segunda-feira, 15 de outubro de 2018

proust contra a degradação

O polonês Joseph Czapski foi pintor, escritor, crítico de artes, ativista político. Em setembro de 1939, data que marca o inicio da segunda grande guerra na Europa, engajado como oficial do exercito polonês, Czapski foi aprisionado pelos russos (a União Soviética e a Alemanha dividiram entre si o território polonês). Prisioneiro em um convento abandonado, a mais de 400 Km de Moscou, e demasiadamente debilitado para os trabalhos forçados aos quais estavam condenados todos os demais, ele fazia anotações durante o dia sobre assuntos de suas áreas de especialização, sobretudo pintura e literatura francesa. A cada noite, parte destas anotações eram pronunciadas como palestras a seus colegas oficiais poloneses. Cabe registrar que Czapski foi um dos poucos sobreviventes dos quase 25.000 oficiais prisioneiros dos russos que foram mortos em Katyn - um leitor curioso deveria ver o belo e terrível filme já feito sobre esse assunto. Junto com Czapski sobreviveu o manuscrito de suas conferências, que resta transcrito nesta edição da Âyiné. Naqueles dias terríveis, Czapski fala de Proust e sua obra, sem o auxilio de livros, anotações ou cousa que o valha, citando longos trechos do livro de memória (mas não aquela cara a Proust, a memória involuntária). Ele emula aos colegas prisioneiros o que sabe de livros que havia lido vinte anos antes. Um leitor já familiarizado com Proust apreciará o livro sem reservas, encontrará em Czapski um confrade de longe, alguém com quem compartilhar espanto e admiração (don Renato Cohen certamente deverá ler esse livro). As passagens que ele rememora, escolhe e conta para seus colegas prisioneiros são aquelas que encantam qualquer leitor (a morte da avó do narrador, o sofrimento de Swann, a decrepitude de Charlus, o chá e as madeleines, as recepções na mansão da duquesa de Guermantes, a mundanidade encarnada nos personagens), mas é a forma como elas brotam da memória de Czapski que guardam algo de mágico. A bem da verdade ele não se limita a contar as histórias dos livros de Proust. Czapski fala de sua vida, contrasta autor e obra com todos os movimentos artísticos, não apenas na literatura, mas também nas artes plásticas, na música, na dança, do final do século XIX e início do século. Fala dos autores russos, que ele conhecia bem, de política, de psicologia, de filosofia, de autores poloneses - a passagem sobre Conrad é soberba. Trata-se de um livro curto e potente. Essas edições da Âyiné são excelentes, porém só oferecem um aperitivo ao leitor, não saciam sua fome, deixam o sujeito nervoso ao terminar a leitura; e custam caro. Paciência. Escrevo este registro na véspera do dia que é dito do professor aqui no Brasil. Uma passagem de Czapski me fez pensar muito sobre essa data e a terrível situação em que esse desgraçado país se encontra, em que legiões de escravos mentais vagam e votam, deixando a impressão que sua grande maioria é incapaz de tomar decisões sensatas, de colaborar para construir um futuro minimamente digno. Paciência. Mas o que Czapski registra e me fez lembrar, numa lição, é que Proust jamais foi estritamente didático, engajado ou tendencioso em sua obra, jamais foi professoral. Para Proust é a forma, o compromisso estrito, rigoroso, absoluto, com as formas puras na arte, que conseguirá transmitir verdades ao leitor. É a vontade de saber e de compreender todos os sentimentos, todos os estados da alma e gestos dos homens, mesmo quando incompatíveis entre si, que poderá fazer com que possamos alcançar alguma verdadeira sabedoria. Proust nos obriga, a cada leitura, a uma revisão de toda nossa escala de valores, a despertar nossas frágeis faculdades de pensamento e sentimento. Efeitos assim não se alcançam com livros panfletários, ideologicamente comprometidos, que parecem ser o repasto da maioria dos - poucos - leitores contemporâneos. (Nem incluo aqui das informações que as pessoas compartilham nas redes sociais, quase sempre admiravelmente eivadas de vícios e mentiras). É mesmo tempo de reler Proust, de blindar-se da degradação, afastar-se dos miasmas, da abominável ignorância que grassa por este país. Vale! 
Registro #1338 (crônicas e ensaios #233) 
[início 13/10/2018 - fim: 14/10/2018]
"Proust contra a degradação: Conferências no campo de Griazowietz", Joseph Czapski, tradução de Luciana Persice, Belo Horizonte: Editora Âyiné (coleção Das Andere #6), 1a. edição (2018), brochura 12x18 cm., 110 págs., ISBN: 978-85-92649-36-4 [edição original: Proust contre la déchéance: Conferences au camp de Griazowietz (Lausanne: Editions Noir sur Blanc) 1987 & 2011]

domingo, 14 de outubro de 2018

insolitudes

Com "Insolitudes" Tiago Feijó venceu o premio Ideal Clube de Literatura de 2014. São nove contos curtos, bastante engenhosos, produção de alguém que é jovem, mas tem domínio das boas técnicas de sua arte. Três dos contos são mais explicitamente metaliterários, falam do mundo dos livros; os outros seis são menos brincalhões com a literatura, exploram certos espantos da vida. Todas as narrativas compartilham aquilo que o título promete: algo de insólito, bizarro, deslocado, ou no tempo, ou no espaço. Em "A insólita morte de Ernesto Néstor", Feijó inverte um aforismo de Nabokov que obriga os personagens a serem sempre escravos do autor e faz seu narrador ser dominado e eventualmente eliminado por um personagem; em "Josés" um sujeito recebe o fantasma de José Saramago e alcança escrever um livro em nome dele, num transe ; "Conto tirado de um poema" dá conta de um sujeito que é rechaçado pela namorada e decide tornar seu suicídio um acontecimento literário, coreografando, encenando, seu aborrecimento e morte; "O olho" é uma história que deve algo a Kafka ou Borges, no qual um olho surge em uma parede e, ao se expandir, deixa obcecado o morador daquele ambiente; "O caso do cartão" brinca com os sucessos retrospectivos de uma paixão vivida por um rapaz por uma garota que havia o abandonado; "Aqui, dentro de mim" trata dos ritos do luto de uma mulher que perde filho e nora para os elementos, o mundo natural; em "Uma noite na vida do sr. Lameque" uma mãe, talvez inebriada pelo Alzheimer, recrimina o filho que vela por ela pela morte de um outro filho, seu gêmeo ou irmão mais velho, num remoto acidente; " Há uma gota de orvalho em cada criança" descreve uma cena que adultos tratariam com mundanidade, hipocrisia, mas que no mundo das crianças brota livre, sem amarras, sem engajamentos artificiais, como sempre deveria ser; "A morte e a pequena Ana" conta como uma menininha pensa o suicídio do pai, tentando interpretar o mundo e as pessoas que, por sua vez, não a imaginam ser capaz disto. Ojo, acho que é o caso de acompanhar o que o Feijó inventará no futuro. Vamos em frente. Vale! 
Registro #1337 (contos #157) 
[início: 18/09/2018 - fim: 25/09/2018]
"Insolitudes", Tiago Feijó, Rio de Janeiro: Editora 7Letras, 1a. edição (2015), brochura 14x21 cm., 101 págs., ISBN: 978-85-421-0383-0

sábado, 13 de outubro de 2018

querida kombini

Na semana passada, próximo ao dia destas bizarras, ridículas eleições, quase todos os cadernos culturais dos jornais que li davam conta da edição desse "Querida Kombini", de Sayaka Murata. Todos falavam do sucesso de vendas (mais de 700 mil exemplares vendidos no Japão) e das boas críticas (o livro ganhou o respeitável prêmio Akutagawa do ano passado). De fato o livro é bem escrito, registra literariamente uma experiência limite, descreve um comportamento social contemporâneo, alcança fazer algo que um trabalho sociológico acadêmico não alcançaria, além de provocar uma reação empática no leitor. A história é simples. Uma mulher ainda jovem, menos de quarenta anos, com estudos universitários completos, Keiko, é funcionária em uma loja de conveniência de Tóquio ("Kombini" é o nome destes lugares no Japão). Esse tipo de trabalho é em geral ocupação de estudantes, mulheres bem mais velhas que precisem ajudar no orçamento familiar, imigrantes com pouca qualificação. Todavia Keiko parece adaptar-se perfeitamente àquela função, onde antes habilidades mecânicas, rapidez e diligência são mais importantes que capacidade de abstração, raciocínio complexo ou iniciativa. O leitor acompanha os dias de Keiko, a monótona rotina de seu trabalho, algo de sua biografia, do estranhamento que provoca em familiares e amigos (se é o que ela vivencia são mesmo relações familiares ou de amizade, pois trata-se de uma pessoa socialmente deslocada em todos os aspectos). Gostei de ler o livro, mas não achei particularmente marcante, já conhecemos todos algo deste tipo de história. Para um leitor estrangeiro o exotismo da cousa, o bizarro da situação, explica algo do interesse que a história provoca, mas como explicar o sucesso de público e crítica no Japão? Talvez a história desnude aquilo que não seja fácil para eles mesmos verbalizar: a intrínseca melancolia e solidão daquela sociedade; o contraste entre o conforto material e as tensões psicológicas experimentadas pela população; a quase impossível mobilidade social; a rigidez que condena todos ou a mais completa submissão às tradições ou ao escracho total, a negação completa das convenções sociais. Esse livro lembra muito um dos primeiros livros da belga Amélie Nothomb, "Medo e Submissão", no qual ela descreve ficcionalmente sua experiência de quase servidão humana, de anulação de personalidade, vivenciada quando trabalhava como tradutora em uma grande empresa japonesa no início dos anos 1990. Lembra muito também aquele poderoso conceito de Elias Canetti: "A inversão do temor de ser tocado", mas esta é outra história e eu já especulei um bocado neste registro de leitura. Vamos em frente. Vale! 
Registro #1336 (romance #351) 
[início 06/10/2018 - fim: 08/10/2018] 
"Querida kombini", Sayaka Murata, tradução de Rita Khol, São Paulo: Editora Estação Liberdade, 1a. edição (2018), brochura 14x21 cm., 152 págs., ISBN: 978-85-7448-295-8 [edição original: Kombini Ningen コンビニ人間  (Tokyo: Bungeishunju) 2016]

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

uniões

No início deste 2018, qual não foi minha alegria ao saber que dois amigos queridos, a Kathrin Rosenfield e o Lawrence Pereira, estavam envolvidos com a tradução de Vereinigungen, um volume de contos de Robert Musil cuja leitura eu havia abandonado há pelo menos vinte anos. Desta vez, pela força da tradução deles e guiado por dois soberbos ensaios críticos da Kathrin, consegui terminar a leitura e entender algo das histórias. Musil publicou esses dois contos ("A perfeição do amor" e "A tentação da quieta Verônica") em 1911. Ele já havia alcançado reconhecimento em 1906 com a publicação de "O jovem Törless", mas o volume com os contos, nos quais dedicou mais de dois anos de trabalho, foram recebidos com indiferença ou ácidas críticas. De fato são histórias complexas, que cobram do leitor concentração, envolvimento, atenção e contínuas reflexões. Nem tudo é dito, explicitado, factual. Nem tudo é linear ou auto-consistente. Em "A perfeição do amor" acompanhamos Claudine, uma jovem senhora, que ao visitar sua filha em um colégio interno, afastada do marido, permite-se testar a atração que provoca nos homens e também testar o alcance do amor que sente por seu marido. Em "A tentação da quieta Verônica" o leitor é apresentado a uma curiosidade de mesma natureza, mas neste caso a protagonista, a Verônica do título, não precisa consumar uma conjunção carnal com um estranho para entender o que sente ou sentia pelos dois homens que a sufocavam (e continuarão a restringir suas ações de certa forma): Johannes e Demeter. Esses dois resumos são obviamente incompletos, falseantes, restritivos. Os dois contos (ou as duas novelas, numa classificação talvez mais precisa) oferecem ao leitor camadas de interpretação, ilações, pistas. Trata-se de exercícios de estilo, através dos quais Musil parece querer demonstrar literariamente as transições de nossas vontades, de nossos gestos, de nosso entendimento da realidade, das razões que entendemos justificar cada uma de nossas ações. Não são narrativas que reduzem as sutis variações de nossa humanidade à psicologia, mas uma tentativa de entender a contradição intrínseca de nossos desejos, de nossas escolhas. Escritas há mais de cem anos, as duas histórias soam frescas, provocativas, apropriadas para descrever até mesmo nós, cínicos e tolos viventes deste inicio de século XXI, ainda encerrados nas mesmas masmorras ideológicas do final do século XIX, incapazes de entendermos a realidade que nos cerca, o mundo natural, nossa psicologia. Mais não digo sobre as histórias. Mas talvez valha a pena contar algo mais sobre meu envolvimento com esse livro. Há quase vinte anos, flanando por uma estival Barcelona, num domingo, lá pelos lados do Mercat de Sant Antoni, comprei "Uniones", a versão espanhola dos contos de Musil, contos sobre os quais nunca havia tido notícia. Meses antes, ainda no Brasil, eu havia terminado de ler uma tradução (assinada por Lya Luft e Carlos Abbenseth) de "Um homem sem qualidades" e estava curioso em saber mais cousas do Musil. Porém, meu espanhol medíocre daqueles dias não me fez avançar muito (meu volume da Seix Barral está pouco rabiscado, quase não amassado, sinal que fui vencido sem dó pelas narrativas). Essa dificuldade, esse desconforto, aliás, também experimentou Thomas Mann ao ler os contos, aprendi isso nos notáveis ensaios da Kathrin, ensaios que por si só já justificam a edição. Enfim, restou ao livro perder-se nos guardados de minha biblioteca. Consultando-o agora vejo que além dos contos a edição inclui alguns mimos: (i) sete curtos relatos ficcionais que foram publicados em jornais e revistas por Musil entre 1923 e 1930 - posteriores, portanto, aos contos; (ii) seis fragmentos ficcionais que só foram publicados após a morte de Musil, em 1942, mas que foram escritos na mesma época da produção dos contos. Esses dois conjuntos de relatos eu já havia lido, estão bem rabiscados (pelo menos isso consegui, o fracasso não foi completo). Não posso finalizar esse registro sem falar mais sobre a edição brasileira, do belo "Uniões" publicado pela Perspectiva. A edição é muito bonita, inclui um conjunto de dezessete ilustrações, reproduções de gravuras em metal de três artistas plásticos (Marcos Sanches, Maria Tomaselli e Raul Cassou). As gravuras foram produzidas por encomenda, fazem parte do projeto editorial do livro e já foram expostas em Porto Alegre e em São Paulo. A edição inclui também uma sobrecapa feita pela dobradura de uma folha em formato A3, impressa dos dois lados, com reproduções das gravuras. Enfim, o livro tem algo de livro arte, de livro objeto, é uma festa para os sentidos. Todavia, convenhamos, são os dois contos do Musil o melhor desta festa sensorial. Grato a Kathrin e ao Lawrence por traduzi-los. Vale! 
Registro #1335 (contos #156) 
[início 01/09/2018 - fim: 04/10/2018] 
"Uniões", Robert Musil, tradução de Kathrin Rosenfield e Lawrence Flores Pereira, ilustrações de Marcos Sanches, Maria Tomaselli e Raul Cassou, São Paulo: Editora Perspectiva (Coleção Paralelos #35), 1a. edição (2018), brochura 14x21 cm., 240 págs., ISBN: 978-85-273-1122-9 [edição original: Vereinigungen - Zwei Erzählungen (München: George Müller Verlag) 1911]

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

nenhum mistério

Você termina de ler "Nenhum mistério" e se sente esgotado, como se tivesse passado horas no mais extenuante dos trabalhos. Todavia, o primeiro impulso após terminá-lo é voltar aos poemas iniciais, folhear o livro para encontrar aquela passagem particularmente feliz, aquele verso que nos arrebatou de vez, retornar ao assombro, ao encantamento. Nas ultimas semanas li vários livros, inclusive de poesias, como o bom "Coral e outros poemas", de Sophia Andresen, que já registrei aqui. Entretanto, nunca deixei longe esse volume de Paulo Henriques Britto, voltei aos poemas enfeixados nele várias vezes. São apenas 27 poemas, alguns anteriormente publicados em jornais e revistas, do Brasil, de Portugal e do Peru. Algumas partes de alguns poemas foram escritas originalmente em inglês (Britto é um dos mais seminais e respeitados tradutores brasileiros). Os poemas tratam das perdas, do vazio, da inutilidade da vaidade, do ofício do tradutor e do poeta, dos rancores contidos, da melancolia, dos esgares provocados pela consciência das limitações alheias, do fluir do tempo, das barreiras, dos limites (do Metron e da Húbris, diria um grego). Cada poema provoca no leitor uma reflexão dura. Somos senhores de nós mesmos ou detritos orgânicos que são continuamente arremessados de um lado para o outro, por acaso, por capricho de uma deidade brincalhona? Já li vários conjuntos de poemas de Paulo Henriques Britto ("Mínima lírica", de 1989; "Trovar claro", de 1997; "Macau", de 2006; "Formas do nada", de 2012), mas esse é o que mais me impressionou. Que poeta dos diabos. Que assombro, que potência, que festival para os sentidos. Qual poema reproduzir aqui? Como dar uma ideia ao eventual leitor das maravilhas que ele cria? Escolho esse (Dos nomes), bom divertimento: "Os nomes se enchem aos poucos, / Um dia eles perdem o estofo, / aos poucos, ou então de repente. / Então ficam ocos. // O mundo está sempre se enchendo / de cascos vazios deste tipo. / Inúteis. No entanto, assim mesmo / continuam sendo, // ocupando tempo e lugar, / iludindo quem os assume, / prestando falso testemunho / do que já não há. // E o mundo se presta a essa farsa. / É como se já não bastassem / as coisas e os nomes das coisas / que as coisas disfarçam. // E há quem (imagine!) ache pouco, / e abrace esses nomes sem estofo / e diga e rediga esses ocos / feito louco". Vale! 
Registro #1334 (poesia #101) 
[início 05/09/2018 - fim: 10/10/2018] 
"Nenhum mistério", Paulo Henriques Britto, São Paulo: Editora Schwarcz (Grupo Companhia das Letras), 1a. edição (2018), brochura 14x21 cm., 70 págs., ISBN: 978-85-359-3137-2

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Coral e outros poemas

Cada poeta é um universo, um mundo, um país, uma aldeia, uma voz. Nunca havia ouvido falar de Sophia de Mello Breyner Andresen. Noutro dia, vagabundo por uma livraria, encontrei esse volume. A organização, seleção e apresentação desta antologia é assinada pelo também poeta Eucanaã Ferraz, que conheço pouco, mas que é sempre citado em cadernos culturais como uma das boas referências de sua geração. Pois em sua apresentação, Eucanaã nos ensina sobre uma poeta forte, que viveu muito, viajou muito e publicou muito, sendo ainda seminal e respeitada em seu Portugal fundamental. Os poemas foram retirados de quatorze livros que ela publicou, desde o de estreia, em 1944, até o ultimo, de 1997 (ela morreu em 2004). Segundo Eucanaã ela adestrou seus versos em vagas, em fases, desde os três primeiros volumes ("Poesia", de 1944; "Dia e mar", de 1947; "Coral", de 1950), com os quais ganhou consagração; passando por "No tempo dividido", de 1954, e "Mar novo", de 1958 (livros de continuidade nos temas, mas com mudanças estilísticas); "O Cristo cigano", de 1961, que ela um dia renegou, mas fez ainda em vida voltar às edições de sua obra completa; "Livro sexto", de 1962, e "Geografia", de 1967 (livros que brotaram de uma espécie de angústia da influência de nosso João Cabral de Melo Neto, de uma fase sua onde a arte parecia negar a vida, da descoberta do Brasil); "Dual", de 1972, e "O nome das coisas", de 1977 (volumes que tratam de sua redescoberta de Portugal, de Fernando pessoa, do impacto da esperada Revolução dos Cravos, quando Portugal tardiamente livrou-se da ditadura de António de Oliveira Salazar); "Navegações", de 1983, e "Ilhas", de 1989 (volumes onde são as viagens e o mar que povoam a experiência da poeta); e os dois últimos, "Musa", de 1994, e "O búzio de cós e outros poemas", de 1997, com os quais Sophia faz-se uma Janus, olha para trás, avalia sua trajetória artística, porém, bifronte, encara o futuro e unifica sua obra, numa coda calma e feliz. Seus temas são aqueles sempre caros aos poeta fortes: o mar, a presença grega, uma deidade ou religião, as viagens, a consciência da linguagem, o fluir do tempo. Se aprende um bocado lendo alguém assim. Várias vezes, dentre os poemas recolhidos por Eucanaã, descobrimos uma ânfora. Curioso, fiquei a imaginar se essa imagem é mesma algo perene em sua obra (esta antologia só nos ensina uma fração dela, só nos dá um vislumbre de uma vastidão de palavras). Imaginei-a como um navio repleto de ânforas poéticas, que repentinamente foi resgatado do mar. Eucanaã fez essa antalogia, mas nos convida em sua apresentação a elegermos a nossa, navegarmos no mar de poemas de Sophia Andresen, descobrirmos nós mesmos seus versos, suas imagens, seu mundo. Vale! 
Registro #1333 (poesia #100) 
[início 15/08/2018 - fim: 08/10/2018] 
"Coral e outros poemas", Sophia de Mello Breyner Andresen, São Paulo: Editora Schwarcz (Grupo Companhia das Letras), 1a. edição (2018), brochura 14x21 cm., 390 págs., ISBN: 978-85-359-3079-5

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

a fada sem cabeça

Acho que já li tudo o que Luís Henrique Pellanda publicou em livro. As crônicas curitibanas dele são imbatíveis, difícil dizer qual de seus livros ("Asa de sereia", "Nós passaremos em branco" e "Detetive à deriva") é melhor. Já registrei aqui a sorte que uma cidade tem quando um bom cronista navega por ela, recolhendo histórias e produzindo pequenos milagres literários, que a eternizarão. Pellanda também já havia publicado alguns contos seus em "O macaco ornamental", seu livro de estreia, de 2009. Nesse "A fada sem cabeça", seu mais recente lançamento, estão reunidos 28 contos, produzidos entre 2010 e 2017, sendo 14 anteriormente publicados em cadernos culturais, jornais ou revistas, 5 publicados em um blog (Asa de sereia) e 9 inéditos. As narrativas quase sempre brotam da memória de um sujeito sobre seus dias de juventude, não exatamente da infância, mas de uma época em que ele era jovem o suficiente para experimentar assombros, vivenciar descobertas marcantes, encantar-se sem medo de ser piegas. Há um clima de contos de fada ou de sonho em todos eles, como se o passado precisasse de uma pátina de fantasia ou ilusão para ser devidamente aceito, entranhado, absorvido pelo sujeito que rememora. Onze dos vinte e quatro contos, um tanto mais curtos, são enfeixados em um sessão dita "Pesadelos possíveis", impressos em folhas azuis, que contrastam com o branco convencional dos demais. Nestes onze a ambientação mágica, de fábula, de faz-de-conta é ainda mais marcante, o leitor viaja para longe, para seu passado de criança, quando ainda ouvia e lia contos de fada e se encantava com as invenções. Nunca é tarde para voltar a ser criança e entender das coisas metaforicamente, sem barreiras intelectuais. Claro, há um travo amargo em todas as histórias, que carregam um fracasso, uma derrota, um pequeno horror, talvez uma negação. Nada finalizador, incontornável, definitivo, mas que nos faz lembrar do poder do acaso na vida, de uma eventual estagnação de nossas vontades, dos caminhos de infinitas bifurcações que trilhamos todos nós, cegos sendo guiados por cegos. Ojo. Grande escritor esse Pellanda. Vamos a ver o que ele inventará a seguir. Vale! 
Registro #1332 (contos #155) 
[início 11/09/2018 - fim: 15/09/2018] 
"A fada sem cabeça, Luís Henrique Pellanda, Porto Alegre: Arquipélago Editorial, (1a. edição) 2018, brochura 14x21 cm., 176 págs., ISBN: 978-85-5450-014-6

terça-feira, 25 de setembro de 2018

queria ter ficado mais

"Queria ter ficado mais" é o resultado de um projeto bacana, que aposta na emoção, na sensibilidade, na paixão. Doze mulheres, doze jornalistas, foram convidadas para produzir relatos sobre alguma experiência de viagem. A ideia era elaborar narrativas que não servissem para fins práticos, como num guia de viagens, antes sim que evocassem o clima e a magia das viagens, o impacto de experiências que nos transformam. A edição é bem caprichada e inusual, bonita mesmo (como em geral são os livros da Lote 42). Trata-se de doze envelopes do tamanho de um cartão postal com cartas curtas, endereçadas ao eventual leitor, como em uma confissão. Os envelopes são ilustrados com aquarelas muito bonitas, assinadas pela artista plástica Eva Uviedo. As autoras quase sempre escrevem retrospectivamente, não durante as viagens, mas relembrando delas, falam daquilo que de marcante viveram em um determinado momento de suas vidas. Quase todos os destinos, ou melhor, sete deles, são mais ou menos óbvios: New York, Barcelona, Berlim, Paris, Roma, Londres, Buenos Aires. Três (Istambul, Tóquio, Israel e Valência) são só algo extravagante de se escolher em uma primeira viagem internacional. O único exótico e realmente diferente é Yangshuo (no sul da China, a aproximadamente 460 Km de Hong Kong). Na verdade esta foi a única história que realmente gostei, que alcançou comigo compartilhar a epifania que eventualmente experimentamos em uma viagem, o deslumbramento e alegria da descoberta, a sensação de que a vida vale a pena ser vivida sempre daquela forma. As demais são histórias convencionais, povoadas por clichês: correrias, atrasos em vôos, flertes ou sexo eventual, caminhadas ao luar, festas amalucadas. Talvez seja apenas minha natural rabugice que me impediu apreciar melhor as cartas, os relatos. Talvez se fossem histórias contadas por amigas de fato, ou por gente que falasse de suas aventuras em uma mesa de jantar ou numa noite na praia, para um grupo grande, rindo e detalhando as coisas ao sabor das reações dos demais, o efeito fosse mais marcante. Vai saber. De qualquer forma, sempre é uma boa ideia viajar, viver. Vale! 
Registro #1331 (cartas #8) 
[início 01/07/2018 - fim: 21/09/2018] 
"Queria ter ficado mais", Barbara Heckler, Bruna Tiussu, Cecília Araújo, Cecília Arbolave (organização), Clara Averbuck, Clara Vanali, Florencia Escudero, Isis Gabriel, Ligia Braslauskas, Lívia Aguiar, Luciana Breda, Olívia Fraga, ilustrações de Eva Uviedo, São Paulo: Editora Lote 42, 1a. edição (2015), 12 envelopes, 16x11 cm., 107 págs., ISBN: 978-85-66740-10-3

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

contos da vida expedicionária

Foi o Samuel Pessoa, amigo querido, quem falou-me dos contos de Celso Furtado, na tarde mágica de um sábado do último maio, em que falamos do passado (dos tempos do IFUSP e dos amigos de então), do presente terrível (eram os dias da greve dos caminhoneiros) e do futuro (dos planos para as férias de inverno e as viagens que faríamos). Também ouvi da Heloísa histórias maravilhosas sobre literatura, amizade e vida, conheci amigos deles, acompanhei a vibração e alegria contagiante da pequena Inês. Só faltou para mim rever a Raquel, que estava com a Silvia no Rio de Janeiro. Foi o dia em que fizemos libações e sonhamos, uma vez mais "drowning in honey, stingless". Algo sobre o Celso Furtado político, intelectual brasileiro de primeira linha, ministro e imortal da Academica Brasileira de Letras eu já sabia (sou um velho e cansado senhor, já se sabe). Todavia, não tinha ciência desta incursão dele pela ficção, destes contos escritos na juventude, quando não tinha ainda 25 anos. São dez histórias curtas, produzidas no período em que ele fez parte da Força Expedicionária Brasileira, como oficial de ligação junto ao V exército americano, sediado na Toscana italiana, entre janeiro e agosto de 1945. A segunda grande guerra já se encaminhava para seu desfecho. Os contos explicitam uma mente sofisticada, erudição indisfarçada, curiosidade intelectual. De situações banais, na medida em que algo que aconteça durante uma guerra devastadora pode ser banal, Furtado constrói contos morais, reflexões sobre o comportamento humano, faz observações sobre decisões e escolhas, análises finas sobre geopolítica, psicologia e economia. O narrador de Furtado sempre é um oficial brasileiro, como ele, Tenente, que experimenta uma situação limite, nem sempre envolvendo combates e mortes, o trágico da guerra, antes sim sobre aquilo de essencialmente humano que transparece dos escombros de uma civilização. Numa história um pracinha, cansado, sonha com o furto de uns cigarros e o suicídio de um prisioneiro alemão; noutra um pracinha experimenta a cumplicidade de uma combatente italiana, numa espécie de aprendizado sobre o papel da mulher na sociedade; noutra ainda se descreve a aventura de um brasileiro que se encanta com sua imersão nos séculos de história de uma Florença que conhecia apenas livrescamente. Há historias envolvendo vingança e honra. Numa um negro mata um prisioneiro alemão por conta de um bombardeio no qual morre uma velha senhora italiana que ele mal conhecia; noutro um oficial salva a vida de uma jovem, acusada de ter sido simpática aos invasores nazistas. Há histórias nas quais certos aspectos da psiquê brasileira são explorados, como aquela em que uma italiana que pretendia casar-se com um soldado brasileiro para emigrar para o Brasil descobre ser ele casado e mulherengo, e uma outra, uma releitura divertida da Divina Comédia de Dante, em que vários amigos falam das diferenças entre as mulheres do Brasil e da Europa, histórias que beiram o preconceito, mas como trata-se de histórias de caserna, estão longe de ser misóginas. De três contos eu gostei especialmente. O primeiro é uma espécie de road-movie, no qual dois oficiais brasileiros saem de folga numa viagem de Milão a Paris, em busca de sexo e alegria, interagindo com americanos, franceses e até prisioneiros alemães, contrastando hábitos e costumes desses povos; no segundo se narra dias de festejos em uma praia italiana, nos quais uma antropóloga dinamarquesa se espanta com a erudição de um seu confrade brasileiro, que imaginava viver de tanga e a tocar tambores; já o último basicamente trata do debate intelectual entre um oficial americano e um brasileiro, em que se digressa, no limite da civilidade, os diferentes hábitos e história dos dois povos, se desnuda, numa sociologia selvagem, aquilo que os une e os afasta. Seguro que esses contos não brotaram só da experiência de Furtado, devem ter sido ouvidos, em uma miriade de versões, de seus confrades combatentes, sujeitos que inventam e exageram seus sucessos e conquistas, que seletivamente usam a memória. De qualquer forma, Furtado inclui nas histórias reflexões sobre o Brasil, fala da riqueza de sua composição e diversidade étnica; da funesta vocação para o subdesenvolvimento brasileiro, derivada de sua posição periférica; da falta de objetividade da elite brasileira, incapaz de colocar seu refinamento intelectual a serviço de projetos e em ações que transformem seu pais. São contos otimistas, de alguém que espera reverter essa inação, sabedor dos desafios que enfrentará. Os narradores de Furtado vão a museus, a concertos, discutem sobre Brahms e Verdi, são algo lascivos, como não, fazem uso do exotismo para angariar simpatias, são intelectualmente curiosos, dominam as regras de etiqueta e civilização, sabem argumentar e ferir com a linguagem, mais que com a espada. Ao retornar ao Brasil, em agosto de 1945, Furtado começou sua caminhada no palco dos embates políticos, econômicos, sociológicos. Inegável é sua perene presença nos debates acadêmicos sobre o sempre futuro desenvolvimento brasileiro. Não conheço suficientemente sua obra econômica para dizer se suas idéias ainda são válidas, se suas análises sobre as raízes de nosso subdesenvolvimento de alguma forma devem ser levadas em consideração hoje, em que vivemos décadas de crescimento econômico pífio. Como leitor, apenas destes dez bons contos, imagino que talvez o Brasil tenha perdido um bom artificie da língua, um bom escritor, um sujeito cuja intuição literária talvez poderia contrastar e tornar-se mais seminal que aquela de um Jorge Amado, por exemplo. Difícil dizer. Vamos a ver o que o Samuca dirá sobre ele, no livro que prepara e promete publicar ainda neste funesto ano, de eleições, em que teremos todos de tomar decisões cujas consequências são terríveis. A ver. Vale! 
Registro #1330 (contos #154) 
[início 21/09/2018 - fim: 23/09/2018] 
"Contos da vida expedicionária (Obra autobiográfica de Celso Furtado, Tomo1)", Celso Furtado, Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra (Grupo Editorial Record), 1a. edição (1997), brochura 14x21 cm., 367 págs., ISBN: 85-219-0282-4