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sábado, 28 de novembro de 2020

a alma perdida

"A alma perdida" é ao mesmo tempo um curto conto de fadas contemporâneo e também um belo livro de arte, com ilustrações que emulam um mundo de sonhos, de evocações, de sentimentos. As ilustrações são assinadas por uma jovem polonesa, Joanna Concejo. O conto, que tem algo de infantojuvenil, mas só deve ser melhor entendido por aqueles que já passaram pelos primeiros aborrecimentos de verdade nesta vida, é assinado pela também polonesa Olga Tokarczuk, premiada com o Nobel de literatura em 2018. A história é realmente curta e talvez não merecesse ser conspurcada pelas ásperas palavras de um resenhador rabugento como eu, que não deposita muita fé na humanidade, nem tampouco acredita na propalada capacidade de amar das pessoas. Trata-se da descrição lírica do descompasso entre um sujeito e sua alma, de um registro sobre a velocidade do tempo, dos efeitos - nos homo sapiens - das muitas confusões de nossos dias. É um livro onde as cores são pálidas, a paleta carregada de cinzas e verdes, ocres e azuis sem viço. O texto é sereno, objetivo e, de alguma forma, nele a esperança vence a melancolia (nas ilustrações também parece acontecer). Bom. Mas é hora de seguir em frente, continuar no baile sempre macabro deste ano bizarro, onde todas as formas de estupidez e gloriosa vocação para a inutilidade dos homo sapiens tornaram-se especialmente visíveis. Vale!
Registro #1593  (livro de arte #39)
[início - fim: 26/11/2020]
"A alma perdida", Olga Tokarczuk, tradução de Gabriel Borowski, ilustrações de Joanna Concejo, São Paulo: Editora Todavia, 1a. edição (2020), brochura 19,5x26,5 cm, 48 págs. ISBN: 978-65-5692-065-1 [Edição original: Zgubiona dusza (Wrocław: Wydawnictwo Format) 2017]

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

massao ohno, editor

Esse é o livro mais bonito que li neste ano. É um livro que rende homenagem a um dos melhores artífices brasileiros, o editor, designer, tipógrafo, experimentador, artista gráfico e pensador das artes, Massao Ohno, paulista filho de imigrantes japoneses, que viveu entre 1936 e 2010. É um livro que evoca aqueles curtos períodos onde parece que o Brasil é um país normal, com alguma chance de evoluir, transformar-se, florescer, não essa fossa séptica mental e moral à qual normalmente retornamos, inexoravelmente. Massao começou a trabalhar com artes gráficas em meados dos anos 1950. De editor artesanal, que até custeava os primeiros trabalhos de jovens promissores poetas, Masso Ohno tornou-se em cinco décadas um dos mais respeitados editores brasileiros, referência única em qualidade de produção gráfica, fusão harmônica entre a forma dos livros e seu conteúdo, criatividade e originalidade. O resultado desta vida, os livros que editou com seus parceiros artistas, são livros arte, livros objeto, avant la lettre, já se sabe. Lê-se e vê-se este volume com um espanto perene nos olhos. Nele encontramos o que no Brasil fez-se de melhor, na poesia, nas artes plásticas, no cinema, na cultura. Os poetas que ele editou (Claudio Willer, Jorge Mautner, Carlos Vogt, Mario Chamie, Hilda Hilst, Olga Savary, Lêdo Ivo, Carlos Nejar, Paulo Mendes Campos, Vinícios de Moraes - para citar só dez dentre dezenas de outros) foram apresentados em volumes ilustrados por artistas plásticos geniais (João Suzuki, Wesley Duke Lee, Manabu Mabe, Tide Hellmeister, Arcângelo Ianelli, Mira Schendel, Tomie Otake, Carlos Vizioli, Millôr Fernandes, Cyro del Nero - novamente, citando apenas uns poucos). Ohno também colaborou vários outros respeitados editores (
Roswitha Kempf, João Farkas, Ênio Silveira), formou jovens talentos e foi um ativo divulgador da cultura e da língua japonesa no Brasil. Esse volume foi idealizado por José Armando Pereira da Silva, respeitado historiador da arte. Seu meticuloso levantamento da produção editorial de Massao Ohno foi feito em colaboração com a secretaria de cultura e as bibliotecas públicas da cidade de São Paulo, consumiu quase quinze anos e fez com que hoje estejam disponíveis para consulta, depositados na Biblioteca Mário de Andrade, aproximadamente 650 livros. O resultado do rastreamento de José Armando indica um número ligeiramente maior, listando 777 livros editados por Ohno, entre 1959 a 2010. No volume estão reproduzidas um quarto das sempre belas capas das obras, mas os textos que contextualizam cada fase da carreira de Ohno também são muito bons. Todo um panorama da arte e cultura brasileira da segunda metade do século passado se desvela. Nem preciso acrescentar que é um livro muito bem editado pela Ateliê. Ao folheá-lo, fui garimpando mentalmente as pequenas joias que estão entre meus guardados, não mais que dez delas, coisas de T. S. Eliot e James Joyce, Hilda Hilst e Paul Valéry, Augusto e Haroldo de Campos, Olga Savary e Bashô). Livro para se desfrutar, ler e reler, alegrar os dias, purgar-nos destes aziagos dias de pandemia. Evoé, Massao Ohno, miglior fabbro, evoé. Vale! 
Registro #1575 (livro de arte #38)
[início: 17/03/2020 - fim: 22/09/2020]
"Massao Ohno, editor", José Armando Pereira da Silva, Cotia: Ateliê Editorial (Coleção artes do livro #12), 1a. edição (2019), capa-dura 21x21 cm, 320 págs. ISBN: 978-85-7480-839-0

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

barcelona

De tempos em tempos faço uma viagem sentimental por Madrid, por Barcelona, por Dublin, por São Paulo e por tantas outras cidades onde tive experiências mágicas. O mais recente sobre Barcelona foi "Secretos a la vista", onde Xavier Theros passeia por sua cidade com uma prosa muito especial. Mas já fiz registros de livros de Robert Hughes, de Manuel Vázquez Montalbán e de tantos outros, que cantam cada um algo diferente a velha feiticeira da Catalunya. Nesse belo volume estão reunidas 119 reproduções fotográficas da cidade. A maioria delas é assinada por Père Vivas. Os textos que identificam as fotografias são bem curtos, a edição é trilíngue (espanhol, francês e italiano). É o tipo de livro que se deixa folhear com prazer, sobretudo em uma tarde como esta em que escrevo, de chuva e frio. O tipo de livro que evoca espantos e alegrias. Passeamos pelo Eixample, pelo Güell e as Ramblas, pelas ruelas do Gótico, do Born e do Raval, pelos sabores e cores dos mercados públicos, pelas franjas do Collserola, Montjuïc, Tibidabo e Pedralbes, pela Sagrada Família e os tantos edifícios de arquitetura modernista (Casa Batló, La Pedrera, Casa Milà, Casa Batlló, Casa Amatller). Fiquei com ele à mão lá nas terras altas de Itaara e ainda não o devolvi a seu nicho da biblioteca citadina. Ainda é tempo de estímulos felizes, mesmo após estes tantos medíocres dias de pandemia e estupidez generalizada. Segue o baile. Vale!
Registro #1574 (arte #37)
[início: 16/03/2020 - fim: 26/09/2020] 
"Barcelona", Paz Marrodán e Jaume Serrat (coordenação), Borja Calzado (texto), Père Vivas, Juanjo Puente, Ricard Pla, Lluís Beltrán, Jordi Todó  (fotografias), Barcelona: Triangle Postals, 1a. edição (2001), capa-dura 22,5x26 cm., 136 págs., ISBN: 84-8478-005-8

terça-feira, 1 de setembro de 2020

beer

Já contei aqui que há tempos ganhei de presente de don Renato Cohen um pacote com vários livros de arte (Vintage Pictures and advertising), para serem utilizados em fins decorativos. Naquela oportunidade falei de um livro com rótulos de vinhos e cartazes de propaganda de vinícolas (Wine Labels). Esse outro volume é irmão daquele. Agora trata-se de uma coleção de reproduções de garrafas ou latas de cervejas e de cervejarias. Assim como a anterior são um pouco mais de cem reproduções. O leitor perde-se ao folhear o livrinho sem pressa, deixar-se levar pela aventura daqueles rótulos que provavelmente nunca encontrará adornando garrafas reais, que se possa encontrar em uma loja. O design dos rótulos é realmente antigo, acredito que da primeira metade do século passado, ou ainda mais velhos. O leitor pode ter uma amostra do efeito visual dos rótulos neste link Pinterest: clika! Li/vi esse livrinho faz tempo, mas a experiência estética foi agradável o suficiente, prazerosa o suficiente, para que, mesmo nestes tempos dementes e sombrios de pandemia, a vida fosse minimamente tolerável lá nas terras altas de Itaara, onde fiquei cinco meses isolado. Segue o baile. Vale! 
Registro #1562 (livro de arte #36) 
[início - fim: 11/06/2020] 
"Beer: Vintage Pictures and advertising", Hong Kong: Retro Books Team (CookLovers), 1a. edição (2012), capa-dura 14x17,5 cm, 64 págs. ISBN: 978-8562-24766-8

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

wine labels

Há tempos ganhei de presente de don Renato Cohen um pacote com vários livros de arte. Um deles foi esse Wine Labels, uma coleção de reproduções de rótulos de vinícolas e garrafas de vinho, bem antigas, coleção chamada Vintage Pictures and advertising. A ideia é que eles possam ser plastificados ou enquadrados, para serem usados em decoração, mas eu não fiz isto. Não há texto, nem identificação do responsável pela organização. São um pouco mais de cem reproduções. Ao leitor cabe apenas o deleite de ver, folhear o livrinho sem pressa, deixar-se levar pela aventura daqueles rótulos que provavelmente nunca encontrará adornando uma garrafa real, que se possa encontrar em uma loja de vinhos. O design dos rótulos é realmente antigo, acredito que da primeira metade do século passado, ou ainda mais velhos. O leitor pode ter uma amostra do efeito visual dos rótulos neste link Pinterest: clika! A experiência estética é agradável, prazerosa, algo tão difícil nestes tempos agressivos, cruéis, dementes, sombrios, de pandemia. Segue o baile. Vale! 
Registro #1555 (livro de arte #35) 
[início - fim: 11/06/2020] 
"Wine Labels: Vintage Pictures and advertising", Hong Kong: Retro Books Team (CookLovers), 1a. edição (2012), capa-dura 14x17,5 cm, 64 págs. ISBN: 978-85622-4767-5

domingo, 19 de janeiro de 2020

100 vistas de tóquio

Shinji Tsuchimochi é um ilustrador japonês de aproximadamente quarenta anos. Entre 2013 e 2016 ele produziu uma série de ilustrações de ruas, restaurantes, paisagens urbanas e monumentos de Tóquio e arredores. A inspiração (também uma forma de homenagem) veio de uma série similar do famoso gravador Hiroshige Utagawa, mestre do ukyo-e do século XIX (o leitor curioso pode conhecer este trabalho na wikipedia e também neste ótimo site: woodblok prints). Os trabalhos de Tsuchimochi foram publicados originalmente em blog e também em redes sociais. As imagens não são reproduções fiéis dos lugares, há algo de surreal, artificial nelas, são quase sempre engraçadas, incluem apelos nostálgicos, emoções contidas, lirismo e esgajamento social. Em quase todas Tsuchimochi inclui ou referências da cultura pop ou típicos personagens folclóricos (yōkai, yurei, obake e kappa, entre outros), seres associados à forças sobrenaturais, demônios e monstros (li há tempos Hungry Ghosts, livro de Anthony Bourdain em que esses personagens aparecem). Tsuchimochi incluiu cinco ilustrações feitas em Osaka, os endereços exatos de todos os lugares, mapas da cidade, úteis para que alguém interessado em conhecer os locais originais possa fazer uma espécie de peregrinação até eles e também uma curta história em quadrinhos. A edição é bilíngue. O tradutor incluiu várias notas explicativas, que contextualizam a ideia básica das ilustrações. Trabalho realmente bonito, que merece ser visto com calma, talvez ao som de músicas tradicionais japonesas, ao som de shamisen, koto ou shakuhachi, sem medo, sem temor. Vale!
Registro #1486 (livro de arte #34) 
[início 05/01/2020 - fim 08/01/2020] 
"100 vistas de Tóquio", Shinji Tsuchimochi, tradução de Drik Sada, São Paulo: editora Estação Liberdade, 1a. edição (2019), brochura 14x21 cm, 128 págs. ISBN: 978-85-7448-309-2 [edição original: Shikaku Publishing Company (Tokyo, Japão), 2016]

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

notes a peu de pàgina

Esse curioso livrinho foi publicado originalmente em 1997 por Antoni Pedrola, artista plástico e professor de pintura da Universidade de Barcelona. Em 2002 publicou esta segunda edição, ampliada e corrigida. Como resta registrado em seu subtítulo, neste livro estão reunidas anedotas, lendas e curiosidades do campo da pintura. São notas curtas, provavelmente resultado das aulas de Pedrola, onde ele fala da origem dos pigmentos, resinas e vernizes utilizados em pinturas (nos afrescos, pinturas a óleo, na tempera e nas iluminuras); de técnicas e procedimentos; dos maneirismos de alguns artistas; faz fragmentos biográficos de outros (Giotto, Rafael, El Greco, Delacroix). Não há preocupação em estender-se muito nos assuntos. Em geral as notas capturam apenas o aspecto lendário ou alegórico dos fatos. O livro inclui muitas referências, que aparentemente confirmam a origem das informações mais exóticas e surpreendentes, boa parte delas originalmente citadas em um livro do pintor Cennino Cennini (do Quattrocento italiano) e comentadas em quatro dezenas de livros catalães. Quatro belas e pequenas reproduções de gravuras também estão incluídas nele. Este livro brotou de minha organização recente da biblioteca. Veio na bagagem de doña Helga, de seus tempos barceloneses. Aprendi e diverti-me um bocado. Vale! 
Registro #1484 (livro de arte #33) 
[início 03/01/2020 - fim 06/01/2020] 
"*Notes a peu de pàgina: Llegendes, anècdotes i altres curiositats provinents del camp de la pintura", Antoni Pedrola, Barcelona: editora Addenda, 2a. edição (2002), brochura 13x19,5 cm, 65 págs., sen ISBN

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

marcelo grassmann

Na tarde quente do último dia do ano, para fugir mentalmente do frenesi e ansiedade dos festejos, decidi ler algo com calma. Como havia passado parte dos dias anteriores organizado os livros de casa, topei por acaso com esse volume do Marcelo Grassmann. Esse encontro conduziu-me a um lugar especial de meu palácio da memória, lugar que não frequentava há tempos. Lembrei-me que dei um exemplar deste livro de presente para a Helga, logo nos primeiros meses de nosso relacionamento, mas como eu não era indiferente à beleza do livro e ainda não imaginava que um dia nossos livros estariam todos juntos, num mesmo apartamento, tratei de comprar um outro exemplar, só para mim. Fiz isso com pelo menos uma vintena de outros livros de arte, ai de mim. Pois neste volume, publicado originalmente em meados dos anos 1980, estão reunidos mais de uma centena de reproduções de desenhos, litografias, xilografias e gravuras em metal de Marcelo Grassmann, para mim o mais especial dos muitos bons gravadores que nasceram no Brasil (ele era paulista, nasceu em 1925 e morreu há sete anos, em 2013). Grassmann era muito respeitado pelo seu domínio das técnicas gráficas e de impressão. Seu trabalho é povoado por figuras fantásticas, um universo plástico onde mitologia, surrealismo, fantasia, inconsciente e imaginação se fundem. Em função de sua atividade também como professor Grassmann conhecia bem História da Arte, de forma que são incorporados em seus trabalhos várias citações e elementos das formas artísticas. Seus trabalhos provocam mesmo aqueles que não têm o olhar treinado, de especialista, uma miríade de associações, uma festa para os sentidos. O jogo de claro e escuro, de luzes e sombras, particularmente importante nestas gravuras e desenhos, serviu-me para esquecer dos assuntos do dia, relaxar da mundanidade forçada às quais as redes sociais parecem querem nos prender, intoxicando-nos. Foram horas de puro deleite. O livro inclui um longo ensaio, assinado por Pedro Manuel, referências bibliográficas e uma curta cronologia da vida de Grassmann. Se em 2019 dediquei-me muito mais aos ensaios e à poesia que aos romances e aos contos, acredito que em 2020 farei mais incursões pelo mundo da arte, pelas exposições, pelas catedrais artísticas, pelos mitos, pelas Citeras espirituais, aquele tipo de aventura que oxigena nossos sentidos. Vamos a ver. Vale! 
Registro #1481 (livro de arte #32) 
[início: 31/12/2019 - fim: 01/01/2020]
"Marcelo Grassmann", Marcos A. Marcondes (organizador), São Paulo: Art Editora Ltda, 1a. edição (1984), capa-dura 24x30 cm., 140 págs., sem ISBN

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

turner

Há dias em que só a proximidade do mar e a áspera passagem de areia e sal próximos a derme é o que nos consola; noutros dias é a música, a floresta, a montanha ou a neve que nos estimula, que funciona como lenitivo; e noutros, ainda, são as imagens poderosas de um livro que alcançam afastar de nós os rudes efeitos da existência de escravos mentais e canalhas. Estou seguro que nasci num país onde muita gente se orgulha de ser imbecil, fazer o quê. Seguimos no barco de Caronte, do berço a  tumba. De qualquer forma encontrei neste livro sobre a arte de Turner muitas coisas que me alegraram nos últimos dias. Não só ele, claro, desta feita fui conduzido por Michael Bockmühl, respeitado historiador de arte alemão. Esse volume da Taschen enfeixa imagens belíssimas e um texto poderoso, super informativo. Aprende-se um bocado. Bockemühl descreve o desenvolvimento pessoal e artístico de Turner, seus conceitos, a forma como executava suas obras, seus contemporâneos e efebos. Fala muito sobre a presciência dele sobre questões de luz e cor, que seriam dominantes no século XX (Turner viveu do final do século do XVIII a meados do século XIX). Não se trata de fazer, através da arte, uma descrição realista do mundo, antes sim de provocar um efeito, de levar o sujeito que se aproxima de seus quadros a uma experiência sensorial, uma vertigem, dominada pela cor. Bockemühl fala bastante sobre a teoria das cores de um seu conterrâneo, o seminal Johann Wolfgang von Goethe. As reproduções dos quadros certamente não provocam o impacto da experiência pessoal, mas dão ao leitor uma ideia de como o jogo de claros e escuros, de luz e sombra, podem enganar nossos sentidos, forçar nosso cérebro a entender melhor a realidade. Lembrei muito de um livro de Junichiro Tanizaki, "Em louvor da sombra", que já registrei aqui, e dos ensinamentos de Isaiah Berlim sobre o romantismo. Que belo livro. Vale a pena conferir algumas das reproduções digitais dos quadros de Turner reunidas neste link da wikiart. Vale! 
Registro #1441 (livro de arte #31) 
[início: 01/07/2019 - fim: 22/07/2019]
"J.M.W. Turner 1775-1851: O mundo da cor e da luz", Michael Bockemühl, tradução de Paula Reis, Köln: Taschen GmbH, 1a. edição (2010), capa-dura 23x30 cm., 96 págs., ISBN: 978-3-8365-1372-2 [edição original: (Köln: Benedikt Taschen Verlag GmbH) 1993]

quarta-feira, 3 de julho de 2019

a bloomsday postcard

No mês passado, no 16 de junho, domingo, ao contrário do que tinha feito reiteradamente durante trinta anos, resolvi não participar em um lugar público de uma festa literária que realmente me agrada, o Bloomsday. Estava aborrecido, casmurro demais, com questões ainda não resolvidas em minha vida, cansado. Não era hora de eventualmente ofender pessoas susceptíveis a meus caprichos, a meu humor variável, a meu eu irascível. Decidi ficar apenas com as meninas, Helga e Natália; com os gatos, Salen, Lilica, Kyo, Sissy e Nicolau; com os livros de minha biblioteca, sobretudo os livros de Joyce; com meu Bushmills; com a música de Marcelo Tápia e seus Irish Dreams. Um dos livros ao qual sempre retorno nesses festejos do Bloomsday é "A Bloomsday Postcard", de Niall Murphy, publicado originalmente no centenário do dia dedicado a comemorar os sucessos narrados no "Ulysses", que é o 16 de junho de 1904. Trata-se de um volume onde estão registradas reproduções de 252 cartões postais que foram enviados ou recebidos em Dublin em 1904. Murphy, um velho antiquário e comerciante de livros irlandês, reuniu esses 252 cartões e aproveita, tanto a imagem/ilustração quanto o texto escrito pelos remetentes, para falar da Irlanda, de Dublin, do povo irlandês, dos personagens literários que gravitam James Joyce, dos incidentes e passagens que são narradas no Ulysses. O resultado é muito especial. O leitor é conduzido pelos capítulos do Ulysses, enquanto Murphy mostra as associações que existem entre o texto do livro de Joyce e os múltiplos signos dos cartões postais. Um dos capítulos mais interessantes é aquele dedicado às Rochas Serpeantes, as Wandering Rocks, que Murphy metamorfoseia em Wandering Characters. Nesta parte do livro todos os postais fazem alusão a passagens específicas do livro e são apresentados verbetes em ordem alfabética de uma miríade de personagens nele citados. O leitor não precisa ser um aficionado pelo mundo literário de Joyce para aproveitar "A Bloomsday Postcard". Basta ter alguma curiosidade sociológica sobre a Irlanda e os irlandeses do início do século passado para garantir horas de diversão. Deve-se lembrar que praticamente não existia comunicação via telefone naquela época e o uso de cartões postais era uma forma popular, prática e efetiva de contato entre as pessoas. Segundo Murphy em Dublin ocorriam seis entregas diárias de correspondência de segunda a sábado (e uma aos domingos). Impressionante. A edição (da boa Lilliput Press) é uma maravilha, de excelente qualidade. Um dia com um livro como este não é um dia perdido. De resto, vamos a ver o que acontecerá no Bloomsday do ano que vem. Vale! 
Registro #1426 (livro de arte #30)
[início: 01/06/2019 - fim: 16/06/2019]
"A Bloomsday Postcard", Niall Murphy, Dublin/Ireland: Lilliput Press, 1a. edição (2004), brochura 17x24 cm., 322 págs., ISBN: 978-1-84351-43-X

quarta-feira, 15 de maio de 2019

guia fantástico de são paulo

Ángela Léon é uma ilustradora e designer espanhola. Durante um período longo ela morou em São Paulo e pelo jeito aprendeu a amar aquela cidade superlativa, de maravilhas e mistérios, de oportunidades sem fim e de inutilidades bizarras. Neste seu "Guia fantástico de São Paulo" ela oferece ao leitor uma centena de desenhos que retratam algo da arquitetura, das gentes, dos mercados, do cotidiano, feiras livres, bares e orografia da cidade. São peças que certamente foram produzidas ao ar livre, não em um atelier ou estúdio, são trabalhos impregnados da vida pulsante dos paulistanos e demais viventes daquela infinita urbe. Ela divide os desenhos em dois grandes conjuntos, o das paisagens (dos rios, prédios, ruas e espaços públicos) e o das expressões culturais (ilustrando a passagem do tempo e das estações, os eventos e festas, registros da variedade ética da cidade). Uns curtos textos, fragmentos de reflexões sobre a cidade, complementam as ilustrações. Trata-se de um livro de arte, um volume ao qual podemos voltar displicentemente todas as vezes que as saudades de São Paulo se tornarem opressivas, tóxicas, insuportáveis. Só se cansa de São Paulo quem antes já se cansou da vida. Acho que a Ángela León soube bem disto. Vale!
Registro #1399 (livro de arte #29)
[início - fim: 22/02/2019]
"Guia fantástico de São Paulo", Ángela León, São Paulo: editora Lote 42, 2a. edição (2015), brochura 17x24 cm., 168 págs., ISBN: 978-85-66740-38-7

sábado, 19 de janeiro de 2019

kumurõ: banco tukano

Meses atrás, envolvido em uma missão de trabalho, tive a chance de conhecer uma cidadezinha da Amazonia. Por uma daquelas tragédias que definem bem o quê é o Brasil, muito pouco de cultura indígena ou artenato podia ser encontrado na cidade, contrariando minhas expectativas mais pessimistas. Encontrei sim fartos desmatamentos, provas factuais de desperdício de dinheiro público, populações miseráveis e políticos canalhas (a simbiose perfeita que governará esse desgraçado país por mil gerações ainda). Por acaso, ao despachar a bagagem no aeroporto, encontrei esse belo volume, que trata da construção de bancos cerimoniais dos Tukanos, tribo que vive no noroeste brasileiro, nos arredores do Rio Tiquié, que fica perto da fronteira com a Colombia e a Venezuela. Repleto de belas fotografias, o livro registra toda a artesania dos bancos, o processo de entalhe, acabamento e pintura. Como toda nobre arte, cada etapa precisa ser diligentemente executada, desde a retirada das toras na mata, a escolha das ferramentas, os cuidados, as medições, o processo de tingimento, escolha dos corantes e fixadores naturais, a revelação final das pinturas dos grafismos com argila. O livro descreve também a mitologia deste objeto cerimonial, algo de sua história e a forma como a técnica - após um período de quase desaparecimento - voltou a ser praticada e ensinada em oficinas de fabricação, divulgação e comercialização. Esse movimento de apoio foi coordenado pela Federação das Organizações Indiginas do Rio Negro, a FOIRN.  Um leitor curioso encontrará no site da FOIRN  não apenas reproduções das imagens dos bancos e do processo de fabricação, mas também informações sobre o projeto e as parcerias que viabilizam sua continuidade e a comercialização dos bancos (a ONG Instituto Socioambiental é a mais conhecida). O livro inclui também um glossário de termos técnicos e notas sobre a grafia das palavras na língua Tukano. Belo projeto. Vale! 
Registro #1364 (livro de arte # 28) 
[início 11/10/2018 - fim: 13/10/2018] 
"Kumurõ: Banco Tukano", Aloísio Cabalzar, fotografias de rosa Gauditano, São Gabriel da Cachoeira: FOIRN/ISA, 2a. edição (2015), brochura 10x15 cm., 64 págs., ISBN: 978-85-8226-033-3

sábado, 8 de setembro de 2018

o gato e as orquídeas

Como já mencionei ao falar de "O gato filósofo", no último Natal dei de presente para algumas pessoas queridas volumes dos livros de Kwong Kuen Shan. Disse também que ela é uma artista plástica chinesa, havia nascido em Hong Kong e vivia radicada na Inglaterra há muitos anos. Neste volume sua arte gravita o mundo dos gatos e dos arranjos florais. As ilustrações - aquarelas - são muito bonitas e, a exemplo daquele volume anterior, compartilham espaço com textos chineses antigos, provérbios tradicionais, poemas e ensinamentos zen. Trata-se do tipo de livro que folheamos sem pressa, esboçando risos, respirando lentamente, em paz; experimentamos algum espanto ao virarmos uma determinada página. Textos e imagens formam um belo conjunto, funcionam bem juntos. Há alguma magia na disciplina que decorre da observação, ganha-se algo naqueles momentos em que, com calma e paciência, necessárias para que se mergulhe verdadeiramente naquele mundo flutuante e sutil, nos entregamos completamente às flores e aos gatos ali representados. Novamente encontramos quarenta ilustrações, e novamente às imagens são acrescentados caracteres chineses e sinetes, que representam o estado de espírito da artista no momento de criação. ÔBeleza. Vale! 
Registro #1325 (livro de arte #27) 
[início 18/05/2018 - fim: 19/05/2018]
"O gato e as orquídeas", Kwong Kuen Shan, tradução de Denise Bottmann, São Paulo: Estação Liberdade, 1.a edição (2018), brochura 17x17 cm., 96 págs., ISBN: 978-85-7448-296-5 [edição original: Le Chat à l'orchidée (Paris: Editions L'Archipel) 2015]

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

gastão debreix

Foi o Luciano Bitencourt, generoso, quem presenteou-me com esse livro, ainda em meados de 2016, uma edição muito bonita e bem cuidada da Dgraus Design. Mas os aborrecimentos dos últimos anos, a mudança de apartamento, a revolta e fúria dos guardados que só se encontram por acaso e o hábito, aquele senhor que sabe ser fiel camareiro mas também sabe ser brincalhão, esconderam-no de mim. Noutro dia, rearranjando os livros na biblioteca, justo mesmo onde deveria estar, na sessão dos livros de arte, reencontrei-o, espremido entre um poderoso volume de gravuras do Rembrandt e um não menos grosso volume de histórias do Orotava, um antiquíssimo bar que existia em Barcelona, sobre o qual em breve também escreverei aqui. Bueno. Já conhecia algumas obras de Gastão Debreix, que vi em uma exposição no SESC, há muitos anos. Ele é um artista plástico, designer e professor que vive no interior do Estado de São Paulo, na região de Bauru. Em sua produção plástica utiliza várias técnicas: serigrafia, marchetaria, computadores, fotografia e colagens, mas sua linguagem e intuição são mesmo as de um bom poeta visual. O livro inclui textos de Janira Fainer Bastos, Omar Khuri e Oscar D'Ambrósio, além de fragmentos de biografia, assinados pelo Luciano Bitencourt (que sempre sabe ser poeta), e uma boa entrevista com o Debreix, produzida pela TV UNESP em 2012. O leitor pode apreciar todo o material deste livro em um site, vale mesmo a pena acessá-lo: https://www.gastaodebreix.com.br/. Ainda mais expressivo é o site do Atelier Lapispau, mantido por Debreix. Há um bocado de jogos bacanas ali, cousas produzidas com madeiras nobres, que são comercializados por ele em galerias de arte e lojas de decoração. Noutro dia fiquei sabendo que haverá uma exposição de seus trabalhos em São Paulo, no final deste 2018. Ulalá. Vou ver. Viva Debreix, viva! Vale! 
Registro #1316 (livro de arte #27) 
[início: 10/08/2017 - fim: 20/08/2018]
"Gastão Debreix: razão e sensibilidade", Janira Fainer Bastos, Luciano Bitencourt, Omar Khuri, Oscar D'Ambrósio, São Paulo: Dgraus Editora, 1a. edição (2011), brochura 22,5x30 cm., 100 págs., ISBN: 978-85-65272-00-1

sábado, 18 de agosto de 2018

viagem ao volga

Resolvi registrar este volume como um livro de arte, mas poderia incluí-lo aqui como um livro de memórias, ou um relato de viagens, ou de crônicas. Mas o pequeno milagre que é sua existência merece alça-lo ao status de uma peça artística. Trata-se de um curto relato, coisa de 70 páginas, produzido por um árabe que viveu no início do século X, chamado Ahmad Ibn Fadlan, dando conta dos sucessos que viveu em uma viagem de 4000 Km, de Bagdá a uma região próxima a confluência dos rios Volga e Kama, antigamente o reino dos búlgaros do Volga, hoje território russo. Em algum momento o manuscrito original de sua viagem perdeu-se e apenas fragmentos dele eram conhecidos, como parte de um dicionário geográfico do século XIX. Posteriormente, no início do século XX, a versão atualmente conhecida, ainda incompleta, foi descoberta em uma biblioteca iraniana e editada em livro. Ibn Fadlan integrou uma comitiva oficial enviada por um califa islâmico - líder máximo da religião - rumo a Bulgária do Volga. O objetivo da viagem era responder o pedido de ajuda do rei eslavo de lá, recém convertido ao Islã, para a construção de uma mesquita e de um forte. Seus inimigos são os khazares, povo de origem turca convertido ao judaísmo que dominou extensas regiões entre o Mar Cáspio e o Mar Negro. Responsável pela entrega de presentes do califa ao rei e a produção de registros da viagem, Ibn Fadlan narra não apenas as tratativas oficiais, os ritos diplomáticos de passagem pelas fronteiras serpeantes daqueles dias, mas também muito sobre a natureza e os hábitos culturais dos diferentes povos que encontrou. Tudo o que lhe espantou foi registrado, de sorte que o livro não parece ser aos especialistas exatamente um documento oficial, para fins diplomáticos. Bom observador e refinado diplomata ele é capaz se expressar com clareza e objetividade, não fazendo uso de atalhos retóricos que inevitavelmente redundariam em relatos fantásticos ou de cunho mitológico. O comentários mais interessantes são sobre um povo que ele chama de Rus', que os especialistas associam ou aos russos primitivos ou aos vikings. As descrições dos habitos de higiene e do funeral de um líder deste povo são terríveis. A versão romantizada e lírica dos funerais vikings não guarda nada da força do relato de Ibn Fadlan, detalhista da série de estupros, torturas, matança e destruição que acompanhavam o rito. Muito interessante também é o relato sobre o que podemos entender hoje como aurora boreal, muito embora a latitude daquela região não seja tão alta para que esse fenômeno fosse visível facilmente. A edição é bilingüe e a tradução, diretamente do árabe, é assinada por Pedro Martins Criado. A capa é muito bonita, produzida por uma técnica (hot stamping holográfico) que produz reflexão da luz incidente sobre ela em uma miríade de cores. O leitor pode ter uma ideia desse efeito no site da gráfica responsavel pela publicação (clica aqui: hot stamping holográfico, Ipsis Gráfica). O livro inclui ainda mapas, uma breve cronologia do islamismo e uma apresentação, também assinada por Pedro Criado. Vale! 
Registro #1311 (livro de arte #25) 
[início: 12/08/2018 - fim: 13/08/2018]
"Viagem ao Volga: Relato do enviado de um califa ao rei dos eslavos", Ahmad Ibn Fadlan, tradução de Pedro Martins Criado, ilustrações de Bruno Algarve, São Paulo: Editora Carambaia, 1a. edição (2018), capa-dura 12,5x21 cm., 144 págs., ISBN: 978-85-69002-40-6 [edição original: Risalat Ibn Fadlan, (Bagdá) 921-922 d.C.]

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

O gato filósofo

No ultimo Natal dei de presente para algumas pessoas queridas volumes dos livros de Kwong Kuen Shan. Ela é uma artista plástica chinesa, nasceu em Hong Kong, vive radicada na Inglaterra há muitos anos. Seus livros combinam aquarelas com textos antigos, provérbios chineses, poemas e ensinamentos zen, ou seja, à reflexões de Confúncio, Mêncio, Lao-Tse e Chuang Tse (quando não de pensadores anônimos e aforismos tradicionais), somam-se aquarelas belíssimas. "O gato filósofo" é um deleite para os sentidos. Você não precisa necessariamente ler as coplas e poemas que acompanham as imagens, mas elas formam um belo conjunto, funcionam bem juntas. Todas as ilustrações obviamente incluem gatos. Para um senhor desavergonhado deles, como eu, isso sempre é uma alegria. O que Kwong Kuen Shan nos ensina é a magia decorrente da disciplina da observação, a calma e a paciência que são necessárias para que se conheça algo destes pequenos tigres domesticados, destes leões, pumas e panteras em miniatura que sabem ser enigmáticos e também cativantes. São quarenta as ilustrações incluídas neste volume. Às imagens são acrescentados também caracteres chineses e impressões de sinetes, que representam o estado de espírito do artista no momento de criação. Desta forma o leitor tem na verdade quatro camadas de informação a cada página: a imagem fixada pelo artista, o poema que a complementa, os caracteres que identificam o título da obra e os sinetes que identificam o que motivou o gesto do artista. Aquarelas não são gravuras, mas lembrei muito de doña Helga, senhora da tradição das gravuras, da imagem reproduzida, do ato da criação, da beleza intrínseca das coisas simples, cotidianas. Haverá outros livros de Kwong Kuen Shan por aqui. Vale! 
Registro #1307 (livro de arte #24) 
[início 01/02/2018 - fim: 19/02/2018]
"O gato filosófico", Kwong Kuen Shan, tradução de Denise Bottmann, São Paulo: Estação Liberdade, 1.a edição (2015), brochura 17x17 cm., 96 págs., ISBN: 978-85-7448-250-7 [edição original: The Philosopher Cat (Oxford/UK: Butterworth-Heinemann / Elsevier Group) 2004]

segunda-feira, 2 de julho de 2018

escrito em el cielo

Houve um período em que morei em Madrid, ali na calle Fuencarral, numa pensão chamada Sonsoles, próxima ao edificio Telefónica, que fica na Gran Via. A proprietária e minha anfitriã era Victoria, que por coincidência era o nome de minha mãe, dueña Vic, sempre preocupada com minhas distâncias. Quando soube da edição deste volume não demorei em encomendá-lo. "Escrito em el cielo" é um livro de difícil classificação, preferi escolher a classificação do afeto e registrá-lo como livro de arte. Trata-se de um conjunto de trechos de romances ou ensaios que falam de Madrid. Os editores Antón Casariego, Martin Casariego e Fernando Lafuente escolheram 154 autores que publicaram livros nos quais Madrid é o cenário dos sucessos das narrativas, muito embora há vezes em que a cidade quase se personifica, se não como protagonista, pelo menos como a feiticeira que encanta ou o narrador, ou os demais personagens e ou leitor. Eles optaram por um recorte particular, aquele correspondente aos anos de redemocratização espanhola, após a morte do ditador Francisco Franco e promulgação das leis de reforma política, em 1977. Assim, os textos correspondem a quarenta anos, de 1977 a 2017, ano de edição deste belo livro. Digo belo pois o livro oferece ao leitor mimos que tornam sua leitura prazerosa: o formato, a capa dura, a miríade de fotografias e ilustrações, o mapa da cidade indicando em que local se passam os trechos citados de cada obra. Cada autor ganha uma única pagina, nas quais encontramos o trecho citado e uma curta analise de como narrativa e cidade se plasmam ali. Não há detalhes biográficos dos autores além da data de nascimento de cada um, afinal o importante no livro é Madrid e não eles. Nem todos são espanhóis, nem tampouco madrilenos. Há pelo menos um inglês e quatro dezenas nascidos na América espanhola: peruanos, mexicanos, cubanos, colombianos, chilenos, venezuelanos, uruguaios e bolivianos (curiosamente não há nenhum argentino). Há também muitas fotografias panorâmicas da cidade, belíssimas, que simplesmente encantam. Li os trechos aleatoriamente. Muitos autores e livros eu já conhecia: Camilo José Cela, Maria Dueñas, Belén Gopegui, Almudema Grandes, Antônio Muñoz Molina, Arturo Pérez-Reverte, Carmem Posadas, Juan Carlos Onetti, Manuel Rivas, Mário Vargas Llosa e Javier Marías, claro. A maioria nunca li, nem tampouco conhecia. Não será um único trecho de livro que nos explicitará as qualidades ou deficiências de um autor, mas o livro se presta para esse tipo de prospecção, de descoberta, de novos caminhos de leitura. Aprendi lendo há mais de cinquenta anos que são os livros e os diabretes incorporados neles que nos encontram e não o contrário. Vamos a ver o quê da literatura ambientada em Madrid me encontrará no futuro.Vale! 
Registro #1277 (livro de arte #23) 
[início: 09/03/2018 - fim: 29/06/2018]
"Escrito en el cielo: Madrid imaginada en la literatura 1977/2017", Antón Casariego, Martín Casariego, Fernando Lafuente (editores), Barcelona: Alfaguara / Penguin Random House Grupo Editorial, 1a. edição (2017), capa-dura 20x26,5 cm., 256 págs., ISBN: 978-84-204-3288-5

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

arte e natureza

Só hoje, após um mês de descanso, retomo os meus registros (mas, já se sabe, os livros continuaram a ser lidos). Os primeiros dias do ano foram dedicados aos preparativos da formatura da Natiuska DC, no dia 06/01, justamente o dia de seu aniversário (era também o dia de aniversário de doña Vic, que acrescentou um sortilégio extra às alegrias do dia). Depois foram as aventuras nas terras altas de Itaara que me afastaram de um computador. E, como Proust já nos ensinou, o hábito, fiel camareiro, nos acostuma a qualquer novo arranjo de nosso cotidiano, por mais vagabundo, condenável e inútil que seja. Carrego do ano passado, atrasados, uma boa cota de registros de leitura, cousas que ou os aborrecimentos dos últimos dias do ano ou as alegrias das primeiras semanas de janeiro impediram-me fazer. Paciência. Para refrear algo da ansiedade fiquei nas ultimas semanas alternando leituras bem variadas (Elena Ferrante, Donna Leon, Otaviano Helene, Laurence Sterne, Peter Sloterdijk, Bashô, Umberto Eco, Teolinda Gersão) e as delicias desse "Arte e Natureza", edição bilíngue da Luste Editores. Comprei-o ainda no inicio do ano passado e o dei de presente para doña Helga, que de fato é senhora desses dois assuntos, por instinto, índole, compromisso acadêmico e vontade. Trata-se de um volume precioso, repleto de reproduções fotográficas e curtos textos, que contextualizam imagens de obras e museus. Serena Ucelli di Nemi organiza e assina o volume, fez a curadoria dos museus e obras descritas, mas quem assina os textos é Waldick Jatobá. Ambos são bastante respeitados no circuito de arte contemporânea. O livro fala de 27 propostas museológicas, de parques de escultura (ou parques escultura), museus a céu aberto, onde as obras artísticas e a paisagem natural se fundem em algo único, especial, dialogam entre si, oferecem ao espectador, uma experiência a ser desfrutada por pelo menos quatro dos cinco sentidos. Como Serena Ucelli fala na curta introdução de seu livro, os critérios de escolha dos espaços apresentados no livro foram: (i) A qualidade artística das peças e a relevância dos artistas dos acervos citados; (ii) O respeito ao meio ambiente natural onde foram instalados os museus, a harmonia alcançada; (iii) Os parques onde um máximo de possibilidades de interação e contato direto é oferecido ao visitante; (iv) Os parques escultura mais antigos e tradicionais, (v) Os parques com as obras mais monumentais tanto no tema quanto na forma. O leitor viaja pelos continentes guiado por Serena e Waldick. Do Brasil o leitor encontra inevitavelmente Inhotim, aquela jóia incrustada nas terras altas das Minas dos Matos Gerais (Já falei de meu assombro ao visitar aquele espaço, em 2012, quando resenhei "Através: Inhotim"). Mas se a proposta de Inhotim parece única, sobretudo pelo paisagismo imaginado originalmente por Burle Marx e as galerias muito afastadas uma das outras, os demais 26 parques descritos em "Arte e Natureza" encantam com igual vigor, mostram similar beleza e encantamento. Serena e Waldick mostram belíssimos museus a céu aberto em diversos países da Europa, na América do Norte, no Caribe, no Japão, na Austrália, na África do Sul e em Israel. Difícil dizer para qual eu iria hoje mesmo caso fosse possível eleger apenas um. O Grenada Underwater Sculpture Park é o que mais me impressionou, mas eu mal sei nadar, nunca mergulhei, não poderia conciliar a tensão do mergulho e a fruição estética das obras. O Springhornhof (na Alemanha), O Kröller-Müller Museum (na Holanda) e o Benesse Art Site Naochima (no Japão) também me pareceram especiais. O leitor pode ter uma ideia modesta do que é descrito no livro no site da editora (clika!). ÔBeleza. Feliz ano, para você e todo mundo. Um adendo: encontrei um link onde se fala de outros museus a céu aberto brasileiros, não descritos no livro de Serena e Waldick: (o Felícia Leirner, em Campos do Jordão; o Oficina Brennand, no Recife; e o Parque Carembeí, no Paraná): clika! Um outro adendo: Seguirei o ano nessa toada de hibridizações. Vou tentar falar mais sobre os livros de arte e de ciência, mais sobre mitologia e os gregos, mais clássicos e mais genuínos divertimentos. Sempre buscarei as propostas literárias mais fortes, tentarei preocupar-me menos com os indigentes morais e escravos mentais, os idiotas úteis e palhaços por vocação que habitam esse desgraçado país. Logo veremos. 
Registro #1251 (livro de arte #22) 
[início: 22/12/2017 - fim: 20/01/2018]
"Arte e Natureza: Museus a céu aberto", Serena Ucelli di Nemi (curadoria) e Waldick Jatobá (texto), São Paulo: Luste Editores, 1a. edição (2016), capa-dura 29x29 cm., 278 págs., ISBN: 978-85-61914-219-9

domingo, 19 de novembro de 2017

romping through gulliver's travels

A série de livros "Romping through" homenageia autores irlandeses famosos. Depois de "Romping through Ulysses" e "Romping through Dubliners" (ambos sobre obras de James Joyce), "Romping through Dracula" (sobre Bram Stoker), "Romping through Dorian Gray" (sobre Oscar Wilde), eis que chego ao último volume da série, dedicado a Jonathan Swift, que satirizou como poucos sua época. Como nas anteriores, esta plaquete introduz ao leitor a ideia global sobre um livro importante do autor retratado, no caso, "As viagens de Gulliver". Cabe registrar que no caso dessa história de  Swift, a maioria dos leitores apenas lembra da viagem de Gulliver a Lilliput (e a sua rival, Blefuscu), onde ele é um gigante, pouco sabendo que existem também outras viagens tão surreais quanto a primeira. Em Lilliput os habitantes são minúsculos mas se imaginam importantíssimos. Em Brobdingnag, seu segundo naufrágio, Gulliver é minúsculo em comparação a seus habitantes (que não passam de antiquados senhores rurais, avessos ao progresso). Na terceira viagem Gulliver passa por Laputa, Balnibarbi, Luggnagg, Glubbubdrib e Japão, terras utópicas que o leitor tende a desprezar, repleta de mágicos que se imaginam cientistas naturais, gente imortal que envelhece em contínua decomposição, artistas e matemáticos, entusiastas da tecnologia e exóticos governantes. Na última das viagens, Gulliver encontra os Houyhnhnms, cavalos filósofos, muito inteligentes, e Yahoos, humanóides selvagens, bárbaros. Ali não há cultura, tecnologia, literatura, instituições públicas (talvez fosse essa a desesperançada utopia selvagem de Swift). Além da descrição de cada episódio dessas quatro viagens de Gulliver o leitor encontra no livro um mapa/roteiro dos lugares de Dublin que guardam vestígios da passagem de Swift por lá, os marcos literários da cidade associados a ele: a casa onde nasceu; o  Trinity College, onde estudou; a catedral de são Patrick, da qual foi deão; a Marsh's Library; e também o local da igreja onde esta enterrado.  Além de fornecer uma curta biografia de um autor, os autores (a turma do "At it again!", grupo teatral irlandês que produz esquetes ao vivo durante as comemorações festivas dos Bloomsday de Dublin) dão sugestões de várias atividades que expandem a experiência da leitura. Vamos a ver se um dia alcanço assistir ao vivo uma apresentação desse industrioso grupo. Evoé At it again, evoé. Sláinte!
Registro #1239 (livro de arte #21)
[início: 20/10/2017 - fim: 31/10/2017]
"Romping through Gulliver's Travels", Texto de James Moore e Jessica Peel-Yates, com contribuições de Maite López-Schröeder e Niall Laverty. Ilustrações de James Moore. Dublin: At it Again! (1a. edição) 2017, brochura 10,5x15,5 cm., 60 págs., ISBN: 978-0-9576559-9-7

quinta-feira, 20 de julho de 2017

romping through dorian gray

A série de livros "Romping through" homenageia autores irlandeses famosos. Depois do "Romping through Ulysses", do "Romping through Dubliners" (ambos sobre obras de James Joyce) e do "Romping through Dracula" (sobre Bram Stoker), eis que "Romping through Dorian Gray" rende homenagem a Oscar Wilde. Como nas anteriores, esta plaquete introduz ao leitor a ideia global de seu livro mais famoso, "O retrato de Dorian Gray" e fornece uma curta biografia do autor. Os autores (a turma do "At it again!", grupo teatral irlandês que produz esquetes ao vivo durante as comemorações festivas dos Bloomsday de Dublin) dão sugestões de várias atividades que expandem a experiência da leitura. Cada episódio ou capítulo do livro ganha uma ilustração, uma citação e alguma informação paratextual, como dados sobre a geografia atual de Dublin e a localização de alguns dos marcos literários da cidade associados a Oscar Wilde: como o local onde nasceu, na Westland Row; o Trinity College, onde estudou; a localização de um monumento em sua homenagem, no belo parque público Merrion Square (e que fica defronte a casa onde a família de Wilde morou por muitos anos); o teatro que ele costumava frequentar quando disputava com Bram Stoker a atenção de uma atriz (Florence Balcombe, com quem Stoker acabou casando); e os demais parques, pubs e hotéis de Dublin. Um outro mapa identifica os locais de Londres onde se passam os sucessos de "O retrato de Dorian Gray": o estúdio onde Basil Hallward pinta o retrato de Dorian; as casas de Henry Wotton, Lady Agatha e Dorian Gray, próximas ao Hyde Park; o teatro onde atua Sibyl Vane e o hotel Bristol, onde Henry anuncia seu noivado com Sybil. Esses mapas permitem antecipar algo da experiência de flanar por Dublin e Londres, procurando cousas relacionadas ao Oscar Wilde ou Dorian Gray. São sempre divertidos esses livrinhos. Agora só me falta registrar a última das plaquetes, aquela dedicada à Jonathan Swift. Sláinte!
[início: 19/05/2017 - fim: 21/05/2017]
"Romping through Dorian Gray", Maite López, Jessica Peel-Yates, Niall Laverty (ilustrações), James Moore, Dublin: At it Again! (2a. edição) 2016, brochura 10,5x15,5 cm., 60 págs., ISBN: 978-0-9576559-6-6