quarta-feira, 18 de setembro de 2019

o princípio da incerteza

Nunca havia lido nada de Guido Viaro, escritor paranaense de mais ou menos cinquenta anos. Neto de um outro Guido Viaro, respeitado artista plástico ítalo-brasileiro modernista, o Guido Viaro escritor é autor de 15 romances, publicados desde 1998. "O Princípio da Incerteza" gravita o mundo dos livros, do ofício de escrever, do legado possível que qualquer vida oferece, da memória, da eventual imortalidade que o ato de escrever confere a personagens e autores, indistintamente. Na trama, Félix Aéras, um professor de filosofia universitário de quase sessenta anos, oscila entre seus planos de aposentadoria, o péssimo hábito de se envolver com mulheres mais jovens e problemáticas, seu desejo de tornar-se escritor. No livro vários registros se superpõem, ou melhor, lentamente se fundem: a história do narrador, que pode ou não ser Aéras, que quer aposentar-se e escrever livros, especialmente um que emule uma espécie de autobiografia do universo; a do compositor Robert Schumann, no exílio da loucura em seus anos finais, como personagem de um livro não publicado escrito por um amigo do narrador; a de Jacques Coeur, um comerciante francês do século XV, que no livro tornou-se imortal e aproxima-se de Aéras; a de Clara Castang, amante de Aéras e também uma personagem inventada por ele. Destes incertos registros, usando metaforicamente o Princípio da Incerteza do título, conceito fundamental da Física Quântica, Guido Viaro oferece ao leitor reflexões muito interessantes sobre a passagem do tempo, as imortalidades que existem na mente, no mundo fantástico, na literatura, identifica a morte como esquecimento. Lê-se "O Princípio da Incerteza" como se fosse um romance policial, em que pistas falsas são espalhadas pelo volume, aguçando a curiosidade do leitor. Bom. Vou procurar mais cousas deste curioso escritor. Vale! 
Registro #1449 (romance #364) 
[início: 27/07/2019 - fim: 03/08/2019]
"O Princípio da Incerteza", Guido Viaro, Curitiba: Editora Insight, 1a. edição (2019), brochura 15x21 cm., 210 págs., ISBN: 978-85-62241-71-0

domingo, 15 de setembro de 2019

os touros de basã

Marco Aurélio de Souza é um jovem paranaense que tem publicado regularmente romances, contos e poemas, desde o início dos anos 2010. Recentemente ele lançou "Os touros de Basã", um volume de contos. São treze histórias que gravitam vidas de pessoas marginalizadas, indivíduos que foram derrotados pela vida, sujeitos azarados, loucos, intoxicados, sujos. Marco Aurélio faz seus personagens padecer suas misérias em Ponta Grossa, no interior do Paraná, mas as histórias poderiam ser contadas desde a periferia de qualquer lugar do Brasil contemporâneo, país onde a desigualdade é norma, onde o isolamento daqueles que não são afeitos a regras sociais é terrivelmente comum. Nos contos o leitor acompanha fragmentos da decadência física e espiritual de um homem; o autoengano de uma jovem prostituta; o sarcástico relato de um sujeito sobre o destino de sua cidade; o justiçamento de um garoto em uma favela; a lascívia de um professor de educação física por suas alunas; a metamorfose moral de um sujeito, que após matar os pombos de uma praça, passa a atirar em mendigos; os planos de um rapaz de se masturbar em um ônibus lotado; a fantástica história de mendigos que são adotados como animais de estimação; entre outras tantas histórias igualmente brutas. Gostei do resultado. Ojo. É o caso de acompanhar os livros deste sujeito. Vale! 
Registro #1448 (contos #166) 
[início: 17/07/2019 - fim: 30/07/2019]
"Os touros de Basã", Marco Aurélio de Souza, Curitiba: Kotter Editorial, 1a. edição (2019), brochura 16x23 cm., 120 págs., ISBN: 978-85-68462-94-2

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

anthony bourdain remembered

Há pouco mais de um ano, num funesto 08 de junho, uma sexta-feira, Anthony Bourdain cometeu suicídio. Senti aquela morte como a de uma pessoa querida, como se fosse uma pessoa muito próxima. Lembro-me muito bem do impacto da leitura de seu primeiro livro, "Cozinha confidencial", no início dos anos 2000. Não se tratava apenas de um livro sobre gastronomia, salpicado com receitas bacanas. Bourdain descrevia o ofício de cozinhar nos grandes restaurantes com humor e sarcasmo, contrastando o visível glamour daquela atividade com o pouco conhecido estresse ao qual os profissionais são submetidos, com os truques sujos dos proprietários para promover vendas, com o ego inflado dos cozinheiros estrelados, com as carreiras que se eclipsavam por conta das drogas. Depois li vários outros livros dele (Maus bocados, Ao ponto), seus textos de ficção (Bobby Gold) e suas graphic novels (Get Jiro! e Hungry Ghosts). O sucesso com a venda dos livros o levou a televisão, onde gravou várias séries, séries admiráveis que nunca cansam o espectador (A Cook's Tour, No Reservations, The Layover e Parts Unknown). Bourdain tornou-se uma celebridade, um talentoso contador de histórias, um sociólogo amador, alguém que tinha a notável capacidade de sintetizar em poucos minutos os complexos contextos de culturas bastante diferentes da sua. Poucas pessoas inspiravam tamanha admiração e também, claro, inveja. Assim como eu, que ao fazer minha peregrinação à Dublin preparei-me assistindo seus shows gravados lá (um deles pode ser acessado aqui: No reservations), muitos devem ter se inspirado nele ao programarem-se para uma viagem. Sua morte pegou todos de surpresa. Como podia um sujeito vivendo uma vida tão prazerosa cometer suicídio, todos perguntavam-se. Logo após sua morte o canal de notícias CNN abriu espaço em suas mídias sociais onde os fãs de Bourdain poderiam registrar algo sobre ele, celebrar seus feitos, falar de sua influência. Recentemente parte daqueles registros digitais nas mídias sociais foram transferidos para o formato livro, este "Anthony Bourdain Remembered". Trata-se de 155 registros, que guardam algo do impacto daquela notícia triste. Alguns são de celebridades, colegas chefs, gente da televisão ou políticos bastante conhecidos; a grande maioria pessoas comuns, entusiastas de sua arte, aficionados do mundo inteiro. O livro contém fotos muito bacanas, fotos que capturam aquele olhar ambíguo, de quem fazia as coisas parecerem fáceis, mesmo quando elas eram sabidamente difíceis. Grande sujeito, para ser lembrado sempre. Bela homenagem, belo livro. Vale! 
Registro #1447 (perfis e memórias #92) 
[início - fim: 29/07/2019]
"Anthony Bourdain Remembered", Amy Entelis (organizadora), New York: HarperCollins Publishers (Ecco hardcover books), 1a. edição (2019), capa-dura 22,5x26 cm., 208 págs., ISBN: 978-0-06-295658-3 [edição original: CNN Worldwide 2019]

domingo, 8 de setembro de 2019

marrom e amarelo

"Marrom e amarelo" é um romance corajoso. Paulo Scott, autor já experiente e premiado, poderia povoar sua narrativa com chavões politicamente corretos, entendimentos de almanaque, fórmulas mágicas e desejos travestidos de bom mocismo, porém oferece uma boa e honesta história, que pode (ou não, convenhamos) provocar em cada leitor reflexões sobre sua própria postura em relação ao mais silente dos dramas brasileiros, que é a questão do racismo. Na história de Scott o narrador, Federico, um respeitado ativista que administra uma ONG em Brasília, quase cinquenta anos, é convidado a fazer parte de um grupo de trabalho ministerial cujo objetivo é validar um software que seria utilizado pelo governo para preencher as vagas de cotistas "pretos, pardos e indígenas" no ensino público federal. Tema mais complexo e explosivo é difícil, mesmo neste surreal, doente e insuportável país, onde toda maluquice ganha seu espaço e fama, onde todo ato vil alcança respaldo bovino de legiões. No início da trama, que a bem da verdade é curta, coisa de 150 páginas, acompanhamos as motivações e propostas de cada um dos membros do grupo de trabalho, assim como sobre o estado da arte do debate nacional sobre racismo, a perene tensão racial, as políticas públicas e sociais voltadas aos negros. O sarcástico panorama construído por Scott do que seria um procedimento digital de classificação racial contrasta com a descrição jornalística do que tem acontecido no mundo real das universidades públicas desde a promulgação da lei das cotas (ele se furta de citar o gaúcho que na prática engendrou a classificação racial contemporânea no Brasil, mas tudo bem, trata-se de um livro de ficção, não de sociologia ou história). Bueno. Aos poucos o leitor é levado para um outro território, muito mais fértil e adequado ao debate sério sobre o fundamental tema do racismo. O romance passa a gravitar o passado de Federico, sujeito nascido em Porto Alegre nos anos 1960, filho de funcionários públicos negros de classe média, que é um tanto mais claro que seu irmão mais novo, Lourenço. Um fato de seu passado, a briga entre jovens negros e brancos na entrada de um clube social da cidade, passa a assombrar Federico, quando uma sobrinha sua é presa em posse de uma arma durante uma manifestação. Scott alterna em curtos capítulos cenas de seu passado, sua educação sentimental, a influência dos ensinamentos de seus pais e o áspero aprendizado prático nas ruas, com suas reflexões e conflitos atuais, sua inapetência para relações afetivas duradouras, sua solidão entranhada, o distanciamento discreto que tem da família. Há algo de nostálgico no livro. Scott passeia por sua Porto Alegre fundamental, cita todo o tempo suas ruas, hotéis, bares e restaurantes, faz seus personagens navegarem pela cidade como certos gregos que um dia perderam-se no Mar Egeu, após a guerra em Troia. Seu protagonista, Federico, tem mesmo algo de herói grego, pois parece ser mais altivo, forte e inteligente que todos a seu redor, mas sabe que também é mortal, frágil e falível. A coragem física dele em uma briga (em seu passado) e sua coragem moral, ao confrontar um delegado de polícia (no tempo presente da narrativa), são invulgares, tanto nos anos 1980 quanto nos anos 2010. Enfim, trata-se de um belo romance, que antes provoca reflexões, e não simplesmente oferece respostas rasas aos leitores. Lembrei muito de Philip Roth, de seus livros sobre a questão judaica, sobre o racismo na sociedade americana, da capacidade de Roth abordar corajosamente os temas mais espinhosos possíveis com coragem e gênio literário (o mesmo vale para Scott). Antes de terminar, cabe registrar aqui que a forma utilizada por ele para construir seus diálogos, fazer fluir a consciência de seus personagens, é sim o ponto mais alto do livro. Evoé Scott, Evoé. Vamos em frente. Vale! 
Registro #1446 (romance #363) 
[início - fim: 03/09/2019] 
"Marrom e amarelo", Paulo Scott, Rio de Janeiro: Editora Schwarcz / Alfaguara / Penguin Random House Grupo Editorial, 1a. edição (2019), brochura 15x23 cm., 158 págs., ISBN: 978-85-5652-091-3

sábado, 7 de setembro de 2019

el héroe discreto

Romance publicado em 2013, entre dois outros já registrados aqui, os bons "El sueño del Celta", de 2010 e "Cinco esquinas", de 2016, "El héroe discreto" funciona tanto como romance, quanto como uma aula magna de construção de narrativas. Vargas Llosa alterna em capítulos temáticos duas histórias que lentamente, só quase no final, irão convergir, mesclarem-se. Não quero contar muito da trama para não roubar nenhum prazer do leitor. Posso dizer que as histórias são sobre um valente empresário de Piura, cidade do interior peruano, e um nobre advogado (um oxímoro, claro) de Lima, a capital do Peru. Ambos são afetados pelas más ações de terceiros, e precisam valer-se de toda honestidade intelectual, engenho e artimanhas para se safarem, não se prejudicarem. Vargas Llosa oferece ao leitor um romance bem humorado, longo, mas que nos prende do começo ao fim. Incrível o fôlego e a capacidade de invenção deste senhor já octogenário. Não sou exatamente um especialista na língua espanhola, mas a linguagem utilizada no livro me parece ser seu maior predicado. Llosa faz seus personagens abusarem de palavrões, gírias, jogos de palavras, diminutivos carinhosos, maneirismos e toda uma tradição oral, elementos que contrastam a vida no interior e a vida na capital. Ele também alterna duas ou mais narrativas dentro de um mesmo capítulo, como se o narrador contasse sua história emulando as vozes e trejeitos dos personagens em uma apresentação teatral, mesa de bar ou sala de aula. Pelo menos dois personagens antigos de Llosa reaparecem no livro, o sargento Lituma (que conhecemos desde "A casa verde", de 1966 e don Rigoberto (com sua lasciva Lucrécia e seu filho Fonchito, de "Os cadernos de don Rigoberto", de 1997). Dá vontade de voltar a esses textos antigos. Que belo livro. Mas vamos em frente. Vale! 
Registro #1445 (romance #362) 
[início: 31/08/2019 - fim: 05/09/2019] 
"El héroe discreto", Mário Vargas Llosa, Cíudad Autônoma de Buenos Aires: Aguilar, Altae, Taurus, Alfaguara / Penguin Random House Grupo Editorial, 1a. edição (2013), brochura 15x24 cm., 392 págs., ISBN: 978-987-04-3113-8

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

la muerte de jesús

Publicado há poucos meses, simultaneamente em inglês e em espanhol, "La muerte de Jesús" encerra a trilogia de J.M. Coetzee iniciada em 2013 com "A infância de Jesus" e continuada em 2016 com "The Schooldays of Jesus". Em "La muerte de Jesús" reencontramos David, Inês e Simón, a disfuncional sagrada família inventada por Coetzee, e seguimos com seus sucessos. Assim como nos demais volumes a trama não é exatamente o que importa, antes sim as reflexões que encontramos sobre cognição e linguagem, memória e vida em sociedade, relações familiares e competições esportivas, ciência e morte, capacidade de amar e destino. Não há uma única chave de leitura no livro. Há vezes em que penso este volume (e de resto toda a trilogia) como um conto de fadas contemporâneo, uma fábula amoral; noutras em um exercício  de entendimento de como funciona nossa mente, pobres homo sapiens, tão facilmente iludidos em nossa percepção da realidade, em nossos esforços por conhecer e aceitar verdades; noutras, ainda, como uma investigação sobre as possibilidades da ficção, de nossa habilidade de usar a literatura para construir mundos alternativos, utopias, espelhos de nossa pálida realidade. Ao contrário do que fiz durante a leitura do segundo volume da trilogia desta vez não submergi no emaranhado de associações e metáforas, de sugestões e possibilidades provocadas por Coetzee. Ao final deste seu admirável mundo novo, além da morte do protagonista, David, já denunciada no título, encontramos também a ascensão de eventuais proto religiões, de paganismos organizados, de cultos à personalidade, de liturgias à memória de David. É sempre difícil para nós matar um pai, matar um deus. Pouco importa. Gosto da ideia de pensar que o Jesús dos três títulos seja na verdade Cervantes, o autor de Don Quijote, livro preferido de David, o mais seminal dos inventores desta forma narrativa que nos assombra e encanta há quatro séculos. Estaríamos condenados todos a vagar como Don Quijotes mundo afora, iludindo-nos sempre? Vamos a ver o que o sempre provocante Coetzee inventará no futuro. Vale! 
Registro #1444 (romance #361) 
[início: 20/07/2019 - fim: 24/07/2019]
"La muerte de Jesús", J.M. Coetzee, tradução de Elena Marengo, Buenos Aires: El Hilo de Ariadna (Penguin Random House Grupo Editorial), 1a. edição (2019), brochura, 13,5x22,5 cm., 189 págs., ISBN: 978-84-397-3577-9 [edição original: The Death of Jesus (Melbourne, Australia: The text Publishing Company) 2019]

domingo, 1 de setembro de 2019

o matrimônio de céu e inferno

Enéias Tavares, professor de literatura da UFSM, e Fred Rubim, designer gráfico, uniram-se para engendrar o ambicioso projeto que foi o de recriar algo dos livros iluminados de William Blake na forma de uma graphic novel. O resultado é bacana. Claro, qualquer reinvenção de um clássico envolve as limitações de cada gênero, a liberdade criativa dos autores, as camadas de recepção do original já acumuladas, o público a quem a nova transcriação é oferecida e tantas outras condições de contorno. No caso específico de Blake deve-se acrescentar o quão enigmático e metafórico é o próprio original. De qualquer forma, acho que os dois apresentam uma proposta honesta ao leitor. Blake foi poeta, pintor, gravador, escritor, viveu entre a segunda metade do século XVIII e o primeiro quarto do século XIX. Produziu uma obra vastíssima, que pode ser acessada no "Arquivo Blake". O livro iluminado  transcriado por Enéias e Fred, composto originalmente em 1790, pode ser acessado no link "The Marriage of Heaven and Hell". A história de Enéias e Fred acrescenta ao propósito de homenagear Blake uma miríade de alusões de outros autores que nele se inspiraram nos últimos 200 anos (de Yeats e Jung a Aldous Huxley e Jim Jarmusch, entre tantos). O enredo é confessadamente tarantinesco, ou seja, deve algo ao universo criativo de Quentin Tarantino, a estilização da violência e cultura pop. Os dois autores criaram uma narrativa que alterna o destino de quatro personagens (um matador de aluguel, uma prostituta, um pastor evangélico e uma designer), viventes de uma furiosa São Paulo contemporânea, com as partes do livro de Blake, onde o diabo oferece ao poeta sua versão dos sucessos de sua queda, sua bíblia infernal. A paleta de cores de cada personagem funciona como marcador e facilita, eu diria até demais, a vida do leitor. O livro inclui vários mimos: notas de referência sobre as associações cifradas no texto e nas imagens; reproduções das pranchas de Blake, o making of do roteiro de Enéias; o making of da concepção plástica de Fred Rubim; vários curtos textos críticos, que contextualizam o trabalho de Enéias e Fred no universo da produção de literatura fantástica e gráfica brasileira contemporânea. Como já disse, bacana. Vamos a ver o que esta dupla inventará na sequência. Segue o baile. Vale! 
Registro #1443 (graphic novel #74) 
[início: 12/07/2019 - fim: 21/07/2019]
"O matrimônio de céu e inferno", Enéias Tavares e Fred Rubim, Porto Alegre: AVEC, 1a. edição (2015), capa-dura 15x21 cm., 384 págs., ISBN: 978-85-5447-042-5

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

muerte entre líneas

"Muerte entre líneas" se passa em uma Veneza primaveril, já exuberante em cores, cheiros, movimentos de pássaros, ainda não cheia de turistas e batedores de carteira. Brunetti precisa investigar sobre um crime que lhe incomoda particularmente, o roubo e destruição de livros, sobretudo de livros antigos, aqueles primeiros a serem impressos na Europa após a invenção dos tipos móveis por Gutenberg. Donna Leon se inspira em um crime real, o cometido em Nápoles, na Biblioteca dei Girolamini, de onde foram furtados milhares de livros há pouco menos de dez anos. Na história de Donna Leon é de uma biblioteca veneziana que livros são suprimidos e vandalizados, inclusive livros impressos pelo genial Aldo Manúcio. Apesar deste ser um tipo de crime fora de sua alçada, Brunetti faz seus comandados e colaboradores trabalhar e descobrir o enorme esquema de roubos, tanto aqueles por encomenda, quanto aqueles fruto de cupidez individual (há um terrível personagem no livro, um venal ex-padre, especialista em Tertuliano, um dos grandes padres latinos da Igreja Católica). Elettra e a comissária Griffoni já são amigas, o conte Fallier está algo fragilizado após um AVC, Paola e as crianças já estão planejando as férias de verão. Neste volume o leitor encontra a usual cota de reflexões sobre a complexa sociedade italiana, temperada por um sarcasmo brutal direcionado à impostura intelectual, à hipocrisia, à falsa cultura, ao funesto comportamento politicamente correto. O Brasil, ai de nós, é citado duas vezes no livro, de forma nem um pouco edificante, quando os personagens denunciam o comportamento vicioso de um cocainômano brasileiro e do melhor lugar para se fugir da Itália em caso de ter-se cometido um crime. Quem sou eu para censurar Donna Leon? Livro bem movimentado, que trará alegria para bibliófilos, bibliômanos e bibliólatras. Vale! 
Registro #1442 (romance policial #88) 
[início: 13/07/2019 - fim: 18/07/2019]
"Muerte entre líneas" (Brunetti #23), Donna Leon, tradução de Maia Figueroa Evans, Barcelona: Editorial Seix Barral / Booket #2611 (Grupo Planeta Manuscrito), 1a. edição (2015), brochura 12,5x19 cm., 384 págs., ISBN: 978-84-322-2433-1 [edição original: By Its Cover (Zürick: Diogenes Verlag AG / Penguin Randon House Group) 2014]

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

turner

Há dias em que só a proximidade do mar e a áspera passagem de areia e sal próximos a derme é o que nos consola; noutros dias é a música, a floresta, a montanha ou a neve que nos estimula, que funciona como lenitivo; e noutros, ainda, são as imagens poderosas de um livro que alcançam afastar de nós os rudes efeitos da existência de escravos mentais e canalhas. Estou seguro que nasci num país onde muita gente se orgulha de ser imbecil, fazer o quê. Seguimos no barco de Caronte, do berço a  tumba. De qualquer forma encontrei neste livro sobre a arte de Turner muitas coisas que me alegraram nos últimos dias. Não só ele, claro, desta feita fui conduzido por Michael Bockmühl, respeitado historiador de arte alemão. Esse volume da Taschen enfeixa imagens belíssimas e um texto poderoso, super informativo. Aprende-se um bocado. Bockemühl descreve o desenvolvimento pessoal e artístico de Turner, seus conceitos, a forma como executava suas obras, seus contemporâneos e efebos. Fala muito sobre a presciência dele sobre questões de luz e cor, que seriam dominantes no século XX (Turner viveu do final do século do XVIII a meados do século XIX). Não se trata de fazer, através da arte, uma descrição realista do mundo, antes sim de provocar um efeito, de levar o sujeito que se aproxima de seus quadros a uma experiência sensorial, uma vertigem, dominada pela cor. Bockemühl fala bastante sobre a teoria das cores de um seu conterrâneo, o seminal Johann Wolfgang von Goethe. As reproduções dos quadros certamente não provocam o impacto da experiência pessoal, mas dão ao leitor uma ideia de como o jogo de claros e escuros, de luz e sombra, podem enganar nossos sentidos, forçar nosso cérebro a entender melhor a realidade. Lembrei muito de um livro de Junichiro Tanizaki, "Em louvor da sombra", que já registrei aqui, e dos ensinamentos de Isaiah Berlim sobre o romantismo. Que belo livro. Vale a pena conferir algumas das reproduções digitais dos quadros de Turner reunidas neste link da wikiart. Vale! 
Registro #1441 (livro de arte #31) 
[início: 01/07/2019 - fim: 22/07/2019]
"J.M.W. Turner 1775-1851: O mundo da cor e da luz", Michael Bockemühl, tradução de Paula Reis, Köln: Taschen GmbH, 1a. edição (2010), capa-dura 23x30 cm., 96 págs., ISBN: 978-3-8365-1372-2 [edição original: (Köln: Benedikt Taschen Verlag GmbH) 1993]

domingo, 18 de agosto de 2019

riquete el del copete

Foi em 2014 que li Amèlie Nothomb pela última vez. Ela é autora de vinte e cinco romances curtos e potentes. Noutro dia encontrei esse, que li em um par de horas. O "Riquete el del Copete" original é um conto de fadas inventado no final do século XVII por Charlles Perrault. Não sei se há uma versão brasileira deste conto (ao menos não me lembro de ter lido essa história quando criança). O conto original canta os sucessos de um príncipe que é muito feio, mas muito inteligente, e de uma princesa que é muito bonita, mas completamente parva. O acaso os faz se encontrar e oferecer, um ao outro, como um dom e/ou metamorfose, o predicado que têm. Ambos tornam-se bonitos e inteligentes, vivendo felizes para sempre. Amèlie Nothomb atualiza o conto, transportando-o para a França contemporânea. Déodat é o rapaz feio, porém inteligente, que se torna famoso em sua especialidade, a ornitologia; Trémière, a menina belíssima, sem luzes, que acaba tornando-se a modelo principal de uma grande casa de moda. O final do livro alcança o mesmo tipo de ambígua felicidade que o conto de Perrault (pois podemos entender que ambos, por amor, antes aceitam as limitações físicas ou intelectuais um do outro, do que verdadeiramente experimentam uma metamorfose, uma transformação mágica). Nothomb aproveita a história para falar do sistema educacional francês; do que se conhece atualmente sobre a cognição, do desenvolvimento da linguagem; faz troça do mundo da moda, da academia e das convenções sociais. Após o final do livro Nothomb acrescenta um capítulo onde reflete sobre seu ofício e fala sobre os livros reunidos na Comédie humaine de Balzac para justificar a validade de sua escolha em dar um final feliz a seus protagonistas. Sempre interessante esta curiosa escritora. Vale! 
Registro #1440 (romance #360) 
[início - fim: 18/06/2019]
"Riquete el del Copete", Amèlie Nothomb, tradução de Sergi Pàmies, Barcelona: editorial Anagrama (Panorama de Narrativas #970), 1a. edição (2018), brochura 14x22 cm., 120 págs., ISBN: 978-84-339-8000-7 [edição original: Riquet à la houppe (Paris: éditions Gallimard) 2016]

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

poemas

Este volume é um portento, um veio de ouro puro e fino, uma fonte de prazeres sem fim, uma caixa mágica de assombros. Não é o tipo de livro que um sujeito lerá de capa a capa, obstinadamente. Claro, pode ser assim, mas não se deve. São muitos poemas, muita informação, muitos encantamentos. Trata-se de uma edição que reúne todos os livros de poesia publicados por T.S. Eliot em vida, entre 1917 e 1954. A edição é bilíngue, a tradução assinada pelo industrioso Caetano Galindo, professor da UFPR, escritor e tradutor respeitado. Os livros são Prufrock e outras observações (1917); Poemas (1920); A terra devastada (1922); Os homens ocos (1925); Quarta-feira de cinzas (1930); Poemas de Ariel (1927-1954); Quatro quartetos (1943) e O livro dos gatos sensatos do Velho Gambá (1939). A esse robusto conjunto os editores incluíram dezenas de notas que elucidam muitos dos enigmas espalhados pelos poemas, o simbolismo entranhado neles, as muitas camadas de entendimento possível. Incluíram também um posfácio, no qual Galindo explica ao leitor algo do contexto da publicação original dos poemas, suas escolhas de tradução e método, seu envolvimento no mundo de sons e palavras evocados por Eliot. Aqui talvez seja o caso de registrar o quão especial é esse posfácio. Galindo alcança conduzir o leitor por sua aventura pessoal, a de traduzir seguindo uma mesma sistemática, como em uma máquina tradutória, todos os poemas. Sua prosa é muito especial, uma sequência de frases curtas que deixam o leitor quase sem fôlego, como se ele fosse o coelho que aparece sempre apressado, correndo, na história de Alice, de Lewis Carroll. Neste processo ele nos convence da necessidade de imersão total do leitor na caixa de ressonância criada por Eliot, da eventual incompreensão que muitos deles provocam, da constante evolução do poeta no tempo, da miríade de registros, sons, métricas, formas. Galindo, também um músico, ressalta a musicalidade, ritmo e sonoridade de toda produção de Eliot. Bueno. Nada substitui a experiência de ler os poemas. Arrume logo um tempo livre e bom divertimento. Vale! 
Registro #1439 (poesia #117) 
[início: 04/03/2019 - fim: 18/07/2019]
"Poemas", T.S. Eliot, tradução de Caetano W. Galindo, São Paulo: editora Schwarcz (Companhia das Letras / Penguin Random House), 1a. edição (2018), capa-dura 14x21 cm., 438 págs., ISBN: 978-85-359-3178-5 [edição original: Collected Poems 1909-1962 (London: Faber and Faber) 1963]

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

crônicas velozes

Neste volume encontramos dez crônicas curtíssimas e um esquete teatral brincalhão de Cláudio Portella, talvez o mais inquieto dos escritores de  Fortaleza. Eles funcionam como apontamentos de ideias que poderiam ser expandidas em contos, fragmentos de epifanias, registros de estados de humor. Portella fala de músicos (Jards Macalé, Luiz Melodia, Belchior); escritores (Eduardo Portella, Antônio Cândido); artistas plásticos (Sérvulo Esmeraldo) e também faz sociologia selvagem, refletindo sobre jogos, sua formação universitária, a felicidade possível, o sexo. É uma proposta honesta, mas algo mais fraco que as coisas dele que já li: seus aforismos, sua poesia, seu romance. Paciência. Segue o baile. Vale! 
Registro #1438 (crômicas e ensaios #262) 
[início - fim: 17/07/2019]
"Crônicas velozes", Cláudio Portella, Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora  (Edições CP), 1a. edição (2018), brochura 12x19 cm., 16 págs., ISBN: 978-85-420-1217-0

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

el hombre que nunca existió

Já escrevi aqui sobre "Operación Desengaño", o romance onde se transforma em ficção uma legítima operação de contra-espionagem empreendida durante a segunda grande guerra mundial: a de enganar os nazistas, fazendo-os acreditar que a invasão do continente europeu dar-se-ia pela Córsega, Sardenha, Grécia e Balcãs, e não diretamente pela Sicília, como de fato aconteceu. Publicado em 1950 "Operação Desengaño" chamou muito a atenção do público, de forma que o serviço de segurança britânico, que havia sido responsável pela operação, decidiu não negar o fato. Imaginando que tal divulgação seria boa propaganda para o moral dos ingleses (eram tempos de guerra fria), decidiram revelar muitos detalhes de como deu-se a operação, que oficialmente chamou-se "carne moída", uma piada algo macabra. A trapaça envolveu lançar de um submarino o cadáver de um pretenso oficial inglês com documentos sigilosos, que fizessem o alto comando nazistas acreditar nos planos futuros dos aliados. Ewen Montagu foi o oficial da inteligência britânica que liderou toda operação. Diz a lenda que ele escreveu seu "O homem que nunca existiu" em apenas um final de semana. De qualquer forma, seu livro, publicado em 1953, foi um sucesso, vendeu milhões de cópias e foi rapidamente adaptado para o cinema, também com excelente resultado nas bilheterias. O livro de Montagu é tão interessante de ler quanto o de Duff Copper. Em certa medida é até melhor, pois há boas reproduções de fotografias, de mapas e gráficos, das cartas oficiais forjadas e de uma miscelânea de objetos que foram enviados junto com o cadáver do falso "comandante Martin", o tal homem que nunca existiu do título. Os dois volumes se complementam perfeitamente. Esse volume tem dois prólogos, um assinado pelo historiador John Julius Norwich, filho de Duff Copper, e outro assinado por Hastings Ismay, que foi chefe do estado maior durante o primeiro período em que Winston Churchill foi primeiro ministro inglês. Montagu admite várias vezes ao longo de sua narrativa que vários detalhes continuavam sob segredo de estado, principalmente o nome do subordinado seu que teve a ideia original, a identidade do morto e de como o serviço secreto acompanhou as movimentações nazistas que se seguiram a descoberta do corpo. Diversão de primeira. Pode até não ser verdade que Montagu escreveu seu livro em apenas um final de semana, mas este é o tipo de livro que o leitor não para de ler antes de terminar. Esses volumes editados pela Reino de Redonda (de Javier Marías) são mesmo ouro puro e fino. Ave, Marías!, sempre. Vale!
Registro #1437 (perfis e memórias #117)
[início: 13/06/2019 - fim: 05/07/2019]

"El hombre que nunca existió", Ewen Montagu, tradução de Antonio Iriarte, prólogo de John JUlius Norwich, Madrid: Reino de Redonda, vol. 34, (1a. edição) 2019, capa-dura 14,5x23 cm., 402 págs., ISBN: 978-84-947256-3-0 [edição original: The Man Who Never Was (London: Evans Brothers) 1953]

terça-feira, 6 de agosto de 2019

o apito do trem

Byrata é um sujeito industrioso. Ele edita vários livros por ano, dá consultoria e revisa livros dos outros, escreve os seus, produz cartuns e ilustrações sempre inventivas, agita o mundo da cultura e arte aqui de Santa Maria. Ganhei esse "O apito do trem" ainda no ano passado, quando fui à Feira do Livro de Porto Alegre, mas o livrinho perdeu-se nos guardados, meu escritório está uma confusão dos diabos. Noutro dia, eita! O livro apareceu do nada, estava ali, ao alcance da mão. Trata-se de um livrinho para quem está se alfabetizando, pode ser lido, mesmo por quem ainda tatibitate, pode ser ouvido por quem ainda nada sabe ler, pode ser também colorido. A história brinca com com os sentidos, com o apito de um trem que pode ser confundido com o apito de um navio, com a ideia que um navio possa navegar pelas coxilhas do Rio Grande, rumo ao Rio Uruguai. Mas como, se Santa Maria está há centenas de quilômetros do mar e tão próxima dos trilhos de trem? Byrata explica, com calma e sorriso franco. Preciso descobrir alguém que tenha um filhinho de colo, para presenteá-lo com esse belo livrinho. Vale!
Registro #1436 (infanto-juvenil #49)
[início-fim: 17/05/2019]
"O apito do trem: uma historinha para os netos", Byrata (Jorge Ubiratã da Silva Lopes), Santa Maria/RS: editora Rio das Letras, 1a. edição (2017), brochura 14x20 cm, 12 págs., ISBN: 978-85-65172-44-8

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

la cocina del mestizaje

Há muito tempo registrei algo aqui sobre Saber o no saber" e, bem recentemente, algo sobre "La cocina de los finisterres", volumes de uma coleção de livros dedicados a gastronomia presente nas histórias do detetive Carvalho, genial invenção de Manuel Vázquez Montalbán. Nas férias de julho, pensando em como seria bacana uma nova viagem para o sul espanhol, li este "La cocina del mestizaje", que trata da culinária que Montalbán entende como típica e entranhada de quatro comunidades autonómicas espanholas: Murcia, Andalucía, Extremedura y Canarias. Essa eleição, para ele, implica reconhecer que a arte culinária destas quatro regiões foram especialmente afetadas pelo contato entre povos muito distintos, culturas muito díspares, gentes muito diferentes, que em algum momento se fundiram ou se alicerçaram juntas, enfim, se mesclaram de uma forma bastante particular. Canárias recebeu gente das Américas e da África, aventureiros, e também era utilizada como porto de abastecimento e conexão com os magrebinos africanos; Andalucía e Murcia sobretudo recebeu séculos de influência dos povos árabes e dos judeus; Extremadura, por conta de sua acidentada geografia, recebeu gente de todas as partes, que vinham como que se afastar do mundo em pequenos povoados, e também foi um dia mais portuguesa do que é hoje, parte da reconquista portuguesa da península. O formato de apresentação deste volume é idêntico ao do "La cocina de los finisterres": ele digressa sobre os pratos típicos, as particularidades que distinguem uma região da outra, sempre com um olho na geografia e no clima, sempre com um olho na história e tradições do lugar. No caso específico deste volume ele fala da influência árabe e judaica na culinária de Murcia, Andalucía e Extremedura, assim como na influência dos produtos que vieram das índias ocidentais, das Américas espanholas, na culinária típica das ilhas Canárias. Múrcia é descrita como o território do arroz, o celeiro do Sul espanhol. Andalucía como a morada do Sol, das laranjas, dos doces. Extremadura se destaca pelos produtos derivados do porco, pelo jamón ibérico. As Canárias, além dos produtos alcançados no mar que as cercam, também tem uma culinária bastante influenciada pelos africanos do noroeste, Marrocos, Saara Ocidental, Argélia. Os textos dedicados a cada uma das autonomias são curtos, mas as receitas são numerosas. Livro bom mesmo para se ler enquanto se prepara algo para pessoas queridas, enquanto viajamos no tempo, sentimos o aroma dos cozimentos, ouvimos os risos e os copos que se chocam, fisgamos fragmentos de memória, que encantam, num turbilhão de sensações. Vale! 
Registro #1435 (gastronomia #40) 
[início 22/07/2019 - fim 01/08/2019]
"La cocina del mestizaje: viaje por las cazuelas de Murcia, Andalucia, Extremadura y Canarias - Carvalho Gastronómico, vol.3", Manuel Vázquez Montalbán, ediciones B (Zeta Bolsillo) Penguin Random House Group (1a. edição) 2008, brochura 12,5x20, 271 págs. ISBN: 978-84-9872-110-2 [edição original: 2002]

domingo, 28 de julho de 2019

el huevo de oro

"El huevo de oro" deixa-se ler com calma, como calmo deixa-se fluir o outono veneziano. Não se trata exatamente de uma investigação policial canônica, de um crime que precisa ser desvendado. Donna Leon nos apresenta antes sim a curiosidade quase mórbida de seu comissário Guido Brunetti, curiosidade em descobrir as razões de um sujeito que é portador de óbvias deficiências físicas e mentais, com mais de quarenta anos, não estar inscrito de forma alguma nos registros oficiais de Veneza, ser um pária absoluto, um homem sem nome, nem passado, nem identidade, e que está morto, talvez por acaso. Antes de alcançar a razão para a morte deste sujeito desafortunado, Donna Leon oferece ao leitor boas reflexões sobre a sociedade italiana, os hábitos entranhados de sua gente, as regras de conduta distintas entre o Norte e o Sul, o uso da linguagem e dos dialetos para aproximar e afastar indivíduos, o crescente apego das pessoas às redes sociais, a hegemonia dos terríveis conceitos politicamente corretos, a rapidez ilusória dos equipamentos que permitem comunicação instantânea entre nós. Oferece também seus usuais mimos, digressões sobre questões filosóficas, questões de linguagem, questões culturais contemporâneas. Foa, o piloto de uma lancha de serviço da chefatura de polícia, veneziano há mil gerações, e a eficiente comissária Griffoni, siciliana exilada em Veneza, ganham relevo nesta trama, ajudam Brunetti a entender as ancestrais motivações para o crime. Narrativa policial bem engendrada, conduzida. Interessante. Vale!
Registro #1434 (romance policial #87)
[início: 13/05/2019 - fim: 18/06/2019]
"El huevo de oro" (Brunetti #22), Donna Leon, tradução de Maia Figueroa Evans, Barcelona: Editorial Seix Barral / Booket #2561 (Grupo Planeta Manuscrito), 1a. edição (2014), brochura 12,5x19 cm., 319 págs., ISBN: 978-84-322-2249-8 [edição original: The Golden Egg (Zürick: Diogenes Verlag AG / Penguin Randon House Group) 2013]

quinta-feira, 25 de julho de 2019

la cozinha de los finisterres

Há mais de dez anos li "Saber o no saber", primeiro dos volumes de uma coleção de livro dedicados a gastronomia presente nas histórias do detetive Carvalho, genial invenção de Manuel Vázquez Montalbán. Aos poucos, durante esta década de aventuras e prazeres, de aborrecimentos e fracassos, encontrei, procurando eu mesmo em balaios de velhos sebos espanhóis, ou por encomenda, os demais quatro volumes da coleção. "La cocina de los finisterres" é o quinto e último dos volumes. Nele Montalbán trata da culinária das autonomias do norte espanhol: Galícia, Astúrias, Cantábria e País Basco. Montalbán não é um iniciante, um neófito, um diletante. Ele escreve sobre o que bem conhece, oferece boas referências, contextualiza cada um de seus argumentos. O texto é super rico, informativo, gostoso de ler. Mais da metade do livro é dedicado as receitas, que podem ser facilmente encontradas ou pela função em uma refeição (entradas, acompanhamentos, pratos principais e sobremesas), ou por ordem alfabética. Uns poucos trechos de seus romances policiais ilustram o quê ele fez o detetive Carvalho dizer sobre cada culinária. Para cada uma das autonomias ele digressa sobre os pratos típicos, as particularidades que distinguem uma região da outra, sempre com um olho na geografia e no clima, sempre com um olho na história e tradições do lugar. A arte culinária para ele implica tanto em aprender-se o quê fazer em uma cozinha e quanto ao como se portar em uma mesa de refeições. O leitor é conduzido para o mar e a montanha, para o campo e os rios que correm para o mar, para as hortas e fazendas, para os mercados públicos, as festas típicas de cada uma das autonomias. Os capítulos dedicados a culinária galega e a do principado de Astúrias têm a mesma extensão, um quarto do livro; aquele dedicado a cozinha da Cantábria é um tanto menor (Montalbán alerta que durante séculos Cantábria era apenas a saída para o mar da hegemônica Castilla. O capítulo sobre a culinária do País Basco é o mais extenso e detalhado. Já nos anos 1980, quando conheci algo da cozinha basca, ela já se destacava no cenário gastronômico mundial. Lembro-me da primeira vez que a conheci, num longínquo final dos anos 1980, lá em Donostia/San Sebastián, quando tudo parecia acontecer em ritmo lento, de contos de fada, de encantamento e magia, quando saímos de copas, em busca de tapas e zuritos, que custavam "cinco duros", uma pechincha, "Drowning in honey, stingless", sempre, mas esta é outra história. Vamos em frente. Vale! 
Registro #1433 (gastronomia #39) 
[início 01/06/2019 - fim 20/06/2019]
"La cocina de los finisterres: viaje por las cazuelas de Galicia, Asturias, Cantabria y el País Vasco - Carvalho Gastronómico, vol.5", Manuel Vázquez Montalbán, ediciones B (Zeta Bolsillo) Penguin Random House Group (1a. edição) 2008, brochura 12,5x20, 320 págs. ISBN: 978-84-9872-108-9 [edição original: 2002]

segunda-feira, 22 de julho de 2019

sumchi

Lê-se esse pequeno livro com uma alegria incontida, página a página, nas quais acumulamos surpresas e espantos. Amós Oz registra em livro, numa linguagem que é ao mesmo tempo rica e acessível, especialmente ao público mais jovem - a quem o livro é direcionado - o que talvez seja mesmo um fragmento de sua memória, um recorte de sua própria vida. É quase um conto de fadas. Amós Oz descreve o que talvez tenha sido o momento vivido de sua metamorfose para ser um contador de histórias, sua transformação em um inventor literário, um escritor. O leitor encontra um narrador que vive em um Israel ainda administrada pelos ingleses. O narrador sabe que sua história é banal, poderia ser resumida em uma única frase, todavia, ao longo das poucas horas deste dia, para ele especial, o sujeito descobre os desdobramentos do amor, da amizade, das relações comerciais, da ética, da vida em sociedade, da estranheza que há entre pais e filhos, da existência do acaso, dos azares e das sortes. Livro realmente bem bacana. Li em um dia aziago, mas que me fez sonhar na noite seguinte como uma criança, como alguém liberto de toda culpa e preocupação. Recomendo. Vale! 
Registro #1432 (infanto-juvenil #48)
[início: 29/06/2019 - fim: 30/06/2019]
"Sumchi: uma fábula de amor e aventura", Amós Oz, tradução de Paulo Geiger, São Paulo: editora Schwarcz (Companhia das Letras / Penguin Random House), 1a. edição (2019), capa-dura 12,5x18 cm., 128 págs., ISBN: 978-85-359-3214-0 [edição original: 1978]

sexta-feira, 19 de julho de 2019

sentimental

Há dois ou três meses, lá na boa livraria Taverna, em Porto Alegre, encontrei este volume. Nunca havia lido nada de Eucanaã Ferraz, poeta e professor universitário carioca, já premiado e respeitado por seus pares. Neste seu "Sentimental", publicado em 2012, ele apresenta 57 poemas. As formas são bem variadas, as imagens calmas, nunca há agressividade neles, nos poemas. Ele fala do cotidiano, da vida, das viagens, de um apartamento, de animais, da arquitetura, da memória de fatos recentes. Há uns ecos da América espanhola, ou de viagens e inspirações paulistas e lisboetas, de poetas que talvez sejam seus precursores, poetas que talvez lhe sejam especialmente caros: Murilo Mendes, Ferreira Gullar, Sophia Andresen, Cícero, Wislawa Szymborska. Num dos poemas, "Só faço verso bem-feito", verso que ele achou na lavra de João Martins de Ataíde (via Câmara Cascudo), Eucanaã achincalha um poeta morto inominado, ri de alguém que o incomodava. Gostei do efeito. Preciso procurar mais cousas deste sujeito. Vamos a ver. Vale! 
Registro #1431 (poesia #116)
[início: 19/04/2019 - fim: 19/06/2019]
"Sentimental", Eucanaã Ferraz, São Paulo: editora Schwarcz (Companhia das Letras / Penguin Random House), 1a. edição (2012), brochura 14x21 cm., 91 págs., ISBN: 978-85-359-2167-0

terça-feira, 16 de julho de 2019

epigramas

Foi Luiz-Olyntho, querido amigo, em fevereiro do ano passado, no dia do lançamento do opus magnun de Abdon Grilo (seu potente estudo sobre o Ulysses de James Joyce), quem me cantou pela primeira vez essa joia rara de Marco Valério Marcial, editada pela Ateliê. Demorei, mas encontrei meu exemplar. Agora ele está aqui, perto de mim, todavia ainda estranhando seu lugar no coração selvagem de minha biblioteca. "Epigramas" é um livro arte, de um livro objeto, um pequeno milagre, pois sobreviveu aos séculos. Nele está reunido um robusto conjunto de 219 epigramas de Marcial, um "catalão" romano que viveu no primeiro século da era cristã. Epigramas são aforismos poéticos, cousas engenhosas que acrescentam à máximas aforísticas em prosa algo de invenção poética, algo de beleza, algo único que só os poetas sabem produzir. Alguns são curtos, curtíssimos, outros mais longos, quase registros de um diário, não exatamente epigramas, mas sim apontamentos de alguém que sabe aproveitar a vida, ri de si e de seus semelhantes. O tom sempre é dúbio, satírico, remonta a uma festividade, uma alegria incontida, um sarcasmo duro (isso talvez diria um acadêmico, um scholar, um homem das letras profissional). Eu mesmo leio essas pequenas máximas com uma espécie de sociologia selvagem, um compêndio de fofocas, de descrições de comportamentos sexuais, de bobas frases de duplo sentido, um manual de wit, de sagacidade, do tipo que usualmente costumamos associar também aos ingleses, talvez aos ingleses de um tempo mais afortunado. Enfim, Marcial parecia ter a inusual capacidade de resumir em breves aforismos o espírito de sua época, algo que lhe granjeou sucesso literário ainda em vida, sendo bastante conhecido tanto na Roma imperial, quanto nas províncias mais afastadas. A edição é bilíngue, e as notas, seleção, tradução e posfácio assinados por Rodrigo Garcia Lopes. O volume é composto por doze cadernos grampeados, presos por elásticos (e doze é exatamente o número de livros que Marcial publicou em vida, um mimo dos editores). Os cadernos, que são independentes, podem ser lidos simultaneamente por várias pessoas, em uma festa ou encontro literário. Acho que pode funcionar. É isso. Segue o baile. Vale! 
Registro #1430 (poesia #115) 
[início: 02/02/2018 - fim: 16/06/2019] 
"Epigramas", Marco Valério Marcial, tradução de Rodrigo Garcia Lopes, Cotia/SP: Ateliê Editorial, 1a. edição (2017), 14 cadernos grampeados, capa-dura, presos com elásticos, 14x21 cm., 522 págs., ISBN: 978-85-7554-80752-2 [edição original: circa 86 d.C.; organização original em inglês: Epigrams (D. R. Shackleton Bailey, Cambridge: Harvard University Press) 1993 e (Walter C. A. Ker, Cambridge: Harvard University Press) 1968]

sábado, 13 de julho de 2019

o eremita viajante

Esse livro me acompanha há quase dois anos. O recebi ainda no final de 2017, como se fosse um presente de Natal vindo de longe, ofertado por um generoso e amigo duplo meu. Pensei em ler um haiku por dia, a partir de janeiro de 2018, e terminar um tanto antes de alcançar meus 60 anos, mas não foi isto que aconteceu. Passei a ler com calma, uns poucos haikus de cada vez, se não tão vagaroso quanto previa meu projeto original, suficientemente lento para prolongar ao máximo um genuíno e raro prazer. "O eremita viajante" é a primeira publicação em português de todos os haikus conhecidos de Matsuo Bashô, o maior, mais seminal dos artífices deste gênero literário, o poeta nacional japonês, o sujeito que parece concentrar o espírito de todo um povo, de toda uma civilização. São 978 poemas, organizados pelo tradutor Joaquim Palma em ordem cronológica de composição, de 1663 a 1694, além de outros 24 não datados, totalizando portanto, 1002 poemas. O organizador e tradutor do livro escolheu também separá-los de acordo com as quatro estações do ano ("Outono", "Inverno", "Primavera", "Verão") e em dois conjuntos extras ("Ano Novo" e 'Outros"). Desta forma o leitor parece acompanhar trinta anos de vida e evolução poética de Bashô, experimentar com ele a passagem do tempo, num "the dark backward and abysm of time", como nos ensinou Próspero, ou melhor, Shakespeare. A edição é muitíssimo bem cuidada, completa. Inclui uma longa introdução, que nos ensina muito sobre Bashô, seu tempo e influências; sobre técnicas de composição do haiku e técnicas de tradução; além de um generoso glossário e uma detalhada bibliografia. Livros assim são uma festa para os sentidos, nos fazem um grande bem, pois ao mesmo tempo em que aprendemos  algo de todo um universo literário, somos estimulados a perceber nos fragmentos de nossas memórias, impregnadas pela passagem do tempo, o fluir das estações, o assombro daquilo que pode ser observado, sentido, vivido. O leitor aprende algo da disciplina filosófica zen, do desapego, da leveza, da fusão entre imagens e versos que talvez devam existir na base da composição de qualquer poema, sobretudo nos haiku, sendo muito mais importantes que a mera técnica, a mera contagem das sílabas, da métrica. Segundo o tradutor Joaquim Palma "(...) no fim da vida, nos seus derradeiros haikus, Bashô parece libertar-se quanto à exposição das emoções, às ações da vontade, à afirmação do eu".  Esse belo livro permanecerá em minha estante, sempre ao alcance da mão, como um viático, um eficiente lenitivo para todos os aborrecimentos desta vida. Sigamos. Vale!
Registro #1429 (poesia #114)
[início: 23/12/2017 - fim: 30/06/2019]

"O eremita viajante", haikus: obra completa, Matsuo Bashô, tradução de Joaquim M. Palma, Lisboa: Assírio & Alvim (Grupo Porto Editora), coleção documenta poetica 155, (1a. edição) 2016, capa-dura 15,2x21,2 cm., 424 págs., ISBN: 978-972-37-1920-8

quarta-feira, 10 de julho de 2019

operación desengaño

"Operación Desengaño" é um romance onde se transforma em ficção uma legítima operação de contra-espionagem empreendida durante a segunda grande guerra mundial: a de enganar os nazistas, fazendo-os acreditar que a invasão do continente europeu dar-se-ia pela Grécia e os Balcãs, e não pela Sicília, como de fato aconteceu. Duff Cooper, visconde de Norwich, o autor deste romance, foi diplomata e escritor. Ele teve notícia desta mirabolante trapaça e publicou em 1950 uma versão romantizada dos sucessos. Posteriormente, em 1953, Ewen Montagu, o oficial da inteligência naval britânica que de fato engendrou a coisa toda, publicou um relato documentando seu projeto. Mas o que vou registrar hoje aqui é só a metade ficcional do livro. Lê-se "Operación Desengaño" com genuíno prazer. Quase todo o livro trata da vida de um sujeito, Willie Maryngton, que era jovem demais para participar da primeira grande guerra e velho demais para participar da segunda grande guerra. Esta circunstância faz dele uma pessoa amargurada, deprimida, incapaz de decidir-se sobre o quê fazer da vida, eternamente imaturo. Maryngton ingressa no exército, serve durante longas temporadas na Índia, no Egito e no campo inglês, mas nunca chega a envolver-se em combates, como sempre desejou. Lembrei várias vezes do "Goodbye to all that", de Robert Graves, onde ele fala de sua terrível experiência com os horrores da primeira grande guerra. Duff Cooper constrói um personagem que o permite descrever muito vividamente a atmosfera inglesa do período entre guerras, com sua rígida estrutura de classes, códigos de conduta, disciplina militar, regras de sucessão familiar, clubes masculinos. Nos diálogos, toda a verve que estamos acostumados a associar aos ingleses como que transborda. É um livro realmente gostoso de ler, sem grandes sobressaltos, reviravoltas, muito bem escrito. Em breve vou conferir a segunda parte do livro, a documental, de Montagu, para conferir até que ponto Duff Cooper apropriou-se da realidade em sua divertida invenção literária. Sigamos. Vale!
Registro #1428 (romance #359)
[início: 13/06/2019 - fim: 14/06/2019]

"Operación Desengaño", Duff Cooper, tradução de Antonio Iriarte, prólogo de John JUlius Norwich, Madrid: Reino de Redonda, vol. 34, (1a. edição) 2019, capa-dura 14,5x23 cm., 402 págs., ISBN: 978-84-947256-3-0 [edição original: Operation Heartbreak (London: Rupert Hart-Davis) 1950]

sábado, 6 de julho de 2019

do que falamos quando falamos de amor

Neste volume encontramos dezessete contos de um dos grandes mestre do gênero, o norte-americano Raymond Carver, morto já há mais de trinta anos. São histórias sempre curtas, quase fragmentárias, de vidas de quem o leitor não precisa saber muito, apenas o que foi dito ali em poucas páginas. Seus contos são frequentemente ditos minimalistas, mas não são fáceis nem de ler, e muito menos de escrever. Lembro-me de ter lido alguns logo após ter visto "Short Cuts", um bom filme do sempre bom Robert Altman, mas isso também foi há quase trinta anos. Os contos de Carver gravitam sempre dificuldades de comunicação, vidas em desacerto, problemas com o álcool, momentos decisivos de alguém. Ele alcança fixar a atenção do leitor não com descrições detalhadas, correrias, mimos culturais, mas sim com diálogos algo diabólicos, que sintetizam todo um complexo contexto, conversas que nos magnetizam. Além dos diálogos os contos primam pelo uso exemplar da técnica de fluxo de consciência. Nem tudo precisa ser dito. Nem tudo precisa ser apresentado diretamente ao leitor. Não vou tentar resumir aqui os fatos das curtas histórias do livro. A mágica literária de Carver não está nos fatos em si, mas em como aqueles personagens são enredados em situações que cada um de nós compreende bem. Ao mesmo tempo, não se trata apenas de verossimilhança, mas da capacidade de desnudar nossa muita humana habilidade de mentir para nós mesmos, de negar a realidade, de fingir e, também, de amar. Grande escritor. Vale!
Registro #1427 (contos #165)
[início: 12/07/2017 - fim: 06/07/2019]
"De que falamos quando falamos de amor", Raymond Carver, tradução de Carlos Santos, Lisboa: Relógio D'Água Editores, 1a. edição (2015), brochura 13x20 cm., 150 págs., ISBN: 978-989-641-517-4 [edição original: What We Talk About When We Talk About Love (New York: Alfred A. Knopf) 1981]

quarta-feira, 3 de julho de 2019

a bloomsday postcard

No mês passado, no 16 de junho, domingo, ao contrário do que tinha feito reiteradamente durante trinta anos, resolvi não participar em um lugar público de uma festa literária que realmente me agrada, o Bloomsday. Estava aborrecido, casmurro demais, com questões ainda não resolvidas em minha vida, cansado. Não era hora de eventualmente ofender pessoas susceptíveis a meus caprichos, a meu humor variável, a meu eu irascível. Decidi ficar apenas com as meninas, Helga e Natália; com os gatos, Salen, Lilica, Kyo, Sissy e Nicolau; com os livros de minha biblioteca, sobretudo os livros de Joyce; com meu Bushmills; com a música de Marcelo Tápia e seus Irish Dreams. Um dos livros ao qual sempre retorno nesses festejos do Bloomsday é "A Bloomsday Postcard", de Niall Murphy, publicado originalmente no centenário do dia dedicado a comemorar os sucessos narrados no "Ulysses", que é o 16 de junho de 1904. Trata-se de um volume onde estão registradas reproduções de 252 cartões postais que foram enviados ou recebidos em Dublin em 1904. Murphy, um velho antiquário e comerciante de livros irlandês, reuniu esses 252 cartões e aproveita, tanto a imagem/ilustração quanto o texto escrito pelos remetentes, para falar da Irlanda, de Dublin, do povo irlandês, dos personagens literários que gravitam James Joyce, dos incidentes e passagens que são narradas no Ulysses. O resultado é muito especial. O leitor é conduzido pelos capítulos do Ulysses, enquanto Murphy mostra as associações que existem entre o texto do livro de Joyce e os múltiplos signos dos cartões postais. Um dos capítulos mais interessantes é aquele dedicado às Rochas Serpeantes, as Wandering Rocks, que Murphy metamorfoseia em Wandering Characters. Nesta parte do livro todos os postais fazem alusão a passagens específicas do livro e são apresentados verbetes em ordem alfabética de uma miríade de personagens nele citados. O leitor não precisa ser um aficionado pelo mundo literário de Joyce para aproveitar "A Bloomsday Postcard". Basta ter alguma curiosidade sociológica sobre a Irlanda e os irlandeses do início do século passado para garantir horas de diversão. Deve-se lembrar que praticamente não existia comunicação via telefone naquela época e o uso de cartões postais era uma forma popular, prática e efetiva de contato entre as pessoas. Segundo Murphy em Dublin ocorriam seis entregas diárias de correspondência de segunda a sábado (e uma aos domingos). Impressionante. A edição (da boa Lilliput Press) é uma maravilha, de excelente qualidade. Um dia com um livro como este não é um dia perdido. De resto, vamos a ver o que acontecerá no Bloomsday do ano que vem. Vale! 
Registro #1426 (livro de arte #30)
[início: 01/06/2019 - fim: 16/06/2019]
"A Bloomsday Postcard", Niall Murphy, Dublin/Ireland: Lilliput Press, 1a. edição (2004), brochura 17x24 cm., 322 págs., ISBN: 978-1-84351-43-X

segunda-feira, 1 de julho de 2019

la palabra se hizo carne

Neste volume, o vigésimo primeiro das adoráveis aventuras do comissário Brunetti engendradas por Donna Leon, acompanhamos a investigação sobre a morte de uma pessoa desfigurada, sem documentos, que aparece em um dos canales de Veneza. Brunetti, com a ajuda dos leais Viannello, Elettra, Pucetti e Foa, alcançam descobrir a identidade do sujeito e as razões de seu assassinato. Patta, o tolo questore que supervisiona a delegacia onde Brunetti trabalha, ganha alguma consideração neste volume, pois não usa sua influência e poder para ajudar um de seus filhos nos exames finais em sua universidade; Paola, sua engenhosa mulher, resolve com maestria questões acadêmico e/ou políticas em sua universidade; seus filhos, Chiara e Raffa, cresceram um bocado, e se espantam com o conhecimento do pai sobre a história italiana e a participação dos jovens italianos na primeira grande guerra mundial; Rizzardi e Bocchese, respectivamente, legista e cientista forense, que prestam serviços a Brunetti, aparecem episodicamente, mas mostram o caminho seguro que ele deve seguir na investigação. A trama envolve basicamente uma questão moral, onde a avareza funciona como motor de um crime. Um médico veterinário, que trabalha em um grande abatedouro, nas proximidades de Veneza, é morto. Donna Leon oferece ao leitor suas costumeiras reflexões sobre questões de meio ambiente, gastronomia, turismo, imigração, mobilidade social, corrupção, problemas educacionais e intrigas típicas da política italiana. Livro primaveril, sem acqua alta, sem grandes sobressaltos, sem caminhadas pela cidade, que se resolve no continente, longe dos canales, campos, fondamentas e sestieres de Veneza. Bem interessante. Vale!
Registro #1425 (romance policial #86)
[início: 30/05/2019 - fim: 05/06/2019]
"La palabra se hizo carne" (Brunetti #21), Donna Leon, tradução de Beatriz Iglesias Lamas, Barcelona: Editorial Seix Barral / Booket #2478 (Grupo Planeta Manuscrito), 1a. edição (2013), brochura 12,5x19 cm., 336 págs., ISBN: 978-84-322-1487-5 [edição original: Beastly Things (Zürick: Diogenes Verlag AG / Penguin Randon House Group) 2012]

sábado, 29 de junho de 2019

cozinha de estar

Ainda em novembro inventei de mandar fazer móveis novos para a cozinha aqui de casa. A coisa obviamente demorou mais do que planejávamos, Helga e eu, impedindo nossos planos de convidar os amigos para nos visitar ainda nas férias. Na época das festas de Natal comprei "Cozinha de estar", de Rita Lobo, justamente para inspirar-me para os encontros que não aconteceram. Paciência. De qualquer forma experimentei algumas das receitas do livro. Acontece que Rita Lobo é a única das apresentadores de programas de culinária na televisão que eu realmente gosto de ver. Ela é bem humorada, objetiva e realmente sabe oferecer as informações necessárias para tornar a experiência na cozinha uma coisa agradável. Neste volume ela se concentra em sugerir pratos que sejam produzidos exatamente para receber convidados, dos preparativos as entradas, sopas, saladas e molhos, dos pratos principais e acompanhamentos as sobremesas e os drinques. O livro é fartamente ilustrado, com fotografias que transportam o leitor para um mundo de sonho, de hedonismo completo, de possibilidades, que antecipa deleite e prazer. Ela ensina coisas simples, como o procedimento correto de lavar e preparar saladas, ou a forma mais fácil de limpar peixes, mas também técnicas sofisticadas, com as quais o risco de alguma coisa dar errada é minimizado. As fotografias dos utensílios, do material básico que se deve ter para montar uma mesa de jantar, são por vezes mais impressionantes e bonitas que aquelas dos pratos. Vamos a ver se antes do final do semestre eu consigo mostrar minhas habilidades culinárias (e esse belo livro da Rita Lobo) para o povo amigo. Vale!
Registro #1424 (gastronomia #38)
[início: 22/12/2018 - fim: 12/04/2019]
"Cozinha de estar: Receitas práticas para receber", Rita Lobo, São Paulo: Editora Senac São Paulo, Editora Panelinha, 1a. edição (2016), capa-dura 19,5x25 cm, 272 págs. ISBN: 978-85-396-1104-1

quinta-feira, 27 de junho de 2019

yawalapiti, filhos da natureza

Paulo de Araújo é fotógrafo e gaúcho, mas vive em Brasília há décadas. Tempos atrás ele fez algumas viagens ao Parque Nacional do Xingu, no Mato Grosso, especificamente para a aldeia Yawalapiti, onde teve a oportunidade de produzir um belo registro fotográfico dos costumes, ritos e festas daquele povo. Noutro dia vi fotos dele expostas no glorioso Café Cristal, no centro de Santa Maria, e fiquei impressionado com a força das imagens que ele fez.  Comprei ali mesmo esse livro/catálogo, que inclui um longo texto de Clara Arreguy, mineira também radicada há tempos em Brasília. O texto é resultado de conversas entre Clara e Paulo, e também de alguma pesquisa etnográfica bem feita. O leitor é apresentado a história, costumes, regras de conduta, cerimônias e cotidiano dos Yawalapiti. Eles são poucos, um tanto menos que 500 indivíduos, mas demonstram nas fotos uma energia, uma alegria de viver, uma coragem, que encantam o vivente, o leitor. As imagens dominam o livro, mas a narrativa alcança produzir no leitor interesse na necessária luta em defesa daquela cultura, daquele modo de vida, daquela gente que é brasileira, como nós. Vale a pena também conferir também um curto video-documentário que Paulo de Araújo fez durante uma de suas viagens: "Xingu, um olhar (2012)". ÔBeleza. Vale! 
Registro #1423 (fotografia #12) 
[início: 03/05/2019 - fim: 05/05/2019]
"Yawalapiti, filhos da natureza", Clara Arreguy (texto) e Paulo de Araújo (fotos), |Brasília: Outubro Edições, 1a. edição (2019), brochura 19x19,5 cm., 25 págs. ISBN: 978-85-54818-24-1

terça-feira, 25 de junho de 2019

mañana tendremos otros nombres

Patricio Pron é argentino, tem pouco mais de quarenta anos, está radicado em Madrid há uma década pelo menos e já publicou bastante (é autor de mais de oito romances e seis volumes de contos). "Mañana tendremos otros nombres" é seu romance mais recente, recebeu o "Prêmio Alfaguara de novela de 2019". Foi Glória, amiga querida, quem fez menção a esse autor e esse livro, num dia mágico ali em Porto Alegre, dia que sempre deveria ser repetido, ai de nós. A narrativa é interessante, tenta captar as muitas possibilidades de uma separação afetiva, os aborrecimentos que fazem com que um casamento termine, as misérias do fim de um relacionamento. É preciso que o leitor aceite que esse fato é mais do que corriqueiro, afinal as dores e os desdobramentos de qualquer separação de um casal que um dia se amou talvez seja das poucas coisas que todo ser humano sabe muito bem, em cada época de nossa história, em cada lugar do planeta, em qualquer configuração de amores. Tudo bem, mas o resultado não me convenceu muito. Acho que Patricio Pron tentou colocar no livro o máximo de experiências que usualmente derivam desta situação, relativizando tudo. Além disto o livro é muito esquemático. Ele separa seus capítulos temporalmente, identificando as ocorrências afetivas em 24 horas (após a separação), em uma semana (antes ou após a separação), em cinco anos (o tempo do relacionamento), em uns poucos minutos (de um reencontro algo ex-machina), em 7 meses (o tempo de separação dos protagonistas). A mulher e o homem, nunca nominados, uma arquiteta e um escritor, parecem artificiais demais, recortados demais. Pron povoa a narrativa com vários outros personagens, que são aqueles que usualmente são partícipes do fim de um relacionamento, queiram ou não: os colegas de trabalho, os melhores amigos, os chefes imediatos, os vizinhos, os estranhos que surgem, todos aqueles que de alguma forma os reconhecem como casal. Agora registro algo bobo, fazer o quê? Pron faz um dos personagens visitar o Brasil em algum momento da trama. A descrição de nossas misérias não poderia ser mais cruel, porém verdadeira, mas isso pouco importa, trata-se apenas de um acréscimo sociológico, um afastamento necessário para fazer a narrativa fluir. O que ele fala do Brasil poderia ser dito de qualquer outro país do mundo. Paciência. Agora um registro positivo. O livro faz menção a um curioso "Museum of broken relationships", que existe sim em Zagreb, na Croácia, onde são exibidos objetos associados ao fim de relacionamentos de pessoas do mundo inteiro. Trata-se de um museu de arte conceitual, onde materialidade e relatos da memória e afetos perdidos restam guardados e são exibidos ao público. Para quem gosta de se divertir com os aborrecimentos alheios - ou entender algo da psique humana - é bastante divertido - ou útil. Pobre bicho. Manuel Bandeira já nos ensinou que "(...) os corpos se entendem, mas as almas não". Este é nosso humano defeito básico (e a asserção pode ser invertida, corpos e almas sempre comutam). Enfim, acho que essa tentativa do jovem Patricio Pron de mostrar literariamente como funciona o processo de uma separação pode ser inteiramente resumida num único poema de Manuel Bandeira. Melhor assim. Vale! 
Registro #1422 (romance #358) 
[início: 29/05/2019 - fim: 30/05/2019]
"Mañana tendremos otros nombres", Patricio Pron, Madrid: Alfaguara (Grupo Santillana de ediciones / Penguin Random House Grupo Editorial), 1a. edição (2019), brochura 15x24 cm, 375 págs. ISBN: 978-84-204-3487-2