domingo, 22 de janeiro de 2017

ascensão

Em "Ascensão" Dirce Waltrick do Amarante enfeixa historietas divertidas, histórias amalucadas. Elas provocam no leitor curiosidade e estranhamento. Algumas parecem conhecidas, cousas que lemos há muito tempo e soam familiares, pois possuem aquela aura de algo que ouvimos de um tio-avô ou vizinho excêntrico, sempre espirituoso e brincalhão. Doze ela chama de "Monólogos". São contos sintéticos, curtíssimos, de um fraseado quase musical, que brincam com a linguagem e flertam com o surrealismo (e que se não são dela podem ser de Borges, de Cortázar, de Jarry, de Tzara, de Breton). Dez são ideias de esquetes teatrais, tão nonsenses quanto os "Monólogos", porém ainda mais concisas e crípticas. Quando as lemos parece que ficamos presos num transe ou  sono leve, enfeitiçados ou bêbados, entreouvindo um grupo teatral a ensaiar peças que não conhece muito bem. O livro é fartamente ilustrado com reproduções de um livro de coreografia do início do século XVIII (Chorégraphie, ou L'art de décrire la dance par caractères, de R. A. Feuillet). Os doidos passos de dança indicados por Feuillet parecem sim ser o acompanhamento adequado para as curiosas narrativas da Dirce. A edição é artesanal, muito bacana e bem cuidada. Todo um detalhe. Vale. 
[início: 15/12/2016 - fim: 20/12/2016]
"Ascensão: Contos dramáticos", Dirce Waltrick do Amarante, Desterro/Florianópolis: Cultura e Barbárie editora (selo Armazém), 1a. edição (2016), brochura 12,5x21 cm., 96 págs., ISBN: 978-85-63003-37-9

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

árvores ornamentais

Uma das coisas que minha mãe realmente gostava de fazer era cuidar de plantas e contemplar árvores e flores. Ela sabia "fazer mudas" das plantas mais improváveis que encontrava e sempre foi uma generosa fornecedora de "mudinhas" para seus vizinhos menos hábeis com a terra, os vasos e a água. Sua casa, lá na Caiapós, sempre foi um pouco horta, pomar e viveiro de flores. Aliás, presenteá-la com flores era certeza de deixá-la feliz. As estações modulavam a coloração da casas e providenciavam a romã para o dia de reis, os antúrios para o dia de finados, as rosas miúdas que as formigas teimavam em destruir, a floresta de samambaias e xaxim, a bucha que usávamos como esponja, o manacá, a mirra, as orquídeas e tantas outras plantas que ornamentavam o quintal, terraço e pátio, para deleite de quem tinha tempo e tino de apreciá-las. Há um mês, no 19 de dezembro passado, ela morreu, dona Victória Medici morreu. Tinha quase 84 anos, que teria feito no início desde janeiro. Mexendo nos guardados dela encontrei esse "Árvores ornamentais na cidade de São Paulo", um dos livros que dei a ela de presente (esse foi num Natal, o de 2001). Desde sua morte fiquei com ele por perto, reli as descrições das árvores incluídas nele e apreciei as aquarelas muito bonitas que o ilustram. Texto e arte são obra de uma artista plástica americana que viveu no Brasil. Jean Smith passeava por São Paulo procurando e encontrando árvores em floração, coisa que a maioria de nós se esquece de fazer, iludidos pelo tempo fugidio e pelos ruídos da cidade. Ela publicou ao menos dois livros com suas coleções de árvores ornamentais paulistas. Neste estão reunidas 31 pranchas. Difícil dizer qual a mais bonita. Na descrição aprendemos algo da época de floração, das características das flores, de sua origem e forma de melhor cultivar, de seus nomes populares. A edição é bilíngue, português e inglês. Qualquer amor é mesmo um pouquinho de saúde, um descanso na loucura. Mas o amor às flores é um tipo especial de amor (isso eu sei, foi minha mãe quem me ensinou). Viva Vic.
[início: 19/12/2016 - fim: 19/01/2017]
"Árvores ornamentais na cidade de São Paulo. Flowering Trees in the city of São Paulo", Jean Irwin Smith, tradução de Merle Scoss e Melania Scoss, São Paulo: editora Terceiro Nome, 1a. edição (2000), brochura 18x25 cm., 90 págs., ISBN: 85-87556-05-3

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

mulher de porto pim

Nos livros de Antonio Tabucchi sempre alguém viaja e com esse alguém segue o leitor. No caso das histórias reunidas em "Mulher de Porto Pim" o destino dos sucessos é o Arquipélago dos Açores, o conjunto de nove ilhas que forma a parte mais a oeste de Portugal (O italiano Tabucchi teve uma relação especial com Portugal, viveu lá muitos anos, tornou-se um especialista em Fernando Pessoa, traduziu autores portugueses e italianos de uma língua para a outra, encantou-se com o lugar, ou melhor, com os muitos lugares que chamamos de Portugal). Para simplificar vou classificar esse livro como de contos, mas como sempre acontece com Tabucchi há algo cifrado em seu estilo. Algumas histórias parecem crônicas de viagem, registros objetivos de uma sensação, de uma experiência. Noutras o leitor se convence da pura invenção, da realidade de uma ficção curiosa, das habilidades de um autor criativo. Enfim, são oito narrativas curtas. Lemos sobre um homem que imagina uma nova Grécia nos Açores, com deuses, mitos e heróis; a história de um casal entreouvida num barco, sem início ou fim; o censo dos bares de uma das ilhas dos Açores, lugares construídos com restos de naufrágios, destino de deserdados e solitários do mundo; o resumo rápido da vida do poeta Antero de Quental, filho da Ilha de São Miguel, nos Açores. Encontramos também duas crônicas sobre a caça as baleias: uma delas quase científica, produzida dos fragmentos de diversos autores que já se interessaram pelo assunto; a segunda inventiva, na qual um narrador acompanha o capitão de longo curso de um barco baleeiro e as façanhas que resultam na morte de uma grande baleia (como se fosse a última de sua espécie a ser cruelmente abatida, como se apenas um réquiem nos redimisse da culpa). O conto que dá nome ao livro é a história de amor e morte que um velho músico de uma taberna das ilhas conta para um ouvinte curioso (sempre aquele sujeito que nas histórias de Tabucchi está no local certo para experimentar algo transcendental). O livro termina com uma história contada por uma baleia, que vê os homens na praia e estranha o comportamento daqueles seres bizarros e tristes. Especial. O leitor termina o livro e já se imagina num cais, preparando-se para zarpar rumo àquelas ilhas. Livro para se ler com calma, ouvindo o barulho do mar e do vento, dos peixes e dos pássaros. Vale.
[início: 21/12/2016 - fim: 22/12/2016]
"Mulher de Porto Pin e outras histórias", Antonio Tabucchi, tradução de Maria Emília Marques Mano, Alfragide/Portugal: Publicações Dom Quixote (Grupo LeYa), 1a. edição (2016), capa-dura 12x19 cm., 126 págs., ISBN: 978-972-20-6017-2 [edição original: Donna di Porto Pim (Palermo/Italia: Sellerio Editore ) 1983]

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

guerra das gueixas

"Guerra das gueixas" foi publicado originalmente há quase um século (primeiro de forma seriada em um jornal, depois em livro, em 1918). Nagai Kafu conta a história de uma gueixa ingênua, Komayo. O realismo é a chave do livro, não há falso moralismo nele. O mundo das gueixas é um mundo de escravidão sexual, de convenções anacrônicas, de submissão completa aos desejos dos homens. Kafu nada edulcora a vida libertina das gueixas. Suas alegorias românticas são antes a forma irônica de explicitar a realidade da armadilha social na qual elas estavam imersas. Ele nos ensina algo da etiqueta e do treinamento das gueixas, algo similar ao dos músicos, atores ou dançarinos. A sofisticada educação para o entretenimento e mundanidade custava caro e a "casa das gueixas" (okiya) que as financiavam alcançavam manter as mulheres presas a contratos impossíveis de serem um dia rescindidos por elas mesmas. Komayo, uma garota de vinte e quatro anos, volta a atuar como gueixa após a morte do marido, um sujeito do interior com quem havia se casado após ele pagar sua dívida. A vida do interior lhe parecia insuportável e ela acredita que poderia novamente conseguir um patrono ou um amante na capital japonesa. Ela reencontra Yoshioka, um bem sucedido bancário, com quem havia se relacionado quando jovem. Indecisa entre aceitar a proposta de tornar-se amante deste rapaz ou relacionar-se com um ator de teatro kabuki, Segawa, por quem subitamente se apaixona, Komayo vê ambos se afastarem. Kafu apresenta ao leitor os vários estágios emocionais entre as alegrias e fantasias da paixão e o reconhecimento das perdas. Komayo é uma protagonista que encontra deleite e sofrimento com os mesmos objetos, nos mesmos assuntos e com a mesma intensidade. O amor não é apenas o primo da morte (como já nos ensinou Drummond), mas um monstro voraz que provoca derrotas e ilusões em troca de uns poucos prazeres. Livro interessante. Vamos a ver se encontro algo mais de Nagai Kafu.
[início: 12/12/2016 - fim: 21/12/2016]
"Guerra das gueixas", Nagai Kafu, tradução de Andrei Cunha, São Paulo: editora Estação Liberdade, 1a. edição (2016), brochura 14x21 cm., 246 págs., ISBN: 978-85-7448-267-5 [edição original: Ude Kurabe (腕くらべ) 1916-1917)]

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

histórias da mesa

Massimo Montanari é um professor universitário italiano, especialista em história medieval e hábitos alimentares. Neste "Histórias da mesa" ele nos apresenta 22 ensaios curtos, que tratam do comportamento dos homens à mesa. O ritual de reunir-se para uma refeição tem regras que evoluíram, passaram por metamorfoses. Não se trata apenas de primeiro contemplar as comidas já preparadas, servir-se delas e depois vê-las descartadas como sobras. O tempo em que nos concentramos na comida fixa um intervalo regular em nossas vidas, mas ao redor da mesa (como antes ao redor do fogo) conversamos, fazemos planos, estabelecemos contratos ou acordos, promovemos a paz e a guerra, cúmplices ou não emitimos sinais hierárquicos uns aos outros, demonstrações sutis ou explícitas de nosso eventual poder, classe, educação, refinamento ou cultura. Os ensaios não são exatamente acadêmicos, antes narram descompromissados causos que revelam padrões de comportamento social. As histórias são apresentados cronologicamente, do século VIII ao século XVII ou XVIII. Algumas lembram parábolas míticas sobre a origem de um determinado item da gastronomia (um queijo, um vinho, uma forma de preparar um assado ou regrar a disposição de convidados à mesa); outras brotam de crônicas judiciais que tratam de velhas disputas entre vizinhos ou grupos por questões gastronômicas (a frequência de uma determinada festividade, o pagamento em víveres por um serviço ou arrendamento, o tipo certo de alimento que alguém devia oferecer); outras ainda registros das habilidades de cozinheiros e das inovações que criaram. Quase todas envolvem um preceito moral, regras dietéticas ou de conduta de um determinado povo, corpo social. Montanari nos ensina que sentar-se à mesa sempre significa outra coisa (alimentar-se é um detalhe); é teatro, espetáculo, evento; que as regras alimentares mudam e os hábitos também. Gostei muito das histórias. A mais divertida delas trata de um ensinamento de Dante Alighieri dirigido à corte de Roberto d'Anjou, rei de Nápoles. Outra, muito interessante, lembra um conto oriental, como aqueles das mil e uma noites, no qual acompanhamos o juízo sobre um cozinheiro tenta cobrar o sujeito que aspirou os vapores (a fumaça) de uma comida preparada por ele. O livro inclui uma detalhada bibliografia dos textos originais utilizados por Montanari para reinventar suas saborosas histórias. 
[início: 06/12/2016 - 08/12/2016]
"Histórias da mesa", Massimo Montanari, tradução de Federico Giglielmo Carotti, São Paulo: Estação Liberdade editora, 1a. edição (2016), brochura 16x23 cm., 230 págs., ISBN: 978-85-7448-270-5 [edição original: I racconti della tavola (Bari/Italia: Editori Laterza) 2014]

sábado, 7 de janeiro de 2017

medo e delírio em las vegas

Momentaneamente sem livros durante uma viagem longa, eis que fui obrigado a socorrer-me em uma livraria de aeroporto (tarefa difícil, pois, convenhamos, elas já foram melhores). Encontrei "Medo e delírio em Las Vegas", que já havia lido nos divertidos e insuperáveis anos 1980 (a edição original em português é de 1984) e visto em filme, com Johnny Depp e Benício del Toro como protagonistas (a versão cinematográfica é de 1998). O livro é dividido em duas partes, igualmente surreais e amalucadas, exemplares do estilo "Gonzo", técnica literária na qual são embaralhados propositadamente autor e narrador, fato objetivo e invenção, relato e mentira (ou seja, funciona como reportagem e como literatura). Na primeira um jornalista e seu advogado embarcam para Las Vegas, devidamente abastecidos com todo o tipo de drogas ilícitas para cobrir a Mint 400, uma corrida de carros, buggies, caminhões e motocicletas que acontecia no deserto de Nevada; na segunda partem para cobrir uma "Conferência Nacional sobre Entorpecentes", evento patrocinado pela Associação Nacional dos Promotores Públicos da América. Nas duas aventuras o que o leitor acompanha é um exercício de amoralidade, de liberdade sem freios, de comportamento caótico, de anarquia total, sem limites ou censura. Implacável, Hunter Thompson satiriza tudo o que é convencional, falso ou hipócrita na sociedade americana. Claro, o mundo mudou (e muito) desde 1971. O movimento de mobilização e contestação cultural que conhecemos como "contracultura" já mostrava suas limitações e inação na época da publicação original (em forma seriada, na revista Rolling Stone). A própria aceitação (e disseminação) do estilo Gonzo como ferramenta jornalística já demonstrava os mecanismos de cooptação que a grande mídia promovia entre os epígonos daquele movimento. Nada é novo sobre o sol (e o mundo não começou em 2003, por mais que os fascistinhas mirins dos dias que correm acredite estar surfando na vanguarda do pensamento ocidental e/ou brasileiro).  Hoje os mecanismos de opressão são mais efetivos e dramáticos. Dificilmente alguém poderia "viajar" pela América do Norte como Raoul Duke e seu advogado samoano fizeram. Todavia "Medo e delírio em Las Vegas" continua servindo como um registro de uma época, de um estilo de vida, de uma proposta de contestação, de um jeito de se consolar dos aborrecimentos dos dias, da estupidez reinante. O livro inclui ilustrações muito boas de Ralph Steadman, uma maravilha à parte. Vale a pena conferir o trabalho dele (pois o velhote continua vivo e produtivo). Já o Thompson, pobre homem, matou-se em 2005 (aos 67 anos). O século XXI definitivamente foi demais para ele. Vale. 
[início: 20/10/2016 - fim: 08/12/2016]
"Medo e delírio em Las Vegas: Uma jornada selvagem no coração do Sonho Americano", Hunter S. Thompson, tradução de Daniel Pellizzari, ilustrações de Ralph Steadman, Porto Alegre: LPM (coleção L&PM Pocket, v. 855), 1a. edição (2010), brochura 105,x17,5 cm., 220 págs., ISBN: 978-85-254-2012-1 [edição original: Fear and Loathing in Las Vegas (New York: Random House) 1971]

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

enclausurado

Em "Enclausurado" encontramos um bebê já no fim de seu terceiro trimestre dentro da barriga de sua mãe tentando entender os sucessos que o esperam após seu nascimento. Qualquer leitor das "Memórias póstumas de Brás Cubas" aceita o jogo proposto, o de um narrador improvável, que fala de um lugar e tempo ao qual jamais teríamos acesso consciente. Ian McEwan faz seu bebê refletir sobre as consequências dos atos de seu pai (imprevidente), sua mãe (perversa) e do idiota tio e/ou padrasto (o irmão de seu pai e amante de sua mãe). O feto em gestação acompanha os desdobramentos do livro, como se estivesse vendo o filme em tempo real de sua vida pré-parto. Já se educa, ouvindo documentários de televisão que a mãe assiste. Consegue interferir na trama dando alguns chutes na barriga da mãe (mas sabe que não pode exagerar, pois o elemento mais frágil daquele corpo disforme sempre será ele). Os paralelos com o Hamlet de Shakespeare são óbvios e explicitados ao longo de todo o livro. Claro, há papéis trocados, alegorias cruzadas, um jogo de McEwan com o leitor. Talvez por ser filho de seu tempo (esse terrível final dos anos 2010) o loquaz feto de McEwan, justamente ao nascer e ver os olhos verdes da mãe, afirma: "o resto é caos"; enquanto o indeciso Hamlet termina sua jornada lamentado-se com Horatio dizendo: "o resto é silêncio". Por mais habilidades estilísticas que McEwan tenha, por melhor que seja o controle de seu modus narrativo, o que ele nos oferece é apenas um Hamlet travestido em um curioso e bom romance policial. As cenas de sexo, sempre um ponto alto em seus demais livros, continuam realmente boas. Os demais mimos (comentários sobre vinhos, especulação imobiliária, política europeia contemporânea, poesia,  tráfego urbano, estágios de uma gravidez e sexo) fazem parte daquilo que um bom manual de técnicas narrativas costuma ensinar que um escritor neófito deveria incluir sempre em seus livros, para dar a eles mais estofo. Nada fora do convencional. Trata-se de um romance bem escrito, que tem umas passagens interessantes, oferece um jogo bacana (que um leitor brasileiro já conhece muito bem, pois agrada sua memória afetiva), mas para mim está longe de arrebatar mesmo o mais fiel do entusiastas de Ian McEwan (a fidelidade de um leitor a seus gurus literários é sempre impressionante, mas convenhamos, deveria haver limites à toda forma de escravidão literária, notadamente as voluntárias). Talvez "Enclausurado" funcione melhor como uma peça (como aquela peça dentro da peça que Shakespeare faz Hamlet montar, para o aborrecimento de sua mãe e padrasto). Isso talvez um dia veremos. Vale.
[início: 05/11/2016 - fim: 23/11/2016]
"Enclausurado", Ian McEwan, tradução de Jorio Dauster, São Paulo: editora Schwarcz (Companhia das Letras), 1a. edição (2016), brochura 14x21 cm., 200 págs., ISBN: 978-85-359-2801-3 [edição original: Nutshell (New York: Nan A. Talese (Knopf Doubleday / Penguin Random House) 2016]

domingo, 1 de janeiro de 2017

o prazer de pensar

Theodore Dalrymple é um dos pseudônimos de Anthony Daniels, um respeitado psiquiatra britânico que já escreveu mais de vinte livros sobre medicina, política, arte, educação e cultura contemporânea. Encontrei esse "O prazer de pensar" em um livraria de aeroporto. Nele estão reunidos trinta e três ensaios curtos, muito bem escritos, sobre as associações, divagações e insights que Dalrymple produziu a partir de alguns dos livros de sua biblioteca. A escolha não é aleatória. Ele parece escolher livros relacionados aos temas que lhe são mais caros. O tom é biográfico, mas o objeto da história é antes os livros e os assuntos derivados deles do que propriamente a vida do autor. O sujeito viaja, frequenta sebos, conversa com livreiros. É um médico curioso pelo mundo, um dublê de sociólogo que investiga o comportamento humano, sempre disciplinado e atento, tentando ordenar o que aprende e pensa. A leitura sempre trás algum benefício intelectual, ele nos diz, para logo enfatizar que entretanto a vida é mais complexa do que fica registrado nos livros. Ele foca nos pequenos gestos, aqueles que traem padrões de comportamento de todo um grupo social ou povo, de um período de tempo ou acontecimento determinado. A partir das anotações dos antigos proprietários encontradas nos livros que retira de sua biblioteca ele constrói argumentos poderosos sobre temas variados como o fato de lermos livros que sabemos serem ruins; a obsessão com o acumulo de livros; as técnicas de como se desfazer de bibliotecas; o mercado do livro; a falsa ideia que é possível ser especialista em algo apenas consultando o Google; a censura; o estoicismo e a morte; os consolos da inteligência; a compulsão daqueles que anotam livros com canetas; os bibliotecários que odeiam livros; a mente dos assassinos seriais; o método científico; as crenças religiosas. O que Dalrymple nos ensina é que não há assunto que não mereça um tempo de reflexão, que a vida sempre nos surpreenderá mais que os livros (mas que nós pouco saberíamos de nós mesmos sem eles). Grande sujeito. Vou sim procurar outros livros dele. Em tempo: Foi um amigo, don Rogério Koff, quem me sugeriu os livros de Dalrymple (acho que à época ele lia "A defesa do preconceito" ou "Podres de mimados"). Isso foi há uns meses, num dos dias em que bebíamos sem pressa, pois estávamos impedidos de entrar em nossos gabinetes de trabalho por conta de uma imbecil invasão de bárbaros. Discutíamos a estupidez do pensamento politicamente correto e a tragédia que é todo o sistema de educação no Brasil, notadamente devido a cumplicidade tola e tosca de uma geração inteira de professores universitários, sujeitos aferrados a ideias ultrapassadas, quando não a ideias simplesmente erradas. Paciência. O Brasil pode até ser governado (por partidos de esquerda ou direita, liberais ou fascistas, corruptos ou ainda mais corruptos), mas sabemos que qualquer governança no Brasil é inútil (Isso sou eu, avinagrado, quem diz; o Koff é bem mais ponderado e portanto otimista com o futuro do Brasil). Um dia veremos, ou não.
[início: 08/12/2016 -  fim: 11/12/2016]
"O prazer de pensar", Theodore Dalrymple (Anthony Daniels), tradução de Margarita Maria Garcia Lamelo, São Paulo: É Realizações editora (Coleção abertura cultural), 1a. edição (2016), brochura 16x23 cm., 208 págs., ISBN: 978-85-8033-238-4 [edição original: The Pleasure of Thinking: A Journey through the Sideways Leaps of Ideas (London: Gibson Square Books) 2012]

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

the schooldays of jesus

Há três anos, quando li "A infância de Jesus", não tinha ideia que esse livro do Coetzee seria o primeiro de uma nova trilogia (como aquela dos bons "Boyhood", "Youth" e "Summertime"). Lembro do espanto com a proposta, algo amalucada, sobre Novílla, uma cidade onde os habitantes, vindos de um lugar inominado, do qual nada lembram, começam uma nova vida. Como numa espécie de repovoamento da Terra pós dilúvio, eles chegam até Novílla de barco, concebidos imaculadamente, sem parentescos entre si, ganham novos nomes e ocupações. A organização social dali parece ser como o sonho de um velho comunista que vê seus projetos utópicos consagrados. Todos falam espanhol. Pensei no livro como uma alegoria, um contido e mágico realismo, um enigmático romance de fantasia, onde encontramos releituras de passagens bíblicas e literárias (algo do "Don Quijote" e de alguns contos de fada, algo do "Cândido" e do "Admirável Mundo Novo"). Coetzee faz seus personagens discutirem temas filosóficos importantes (a natureza do mal, a origem da cognição, a lei do terceiro excluído). Apesar da estranheza o leitor fica preso ao destino daqueles personagens bizarros, cujos nomes parecem definir sua vocação. No início deste 2016 Coetzee publicou a continuação de sua história, um volume intitulado "The Schooldays of Jesus".  Entende-se melhor o primeiro livro, mas novos enigmas são apresentados. Trata-se de um romance onde a ênfase continua na discussão de temas metafísicos, desta vez sobre a teoria dos números, a harmonia das esferas de Pitágoras, a húbris grega. O volume anterior termina com a fuga de Inés, Simón e Davíd de Novílla (devido as dificuldades de Davíd adaptar-se ao sistema escolar da cidade). Eles rumam para Estrella, uma cidade menor, mais rural que urbana, onde temporariamente trabalham numa fazenda, coletando frutas. A questão escolar de Davíd ainda precisa ser solucionada. As proprietárias da fazenda onde Inés e Simón trabalham se oferecem para zelar pelos estudos de Davíd (são as três graças, ou as três parcas, gregas. Inicialmente ele é apresentado a um engenheiro que lhe dá noções básicas de matemática, mas ele é um aluno difícil e esse tutor sugere que ele entre para uma das academias da cidade (além das escolas convencionais Estrella tem três "academias": uma dedicada ao "canto", outra a "dança" e uma terceira ao "átomo"). A narrativa prossegue, cheia de desvios, acumulando personagens e histórias curtas (que discutem a natureza das paixões humanas, teoria musical; o aprendizado de técnicas de escrita como o ato de criar vida; definições para amor, ego e liberdade; as relações entre crime e castigo, o livre-arbítrio e o poder do estado). Com o tempo Davíd aprende a "dançar números", uma forma de conexão pura entre os homens e as estrelas. O livro termina com Davíd em transe, girando continuamente com um dervixe, experimentando algum tipo de contato com as esferas celestes, vendo estrelas como um Tycho Brahe, acoplado ao transcendental. A cada capítulo um leitor obcecado com associações (como eu) encontra diversos temas estimulantes. Mas este mar de associações intoxicou-me, ou melhor, intoxiquei-me sozinho tentando fazer associações. Talvez o inusitado dos nomes e atos dos personagens seja um tropo proposital de Coetzee, produzidos para induzir o leitor a buscar pistas falsas. Talvez o certo seja ignorar essa compulsão por entender o que há de criptografado na narrativa (se é que tais associações realmente existem, afinal não há Jesus algum na história e o simples paralelo bíblico aos sucessos do livro é algo óbvio demais). Talvez devamos aceitar apenas o que diz e faz Simón, o narrador, o personagem que ordena o caos de ideias e paixões dos demais, que guia o leitor pelas ilhas serpeantes das digressões de Coetzee, que predica como um profeta e acompanha diálogos como um filósofo. Definitivamente, enredo e venturas dos muitos personagens parecem ser apenas distração, cenografia, truques de um mágico habilidoso. Contar histórias é fácil, filosofar é difícil. O que verdadeiramente estimula, desafia e ilumina os homo sapiens sapiens é a filosofia, parece nos lembrar, professoral, Coetzee). Vamos ver como ele apresentará os novos sucessos de Simón, Inés e Davíd no último volume da trilogia. Daí, talvez, possamos entender mais. Vale. Em tempo: esse é o último registro de leitura do ano. Antes do solstício farei um balanço dos livros lidos no ano.
[início: 23/11/2016 - fim: 01/12/2016]
"The Schooldays of Jesus", J.M. Coetzee, London: Harvill Secker / Vintage (Penguin Random House UK), 1a. edição (206). brochura 13,5x21,5 cm., 260 págs., ISBN: 978-1-911-21536-3
=================================
Balanço final: 21/12/2016 [solstício de verão]
Esse foi um ano bastante complicado, terrível, aborrecido, pesado, dominado pela estupidez reinante deste desgraçado país, repleto de pequenos dissabores que conseguiram ofuscar as poucas alegrias que vivi (seria hipocrisia não ficar satisfeito com os sucessos de Helga e Natália, ou com a saúde dos gatos, ou com as descobertas no novo apartamento). De qualquer forma, assim como num dia disse Flaubert, meu coração está transformado em uma necrópole. Arre! Vamos em frente. Ao finalizar 2016 alcancei o décimo ano de registros deste “Livros que eu li”. Se 2015 foi o ano de uma maioria folgada de romances, esse 2016 foi o ano dos livros de crônicas, dos livros de ensaios, dos livros de não-ficção. Fiz 111 registros de leitura, bem próximo da média dos dez anos do blog. Foram 30 de crônicas e ensaios (27% do total); 20 romances (18%); 11 de histórias em quadrinhos, graphic novels, cartuns ou mangás; 10 de poesia; 8 de contos; 7 de perfis, biografias, memórias e relatos; 4 novelas; 4 dedicados ao público infanto-juvenil; 4 livros de arte; 3 romances policiais; 2 de gastronomia; 2 coleções de aforismos; 2 de turismo e apenas um dos seguintes quatro gêneros: didáticos; catálogos; divulgação científica e música (o adorável livrinho de canções irlandesas do Robert Gogan, joyceano dos bons que conheci em Dublin). Aliás li um bocado de coisas relacionadas a Joyce e a Irlanda: o fenomenal guia de leitura do Ulysses assinado pelo Caetano Galindo; três ou quatro guias literários de Dublin; a biografia do tradutor argentino do Ulysses, Salas Subirat; o livro dedicado a cerveja Guinness; os poemas reunidos em Pomes Pennyeach; o belo The Ondt and the Gracehoper (parte do Finnegans Wake); a divertida versão em mangá do Ulysses; e o bom livro da catarinense Dirce Waltrick do Amarante sobre os tradutores brasileiros de Joyce. Li três livros do romeno Cartarescu, sempre uma surpresa; três do bom holandês Nooteboom (inclusive um comemorativo dos 500 anos de morte do Bosch) e três do argentino Giardinelli. Gostei muito do catálogo de uma exposição que não vi, a "Rastros", do piauiense Weaver Lima. Li com calma várias coletâneas de poesias: a do Mautner, a da Szymborska, a do Marco de Menezes, da Cristina Macedo, do Ricardo Freire, entre outros. Consegui ler um Javier Marías (suas notas de aula dedicadas ao Quijote, neste quarto centenário da morte de Cervantes), e dei sorte, pois um ano sem ler Javier Marías é um ano perdido. Não cumpri várias promessas (não terminei o Tristram Shandy, nem o Quijote, nem os contos do Tolstói, nem os ensaios do Haroldo de Campos compilados pelo Marcelo Tápia, nem os poemas do Waly Salomão). Não consegui terminar de organizar o livro do Abdon Grillo. Organizei um Bloomsday em homenagem ao Antônio Houaiss (por conta dos 50 anos de sua tradução do Ulysses). Enfim, consegui manter minha cota de livros em inglês (11% do total) e em espanhol (24% do total); alcancei ultrapassar os 300 registros de romances, os 200 registros de livros de ensaios e os 125 de coletâneas de contos; tive a sorte de encontrar algum descanso com a leitura de mais de cem escritores diferentes, companheiros de viagem neste 2016. Logo veremos os sucessos de 2017. Vale. E viva a dona Vic.