domingo, 19 de maio de 2019

torquato neto

Torquato Neto foi dos mais inventivos poetas de seu tempo, um tempo que ele mesmo abreviou, talvez por não suportar os terríveis anos que se sucederam a instalação do regime militar no Brasil, nos anos 1960, talvez por ser um depressivo crônico, talvez por ser o mundo um lugar revoltante para qualquer pessoa sensível, talvez por alcoolismo, vai saber. Muitas canções de sucesso de Gilberto Gil, Jards Macalé, Caetano Veloso, Edu Lobo, Titãs e tantos outros foram concebidas a partir de poemas seus. Cláudio Portella, poeta cearense e produtor/agitador cultural dos bons, organizou uma seleção de poemas de Torquato Neto para a Global, competente editora paulista. Dele, Portella, já havia lido o potente "Paraphoesia" e o provocante "Fraturas de relações amorosas". Do Torquato li minha cota selvagem nos anos 1980, mas acho que só lembrava das lendas e sucessos associados a ele que de sua produção poética. A bem da verdade fazia duas décadas que não lia algo dele. O resultado da seleção de Portella é um livro bem bacana, bem editado, que apresenta ao neófito leitor aqueles poemas viscerais de Torquato, que misturavam concretismo, jornalismo, forma, olhar privilegiado da realidade, denúncia, raiva, contracultura e genuíno amor pelas cousas do Brasil. São 113 poemas, livres e soltos, nem um pouco convencionais, supérfluos, nem um pouco malemolentes. O leitor é obrigado a gastar um tanto de tempo nos poemas, não são fáceis de ler. O livro inclui uma apresentação de Cláudio Portella e uma cronologia biográfica que pode ser lida no site Dicionário Cravo Albin da MPB, projeto bacana da UNIRIO. Vale!
Registro #1402 (poesia #113) 
[início: 19/01/2019 - fim: 21/03/2019]
"Melhores poemas: Torquato Neto", Torquato Neto, seleção de Cláudio Portella, São Paulo: Global Editora (Pocket / coleção Melhores Poemas),1a. edição (2018), brochura 13,5x18 cm., 200 págs., ISBN: 978-85-260-2380-2

sexta-feira, 17 de maio de 2019

poesia religiosa

Achtung! Não posso dizer que li esse livro completamente, mas li sim os poemas incluídos nele e algo esparso do rico material que Marcus de Martini acrescentou aos poemas religiosos de John Donne que traduziu. Acontece que esse volume da UFSC reúne pelo menos quatro portentos: a edição bilíngue de poemas religiosos de John Donne; uma exaustiva análise das circunstâncias e importância destes poemas (um robusto paper); uma miríade de notas de tradução, que dão conta dos critérios utilizados pelo tradutor e um "Excurso", uma digressão sobre a Poesia e a Teologia de John Donne, a recepção dos poemas ao longo do tempo (Donne é um poeta do século XVII). De resto também encontramos no livro uma apresentação de Lawrence Pereira, premiado tradutor e professor. Marcus de Martins é um jovem pesquisador, defendeu seu doutoramento em 2011 e é professor da UFSM. Em 2017 ele ganhou o Concurso Cleber Teixeira de Tradução de Poesia da UFSC. Isso possibilitou sua edição deste belo volume. Ao leitor é oferecido todo um aparato técnico de como deu-se a tradução dos poemas. Ojo. Vamos ver o que mais sairá da lavra deste jovem pesquisador. Enfim. Os poemas que de fato li são 26 sonetos, 3 hinos e 1 outro, de métrica diferente, também de inspiração religiosa, de tema religioso. Mesmo o mais ferrenho e endurecido coração ateu, como parece ser o meu, acompanha as belas propostas, imagens e o deslumbramento captado por Donne, com genuíno prazer. Comprei este livro na Feira do Livro de Santa Maria do ano passado e só lembrei, ai de mim, que devia registrar algo sobre ele aqui, por estes dias, quando a Feira deste ano também já terminou. Bom divertimento. Vale!
Registro #1401 (poesia #112)
[início: 16/05/2018 - fim: 19/04/2019]
"Poesia religiosa: Antologia", John Donne, tradução, seleção e notas de Marcus de Martini, Florianópolis: Editora da UFSC, 1a. edição (2017), brochura 12x19 cm., 319 págs., ISBN: 978-85-328-0809-7

quinta-feira, 16 de maio de 2019

o valor das ideias

Pedro da Silva Nava, o melhor dos memorialistas brasileiros, disse num dia dos anos 1980, em uma famosa entrevista: "A experiência é um automóvel com os faróis virados para trás, (...) só serve para o sujeito dizer 'fiz bem', 'fiz mal' ". Marcos Lisboa e Samuel Pessôa, bem mais jovens e otimistas que o velho Nava, parecem não acreditar na eficiência desta sentença. Neste "O valor das ideias" eles oferecem ao leitor algo das reflexões e experiências deles sobre o passado recente do Brasil e dos brasileiros, e acreditam que os possíveis futuros do Brasil poderão ser gestados a partir de diálogos, debates, interlocução inteligente. São ensaios que tratam do mundo das ideias, da economia e da política. Quase todos os 23 textos reunidos neste volume foram anteriormente publicados em jornal (Folha de São Paulo) e em uma revista (Piauí), por eles dois e outros 11 intelectuais brasileiros. Alguns textos foram publicados e podem ser acessados em um blog do Instituto Brasileiro de Economia (IBRE/FGV). Os ensaios estão organizados em quatro conjuntos, correspondendo a debates (ou a diálogos, como preferem os autores), que aconteceram em 2016, 2017 e 2018. Os diálogos foram travados sempre com vigor, algumas vezes no limite da fúria, mas sempre com civilidade, autocontenção (para usar um termo caro a todos os sujeitos que deles participaram). O mais longo dos quatro conjuntos de diálogos, que ocupa 40% do livro, foi entre Ruy Fausto e Samuel Pessôa, merecendo contribuições de Marcelo Coelho e de Marcos Lisboa. Trata-se de discussões sobre o papel das esquerdas na sociedade brasileira contemporânea, se as estratégias e as práticas deste grande conjunto de agremiações nos últimos anos devem ser modificadas ou mantidas. Dois outros conjuntos de ensaios, de igual extensão e que juntos somam 50% do livro, correspondem ao debate entre Fernando Haddad e Marcos Lisboa (sobre os quatorze anos de governos petistas em contraste com os oito anos de governo FHC) e ao debate entre Celso Rocha de Barros, Marcos Lisboa e Samuel Pessôa (sobre "comedimento", ou "senso de medida", ou como a "virtude que nos protege da tragédia", nas palavras de um interlocutor deles três, Helio Gurovitz, que pode ser acessado aqui: clika!). Um quarto e último conjunto, que é o menor de todos, é também o mais antigo e o mais frouxo deles, acho eu. Trata-se de ensaios onde são contrastadas as práticas de economistas políticos ortodoxos e heterodoxos. Com a exceção dos ensaios publicados no blog do IBRE, acho que já havia lido quase todos os demais, quando foram originalmente publicados. Relendo-os agora não é muito difícil de aceitar que naquela época ainda havia tempo para evitar a tragédia absoluta que experimentamos hoje, 2019, em todos os setores da sociedade. Agora parece tarde demais para tudo, serão décadas e décadas perdidas, em sucessão, antes que alguma inteligência volte a administrar as coisas por aqui. Todavia, a se acreditar no otimismo deles dois, e de boa parte de seus interlocutores, talvez seja possível que em algum momento o Brasil saia do absoluto atoleiro em que se encontra. Em tempo: Esse é o registro número 1400 deste Livros que eu li, 1400 leituras feitas desde janeiro de 2007. Foram 0,30 livros por dia, 2,2 por semana, 9,5 por mês, 117 por ano. Quantos mais terei a paciência de fazer? Não muitos mais, eu suponho. Vamos a ver. Vale!
Registro #1400 (crônicas e ensaios #256)
[início:01/05/2019 - fim: 15/05/2019]
"O valor das ideias: debates em tempos turbulentos", Marcos Lisboa e Samuel Pessôa, diálogos com Ruy Fausto, Fernando Haddad, Marcelo Coelho, Celso Rocha de Barros, Helio Gurovitz, Luiz Fernando de Paula, Elias M. Khalil Jabbour, José Luis Oreiro, Paulo Gala, Pedro Paula Zahluth Bastos, Luiz Gonzaga Belluzzo, prefácio de Renato Janine Ribeiro, São Paulo: editora Schwarcz (Companhia das Letras / Penguin Random House), 1a. edição (2019), brochura 14x21 cm., 459 págs., ISBN: 978-85-359-3215-7

quarta-feira, 15 de maio de 2019

guia fantástico de são paulo

Ángela Léon é uma ilustradora e designer espanhola. Durante um período longo ela morou em São Paulo e pelo jeito aprendeu a amar aquela cidade superlativa, de maravilhas e mistérios, de oportunidades sem fim e de inutilidades bizarras. Neste seu "Guia fantástico de São Paulo" ela oferece ao leitor uma centena de desenhos que retratam algo da arquitetura, das gentes, dos mercados, do cotidiano, feiras livres, bares e orografia da cidade. São peças que certamente foram produzidas ao ar livre, não em um atelier ou estúdio, são trabalhos impregnados da vida pulsante dos paulistanos e demais viventes daquela infinita urbe. Ela divide os desenhos em dois grandes conjuntos, o das paisagens (dos rios, prédios, ruas e espaços públicos) e o das expressões culturais (ilustrando a passagem do tempo e das estações, os eventos e festas, registros da variedade ética da cidade). Uns curtos textos, fragmentos de reflexões sobre a cidade, complementam as ilustrações. Trata-se de um livro de arte, um volume ao qual podemos voltar displicentemente todas as vezes que as saudades de São Paulo se tornarem opressivas, tóxicas, insuportáveis. Só se cansa de São Paulo quem antes já se cansou da vida. Acho que a Ángela León soube bem disto. Vale!
Registro #1399 (livro de arte #29)
[início - fim: 22/02/2019]
"Guia fantástico de São Paulo", Ángela León, São Paulo: editora Lote 42, 2a. edição (2015), brochura 17x24 cm., 168 págs., ISBN: 978-85-66740-38-7

domingo, 12 de maio de 2019

una historia de españa

As 92 crônicas de Arturo Pérez-Reverte reunidas neste "Una historia de España" já haviam sido publicadas em jornal, na coluna "Patente de Corso" do XL Semanal. Elas foram produzidas aos poucos, publicadas ao longo de quatro anos, de maio de 2013 a agosto de 2017. Trata-se de "una visión muy personal de la historia de España", um projeto realmente ambicioso, certamente didático, acho que pensado originalmente para que os jovens espanhóis entendam um tanto melhor os fatos mais marcantes de aproximadamente 2000 e tantos anos da história de seu país. Revisadas apenas tipograficamente por ocasião desta edição em livro, as crônicas permitem a alguém que nunca se interessou pela história da Espanha ou que se aborreceu com ela nos bancos escolares, uma experiência realmente potente. Pérez-Reverte é senhor da linguagem jornalística, rápida, objetiva, precisa, substantiva. Ele nunca é hipócrita. Sempre escolhe um lado de qualquer questão espinhosa, sempre oferece ao leitor oportunidades de reflexão. Ele não se poupa de usar palavras fortes, ironias brutais, quase no limite da ofensa, mas as pessoas que ele achincalha ou já morreram há muitos anos ou vivem num justo ostracismo, por conta de seus crimes e atos vis. De fato são palavras duras e brincadeiras que antes facilitam o entendimento de temas que precisariam de parágrafos inteiros para serem bem explicados em tom solene. Pérez-Reverte navega pelos clichês que acostumamos a associar a Espanha e aos espanhóis ("A tierra de la paella, el flamenco y la mala leche"); por mitos históricos, lugares comuns e lendas urbanas ("nuestra siempre apasionante, lamentable y muy hispana historia"); por biografias romantizadas, invenções, personagens de romances e peças de teatro; esclarece temas mistificados por ideias feitas que frequentam tanto mesas de bar quanto gabinetes universitários ("España seria un país estupendo si no estuviera lleno de españoles"). Seu sarcasmo parece encantar até mesmo conservadores ou tradicionalistas, suas ironias devem por certo divertir a juventude apressada. Escritas cronologicamente, as crônicas tornam-se progressivamente mais amargas, mais cínicas, menos esperançosas. "Yo creo que esa pérdida - del control de la educación y la cultura - es irreparable, pues sin ellas somos incapazes de asentar un futuro", ele diz no parágrafo final. Talvez por isso mesmo ele pare de contar sua historia em meados dos anos 1980, quando da consolidação da redemocratização espanhola, da vitória do partido socialista nas eleições de 1982 e da entrada do país no Mercado Comum Europeu, em 1986. Talvez seu estilo jocoso não seja o mais adequado para falar dos dias que correm, de pruridos politicamente corretos. De qualquer forma ele não esgota nenhum assunto. O leitor só corre o risco de achar que fazer história (ou escrever sobre história) é fácil. Enfim, diversão e aprendizagem garantida. Em tempo: Ele incluiu, "a modo de prólogo", quase quarenta epígrafes mordazes, que parecem sintetizar com fúria a psique espanhola, desde autores clássicos gregos e romanos (Estrabón, Tito Lívio, Apiano), passando por Cervantes, Bartolomé de las Casas, Macaulay, Von Humboldt, Voltaire e Napoleão até autores e sujeitos do século XX, como Hitler, Ortega y Gasset, Garcia Lorca, Julián Marías. Impressionante compilação. Vale! 
Registro #1398 (crônicas e ensaios #255) 
[início: 18/04/2019 - fim: 08/05/2019]
"Una historia de España", Arturo Pérez-Reverte, Barcelona: Alfaguara / Penguin Random House Grupo Editorial, 3a. edição (2019), brochura 15,5x24,5 cm., 254 págs., ISBN: 978-84-204-3817-7

sábado, 11 de maio de 2019

melhores frases, sentenças e pequenos contos

Cláudio Portella é uma espécie de Karl Kraus cearense, nordestino, brasileiro. É jornalista, poeta, produtor cultural. Super original, mascate de si mesmo, sociólogo selvagem, ele produz livros, poemas e aforismos lapidares, como poucos no Brasil que eu conheça, sem fazer concessões a quem quer que seja, sempre usando sua mente e pena em direção a alvos certeiros. Ojo. Como ele mesmo lembra, "fazer crítica literária séria no Brasil é complicado: vivemos de metáforas e tapinhas". E eu aqui só nas metáforas e só nos tapinhas. Talvez essa minha crítica não seja séria. Paciência. Esse seu pequeno livro entrega o que o título bem promete. Trata-se de uma coleção de frases, sentenças e material que ele chama de pequenos contos. Decidi registrar aqui no Livros que eu li todos eles como aforismos. São peças realmente deliciosas, com as quais o leitor ora ri (quando as frases desnudam comportamentos estranhos a nossas práticas), ora repudia (quando as sentenças mostram uma nesga que seja de nossas pequenas misérias, mentiras e medos). As frases são quase sempre bem humoradas, provocativas, sarcásticas. De vez em quando o Cláudio se traveste de chato, e manda mensagens lá de sua Fortaleza fundamental, perguntando se queremos comprar o último livro dele (o sujeito é inquieto, sempre está a produzir algo). Mas não chega a ser mal educado. Aceita "de boas", como se dizia tempos atrás, nossas respostas elípticas. De qualquer forma, estou seguro que qualquer leitor que por acaso encontre este seu "Melhores frases, sentenças e pequenos contos de Cláudio Portella" é sim um leitor de sorte, que ganhará um bom par de horas de honesto entretenimento, um bom material para reflexão. Vale!
Registro #1397 (aforismos #10)
[início: 06/04/2019 - fim: 08/04/2019]
"Melhores frases, sentenças e pequenos contos de Cláudio Portella", Cláudio Portella, Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora  (Edições CP), 1a. edição (2018), brochura 12x19 cm., 16 págs., ISBN: 978-85-420-1249-1

quinta-feira, 9 de maio de 2019

terra e paz

Yehuda Amichai foi um dos mais importantes poetas israelenses de seu tempo, e é celebrado sempre pela força de seus poemas e perene lucidez de suas reflexões. Nesta antologia, assinada pelo professor da USP e especialista em literatura hebraica, Moacir Amâncio, encontramos 79 poemas. Quase todos os poemas são curtos, cantam a cidade de Jerusalém, a família, o mistério das palavras, as diferenças entre os homens, o amor pelo seu país, as festas e dias de celebração, os personagens da história judaica, a passagem do tempo no humor e na vida do poeta e de seus concidadãos, a força de sua história e seu idioma. Três poemas são mais longos, e prendem o leitor num redemoinho de emoções: um em que o narrador explica como não foi um dos muitos milhões de mortos no Shoá, um que fala de um menino que se perde na história de seu país inventado, um em que fala do filho que parte para a guerra. O narrador fala sobre o cotidiano, a vida, as coisas que experimenta. Percorre as ruas da cidade e captura fragmentos de memória e espantos. São poemas que se deixam ler com calma, que provocam reflexões e surpreendem todo aquele que se aproximar do livro com o coração leve, sem restrições, sem compromissos ideológicos. O último poema escolhido por Moacir Amâncio em sua antologia diz: "Dentro do museu novo em folha / uma sinagoga antiga. / Dentro da sinagoga / eu. / Dentro de mim / meu coração. / Dentro do meu coração / um museu. / Dentro do museu / uma sinagoga, / dentro dela / eu, / dentro de mim / meu coração, / dentro do meu coração / museu." Esse poema infinito explica Yehuda Amichai, que viveu para registrar as maravilhas e a fortaleza da cultura judaica. Vale!
Registro #1396 (poesia #111)
[início: 01/04/2019 - fim: 29/04/2019]
"Terra e paz: antologia poética", Yehuda Amichai, tradução de Moacir Amâncio, Rio de Janeiro: Bazar do Tempo Editora, 1a. edição (2018), brochura 14x21 cm, 184 págs. ISBN: 978-85-69924-45-6

quarta-feira, 8 de maio de 2019

o sonâmbulo canta no topo do edifício em chamas

De Joca Reiners Terron só havia lido livros de ficção, quatro densos e provocativos bons romances: "Não há nada lá", "Guia de ruas sem saída" e "A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves" e "Noite dentro da noite". Recentemente ele publicou um livro de poesias, "O sonâmbulo canta no topo do edifício em chamas". No miolo do livro estão 63 poemas e na capa, contracapa e orelhas 12 belas fotografias e um último poema. São poemas onde sempre um urbano, incógnito e algo preocupado narrador fala de seus afazeres, libera reflexões, canta seu cotidiano e dúvidas, narra fragmentos de memória. Um poema apresenta os demais: quatro conjuntos de poemas quase sempre curtos e dois longos, separados. Nos dois poemas mais longos o narrador queima ou vê queimar seu passado, os registros fotográficos de uma vida, numa espécie de inventário maldito, ou imagina se sua vida poderia ser emulada em um outro planeta, que orbita um estrela, parecida com o nosso Sol, distante. Nos poemas curtos o narrador fala da vida, de uma filha, de um casamento, faz sociologia selvagem e interpreta notícias, acontecimentos, com sarcasmo, vê pessoas de longe e imagina seus destinos, acompanha o burburinho da noite em sua cidade como se fosse um dramaturgo cruel e cínico. Talvez, talvez não, certamente, essa minha tentativa de enfeixar os poemas em temas, ritmos, musas, seja uma bobagem sem fim. Cada poema se defende sozinho, encontrará seu leitor, tocará uma fibra mental, provocará um efeito literário em alguém disposto a enfrentar os monstros alheios. Não mais que isso um bom e honesto poeta pode esperar. Evoé Terron, evoé. Vale!
Registro #1395 (poesia #110)
[início: 01/04/2019 - fim: 19/04/2019]
"O sonâmbulo canta no topo do edifício em chamas", Joca Reiners Terron, São Paulo: Pedra Papel Tesoura Editora, 1a. edição (2018), brochura 19,5x25 cm, 120 págs. ISBN: 978-85-907516-7-0

terça-feira, 7 de maio de 2019

sofrendo em paris

Athos Ronaldo Cunha é um sujeito que realmente acredita no poder da palavra, na possibilidade de indivíduos se entenderem literariamente. É engenheiro de formação, mas já publicou vários livros e é membro da Academia Santa-Mariense de Letras. Recentemente ele publicou este seu "Sofrendo em Paris". São 45 crônicas, dez delas finalistas ou premiadas em concursos literários dos quais participou Brasil afora. São narrativas curtas, que se resolvem quase sempre num susto, e são quase sempre otimistas, mesmo quando desnudam um erro, um ato vil, ou quando denunciam algo de nossas mazelas bem brasileiras.  Os temas não variam muito. Ele gosta de falar de política, de seu cotidiano em Santa Maria, de alguns sucessos relacionados ao futebol, de alguns fragmentos de memória, de seu passado e causos que experimentou quando era avaliador de penhor na Caixa Econômica Federal. Esse volume recebeu o primeiro prêmio de livros de crônicas não publicadas da UBE-RJ (Prêmio Alejandro Cabassa, União Brasileira dos Escritores), em 2017. Enfim, são crônicas que se deixam ler com calma, enfeixam reflexões de uma pessoa inquieta, que compartilha seus espantos e procura honestamente interlocutores, outros viventes que queiram entender um tanto melhor esse nosso complexo mundo. Não é pouco. Vale!
Registro #1394 (crônicas e ensaios #254)
[início: 27/04/2019 - fim: 02/05/2019]
"Sofrendo em Paris", Athos Ronaldo Miralha da Cunha, Guaratinguetá / SP : Editora Penalux, 1a. edição (2018), brochura 14x21 cm., 120 págs., ISBN: 978-85-5833-456-3

segunda-feira, 6 de maio de 2019

wilcock

Juan Rodolfo Wilcock foi um escritor, crítico literário e tradutor argentino que radicou-se na Itália em meados dos anos 1950. Quando morava na Argentina era interlocutor de escritores do calibre de Jorge Luis Borges, Silvina Ocampo e Adolfo Bioy Casares, já na Itália frequentava círculos literários igualmente ilustres. Foi autor de quase duas dezenas de volumes, de poesia, ficção e ensaios, boa parte publicado postumamente (ele morreu em 1978). Kelvin Falcão Klein é gaúcho (acho), crítico literário, ensaísta e professor universitário. Está radicado no Rio de Janeiro, mantém um excelente blog literário, o "Um túnel no fim da luz", e publicou o bom "Conversas apócrifas com Enrique Vila-Matas", que já registrei aqui. Pois foi exatamente de suas leituras de Vila-Matas que brotou o interesse de Falcão Klein por Rodolfo Wilcock. Durante o período em que esteve envolvido em sua tese de doutoramento Falcão Klein consultou muito material publicado em jornais e revistas por Wilcock, nunca traduzido para o português. Como nem tudo relacionado a Wilcock pode ser incluído em sua tese (que pode ser consultada aqui: clicka!), ele resolveu publicar, neste pequeno volume, algo sobre seu envolvimento afetivo e intelectual com Wilcock e sua obra. São seis capítulos curtos, onde o leitor é apresentado a este invulgar autor italo-argentino, que traduziu portentos de T. S. Eliot, Willian Carlos Willians, James Joyce, Samuel Beckett e Wittgenstein; produziu uma obra que chama a atenção pela originalidade e virtuosismo; aparentemente se dedicava a "ridicularizar a razão, a tradição e seus instrumentos" e que é pouco conhecido no Brasil. Nunca li nada dele e fiquei curioso pela associação que Falcão Klein nota entre o projeto literário de Wilcock com o do artista plástico Marcel Duchamp, no interesse de ambos pela técnica de estereoscopia (algo mais que um desejo poeticamente justo de Falcão Klein é imaginar a possibilidade de Duchamp ser o pai de Wilcock!). A peregrinação de Falcão Klein à casa onde morou e morreu Wilcock, em Lubriano, que fica a pouco menos de 100 Km de Roma, dá conta de sua determinação. O registro dessas viagens sentimentais, fruto de um envolvimento profundo com a obra de um determinado autor, são sempre interessantes. Este livro faz parte de uma coleção chamada Micrograma, cuja ambição é oferecer ao público leitor obras de grande valor, de ensaio, crítica e narrativa, que dificilmente seriam publicadas por grandes corporações. De fato o resultado alcançado por Falcão Klein é notável. Não vejo a hora de conhecer melhor Wilcock. Logo veremos. Vale!
Registro #1393 (crônicas e ensaios #253)
[início: 27/03/2019 - fim: 10/04/2019]
"Wilcock: ficção e arquivo", Kelvin Falcão Klein, Rio de Janeiro: editora Papéis Selvagens, 1a. edição (2018), brochura 14x21 cm., 68 págs., ISBN: 978-85-92989-19-4

domingo, 5 de maio de 2019

escrever ficção

Luiz Antonio de Assis Brasil, premiado autor gaúcho, mantém há mais de três décadas uma Oficina de criação literária (sempre vinculada ao curso de letras e a programas de pós-graduação da PUC-RS). Esta experiência na formação de novos escritores, aliada a sua expertise como autor de duas dezenas de peças de ficção, levou-o a editar recentemente esse seu "Escrever ficção", que como o subtítulo já denuncia, é um manual de criação literária. São nove capítulos temáticos, que tratam da identificação de quem tem - ou pode ter - a vocação de ficcionista; de como se constrói um personagem; de como se trata a questão do conflito nas narrativas; da gênese do enredo e sua estrutura; dos pontos focais que todo texto deve ter, ou seja, das vozes e tempos verbais possíveis dos textos; do lugar onde os sucessos acontecem, ou seja, do entorno das ações e eventos da trama; do tempo, sempre fugidio, onde o autor deve povoar seus personagens; dos estilos possíveis, da habilidade que pode ser cobrada de um autor; e, por fim, termina oferecendo um roteiro básico para a construção de um romance. Não são soluções ou recomendações fechadas, intransigentes, dogmáticas. Assis Brasil tenta emular aquilo que acontece com método em suas aulas, tenta resumir no livro os acertos e erros mais frequentemente observados nestas aulas e na trajetória profissional de seus ex-alunos. Para sustentar seus argumentos, Assis Brasil faz uso de muitas citações de trechos de obras de autores cujas obras são exemplares. E também dá exemplos retirados da experiência ou da obra daqueles ex-alunos. O livro enfeixa também várias, vamos dizer assim, "retrancas", que são parágrafos destacados, que sintetizam um determinado tema, como se fossem conclusões do que foi discutido sobre um assunto com uma turma ao final das aulas (óbvio, trata-se de um resumo de 30 anos de conclusões e experimentos). Essa peças, a meu juízo, de menor anão desta província, ágrafo romancista, até poderiam ser editadas à parte, numa espécie de "guia rápido de criação literária". De qualquer forma, como Assis Brasil bem lembra várias vezes ao longo de seu manual, nada substitui o tempo de leitura, e acrescento, numa ênfase minha: seja de clássicos, de obras menores, de best-sellers, de autores de quem nunca ouvimos falar, de livros tolos e mal escritos, de obras geniais e imprescindíveis. Mais uma cousa: ele lembra que seu livro oferece aos escritores em formação, seus interlocutores ideais, leitores deste volume, apenas recomendações, sugestões estilísticas e alertas generalistas. O adestramento à prática inventiva da ficção parece ser a ele uma real possibilidade. Oká. Sabemos que um escritor que se recusa a ler livros sempre estará enredado em uma prisão mental, pois terá acessíveis a si apenas um punhado de ideias e experiências. A educação literária é algo necessário, mas eu mesmo pouco acredito na ideia de que qualquer indivíduo possa escrever romances dignos de nota, por mais oficinas e cursos que faça, por mais livros que leia, palestras que ouça. Paciência. Chega dessa esquivança. Este livro do Assis Brasil é ouro puro e fino para quem quer sim entender-se com sua vocação de escritor. Vale a pena conferir. E mais não digo. Vale!
Registro #1392 (crônicas e ensaios #252)
[início: 07/04/2019 - fim: 01/05/2019]
"Escrever ficção: Um manual de criação literária", Luiz Antonio de Assis Brasil, colaboração de Luís Roberto Amabile, São Paulo: editora Schwarcz (Companhia das Letras / Penguin Random House), 1a. edição (2019), brochura 14x21 cm., 396 págs., ISBN: 978-85-359-3207-2

sábado, 4 de maio de 2019

eu vou matar maximillian sheldon

Genuíno representante dos escritores com disciplinada vocação para seu ofício é Leonardo Brasiliense, gaúcho de São Gabriel, radicado em Santa Maria, autor já premiado, e que já publicou uma dezena de bons livros. Recentemente ele lançou "Eu vou matar Maximilian Sheldon". Trata-se de um livro de contos (já li contos dele reunidos em "Corpos sem pressa", "Whatever", "Olhos de morcego" e "Adeus contos de fada", mas não de outros dois: "Des(a)tino" e "Meu sonho acaba tarde"). São dez propostas, dez histórias curtas. Há um truque confesso neles, nos contos, que é o de contar histórias cujos narradores ou buscam cumplicidade afetiva ou agridem o leitor, em busca de um efeito igualmente cúmplice, que é o da negação automática de um padrão de comportamento que poderíamos acreditar nossos, de nós leitores. Os personagens dos contos estão envolvidos atividades bem humanas, envolvidos em coisas como a expiação de culpas; o hedonismo torto das classes trabalhadoras; os fragmentos bobos que brotam dos interstícios da memória; na perda da identidade, como aquela de alguém que se vê só num hospital; a solidão entranhada de alguém que se imagina povoado por um ser que o consome e justifica seus erros; a perda de tempo que é conviver com alguém que se despreza, mas que não se quer perder; a atividades bizarras, como a de querer transar logo após tentar salvar a vida de alguém que morre; a ilusão provocada por advinhos e outros charlatães em nossas vidas, desde a infância até a velhice; o censo cotidiano de nossas misérias, perdas, erros; a  busca por uma expiação ou ajuda profissional que não mitigará o fracasso inerente de uma relação. São dez bons contos, contos inventivos, muito bem escritos, de alguém que sabe o quê está fazendo de seu talento e arte. Evoé don Leonardo, evoé. Longa vida a esse livro de estreia da editora Coralina, que é lá da terra do arroz, Cachoeira do Sul. Vale!
Registro #1391 (contos #161) 
[início: 19/04/2019 - fim: 21/04/2019]
"Eu vou matar Maximillian Sheldon", Leonardo Brasiliense, Cachoeira do Sul: Editora Coralina, 1a. edição (2019), brochura 14x21 cm., 128 págs., ISBN: 978-85-80360-01-7

sexta-feira, 3 de maio de 2019

carvalho, problemas de identidad

Carlos Zanón é escritor e roteirista espanhol, autor premiado de romances policiais. Recentemente o poderoso grupo editorial Planeta o convidou para escrever um romance que desse continuidade às aventuras do mítico detetive Carvalho, invenção genial de Manuel Vázquez Montalbán, que morreu em 2003. Quem já leu algum dos livros de Montalbán sabe do tamanho da responsabilidade. Carvalho surge em 1972, ainda sem muitos dos predicados que acostumamos associar a ele, em "Yo maté a Kennedy". É protagonista de pelo menos vinte e cinco romances ou livros de contos de Montalbán, até seu encantamento em "Milênio", de 2004, e algumas reencarnações recompiladas de jornais e publicadas nos "Cuentos negros", de 2011. Zanón opta por imaginar em seu livro um outro Pepe Carvalho, um detetive real cuja expertise foi utilizada por Montalbán na gênese do Carvalho original. Trata-se de uma espécie de jogo: o Carvalho de Montalbán perdeu-se como personagem em "Milênio", após sua volta ao mundo fugindo da Interpol, e o Carvalho de Zanón continua a viver em Barcelona, lembrando episodicamente de como "El escritor", ou seja, Montalbán, usava suas histórias reais nas narrativas ficcionais que publicava. Os sentimentos são ambíguos. Apesar de feliz por não mais ler seu nome associado a um personagem de ficção e precisar dar explicações a gente curiosa, ele sente saudades das conversas que tinha com o homem Montalbán, o jornalista e intelectual dinâmico que era. Enfim, funciona como explicação para essa nova metamorfose do personagem. De qualquer forma "Carvalho: problemas de identidad" demora um pouco para prender o leitor. Estamos no verão de 2017, às vésperas do plebiscito pela separação da Catalunya que tantos desdobramentos já experimentou, e que de certa forma fraturou toda a Espanha (as eleições da semana passada estão aí como exemplo). As obsessões e temas de Montalbán aparecem como em uma pátina ou palimpsesto: os turistas que passeiam pelas Ramblas catalanas, Biscuter e sua ambição gastronômica, a cresecente presença de chineses em sua Barcelona fundamental, a queima ritual de livros, as saudades de Charo, as relações com a comunidade européia, as relações autofágicas entre direita e esquerda, a rivalidade entre Madrid e Barcelona, os contatos com a polícia e o submundo, as receitas, as citações eruditas disfarçadas, o separatismo catalão, as preocupações com o destino político e econômico da Espanha. O Carvalho de Zanón continua sarcástico, amargo, abusando do cinismo, talvez com menos vigor físico e mais problemas de saúde, enredado em relações amorosas confusas e desgastantes. Os crimes que ele investiga são, a exemplo dos romances originais, o que menos importam na narrativa, são peças acessórias que servem para conduzir o ritmo do livro, mas que não são foco de real interesse. Carvalho precisa entender as razões para a morte de uma velha senhora e sua neta ao mesmo tempo que investiga o desaparecimento de uma prostituta em Montjüic. Afinal, o livro funciona como homenagem a Vázquez Montalbán e também funciona como romance policial independente. Vamos a ver se esse projeto terá continuidade, se haverá outros Carvalhos no futuro. Em tempo: Sempre vale a pena atualizar-se nas cousas de Montalbán acompanhando o site Vespito. Vale!
Registro #1390 (romance policial #82) 
[início: 13/03/2019 - fim: 23/03/2019]
"Carvalho: problemas de identidad", Carlos Zanón, Barcelona: Editorial Planeta, 3a. edição (2019), capa-dura 16x24 cm., 350 págs., ISBN: 978-84-08-20148-9

quinta-feira, 2 de maio de 2019

cuestión de fé

Os sucessos de "Questión de fé", décimo-nono volume da série de Donna Leon onde é protagonista o comissário Guido Brunetti, se passam no início do verão, quando o calor parece mais forte e inclemente. Um velho amigo alerta Brunetti sobre crimes nos quais estão envolvidos membros do judiciário e do setor imobiliário veneziano. Oficialmente não há como ele investigar o assunto, mas quando um funcionário do tribunal onde os tais crimes acontecem é morto, Brunetti tem a oportunidade de denunciar corruptos e corruptores. Claro, não há exatamente justiça no processo, apenas uma interrupção, um recuo tático dos malfeitores, uma substituição dos agentes dos vários crimes. Talvez só o sistema judicial italiano seja mais podre e corrupto que o brasileiro. E é fato que onde há dinheiro e poder há canalhas, pessoas suficientemente venais e imunes a um fiapo de caráter. Em paralelo a esta investigação mais séria, Brunetti e a sempre eficiente secretária Elettra ajudam o investigador Vianello com um crime menor, que envolve uma de suas tias, enganada por um estelionatário especializado em fraudar pessoas idosas e com problemas de saúde. Brunetti, Paola e os filhos planejavam férias nos Alpes, em uma região mais fresca e afastada dos turistas, mas ele precisa ficar em Veneza por conta de dois crimes. Neste volume ganha destaque uma nova comissária, Claudia Griffoni, tão proba e diligente quanto Brunetti, um novo contraponto aos irresponsáveis vice-questor Patta e seu lugar tenente Scarpa. Há muitas cenas em bares, nos quais Brunetti e seus comandados refrescam-se e fazem refeições ligeiras, quase sempre os deliciosos tramezzini italianos. Com Paola, sempre cúmplice, Brunetti discute as circunstâncias dos crimes, os livros que estão a ler, ela sempre Henry James, ele os clássicos latinos, e também algo sobre o desemprego endêmico italiano, sobre o fato de milhões de jovens não alcançarem jamais um emprego fixo, um problema conjuntural e grave daquela sociedade. É sempre uma alegria ler Donna Leon. Mas vamos em frente. Vale!
Registro #1389 (romance policial #81) 
[início: 16/04/2019 - fim: 18/04/2019]
"Cuestión de fé" (Brunetti #19), Donna Leon, tradução de Ana Maria de la Fuente, Barcelona: Editorial Seix Barral / Booket #2340 (Grupo Planeta Manuscrito), 1a. edição (2011), brochura 12,5x19 cm., 315 págs., ISBN: 978-84-322-5094-1 [edição original: A Question of Belief (Zürick: Diogenes Verlag AG / Penguin Randon House Group) 2010]

quarta-feira, 1 de maio de 2019

desenhos invisíveis

(Gervásio) Troche é um artista plástico uruguaio. Ele viveu em vários países, inclusive no Brasil, e publica em jornais e revistas mundo afora. Encontrei esse livro de ilustrações dele nas escadarias do viaduto Otávio Rocha, em Porto Alegre, em frente ao agitado Bar Justo, em uma feira gráfica de artista independentes. Os desenhos se defendem sozinhos. Não há palavras, e de fato elas não são necessárias, pois o resultado alcançado por Troche realmente é forte, convincente, que cobra reflexão do experimentador daquela linguagem. Ele descreve o cotidiano de uma cidade, olha frequentemente para o céu, para as estrelas, equilibra-se em um trapézio, empilha prédios, experimenta os elementos (a noite, a chuva, a luz e a sombra, os sons e a música, as folhas e as árvores). Os homo sapiens que ele desenha não são exatamente solitários, tristes, mas há uma solidão entranhada neles. Os desenhos parecem versões em preto e branco das pinturas mais icônicas de Edward Hopper. Um leitor curioso pode apreciar algo de sua produção plástica num blog (portroche blogspot) ou em sua página no instagran (portroche instagran). Vale a pena, mesmo. Vale!
Registro #1388 (hq´s cartuns e mangás #73)
[início - fim: 21/02/2019]
"Desenhos invisíveis", Troche, São Paulo: editora Lote 42, 1a. edição (2014), brochura 17x22 cm., 160 págs., ISBN: 978-85-66740-07-3 [edição original: Dibujos (Buenos Aires: Editorial Sudamericana / Penguin Random House Mondadori) 2013]

terça-feira, 23 de abril de 2019

o ofício alheio

Cada livro de Primo Levi é um pequeno milagre. Só registrei dele aqui "A chave estrela", um notável livro de contos que se fundem em um romance. Todavia, quem já experimentou a potência dos relatos dele sobre os horrores dos campos de concentração nazistas ("A tabela periódica", "É isso um homem") ou de sua caminhada de volta para a Itália ("A trégua"), jamais o esquece. Um dia talvez eu deva voltar a meus guardados, reler estas joias, estas pedras preciosas de sua lavra. Neste "O ofício alheio" encontramos 51 ensaios, publicados originalmente em jornais italianos, entre 1964 e 1984. São textos notáveis, onde Levi fala dos livros que lê; dos autores que preza; de seu cotidiano, como sua tentativa de aprender uma língua nova; de questões filológicas, linguísticas; de sua vida como químico - ele já aposentado e vivendo sua metamorfose como escritor, respeitado e premiado; de curiosidades sobre a vida dos animais, das plantas e do comportamento dos homens; do sentido do humano e da religião; dos fragmentos de memória e de sua biografia, sempre em constante gestação. Os ensaios, que não são densos, antes bem humorados e leves, são escritos com maestria, num tom que deveria ser emulado por todo aquele que pretenda alcançar algum relevo neste ofício, que é o de comunicar ideias e sensações através da prosa. Vale! 
Registro #1387 (crônicas e ensaios #251) 
[início: 18/03/2019 - fim: 28/03/2019]
"O ofício alheio", Primo Levi, tradução de Silvia Massimini Felix, São Paulo: Editora UNESP, 1a. edição (2016), brochura 14x21 cm., 290 págs., ISBN: 978-85-393-0639-8 [edição original: L'autri mestiere, (Torino: Giulio Einaudi Editore) 1985]

segunda-feira, 22 de abril de 2019

o peso do pássaro morto

"O peso do pássaro morto" foi publicado em 2017. É o romance de estreia de Aline Bei e foi o vencedor do importante Prêmio São Paulo de Literatura em 2018, na categoria "Melhor romance de autor com menos de 40 anos". Trata-se de um romance de formação, um legítimo Bildungsroman, feminino, contemporâneo, caótico, um romance de formação torto, de uma protagonista sobre a qual pouco saberemos além daquilo que ela conta quase sempre em transe, que parece seguir o roteiro de uma lenta e decidida morte em vida, de depressão encarnada, com todos os azares, absurdos e pequenas tragédias típicas de vidas assim. Na verdade em todas as vidas há suficientes aborrecimentos para serem contados e parecerem ficção. Acompanhamos fragmentos desta vida, dos oito aos cinquenta e dois anos, escrito em prosa poética, sem muitas concessões ao leitor (jamais saberemos seu nome, onde os sucessos aconteceram, em que época e circunstâncias ela viveu). Os personagens com quem ela se relaciona o fazem episodicamente, sem o menor relevo, não têm a menor profundidade psicológica (cabe ao leitor associar a eles alguma cousa, após sabermos que ela gravita um mundo onde há um benzedor, uma amiga, uma mãe, um filho, um namorado, uma vizinha, etc e tal). De fato é um livro interessante, mas é escravo da forma. Claro, um primeiro romance, já premiado, pode tornar-se uma chave de acesso a novas experimentações e aventuras ou um fardo cruel (por vezes essas duas coisas simultaneamente). Vamos a ver o que saíra da lavra de Aline Bei no futuro. Vale! 
Registro #1386 (romance  #355) 
[início: 01/03/2018 - fim: 04/03/2019]
"O peso do pássaro morto", Aline Bei, São Paulo: Editora Nós, 5a. reimpressão (2018), brochura 14x18 cm., 168 págs., ISBN: 978-85-69020-23-3

domingo, 21 de abril de 2019

joan miró

Além de poeta, João Cabral de Melo Neto foi diplomata. Viveu longas temporadas na Inglaterra, França, Suiça e Espanha. A marcante influência dos anos espanhóis em sua poesia é notória. Um de seus primeiros encargos no exterior foi justamente em Barcelona, em 1947, onde conheceu e tornou-se amigo do artista plástico catalão Joan Miró. Em 1950 João Cabral publicou uma pequena edição de 130 exemplares onde sua admiração pela obra de Miró resta registrada. A edição incluía três gravuras originais. Pois este antigo ensaio de João Cabral em homenagem a Miró já havia sido reproduzido em outros livros, porém agora a editora carioca Verso Brasil nos oferece um volume com algo próximo daquele projeto original de Cabral e Miró. Esta edição ficou de fato bem bacana. Além de reproduções das gravuras originais de Miró o livro inclui um caderno de fotografias, que dão conta do processo de gravação das obras no atelier de Miró, um bom índice, e dois ensaios, um mais longo, assinado por Ricardo Souza de Carvalho e outro algo menor, assinado por Valéria Lamego, que é a organizadora da presente edição. O ensaio de João Cabral, dividido em três seções é técnico, produto de alguém que conhece bem estética e história da arte, mas também deixa transbordar um assombro pessoal, um confesso encantamento pelo trabalho do amigo. Livro que se deve ler com calma, talvez tendo algo de Miró por perto, talvez tendo à mão um generoso porròn. Vale! 
Registro #1385 (crônicas e ensaios #250) 
[início: 21/03/2019 - fim: 02/04/2019]
"Joan Miró", João Cabral de Melo Neto, organização de Valéria Lamego, Rio de Janeiro: Verso Brasil Editora, 1a. edição (2018), brochura 23x23 cm., 104 págs., ISBN: 978-85-62767-24-1 [edição original: (Barcelona: Edicions de l'Orc) 1950]

sábado, 20 de abril de 2019

izakaya

Nunca fui a um legítimo Izakaya, nem japonês, nem paulista, mas esse livro de Jo Takahashi permite algum sonho, alguma aventura visual, algum encantamento com o tema. "Izakaya: por dentro dos botecos japoneses" foi publicado em 2014. Fartamente ilustrado, com belas reproduções fotográficas assinadas por Takewaki Nio, o leitor é conduzido por Jo Takahashi ao mundo mágico dos botecos de inspiração japonesa que existem na cidade de São Paulo. O livro cita oito casas: Bohn, Bueno, Issa, Kabura, Tanuki, Kintarô, Kidoairaku e Mitsuyoshi (não estou certo quantas casas deste tipo devem existir hoje, mas em se tratando de São Paulo apostar em um número na casa das dezenas não seria errado). No livro há um tanto de história (Takahashi fala da origem japonesa dos izakaya e do saquê), um bocado de informações técnicas úteis a especialistas e a curiosos, e se fala das pessoas que trabalham nos botecos, não apenas os proprietários, mas também dos atendentes, cozinheiros, frequentadores, pessoas que conferem aos botecos um caráter distinto, especial. Claro, fala-se das delícias que usualmente são servidas neles; dos rituais de confraternização e degustação; do ambiente e utensílios típicos. Um bom glossário ajuda um neófito a entender melhor as particularidades dos iazakaya, contrastadas ao que se encontra em restaurantes japoneses ou orientais. Um leitor mais atrevido poderá tentar várias das receitas do livro. Uma pequena bibliografia e uns bons links (Hashitag, JoJoscope, Adega do Sake) completam o livro. Como já registrei aqui antes, esse é o terceiro dos livros sugeridos pelos adoráveis Derany e Laerte, os outros dois foram: "Sushi: sabor milenar", de Sérgio Neville Holzmann e "A cor do sabor", do mesmo Jo Takahashi que assina esse bom "Izakaya". Vale! 
Registro #1384 (gastronomia #37) 
[início: 20/10/2018 - fim: 12/04/2019]
"Izakaya: Por dentro dos botecos japoneses", Jo Takahashi, fotografias de Takewaki Nio, ilustrações de Mika Takahashi, São Paulo: Editora Melhoramentos (série "A arte culinária especial"), 1a. edição (2014), brochura 22,5x20,5 cm., 168 págs., ISBN: 978-85-06-07594-4

sexta-feira, 19 de abril de 2019

a arte do medo

Dilan Camargo é um escritor gaúcho respeitado e premiado que se dedica mesmo a divulgação de sua arte, sobretudo em escolas e bibliotecas públicas, ajudando a formar novas gerações de leitores. Ele já publicou muita coisa, mas dele só li e registrei aqui "O man e o brother", volume de contos que trata de questões afeitas ao público adolescente. No final do ano passado ele lançou "A arte do medo", um volume de poesias. São três seções: a que abre e dá nome ao livro, com 23 poemas; uma dita "O teatro da cachorra", com 32 e outra, final e curta, intitulada "A razão cínica", composta de 18 poemas numerados, como em lições, reflexões sobre um tema. Há uma unidade temática em todos os 75 poemas (além dos que citei acima há dois mais, um na página final e outro na contracapa, que funcionam como uma espécie de coda às três partes do livro). Dilan fala deste nosso mundo contemporâneo, duro, de contradições, incertezas, assombros, pequenas e grandes mazelas, delinquência e violência, tristezas individuais e coletivas. Na segunda seção (O teatro da cachorra) o poeta parece querer identificar ou dar voz às múltiplas facetas das gentes e coisas que vivem naquele duro mundo contemporâneo descrito na primeira seção. Na terceira seção Dilan explora o conceito de "razão cínica" engendrado pelo filósofo alemão Peter Sloterdijk e divulgado aqui, ainda nos anos 1980, pelo psicanalista brasileiro Jurandir Freire Costa, para quem o poema é dedicado. O livro tem um projeto gráfico que abusa de grafismos, ilustrações e tipografias, talvez pensando no apelo visual que esse tratamento poderá ter sobre um público leitor pouco habituado à leitura, notadamente poesia. Apesar de interessante achei o resultado final um tanto poluído demais. Acredito que os poemas sejam fortes o suficiente para prenderem a atenção do leitor, para oferecerem a ele temas de reflexão, cumplicidade. Cada um deles é um viático, um ensinamento sobre a arte de não ter medo da vida e das coisas. Vale! 
Registro #1383 (poesia #109) 
[início: 08/04/2019 - fim: 12/04/2019]
"A arte do medo", Dilan Camargo, ilustrações de Núbia Huff, Porto Alegre: Minha lei é ler, 1a. edição (2018), brochura 12x18 cm., 100 págs., ISBN: 978-85-54196-00-4

quinta-feira, 18 de abril de 2019

la guerra civil

Bem cedo na manhã de um domingo de janeiro, vagabundo e estival, tendo por perto uma taça de café ainda quente demais para ser devidamente apreciada, preparei-me para ler a costumeira crônica que Javier Marías publica no El País. Ele falava da releitura que tinha feito de "La guerra civil: Cómo pudo ocurrir?", pequeno ensaio de Julián Marías, seu pai, publicado originalmente em 1980. Leia aqui a Crônica de Marías, ele sabe sintetizar o livro de seu pai muito melhor do que eu jamais farei. Bueno. Mal terminei de ler e entrei ao site da Casa del Libro espanhola para encomendar um exemplar. Julián Marías foi um dos mais prestigiados filósofos espanhóis de seu tempo, especialista na obra de José Ortega y Gasset, e viveu de bem perto os sucessos da guerra civil. Não foi morto por puro acaso, pois esteve em celas de onde eram retirados aleatoriamente indivíduos para serem fuzilados várias vezes. A ditadura de Franco, que seguiu-se a guerra civil e durou até meados dos anos 1970, proibiu-o de dar aulas, expulsou-o da universidade e obrigou-o a uma vida de limitações, financeiras e intelectuais. Mas não é disto que trata este ensaio. Julián o escreve em 1980, mais de quarenta anos após o final da guerra, que durou de meados de 1937 a março de 1939. São reflexões de um sujeito que sabe ser um dos poucos sobreviventes daquela época distante, de um indivíduo que não é movido a paixões, não se auto-engana, não tergiversa. Em dez curtas seções ele tenta explicar o inexplicável da guerra, a irracionalidade da histeria coletiva que levou espanhóis àquela matança, a ruptura do país como nação. As fórmulas que sintetizam o livro talvez sejam essas: "Señor, qué exageración!", que foi sua primeira reação ao saber da eclosão da guerra (ele tinha apenas 22 anos) e  "Los justamente vencidos; los injustamente vencedores" (cunhada por ele apenas após a morte de Franco). Como sempre, com a exceção de uns poucos, não houve inocentes dentre os protagonistas do conflito. A ambição do ensaio é que ele sirva para evitar a repetição dos mesmo erros, a retomada de uma espiral de mentiras e falso patriotismo que levasse seu país a uma nova guerra civil. Ele afirma ser é necessário que cada indivíduo vença a guerra interior contra suas paixões, cure-se da loucura social, não abandone o exercício da liberdade, não perca o controle da razão e do sentido de destino democrático. Ele advierte, com razão, da “... necesidad de un pensamiento alerta, capaz de descubrir las manipulaciones, los sofismas, especialmente los que no consisten en un raciocinio falaz, sino en viciar todo raciocinio de antemano”. A guerra civil começou por conta de interpretações bastante erradas da realidade, de uma cegueira mental e coletiva. O livro incluí um excelente prólogo, assinado por Juan Pablo Fusi, que resume as circunstâncias da guerra civil. Li e reli esse pequeno ensaio várias vezes deste o início de fevereiro, quando o recebi. De uma certa maneira ele parece explicar e antecipar o mesmo tipo de loucura coletiva que vivemos neste desgraçado e irrecuperável Brasil, país condenado ao mais triste futuro e destino, onde uma guerra civil sem balas, sem bombardeios, sem fuzilamentos indiscriminados, mas igualmente letal e irresponsável, já graça por todos os cantos. Dá pena, mas não muita pena. Maldita gente má. Vale!
Registro #1382 (crônicas e ensaios  #249)
[início - fim: 02/02/2019]
"La guerra civil: cómo pudo ocurrir?", Julián Marías, Madrid: Fórcola Ediciones, 3a. edição (2017), brochura 11x16 cm., 88 págs., ISBN: 978-84-15174-38-7

quarta-feira, 17 de abril de 2019

the magic of handwriting

Há livros que compramos por prazer, pouco importa o que custam e a dificuldade de obtê-los. Tê-los ali ao alcance da mão é um conforto, faz à alma um grande bem, como já nos ensinou Walt Whitman. Sim, com este "The Magic of Handwriting" tive essa classe de alegria besta, pessoal, intransferível, pois tratava-se de um mimo que inventei de dar para mim mesmo como presente de aniversário (e cabe registrar que a eficiente Livraria da Travessa alcançou me entregar o livro justamente no dia certo). Bueno. Pedro Corrêa do Lago é um conhecido escritor e historiador brasileiro, trabalha sobretudo com história da arte e é também um colecionador de manuscritos. Recentemente a The Morgan Library and Museum, de Nova Iorque, nos Estados Unidos, organizou uma  exposição com aproximadamente 150 documentos de sua coleção, que contém manuscritos e documentos assinados por grandes personalidades que se destacaram em oito grandes áreas: arte, história, literatura, ciência, música, filosofia, explorações e entretenimento. Esses indivíduos nasceram e viveram nos últimos 9 séculos (a peça mais antiga da coleção data de 1153 e a mais recente de 2006). Esse volume editado pela Taschen reproduz um tanto da magia da exposição. As peças correspondem a cartas escritas à mão, fotografias, desenhos, partituras, documentos variados. Algumas ele recebeu de herança (ele é neto de Oswaldo Aranha), outras arrematou em leilões ou comprou diretamente ao longo dos últimos 50 anos. O volume não é composto apenas de reproduções dos documentos, encontramos quatro ensaios longos, assinados por Vik Muniz, Christine Nelson, Declan Kiely e pelo próprio Pedro Corrêa do Lago. Uma generosa lista de sugestões de leitura e um exaustivo índice completam o volume deste belo catálogo. Enfim. Algumas imagens dos manuscritos reunidos na exposição podem ser encontradas diretamente no site da Morgan Library: Clika aqui 1! ou num vídeo depositado no YouTube, onde Corrêa do Lago fala de sua coleção e da proposta da exposição. Vale a pena dar uma olhada: Clika aqui 2!  Já a expografia de Daniela Thomas e Felipe Tassara, e o projeto de identidade visual da exposição, assinado pela ps.2 arquitetura + design pode ser apreciada no link: Clika aqui 3!. Bom divertimento. Vale!
Registro #1381 (catálogo #8) 
[início: 04/03/2019 - fim: 17/03/2019]
"The Magic of Handwriting", Pedro Corrêa do Lago, Berlin: Taschen Books, 1a. edição (2018), capa-dura 18x25 cm., 464 págs., ISBN: 978-38365-7438-9

terça-feira, 16 de abril de 2019

sertão japão

Xico Sá é um conhecido jornalista e escritor, que por vezes parece onipresente na mídia e redes sociais. Deve ser mesmo um sujeito inquieto. Esse pequeno livro reúne 72 haikai inspirados na presença de muitos nordestinos na cozinhas dos restaurantes do bairro da Liberdade, tradicional bairro paulista, identificado originalmente com a comunidade japonesa, mas hoje território franco, repleto de etnias dos quatro cantos do globo. Xico Sá confessadamente não é escravo da forma, da métrica convencional, aquela  que define que nos haikai sempre há três versos e não mais que dezessete sílabas, divididas em cinco sílabas no primeiro e no terceiro verso e sete no segundo. A edição é muito bonita, impressa em preto, branco e um ocre que lembra o quase deserto que é o sertão do título, alternando os haikai, ilustrações e gravuras. Os haikai flutuam, entre a Liberdade e nordeste, captam contrastes entre essas duas culturas tão distintas, que o olho do poeta quis fundir. Livrinho bacana, que se deixa ler em uma tarde regada a sakê ou cachaça. Vale!
Registro #1380 (poesia  #108) 
[início - fim: 16/03/2019]
"Sertão Japão", Xico Sá, xilogravuras de José Lourenço, ilustrações de Thais Ueda, São Paulo: Casa de Irene, 1a. edição (2018), brochura 11x16 cm., 88 págs., ISBN: 978-85-924566-0-3

segunda-feira, 15 de abril de 2019

o horla

Neste volume estão reunidas as três versões históricas de O Horlá, seminal conto fantástico, que tantas pessoas influenciou e inspirou, engendrado por um mestre do gênero, o francês Guy de Maupassant no final do século XIX. Lembro-me de ter lido ainda adolescente uma tradução deste conto, mas confesso que mal me lembrava dos sucessos da curta novela. A história é narrada na forma de um diário, que registra episodicamente um pouco mais de quatro meses da vida de um sujeito. Ele registra acontecimentos fantásticos que perturbam sua mente e o fazem progressivamente perder contato com a realidade. Ele reputa esses aborrecimentos a presença de um ser sobrenatural, o Horlá do título, que lentamente suga sua vida e sanidade. O livro inclui ainda sua versão primitiva, o conto "Carta de um louco", publicada em 1885, e também a versão publicada em 1886, substancialmente menor e algo menos aterradora. Esse livro faz parte de uma coleção de histórias curtas (A arte da novela, da Grua Livros, originalmente produzidas pela Melville House Publishing, das quais já li: "Mathilda","Michael Kohlhass", "A ilha de Falesá", "O homem que queria ser rei", "O homem que corrompeu Hadleyburg", "O colóquio dos cachorros", "Stempenyu: O romance judaico", "A lição do mestre", "A pedra de toque", "A briga dos dois Ivans", "O véu erguido" e "Benito Cereno"). Sim, haverá mais boas novelas da Grua por aqui. Vale!
Registro #1379 (novela #74) 
[início: 06/02/2019 - fim: 08/02/2019]
"O Horlá", Guy de Maupassant, tradução de Sergio Flaksman, São Paulo: Grua livros (Coleção a Arte da Novela), 1a. edição (2017), brochura 13x18 cm., 88 págs., ISBN: 978-85-61578-61-9 [edição original: Le Horla, (Paris: Paul Ollendorff) 1887]

domingo, 14 de abril de 2019

garopaba monstro tubarão

Ontem mesmo registrei aqui algo sobre as poesias de Paulo Scott, reunidas em seu volume "A timidez do monstro", publicado em 2006. Pois no mesmo dia em que o encontrei, tive a sorte de receber também sua produção mais recente, uma edição muito boa da Demônio Negro, lançada no início deste ano. Estão nele reunidos 54 poemas em quatro conjuntos, em sessões identificadas como "Livro do outro", "Redemoinho", "Livro do mundo", "Flutuação". Não consigo exatamente identificar o que os faz separados em cada conjunto. De qualquer forma isso pouco importa. Paciência. Os poemas falam de lembranças de infância e juventude; da família (um irmão, uma avó, algumas mulheres); de influências importantes (João Gilberto Noll, Nelson Mandela, Jim Harrison); de cidades onde se destila violência e do mar que consola; da experiência da estrada, sempre a BR101, que liga as cidades catarinenses de Garopaba e Tubarão do título; da memória fragmentada de datas ou épocas marcantes; de cenas que um narrador descreve quando está solitário, nada faz, mas permanece muito atento a seu entorno. Flaubert dizia que era um urso, na sua toca de urso, que tinha uma pele de urso como companhia. Em um dos poemas o narrador de Scott fala que veste um traje de boi, que talvez será imolado em um churrasco. Os deuses da poesia não esperariam queima mais nobre, mais completa. Evoé Scott, evoé! Vale!   
Registro #1378 (poesia #107) 
[início: 19/02/2018 - fim: 28/02/2018]
"Garopaba Monstro Tubarão [2016-2018]", Paulo Scott, São Paulo: V. de Moura Mendonça Livros (Selo Demônio Negro), 1a. edição (2018), capa-dura 16,5x23,5 cm., 86 págs., ISBN: 978-85-66423-50-1

sábado, 13 de abril de 2019

a timidez do monstro

Encontrei esse volume de poemas de Paulo Scott em um sebo de sua Porto Alegre fundamental, num dia feliz de fevereiro em que voltávamos, Helga e eu, de umas férias de sonho. "A timidez do monstro" é de 2006, reúne 56 poemas quase sempre curtos, potentes, algo ríspidos, de um autor que não tem medo de ser hermético aos eventuais leitores, que cobra de cada um de nós atenção e tempo na leitura. Os poemas são enfeixados com laudas completamente negras e ilustrações, assinadas por Guilherme Pilla, um artista plástico gaúcho. O efeito de alternância dos poemas com as laudas negras e as ilustrações (sempre de um preto e branco fortíssimo, inspiradas nos poemas) é interessante. Lembram os fade in, fade out do cinema, aquelas transições lentas entre cenas que permitem ao espectador organizar as informações contidas em cada uma delas. O narrador dos poemas é um observador que coleta epifanias diárias, curioso, mundano e que articula apenas as palavras necessárias para descrever o que sente, sem verborragias. Li esse volume juntamente com o mais recente de sua lavra, "Garopaba Monstro Tubarão", a mais recente metamorfose do monstro tímido deste volume, sobre o qual falarei amanhã mesmo aqui. Vale! 
Registro #1377 (poesia #106)
[início: 19/02/2019 - fim: 21/02/2019]
"A timidez do monstro", Paulo Scott, Rio de Janeiro: editora Objetiva, 1a. edição (2006), brochura 13x21 cm., 112 págs., ISBN: 978-85-7302-760-6

sexta-feira, 12 de abril de 2019

pró ou conta a bomba atômica

Elsa Morante foi uma escritora italiana, que viveu entre 1912 e 1985, participou ativamente dos grandes debates de seu tempo e ganhou reconhecimento e prestígio. Os ensaios reunidos neste volume foram publicados em livro originalmente apenas após sua morte, mas correspondem a escritos dos anos 1950, 1960 e 1970. Alguns foram publicados antes em jornais e revistas, ou foram resultado de conferências. Não são ensaios fáceis de ler. A argumentação de Morante é enviesada, muito embora as conclusões e imagens que ela cria sejam interessantes, potentes. Apesar do título provocativo, a maioria dos ensaios é sobre questões literárias, sobre poetas e autores que lhe são caros (sobretudo Umberto Saba), sobre arte, erotismo, censura, teoria da pintura, técnicas narrativas, e também sobre sua Roma fundamental, a cidade e suas praças. Os ensaios explicitam uma mulher que se engaja em grandes debates, que é corajosa, que sabe equilibrar os deveres de seu ofício e suas preocupações sobre o papel da mulher na sociedade italiana. Em um dos ensaios ela fala da experiência de conviver com gatos, noutro fala de narcisistas e hipócritas, noutro ainda sobre estética, mundanidade. Reflete sobre a eficácia efêmera da glória artística e a vaidade. Para ela um escritor digno é aquele que descreve a realidade das coisas, sem contaminações ideológicas, sem doutrinação. Vamos em frente. Vale! 
Registro #1376 (crônicas e ensaios #248) 
[início 14/02/2019 - fim: 16/02/2019] 
"Pró ou contra a bomba atômica e outros escritos", Elsa Morante,  tradução de David Pessoa Carneiro, Belo Horizonte: Editora Âyiné (coleção Biblioteca Antagonista #19), 1a. edição (2017), brochura 10,5x15 cm., 203 págs., ISBN: 978-85-92649-24-1

quinta-feira, 11 de abril de 2019

testamento mortal

"Testamento mortal" é o vigésimo volume das histórias de Donna Leon com seu comissário Guido Brunetti e sua sereníssima Veneza. Desde meados de 2017 eu seguia os volumes dela cronologicamente, mas um azar com os correios fez-me registrá-lo aqui antes de "Uma questão de fé", que o antecede. Paciência. A história se passa no outono, em ritmo lento, sem correrias. Donna Leon uma vez mais investe na rivalidade entre o Norte e o Sul italianos, entre a hipocrisia dos nortenhos e a onipotência silenciosa da máfia sobre a gente do Sul. Quase no limite da legalidade Brunetti investiga o passado de uma mulher de meia idade, viúva, que é encontrada morta em seu apartamento por uma vizinha. O diagnóstico de legista, o mercurial Rizzardi, dá conta que a mulher sofreu um ataque cardíaco fulminante, mas não deixa de sugerir à Brunetti que o ataque poderia ter sido induzido, com drogas e violência. Da investigação inicial aflora um mundo de mulheres que sofrem violência e surge uma rede de apoio e proteção que talvez não seja tão proba como aparenta, e percebem-se pressões políticas para que o caso seja encerrado sem alarde. Mas esse primeiro rumo da narrativa muda completamente, quando Brunetti passa a se interessar em quem poderia ter morto aquela senhora, e por quais razões, sem ter o devido direito legal de fazer isso (afinal o atestado de óbito é taxativo: a causa mortis é um ataque cardíaco inevitável). Donna Leon volta a tornar a geografia da cidade em protagonista, em fazer seus personagens percorrerem as Calle, Sestiere, Rio Terá, Campos e Ramos, as Fondamenta, Canales e Rios, como em um labirinto infinito, só conhecido por uns poucos, que tomam atalhos eficazes para incluir um almoço familiar na agenda apertada de trabalho, facilitando o entendimento da cronologia do crime que se quer investigar, propiciando a solidão necessária para uma conversa ou confissão. A solução do crime só interessa mesmo a Brunetti, sempre moralmente implacável. Paola, Elettra e Vianello são fundamentais nesta trama, cada um a seu modo. A narrativa brinca com as ferramentas retóricas, com exemplo dos lenitivos mentais que só educação clássica e inteligência propiciam. Bom livro. Vale!
Registro #1375 (romance policial #80) 
[início: 07/02/2019 - fim: 08/02/2019]
"Testamento mortal" (Brunetti #20), Donna Leon, tradução de Vicente Villacampa, Barcelona: Editorial Seix Barral / Booket #2408 (Grupo Planeta Manuscrito), 1a. edição (2012), brochura 12,5x19 cm., 318 págs., ISBN: 978-84-322-0032-5 [edição original: Drawing Conclusions (Zürick: Diogenes Verlag AG / Penguin Randon House Group) 2011]

quarta-feira, 10 de abril de 2019

a cor do presente

Marcio Renato dos Santos se reinventa uma vez mais com esse seu "A cor do presente", um pequeno livro de contos. Se no livro anterior, "A certeza das coisas impossíveis", ele inventava onze contos a partir de fragmentos, curtas histórias recortadas das quais jamais saberíamos a gênese ou o desfecho, neste ele parece querer fixar em prosa alucinações, delírios, mecanismos mentais, paranoias ou ainda o fluxo de consciência de indivíduos mais que estranhos, doentes, bizarros. Absurdices talvez seja o neologismo que definiria bem o núcleo das onze narrativas. As histórias tratam do acaso de um acidente; do pesadelo ou do transe induzido pelo álcool; de um personagem que busca um enredo; do sujeito que se intoxica com coelhos e cores; do casal que fofoca sobre a vida de um palestrante; de uma courier que se imagina em perigo; de uma mulher que imagina seu futuro enquanto come seu jantar; de um homem que experimenta assédio e parece perder a razão; das facetas de uma vingança patética, injusta; de um diabo travestido de taxista; do provável desfecho de um jogo de futebol de várzea. Se o leitor é açodado consegue ler o livro em menos de uma hora, mas talvez essa não seja a forma mais adequada, talvez esse seja o tipo de livro que devemos deixar à mão, para ser lido quando, à exemplo de seus personagens, estivermos inebriados, no umbral do sonho, do desejo ou do pesadelo. Os demais livros de Marcio que já registrei aqui são, pela ordem, "Minda-au", "2,99", "mais-laiquis", "Finalmente hoje" e "Outras dezessete noites". Bom divertimento. Vale! 
Registro #1374 (contos #160) 
[início-fim: 19/03/2019]
"A cor do presente", Marcio Renato dos Santos, Curitiba: Editora Tulipas Negras, 1a. edição (2019), brochura 11,5x18,5 cm., 120 págs., ISBN: 978-85-917171-8-7