quinta-feira, 27 de julho de 2017

O método albertine

Quem primeiro falou-me deste livro foi don Ronai Rocha, filósofo dos bons. Trata-se de um pequeno volume, coisa de quarenta ou cinquenta páginas, onde Anne Carson, elenca um conjunto de asserções derivadas da relação entre Albertine Simonet e o narrador do ciclo "Em busca do tempo perdido", aquele que convencionou-se chamar de Marcel, como seu inventor, Marcel Proust. A tradutora e organizadora do livro é Vilma Arêas, ensaísta e professora paulista. Carson reúne em seu livro 59 sentenças, enunciados, que a tradutora preferiu chamar de fragmentos, e 16 apêndices curtos, que tratam de conceitos e temas derivados daqueles fragmentos iniciais. Se quase todos fragmentos e apêndices falam do universo que brota dos volumes "La Prisonnière" e "Albertine disparue", percebe-se que alguns focam na natureza da paixão e ciúme, do ponto de vista sociológico e psicológico, enquanto outros tratam dos limites entre ficção e realidade, da transposição de elementos da vida privada na literatura. Há duas coisas no livro e/ou na tradução que me irritaram. Não entendi exatamente o porquê da escolha do "método" no título, em transcriação de "workout". E os apêndices onde se discute a diferença entre metáfora e metonímia podem funcionar em inglês, mas a tradução para o português torna tudo enigmático demais. Enfim. No livro há grandes sacadas e frases francamente tolas, mas o conjunto é bom. A grande questão do livro (para o meu gosto) fica escondida em um curto fragmento, onde Carson cita um "deserto pós-Proust", definido como o lugar onde vivem a legião dos leitores que realmente leram todo o ciclo de Proust. Assim como a um depressivo é intolerável encontrar forças para continuar a vida após aborrecimentos ou mesmo o tédio, decidir-se a ler outra coisa após ter lido Proust é impossível. Restam então perguntas do tipo: (i) é possível definir-se na vida após um grande fracasso, uma desilusão amorosa ou mesmo a absoluta glória e reconhecimento?; (ii) haverá dedicação ou bravura possível para vencermos a inação e partirmos para um novo projeto?; (iii) não é mais provável que a grande maioria de nós sucumbirá e passará a reler apenas aquele grande livro, incapaz de seguir em frente?. Acredito que todo leitor Proust gostaria de escrever um livro assim (ou deveria ser tentado a tentar escrever um livro assim, explicitando sua obsessão ou familiaridade com o texto). Mas, como já nos ensinou Beckett, a equação proustiana nunca é simples. Cada leitor se aproxima do texto e solidifica suas memórias das passagens de uma forma diferente (nunca conheci quem tivesse exatamente o mesmo sentimento que eu sobre o conjunto dos personagens, à exceção de don Renato Cohen, com quem li quase simultaneamente todo o ciclo, nos gloriosos anos 1980). É isso. Bom divertimento.
[início: 02/07/2017 - fim: 04/07/2017]
"O método Albertine", Anne Carson, tradução de Vilma Arêas e Francisco Guimarães, São Paulo: Editora Jabuticaba, 1a. edição (2017), brochura 14x21 cm., 45 págs., ISBN: 978-85-93478-00-0. [edição original: The Albertine Workout (New York: New Directions / New Directions Poetry Pamphlet - book 13) 2014]

quinta-feira, 20 de julho de 2017

romping through dorian gray

A série de livros "Romping through" homenageia autores irlandeses famosos. Depois do "Romping through Ulysses", do "Romping through Dubliners" (ambos sobre obras de James Joyce) e do "Romping through Dracula" (sobre Bram Stoker), eis que "Romping through Dorian Gray" rende homenagem a Oscar Wilde. Como nas anteriores, esta plaquete introduz ao leitor a ideia global de seu livro mais famoso, "O retrato de Dorian Gray" e fornece uma curta biografia do autor. Os autores (a turma do "At it again!", grupo teatral irlandês que produz esquetes ao vivo durante as comemorações festivas dos Bloomsday de Dublin) dão sugestões de várias atividades que expandem a experiência da leitura. Cada episódio ou capítulo do livro ganha uma ilustração, uma citação e alguma informação paratextual, como dados sobre a geografia atual de Dublin e a localização de alguns dos marcos literários da cidade associados a Oscar Wilde: como o local onde nasceu, na Westland Row; o Trinity College, onde estudou; a localização de um monumento em sua homenagem, no belo parque público Merrion Square (e que fica defronte a casa onde a família de Wilde morou por muitos anos); o teatro que ele costumava frequentar quando disputava com Bram Stoker a atenção de uma atriz (Florence Balcombe, com quem Stoker acabou casando); e os demais parques, pubs e hotéis de Dublin. Um outro mapa identifica os locais de Londres onde se passam os sucessos de "O retrato de Dorian Gray": o estúdio onde Basil Hallward pinta o retrato de Dorian; as casas de Henry Wotton, Lady Agatha e Dorian Gray, próximas ao Hyde Park; o teatro onde atua Sibyl Vane e o hotel Bristol, onde Henry anuncia seu noivado com Sybil. Esses mapas permitem antecipar algo da experiência de flanar por Dublin e Londres, procurando cousas relacionadas ao Oscar Wilde ou Dorian Gray. São sempre divertidos esses livrinhos. Agora só me falta registrar a última das plaquetes, aquela dedicada à Jonathan Swift. Sláinte!
[início: 19/05/2017 - fim: 21/05/2017]
"Romping through Dorian Gray", Maite López, Jessica Peel-Yates, Niall Laverty (ilustrações), James Moore, Dublin: At it Again! (2a. edição) 2016, brochura 10,5x15,5 cm., 60 págs., ISBN: 978-0-9576559-6-6

domingo, 16 de julho de 2017

mari hirata sensei

Como já disse em um registro antigo (sobre o delicioso "As minhas receitas japonesas"), um dia, lá dos tempos do IFUSP, conheci o Toninho, e depois a Alice, que me apresentaram a Beth e o Fábio, que por sua vez me convidaram para estudar inglês na casa da Sibele, que muito depois me apresentou o Koji, que é irmão da chef Mari Hirata. Se é que eu me lembro bem estive apenas uma vez com ela, em jantar na casa da Sibele e do César Koji, mas não estou certo. Fica-se velho e a invenção começa a substituir a memória, como nos livros, nos romances, na ficção. Se aquele "As minhas receitas japonesas" era um livro assinado ela, esse "Mari Hirata Sensei" é um livro sobre Mari Hirata, assinado desta vez por Haydée Belda. Haydée é uma aprendiz mas não uma amadora. Ela tem uma memória afetiva da culinária de suas avós e nos anos 1990 teve aulas com grandes cozinheiros americanos. Em algum momento, em Paraty, convidada a participar de uma série de aulas na cozinha de uma amiga, ela tornou-se aluna da Mari. O encantamento foi imediato. Um dia Mari convidou-a para registrar em livro a sua habilidade de ensinar a cozinhar. A ambição de Mari e Haydée era que esse livro capturasse de fato todas as etapas necessárias para que um leitor curioso conseguisse produzir os pratos nele descritos, sem intimidação, sem medo, sem temor. As fotografias que ilustram as receitas são poderosas, assinadas por dois sujeitos, um japonês (Masaharu Hatta) e um brasileiro (Andreas Heiniger). As receitas são apresentadas na forma convencional: dos pães às entradas; das saladas às sopas; dos peixes às carnes e aves; das sobremesas às geleias. Separadamente estão descritas as receitas básicas da culinária da Mari: arroz, dashi, gari, tsuyu, ponzu, massas e caldas. Há também mimos no livro: O leitor encontra um glossário dos termos gastronômicos e ingredientes mais importantes, curtas biografias de Mari e Haydée, uma lista com endereços de mercados, produtores e chefs japoneses (de Tóquio, basicamente). Os livros de gastronomia são quase sempre previsíveis, mas há vezes em que além das receitas o leitor encontra algo do encantamento e magia que apenas aqueles verdadeiramente compromissados com o oficio de preparar alimentos sabem transmitir. Por mais inusitado que seja, esse livro lembrou-me aqueles editados por Manuel Vazquez Montalbán, como o "La boqueria". Que alegria ler livros assim. Continuo achando que é pena que junto com as belas fotografias o livro não traga também um tanto dos aromas e dos sabores dos pratos.  Evoé Mari, evoé. Evoé Haydée, evoé.
[início 11/04/2017 - fim 15/07/2017]
"Mari Hirata Sensei", Haydée Belda, fotografias de Andreas Heiniger, Masahuru Hatta, São Paulo: Editora Beî Comunicação, 1a. edição (2016), brochura 18,5x25cm, 279 págs. ISBN: 978-85-7850-140-2

quarta-feira, 12 de julho de 2017

história da menina perdida

Vamos a ver. A tetralogia napolitana de Elena Ferrante, iniciada com "A amiga genial" e continuada com "História do novo sobrenome" e "História de quem foge e de quem fica" se encerra com a "História da menina perdida". Esses quatro volumes formam um projeto literário ambicioso, muito bem escrito, e que granjeou sucesso com o público leitor e reconhecimento da crítica literária especializada, cousa não muito fácil de ser simultaneamente alcançada. Nas quase 500 páginas de "História da menina perdida" tudo que estava em suspense na narrativa resta resolvido, todas as circunstâncias e sucessos são explicados, ao leitor é oferecido um rosário de detalhes que contextualizam as transformações pelas quais passam as duas protagonistas da historia (Elena e Rafaella, Lenu e Lila) e todos os demais personagens relevantes. Há uma grande sacada na tal historia da menina perdida, porém mais não posso falar. Cabe ao leitor curioso procurar o volume (ou o google) e ler. Ferrante descreve os anos  maturidade e velhice de Lenu e Lina. A Itália em transformação é confrontada com seus fantasmas (a corrupção entranhada no Estado, o terrorismo, as ações das brigadas vermelhas, a onipresença da máfia). O país purga (ou não purga) juridicamente esses crimes coletivos (mas apenas prendendo os suspeitos de sempre, livrando da cadeia os canalhas de sempre). O contraste entre os papeis dos homens e mulheres na sociedade italiana continua o tema relevante do livro. Não há explicitamente juízo de valor, mas uma exposição realista sobre a condição feminina na Itália da segunda metade do século XX. Elena e sua amiga Rafaella criam suas filhas pequenas, veem e interferem nas transformações pelas quais passam Itália e Nápoles, amigos e inimigos, os parentes e a natureza (até sobre um grande terremoto, o de 1980, a narradora tem tempo de falar na trama). O volume começa com a volta de Elena à Nápoles, em 1979, no início de sua escalada para tornar-se de fato uma escritora respeitada, cheia de compromissos. Segue até 2010, fechando o ciclo, quando as duas amigas alcançam seus 66 anos. É muita informação para se incluir em 500 páginas. Ao contrário do que faz Proust (oká, bem sei que é covardia comparar o ciclo de Elena Ferrante com o ciclo de Marcel Proust, mas releve um pouco a assimetria entre os dois e me acompanhe, se for o caso) Nesse ultimo volume a narrativa é acelerada demais para o meu gosto. São tantos anos de metamorfoses comprimidos, tantos causos e reviravoltas, tantas discussões, mudanças de opinião, surpresas e acasos, quanto a soma dos anos descritos nos três primeiros volumes (que corresponde a mais ou menos trinta anos). Claro, o leitor, já enfeitiçado pela boa prosa de Ferrante percorrerá alegremente os caminhos trilhados pelo livro, mas muito dificilmente terá a oportunidade absorver todo o processo de composição e invenção. E é exatamente essa experiência mágica o que Proust nos dá, ao nos impregnar lentamente com a passagem do tempo, preparando-nos nos dois volumes finais de seu ciclo, para no sétimo e último nos forçar ao choque de revelações em cascata, quase simultaneamente, em uma espécie de câmara lenta. Não quero dizer com isso tudo que esse quarto volume de Elena Ferrante seja ruim. Só não vejo a utilidade de detalhar tantas irrelevâncias apenas para postergar um final digno para aquilo que realmente da força ao livro, ou seja, o contínuo embate, rivalidade, competição e estranhamento mútuo entre as duas amigas. Assim como todos nós, que vivemos nossas vidas apenas com entendimentos provisórios sobre as pessoas que amamos ou odiamos, compreendemos apenas parcialmente o caráter dos sujeitos com quem estudamos ou trabalhamos ao longo da vida, experimentamos apenas a camada mais superficial e mutante da persona daqueles que nos cercam e com os quais convivemos, Lenu e Lila talvez nunca tenham se conhecido completamente. É essa para mim a constatação final e cruel, porem necessária, do livro. Jamais entenderemos as motivações e atos de quem quer que seja, a menos que seja preferível para nos mesmos vivermos continuamente nos iludindo. E é essa exatamente a magia e a potência da vida, a magia e a potência da literatura, aquilo que nos faz continuar. Vale.
[início: 12/06/2017 - fim: 18/06/2017]
"História da menina perdida: maturidade, velhice", Elena Ferrante, tradução de Maurício Santana Dias, Rio de Janeiro: Editora Globo (coleção Biblioteca Azul), 1a. edição (2017), brochura 14x21 cm., 480 págs., ISBN: 978-85-250-6310-6 [edição original: Storia della bambina perduta (Roma: Edizione E/O) 2014]

sábado, 8 de julho de 2017

mergulho na região do espanto

"Mergulho na região do espanto" é o terceiro volume de um ciclo sobre Ouro Preto, tendo sido precedido por "Boca de chafariz" e "Quando os demônios descem o morro". Nunca havia lido nada escrito por Rui Mourão, romancista e professor universitário mineiro, mas os livros tem lá seus caminhos para me encontrar e este, mais açodado que os demais, chegou-me antes que os irmãos mais velhos. Muito bem escrito, o livro oferece ao leitor ao menos duas camadas de leitura. A primeira é aquela da proposta inicial do livro, mágica, que apresenta a convocação fantasmagórica recebida pelo narrador do livro para partir de Belo Horizonte para Ouro Preto, onde estava sendo aguardado. Esse narrador é um solteirão, já aposentado, que na juventude envolveu-se com livros, mas que trocou essa ambição literária pelo pragmatismo da contabilidade, as responsabilidades filiais e a respeitabilidade da vida como bancário. Após a morte da mãe, enterrada em Ouro Preto, ele havia voltado a morar em Belo Horizonte. Hospedado em um hotel da cidade, cujas ladeiras e maravilhas já conhecia bem, o narrador é visitado quatro noites seguidas por fantasmas de antigas encarnações suas, sujeitos ligados ao ciclo de ouro de Minas Gerais (ou, como já nos ensinou o Nava, do Caminho Novo das Minas dos Matos Gerais). Esses relatos, que terminam sempre em violência, são bastante engenhosos e de certa forma independentes. Lembram a estrutura de "Viva o povo brasileiro", de João Ubaldo Ribeiro, onde partindo de um poleiro das almas personagens se apresentam para contar algo de sua história de vida. Todavia, após o leitor ter vencido mais de um terço do livro, quando já acredita que seguiria até o fim em sua toada de narrativas históricas, cada uma com sutis variações linguísticas e temporais, eis que o narrador oferece a segunda forma de rastrearmos o entendimento do que estamos a ler. O narrador volta a Belo Horizonte. Agora o leitor percebe que o livro não trata somente do ouro e de um período da história de Minas Gerais, mas sim do processo criativo de um escritor, da literatura como terapia, do amor pela linguagem como um descanso da loucura (um pouquinho de saúde, já disse o Guimarães Rosa). Assim o livro passa, a exemplo de seu narrador, por uma metamorfose, tornando-se um romance psicológico, policial, onde o analista ou detetive é o alter ego do autor que parte em busca de seus personagens e de sua história. Eu poderia detalhar o que acontece a seguir, as outras viagens do narrador à Ouro Preto, as novas aparições fantasmagóricas, mas privaria o leitor deste registro do encantamento provocado pela boa prosa de Rui Mourão. Muito interessante mesmo. Vamos a ver se um dia encontro outros livros dele. 
[início: 29/04/2017 - fim: 02/07/2017]
"Mergulho na região do espanto", Rui Mourão, Belo Horizonte: Editora UFMG, 1a. edição (2015), brochura 14x20 cm., 341 págs., ISBN: 978-85-423-0142-7

quinta-feira, 6 de julho de 2017

história da chuva

Depois de conhecer o bom "As fantasias eletivas" resolvi procurar mais cousas do Carlos Henrique Schroeder. E foi justamente há um mês, em Blumenau, em uma missão acadêmica, que encontrei esse "História da chuva", publicado originalmente em 2015, como se estivesse sempre lá, esperando por mim. Assim como em vários romances de Vila-Matas há um narrador na história que encarna a biografia e os atos de alguém que se chama Carlos Schroeder, mas, claro, não se trata do autor, mas sim de um preposto literário que tem mais liberdade para conduzir a narrativa e brinca sobre o que é real e o que é ficção. O Schoreder real, autor e dono do texto, alterna três narrativas, coordenadas em muito sentidos, mas ao mesmo tempo simultaneamente ímpares, que saberiam defender-se sozinhas, caso ele decidisse construir cada uma das histórias individualmente. O leitor acompanha os sucessos biográficos de um sujeito, um titereiro, Arthur Sobrossa, que morreu afogado em uma das recorrentes enchentes do rio Itajaí, a de 2008. Ora acompanhamos a história de Arthur e seu amigo Lauro, parceiros em um grupo de teatro; ora a história do narrador (o sujeito Carlos H. Schroeder, mascate das letras que organiza eventos literários pelo interior de Santa Catarina e parece fugir de uma musa dominadora); ora a história/peça de teatro que um personagem, Satin, escreve por inveja para vingar-se simultaneamente de Schroeder e de Arthur. Como arqueólogos que inspecionam um velho palimpsesto deciframos no livro os vestígios das histórias que mais nos interessam, cada uma delas relevante e interessante por si só.  Escrever é inventar mundos, com lógica e verossimilhança apenas verificáveis nos limites impostos por capa e contracapa. Schroeder nos faz curiosos da biografia e destino de seu homônimo e do titereiro que morrerá afogado, naquele terrível 2008, dois sujeitos que partilham o ingrato ofício de operador da cultura, neste país onde falar de cultura parece ser sempre uma ofensa pessoal para alguém (geralmente alguém com o poder de decidir algo). No final do primeiro capítulo de "Orlando", de Virgínia Woolf, o protagonista, abandonado por Sasha, enfrenta tormenta, degelo e as ondas do mar, vê destruição e morte, sente suas lágrimas confundirem-se com a chuva, emite a frase combinada: "Jour de ma vie!" mas, sem obter retorno, logo começar a imprecar maldições às mulheres. Em resposta a tanto sofrimento o mar lhe devolve apenas um espelho partido e uma pedrinha verde. O narrador de Schroeder experimenta no final de "História da chuva", ensopado e cercado pelos escolhos do rio barrento que roubou-lhe o amigo, um desalento semelhante ao de Orlando. Grande livro. 
[início: 01/06/2017 - fim: 09/06/2017]
"História da chuva", Carlos Henrique Schroeder, Rio de Janeiro: editora Record, 1a. edição (2015), brochura 14x21 cm., 157 págs., ISBN: 978-85-01-10538-7

quarta-feira, 5 de julho de 2017

noite adentro

"Noite adentro", de Tailor Diniz, é o terceiro volume de um ciclo de romances que tem muita chance de passar a ser conhecido como sua trilogia da fronteira. Assim como em "A superfície da sombra", de 2012, e "Em linha reta", de 2014, Tailor torna protagonista a fluida, misteriosa e permeável fronteira física entre o Uruguai e o Rio Grande do Sul, no sul do Brasil. E assim como nesses dois romances, em "Noite adentro" confundem-se as fronteiras entre sonho e realidade, entre o vivido no passado e no presente, entre o desejado e o praticado, entre a lei escrita e as convenções estabelecidas entre amigos, entre euforia e desalento, entre o português e o espanhol. No primeiro romance um sujeito cruza a fronteira para visitar uma amiga doente, mas o que seria um exercício de cortesia torna-se uma sucessão de experiências amalucadas (cabe registrar que a fronteira neste caso é seca, uma rua em comum entre duas cidades e países, num centro urbano). No segundo uma garota de programa cruza na fronteira as várias vidas, perigos e sucessos de seus clientes (desta vez as fronteiras estão no campo, afastadas, obrigando os personagens a passar por estradas onde apenas viajantes experientes sabem identificar quando se trata de um país ou outro). Em "Noite adentro" a fronteira é um grande rio, que cobra dos homens mais paciência para cruzar, seja por uma ponte com policiais aduaneiros, seja furtivamente, de barco, fazendo força nos remos. Um sujeito, Antônio, cruza pela primeira vez essa fronteira pela ponte ao anoitecer de um dia frio de inverno, numa espécie de auto exílio. Chega à casa de Inácio, um velho conhecido dos tempos de universidade (e talvez também de algum tipo de atividade clandestina). A narrativa que o leitor acompanhará trata das pouco mais de doze horas desta noite, até o início da manhã do dia seguinte. Após beberem um tanto comemorando o reencontro e os relatos de praxe sobre o passado em comum, Inácio diz a Antônio ter um compromisso já agendado para esta noite, o aniversário de um amigo, e que Antônio deveria acompanhá-lo. Para isso eles cruzam a fronteira, mas desta vez de barco, silenciosamente. Nos capítulos que se sucedem Antônio conhece esse aniversariante, sua mulher e os demais personagens da história, todos envolvidos em uma espécie de conspiração que envolve a chegada de alguém, ou algo, chamado de "El Penitente" e também nas circunstâncias da morte de um sujeito, um brasileiro. Não há sentido em revelar mais que isso da trama. O importante é registrar que o leitor levará muito menos que as doze horas da história para ler o livro. Tudo acontece rapidamente. Bebe-se o tempo todo (um dia destes vou reler o livro apenas para ter uma ideia precisa de quanto cada personagem bebeu); o fogo sempre acesso aquece os viventes; armas são eloquentes extensões do corpo dos homens; carnes são postas a assar, como nas oferendas dos gregos à seus deuses; as mulheres bruxuleiam como as chamas das parrillas, expondo suas carnes aos homens e escondendo segredos; as vozes, versões e histórias truncadas se confundem, como numa litania religiosa. Assim como nos dois romances da fronteira anteriores algo do livro parece brotar do "Traumnovelle", romance de Arthur Schnitzler, que foi adaptado em filme muito bom por Stanley Kubrick (De olhos bem fechados): é o caso, desta vez, da ideia de penitência, do "El Penitente". Bueno. O leitor sempre ganha algo quando lê um livro do Tailor. Em tempo: "Noite adentro" será lançado oficialmente hoje mesmo, 05 de julho, às 19h30min, em Porto Alegre. Perderei esse lançamento, é pena, mas num outro dia vou tentar entrar em contato para conseguir uma dedicatória. Evoé Tailor, evoé.
[início 03/07/2017 - fim 04/07/2017]
"Noite adentro", Tailor Diniz, São Paulo: editora Grua livros, 1a. edição (2017), brochura 14x21 cm, 174 págs. ISBN: 978-85-6178-63-3

segunda-feira, 3 de julho de 2017

blumenau planeta verde

Em um dia de maio, por conta de uma missão acadêmica, tive a sorte de visitar Blumenau. Meus anfitriões da IBES, generosos, presentearam-me com esse belo volume comemorativo dos 150 anos de fundação da cidade. Trata-se de uma edição trilíngue, com textos reproduzidos em português, inglês e alemão. Fartamente ilustrado, o livro é bem mais que um objeto decorativo que poderíamos encontrar e  folhear displicentemente em uma sala de espera qualquer. Acontece que depois que o abrimos dificilmente o deixamos de lado. As imagens são impressionantes. As cenas capturadas registram vividamente os momentos festivos, a passagem do tempo, a rica arquitetura, a diversidade do povo, o colorido da flora e fauna do lugar. As fotografias são assinadas por dois irmãos, Rafael e Daniel Curtipassi. Os textos, assinados por Daniel Curtispierre, dão conta dos acontecimentos mais importantes da cidade: as circunstâncias de sua fundação, os ciclos migratórios que recebeu, a biografia das pessoas que viabilizaram seu crescimento, sua vocação industrial, as atividades culturais e esportivas, a Oktoberfest, o empreendedorismo de sua gente, o terrível impacto das grandes enchentes do rio Itajaí-Açu, a alegria das festas e a diversidade da rica gastronomia que definem aquele lugar. Os textos são bacanas, mas o livro impressiona mesmo pela qualidade das fotografias incluídas nele. Para conhecer melhor as cidades que visito costumo comprar livros de autores locais, pois sei que não é raro que uma cidade tenha sorte e conte com bons cronistas. Não tive tempo de apurar qual é o sujeito que registra o cotidiano de Blumenau com mais engenho e arte. Arrisquei e comprei dois livros de uma escritora de lá, Urda Klueger, mas ainda não tive tempo de ler seus contos e causos. De qualquer forma, sei que juntamente com "Blumenau planeta verde" os livros da Urda me ajudarão a conhecer melhor essa bela cidade. Agradeço mesmo o Mário Henrique e toda sua equipe pelo belo presente. Inté.
[início: 05/05/2017 - fim: 10/07/2017]
"Blumenau: Planeta verde / Green Planet / Grüner Planet", Daniel Curtipassi, Rafael Curtipassi e Daniel Curtipassi (fotografias), Curitiba: Editora Laz Audiovisual, 1a. edição (2001), capa-dura 28,5x28,5 cm., 164 págs., ISBN: 978-85-88417-01-4