terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

triste

Rafael Sica é senhor dos silêncios, daquilo que não precisa ser explicitamente dito, com seu traço congela cousas que todo homo sapiens imediatamente entende, pouco importa quem seja, de que lugar venha, se goste ou não de cartuns, de ilustrações.  Em "Triste" encontramos trinta ilustrações em grande formato, mais ou menos A3, em que sempre um sujeito parece indiferente aos espantos do lugar onde está, parece inerte, alheio, preso em reflexões, em sonhos. Catão já nos ensinou que "Nunca estou mais ativo do que quando nada faço, nunca estou menos só que quando a sós comigo mesmo". Talvez seja isso, o sujeito retratado por Sica não se ilude com o bizarro de seu entorno, não reage ao surreal, a indiferença do universo, aos azares do dia. A magia - ou uma perversa volta do parafuso - seria se fosse possível que cada um de nós entendêssemos os pensamentos dos outros, nossos mútuos estados de ânimo, compartilhássemos medos e preocupações. Alcançaríamos nos tornar sujeitos mais solidários, menos maus, mais empáticos, menos canalhas? Jamais saberemos. Neste link da Lote 42 um eventual leitor pode ter uma ideia de como esse livro foi produzido. Grande Sica. Vamos a ver com o quê este inquieto artista nos provocará no futuro. Vale!
Registro #1490 (quadrinhos #77) 
[início - fim: 30/01/2020] 
"Triste", Rafael Sica, São Paulo: editora Lote 42, 1a. edição (2019), wire-o e capa em serigrafia 26x37 cm., 64 págs., ISBN: 978-85-66740-44-8 

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

ensaio sobre a jukebox

Publicado originalmente em 1990, "Ensaio sobre a jukebox" é uma curta e estranha novela, que trata sobretudo de obsessões e do ofício de escrever, de como criar literatura e do distanciamento que um autor precisa ter dos avatares que se tornarão personagens das cousas que cria. Esse volume faz parte de um conjunto de três ensaios publicados entre 1989 e 1991 por Peter Handke, austríaco que recebeu o prêmio Nobel de 2019. O narrador conta a história de um sujeito obcecado por jukeboxes, um sujeito que prefere seguir seu projeto de escrever um livro sobre os significados que as jukeboxes tiveram em diferentes fases de sua vida, ao invés de experimentar in loco as transformações decorrentes da queda do Muro de Berlim. O narrador percorre cidades espanholas: Soria,  Burgos, Zaragoza, San Sebastian, Logroño, mas também faz o censo de todas as cidades do mundo que frequentou e encontrou jukeboxes (que, convenhamos, já era um objeto difícil de se encontrar no final dos anos 1980, convenhamos). Lembrei-me dos meses em que vivi na Espanha, justamente neste mesmo final dos anos 1980, e de meu estranhamento com as máquinas de jogos de azar, uns caça-níqueis luminosos, coloridos e barulhentos que encontrava em todos os botecos de tapas e restaurantes que frequentava. Lembrei-me de Cees Nooteboom, que também viajou curioso e encantado pela meseta castelhana, de Javier Marías, também ele um frequentador de Soria, do tempo onipotente com sua ampulheta, das cicatrizes físicas e morais que todo corpo que envelhece guarda. Haverá mais Handke por aqui. Vale!
Registro #1489 (novela #74) 
[início 28/01/2020 - fim 29/01/2020] 
"Ensaio sobre a jukebox", Peter Handke, tradução de Luis S. Krausz, São Paulo: editora Estação Liberdade, 1a. edição (2019), brochura 14x19 cm, 112 págs. ISBN: 978-85-7448-310-8 [edição original: Verusuch über die Jukebox, Suhrkamp Verlag (Frankfurt am Main, Alemanha), 1990]

sábado, 25 de janeiro de 2020

chanbara, o caminho do samurai

Essa proposta é uma espécie de "spaghetti mangá", um mangá inventado por um criativo roteirista italiano. Pelo que entendi trata-se da primeira de duas aventuras engendradas por Roberto Recchioni, um cartunista/ilustrador italiano que quase cinquenta anos, bastante respeitado em seu país. A história segue o argumento básico de qualquer aventura deste tipo (só que o gênero da pessoa que promove a jornada do herói é invertida, pois trata-se de uma mulher, cousa difícil de acreditar que acontecesse no Japão feudal, paciência). A filha de um guerreiro samurai, traído por seu senhor e obrigado a cometer suicídio ritual, promete vingança, torna-se uma adestrada guerreira e promove a morte de todos aqueles que conspurcaram a honra de seu pai. No caminho conhece duas pessoas nobres, que não só escapam de sua espada como a ajudam: um jovem, que foi aluno de seu pai, e um velho cego, Ichi, que foi mentor de seu pai. Nada muito surpreendente, mas adequado a estes dias de calor infernal, em que o tempo parece congelado (seria este um legítimo oxímaro?, sei lá). Vale!
Registro #1488 (mangá #76) 
[início 04/01/2020 - fim 06/01/2020] 
"Chanbara: v.1 (O caminho do samurai)", Roberto Recchioni, arte de Andrea Accardi, tradução de Júlio Schneider, Barueri, São Paulo: editora Panini Brasil, 1a. edição (2019), capa-dura 19,5x26 cm, 256 págs. ISBN: 978-85-426-2328-4 [edição original: Le redenzione del samurai, Sergio Bonelli Editore (Roma, Itlia), 2012]

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

o último voo das borboletas

Kan Takahama é uma artista plástica e ilustradora japonesa de pouco mais de quarenta anos, e que já publicou uma dezena de trabalhos. "O último voo das borboletas" foi publicado originalmente em 2014 e traduzido recentemente para o português. Trata-se de uma história que gravita as regras morais e convenções públicas do mundo das gueixas japonesas (gueixas são cortesãs adestradas a toda uma sorte de habilidades e conhecimentos, não exatamente prostitutas sofisticadas, como de certa forma o imaginário ocidental preferiu acreditar). A história se passa em meados do século XIX, no bairro Maruyama, em Nagasaki (na ilha de Chiba), cidade que fica a uns 100 Km de Tóquio. Essa região, que em algum momento recebeu comerciantes holandeses, era conhecida pelos serviços de gueixas. A história acompanha o destino de Kichou, uma gueixa que por uma desafortunada situação precisa voltar a oferecer seus serviços, anos após tê-lo abandonado. As ilustrações são muito bonitas. O olhar feminino da proposta oferece ao leitor um pouco mais de nuances a um assunto que é naturalmente complexo. Livro interessante para se ler nestes dias estivais, em que a inclemência do Sol pede paciência a todo e qualquer leitor. Vale!
Registro #1487 (mangá #75) 
[início 02/01/2020 - fim 03/01/2020] 
"O último voo das borboletas / Cho-no-Michiyuki", Kan Takahama, tradução de Drik Sada, São Paulo: editora Pipoca & Nanquim, 1a. edição (2019), brochura 14x21 cm, 168 págs. ISBN: 978-85-93695-36-0 [edição original: Chō no michiyuki (蝶のみちゆき), Leed Publishing, (Tokyo, Japão), 2014]

domingo, 19 de janeiro de 2020

100 vistas de tóquio

Shinji Tsuchimochi é um ilustrador japonês de aproximadamente quarenta anos. Entre 2013 e 2016 ele produziu uma série de ilustrações de ruas, restaurantes, paisagens urbanas e monumentos de Tóquio e arredores. A inspiração (também uma forma de homenagem) veio de uma série similar do famoso gravador Hiroshige Utagawa, mestre do ukyo-e do século XIX (o leitor curioso pode conhecer este trabalho na wikipedia e também neste ótimo site: woodblok prints). Os trabalhos de Tsuchimochi foram publicados originalmente em blog e também em redes sociais. As imagens não são reproduções fiéis dos lugares, há algo de surreal, artificial nelas, são quase sempre engraçadas, incluem apelos nostálgicos, emoções contidas, lirismo e esgajamento social. Em quase todas Tsuchimochi inclui ou referências da cultura pop ou típicos personagens folclóricos (yōkai, yurei, obake e kappa, entre outros), seres associados à forças sobrenaturais, demônios e monstros (li há tempos Hungry Ghosts, livro de Anthony Bourdain em que esses personagens aparecem). Tsuchimochi incluiu cinco ilustrações feitas em Osaka, os endereços exatos de todos os lugares, mapas da cidade, úteis para que alguém interessado em conhecer os locais originais possa fazer uma espécie de peregrinação até eles e também uma curta história em quadrinhos. A edição é bilíngue. O tradutor incluiu várias notas explicativas, que contextualizam a ideia básica das ilustrações. Trabalho realmente bonito, que merece ser visto com calma, talvez ao som de músicas tradicionais japonesas, ao som de shamisen, koto ou shakuhachi, sem medo, sem temor. Vale!
Registro #1486 (livro de arte #34) 
[início 05/01/2020 - fim 08/01/2020] 
"100 vistas de Tóquio", Shinji Tsuchimochi, tradução de Drik Sada, São Paulo: editora Estação Liberdade, 1a. edição (2019), brochura 14x21 cm, 128 págs. ISBN: 978-85-7448-309-2 [edição original: Shikaku Publishing Company (Tokyo, Japão), 2016]

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

giacomo joyce 3rd

Li pela primeira vez "Giacomo Joyce" na já icônica tradução de Paulo Leminski, publicada pela Brasiliense em meados dos anos 1980. Era um livrinho pequeno, com pranchas em fac-símile dos originais espelhadas à tradução de Leminiski. A obra é pequena, foi publicada postumamente, após ter sido encontrada nos guardados do espólio de James Joyce (de sua mulher, Nora Barnacle, mais precisamente), em 1968 (as anotações são de 1914, do período em que Joyce morava em Trieste. São aproximadamente cinquenta frases/aforismos/poemas livres. Lê-se em uns minutos, mas não se deve fazer isto. Os registros são como algo balsâmico, que precisam de mais tempo para aguçar todo seu poder, oferecer toda sua potência, demonstrar toda sua universalidade. Depois da de Leminski li meia dúzia de outras versões: a original, claro; as de José António Arantes e de Roberto Schmitt-Pryn, em português; e também várias em espanhol, catalão e italiano. Sempre é uma alegria voltar a estes registros, de um alter ego de Joyce, um professor que se enamora de sua aluna, mas sabe conter-se, purgando apenas literariamente sua lubricidade. Eclair Antonio Almeida Filho, tradutor e professor universitário (da UnB), publicou recentemente sua versão deste livro, editado pela pequena editora independente Lumme. O original do livro pode ser lido aqui! Diversão garantida. Vale! 
Registro #1485 (poesia #124) 
[início 02/01/2020 - fim 04/01/2020] 
"Giacomo Joyce", James Joyce, tradução de Eclair Antonio Almeida Filho, São Paulo, Lumme Editor, 1a. edição (2015), brochura 12x18 cm, 50 págs., ISBN: 978-85-8234-113-1

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

notes a peu de pàgina

Esse curioso livrinho foi publicado originalmente em 1997 por Antoni Pedrola, artista plástico e professor de pintura da Universidade de Barcelona. Em 2002 publicou esta segunda edição, ampliada e corrigida. Como resta registrado em seu subtítulo, neste livro estão reunidas anedotas, lendas e curiosidades do campo da pintura. São notas curtas, provavelmente resultado das aulas de Pedrola, onde ele fala da origem dos pigmentos, resinas e vernizes utilizados em pinturas (nos afrescos, pinturas a óleo, na tempera e nas iluminuras); de técnicas e procedimentos; dos maneirismos de alguns artistas; faz fragmentos biográficos de outros (Giotto, Rafael, El Greco, Delacroix). Não há preocupação em estender-se muito nos assuntos. Em geral as notas capturam apenas o aspecto lendário ou alegórico dos fatos. O livro inclui muitas referências, que aparentemente confirmam a origem das informações mais exóticas e surpreendentes, boa parte delas originalmente citadas em um livro do pintor Cennino Cennini (do Quattrocento italiano) e comentadas em quatro dezenas de livros catalães. Quatro belas e pequenas reproduções de gravuras também estão incluídas nele. Este livro brotou de minha organização recente da biblioteca. Veio na bagagem de doña Helga, de seus tempos barceloneses. Aprendi e diverti-me um bocado. Vale! 
Registro #1484 (livro de arte #33) 
[início 03/01/2020 - fim 06/01/2020] 
"*Notes a peu de pàgina: Llegendes, anècdotes i altres curiositats provinents del camp de la pintura", Antoni Pedrola, Barcelona: editora Addenda, 2a. edição (2002), brochura 13x19,5 cm, 65 págs., sen ISBN

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

antes não era tarde

De tempos em tempos cada cidade tem a fortuna de ter sua psique capturada com notável maestria (por sujeitos como João do Rio, Rubem Braga, Nelson Rodrigues ou Paulo Mendes Campos, no Rio de Janeiro; Luís Henrique Pellanda, em Curitiba; Humberto Werneck, em Belo Horizonte; Guilherme de Almeida, Lourenço Diaféria, Plinio Marcos, Antonio Penteado Mendonça e Matthew Shirts, em São Paulo, apenas para citar uns poucos). Aqui nos pagos do Rio Grande, nos últimos anos, tenho lido regularmente as cousas de Pedro Gonzaga. Leio ele no jornal gaúcho ZeroHora, usualmente nas quartas-feiras. É certamente meu favorito contemporâneo, dentre os cronistas sulinos. Suas cousas são exemplares no gênero, registros de um cotidiano específico (a sofisticação de quem gravita o mundo dos livros e da cultura aqui no Sul), que provocam empatia no leitor, mas não só isso. A riqueza da linguagem e o controle dos efeitos também se destacam. Há dois anos li "O livro das coisas verdadeiras", uma seleção cronológica de 53 de suas crônicas. Nesse "Antes não era tarde" Gonzaga reuniu outras 54, publicadas entre 2016 e 2019. Desta vez ele optou por uma reunião temática, que parte de registros da infância, segue pela juventude, depois por sua experiência como músico amador, seus anos de iniciação como cronista profissional e as mais recentes, que ainda ecoam notícias vagamente contemporâneas. Esta sequencia temática acompanha portanto seus anos de formação; sua constelação familiar, de amigos e professores; seu cotidiano de viagens, com os pais e depois com amigos; a experiência da leitura, influências, descoberta de autores, o amor pela palavra, o eterno aprendizado, seu auto adestramento no oficio de tradutor e escritor. As crônicas da última seção são mais experimentais, parecem exercícios com a forma, registros de espantos de um mundo que sabe ser maravilhoso, mas que pode nos brutalizar, se não nos permitirmos olhar as coisas com os olhos certos, os de quem antes é honesto consigo mesmo, não aos outros. Vale! 
Registro #1483 (crônicas e ensaios #266) 
[início 19/12/2019 - fim 03/01/2020] 
"Antes não era tarde", Pedro Gonzaga, Porto Alegre: Arquipélago Editorial (A arte da crônica, vol. 9), (1a. edição) 2019, brochura 14x21 cm., 144 págs., ISBN: 978-85-5450-033-7

domingo, 5 de janeiro de 2020

dois meninos

Em "Dois meninos", de Leonardo José Andriolo, administrador e professor universitário, encontramos onze contos curtos e uma breve crônica. São histórias honestas, se não exatamente inventivas, algo produzido por alguém que está se familiarizando com a forma e não tem medo de parecer piegas, de experimentar variações, de mesclar a memória afetiva de antepassados com alguma curiosidade literária. A ambição confessa do autor é "mexer com a sensibilidade do leitor e, se possível, surpreendê-lo". Os contos são bem escritos, e se deixam ler sem pressa. Alguns são relatos que brotaram de histórias familiares, são homenagens a pessoas queridas, a seu legado e esforço; um terço deles são causos que flertam com o gauchismo, com o realidade da imigração europeia nestas terras, aquele tipo de histórias que se contam em reuniões de amigos, de origem indeterminada, mas que parecem já ter sido ouvidas de/ou sobre algum parente; outro terço são contos clássicos, que exploram as possibilidades do gênero, com um tanto mais de liberdade, originalidade e risco. Gostei particularmente de "A moça dos olhos tristes", talvez uma boa releitura de uma novela de Dürrenmatt e de "A visita", uma boutade sobre o encontro entre o imperador Pedro II e um colono no interior do estado. Vamos a ver o que o Andriolo vai nos oferecer no futuro. Segue o baile. Vale!
Registro #1482 (contos #169) 
[início: 27/11/2019 - fim: 29/11/2019]
"Dois meninos", Leonardo José Andriolo, Cachoeira do Sul: Editora Coralina, 1a. edição (2019), brochura 14x21 cm., 140 págs., ISBN: 978-85-80360-10-9