sábado, 28 de novembro de 2020

a alma perdida

"A alma perdida" é ao mesmo tempo um curto conto de fadas contemporâneo e também um belo livro de arte, com ilustrações que emulam um mundo de sonhos, de evocações, de sentimentos. As ilustrações são assinadas por uma jovem polonesa, Joanna Concejo. O conto, que tem algo de infantojuvenil, mas só deve ser melhor entendido por aqueles que já passaram pelos primeiros aborrecimentos de verdade nesta vida, é assinado pela também polonesa Olga Tokarczuk, premiada com o Nobel de literatura em 2018. A história é realmente curta e talvez não merecesse ser conspurcada pelas ásperas palavras de um resenhador rabugento como eu, que não deposita muita fé na humanidade, nem tampouco acredita na propalada capacidade de amar das pessoas. Trata-se da descrição lírica do descompasso entre um sujeito e sua alma, de um registro sobre a velocidade do tempo, dos efeitos - nos homo sapiens - das muitas confusões de nossos dias. É um livro onde as cores são pálidas, a paleta carregada de cinzas e verdes, ocres e azuis sem viço. O texto é sereno, objetivo e, de alguma forma, nele a esperança vence a melancolia (nas ilustrações também parece acontecer). Bom. Mas é hora de seguir em frente, continuar no baile sempre macabro deste ano bizarro, onde todas as formas de estupidez e gloriosa vocação para a inutilidade dos homo sapiens tornaram-se especialmente visíveis. Vale!
Registro #1593  (livro de arte #39)
[início - fim: 26/11/2020]
"A alma perdida", Olga Tokarczuk, tradução de Gabriel Borowski, ilustrações de Joanna Concejo, São Paulo: Editora Todavia, 1a. edição (2020), brochura 19,5x26,5 cm, 48 págs. ISBN: 978-65-5692-065-1 [Edição original: Zgubiona dusza (Wrocław: Wydawnictwo Format) 2017]

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

maravalha

Cláudio B. Carlos é poeta, prosador, editor e também apresentador do bom podcast Balaio de letras. Recentemente ele lançou "Maravalha", uma inventiva e divertida novela. Lê-se com folga em menos de uma hora, sempre com um sorriso nos lábios. A edição é muito bem cuidada, com ilustrações de Thassiel Mel. A narrativa gravita, suja e sensual, umas poucas horas frias, amalucadas e ébrias em um bar vagabundo do interior profundo do Rio Grande do Sul. Linguagem, jogos verbais, filosofices e frases feitas gaudérias povoam as doidas dúvidas e conversas entre dois sujeitos: um narrador inominado e seu amigo Romualdo. Eles falam sobretudo de um terceiro amigo, conhecido como o Maravalha do título, e sobre o que aconteceu com ele em uma noite sem lua de sexta-feira. No bar onde estão (o bar do Dedé), uma vintena de personagens/nomes entram e saem, em seus afazeres e/ou rotina de final de semana de trabalho. O leitor acompanha o passar do tempo e o transe dos viventes. Mais não conto. Vale mesmo a pena ler esse pequeno livro. Diversão garantida.  Um último registro. Vale a pena conferir de Cláudio B. Carlos os bons "O homem do terno de vidro", "Um arado rasgando a carne" e "O uniforme". E segue o baile. Vale!
Registro #1592  (novela #79)
[início - fim: 06/11/2020]
"Maravalha: uma novela grunge gaudéria", Cláudio B. Carlos, ilustrações de Thassiel Melo, Cachoeira do Sul, RS: Saraquá Edições, 1.a edição (2020), 11x18 cm., 154 págs., ISBN: 978-65-991937-0-5

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

moldura de lagartas

Conheci a poesia de Susanna Busato por acaso, lá nas terras altas de Itaara, num dia de frio inverno, ao ouvir seu podcast (Poesia como entrada), gravado com Marcelo Tápia. Curioso, esperei o lançamento anunciado deste seu "Moldura de Lagartas". Neste volume ela oferece ao leitor seis conjuntos de poemas, totalizando 58 propostas. São poemas inventivos, que se por vezes flertam com a fantasia ou o sonho, sempre mostram alguém que domina as formas, os ritmos, as técnicas poéticas, enfim, seu ofício e arte. A metáfora do título: a ideia que um livro é o casulo de uma lagarta, que por sua vez é pensamento, a potência pura dos poemas, domina todo o volume. Como em um ciclo viconiano (que brota da epígrafe do livro), os pensamentos têm fome, percorrem o livro, comem o próprio rabo, conduzem ao leitor por uma aventura e o devolve às indignações iniciais do primeiro conjunto: "Sabe (,) lagarta? / Eu sou. / Eu sendo. / Ex-centro.", onde a ideia parece ser a de gestação, de criação, da vontade lasciva dos poemas de romper a armadura de um casulo, uma não-existência, e da necessidade de experimentar o mundo. Nos demais cinco conjuntos: "A poesia é fuga ou combate?"; "Colíricos"; "Eu exílio / e mefisto / de vermelho."; "Alvéolos de ar comprimido" e "Ex- / pulso / punctum / final", o leitor acompanha como a poeta fala de seu método, suas musas, seu ofício; explora sinestesias e o passar do tempo; força um espaço extra em certas palavras, que por vezes precisam respirar entre as letras que as compõe; explica como funciona sua respiração (que poeta e leitor têm de aprender, quando passam por metamorfoses (seja a de um mundo fluido e líquido que torna-se um mundo menos fluido, que é o ar, ou talvez a metamorfose de quem lê silente e passa a falar e cantar os poemas); faz viagens urbanas; abre asas e alça voos imagéticos; duvida de si e dos outros; sabe-se um corpo que sofre, sente e se extasia; faz homenagens a quem a conduz por escolhos e sombras (Haroldo de Campos, Carlos Drummond de Andrade, Jacques Prévert, Mario de Andrade, Oswald de Andrade, René Magritte, Augusto de Campos, Antonio Vicente Seraphim Pietroforte, João Cabral de Melo Neto e Hilda Hilst, doces nutrizes de todos os poetas). O volume oferece dois mimos extras aos leitores: ilustrações assinadas por Ricardo Cavani Rosas e um bom posfácio assinado por Antonio Manoel dos Santos Silva (aprender o que não se sabe sempre é uma alegria). Livro bem interessante, de significados, de fôlego, onde os prazeres do intelecto (que emulam aqueles mais primitivos e humanos, do corpo) ganham o dia. Mas chega de mundanidade literária, é hora de voltar as esquivanças da vida, ao hábito (fiel camareiro), aos compromissos. Ai de mim. E vamos, quando possível, partir ao próximo livro. Vale! 
Registro #1591 (poesia #138)
[início: 16/10/2020 - fim: 08/11/2020]
"Moldura de lagartas", Susanna Busato, São Paulo: V. de Moura Mendonça Livros (Selo Demônio Negro), 1a. edição (2020), capa-dura 16x23 cm., 120 págs., ISBN: 978-85-66423-78-5

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

você nunca chegará a nada

Dos muitos livros que tenho de Juan Benet só li Otoño en Madrid hacia 1950 e Trece fábulas y media y fábula decimocuarta. "Você nunca chegará a nada" é seu primeiro livro e foi publicado originalmente em 1961. São contos, quatro deles, mas são cousas densas e poderosas, que cobram tempo e atenção do leitor. Talvez os truques literários, o tom e as preocupações com o estilo (notadamente inspirados em Faulkner, se nota), ainda não explicitam o quão habilidoso Juan Benet tornar-se-ia, mas é o tipo de livro que faz a festa para o leitor exigente. No primeiro conto, que dá nome ao volume, "Você nunca chegará a nada", acompanhamos as andanças de quatro amigos espanhóis pela Europa, nos anos 1950, viagens de aprendizado e de espantos, de descobertas (sobretudo do provincianismo individual e coletivo, espanhol) e de reflexões. Nos três contos seguintes: 'Baalbec, uma mancha", "Luto" e "Depois", Benet situa suas histórias em uma região remota do interior profundo espanhol, uma região que ele inventa e chamará e evocará em muitos outros de seus livros, como Región (uma espécie de Yoknapatawpha faulkneriana, Macondo, de García Márquez ou Santa María, de Onetti). "Baalbec, uma mancha" trata da viagem que um velho senhor faz a uma pequena e degradada cidade (perto de Región) em que viveu na infância, para dar uma espécie de consultoria sobre uma questão fundiária (e ser confrontado com uma espécie de dívida), para um sujeito que comprou as terras que no passado foram de seu avô e demais parentes; "Luto" conta sobre as razões do hábito de um velho senhor de depositar flores no túmulo de uma mulher com quem pretendia se casar, mas que preferiu cuidar de uma tia amalucada e morreu ainda jovem; Em "Depois" os sucessos gravitam a morte de um velho senhor e da sucessão de seus negócios, que passam a ser administrados por um filho, também já idoso, e que vive encerrado em uma casa afastada. Não são histórias que se deixam ler sem esforço. Nelas, repetidas vezes ficamos sem saber quem está contando os fatos, de quem se fala, se trata-se de realidade ou sonho, memória ou desejo. Nos quatro contos sobressaem-se a decadência (física ou moral), os segredos (públicos ou privados), a memória (sempre cúmplice e traiçoeira), a sensação que já se viveu suficientes privações, mentiras ou contínuo autoengano. Vamos a ver se eu enfrento as grandes magnum opus de Benet: Volverás a Región, La otra casa de Mazón e Saúl ante Samuel. A ver. Sigamos o baile macabro. Vale!
Registro #1590 (contos #184)
[início: 09/06/2020 - fim: 30/10/2020] 
"Você nunca chegará a nada", Juan Benet, tradução de Maria Alzira Brum Lemos, Rio de Janeiro: Editora José, 1a. edição (2008, brochura 10x14, 250 págs, ISBN: 978-85-03-00906-5 [edição original: Nunca llegarás a nada (Madrid: Ediciones Tebas) 1961]

terça-feira, 17 de novembro de 2020

instante infinito

Esse catálogo corresponde a uma exposição de trabalhos dos industriosos Jorge dos Anjos e Ricardo Aleixo, que aconteceu entre 26 de agosto e 16 de outubro de 2017, na Galeria de Arte BDMG Cultural, em Belo Horizonte. Mas não só isso. Há também reproduções de trabalhos produzidos para uma outra exposição de Jorge dos Anjos (Gravadura a Ferro e Fogo, na AM Galeria, em Belo Horizonte, em 2009, na qual Ricardo Aleixo também participou). A edição é bilíngue, com textos em português e inglês, assinados por Angelo Oswaldo de Araújo Santos, Rogério Faria Tavares e Ricardo Aleixo (que foi o curador da exposição). As fotografias dos trabalhos plásticos são assinadas por André Burlan. O projeto gráfico do catálogo é assinado por Irena dos Anjos e André Burlan. As esculturas de Jorge dos Anjos, peças de aço dobradas, soldadas e vazadas, em grandes dimensões, lembram os trabalhos de Amílcar de Castro e/ou de Franz Weissmann (obras que já vi de perto várias vezes). Sei que seria legal experimentar o impacto estético de ver os trabalhos de Jorge dos Anjos da mesma forma que vi as destes dois grandes escultores. As obras de Ricardo Aleixo incluídas no catálogo são cartazes em grandes dimensões, propostas que envolvem diversos procedimentos técnicos (caligrafia, adesivos, estêncil e carimbo) aplicados à seus poemas visuais. Jorge dos Anjos e Ricardo Aleixo assinam juntos "Gravaduras a Ferro e Fogo", fusão de poemas visuais de Aleixo com letras marcadas/queimadas em telas de feltro, usando enormes "ferretes" de metal. Claro, a experiência de folhear um catálogo, bidimensional, nem de longe alcança reproduzir o que deve ter acontecido nos espaços da galeria de arte onde deu-se a exposição originalmente. De qualquer forma, uma exposição não pode continuar em sua proposta original para sempre (ao menos não em uma galeria convencional). Resta ao vivente curioso os catálogos. Vale registrar que a versão digital deste catálogo é bem bacana e pode ser visto acessada clicando aqui!. Bom divertimento. E cabe dizer também que só em lugares como Inhotim  ou em outras propostas museológicas muito particulares ao redor do planeta tornam possível oferecer perenidade a obras deste tipo (como já conferi no bom livro Arte e Natureza, de Serena Ucelli di Nemi). É isso. Segue o baile. Vale! 
Registro #1589 (catálogo #12) 
[início: 01/10/2020 - fim: 11/10/2020]
"Instante Infinito", Jorge dos Anjos, Ricardo Aleixo, Belo Horizonte: Galeria de Arte BDMG Cultural, 1a. edição (2017), brochura 14x21, 64 págs, sem ISBN.

sábado, 14 de novembro de 2020

o livro dos hai-kais

Sempre que mergulhava em doce mel, nos dias em que lia e via o belo livro/homenagem à Massao Ohno, escrito por José Armando Pereira da Silva e publicado pela Ateliê, sobre o qual já falei aqui, eis que consultava meus guardados para tentar achar um ou outro dos volumes editados por ele. Alguns brotavam fáceis, outros tive que investir tempo e paciência para encontrar. Na estante da poesia achei esse belo volume de 1980, que eu comprei na verdade muitos anos depois, ainda nos meus tempos paulistas. A edição inclui, além de poemas de Matsuo Bashô, Kobayashi Isssa e Yosa Buson, sobre os quais falarei mais abaixo, alguns mimos preciosos: (i) um curto ensaio de Octavio Paz, que trata da definição de hai-kais/haikus (que nos ensina ser esta forma poética um arranjo em que três versos de 5, 7 e novamente 5 sílabas compõem uma estrofe e que devem equilibrar uma parte descritiva, enunciativa (temporal e espacialmente falando) com uma parte ativa (relampejante, nas palavras de Paz); uma introdução, assinada por Osvaldo Svanascini, que também trata de explicar as funções poéticas desta forma; algumas boas notas e uma curta, porém fundamental, bibliografia sobre o assunto. São 151 poemas, traduzidos pela também boa poeta carioca Olga Savary, que morreu neste ano das pragas, 2020, ai de nós. Cada conjunto deles é ilustrado por um desenho colorido de Manabu Mabe. Curtas biografias dos três grandes poetas japoneses (que percorrem do século XVII ao século XIX) contextualizam algo da produção de cada um deles. Já falei aqui sobre os milhares de haikus que li de Issa e Bashô, em robustas e maravilhosas edições da Assírio & Alvin. De Buson só havia lido uns poucos, em uma antologia deles, traduzidos por Sérgio Medeiros. Na antologia de Olga Savary (que traduziu os poemas a partir de versões em inglês, francês e espanhol, não diretamente do japonês) encontramos uma pequena mostra de como pode-se encontrar deleite em pequenos objetos, neste encantador livro-arte. Bashô, Issa e Buson falam dos dias, dos espantos, do imanente, do belo, da magia do mundo. ÔBeleza. Só um último registro. Esse volume foi publicado em 1980, em uma edição de 3000 exemplares. Grande Massao Ohno, que editor teria a coragem de fazer algo assim nestes dias aziagos em que vivemos? Vale! 
Registro #1588 (poesia #137)
[início: 25/09/2020 - fim: 14/10/2020]
"O livro dos hai-kais", Bashô, Buson, Issa, tradução de Olga Savary, São Paulo: Massao Ohno/Roswitha Kempf, 1a. edição (1980), brochura 14x21 cm., 134 págs., sem ISBN

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

notas sobre a pandemia

Esse volume é um autêntico caça-níqueis e eu, ai de mim, por impulso, comprei e li em menos de uma hora (são só noventa e poucas páginas). Acontece, paciência, sigamos o baile macabro. Nele estão reunidos três artigos e três entrevistas publicados originalmente em jornais ou transmitidos pela televisão (Times, Financial Times, The Guardian, CNN, South China Morning Post, Correio da Unesco). São produtos deste ano bizarro, peças curtas produzidas entre março e abril. Os textos entregam o que o título promete, reflexões curtas sobre a pandemia da covid-19. Entretanto, são ainda reflexões bem do início da pandemia, quando as mortes estavam concentradas sobretudo na China, no Irã e na Itália. O número de mortes no final de abril, em todo o mundo, acumulava menos de 200 mil, hoje já superam 1.300 mil. De qualquer forma Harari alcança fornecer "lições" perenes, ainda válidas agora, no final de outubro. Harari sempre fala da história das grandes epidemias que afetaram o homo sapiens, das diferenças de velocidade de transmissão e mortalidade em função do tempo, de como as chaves para o bom combate são a cooperação, a coordenação de esforços, a solidariedade, a confiança no processo científico, a educação científica. Em todos os textos Harari fala também sobre os riscos não exatamente relacionados à doença que corremos, sobretudo os riscos associados ao controle social, as ferramentas de manipulação social, a coleta antiética de dados de saúde individual, as tecnologias disponíveis aos governos que permitem hoje não apenas monitorar a biometria todos os cidadãos, mas também decidir políticas públicas que podem tornar norma o controle populacional. Os temas e considerações de Harari são realmente estimulantes. Pelo acelerado processo pandêmico que todos experimentamos, talvez, outros assuntos tornem-se mais relevantes, outras preocupações mais fundamentais, outros assombros mais vívidos. Quem viver verá. Vale! 
Registro #1587 (crônicas e ensaios #277)
[início - fim: 28/10/2020] 
"Notas sobre a pandemia e breves lições para o mundo pós-coronavírus: artigos e entrevistas", Yuval Noah Harari, tradução de Odorico Leal, São Paulo: editora Schwarcz (Grupo Penguin Random House / Companhia das Letras), 1a. edição (2020), brochura 12x18 cm., 97 págs., ISBN: 978-85-359-3370-3 [edição original: 2020]

sábado, 7 de novembro de 2020

dias e noites

Toni Araújo é de Salvador e, até onde sei, "Dias e noites" é seu primeiro livro. Ele chama de histórias de vida e morte as 27 narrativas enfeixadas no livro. Vou registrá-las aqui como contos. Nas histórias o leitor é levado a confrontar episódios onde quem domina o destino é  a morte, quem reina sobre os viventes são as perdas ou as misérias do cotidiano contemporâneo. Algumas parecem fábulas urbanas, tentativas de contar como somente aceitamos a realidade envolvendo-a em algo de mitologia, de fantasia, de magia. Os livros (ou o amor aos livros) sempre aparecem nelas, assim como sempre surgem a tecnologia (a escravidão digital), a ironia, os medos e os espantos dos homens. Gostei bastante de "Suavidade" em que acompanhamos os últimos momentos de um sujeito inebriado pela morfina, em um hospital; de "Despertar", onde um sujeito procura inspiração literária em um bar e acaba experimentando um surto psicótico; de "Natureza", onde um funcionário exemplar passa por uma metamorfose, após sofrer um AVC; de "Cruz", onde pai e filho vivem uma rotina melancólica e musical. Cito apenas essas quatro por preguiça, pois não quero aqui roubar do leitor a chave de todas as histórias, sempre curtas e interessantes. Vamos a ver o que nos apresentará Toni Araújo no futuro. Vale!
Registro #1586 (contos #183)
[início: 26/10/2020 - fim: 27/10/2020]
"Dias e noites: histórias de vidas e mortes", Toni Araújo, Salvador: República Af, 1a. edição (2019), brochura 14x21 cm., 188 págs., ISBN: 978-65-80229-01-7

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

solução de dois estados

De Michel Laub já li "Tribunal da quinta-feira" (2017), "Diário da queda" (2011), "Não depois do que aconteceu" (1998) e A maça envenenada" (2013). "Solução de dois estados" é sua proposta mais recente e é realmente interessante. O formato deve algo a um antigo programa de entrevistas que existia na TV Cultura paulista (Ensaio, criado e dirigido pelo grande Fernando Faro). Digo isso pois Michel Laub faz seus personagens responderem continuamente a perguntas em longas entrevistas, mas estas perguntas não são grafadas, o leitor apenas as infere, quase nunca as lê. Estas entrevistas são conduzidas por uma mulher, Brenda, que pretende produzir um documentário sobre violência e envolve dois irmãos em conflito, Alexandre (o mais novo, um empresário do setor de academias de ginástica) e Raquel (a mais velha, uma artista plástica, que trabalha com vídeo arte e performance). A história não segue os fatos cronologicamente. A narrativa alterna fatos do início os anos 1990 e o final dos anos 2010, correspondendo assim aos anos de redemocratização do Brasil, aqueles que se seguiram a constituinte e a eleição de Fernando Collor, seguindo até os sucessos mais recentes (de 2013 a 2018). Assim como nosso país alternou momentos de entusiasmo, ufanismo e delírios de grandeza (sempre artificiais, já sabemos) e a experiência prática de desgraças, corrupção generalizada e vocação para a mediocridade (sempre inevitáveis, também já sabemos) a vida da família de Raquel e Alexandre reveza pontos baixos e altos, perdas e ganhos. No início acompanhamos como a empresa gerenciada pelo pai dos dois irmãos é levada a falência em decorrência do heterodoxo  plano Collor, programa imbecil, um dentre muitos deste país pródigo em programas, plataformas e decisões estúpidas. Os dois irmãos vivenciam de forma diferente o impacto da falência da empresa na vida dos pais (Raquel algo blindada, pois vive na Europa, estudando, Alexandre no redemoinho dos problemas brasileiros, justamente quando tem que decidir qual curso fazer na universidade). Laub não cai no erro de tentar fazer história ou ficar discutindo economia em seu romance. O conflito do livro gravita a repercussão de uma agressão física que Raquel sofre durante uma de suas performances públicas, já quando vive no Brasil, agressão que ela associa à disputa com Alexandre pelo espólio da família e ele associa a vida hedonista da irmã. Os diversos fragmentos de entrevistas que compõe a narrativa dão conta de exemplificar como a verdade nunca é plana quando membros de uma família contrastam suas interpretações da realidade imediata, ou falam dos fatos, do passado e de si mesmos, ou têm interesses econômicos distintos, se imaginam moralmente superiores uns aos outros, ou são hipócritas. As reflexões sobre política, economia, sociologia e psicologia que os personagens esgrimem parecem pajelanças, mostram ser ferramentas tímidas, inadequadas, que não se prestam a explicar como brasileiros em fúria se comportam, já que aqui ódio e desentendimento mútuo é norma, é lei. Laub, claro, parece interessado em entender o terrível país em que vivemos, não dogmatiza, não oferece chaves fáceis de interpretação. Talvez a palavra não dita no livro, mas que o domina, silente, é memória, ou seja, nossa incapacidade de lembrar corretamente o que vivemos, como indivíduos e como grupo social, sempre mais interessados em retificar as verdades do passado (as nossas e a de todos os demais, tarefa inglória, já se sabe). Assim como a "solução de dois estados" original (o projeto de criação e de coexistência pacífica entre Israel e Palestina), os dois irmãos parecem viver duas realidades distintas demais para que possam um dia coabitar num mesmo lugar e tempo, ou para que possam, um dia, se amar. Belo livro. Vale!
Registro #1585 (romance #391)
[início: 21/10/2020 - fim: 23/10/2020]
"Solução de dois estados", Michel Laub, São Paulo: editora Schwarcz (Grupo Penguin Random House / Companhia das Letras), 1a. edição (2020), brochura 14x21 cm., 243 págs., ISBN: 978-85-359-3379-6