) seções específicas sobre artes e ciência, cultura e economia, etnografia e política, curtas biografias e geografia. O livro parte da Rus de Kiev (a antecessora da Rússia moderna) no século X, segue vertiginoso até os tempos dos grandes Tsares e imperatrizes, as guerras e a consolidação do grande Império Russo no século XIX, descreve detalhadamente a criação da União Soviética, as grandes guerras mundiais, o utópico sonho socialista, os tempos de Guerra Fria e termina num epílogo extenso que trata do colapso da URSS e do ressurgimento da Rússia como Estado, dos anos da Perestroika à ascensão de Vladimir Putim. Não é um livro que se preste a manipulação ideológica: o mais entusiasta dos déspotas (e há tantas viúvas do stalinismo nesse Brasil em que vivemos) encontrará nele descrições assombrosas dos crimes dos tempos de Stalin; o mais feroz dos reacionários (igualmente abundantes no Brasil) reconhecerá no livro as inegáveis contribuições russas em diversas áreas do conhecimento. O livro inclui quase trinta páginas com referências bibliográficas comentadas. Bushkovitch afirma logo no início de seu livro que para muitos a Rússia tornou-se mais que um lugar específico, uma língua e cultura ou uma história concreta, mas sim uma idéia e um modelo. Ao encerrar ele alerta o leitor sobre a impossibilidade de sabermos exatamente que tipo de metamorfose social a Rússia experimenta hoje, pergunta-se sobre o destino do potencial humano criado e vivido num milênio de história. Termino com uma nota sentimental: Voltar a ler algo sobre a Rússia fez-me lembrar dos anos 1980, quando meu eu ainda ligeiramente adolescente lia entusiasmado os volumes da "História da Revolução Russa" (de ninguém menos que o Trotsky), debatia com os colegas do CEFISMA as passagens mais áridas de "O Capital" (do Marx) e me convertia a boa literatura com o "Rumo à estação Finlândia" (do Edmund Wilson). Lembrei-me também de uma piada (que Bushkovitch incluí em seu livro) em que dizíamos algo agressivos, algo irônicos, algo trágicos, que a União Soviética era o único país do mundo com um passado imprevisível. Hoje, como já sei que o materialismo histórico é mesmo uma sonora bobagem, sei que também o futuro é imprevisível.
[início: 10/06/2014 - fim: 18/07/2014]
"História Concisa da Rússia", Paul Buschkovitch, tradução de José Ignácio Coelho Mendes Neto, São Paulo: Edipro (série história das nações), 1a. edição (2014), brochura 16x22,5 cm., 504 págs., ISBN: 978-85-7283-852-8 [edição original: A Concise History of Russia (London: Cambridge University Press) 2011]

quinta-feira, 17 de julho de 2014

venice

Esse livro foi publicado originalmente há cinquenta anos e sua última edição revista é de 1993. Por que ler um livro de não ficção tão antigo assim? Acontece que é reconhecidamente um clássico, não um guia de viagens, mas sim uma espécie de biografia da cidade, uma evocação da memória produzida por alguém que viveu lá por muitos anos, uma descrição detalhada daquela que seja talvez a mais bela das cidades italianas. Já escrevi nesse blog (ao resenhar "As pedras de Veneza", de John Ruskin) que no fundo qualquer pessoa que tenha visitado Veneza sabe o quanto é inútil tentar descrevê-la para quem ainda não foi até lá. Assim como Ruskin, a autora desse "Venice", Jan Morris, oferece ao leitor um encantamento, um sortilégio, um sólido guia sobre a cultura e história de uma cidade, de um povo. Localizada na fronteira imaginária entre ocidente e oriente Veneza tem uma história milenar, riquíssima. Por receber peregrinos, mercadores e turistas desde seus primórdios tornou-se uma cidade cosmopolita, tolerante com as diferenças, onde religiões e culturas conviveram em harmonia (relativamente as demais cidades européias e asiáticas). O livro pode ser entendido como uma obra de sociologia, geografia e história. Inclui dezenas de curtas biografias de pessoas que viveram lá. A prosa é bem humorada, equilibrando o que é factual com análises pessoais de alguém que adotou uma cidade para viver e quer bem entendê-la. Encontramos nele miríades de histórias que se entrelaçam, que se repetem em camadas, que são contrastadas. É dividido em três seções: "The people"; "The City"; "The Lagoon". Na primeira seção o leitor acompanha as digressões de Jan Morris sobre o povo veneziano, desde os primeiros imigrantes até as muitas minorias que progressivamente lá se instalaram. No segundo é a geografia da cidade que é explorada. Como um flâneur o leitor passeia pelos canais, vê a arquitetura e os elementos de decoração, visita os palácios, igrejas e museus, resvala pelo calçamento, pelas pedras de Veneza, esperando conseguir, como Proust, um estalo da memória involuntária. A terceira seção fala do mar e da grande lagoa que cerca e protege a cidade. Jan Morris fala da história de cada uma das grandes ilhas, dos rios tributários da lagoa, das batalhas navais que a partir dali os venezianos empreenderam. O livro inclui alguns mapas esquemáticos (mas nada muito detalhado, como seria o caso num guia), uma cronologia sucinta da história da cidade e um necessário índice remissivo (que realmente funciona quando leitor quer voltar algumas páginas e conferir as informações que leu sobre determinado assunto). Talvez seja o caso de eu me ocupar no futuro com a adorável procura por um livro mais recente sobre Veneza. Veremos. Em tempo: Recebi o pacote da AbeBooks com esse livro no último 25 de março. Acontece que 25 de março de 421 (exatamente ao meio dia) é tradicionalmente considerada a data (e hora) de fundação de Veneza. Uma lenda urbana consolidada pelo tempo, claro, mas não é uma maravilha para os sentidos quando uma inusitada coincidência dessas acontece? 
[início: 25/03/2014 - fim: 02/07/2014]
"Venice", Jan Morris, London: Faber and Faber Limited, 3a. edição (1993), brochura 13x20 cm., 320 págs., ISBN: 0-571-16897-3 [edição original: James Morris, Venice (Faber and Faber) 1960; 3rd revised edition, 1993]

quarta-feira, 16 de julho de 2014

juego de espejos

"Juego de espejos" segue os sucessos de "La sonrisa de Angelica". Don Andrea, que comemorará noventa anos em 2015, parece mesmo incansável. Publicado originalmente em 2011 esse é seu vigésimo-segundo livro com as aventuras de Salvo Montalbano. Assim como "La sonrisa de Angelica" brota de um poema ("Orlando Furioso", de Ariosto) seu "Juego de espejos" brota de um filme: "A dama de Shanghai", de Orson Wells. A inspiração é explícita, mas Camilleri sabe adaptar bem aquela trama às contingências de seus personagens. Liliana, uma bela mulher, muda-se para um chalé nas vizinhanças do seu, na praia de Marinella. Ao mesmo tempo em que investiga uma série de misteriosas explosões com a ajuda de seus comandados (Fazio, Catarella, Mimí Augello e Gallo) Montalbano percebe-se lenta mas progressivamente enredado por Liliana em uma conspiração da qual somente com muito engenho conseguirá safar-se. Não apenas a máfia siciliana, mas também um jornalista inescrupuloso e seus inimigos na chefatura de polícia preparam sucessivas armadilhas para o comissário. Fortalecido pelos antipasti e pastas 'ncasciata que encontra na trattoria de seu amigo Enzo, bem como os arancini e cannoli preparados de sua assistente Adelina, Montalbano alcança descobrir quem quer realmente prejudicá-lo. A trama é vertiginosa (tudo se resolve em poucos dias), mas muito bem construída e surpreendente. Em algum lugar Orson Wells deve ter dado boas gargalhadas com a reinvenção de Camilleri de seu jogo de espelhos.
[início: 09/07/2014 - fim: 14/07/2014]
"Juego de espejos", Andrea Camilleri, tradução de Teresa Clavel Lledó, Barcelona: publicaciones y ediciones Salamandra, 1a. edição (2014), brochura 14x21 cm., 219 págs., ISBN: 978-84-9838-576-2 [edição original: Il gioco degli specchi (Palermo: Sellerio editore) 2011]

terça-feira, 15 de julho de 2014

causos, acontecidos e outros quejandos

Nos últimos anos, apesar das reiteradas e boas indicações de amigos, nunca encontrei tempo para ler um livro do Afif Simões Neto. Hoje sei que foi um erro me furtar assim, paciência, mas isso tem conserto. "Causos, acontecidos e outros quejandos" é seu livro mais recente. Como o título já indica são três conjuntos de narrativas: onze "Causos", vinte e dois "Acontecidos" e dezenove textos que ele chamou de "Outros quejandos". Os "Causos" são invenções atemporais, campeiras, bem gauchescas, onde o leitor rapidamente se imagina numa roda de mate, num galpão ou no campo aberto, afastado da cidade, esperando o fogo produzir seu trabalho nas carnes enquanto ouve alguém contar histórias exemplares, engraçadas, surpreendentes. Os "Acontecidos" já pertencem a categoria de memórias resgatadas (ou inventadas, porquê não?) que o narrador fixa em texto, histórias que vão da meninice a vida adulta deste narrador. É como se o aedo do primeiro conjunto se rendesse a invenção da escrita e lapidasse aquilo que lhe é mais caro, preocupado em não deixar que essas aventuras se perdessem, que fossem esquecidas. Os escritos reunidos em "Outros quejandos" são reflexões de um homem público, crônicas do cotidiano de um cidadão que experimenta a vida e faz juízos de valor, que diz o que lhe parece estar funcionando bem, que denuncia aquilo que lhe parece esgarçado ou ruim na sociedade. São crônicas confessionais, por vezes algo amargas, mas sempre objetivas, que convidam o leitor a perguntar-se se concorda ou não com o raciocínio. Esse conjunto é mais filosófico, menos alegórico. Se os textos não chegam a ser ensaios completos (tudo é realmente curto, coisa de duas ou três páginas), certamente alcançam o patamar de instigantes registros das preocupações do narrador com aquilo que lhe é contemporâneo. Afif escreve muito bem. É coloquial na forma de conduzir o texto mas riquíssimo nas soluções que encontra para apresentar suas idéias. Seu vocabulário merece um registro especial. O sujeito sabe criar neologismos, imagens e palavras-valise muito boas. Talvez alguém que não seja do gaúcho tenha alguma dificuldade de acompanhá-lo no início, mas após uma meia dúzia de histórias o leitor percebe que aquelas construções amalucadas, aqueles surpreendentes jogos verbais fazem sentido. Aprendi um bocado. A edição é super bem cuidada. O livro inclui ilustrações de dois bons artistas plásticos, o Byrata (Jorge Lopes é o nome de pia desse grande sujeito) e Gerson Kauer. Humberto Zanatta assina a apresentação. Haverá outros Afif Simões por aqui, seguro que sim. 
[início: 25/05/2014 - fim: 30/06/2014]
"Causos, Acontecidos e Outros Quejandos", Afif Simões Neto, Santa Maria - RS: Editora Rio das Letras, 1a. edição (2014), brochura 14x21 cm., 190 págs., ISBN: 978-85-65172-15-8

quarta-feira, 2 de julho de 2014

dicionário amoroso de salvador

Assim como no Recife de Urariano Mota nunca estive na Salvador de João Filho. Acho que ambos funcionam bem como virgílios honorários destes passeios por cidades alheias, passeios inspirados pelos volumes da coleção "Dicionário Amoroso de ..." editados pela Casarão do Verbo. Já li os quatro editados até aqui (não exatamente na ordem em que foram publicados, mas na ordem em que me coube a sorte de encontrá-los). A Salvador que brota dos verbetes de João Filho é uma cidade-mosaico, complexa e vibrante como toda cidade grande, mas também algo prisioneira de seu passado, das expectativas que todo neófito de seus encantos traz consigo ao chegar lá pela primeira vez. João Filho consegue fugir das explicações simples para os estereótipos que usualmente são associados a sua cidade. Ele consegue o feito de oferecer ao leitor um guia bastante especial, lírico até, daquilo que entende ser genuinamente baiano. Seus 56 verbetes são em geral curtos, concisos, mas sua prosa não precisa ser caudalosa para nos convencer. Ele conversa com o leitor como se fosse um amigo que nos mostrasse algo caro. Cria imagens muito bonitas, alegres, cúmplices, do céu e do mar, das ladeiras e do povo. Os temas dos verbetes estão bem balanceados em quatro grandes conjuntos: (i) lugares e bairros (Barra, Cidade baixa, Igrejas, Ladeiras, Lagoa, Sebo Brandão, Solar do Unhão); (ii) pessoas (Em primeiro lugar a "tríade construtora da baianidade: Carybé, Dorival Caymmi e Jorge Amado" - que frase feliz, mas também Raul Seixas, Pierre Verger, Irmã Dulce, o jogador Bobô, Reginaldo Rossi e tantos outros conterrâneos seus); (iii) coletivos (como o Candomblé, o Carnaval, os Galegos, os vendedores, os conjuntos musicais, as baianas do acarajé) e (iv) coisas mais etéreas (como o mar, o clima, a sexualidade, o sotaque, a fofoca - fuxico, o barulho - zoada, a preguiça e a mandinga). As ilustrações incluídas no livro são assinadas pelo artista plástico Caius Marcellus Araújo. Elas estão reproduzidas em tons de cinza. Gostei delas, lembram coisas do Giorgio de Chirico. Enfim, ao viajar há quem goste de sempre voltar aos lugares onde foi feliz alguma vez, mas há aqueles que sempre preferem o novo, o desconhecido. Essa coleção de dicionários deixou-me dividido. Será o tempo de voltar a Porto Alegre e a Curitiba ou será o caso de conhecer a cidade de Salvador ou o Recife? Como já nos ensinou um dia Auden, para onde aponta essa jornada que invejamos tão amargamente? Wither?
[início: 23/06/2014 - fim: 30/06/2014]
"Dicionário amoroso de Salvador", João Filho, Anajé/Bahia: Editora Casarão do Verbo, 1a. edição (2014), brochura 15x23 cm., 248 págs., ISBN: 978-85-61878-33-7

terça-feira, 1 de julho de 2014

sol, o poema nascente

Sou um leitor relapso de poesias e nunca havia lido um livro onde estivessem reunidos apenas haicais e tancas. Lembro-me que o vermelho forte da capa magnetizou minha atenção ao ver esse livro de longe, quando foi entregue pelo autor, Carlos Saldanha Legendre, a nosso generoso anfitrião, o Luiz-Olyntho, em uma inesquecível noite festiva, em que ainda era verão. Pois naquela noite festejávamos o lançamento de livros de um outro poeta, o pernambucano César Leal, livros que eu, ai de mim don Olyntho, ai de mim, ainda não terminei de ler. Paciência. De qualquer forma meses atrás consegui um exemplar para mim ao entrar em contato com um outro amigo poeta, o Romar Beling. E dito isso não me desviarei mais, voltemos ao livro do Legendre. "Sol, o poema nascente" reune 110 haicais e 16 tancas. No prefácio do livro, assinado pelo acadêmico da ABL Antônio Carlos Secchin, aprendemos algo sobre a estrutura e os usos dessas duas formas poéticas. Secchin nos ensina que Legendre não é exatamente ortodoxo frente a forma do gênero poético que utiliza (ao, por exemplo, nomear os haicais, numerá-los e flexibilizar as regras de rima dos poemas), mas sugere ao leitor abstrair-se disso e experimentar as propostas do autor. O tema que parece unificar todos os poemas é o da jornada do autor/narrador pela descoberta de si e seu encantamento pelas maravilhas do mundo. As seções em que o livro se divide fixam os passos dessa jornada : "Autorretrato", "O ser", "Outros seres", "Prodígio do ser", "Todos os seres". Na contracapa um último poema: "Parto", parece anunciar - na verdade gritar - que as experimentações do autor irão se concentrar em outros temas, outros motivos. Li os poemas aos poucos, esquecendo a ordem, folheando o livro sem pressa, vagabundo. Leitura curiosa, mas já é tempo de voltar a Veneza, ao Robert Hughes, ao Tristran Shandy e outros tantos que se desgarraram de mim, pobres volumes de meus guardados.
[início: 01/06/2014 - 30/06/2014]
"Sol, o poema nascente: Haicais e Tancas", Carlos Saldanha Legendre, Santa Cruz do Sul - RS: Editora Gazeta Santa Cruz, 1a. edição (2014), capa-dura, 14,5x21,5, 108 pág., ISBN: 978-85-63336-54-5

domingo, 29 de junho de 2014

dicionário amoroso do recife

"Dicionário amoroso do Recife" é o segundo volume desta simpática coleção. Os demais dicionários já publicados são dedicados a Porto Alegre de Altair Martins, a Curitiba de Marcio Renato dos Santos (ambos já resenhados por mim) e a Salvador de João Filho, que em breve incluirei nesse blog. Mas ao contrário de Porto Alegre e de Curitiba, cidades que conheço relativamente bem, nunca estive no Recife e pouco li sobre sua história ou seus habitantes. Sendo assim a experiência de ler esse dicionário foi um tanto mais intelectual e didática, um tanto mais distante e fria que as anteriores. De qualquer forma aprendi um bocado e fiquei com ganas de um dia vagar pela cidade como todo bom flâneur deve fazer. Urariano Mota, respeitado jornalista e escritor recifense, sabe conduzir o leitor por sua cidade e partilhar algo de seu encantamento por ela. Urariano é um tanto menos moço que seus colegas Altair Martins e Márcio Renato. Seus verbetes acusam terem sido decantados por mais tempo e mais experiência. Ao mesmo tempo que é informal e caloroso ao se dirigir ao leitor ele acrescenta com segurança pelo texto citações eruditas, coisas cifradas e não explícitas, de um frescor surpreendente. Frasista dos bons, sabe falar do passado sem ser piegas e reverenciar os sujeitos - famosos além das fronteiras de sua cidade ou não, pouco importa - que se identificam com a história de lá. Seus perfis, seja de pessoas ou lugares, são vibrantes, vívidos. Mas são as digressões, os diálogos e associações acrescentadas ao que há de factual nas histórias que tornam seu texto realmente forte. Trata-se mesmo de um bom cronista, que mescla o registro popular das historias que ouve pela cidade com o que há de mais refinado da literatura associada a ela. Os poetas e músicos merecem carinho especial dele. Muitas poesias e canções, principalmente marchas de Carnaval, estão transcritas no texto, povoando seu livro com outras vozes, memórias e sensações. Dois terços de seus 49 verbetes são dedicados a pessoas e não a geografia ou a história. O leitor acaba se interessando pelo ambiente, pelo povo, pelas coisas que já brotaram dali (e que talvez mal sabíamos, pobre de nós). A exemplo dos demais volumes dessa coleção, o livro inclui ilustrações, nesse caso assinadas por Leonardo Filho, um respeitado artista plástico paraibano radicado em Pernambuco. É certo, se um dia ao dobrar alguma esquina de meu coração e finalmente decidir-me em conhecer o Nordeste, será pelo Recife que começarei minha jornada. Veremos. 
[início: 04/06/2014 - fim: 23/06/2014]
"Dicionário amoroso do Recife", Urariano Mota, Anajé/Bahia: Editora Casarão do Verbo, 1a. edição (2014), brochura 15x23 cm., 338 págs., ISBN: 978-85-61878-34-4

sábado, 21 de junho de 2014

lo que hemos comido

O livro começa com um contraste, entre Aristóteles e Montaigne: o primeiro escreveu que "o homem é um animal racional", esse último que "o homem é um animal que cozinha". Josep Pla sintetiza as proposições e afirma: "Montaigne hace una definición, que el hombre es el animal que guisa, a mi juicio, más razonada que la de Aristóteles cuando dijo que el hombre es un aminal racional. Si lo es, la razón le ha servido para bien poca cosa, hablando ahora en términos absolutos, mientras a guisar lo debemos todo". A aventura de ler "Lo que hemos comido" só reserva alegrias. Ao terminar de lê-lo só resta ao leitor um movimento: embarcar para a Catalunya, procurar uma das verdadeiras catedrais de lá (seus maravilhosos mercados públicos, como o Mercat de La Boqueria) e aí sim começar uma outra viagem, a gastronômica, para alegrar corpo e alma, sem pressa e sem pudor, sem medo e sem temor, sem fim e sem volta possível. Publicado originalmente no início dos anos 1970, esse livro apresenta as reflexões de Josep Pla sobre cada um dos aspectos da gastronomia catalã. Josep Pla é ainda hoje, mais de trinta anos após sua morte, reconhecido como um dos autores mais importantes da literatura catalã do século XX e um dos principais divulgadores da língua, costumes e tradições de sua terra ("Els països catalans", como ele gosta de grafar). Dele já li "Cartas de Italia", uma pequena maravilha. Mas o que encontramos nesse "Lo que hemos comido"? São 56 capítulos densos, que discutem as entradas e as carnes; os acompanhamentos e as verduras; os peixes e demais frutos do mar; os molhos, os ovos e as favas; as sobremesas e os vinhos; os costumes e curiosidades de sua região. Não se trata de um livro de receitas culinárias, longe disso, mas sim ensaios sobre o desenvolvimento de cada prato inequivocadamente catalão ou que foi absorvido pela culinária catalã. As opiniões são fortes. As curiosidades e informações se sobrepõem sem fim. O que mais me surpreende nesse livro é a isenção jornalística e/ou intelectual de Josep Pla. Ele nunca é ufanista, nunca desqualifica as demais culturas e hábitos gastronômicos. Na verdade ele até é muitas vezes irônico e cruel com os catalães, como por exemplo quando afirma tratar-se de um povo "formado por personas que nunca están dispuestas a mirar, ni a observar, ni a recordar; un lugar habitado por tímidos mudos, charlatanes hiperbólicos y amantes de la improvisación". Pla é um frasista muito espirituoso e elegante, que sabe apresentar ao leitor seus pontos de vista, estimulá-lo a refletir sobre eles, não em simplesmente aceitá-los como verdades perenas. Claro, muitas técnicas de conservação e preparo, a globalização e intercâmbios culturais, além dos avanços na logística de transporte atualmente disponíveis afetam parte das proposições de Pla, mas o quê há de fundamental em seu livro, conceitualmente falando, continua válido: o respeito pelos bons ingredientes e produtos; pela experimentação e pela técnica; pela tradição reinventada pela inovação. Manuel Vázquez Montalbán, que assina a apresentação do livro afirma que Josep Pla é uma espécie de profeta das qualidades da dieta mediterrânea. Aliás, acredito que nem o grande personagem de Montalbán, o detetive Pepe Carvalho, nem seus parceiros de investigação e de combates gastronômicos, Biscuter e Enric Fuster, jamais existiriam sem as reflexões de Pla incluídas em "Lo que hemos comido". Seguro, é tempo de voltar a viajar e visitar a Catalunha, é tempo de voltar a ler Montalbán, claro que sim.
[início: 17/05/2014 - fim: 06/06/2014]
"Lo que hemos comido: El verdadero profeta de la dieta mediterránea", Josep Pla i Casadevall, tradução de P. Gómez Carrizo, prólogo de Manuel Vazquez Montalbán, Barcelona: Ediciones Destino (Contemporánea Narrativa, colección Austral, 817) / Grupo Planeta), 1a. edição (2013), brochura 13x19 cm., 350 págs., ISBN: 978-84-233-4716-2 [edição original: El que hem menjat - l'obra completa de Josep Pla, vol.22 (Barcelona: Josep Vergés i Matas / ediciones Destino) 1972]

sexta-feira, 20 de junho de 2014

corpos sem pressa

Como bem nos ensina Laís Chaffe nas orelhas deste livro: "... a boa literatura, não importa o tamanho, não nasce da correria". Pois 67 minicontos de Leonardo Brasiliense, que começaram a ser gestados há mais de uma década, chegaram a ser quase renegados, encontraram agora o registro físico em livro, num belo volume editado pela Casa Verde e não por acaso chamado (desde 2008 pelo menos) de "Corpos sem pressa". Leonardo fixa com palavras imagens, recortes do cotidiano, epifanias, idéias que espocam e brotam do branco das páginas. Os títulos são parte importante das curtas histórias, complementando, justificando, invertendo ou negando o que é dito no texto. As histórias são leves, corriqueiras, não há nada de grotesco ou fantástico nelas. Em algumas há uma preocupação filosófica com as coisas da vida, noutras é antes o olhar bem humorado sobre o acaso ou desenho dos acontecimentos da vida. Contrariando a proposta do livro li quase tudo num fôlego só pela primeira vez, mas retornei a ele com calma nas últimas semanas para conferir a imanência de algo seminal nos minicontos. E essa força ainda estava lá. Belo livro.
[início: 30/05/2014 - fim: 18/06/2014]
"Corpos sem pressa", Leonardo Brasiliense, Porto Alegre: Editora Casa Verde (série Lilliput, volume 9), 1a. edição (2014), brochura 12x18 cm., 86 págs., ISBN: 978-85-99063-25-5.