segunda-feira, 22 de julho de 2019

sumchi

Lê-se esse pequeno livro com uma alegria incontida, página a página, nas quais acumulamos surpresas e espantos. Amós Oz registra em livro, numa linguagem que é ao mesmo tempo rica e acessível, especialmente ao público mais jovem - a quem o livro é direcionado - o que talvez seja mesmo um fragmento de sua memória, um recorte de sua própria vida. É quase um conto de fadas. Amós Oz descreve o que talvez tenha sido o momento vivido de sua metamorfose para ser um contador de histórias, sua transformação em um inventor literário, um escritor. O leitor encontra um narrador que vive em um Israel ainda administrada pelos ingleses. O narrador sabe que sua história é banal, poderia ser resumida em uma única frase, todavia, ao longo das poucas horas deste dia, para ele especial, o sujeito descobre os desdobramentos do amor, da amizade, das relações comerciais, da ética, da vida em sociedade, da estranheza que há entre pais e filhos, da existência do acaso, dos azares e das sortes. Livro realmente bem bacana. Li em um dia aziago, mas que me fez sonhar na noite seguinte como uma criança, como alguém liberto de toda culpa e preocupação. Recomendo. Vale! 
Registro #1432 (infanto-juvenil #48)
[início: 29/06/2019 - fim: 30/06/2019]
"Sumchi: uma fábula de amor e aventura", Amós Oz, tradução de Paulo Geiger, São Paulo: editora Schwarcz (Companhia das Letras / Penguin Random House), 1a. edição (2019), capa-dura 12,5x18 cm., 128 págs., ISBN: 978-85-359-3214-0 [edição original: 1978]

sexta-feira, 19 de julho de 2019

sentimental

Há dois ou três meses, lá na boa livraria Taverna, em Porto Alegre, encontrei este volume. Nunca havia lido nada de Eucanaã Ferraz, poeta e professor universitário carioca, já premiado e respeitado por seus pares. Neste seu "Sentimental", publicado em 2012, ele apresenta 57 poemas. As formas são bem variadas, as imagens calmas, nunca há agressividade neles, nos poemas. Ele fala do cotidiano, da vida, das viagens, de um apartamento, de animais, da arquitetura, da memória de fatos recentes. Há uns ecos da América espanhola, ou de viagens e inspirações paulistas e lisboetas, de poetas que talvez sejam seus precursores, poetas que talvez lhe sejam especialmente caros: Murilo Mendes, Ferreira Gullar, Sophia Andresen, Cícero, Wislawa Szymborska. Num dos poemas, "Só faço verso bem-feito", verso que ele achou na lavra de João Martins de Ataíde (via Câmara Cascudo), Eucanaã achincalha um poeta morto inominado, ri de alguém que o incomodava. Gostei do efeito. Preciso procurar mais cousas deste sujeito. Vamos a ver. Vale! 
Registro #1431 (poesia #116)
[início: 19/04/2019 - fim: 19/06/2019]
"Sentimental", Eucanaã Ferraz, São Paulo: editora Schwarcz (Companhia das Letras / Penguin Random House), 1a. edição (2012), brochura 14x21 cm., 91 págs., ISBN: 978-85-359-2167-0

terça-feira, 16 de julho de 2019

epigramas

Foi Luiz-Olyntho, querido amigo, em fevereiro do ano passado, no dia do lançamento do opus magnun de Abdon Grilo (seu potente estudo sobre o Ulysses de James Joyce), quem me cantou pela primeira vez essa joia rara de Marco Valério Marcial, editada pela Ateliê. Demorei, mas encontrei meu exemplar. Agora ele está aqui, perto de mim, todavia ainda estranhando seu lugar no coração selvagem de minha biblioteca. "Epigramas" é um livro arte, de um livro objeto, um pequeno milagre, pois sobreviveu aos séculos. Nele está reunido um robusto conjunto de 219 epigramas de Marcial, um "catalão" romano que viveu no primeiro século da era cristã. Epigramas são aforismos poéticos, cousas engenhosas que acrescentam à máximas aforísticas em prosa algo de invenção poética, algo de beleza, algo único que só os poetas sabem produzir. Alguns são curtos, curtíssimos, outros mais longos, quase registros de um diário, não exatamente epigramas, mas sim apontamentos de alguém que sabe aproveitar a vida, ri de si e de seus semelhantes. O tom sempre é dúbio, satírico, remonta a uma festividade, uma alegria incontida, um sarcasmo duro (isso talvez diria um acadêmico, um scholar, um homem das letras profissional). Eu mesmo leio essas pequenas máximas com uma espécie de sociologia selvagem, um compêndio de fofocas, de descrições de comportamentos sexuais, de bobas frases de duplo sentido, um manual de wit, de sagacidade, do tipo que usualmente costumamos associar também aos ingleses, talvez aos ingleses de um tempo mais afortunado. Enfim, Marcial parecia ter a inusual capacidade de resumir em breves aforismos o espírito de sua época, algo que lhe granjeou sucesso literário ainda em vida, sendo bastante conhecido tanto na Roma imperial, quanto nas províncias mais afastadas. A edição é bilíngue, e as notas, seleção, tradução e posfácio assinados por Rodrigo Garcia Lopes. O volume é composto por doze cadernos grampeados, presos por elásticos (e doze é exatamente o número de livros que Marcial publicou em vida, um mimo dos editores). Os cadernos, que são independentes, podem ser lidos simultaneamente por várias pessoas, em uma festa ou encontro literário. Acho que pode funcionar. É isso. Segue o baile. Vale! 
Registro #1430 (poesia #115) 
[início: 02/02/2018 - fim: 16/06/2019] 
"Epigramas", Marco Valério Marcial, tradução de Rodrigo Garcia Lopes, Cotia/SP: Ateliê Editorial, 1a. edição (2017), 14 cadernos grampeados, capa-dura, presos com elásticos, 14x21 cm., 522 págs., ISBN: 978-85-7554-80752-2 [edição original: circa 86 d.C.; organização original em inglês: Epigrams (D. R. Shackleton Bailey, Cambridge: Harvard University Press) 1993 e (Walter C. A. Ker, Cambridge: Harvard University Press) 1968]

sábado, 13 de julho de 2019

o eremita viajante

Esse livro me acompanha há quase dois anos. O recebi ainda no final de 2017, como se fosse um presente de Natal vindo de longe, ofertado por um generoso e amigo duplo meu. Pensei em ler um haiku por dia, a partir de janeiro de 2018, e terminar um tanto antes de alcançar meus 60 anos, mas não foi isto que aconteceu. Passei a ler com calma, uns poucos haikus de cada vez, se não tão vagaroso quanto previa meu projeto original, suficientemente lento para prolongar ao máximo um genuíno e raro prazer. "O eremita viajante" é a primeira publicação em português de todos os haikus conhecidos de Matsuo Bashô, o maior, mais seminal dos artífices deste gênero literário, o poeta nacional japonês, o sujeito que parece concentrar o espírito de todo um povo, de toda uma civilização. São 978 poemas, organizados pelo tradutor Joaquim Palma em ordem cronológica de composição, de 1663 a 1694, além de outros 24 não datados, totalizando portanto, 1002 poemas. O organizador e tradutor do livro escolheu também separá-los de acordo com as quatro estações do ano ("Outono", "Inverno", "Primavera", "Verão") e em dois conjuntos extras ("Ano Novo" e 'Outros"). Desta forma o leitor parece acompanhar trinta anos de vida e evolução poética de Bashô, experimentar com ele a passagem do tempo, num "the dark backward and abysm of time", como nos ensinou Próspero, ou melhor, Shakespeare. A edição é muitíssimo bem cuidada, completa. Inclui uma longa introdução, que nos ensina muito sobre Bashô, seu tempo e influências; sobre técnicas de composição do haiku e técnicas de tradução; além de um generoso glossário e uma detalhada bibliografia. Livros assim são uma festa para os sentidos, nos fazem um grande bem, pois ao mesmo tempo em que aprendemos  algo de todo um universo literário, somos estimulados a perceber nos fragmentos de nossas memórias, impregnadas pela passagem do tempo, o fluir das estações, o assombro daquilo que pode ser observado, sentido, vivido. O leitor aprende algo da disciplina filosófica zen, do desapego, da leveza, da fusão entre imagens e versos que talvez devam existir na base da composição de qualquer poema, sobretudo nos haiku, sendo muito mais importantes que a mera técnica, a mera contagem das sílabas, da métrica. Segundo o tradutor Joaquim Palma "(...) no fim da vida, nos seus derradeiros haikus, Bashô parece libertar-se quanto à exposição das emoções, às ações da vontade, à afirmação do eu".  Esse belo livro permanecerá em minha estante, sempre ao alcance da mão, como um viático, um eficiente lenitivo para todos os aborrecimentos desta vida. Sigamos. Vale!
Registro #1429 (poesia #114)
[início: 23/12/2017 - fim: 30/06/2019]

"O eremita viajante", haikus: obra completa, Matsuo Bashô, tradução de Joaquim M. Palma, Lisboa: Assírio & Alvim (Grupo Porto Editora), coleção documenta poetica 155, (1a. edição) 2016, capa-dura 15,2x21,2 cm., 424 págs., ISBN: 978-972-37-1920-8

quarta-feira, 10 de julho de 2019

operación desengaño

"Operación Desengaño" é um romance onde se transforma em ficção uma legítima operação de contra-espionagem empreendida durante a segunda grande guerra mundial: a de enganar os nazistas, fazendo-os acreditar que a invasão do continente europeu dar-se-ia pela Grécia e os Balcãs, e não pela Sicília, como de fato aconteceu. Duff Cooper, visconde de Norwich, o autor deste romance, foi diplomata e escritor. Ele teve notícia desta mirabolante trapaça e publicou em 1950 uma versão romantizada dos sucessos. Posteriormente, em 1953, Ewen Montagu, o oficial da inteligência naval britânica que de fato engendrou a coisa toda, publicou um relato documentando seu projeto. Mas o que vou registrar hoje aqui é só a metade ficcional do livro. Lê-se "Operación Desengaño" com genuíno prazer. Quase todo o livro trata da vida de um sujeito, Willie Maryngton, que era jovem demais para participar da primeira grande guerra e velho demais para participar da segunda grande guerra. Esta circunstância faz dele uma pessoa amargurada, deprimida, incapaz de decidir-se sobre o quê fazer da vida, eternamente imaturo. Maryngton ingressa no exército, serve durante longas temporadas na Índia, no Egito e no campo inglês, mas nunca chega a envolver-se em combates, como sempre desejou. Lembrei várias vezes do "Goodbye to all that", de Robert Graves, onde ele fala de sua terrível experiência com os horrores da primeira grande guerra. Duff Cooper constrói um personagem que o permite descrever muito vividamente a atmosfera inglesa do período entre guerras, com sua rígida estrutura de classes, códigos de conduta, disciplina militar, regras de sucessão familiar, clubes masculinos. Nos diálogos, toda a verve que estamos acostumados a associar aos ingleses como que transborda. É um livro realmente gostoso de ler, sem grandes sobressaltos, reviravoltas, muito bem escrito. Em breve vou conferir a segunda parte do livro, a documental, de Montagu, para conferir até que ponto Duff Cooper apropriou-se da realidade em sua divertida invenção literária. Sigamos. Vale!
Registro #1428 (romance #359)
[início: 13/06/2019 - fim: 14/06/2019]

"Operación Desengaño", Duff Cooper, tradução de Antonio Iriarte, prólogo de John JUlius Norwich, Madrid: Reino de Redonda, vol. 34, (1a. edição) 2019, capa-dura 14,5x23 cm., 402 págs., ISBN: 978-84-947256-3-0 [edição original: Operation Heartbreak (London: Rupert Hart-Davis) 1950]

sábado, 6 de julho de 2019

do que falamos quando falamos de amor

Neste volume encontramos dezessete contos de um dos grandes mestre do gênero, o norte-americano Raymond Carver, morto já há mais de trinta anos. São histórias sempre curtas, quase fragmentárias, de vidas de quem o leitor não precisa saber muito, apenas o que foi dito ali em poucas páginas. Seus contos são frequentemente ditos minimalistas, mas não são fáceis nem de ler, e muito menos de escrever. Lembro-me de ter lido alguns logo após ter visto "Short Cuts", um bom filme do sempre bom Robert Altman, mas isso também foi há quase trinta anos. Os contos de Carver gravitam sempre dificuldades de comunicação, vidas em desacerto, problemas com o álcool, momentos decisivos de alguém. Ele alcança fixar a atenção do leitor não com descrições detalhadas, correrias, mimos culturais, mas sim com diálogos algo diabólicos, que sintetizam todo um complexo contexto, conversas que nos magnetizam. Além dos diálogos os contos primam pelo uso exemplar da técnica de fluxo de consciência. Nem tudo precisa ser dito. Nem tudo precisa ser apresentado diretamente ao leitor. Não vou tentar resumir aqui os fatos das curtas histórias do livro. A mágica literária de Carver não está nos fatos em si, mas em como aqueles personagens são enredados em situações que cada um de nós compreende bem. Ao mesmo tempo, não se trata apenas de verossimilhança, mas da capacidade de desnudar nossa muita humana habilidade de mentir para nós mesmos, de negar a realidade, de fingir e, também, de amar. Grande escritor. Vale!
Registro #1427 (contos #165)
[início: 12/07/2017 - fim: 06/07/2019]
"De que falamos quando falamos de amor", Raymond Carver, tradução de Carlos Santos, Lisboa: Relógio D'Água Editores, 1a. edição (2015), brochura 13x20 cm., 150 págs., ISBN: 978-989-641-517-4 [edição original: What We Talk About When We Talk About Love (New York: Alfred A. Knopf) 1981]

quarta-feira, 3 de julho de 2019

a bloomsday postcard

No mês passado, no 16 de junho, domingo, ao contrário do que tinha feito reiteradamente durante trinta anos, resolvi não participar em um lugar público de uma festa literária que realmente me agrada, o Bloomsday. Estava aborrecido, casmurro demais, com questões ainda não resolvidas em minha vida, cansado. Não era hora de eventualmente ofender pessoas susceptíveis a meus caprichos, a meu humor variável, a meu eu irascível. Decidi ficar apenas com as meninas, Helga e Natália; com os gatos, Salen, Lilica, Kyo, Sissy e Nicolau; com os livros de minha biblioteca, sobretudo os livros de Joyce; com meu Bushmills; com a música de Marcelo Tápia e seus Irish Dreams. Um dos livros ao qual sempre retorno nesses festejos do Bloomsday é "A Bloomsday Postcard", de Niall Murphy, publicado originalmente no centenário do dia dedicado a comemorar os sucessos narrados no "Ulysses", que é o 16 de junho de 1904. Trata-se de um volume onde estão registradas reproduções de 252 cartões postais que foram enviados ou recebidos em Dublin em 1904. Murphy, um velho antiquário e comerciante de livros irlandês, reuniu esses 252 cartões e aproveita, tanto a imagem/ilustração quanto o texto escrito pelos remetentes, para falar da Irlanda, de Dublin, do povo irlandês, dos personagens literários que gravitam James Joyce, dos incidentes e passagens que são narradas no Ulysses. O resultado é muito especial. O leitor é conduzido pelos capítulos do Ulysses, enquanto Murphy mostra as associações que existem entre o texto do livro de Joyce e os múltiplos signos dos cartões postais. Um dos capítulos mais interessantes é aquele dedicado às Rochas Serpeantes, as Wandering Rocks, que Murphy metamorfoseia em Wandering Characters. Nesta parte do livro todos os postais fazem alusão a passagens específicas do livro e são apresentados verbetes em ordem alfabética de uma miríade de personagens nele citados. O leitor não precisa ser um aficionado pelo mundo literário de Joyce para aproveitar "A Bloomsday Postcard". Basta ter alguma curiosidade sociológica sobre a Irlanda e os irlandeses do início do século passado para garantir horas de diversão. Deve-se lembrar que praticamente não existia comunicação via telefone naquela época e o uso de cartões postais era uma forma popular, prática e efetiva de contato entre as pessoas. Segundo Murphy em Dublin ocorriam seis entregas diárias de correspondência de segunda a sábado (e uma aos domingos). Impressionante. A edição (da boa Lilliput Press) é uma maravilha, de excelente qualidade. Um dia com um livro como este não é um dia perdido. De resto, vamos a ver o que acontecerá no Bloomsday do ano que vem. Vale! 
Registro #1426 (livro de arte #30)
[início: 01/06/2019 - fim: 16/06/2019]
"A Bloomsday Postcard", Niall Murphy, Dublin/Ireland: Lilliput Press, 1a. edição (2004), brochura 17x24 cm., 322 págs., ISBN: 978-1-84351-43-X

segunda-feira, 1 de julho de 2019

la palabra se hizo carne

Neste volume, o vigésimo primeiro das adoráveis aventuras do comissário Brunetti engendradas por Donna Leon, acompanhamos a investigação sobre a morte de uma pessoa desfigurada, sem documentos, que aparece em um dos canales de Veneza. Brunetti, com a ajuda dos leais Viannello, Elettra, Pucetti e Foa, alcançam descobrir a identidade do sujeito e as razões de seu assassinato. Patta, o tolo questore que supervisiona a delegacia onde Brunetti trabalha, ganha alguma consideração neste volume, pois não usa sua influência e poder para ajudar um de seus filhos nos exames finais em sua universidade; Paola, sua engenhosa mulher, resolve com maestria questões acadêmico e/ou políticas em sua universidade; seus filhos, Chiara e Raffa, cresceram um bocado, e se espantam com o conhecimento do pai sobre a história italiana e a participação dos jovens italianos na primeira grande guerra mundial; Rizzardi e Bocchese, respectivamente, legista e cientista forense, que prestam serviços a Brunetti, aparecem episodicamente, mas mostram o caminho seguro que ele deve seguir na investigação. A trama envolve basicamente uma questão moral, onde a avareza funciona como motor de um crime. Um médico veterinário, que trabalha em um grande abatedouro, nas proximidades de Veneza, é morto. Donna Leon oferece ao leitor suas costumeiras reflexões sobre questões de meio ambiente, gastronomia, turismo, imigração, mobilidade social, corrupção, problemas educacionais e intrigas típicas da política italiana. Livro primaveril, sem acqua alta, sem grandes sobressaltos, sem caminhadas pela cidade, que se resolve no continente, longe dos canales, campos, fondamentas e sestieres de Veneza. Bem interessante. Vale!
Registro #1425 (romance policial #86)
[início: 30/05/2019 - fim: 05/06/2019]
"La palabra se hizo carne" (Brunetti #21), Donna Leon, tradução de Beatriz Iglesias Lamas, Barcelona: Editorial Seix Barral / Booket #2478 (Grupo Planeta Manuscrito), 1a. edição (2013), brochura 12,5x19 cm., 336 págs., ISBN: 978-84-322-1487-5 [edição original: Beastly Things (Zürick: Diogenes Verlag AG / Penguin Randon House Group) 2012]

sábado, 29 de junho de 2019

cozinha de estar

Ainda em novembro inventei de mandar fazer móveis novos para a cozinha aqui de casa. A coisa obviamente demorou mais do que planejávamos, Helga e eu, impedindo nossos planos de convidar os amigos para nos visitar ainda nas férias. Na época das festas de Natal comprei "Cozinha de estar", de Rita Lobo, justamente para inspirar-me para os encontros que não aconteceram. Paciência. De qualquer forma experimentei algumas das receitas do livro. Acontece que Rita Lobo é a única das apresentadores de programas de culinária na televisão que eu realmente gosto de ver. Ela é bem humorada, objetiva e realmente sabe oferecer as informações necessárias para tornar a experiência na cozinha uma coisa agradável. Neste volume ela se concentra em sugerir pratos que sejam produzidos exatamente para receber convidados, dos preparativos as entradas, sopas, saladas e molhos, dos pratos principais e acompanhamentos as sobremesas e os drinques. O livro é fartamente ilustrado, com fotografias que transportam o leitor para um mundo de sonho, de hedonismo completo, de possibilidades, que antecipa deleite e prazer. Ela ensina coisas simples, como o procedimento correto de lavar e preparar saladas, ou a forma mais fácil de limpar peixes, mas também técnicas sofisticadas, com as quais o risco de alguma coisa dar errada é minimizado. As fotografias dos utensílios, do material básico que se deve ter para montar uma mesa de jantar, são por vezes mais impressionantes e bonitas que aquelas dos pratos. Vamos a ver se antes do final do semestre eu consigo mostrar minhas habilidades culinárias (e esse belo livro da Rita Lobo) para o povo amigo. Vale!
Registro #1424 (gastronomia #38)
[início: 22/12/2018 - fim: 12/04/2019]
"Cozinha de estar: Receitas práticas para receber", Rita Lobo, São Paulo: Editora Senac São Paulo, Editora Panelinha, 1a. edição (2016), capa-dura 19,5x25 cm, 272 págs. ISBN: 978-85-396-1104-1

quinta-feira, 27 de junho de 2019

yawalapiti, filhos da natureza

Paulo de Araújo é fotógrafo e gaúcho, mas vive em Brasília há décadas. Tempos atrás ele fez algumas viagens ao Parque Nacional do Xingu, no Mato Grosso, especificamente para a aldeia Yawalapiti, onde teve a oportunidade de produzir um belo registro fotográfico dos costumes, ritos e festas daquele povo. Noutro dia vi fotos dele expostas no glorioso Café Cristal, no centro de Santa Maria, e fiquei impressionado com a força das imagens que ele fez.  Comprei ali mesmo esse livro/catálogo, que inclui um longo texto de Clara Arreguy, mineira também radicada há tempos em Brasília. O texto é resultado de conversas entre Clara e Paulo, e também de alguma pesquisa etnográfica bem feita. O leitor é apresentado a história, costumes, regras de conduta, cerimônias e cotidiano dos Yawalapiti. Eles são poucos, um tanto menos que 500 indivíduos, mas demonstram nas fotos uma energia, uma alegria de viver, uma coragem, que encantam o vivente, o leitor. As imagens dominam o livro, mas a narrativa alcança produzir no leitor interesse na necessária luta em defesa daquela cultura, daquele modo de vida, daquela gente que é brasileira, como nós. Vale a pena também conferir também um curto video-documentário que Paulo de Araújo fez durante uma de suas viagens: "Xingu, um olhar (2012)". ÔBeleza. Vale! 
Registro #1423 (fotografia #12) 
[início: 03/05/2019 - fim: 05/05/2019]
"Yawalapiti, filhos da natureza", Clara Arreguy (texto) e Paulo de Araújo (fotos), |Brasília: Outubro Edições, 1a. edição (2019), brochura 19x19,5 cm., 25 págs. ISBN: 978-85-54818-24-1

terça-feira, 25 de junho de 2019

mañana tendremos otros nombres

Patricio Pron é argentino, tem pouco mais de quarenta anos, está radicado em Madrid há uma década pelo menos e já publicou bastante (é autor de mais de oito romances e seis volumes de contos). "Mañana tendremos otros nombres" é seu romance mais recente, recebeu o "Prêmio Alfaguara de novela de 2019". Foi Glória, amiga querida, quem fez menção a esse autor e esse livro, num dia mágico ali em Porto Alegre, dia que sempre deveria ser repetido, ai de nós. A narrativa é interessante, tenta captar as muitas possibilidades de uma separação afetiva, os aborrecimentos que fazem com que um casamento termine, as misérias do fim de um relacionamento. É preciso que o leitor aceite que esse fato é mais do que corriqueiro, afinal as dores e os desdobramentos de qualquer separação de um casal que um dia se amou talvez seja das poucas coisas que todo ser humano sabe muito bem, em cada época de nossa história, em cada lugar do planeta, em qualquer configuração de amores. Tudo bem, mas o resultado não me convenceu muito. Acho que Patricio Pron tentou colocar no livro o máximo de experiências que usualmente derivam desta situação, relativizando tudo. Além disto o livro é muito esquemático. Ele separa seus capítulos temporalmente, identificando as ocorrências afetivas em 24 horas (após a separação), em uma semana (antes ou após a separação), em cinco anos (o tempo do relacionamento), em uns poucos minutos (de um reencontro algo ex-machina), em 7 meses (o tempo de separação dos protagonistas). A mulher e o homem, nunca nominados, uma arquiteta e um escritor, parecem artificiais demais, recortados demais. Pron povoa a narrativa com vários outros personagens, que são aqueles que usualmente são partícipes do fim de um relacionamento, queiram ou não: os colegas de trabalho, os melhores amigos, os chefes imediatos, os vizinhos, os estranhos que surgem, todos aqueles que de alguma forma os reconhecem como casal. Agora registro algo bobo, fazer o quê? Pron faz um dos personagens visitar o Brasil em algum momento da trama. A descrição de nossas misérias não poderia ser mais cruel, porém verdadeira, mas isso pouco importa, trata-se apenas de um acréscimo sociológico, um afastamento necessário para fazer a narrativa fluir. O que ele fala do Brasil poderia ser dito de qualquer outro país do mundo. Paciência. Agora um registro positivo. O livro faz menção a um curioso "Museum of broken relationships", que existe sim em Zagreb, na Croácia, onde são exibidos objetos associados ao fim de relacionamentos de pessoas do mundo inteiro. Trata-se de um museu de arte conceitual, onde materialidade e relatos da memória e afetos perdidos restam guardados e são exibidos ao público. Para quem gosta de se divertir com os aborrecimentos alheios - ou entender algo da psique humana - é bastante divertido - ou útil. Pobre bicho. Manuel Bandeira já nos ensinou que "(...) os corpos se entendem, mas as almas não". Este é nosso humano defeito básico (e a asserção pode ser invertida, corpos e almas sempre comutam). Enfim, acho que essa tentativa do jovem Patricio Pron de mostrar literariamente como funciona o processo de uma separação pode ser inteiramente resumida num único poema de Manuel Bandeira. Melhor assim. Vale! 
Registro #1422 (romance #358) 
[início: 29/05/2019 - fim: 30/05/2019]
"Mañana tendremos otros nombres", Patricio Pron, Madrid: Alfaguara (Grupo Santillana de ediciones / Penguin Random House Grupo Editorial), 1a. edição (2019), brochura 15x24 cm, 375 págs. ISBN: 978-84-204-3487-2

domingo, 23 de junho de 2019

golegolegolegolegah!

Já havia lido e registrado aqui quase todos os livros do curitibano Marcio Renato dos Santos. Eles são, pela ordem, "Dicionário amoroso de Curitiba", "Minda-au", "2,99", "mais-laiquis", "Finalmente hoje", "Outras dezessete noites", "A certeza das coisas impossíveis" e "A cor do presente". No ano passado consegui mais um da lavra dele, esse volume com título provocativo e incerto: "Golegolegolegolegah!". São seis contos curtos, contos onde os personagens ou são fantasmas, espectros; ou sonhadores, criaturas em sonho profundo; ou gente que já morreu em vida, que perdeu o sentido, desistiu dela. Os contos correspondem a experimentos de estranhezas, de situações limite, de excessos, são algo inclassificáveis (e eu aqui tentando classificá-los a todo custo, vai entender?). O resultado é bom, pois os contos provocam no leitor este exercício de entender a possibilidade daquela vida, daquele comportamento, daquele mundo inventado. Acompanhamos seis homens que estão entediados e repetem ações obsessivamente; vagam pela cidade sem rumo e propósito, cultivam o silêncio, flertam com fragmentos de suas memórias, de seus passados, jactam-se de uma vida vazia, sem significado, excêntrica. Bacana. Cada conjunto de contos de Marcio Renato é mesmo uma aventura para os sentidos. Vamos a ver o que ele vai nos propor no futuro. Ojo!
Registro #1421 (contos #164) 
[início: 29/05/2019 - fim: 30/05/2019]
"Golegolegolegolegah!",  Marcio Renato dos Santos, Curitiba: Editora Travessa dos editores, 1a. edição (2013), brochura 13x21 cm., 80 págs., ISBN: 978-85-89485-90-6

sexta-feira, 21 de junho de 2019

impressões de silveira martins


O catálogo "Impressões de Silveira Martins" corresponde a uma exposição de trabalhos do Grupo de Pesquisa CNPq "Arte Impressa", criado em 2012 por Helga Correa, artista plástica vinculada ao Departamento de Artes Visuais da Universidade Federal de Santa Maria. Essa mostra de trabalhos foi exibida na Sala de Exposições Nelson Ellwanger do Espaço Multidisciplinar de Pesquisa e Extensão da UFSM em Silveira Martins, em maio de 2019. As propostas plásticas são variadas, metade delas xilogravuras, metade gravuras em metal. A maioria dos artistas é iniciante no mundo da gravura, mas há também trabalhos de pesquisadores antigos do grupo de pesquisa Arte Impressa. Essa mescla evidencia o processo de acumulação de experiências e transmissão de saberes entre artistas já formados e aqueles em processo de capacitação. Demonstra também a ambição de possibilitar a formação contínua de profissionais, de registrar avanços e novas propostas plásticas, de fixar fragmentos da memória da UFSM, para citar apenas algumas das atividades típicas desenvolvidas pelo grupo. No caso específico desta exposição a dinâmica pedagógica pretendeu sensibilizar os alunos a refletir sobre o contexto de inserção do Espaço Multidisciplinar de Pesquisa e Extensão da UFSM na pequena cidade de Silveira Martins, que dista pouco mais de 30 Km do centro de Santa Maria. As pesquisas individuais foram concebidas e/ou inspiradas na cidade, executadas em Santa Maria e apresentadas a comunidade local, encerrando um ciclo. Esse e outros trabalhos do grupo podem ser apreciados nos sites: "Bloomsday 2015", "Livro Interferido", "Livro dos Artistas I", "Livro dos Artistas II", "Livros Arte e Bibliotecas do século XXI" e "Livro Interferido II". Vale a pena conferir. E segue o baile.
Registro #1420 (catálogo #10) 
[início: 01/05/2019 - fim: 30/05/2019] 
"Impressões de Silveira Martins", Helga Correa (Grupo de Pesquisa Arte Impressa - CNPq), assessoria de curadoria: Aracy Colvero e Ketelen Oliveira, projeto gráfico de Priscila Baelz, trabalhos de Antonia Monfardini, Antonio Junior, Aracy Colvero, Barbara Almeida, Caterine Giles, Flávia Queiroz de Jesus, Giovana Balestrin, Isabela Quevedo, Jean Guerra, Jeremias Pacheco, Karina Machado de Olivbeira, Ketelen Oliveira, Lara Nunes, Larissa Stanislaski, Luiza Rodrigues, Maíra Velho, Mateus Rodrigues, Monica Appelt, Pedro Henrique de Carvalho, Priscila Baelz, Thais Oliveira, Santa Maria: Edição do Autor, 1a. edição (2019), brochura 22,5x21, 38 págs, sem ISBN.

quarta-feira, 19 de junho de 2019

el carrusel de las confusiones

"El carrusel de las confusiones", título desse vigésimo oitavo volume com os sucessos do comissário Montalbano, denuncia o que o leitor encontrará na história. Trata-se de uma sucessão de reviravoltas, de recorrentes mudanças de pontos de vista, de contínuas guinadas e mudanças, de suspeitos que parecem se metamorfosear. Máfia, amantes, sindicalistas, o sistema judiciário e velhos senhores que sustentam jovens moças, todos em algum momento podem ser acusados de terem motivações para os crimes. Andrea Camilleri apresenta uma história bastante intrincada, que começa com o próprio Montalbano sendo confundido com um delinquente após uma briga na praia e termina como em um drama teatral, como em uma ópera bruta. Já li vários livros de Camilleri nos quais ele usa recursos dramáticos, mas neste volume as ações e os diálogos são quase sempre mesmo teatrais, algo exagerados, sempre buscando um efeito ora cômico, ora trágico. Funciona. Acompanhamos com interesse o momento em que o verdadeiro culpado será apresentado. Haverá mais Camilleri? Ontem soube de seus problemas de saúde. Vamos finalmente saber o destino que ele engendrou para Montalbano? Conhecer o romance Riccardino, último da série, que ele escreveu há tantos anos, naquele longínquo 2006? Logo veremos. Segue o baile. Vale! 
Registro #1419 (romance policial #85) 
[início: 28/05/2019 - fim: 29/05/2019]
"El carrusel de las confusiones", Andrea Camilleri, tradução de tradução de Carlos Mayor, Barcelona: publicaciones y ediciones Salamandra, 1a. edição (2019), brochura 14x21 cm., 221 págs., ISBN: 978-84-9838-941-8 [edição original: La giosta degli scambi (Palermo: Sellerio editore) 2015]

segunda-feira, 17 de junho de 2019

finnegans wake, por um fio

Para comemorar os festejos dos 80 anos de lançamento de "Finnegans Wake", de James Joyce, dediquei algumas horas das últimas semanas em livros que tratam dele. Já registrei aqui os bons "A Word in Your Ear", de Eric Rosenbloom e "Finnegans Wake, a plot summary", de John Gordon, verdadeiras bombas atômicas interpretativas do complexo romance. Hoje vou registrar algo sobre uma experiência de tradução de algumas passagens do livro, tradução engendrada por Dirce Waltrick do Amarante, respeitada professora da UFSC, que dedica-se há tempos na divulgação de cousas de Joyce. Trata-se de uma edição bilíngue, de pouco mais que 600 parágrafos ou frases do livro (que deve ter pelo menos 6000 parágrafos ou frases). Essa proposta tradutória fica a meio caminho daquelas já trilhadas por Haroldo de Campos e Augusto de Campos, no "Panorama do 'Finnegans Wake'", iniciada ainda nos anos 1960 e a de Donaldo Schüler, que publicou sua tradução integral do livro, em cinco volumes, entre 1999 e 2004. Digo isso pois essa proposta de Dirce W. do Amarante nem é exaustiva, ou pretende apresentar um único projeto de tradução, como no caso de Donaldo Schüler, nem tão inventiva e realmente original em língua portuguesa quanto a dos irmãos Campos, um verdadeiro portento de tradução. Claro, um neófito leitor, que nunca decidiu-se a enfrentar as robustas 628 páginas do original ganha muito com a proposta de Dirce. Em suas próprias palavras, no livro "(...) reconto o que eu ouvi de Joyce, ou o que eu quis ouvir; é a minha versão da história, meu fio narrativo". Em função deste projeto ela ressalta a história dos Earwicker e a notícia de um suposto crime que HCE teria cometido. Funciona. Mas a estranheza que o livro provoca continua ali, algo mais desfigurada pelo procedimento de recorte, de escolha, de seu singular e aleatórior fio  narrativo do livro. Em um curto posfácio Dirce Amarante descreve seus critérios de tradução, suas escolhas, fala dos artistas que a inspiraram: John Cage, Ana Hatherly e os irmãos Haroldo e Augusto de Campos. É isso. Não há atalhos na aventura de ler Finnegans Wake. Joyce demorou 16 anos para escrevê-lo e a cada ano certamente são publicados uma dezena ou duas de trabalhos acadêmicos e livros a respeito dele. Ontem foi dia de comemorar o Bloomsday, todo mundo já se divertiu. Talvez seja o caso agora de um curioso leitor começar a se preparar para o Bloomsday 2020, começar a singrar esse caudaloso mar de palavras e signos. E vamos em frente. Vale!
Registro #1418 (romance #357)
[início:12/04/2019 - fim: 16/06/2019]
"Finnegans Wake (por um fio)", James Joyce, organização, tradução e posfácio de Dirce Waltrick do Amarante, São Paulo: editora Iluminuras, 1a. edição (2018), brochura 15,5x22,5 cm., 184 págs., ISBN: 978-85-7321-575-5

domingo, 16 de junho de 2019

a word in your ear

Li este livro ainda em sua versão primitiva, original, um PDF que o Eric Rosenbloom enviou-me em 2003 ou 2004, há quinze anos pelo menos. Rosenbloom é um entusiasta das cousas de James Joyce, de seus livros, e é também um dos pioneiros na nobre arte de editar livros com baixo custo e disponibilizá-los e/ou vendê-los em plataformas digitais. Neste seu "A Word in Your Ear" ele orienta o leitor a como enfrentar o desafio supremo que é a leitura de Finnegans Wake, de James Joyce. Desde sua publicação original, em maio de 1939, Finnegans Wake tem produzido reações de amor e desprezo, de louvor e ódio, de encantamento e rechaço, de entusiasmo e decepção. Neste 2019, quando comemoramos os 80 anos do lançamento do maior portento de Joyce, resolvi conferir novamente as curtas notas de Rosenbloom. Trata-se de um livro compacto, pequeno, só 150 páginas. Todavia, nada nele é dispensável, irrelevante, supérfluo. O livro é dividido em duas partes. Na primeira Rosenbloom se dedica a explicar algo sobre a linguagem e técnica utilizada por Joyce, fala dos personagens e propostas do livro, destrincha seus ciclos, faz associações, dá sugestões de como abordá-lo, discute a geografia, estrutura, história incluída nele, trata de uma miríade de outros temas correlatos ao romance. Na segunda parte ele faz uma espécie de leitura guiada por partes icônicas do livro (Anna Livia Plurabelle, The Mookse and the Gripes, The Ondt and the Gracehoper, King Roderick O'Conor) e treze outras passagens curtas igualmente memoráveis (The Ballad of Persse O'Reilly, Shem The Penman, Farewell to Haun, Anna Liffey, e tantos outros). Ler Finnegans Wake é tarefa para um vida, cada leitor aplica uma camada de associações e entendimento no infinito palimpsesto que o compõe. Todas as abordagens são permitidas, todas as especulações válidas. Algumas realmente demonstram ser caminhos férteis, ouro puro, fino e seminal, outras só becos sem saída, tonterias, achismos sem fim e nexo. Acontece, não só na fortuna crítica dos livros de James Joyce, mas na crítica de qualquer opúsculo ou volume que é impresso, desde que o homo sapiens inventou de contar histórias em uma caverna. De qualquer forma a ideia com Joyce sempre é se divertir. Bueno. Boa parte do livro pode ser acessada sem custo no site de Rosenbloom. Experimente. E aproveite, comemore o Bloomsday, leia James Joyce, divirta-se hoje e sempre. Afinal hoje é 16 de junho, dia de hera na lapela, dia de deambular pela cidade, saudade. Comece em qualquer ponto do livro, sem medo, sem temor, comece por "(...) riverrun, past Eve and Adam's, from swerve of shore to bend of bay, brings us by a commodius vicus of recirculation back to Howth Castle and Environs". Evoé.
Registro #1417 (crônicas e ensaios #261)
[início: 02/02/2019 - fim: 16/06/2019]
"A Word in Your Ear: How & Why to Read James Joyce's Finnegans Wake", Eric Rosenbloom, Charleston/South Carolina: BookSurge Publishing, 1a. edição (2005), brochura 13x20,5 cm, 150 págs., ISBN:1-4196-0930-0

sábado, 15 de junho de 2019

panorama do finnegans wake

Há dois dias falei de "Finnegans Wake: a plot summary", de John Gordon, um dos muitos livros dedicados a decifrar o inventivo romance final de James Joyce. Hoje, como parte dos festejos para o Bloomsday 2019, vou registrar algo sobre o primeiro projeto de tradução de Finnegans Wake para o português.  Augusto de Campos e Haroldo de Campos começaram a se interessar pelo tema no final dos anos 1950, ao publicarem fragmentos do livro no Suplemento Literário do Jornal do Brasil. Em 1962 eles publicaram em uma edição não-comercial, hors commerce, distribuída pela Conselho Estadual de Cultura de São Paulo, onze fragmentos do "Finnegans Wake". Na primeira edição comercial, de 1971, que inaugurava a hoje mítica coleção SIGNOS, da editora Perspectiva, o conjunto de fragmentos cresceu, alcançando 16 trechos. Em 1986, na terceira edição, o conjunto alcançou 19 e nesta, a quarta e última produzida ainda antes da morte de Haroldo de Campos, o conjunto de fragmentos de "Panorama de Finnegans Wake" chegou a 22, além de numerosas adições e reinterpretações às demais. São propostas muito bacanas, gostosas de ler, que povoam o cérebro do leitor com imagens e inspirações. As muitas dificuldades (diria até intransponibilidades) do livro parecem desaparecer após a leitura das propostas dos irmãos Campos, um trabalho de perfeccionismo comparável ao do original. Além dos fragmentos, que são acompanhados por extensas notas de tradução, o leitor encontra neste volume vários outros mimos, na forma de uma bibliografia completa sobre Joyce e sua obra; uma síntese biobibliográfica; uma sinopse do livro, que ajuda o leitor a localizar no original os fragmentos traduzidos; uma longa apresentação; várias ilustrações (assinadas por Gerty Saruê, uma gravadora, desenhista, artista multimídia austríaca que radicou-se em São Paulo nos anos 1950) e cinco longos ensaios sobre o Finnegans Wake, um assinado por Joseph Campbell e Henry Morton Robinson, três por Augusto de Campos e um por Haroldo de Campos, cinco jóias raras, artigos realmente seminais. Lembro-me de quando encontrei em um sebo paulista um surrado volume da edição de 1971 (que inclusive tinha uma paginação errada, que dificultava a leitura). Estou seguro que "Panorama do Finnegans Wake" é o melhor início para a aventura que é ler Finnegans Wake. Bom divertimento. Domingo é 16 de junho, é Bloomsday novamente, vamos ler Joyce, Ulysses, Finnegans Wake, vamos ler sem medo "(...) riverrun, past Eve and Adam's, from swerve of shore to bend of bay, brings us by a commodius vicus of recirculation back to Howth Castle and Environs". Evoé.
Registro #1416 (crônicas e ensaios #260)
[início: 02/02/2019 - fim: 16/06/2019]
"Panorama do Finnegans Wake", Augusto de Campos e Haroldo de Campos, São Paulo: Perspectiva, 4a. edição (2001), brochura 15x20,5 cm, 221 págs., ISBN: 978-85-273-0270-5

quinta-feira, 13 de junho de 2019

finnegans wake, a plot summary

De toda a miríade de livros dedicados a decifrar o "Finnegans Wake", genial romance de James Joyce, esse é um dos mais convincentes. Lembro-me do assombro de encontrar nele tantas respostas às dúvidas que tinha quando comecei a tentar ler o Finnegans (e ao mesmo tempo de encontrar nele tantas outras perguntas novas e associações amalucadas - associações que até hoje tento entender). De qualquer forma, não é possível acreditar que em um único livro seja possível alcançar uma sinopse ou sumário definitivo. Há quem tente. Em seu "Finnegans Wake: a plot summary", John Gordon, professor já aposentado do Connecticut College, explica capítulo a capítulo, parágrafo a parágrafo, linha a linha, o resultado de suas reflexões, considerações alcançadas após seus muitos anos de dedicação à obra de Joyce. Assim como no Ulysses acompanhamos algumas horas de um dia na vida de um sujeito, Leopold Bloom, no Finnegans Wake acompanhamos a noite e os sonhos de um outro sujeito, chamado Humphrey Chimpden Earwicker, uma noite e sonhos que resumem a história e os ciclos da humanidade, de todos homo sapiens. John Gordon fala do dia em que acontece esses sonhos (a noite de uma segunda-feira para terça-feira, a noite do 21 de março de 1938, dia do equinócio); o lugar (Chapelizod, subúrbio ao oeste de Dublin, nas margens do Liffey), fala da estrutura do livro; de HCE (Humphrey Chimpden Earwicker), ALP (Anna Livia Plurabelle), os irmãos Shem e Shaun, dos demais personagens, todos em suas múltiplas metamorfoses; dos temas; das associações possíveis; das formas de tentar alcançar alguma compreensão sobre o livro. Falar de Finnegans Wake é falar da vida, das autobiografias possíveis, do fluxo de tudo que já foi experimentado por nós, homo sapiens, neste tempo em que povoamos o planeta, ai de nós. Para quem quiser experimentar o estilo de Gordon, ele oferece a qualquer leitor, em seu seminal blog, material que é continuamente retrabalhado, refletindo o estado da arte nas reflexões da comunidade dedicada aos estudos sobre James Joyce e sua obra. Ele promete um novo livro para 2020. Vamos a ver. E vamos lá nosotros. Domingo é 16 de junho, é dia de Bloomsday novamente, vamos ler Joyce, Ulysses, Finnegans Wake, vamos ler sem medo "(...) riverrun, past Eve and Adam's, from swerve of shore to bend of bay, brings us by a commodius vicus of recirculation back to Howth Castle and Environs". Evoé.
Registro #1415 (crônicas e ensaios #259)
[início: 02/02/2019 - fim: 16/06/2019]
"Finnegans Wake: a plot summary", John Gordon, New York: Syracuse University Press, 1a. edição (1986), brochura 14x21,5 cm, 302 págs., ISBN: 0-8156-2396-8

terça-feira, 11 de junho de 2019

bloomsday festival

Robson Gonçalves, amigo querido, fez um passeio por Londres e Dublin, e trouxe na bagagens uns mimos que fazem festa nos sentidos. Um deles é esse catálogo, onde estão descritas todas as atividades relacionadas ao Bloomsday deste ano organizadas pelo The James Joyce Cultural Centre de Dublin. O Bloomsday é uma festa literária que é celebrada anualmente no dia 16 de junho, dia em que os sucessos do romance "Ulysses", de James Joyce, ficcionalmente acontecem. Pelo menos desde 1954 o Bloomsday é comemorado, seja por meio de caminhadas pela cidade, palestras, mini cursos, projeção de filmes e documentários, encenações dramáticas, encontros e festas gastronômicas. Em muitos lugares os participantes vestem roupas do período eduardiano, do início do século XX inglês, consomem aquilo que Joyce fez seus personagens consumir no livro, caminham pelas mesmas ruas e frequentam os mesmo lugares nele descritos. A lista de eventos é enorme (e este catálogo só registra o que o JJCC organiza, há eventos assim em dezenas de cidades no mundo). O leitor curioso pode verificar como estes eventos funcionam no site do JJCC. Resolvi fazer esse registro aqui pois acredito que aqueles que planejam organizar uma festa nestes moldes um dia podem encontrar neles inspiração, ter uma ideia do que pode ser feito. Basicamente: não há limites e regras. Deixo aqui também um vídeo de Sam Slote explicando porque você deve ler o Ulysses (Sam Slote no TED education).  Are you ready for Bloomsday? So this is Dyoublong?
Registro #1414 (catálogo #9) 
[início: 08/06/2019 - fim: 12/06/2019] 
"Bloomsday Festival", Jessica Pell-Yates (manager of the James Joyce Cultural Centre, organização), Dublin: James Joyce Cultural Centre, 1a. edição (2019), brochura 14x21, 60 págs, sem ISBN.

domingo, 9 de junho de 2019

la pirámide de fango

Lívia ainda está de luto pela morte de François (como foi relatado em "Un filo de luz") e Guido Montalbano algo lento, cansado, sem ânimo, talvez com problemas de audição. Já velho demais para a profissão? Chove sobre a Itália, o mar está encrespado, sujeira e lama se acumulam. Mas nos sucessos narrados por Andrea Camilleri neste seu "La pirámide de fango" a lama é metafórica, pois ele fala sobre corrupção, lavagem de dinheiro e assassinatos. O corpo do contador de uma grande empresa de construção civil é encontrado. A mulher deste sujeito desaparece, para surgir vagamente já distante, na Alemanha. Um misterioso senhor que talvez estivesse hospedado com eles também não deixa pistas de seu paradeiro, mas Montalbano alcança descobrir uma caixa forte na casa do contador morto, um cofre que poderia conter milhões de euros em espécie. A investigação segue os procedimentos usuais de Camilleri, alternando descrições do estado de ânimo de Montalbano, sua inspiração rediviva após os almoços preparados por Adelina ou os jantares na cantina de Enzo. Camilleri volta a usar os truques típicos do teatro em sua trama. Os advogados dos dois grupos mafiosos envolvidos nos crimes espalham inventivas pistas falsas, tentam obstruir o trabalho de investigação. Todavia Montalbano recupera seu tino e força mental, consegue deslindar as mirabolantes histórias que advogados canalhas e jornalistas venais criaram, levando ao menos um dos empresários corruptos para a cadeia. Haverá mais Montalbanos por aqui. Vale!
Registro #1413 (romance policial #84)
[início: 22/05/2019 - fim: 23/05/2019]
"La pirámide de fango", Andrea Camilleri, tradução de tradução de Carlos Mayor, Barcelona: publicaciones y ediciones Salamandra, 1a. edição (2018), brochura 14x21 cm., 219 págs., ISBN: 978-84-9838-840-4 [edição original: La piramide di fango (Palermo: Sellerio editore) 2014]

sexta-feira, 7 de junho de 2019

haroldo de campos, para sempre

Há livros que não precisam ser extensos para alcançarem a categoria de fundamentais. Pois neste seu "Haroldo de Campos: para sempre" Lucia Santaella apresenta em poucas páginas um panorama rico da personalidade e obra de seu amigo, colega e mestre. Trata-se de uma justa homenagem a Haroldo de Campos, que morreu precocemente, já há mais de quinze anos, em 2003. Em seis breves capítulos Santaella nos ensina o quão completo e seminal foi Haroldo, tanto para o mundo da cultura, da literatura e da arte, quanto para o mundo da educação, da formação de novas gerações de pensadores e praticantes das artes poéticas. No primeiro capítulo ela fala da formação intelectual e acadêmica de seu biografado e da gênese da composição e publicação de toda sua obra. Nos demais Santaella complementa esse capítulo inaugural e passa a nos apresentar as várias facetas de um legítimo e digno Il miglior fabbro de seu tempo: simultaneamente poeta, crítico, ensaísta, tradutor, teórico, professor e amigo. Não são peças simplesmente laudatórias. Ela fundamenta suas reflexões e situa com vastas referências as muitas contribuições de Haroldo, sejam as mais teóricas, para o campo da tradução e/ou transcriação, sejam as especialmente poéticas, que dão conta de sua original invenção poética. Uma completa bibliografia e uma robusta lista de referências orienta o eventual leitor para onde rumar caso queira mais informações sobre Haroldo de Campos, mais sabedoria, mais luz haroldiana. No portal da Casa das Rosas e no portal do Itaú Cultural há bons textos curtos sobre ele. Santaella dá destaque a qualidade de uma tese defendida por Thelma Médici Nóbrega em 2005, sobre a biografia intelectual de Haroldo, mas descobri que apenas do abstract desta tese está disponível digitalmente. Eu cá sugiro o bom Signâncias, Festchrift publicado em 2011. Enfim, em agosto Haroldo de Campos completaria 90 anos. Talvez seja o caso de ler alguma coisa dele, celebrar uma vez mais sua obra e vida. Talvez seja a hora de reler os fragmentos do Finnegans Wake que ele e seu irmão  Augusto traduziram, afinal o Bloomsday a caminho está. Evoé Haroldo, evoé. Vale! 
Registro #1412 (crônicas e ensaios #258)
[início: 27/05/2019 - fim: 29/05/2019]
"Haroldo de Campos: para sempre", Lucia Santaella, São Paulo: EDUC, 1a. edição (2019), brochura 14x18 cm, 80 págs., ISBN: 978-85-283-0626-2

quinta-feira, 6 de junho de 2019

primavera

Em "Primavera" Tania Lopes oferece ao leitor 25 contos curtos, narrativas afetivas, historietas líricas. Ela chama suas histórias de cronicontos, um híbrido de inspiração e registro do cotidiano. Nas histórias se destacam as cousas do campo, na fronteira sul do Brasil, o imenso pampa gaúcho. Navegamos pelos saberes e costumes das gentes que ali vivem, pois ao contar suas histórias Tania registra algo da vida campeira, da culinária, das técnicas agrícolas, dos truques de doma, da liturgia dos ofícios que talvez existam mesmo apenas na memória de um país inventado ou de um tempo que já se foi. Ela fala de destinos quase gregos, das forças da natureza que definem as escolhas dos homens, de tradições e hábitos, das gerações que se sucedem, eventualmente contrasta a cidade grande e os povoados. Li estas histórias num dia só, o dia de aniversário de Santa Maria, 17 de maio, um dia ensolarado e calmo, tranquilo, como sempre deve ser. Cousa boa. Vale! 
Registro #1411 (contos #163) 
[início-fim:017/05/2019]
"Primavera: Cronicontos", Tania Lopes, Santa Maria / RS: Editora Rio das Letras, 1a. edição (2019), brochura 10,5x17 cm, 104 págs. ISBN: 978-85-65172-61-5

terça-feira, 4 de junho de 2019

trieste

De Jan Morris já havia lido dois livros bem antigos: os adoráveis "Venice", que é de 1955 e "Spain", que é de 1964.  "Trieste" é bem mais recente, foi publicado originalmente em 2001. Jan Morris fala de Trieste, cidade italiana do nordeste, na costa do Mar Adriático, na fronteira dos Bálcãs. Mas ela também fala de si, de sua longa vida e das metamorfoses pelas quais passou. Quando esteve pela primeira vez em Trieste, em 1946, ela era um homem, um jovem soldado do exército britânico. Em 2001, quando o livro foi publicado, tem 75 anos, já é mulher há mais de quarenta anos. Neste longo intervalo Morris visitou Trieste várias vezes. O livro não é longo, mas contém uma miríade de informações. Aprendi um bocado. Ela fala num tom melancólico (bem diferente do tom que encontramos em seus livros sobre Veneza e Espanha). Trieste era nos tempos romanos uma colônia quase irrelevante, mas atingiu seu apogeu quando tornou-se o porto mais importante do Império Austro-Húngaro, estratégico ponto de conexão com o Mar Mediterrâneo e o extremo Oriente. Na pequena cidade conviviam pessoas de diferentes culturas, línguas, religiões, origens e status social. Em dez curtos capítulos Morris fala da história, geografia, arquitetura da cidade; dos muitos senhores do lugar (romanos, Bizâncio, francos, austríacos, nazistas; e Trieste só voltou a ser italiana em 1954, quase dez anos após o final da segunda grande guerra); fala das montanhas, mar e florestas que a cercam; de sua vocação como ponto de passagem, de lugar de exílio; faz especulações sobre a influência eslava, judaica, cristã e moura na psique dos cidadãos que viviam lá na época em que o livro foi escrito; reflete sobre a não vocação para o turismo, apesar dos muitos bares e cafés, das igrejas e prostíbulos, da presença de importantes laboratórios científicos na cidade, da especial vida mundana, citadina; canta a nostalgia de seus anos de esplendor. Há seções biográficas no livro dedicadas a James Joyce, Italo Svevo, Rainer Rilke, Richard Burton, D.H. Lawrence, Stendhal, Maximiliano (que história a do azarado imperador do México, irmão mais novo do imperador Francisco José) e vários outros sujeitos que viveram ali, "no limite oriental da latinidade, no extremo sul do germanos". No capítulo final ela propõe que Trieste seja nomeada a capital de um país imaginário, onde todo aquele cuja vida já passou por aborrecimentos sem conta, e sente-se apátrida, enfim, todos cidadãos de nenhuma parte do título do livro, possam desfrutá-la em paz, como em uma Citera espiritual. É sim um livro muito especial. Jan Morris me lembra Tirésias, aquele adivinho grego que também foi homem e mulher, e era especialmente sábio. Vale!
Registro #1410 (perfis e memórias #90)
[início:01/05/2019 - fim: 17/05/2019]
"Trieste, o el sentido de ninguna parte", Jan Morris, tradução de Lucía Barahona Lorenzo, Madrid: Gallo Nero ediciones, 1a. edição (2017), brochura 14x19 cm., 224 págs., ISBN: 978-84-1652943-8 [edição original: Trieste and the meaning of nowhere (Faber and Faber) 2001]

segunda-feira, 3 de junho de 2019

spain

Vou registrar este volume com o marcador "perfis e memórias" e não "crônicas", "ensaios", "turismo" ou "viagens", pois ele evoca uma Espanha que passou por várias metamorfoses desde que foi escrito. Jan Morris, de quem já registrei aqui o adorável "Venice", publicou-o originalmente em 1964 e fez algumas alterações em 1979, após a morte de Franco e a redemocratização do país. Ela diz textualmente: "this book died with him (Franco)", com prudência. Mas não, acredito que o leitor contemporâneo pode aproveitar muitas das reflexões de Morris sobre a Espanha. Claro, as transformações sociais que o país experimentou nos quase 60 anos desde a publicação original são tremendas, todavia o olhar de Morris conduz o leitor aos temas que definem perfeitamente a Espanha. Meus gurus quando se trata da história e da sociologia espanhola são sempre Cees Nooteboom, Arturo Pérez-Reverte, Javier Marías, Julio Llamazares, Josep Pla, Manuel Vázquez Montalbán. Acho que esse pequeno livro de Morris não deve muito a nenhum deles (na medida em que suas palavras podem ser debatidas, julgadas, contrastadas com a experiência pessoal do eventual leitor que já deambulou por aquele país). Os dez capítulos tratam da "alma" espanhola, das paixões que a definem; dos múltiplos povos que lá viveram e ali se fundiram; das manifestações artísticas únicas do país; da orografia; da vocação militar; da onipresença da igreja; dos mitos; das diferentes línguas e diferentes comunidades autonômicas; da religiosidade; da literatura, de Cervantes, Lope de Vega, e tantos outros; das aventuras; da culinária variada e rica. Num dos capítulos finais ela fala de cidades icônicas do país: Salamanca e sua antiga universidade; Segóvia e seu casario romano; Ávila e suas muralhas; Toledo, a forja, o caldeirão étnico que definiu no passado o país, tornando-o complexo como toda nação digna de nome acaba se tornando. No último capítulo ela fala de Madrid, cidade inventada por Felipe II, e canta as metamorfoses que a cidade e o país experimentava após a morte de Franco. Li esse livro alternando melancolia e curiosidade, experimentando algumas memórias bacanas e alguns aborrecimentos; com a certeza que há algo realmente singular ali, ao alcance de todo aquele que se permita conhecer cousas raras, belas, instigantes. Vamos em frente. Vale!
Registro #1409 (perfis e memórias #89)
[início:01/04/2019 - fim: 30/05/2019]
"Spain", Jan Morris, London: Faber and Faber Limited, 1a. edição (2008), brochura 13x20 cm., 160 págs., ISBN: 978-0-571-24176-7 [edição original: James Morris, The presence of Spain (Faber and Faber) 1964; revised 1979]

domingo, 2 de junho de 2019

cuando la sociedad es el tirano

Neste volume estão reunidas 96 crônicas de Javier Marías que foram publicadas originalmente nos domingos entre 05/02/2017 e 27/01/2019, no suplemento El País Semanal. Quarenta e quatro são de 2017, quarenta e oito de 2018 e quatro já deste terrível 2019. Todas estas crônicas podem ser lidas também em seu blog: javiermariasblog. As crônicas não são monotemáticas, em geral ele enfeixa vários assuntos e propõe uma síntese, um ponto de vista original e sempre rico. De qualquer forma tentei organizá-las nos temas mais dominantes e as reduzi a quatro conjuntos: vinte e sete são basicamente sobre questões políticas (seja da madrilenha, catalã - viveu-se a tentativa de independência da catalunya nestes dias, espanhola ou europeia, mas também tratam de intolerância, terrorismo, o debate entre esquerda e direita no mundo); quarenta e três gravitam a sociologia (a vida em sociedade, comportamento, questões de gênero, o mundanismo, percepção da realidade, a boa educação); nove correspondem a registros ou fragmentos da memória (da família, dos amigos, do futebol, de experiências pessoais) e dezessete de questões culturais (do ofício da literatura, do cinema, das artes plásticas, da música, de questões linguísticas ecoadas na RAE, da estética, de ideias e ideais). Marías é um sujeito que percebe tendências, não se deixa enganar pelas aparências, pelo convencional. Ali de seu apartamento na Madrid de los Austrias, aquela região mítica do centro-oeste de Madrid, ele acompanha os sucessos do mundo e reflete, digita em sua vetusta Olympia Carre de Luxe suas seminais crônicas. Cada uma delas é um pequeno bálsamo semanal, um lenitivo aos aborrecimentos e surpresas da vida. Pouco importa se sua matéria prima cultural seja a Espanha, já que suas digressões falam do mundo contemporâneo, dos homo sapiens de hoje, daquilo que repercute em todo o globo. Ele não se furta de provocar tribos organizadas, de denunciar a estupidez daqueles que defendem temas ditos politicamente corretos, de lamentar o vitimismo e a absoluta falta de educação que grassa nestes dias. Ele aceita as limitações humanas, entende sua complexidade, acompanha as metamorfoses e o ritmo deste tempo. Lamentavelmente não há no Brasil nenhum articulista que emule uma fração de sua honestidade intelectual e argumentação clara. Nenhum registro substitui o genuíno prazer de ler sua prosa.  Recomendo sempre a leitura de qualquer um de seus conjuntos de crônicas: Mano de sombra, Seré amado cuando falteA veces un caballeroHarán de mí un criminalEl oficio de oír lloverDemasiada nieve alrededor, Lo que no vengo a decir, Ni se les ocurra disparar, Tiempos ridículos, Cuando los tontos mandan e Juro no decir nunca la verdad. A bem da verdade recomendo sempre a leitura de qualquer um de seus livros, há 50 registros deles aqui no Livros que eu liVale!
Registro #1408 (crônicas e ensaios #257)
[início: 22/05/2019 - fim: 25/05/2019]
"Cuando la sociedad es el tirano", Javier Marías, Madrid: Alfaguara (Grupo Santillana de ediciones / Penguin Random House Grupo Editorial), 1a. edição (2019), brochura 15x24 cm, 304 págs. ISBN: 978-84-204-3781-1

sábado, 1 de junho de 2019

o seminário

Conheci don Altair Malacarne em agosto do ano passado, durante uma missão de trabalho que fiz no interior do Espírito Santo. Ele nasceu em Domingos do Norte, no Espírito Santo e é uma espécie de memória viva da região. É um sujeito que sabe bem das transformações pelas quais passou o norte daquele Estado, um bom contador de causos e vidas, que faz o garimpo da memória das gentes, e é autor de vários livros. Neste seu "O seminário" ele conta algo sobre uma escola salesiana, o Instituto Salesiano Anchieta, onde cursou os primeiros anos do que hoje corresponde o ensino médio. O livro é dividido em três partes. Na primeira conta-se algo sobre a história da região norte do Espírito Santo, sobre os migrantes italianos que ali se fixaram no final do século XIX e do esforço deles em apoiar a Paróquia de São João Batista de Jaciguá na criação de um colégio secular e um seminário católico. A segunda parte é composta por quase trinta curtas crônicas, onde são contados, um tanto factualmente, outro pelos atalhos da memória e dos sentimentos, momentos marcantes de seu tempo naquele seminário, nos anos 1953, 1954 e 1955. Há crônicas que são recortes biográficos de colegas estudantes, padres, professores ou visitantes ilustres do colégio; outras são registros bem humorados dos espantos e descobertas daqueles dias. A última parte é um posfácio triste, que dá conta do encerramento das atividades do seminário, ainda nos anos 1990 e da transferência das imponentes edificações e de seu entorno para o Estado. Histórias assim são bastante comuns. Coisas parecidas aconteceram em centenas de cidades, em centenas de escolas e seminários de confissão religiosa. Felizmente deve haver também centenas de sujeitos como don Altair Malacarne Brasil afora, que guardam algo do passado, eterniza esse passado em livro, dão ao passado a força da palavra escrita. Um viva então para don Altair. Vale!
Registro #1407 (perfis e memórias #88)
[início: 27/02/2019 - fim: 15/04/2019]
"O seminário: Jaciguá/Boa Esperança - 1953/55", Altair Malacarne, São Gabriel da Palha / ES: Edição do autor / Gráfica Gomieri, 1a. edição (2017), brochura 14x21 cm., 66 págs., sem ISBN: