quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

três usos da faca

Este será o último livro que vou resenhar este ano. Quem fez propaganda dele foi don Ronai Rocha. Ao cabo do tempo curto que levamos para ler o livro, pequeno afinal, menos de oitenta páginas, percebemos que não é trivial o que aprendemos. É gratificante notar que estamos com um material bruto onde há algo valioso. Reli várias passagens. Refleti uns dias. Conversei com amigos sobre o tema (Luis Grassi e eu estamos a tentar convencer don Ronai para uma explicação sobre este texto, mas esta é outra história). David Mamet utiliza a estrutura clássica de divisão de uma peça teatral, três atos, três momentos (a saber: definição do problema, complicação do problema, resolução do problema) para analisar aspectos da vida em sociedade. Não que ele exemplifique ou demonstre o tempo todas suas hipóteses de trabalho como em uma tese, factualmente comprovando suas informações. Quase ao contrário disto ele apenas vagamente ancora a estrutura formal das peças nas situações arquetípicas de nosso tempo, de como dramatizamos individualmente e coletivamente nossas vidas. São os aspectos políticos, comunitários e sociais que lhe interessam. Ele tenta delimitar o que é apenas informação do que é reflexão consciente, o que é um bom drama/filme/livro do que é uma total perda de tempo e sentido. É um livro de dramaturgia, um livro técnico de dramaturgia, onde se discute como se pode contar uma história, mas que serve também para qualquer leitor refletir sobre suas posições frente à vida. Afinal, nada como um teatrinho, um drama, para nos entendermos um tanto mais, mesmo sendo os maus atores que somos. [início 01/12/2009 - fim 03/12/2009]
"Três usos da faca", David Mamet, tradução de Paulo Reis, editora Civilização Brasileira (1a. edição) 2001, brochura 13,5x21, 81 págs., ISBN: 978-85-200-0575-6
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Balanço final [31.12.2009]

Este foi um ano de desvios, para o bem e para o mal. Não li muita coisa que tinha planejado. Li muita coisa boa e ruim que caiu-me às mãos por acaso. Li muita coisa em espanhol neste ano, acho que um quinto do total dos livros lidos. Li muitos Javier Marías e também muitos Cees Nooteboom, eles dois marcaram este ano, aprendi a gostar do ritmo - tão distinto - deles dois. Li os últimos Montalbán ficcionais do meu balaio de achados e guardados. Rencontrei coisas poderosas de Le Clézio, Philip Roth, Coetzee e Amèlie Nothomb. Li vários livros infanto-juvenis, alguns por conta de presentes que ia dar, outros de caso pensado mesmo. Gostei da experiência. Li vários romances japoneses. Li mais contos e menos ensaios neste ano. Li muito mais poesias do que no ano passado. Achei muitas coisas boas em sebos , tanto pela internet quanto ao vivo, em Porto Alegre, em São Paulo e também nos sebos espanhóis, de Madrid e Barcelona. Li livros editados por amigos, que sempre são difíceis de classificar, mas alguns eram realmente bons. Espero não ter sido nem pernóstico nem tímido nas resenhas. Criei marcadores/tags novos. Talvez eu junte todos eles em algo mais geral no ano que vem. Veremos. Foram 134 livros, mais precisamente 46 romances, 23 de crônicas ou ensaios, 11 de contos, 10 infanto-juvenis, 9 de perfis ou memórias, 8 de poesias, 6 novelas, além de 21 de outros gêneros (4 de fotografias, 3 cartuns ou mangás, 3 de gastronomia, 2 de turismo, 2 didáticos, 2 livros de arte, 1 de aforismos, 1 de cartas, 1 dicionário, 1 vocabulário e um único romance policial). O ano que vem será um ano marcado pelo futebol e pela política, dois temas tristes. De futebol nada a declarar, a copa do mundo pouco afetará minha vida. Já da política não podemos fugir, ela afeta a tudo e a todos sem clemência. Lula e seus petistas amestrados vão mentir à beça neste ano e vão mentir para uma população majoritariamente semi-analfabeta e limitada intelectualmente - meus concidadãos brasileiros, parvo povo - sonho de consumo de todo grupo político medíocre e mal-intencionado como o que atualmente nos governa. Enfim, será um ano podre, do começo ao fim. Mas os livros estão por aí, prontos para serem lidos, portanto terei ao menos algo gratificante para fazer enquanto a canalha pasta nos capinzais da ignorância. Vamos a ver quais serão os títulos que se apresentarão para uma leitura no ano que vem. Enfim, vamos a ver o que se passará em 2010. Vale.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

francis bacon

Esta edição da Cosac Naify tem dois defeitos evidentes. Um é realmente importante: o fato do livro não reproduzir nenhum dos quadros de Francis Bacon em cores. O segundo está na orelha do livro, assinada por Gabriel Pérez-Barreiro, onde se diz que Francis Bacon era escocês, uma bobagem, pois sabe-se bem que o sujeito era um legítimo irlandês de Dublin, filho de mãe irlandesa e pai australiano, se é que isto importa saber-se. Bueno. Qualquer um que tenha tido a experiência de estar perto de um de seus quadros há de se lembrar da potência das cores, do impacto das dimensões, da exuberancia das formas, da originalidade dos seus - se é que se pode dizer assim - retratos e autoretratos. De perto vi quadros dele pela primeira na estival Madrid, sempre ela, ainda no início dos anos 1990. Depois os vi na Bienal de Artes de São Paulo de 1998. Já o conhecia de catálogos e livros de arte, mas este é um filtro que provoca um outro tipo de experiência, um outro tipo de educação dos sentidos. Este livro reproduz nove sessões de entrevistas realizadas entre 1962, quando Bacon tinha pouco mais de cinquenta anos, já senhor absoluto de sua arte, até 1986, com ele já quase octagenário, ainda produtivo e reflexivo sobre sua produção plástica. As entrevistas foram sempre feitas por David Sylvester, um jornalista e crítico de artes inglês bastante respeitado (ele chegou a ganhar um prêmio importante na talvez mais importante das bienais de arte, a da sereníssima Veneza, em 1993, exatamente pela curadoria da obra de Francis Bacon, que havia falecido no ano anterior). A reflexões de Bacon sobre arte e sobre sua produção são poderosas, se superpõe a cada entrevista e se complementam. Quando uma pessoa genuinamente inteligente fala sobre algo sempre deixa ao receptor de sua fala oportunidade e tempo para maturação das informações. Acredito até que mais que simplesmente informações o que Bacon e Sylvester produzem são mesmo idéias, que levam o interlocutor a pensar por si próprio. O livro é muito bem editado. Quase 150 ilustrações são distribuídas cronologicamente nele (pena que nenhuma em cores, preciso dizer uma vez mais). Bacon fala muito sobre o processo criativo, seus procedimentos para alcançar um resultado, sobre a evolução e possibilidades dos materiais. É um bom livro para ser apreciado por todo aquele que aprecia as artes plásticas e por todo aquele curioso sobre as infinitas possibilidades de entendimento do que é genuinamente humano. Vou marcar este livro na seção "perfis e memórias" mas poderia fazê-lo também na seção "livros de arte", sem prejuízo algum. [início 30/11/2009 - fim 02/12/2009]
"Entrevistas com Francis Bacon", David Sylvester, tradução de Maria Teresa Resende Costa, editora Cosac Naify (2a. edição) 2007, brochura 17x23, 206 págs., ISBN: 978-85-7503-624-2

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

senhor de musashi

Em "A vida secreta do senhor de Musashi" encontramos duas novelas curtas de Junichiro Tanizaki, um escritor japonês que morreu em meados dos anos 1960 mas que ainda hoje é bastante popular e bastante respeitado. Na primeira novela (que dá nome ao livro) dois relatos, de dois personagens distintos, se sucedem. Ambos descrevem características biográficas e factuais de um temido senhor feudal, desde sua infância, até os anos em que já é poderoso e tem pleno domínio de sua região. Os dois relatos contam o impacto na psique deste sujeito provocado pela experiência de ver, quando jovem, como as mulheres de um castelo preparavam as cabeças cortadas dos inimigos (que em geral tinham seus narizes cortados como forma final de humilhação - preciso estudar para entender melhor isto). Quando adulto ele usa a cabeça de um de seus servos (que é um dos narradores da história) como fantoche e somente se relaciona sexualmente com sua mulher e concubinas na presença desta cabeça/fantoche. O outro narrador é uma velha empregada do senhor feudal, que no fim da vida está recolhida em um mosteiro. Para ela, mulher que vê e participa com assombro dos jogos sexuais de seu senhor, a degradação é menos inteligível ou aceitável. É uma história que se acompanha com curiosidade, que fala de um mundo de regras rígidas de comportamento. Há muita movimentação, muita ação física, mas também descrições psicológicas sofisticadas dos personagens mais importantes. Já a segunda novela, Kuzu, trata de como um escritor se prepara para escrever um romance histórico, usando como material ficcional os anos em que o Japão feudal teve dois imperadores, um oficial em Edo, a atual Tóquio, e outro escondido nas montanhas de Yoshino, uma região remota do centro do Japão. O escritor encontra com um amigo que vai a região das montanhas de Yoshino pedir a mão de uma moça em casamento. Ele ouve a história de como a mãe do amigo foi vendida pelos pais para uma casa de divertimentos (gueixas) qando era pequena e de como ela foi adotada posteriormente por uma rica família na capital. O material que o autor coleta - material que fala dos anos em que o imperador celestial viveu nas montanhas - é fragmentário, confuso, não o deixa satisfeito. Ele percebe que para reconstruir o passado não basta um conhecimento objetivo das coisas, mas sim um envolvimento particular, como aquele muito forte que ele teve com a história da família de seu amigo ou com aquele que experimenta quando descobre quem será sua futura mulher. Tanizaki parece dizer ao leitor que os livros são produzidos também apenas com a imaginação, com a invenção, não faz falta justificá-los com dados e informações objetivas. Preciso ler mais coisas deste sutil escritor. [início 28/11/2009 - fim 30/11/2009]
"A vida secreta do senhor de Musashi - duas novelas", Junichiro Tanizaki, tradução de Dirce Miyamura, editora Companhia das Letras (1a. edição) 2009, borchura 14x21, 219 págs., ISBN: 978-85-359-1531-0

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

los hechos

Não faz muito tempo que li "Indignation", o penúltimo - e muito bom - livro de Philip Roth. Este ano ele publicou "The humbling", que não foi muito bem recebido pela crítica nos EUA. Bem. Quando vi este "Los hechos" na vitrina de uma das livrarias da Aribau em Barcelona, sabia que ele não ficaria ali nem um minuto mais. "The facts" (que é o título original) foi publicado em 1988, justamente entre "O avesso da vida", de 1986, e "Mentiras", de 1990, ambos já resenhados aqui. Formalmente este é um livro autobiográfico, mas sempre há muita invenção nas coisas que Philip Roth escreve. "O avesso da vida", seu livro anterior a este, é um livro francamente ficcional. Por mais que possamos identificar que várias das situações criadas podem ser associadas livremente com fatos da vida de Roth, aceitamos o livro como pura ficção. Mas a fragmentação das histórias neste livro serve talvez para lembrar o leitor que por entre as frestas das vidas vividas e das vidas contadas nós - homo sapiens sapiens - sabemos nos esconder bem. Já em "Mentiras", publicado dois anos depois de "Los hechos" Roth volta a usar seu próprio nome (e provavelmente coisas de sua vida pessoal). O leitor é induzido a permanecer em dúvida se deve ou não continuar identificando o narrador e protagonista da história com o escritor. Em "Los hechos" há um hibridismo entre realidade e ficção mais explícito. O livro começa e termina com cartas. A primeira é de Roth para um personagem (o mercurial Nathan Zucherman, seu alter-ego). A segunda deste, Zucherman, respondendo à Roth. Ele fala brevemente, mas de forma cruel, sobre os problemas acredita ter encontrado no enredo e na construção do romance que estamos lendo. As duas cartas funcionam como uma crítica automática e antecipada do livro. Entre as duas cartas encontramos no livro seis passagens biográficas de Roth: as duas primeiras bem curtas, uma sobre seu pai e a outra sobre sua infância de menino judeu em sua Newark natal. As demais um tanto mais extensas: uma sobre sua vida na universidade, seus primeiros relacionamentos amorosos; outra sobre sua vida com sua primeira mulher, seus projetos pessoais; a seguinte sobre a indignação que seu primeiro livro - Goodbye, Columbus - gerou na comunidade judaica; e a última sobre sua crise de peritonite, suas complicadas tentativas de divórcio e a acidental morte de sua primeira mulher - que formam a parte mais divertida do livro - e também sobre o sucesso comercial de seu terceiro livro - Complexo de Portnoy. Na segunda carta Zucherman censura o livro, aponta omissões e falhas, lamenta as elisões, pede a opinião de sua mulher inglesa - que igualmente censura a própria existência ou idéia do livro. Zucherman sugere por fim que Philip Roth faça a barba, que seja menos judeu, que não se deprima mais. Trata-se de um livro muito divertido. Se inegavelmente devemos classificá-lo de auto-biográfico, ao menos podemos dizer que Roth utiliza uma forma muito especial de contar certas passagens de sua vida. Lembro-me de que ao ler "Mentiras" fiquei curioso por entender melhor onde ficava a fronteira entre ficção em realidade. Aparentemente Roth - que teve mesmo uma depressão e passou por um longo período de recuperação de saúde após uma intervenção cirúrgica logo após a publicação de "O avesso da vida" - experimentou uma crise de falta de criatividade após vinte anos bastante produtivos. Ao produzir "The facts" parece reiniciar seu trabalho, sua obra literária, tateando um tanto em terreno conhecido, e o faz pedindo a opinião de seu alter-ego favorito. [início 22/11/2009 - fim 26/11/2009]
"Los hechos", Philip Roth, tradução de Ramón Buenaventura, ediciones Debolsillo (1a. edição) 2009, brochura 12,5x19, 254 págs. ISBN: 978-84-8346-782-4

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

vida de fantasma

Esta edição de "Vida de fantasma" foi publicada originalmente em 2000 e inclui 100 crônicas, três quartos delas escritas entre 1976 e 1996 (basicamente os anos de Felipe González como primeiro ministro espanhol) e um quarto delas escritas entre 1997 e 2000 (nos primeiros anos do governo de José Maria Aznar). Parte são crônicas de costumes, políticas, semelhantes àquelas reunidas no "Pasiones Pasadas", mas não são as mesmas. O sujeito realmente escreve à beça. Nestas o tom é o mesmo. Geralmente ele é muito crítico, tanto aos sucessos do governo socialista de Felipe González quanto aos sucessos do governo conservador de José Maria Aznar. Mas há também um punhado de crônicas literárias e outras quase ficcionais, de um articulista que comenta os autores que tem lido, que fala das lembranças que tem de seu bairro, que comenta a redescoberta de uma cidade que visitou e na qual teve experiências importantes. Há escritos que são obtuários. Os dois textos onde ele fala de seu pai impressionam pelo contraste na forma e no tom, apesar de terem sido publicados com apenas um dia de diferença. A ironia, ou antes, o sarcasmo mesmo, abunda neste conjunto de crônicas. Parece que Marías tem momentos onde prefere ser cruel, mesmo quando afeta algum enfado sobre um tema. Seus textos sobre temas culturais, sobre política cultural levam o leitor a refletir. Formam o conjunto mais uniforme e seminal do livro. Gostei de uma passagem onde ele diz: "La cultura es siempre resultado, nunca proyecto ni tan siquiera processo. Por tanto no obedece a leyes ni tampoco a modas. Creer lo contrario es, en efecto, el error de muchos políticos, aunque me temo que también el de Rubert de Ventós" (um conhecido sociólogo catalão, nascido em 1939, que em um texto da época - 1982 - advertia os madrilenhos por seu talvez excessivo apego a temas culturais). Seguirei lendo este sujeito. E ainda hei de discutir com Lola Vázquez suas impressões sobre ele, agora ainda mais enigmáticas para mim (como nos ensina o narrador de Proust no Guermantes: "cada vez compreendo menos o seu caráter"). Bom livro afinal de contas. [início 06/11/2009 - fim 22/11/2009]
"Vida de fantasma", Javier Marías, ediciones Debolsillo (1a. edição) 2007, brochura 13x19, 487 págs. ISBN: 978-84-8346-424-3

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

miramientos

"Miramientos" é um pequeno livro onde Javier Marías "descreve" fotografias. Em outro livro dele já resenhado aqui ("Vidas escritas") ele havia incluído uma seção deste tipo. Toma-se uma fotografia de um sujeito e dá-se informações factuais sobre a pessoa, sua obra, seus feitos, conectando-as sutilmente com a interpretação do que se vê no retrato. É como um exercício de interpretação de retratos, um exercício de descrição de personalidades. Originalmente as descrições foram publicadas em uma revista chamada "Cuadernos Cervantes", entre os anos 1995 e 1997. Os personagens são todos escritores de lingua espanhola: Valle-Inclán, Borges, Aleixandre, Juan Benet, Bioy Casares, Lorca, Victoria Ocampo, Fernando Savater, Cabrera Infante, Neruda, Eduardo Mendoza, Martinez Sarrión, Luis Cernuda e Horácio Quiroga, além dele mesmo, Javier Marías. É um livro curioso, onde Marías mostra uma faceta de seu virtuosismo, uma das ferramentas que ele utiliza tão bem em seus livros de ficção. [início 13/11/2009 - fim 14/11/2009]
"Miramientos", Javier Marías, ediciones Debolsillo (1a. edição) 2008, brochura 13x19, 127 págs. ISBN: 978-987-566-371-4

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

trevas

Foi Carlos Pereira, fiel boiardo da czarina Gisele Minato, quem me emprestou este livro de Thomas Bernhard. Publicado em 1993 pela Editora Hiena (de Portugal) é um livro difícil de se achar nestes pagos. Este é um dos livros mais caústicos que eu já li. Bernhard não facilita, não tergiversa, não ameniza. Fica muito claro desde o início do livro que hipocrisia, dissimulação e ironia não servem como material literário para ele. Sempre objetivo, ele costuma bater onde dói, preferencialmente naqueles espaços onde escondemos nossos medos, nossas vergonhas, nossas faltas. Em "Trevas" são reproduzidos seis discursos ou entrevistas, publicadas originalmente entre 1965 e 1988. Thomas Bernhard, que morreu em 1989, curiosamente promoveu um exílio póstumo, pois determinou em seu testamento que suas obras não deveriam ser publicadas ou encenadas em território austríaco. Nada estranho se considerarmos que ele era chamado por seus compatriotas de "Netsbeschmutzer", algo como "o sujeito que suja seu próprio ninho". A edição é muito bem cuidada e tem uma boa apresentação do livro, além de uma detalhada cronologia da vida de Bernhard (ambas produzidas pelo tradutor, Ernesto Sampaio). Os textos reproduzidos no livro foram originalmente discursos que ele fez em cerimônias de entrega de prêmios literários. Bernhard sempre lembra seu público dos crimes cometidos durante as guerras mundiais do século XX, sempre faz questão de demostrar o quanto seus contemporâneos preferem esquecer ou falsear seu passado, sempre aponta focos de ressurgimento da mentalidade nazista na sociedade austríaca. Para ele os crimes do nazismo foram coletivos, mas a penitência deveria ser pública, sincera e individual (ele antecipa que isto jamais acontecerá, almas mortas que são seus concidadãos europeus. Já nas entrevistas ele fala com agressividade contra os encontros literários para os quais é convidado, pois sabe que neles tudo é pleno de farsa e mediocridade - geralmente às custas de dinheiro público. Seus comentários sobre a qualidade dos jornais e dos jornalistas de sua época são divertidíssimos ("... e eles julgam que aquilo é alguma coisa, e afinal não passa de estupidez!", diz ele em uma das entrevistas). Preciso sim ler mais este sujeito. [início 04/11/2009 - fim 08/12/2009]
"Trevas", Thomas Bernhard, tradução de Ernesto Sampaio, editora Hiena (1a. edição) 1993, brochura 14x21, 77 págs., sem ISBN

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

negra espalda del tiempo

Eu que sempre penso que sei tudo, claro, sempre me surpreendo (acho que será sempre assim). Pensava que "Todas as almas" fosse o prólogo de "Tu rostro mañana", mas este papel fundador no estilo e ritmo bem particular que encontramos no último romance publicado por Javier Marías está sim neste curioso "Negra espalda del tiempo", onde ficção e realidade se misturam, se complementam, se escondem uma na outra, enganando e educando o leitor. "Negra espalda del tiempo" foi publicado originalmente em 1998 (imediatamente antes de "Tu rostro mañana", que acaba de ganhar sua versão integral, em um único volume de sonoras 1390 páginas). Trata-se de um livro autobiográfico, mas como se o biografado, ou antes, os biografados, fossem alguns dos livros e histórias de Marías ("Todas as Almas", principalmente). Ele fala de seus personagens e de seus amigos, das histórias que inventou e das histórias que viveu. Quem gosta de jogos literários se envolve muito no livro (principalmente quem já leu os romances anteriores de Marías). Ele cita muitos livros que tiveram o destino funesto de só sobreviverem na memória de uns poucos leitores, ou nos apontamentos de escritores menores. Cita também as biografias de sujeitos que pareciam estar a produzir uma grande obra, mas que desaparecem e deixam seus livros orfãos, a tentar sobreviver. Fala de viajantes, que viveram a grande guerra (a primeira) e se esfumaram em lugares exóticos ou morreram em circunstâncias rocambolescas. Sua descrição do caráter de seu antigo editor (que o atormentou por anos a fio - editor da Anagrama, acredito eu) é muito engraçada. Curioso como este livro lembra ao mesmo tempo o "Los hechos" de Philip Roth, que vou resenhar em breve, e também o "Summertime", do Coetzee, que resenhei recentemente. Ficamos sabendo como Marías se tornou "Rei" do fictício "Reino de Redonda", sucedendo M.P. Shiell e John Gawsworth. Ele fala sobre as coisas que observa no seu dia a dia, no seu bairro, na sua cidade, nos encontros, jantares, recepções, em que conversa com amigos e/ou desconhecidos. Certos encontros parecem emular algo que pode ser transformado em ficção, outros parecem morrer na memória do escritor, como se fossem luminárias públicas a apagar em uma manhã qualquer (em uma bela metáfora que ele cria usando elementos tão banais). A maneira como seus amigos e parentes se envolve em seus jogos literários ocupa boa parte do livro. Alguns querem ser retratados,imortalizados em livro, mesmo que com pseudônimos, outros o proibem de serem citados, ficcionalizados. As histórias de seu bisavô cubano podem ser verdadeiras ou totalmente inventadas, irreais que parecem. Há muitas reproduções de fotografias e ilustrações no livro. Estas imagens pontuam os temas do livro, mas não são exatamente citadas no corpo do texto, como se ao leitor restasse aproveitá-las como migalhas de pão lançadas à pombos em um parque. O livro inclui uma resenha muito boa de Guilhermo Cabrefa Infante e um dos usuais prólogos de Elide Pittarello (sempre presentes nesta coleção de livros da Debolsillo que amelhei por aí). É um bom livro de Marías, mas eu ainda prefiro o monumento que é "Teu rosto amanhã". Veremos o que ele produzirá no futuro. [início 30/10/2009 - fim 03/11/2009]
"Negra espalda del tiempo", Javier Marías, ediciones Debolsillo (1a. edição) 2007, brochura 13x19, 216 págs. ISBN: 978-987-566-258-2

domingo, 6 de dezembro de 2009

pawana

Comprei este livro na feira de Porto Alegre. Neste ano a maioria dos livreiros, jornalistas, escritores e especuladores de plantão reclamaram do formato, organização e vendas. Arautos, pregoeiros e cassandras anunciavam o fim do livro e do próprio futuro da feira. Em meio aos ventos e a grita geral o povo de uma banca, capitaneada pela czarina Gisela e seus fiéis boiardos Carlos e Claudio, parecia não se importar muito com as reclamações e seguia seu rumo, o de capitães de longo curso. Trabalhavam diligentes e sérios, com critério, vendendo livros de uma única editora (a Cosac Naify). Duvido que eles tenham vendido muito menos que nos anos anteriores. Acredito que a segmentação, a fuga da mesmice dos títulos encontrados na maioria das bancas seja o diferencial a ser alcançado. A CESMA também esteve na feira e teve boas vendas, calçada em seus bons títulos e no bom atendimento. "Pawana" é uma pequena novela que conta uma história terrível. Mesmo o mais otimista termina o livro um pouco mais descrente da raça humana, de seu futuro, de sua moral torta, de sua ética vaga. Le Clézio conta a história da descoberta de um local próximo ao sul da atual baixa Califórnia, na costa oeste do México, onde as baleias costumavam ir para ter seus filhotes. A matança é contada por dois sujeitos (o capitão de navio baleeiro, que descobriu a passagem, e um jovem marinheiro, em sua primeira viagem). O capitão parece se penitenciar pelo seu ato inaugural. O jovem acrescenta que à morte das baleias seguiu-se a destruição do lugar, da paisagem, da fauna, dos índios, até que em poucos anos não sobrasse nada além de areia e restos brancos das carcaças das baleias. Assim como viu as baleias o jovem vê uma jovem índia do lugar ser prostituída e descartada. A degradação toma conta simultaneamente das coisas e da alma dos homens. O leitor tem de ser corajoso e seguir, mesmo quando lê trechos como: "Acho que já não tínhamos alma, não sabíamos mais nada da beleza do mundo. Estávamos embriagados pelo cheiro de sangue, pelo ruída da vida que escapava com o sopro. Eu agora me lembro do olhar dos homens. Será que não notei na hora? Era um olhar decidido e sem piedade. (...) Lembro-me do olhar do garoto que estava com a gente, que me encarava com uma pergunta sem resposta. Hoje eu sei que pergunta era essa, a explicação que ele me pedia: como alguém pode matar o que ama?" Le Clézio consegue em um pequeno texto nos alertar e inspirar. As "Pawana", como os nativos esquimós chamam as baleias, continuam sendo massacradas, como se os homens continuassem incapazes de amar. Talvez seja assim mesmo, talvez sejamos capazes de apenas amar o passado, o lendário, o já morto e destruído. A edição da CosacNaify é belíssima, com ilustrações de Eloar Guazzelli que amenizam um tanto a crueza do texto. [início - fim 30/10/2009]
"Pawana", J.M.G. Le Clézio, tradução de Leonardo Fróes, ilustrações de Eloar Guazzelli, editora Cosac Naify (1a. edição) 2009, capa-dura 16x23, 63 págs., ISBN: 978-85-7503-848-2

sábado, 5 de dezembro de 2009

tempestade

Quando li recentemente "Pasiones Pasadas", de Javier Marías, eis que logo no início ele menciona um plágio, sofrido por ele, tempos idos, na temperamental Espanha dos anos 1990. O plágio teria sido praticado por um sujeito que Marías desdenha breve mas cruelmente, se furtanto de dar os nomes dos membros do corpo de jurados que deram ao livro plagiado um importante prêmio literário espanhol. A crônica plagiada era uma onde Marías descrevia seus dias na sereníssima e inafundável Veneza. Lembro-me bem como vários escritores e artistas citam Veneza em seus escritos: há textos belíssimos de Joseph Brodsky, Evelyn Waugh, Elias Canetti, Woody Allen, Richard Wagner, Igor Stravinsky, onde Veneza é descrita e louvada. Claro, Veneza para mim sempre será a mítica cidade descrita no "Brideshead Revisited", mas esta é outra história, cara talvez apenas ao Luiz Melo ou ao Renato Cohen. Procurei saber quem era o torpe plagiador descrito por Marías e eis que achei este "A tempestade", romance de Juan Manuel de Prada. Lembrei-me de ter visto muito recentemente um filme baseado neste livro. Resolvi lê-lo (há que se respeitar os fados, seguro que sim). É um romance bem acabado, mas nada que desperte muito entusiasmo no leitor. Manuel de Prada inventa um jovem doutorando de artes, que viaja à Veneza. Na noite de sua chegada eis que ele simultaneamente presencia um crime e se torna o principal suspeito do assassinato. Outros personagens se apresentam: um delegado minuncioso, uma concierge voluptuosa, um estafeta canalha, um curador de artes venal, uma artista/falsificadora desejável. O enredo envolve resolver o crime utilizando elementos que estão em um quadro importante de Giorgione (Giorgio Barbarelli da Castelfranco), pintor veneziano do início do século XVI, que se chama exatamente "A tempestade". Giorgone foi discípulo de Bellini ("which one", diria Lord Marchmain). Este enredo lembra, óbvio, o esquema fácil e apelativo de livros como o "Código da Vinci". Logo nas primeiras páginas o leitor já antecipa boa parte dos sucessos do livro. Não há muito o que acrescentar ao enredo. Aos poucos percebemos como será o desfecho. É um livro mal escrito (ou talvez mal traduzido, não sei a certo o que dizer). Manuel de Prada abusa de metáfaros sexuais como se fosse difícil a qualquer vivente emular as curvas e as pudendas de uma mulher, mas nele tudo soa artificial, assexuado demais na verdade. É um livro bobo do começo ao fim, incrível saber que ele ganhou um prêmio Planeta (afinal de contas trata-se de uma boa e tradicional editora, que outorga este prêmio já há tantos anos). Não encontrei exatamente quais foram as frases e/ou parágrafos plagliados. No livro de Javier Marías ele cita uma porção deles, mas eu não tenho paciência para procurá-las. Na internet achei várias menções a outras acusações de plágio entre autores espanhóis (inclusive com o nobelizado Camilo José Cela). Tudo muito ligeiro e irrelevante. Vamos seguir em frente e esquecer de vez este sujeito (mas não Veneza e o quadro de Giorgone, belíssimos). [início 05/11/2009 - fim 07/11/2009]
"A tempestade", Juan Manuel de Prada, tradução de Luiz A. de Araújo, editora Best Seller (1a. edição) 2003, brochura 13,5x21, 320 págs., ISBN: 85-7123-870-7

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

el premio

"El premio" foi publicado originalmente em 1996 e pertence ao último ciclo de histórias do detetive Pepe Carvalho, criação do industrioso Manuel Vázquez Montalbán. Os "hechos" do romance se dão na fase final do governo socialista de Felipe González (que ficou 14 anos no poder). Contam um tanto da conturbada transição para o governo liberal de José María Aznar (que ficaria seus 8 anos no poder). Foram anos onde escandalos de corrupção, crimes de grupos para-militares atuando à margem da lei, incertezas sobre o futuro da Espanha apontavam para a necessidade imperiosa de alguma renovação política. Certamente estes anos foram de desgosto para Montalbán, um sujeito que não suportava governos despóticos e populistas e teve de amargar o volta de um governo conservador à Espanha. Ele não chegou a viver para ver como os atentados terroristas em Madrid contribuiram para a derrota de Aznar nas eleições de 2004. Seguro que ele sairia pelo Raval pagando rodadas de Cava aos amigos. A história do romance é o que menos importa (trata-se de descobrir quem matou um rico empresário, um típico problema do crime na sala fechada, sempre utilizado em histórias de detetive). O tempo no romance vai e vem. Primeiro acompanhamos os sucessos dos momentos que antecedem a entrega de um importante prêmio literário, patrocinado pelo empresário, ainda rico, mas tecnicamente em risco de perder seu patrimônio e sem o respaldo político oficial que sempre teve em tempos mais favoráveis; depois o romance nos conta como Carvalho chegou a Madrid, contratado para proteger o sujeito que será morto na noite seguinte; na seqüência acompanhamos como o corpo do morto aparece, como é feito o censo dos principais suspeitos, todos presentes no salão de entrega do prêmio literário; volta-se novamente o tempo e seguimos Carvalho em um almoço glorioso (a gastronomia sempre presente em suas histórias) com o empresário; e assim segue o romance, indo e vindo no tempo, apresentando as impressões de Carvalho antes e depois da morte - inevitável, afinal sabemos, quase uma libertação para o enredado empresário. O romance serve para Montalbán refletir sobre a instabilidade dos anos finais do governo socialista, nos explicando como a vontade de manter-se no poder a qualquer custo, lentamente contamina a moral e a ética do mais despreendido e bem intencionado dos governantes. É algo muito parecido com o que vemos atualmente no Brasil. Não há aliança, não há apoio que seja constestado pelos ideólogos e dirigentes do atual governo. Tudo vale para dar continuidade ao modelo de gestão, péssima afinal de contas, e principalmente para manter os milhares de cargos públicos fartamente distribuídos aos amigos, quase sempre inéptos e despreparados. Montalbán nos ensina que a História não é uma ciência exata mas é o tipo de conhecimento que poupa muitos aborrecimentos a quem se dá ao trabalho de estudá-la, sem cabrestos ideológicos ou servilismos típicos do fascismo. A alternância no poder - nas democracias de fato - não é apenas desejável, mas profilática e saneadora. No romance Carvalho reencontra uma bela mulher, que já conhecemos do "Assassinato no Comitê Central", publicado em 1981. Nas conversas com ela e seu filho adolescente Montalbán nos apresenta como também a sociedade espanhola (não apenas o mundo político) estava em crise, como a "movida madrilleña" já era apenas um simulacro dos sucessos e do auge nos tempos de pós-redemocratização. "El premio" vale a leitura. Agora só me ficaram faltando "Tres historias de amor" e "Historias de fantasmas". Seguro que estes volumes me encontrarão um dia. Paciência então. [início 09/08/2009 - fim 28/10/2009]
"El prêmio", Manuel Vázquez Montalbán, editora Planeta (1a. edição) 005, brochura 15x23, 347 págs. ISBN 978-84-08-06001-7

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

pasiones pasadas

Estávamos os três, Lola, Manolo e eu, em uma terraza da Calle de Huertas de Madrid, mas precisamente no "La plateria bar museo", bem perto do Museu do Prado, como não citar isto também. Manolo dizia que a señora camarera era vasca, que era educada, que sabia alemão. Lola retrucava que seria impossível ele afirmar isto pois a señora apenas havia trocado uma ou duas frases conosco, como poderia ele saber quem era ela, de onde vinha? Eu me divertia com a conversa rápida e contei o que estava lendo naquela época mesmo, a história dos personagens Deza e Tupra do "Tu rostro mañana" do também madrileño (como eles) Javier Marías. Manolo parecia estar emulando a habilidade que os dois personagens tinham de interpretar rapidamente seus interlocutores. Falei de minha admiração por Marías, mas Lola me advertiu que ele escrevia bons livros, mas se comportava como uma "pessoa mayor". Na hora não entendi bem. Agora que comecei a ler seus ensaios e crônicas (li três livros, este é o primeiro que resenho) acho que entendi um tanto melhor. Neste "Pasiones pasadas" estão reunidas 31 crônicas publicadas em jornal entre os anos 1982 e 1990 (um terço deles neste último ano). São crônicas publicadas antes de seu primeiro grande sucesso de público e crítica (Corazón tan blanco, de 1992). Não é preciso ler muitas das crônicas para perceber que Marías é um anarquista (mas que soa conservador), um elitista (bem à sua maneira), politicamente incorreto quase sempre, zeloso e orgulhoso de sua individualidade. O desprezo que ele tem à memória de Franco e do franquismo é algo que pode levar o leitor ligeiro a incluí-lo ao campo dos intelectuais de esquerda, mas ele me parece muito honesto intelectualmente e esgrime seus argumentos sobre os mais variados temas atingindo, seguro que sim, sujeitos à esquerda e à direita do espectro político, sem piedade e sem temor. A edição que li tem um excelente prólogo de Elide Pittarello, as procedências de todas as crônicas e duas notas do próprio autor, a original de 1991 e uma outra de 1999, quando as recompilou. Nesta última nota ele reflete sobre as venturas pelas quais os textos passaram desde a primeira publicação. As crônicas são apresentadas por temas: lugares e viagens, pessoas e amigos, a sociedade e as transformações pelas quais passava a España, a literatura e a arte de escrever. O livro termina com um texto inédito em livro, apresentado originalmente na forma de conferência em uma universidade, onde ele descreve como foi sua inserção no mundo literário e como era o processo de manter-se nele mantendo alguma qualidade, originalidade e honestidade. Gostei do livro. Seguro que haverá mais do que falar sobre Marías nas próximas resenhas de seus livros de crônicas. Quando poderei convidar Lola e Manolo novamente para discutir Marías, perguntar para a señora camarera se ela sabe mesmo alemão, bebericar bons vinhos, tapear pela estival Madrid? [início 19/10/2009 - fim 23/10/2009]
"Pasiones Pasadas", Javier Marías, ediciones Debolsillo (1a. edição) 2008, brochura 13x19, 216 págs. ISBN: 978-987-566-379-4

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

beringelo

Em "Beringelo" Orlando Fonseca dá voz a um cachorro. O resultado é um pequeno livro voltado para o público infanto-juvenil. Beringelo conta um tanto de suas venturas, seus nomes, sua personalidade, suas lembranças (que são vagas, segundo ele mesmo). Conta principalmente como conquistou o amor de um jovem dono e sua família. O pequeno cachorro tem até de se virar como cão-policial, quando usa seus dotes para ajudar um delegado a resolver o sequestro do garoto que virá a ser seu dono. Orlando gosta de jogos verbais e trocadilhos, então faz seu personagem usá-los o tempo todo. Li recentemente "Eu sou um gato" do escritor japones Natsume Soseki, publicado em 1905. Nele o único personagem que fala é um gato vagabundo dos bairros de classe média da Tóquio de cem anos atrás. Claro que o romance de Soseki tem mais fôlego, ou melhor dizendo, que o gato de Soseki tem mais fôlego que o cachorro de Orlando Fonseca, mas isto não é um problema. "Beringelo" é um romance bem escrito e divertido de se ler. Eu teria dado um tratamento gráfico melhor, aumentaria o corpo das letras (pequenas demais para atrair um jovem leitor, acho eu), incluiria ilustrações mais generosas que as divertidas patinhas que percorrem as páginas do livro, mas talvez o projeto desta coleção da editora Movimento não permita muitas variações no design. Paciência. Parabéns ao Orlando por mais esta aventura literária. [início 23/10/2009 - fim 23/10/2009]
"Beringelo: uma au-autobiografia", Orlando Fonseca, editora Movimento (1a. edição) 2009, brochura 15,5x23, 21 págs., ISBN: 978-85-7195-145-7

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

rainha do castelo de ar

Neste último volume da trilogia Millennium Stieg Larsson tenta resolver todos as questões que ficaram em suspenso nos volumes anteriores. Comparado com a correria do final do segundo volume no início deste há mais descrição, mais reflexão sobre os problemas e muitos, muitos mesmo, telefonemas. Os personagens que já conhecemos, o jornalista Mikael Blomkvist e a hacker-heroína Lisbeth Salander, bem como a maioria dos demais, dezenas de coadjuvantes, seguem por hospitais, delegacias, promotorias, redações de jornal, cada um cumprindo seu papel na trama. Após um início tranquilo as reviravoltas do roteiro começam a aparecer e o círculo de envolvidos aumenta, incluíndo a sede do governo sueco, o presente e o passado dos serviços de espionagem, o universo do hackers anônimos amigos de Salander. A chave de todo o livro está na cabeça da heroína, presa em uma instituição psiquiátrica. O jornalista consegue de forma mirabolante que ela tenha acesso a um "palm book" e com ele, mesmo atrás das grades, a moça consegue coordenar todos os esforços por destrinchar a trama, desmascarando os maus, punindo os canalhas, desnudando os corruptos. Quando, já na parte final do livro, inicia-se o julgamento de Salander - previamente orquestrado para prejudicá-la definitivamente - eis que toda a maquinaria montada por ela e Blomkvist desmascara todo o grupo de envolvidos nos crimes descritos nos três volumes da saga. Muitas cabeças cairão, o leitor fica feliz em alcançar um final feliz. A moça é libertada. Se reconcilia com o jornalista, física e espiritualmente. Tudo muito bonito, muito ajeitado, muito esquemático. Há algumas horas que o sentido fica vago e nos deparamos com termos algo obtusos, acredito que por conta da tradução ser de segunda mão, feita a partir de uma tradução francesa. O autor utiliza um procedimento para acelerar a trama que me incomoda: vários capítulos terminam com estruturas do tipo "conversaram por duas horas"; "combinaram que"; "falaram sobre como fariam tal coisa"; "ele explica tudo em cinco horas"; "e assim ambos ficaram sabendo que". O texto fica truncado demais e esquemático demais para o meu gosto. De qualquer forma é um bom "thriller", um livro que ajuda o leitor a entender melhor como funciona a engenharia social nos países escandinavos, sem muitas concessões ou glamurização. [início 13/10/2009 - fim 20/10/2009]
"A rainha do castelo de ar - Millennium 3", Stieg Larsson, tradução de Dorothée de Bruchard, editora Companhia das Letras (1a. edição) 2009, brochura 16x23, 685 págs. ISBN: 978-85-359-1520-4

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

mil e uma noites

Comprei este pequeno livro para matar o tempo presente (uma espera infernal em um consultório) e também matar a saudade de um tempo longínqüo, perdido nos guardados da memória. Nos anos de redemocratização, início dos anos 1980, Paulo Caruso e seu traço marcante faziam uma preciosa crônica das transformações (políticas, econômicas e de costumes) pelas quais passava o Brasil. Reunidas já em vários livros seus quadrinhos, séries e ilustrações falam de um Brasil que é quase desconhecido pelos viventes deste início de século XXI, apesar de terem se passado não mais que trinta anos. A ignorância sobre nossa história e passado ainda nos cobrará muitas faturas terríveis, pois os brasileiros são mesmo assim, particularmente cegos para seu passado e incapazes de antecipar com precisão seu futuro, associando relações da causa e efeito em seu cotidiano. Paciência. "As mil e uma noites" é uma série de quadrinhos que líamos cotidianamente, esperando os desfechos mirabolantes, as reviravoltas engraçadas, as descobertas geniais do ilustrador. São quadrinhos que fazem um censo das noites boêmias de um Brasil que já mudou demais. É engraçado (tolo ou bizarro seriam termos mais adequados) - que atualmente se fale de política e de costumes no Brasil como se o mundo tivesse começado em 2003 com a posse do atual governo. Só os muito imbecis ou os muito astutos podem mesmo concordar com tal platitude, tal desinformação oportunista. O Brasil é muito mais complexo e vasto que o lula e seus petistas amestrados fazem questão de propagandear, medíocres que são. [início - fim 18/10/2009]
"As mil e uma noites", Paulo Caruso, editora L&PM (1a. edição) 2007, brochura 10,5x18, 106 págs., ISBN: 978-85-254-1575-2

domingo, 29 de novembro de 2009

in the dutch mountains

Publicado originalmente em 1984 "In the Dutch mountains" é um livro onde lemos um escritor escrevendo um livro (que virá a ser o livro que temos em mãos a ler). Como nos demais livros de Nooteboom que já li neste há elementos algo mágicos, ora flertando com os contos de fada, ora com o mundo interior dos indivíduos. Um espanhol, da região de Zaragoza, engenheiro e responsável pela manutenção das auto-estradas (as carreteras) da região, aproveita seus meses de férias para se isolar em um colégio e escrever ficção. Já publicou alguns livros, sem fazer muito sucesso de vendagem, mas é o tipo de sujeito que preza a literatura acima de tudo e prefere gastar suas férias escrevendo que viajando ou ficando com a família. Quando era jovem passou uma temporada nas terras holandesas e domina um tanto do idioma. O livro que ele está escrevendo (e sobre o qual reflete o tempo todo, criando planos entre a ficção produzida por ele e a ficção produzida por Nooteboom) é uma alegoria, um conto de fadas, mais ou menos baseado na história da rainha das neves. Se é que eu me lembro bem uma rainha do polo norte sequestra um menino (que tem uma farpa de gelo encravada em seu coração). A irmã do menino procura por ele e o encontra enregelado no palácio de gelo da rainha. As lágrimas da irmã despertam o menino e o livra do encanto, permitindo que ambos retornem para casa. No livro que o personagem de Nooteboom está escrevendo dois outros personagens, Kai e Lúcia, ideiais de beleza masculino e feminino, trabalhavam em um circo, que acabou de cerrar as portas. A falência do circo foi uma armadilha para atrair os dois para uma proposta de trabalho no sul da Holanda, que é quase outro país, com controle fronteiriço, máfias controlando todas as atividades. Kai é sequestrado por uma rainha das neves (uma mafiosa da fronteira). Lúcia é ajudada por uma anciã e um velho palhaço. A rainha das neves mantêm Kai como um escravo sexual (e ele aos poucos esquece da namorada). Lucia descobre que o palhaço que a ajuda é uma mulher. Elas conseguem entrar no castelo onde Kai está aprisionado e o salvam (após um tiroteio onde todos os personagens perversos - estafetas e prepostos da rainha das neves - morrem). O narrador/escritor espanhol fica feliz por ter alcançado um final feliz para o livro que está escrevendo. Ele fica sozinho no pátio do colégio jogando amarelinha, como se fosse novamente uma criança. Se é que todo livro tem um moral, eu diria que Nooteboom no fundo nos está apresentando os desafios da unificação européia, do conflito entre o norte frio, objetivo, refinado, organizado e o sul sangüineo, pobre, perigoso, violento. Ele discute um tanto sobre ideiais de beleza, sobre linguagem e filologia (que aproximam e afastam os homens), sobre a psicologia e a auto-imagem que cada um tem, sobre o poder das armas e da sexualidade. É um livro bom de se ler, que faz perguntas interessantes ao leitor. Nunca é demais elogiar o grande sujeito que é Nooteboom. [início 26/08/2009 - fim 14/10/2009]
"In the Dutch Mountains", Cees Nooteboom, tradução de Adrienne Dixon, Penguin books (1a. edição) 1987, brochura 13x19,5, 128 págs., ISBN: 0-14-011829-2

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

vento norte

Ainda no ínicio de 2004, depois de ler na Folha de São Paulo que Tarso Genro justificava a esquizofrenia dos primeiros dias do governo lula ao "rebaixamento do horizonte utópico do pt", percebi que tudo o que é dito por um petista só poderia mesmo ser entendido como peça ficcional, sem qualquer decalque no mundo real. Esta espécie de epifania poupou-me de muitos aborrecimentos. Recentemente don Ronai Rocha me disse que Tarso Genro havia publicado livros de poesias. Quase na mesma época consultei uns jornais velhos por conta de um texto que escrevia sobre o prêmio literário Fellipe d´Oliveira. Descobri neles que o mesmo Tarso ganhou um segundo lugar de poesias do Fellipe d´Oliveira em 1978 (perdendo para o médico Luiz do Prado Veppo). Ulalá pensei! Um Tarso Genro explicitamente ficcional deve ser divertido. Procurei na estantevirtual e achei três livros: Vento norte (1964), Acorda palavra (1969) e Luas em pés de barro (1977). Estes dois últimos não li, mas o primeiro, que Tarso assina "tarso fernando h. genro, estudante, 17 anos, santa maria, rio grande do sul" (quem já leu o "Retrato do artista quando jovem" vai lembrar do anacronismo desta fórmula) me pareceu tentador demais para não dedicar a ele um par de horas. É mesmo divertido. São versos brancos que falam das estações, da natureza, das moças e rapazes, das paixões juvenis, dos ruas e espaços públicos da cidade. Curiosamente ele escreve tudo em caixa baixa (em minúsculas, como e.e. cummings ensinou, mas Tarso não deveria saber quem era Cummings em 1964). Assim Fidel Castro, Hiroshima, Krushev, Lindon Johnson, França, Nagasaki são grafados fidel castro, hiroshima, krushev, lindon johnson, frança, nagasaki. Mas sua transgressão juvenil e coragem intelectual tem limites bem definidos. Ele não se permite uniformizar o estilo e escreve "Deus" (várias e várias vezes) e "Pai Universal" (uma única vez) em em caixa alta, como se grafar "deus" pudesse amaldiçoá-lo de alguma forma. Proust já nos ensinou que uma fila extensa de odiosas encarnações nos liga do berço ao esquife (na verdade é Elstir quem nos ensina isto, quando é flagrado pelo narrador com uma lembrança incômoda). Talvez o jovem tarso genro, estudante, 17 anos, fosse apenas um jovem beato e temente à deus, algo tolo e pueril, fazer o quê, mas ainda assim um jovem com licença para cometer poemas açucarados e banais, como qualquer jovem, de qualquer tempo e lugar. O atual Tarso, ex-prefeito, ministro, candidato, hoje já é vetusto demais, escreve e fala platitudes demais para que eu procure nelas alguma verdade. O narrador de "Em busca do tempo perdido" se satifaz com as explicações de Elstir, mas meu coração paulista é menos tolerante. Cabe o registro que o livro tem uma bela capa, assinada pelo artista plástico santa-mariense Eduardo Trevisan. [início 19/09/2009 - fim 26/09/2009]
"Vento Norte", Tarso Fernando Herz Genro, editora Manuzio (1a. edição) 1964, brochura 14,5x19,5, 45 págs., sem ISBN

sábado, 21 de novembro de 2009

venimos a cenar

Comecei a ler este pequeno livro de receitas ainda na velha feiticeira, mas não tive a chance de produzir as delicinhas que nos apresenta e ensina sua notável autora (que tem o cinematográfico nome de Margot Fontaine). Lembro-me que o encontrei em uma livraria da carrer Ferran, bem ao lado da lojinha de jóias de Sílvia Serra, catalana de quatro costados. As idéias que encontramos no livro são bem ao estilo "tapeo" espanhol, de comidas que podem ser encontradas em uma barra despretensiosa ou em uma cozinha modesta, escondida em qualquer cidade ibérica. São pratos que podem ser produzidos de improviso, quando um amigo telefona e pergunta se pode passar para uma conversa no final da tarde: lembramos o que há na geladeira ou na despensa e imaginamos rapidamente o que podemos preparar com o que temos à mão. Mais que um livro de receitas é um manual que ajuda a cada um de nós a celebrar a amizade e o saudável hábito de conviver com pessoas queridas, além do imaterial prazer de cozinhar para elas em meio a música e sol, bons vinhos e conversa franca. Não há porque (nem como) não se encantar com as propostas deste pequeno livro. [início 01/08/2009 - fim 19/10/2009]
"Venimos a cenar!: cocina para invitados imprevistos", Margot Fontaine, El cuerno de la abundancia [ José J. de Olañeta, editor ] (1a. edição) 2006, brochura 10,5x15, 126 págs., ISBN: 84-9716-482-2

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

summertime

Lembro-me bem da forte impressão que tive ao terminar a leitura de "Boyhood" (1975) e "Youth" (2002). O primeiro li logo que soube da existência de J.M. Coetzee, ganhador do Nobel de 2003, era uma edição já antiga da Best Seller. Já o segundo li assim que publicado pela Companhia das Letras em 2005. Lembro-me que dei ele de presente para a Cristina Polo, mas ela ficou preocupada com o ar sombrio do livro. Não são exatamente livros fáceis. Eles se inserem no que usualmente se chama "romances de formação". Neles Coetzee descreve o que ele chamou de "cenas da vida provinciana" de um garoto de ascendência boer na Africa do Sul que emigra posteriormente para a Inglaterra. Os paralelos com a vida do próprio Coetzee são óbvios, mas ele escreve sem se trair e sem deixar o leitor se interessar mais pelo escritor Coetzee que pelo personagem John. "Boyhood" lembra o "Retrato do artista quando jovem", claro, com descrições de sofrimento e ritos de passagem juvenis (portanto algo cerebrais demais) de um narrador que vive em uma terra inóspita, que conta suas preocupações com a mãe, o pai, a literatura, o desejo sexual, a presença incômoda e visível do apartheid. No final ele mostra seu caminho: "se ele não lembrar os livros e a existência de sua tia Anne, grande leitora, quem lembrará?" Já em "Youth" o narrador termina o nível superior ainda na Africa do Sul e emigra para a Inglaterra para trabalhar. Ele é matemático, mas como gostava das aulas de literatura e línguas, pretende ser afinal um poeta. Começa um mestrado em literatura. Os anos 1960 na Inglaterra são um parque de diversão para os sentidos, mas ele tem uma vida de imigrante dura e limitada, trabalha como programador para a IBM, um destino impessoal e inglorioso demais para quem se pretendia um poeta inovador. Seus relacionamentos afetivos são conturbados e insatisfatórios. "Summertime" é uma continuação óbvia destes dois romances. Lançado em 2009 foi finalista do prestigioso Booker Prize. Aquele que nós leitores podemos imaginar como o sujeito "John" dos romances anteriores alcançou alguma fama como escritor, mas já é morto. Um escritor pretende fazer uma biografia deste "John" e organiza entrevistas com pessoas que estiveram próximas a ele no período de cinco ou seis anos posteriores a emigração de volta à Africa do Sul após sua temporada londrina: uma amante de sua Africa do Sul natal, uma vizinha na verdade; uma prima africanner, sua amiga de infância; uma brasileira, forçada pelas filhas para contratá-lo a dar aulas de inglês a elas; um professor de inglês da Universidade do Cabo, com quem John disputou uma posição acadêmica; uma outra colega acadêmica, professora de francês na universidade, que também foi amante de John. Cada uma das entrevistas é escrita em um estilo diferente. Ora são quase transcrições literais das conversas, ora são textos já algo ficcionalizados para comporem um livro. Algumas são mais intelecutalizadas, outras mais diretas e objetivas. São quase exercícios literários. Os entrevistados e o entrevistador falam dos livros que John publica (onde parte do material ficcional é baseado na vida e no relacionamento dos entrevistados). São os livros que J.M. Coetzee publicou nos anos 1970 e 1980 (Dusklands, In the Heart of the Country, Waiting for the Barbarians, Foe). É um livro curioso, denso, mas bastante bem humorado (comparado com os dois primeiros). Aprendemos que Coetzee é um bom crítico de sua produção (afinal ele nunca deixou de ser um professor universitário). Os paralelos com sua vida são evidentes, mas o personagem John é apenas o veículo para o autor refletir sobre a vida, sobre as transformações por que passa, sobre as distintas percepções que cada um faz de si mesmo e dos outros com quem convive. No final o biógrafo nos mostra os últimos apontamentos de seu biografado, trechos fragmentários de romances que ele tensionava escrever, material para uso posterior em suas experiências ficcionais. A personagem brasileira é curiosa. Ela fugiu do Brasil por conta do golpe militar de 1960, emigrou para Angola e tentou a sorte posteriormente na Africa do Sul com o marido e duas filhas. O marido é morto em um assalto banal e ela tem grandes dificuldades em manter-se no país para onde emigrou. As dificuldades desta personagem lembram um tanto as dificuldades dos emigrantes africanos e latino-americanos na Europa deste cruel século XXI. Ao mesmo tempo a personagem brasileira é a única que incisivamente manifesta pouco apreço pelo personagem que está sendo biografado (pois ele acreditava que ele poderia assediar sexualmente suas filhas). Apesar desta personagem fazer o papel de vilã me parece que Coetzee a retrata como uma heroína a seu modo, uma mulher que consegue resistir às vicissitudes com determinação e força moral. Haverá espaço para uma continuação? Coetzee poderia inventar que alguém encontra por acaso romances não publicados daquele "John" morto precocemente, romances que seriam os do Coetzee nos anos 1990 e 2000. Já veremos o que este instigante escritor nos reserva para o futuro. [início 06/10/2009 - fim 19/10/2009]
"Summertime", J.M. Coetzee, editora Harvill Secker (1a. edição) 2009, capa-dura 14,5x22, 266 págs., ISBN: 978-1-846-55318-9

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

el sueño mexicano

Li boa parte deste livro nas praias ainda no verão passado. Fiquei uns bons dias sentado, perto do mar, bebericando algo e acompanhando as reflexões de Le Clézio. Não cheguei a terminar naquela época. Aí começaram os sucessos do ano letivo e as correrias da vida. Emprestei o livro para uma amiga entusiasta da cultura andina e mexicana, que levou-o na bagagem em uma viagem sentimental ao México. Elenir leu o livro todo bem antes de mim. Quando ela devolveu-me o livro eis que me organizei para terminá-lo, mas já havia perdido o ritmo das praias e demorei bastante para me entender com os argumentos do autor. Trata-se de um detalhado ensaio sobre as culturas e os povos pré-hispânicos, principalmente sobre detalhes da mitologia destes povos. Le Clézio não é nada superficial. Ele estudou a fundo as muitas camadas de mitologia, filologia, linguística e aquilo que a historiografia da área recuperou daquela época. Produziu um texto que além de nos ilustrar um tanto, serve como um libelo contra a violência e a ignorância. Não se consegue ler este livro sem ficar com um certo mal estar. O autor descreve a violencia cíclica e intrínsica que os povos ameríndios pré-colombianos experimentavam entre si (pois formavam sempre sociedades hierarquizadas, com uma definida aristocracia dominante) mas, segundo ele, ao mesmo tempo: "Eles estavam a ponto de desenvolver um sistema filosófico que poderia resolver as contradições do mundo antigo. Através do transe e da revelação chamanísta se alcançava uma harmonia entre o real e o sobrenatural. A concepção de um tempo cíclico e a idéia de uma criação baseada na catástrofe poderiam ser os pontos de partida de um novo pensamento científico e humanista. O respeito às forças naturais e a busca de equilíbrio entre o homem e o mundo talvez poderiam influenciar o progresso técnico do mundo ocidental, tornando-o menos radical e determinista." São especulações interessantes, que levam o leitor a pensar. Aprendi recentemente com Javier Marías que não há sentido algum em pedir que o atual rei da Espanha peça desculpas pelos crimes cometidos por Hernán Cortés, nem que o atual papa peça desculpas pelos crimes cometidos pelo tribunal do santo ofício contra Galileu Galilei ou quem quer que seja. O que os homens podem fazer é apenas aprender com o passado e esperar que as futuras gerações possam errar um tanto menos. Le Clézio é mesmo um sujeito de muitas habilidades. [início 26/01/2009 - fim 18/10/2009]
"El sueño mexicano: o el pensamiento interrumpido", J.M.G. Le Clézio, tradução de Mercedes Córdoba e Tomás Segovia, editora Fondo de Cultura Econômica (1a. edição) 1992, brochura 11x17, 278 págs., ISBN: 968-16-3699-6

domingo, 8 de novembro de 2009

imitador de vozes

Nunca havia lido nada de Thomas Bernhard. Nos guardados de minha biblioteca encontrei um exemplar de bolso de "O náugrafo", de 1996, mas não me lembro de tê-lo lido. A capa deste "O imitador de vozes" chamou-me a atenção e li este conto ou mini-conto, que dá nome ao livro, ainda em pé, nos corredores da CESMA. Ao final são 108 histórias curtas, monotemáticas. Parece que o estilo que Bernhard é este mesmo. Ele repete os temas, o estilo, os personagens e a paisagem das histórias, mas com isto ele ensina ao leitor a prestar atenção ao que realmente importa: a meu juízo a fragilidade da condição humana, não a fragilidade física, mas sim dos aspectos morais da condição humana. As histórias começam como contos de fada, ambientados em alguma cidadezinha pitoresca da Alemanha, da Aústria, da República Tcheca. Os temas são banais e vulgares. São viagens, encontros, caminhadas, lembranças e têm quase sempre tem um desfecho trágico. Os personagens são variados: gente do campo, músicos, cantores, filósofos, professores, burocratas, homens de negócios, políticos. Como seu estilo é bastante direto e factual, resta ao leitor aguçar o espírito e entender a hipocrisia inerente da sociedade que engendra histórias tão patéticas (sobretudo por serem críveis apesar do absurdo intrínsico de cada uma delas). Os cadáveres vão se empilhando e ao final do livro estamos fartos da matança, se não física, ao menos moral de cada homem e mulher deste desgastado mundo novo em que vivemos. [início 15/09/2009 - fim 15/10/2009]
"O imitador de vozes", Thomas Bernhard, tradução de Sérgio Tellaroli, editora Companhia das Letras (1a. edição) 2009, brochura 14x21, 159 págs., ISBN: 978-85-359-1504-4

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

wabi sabi

Comprei este livro para dar de presente à Helga. É um livro para quem gosta de gatos e gosta de arte e também um livro para quem gosta de refletir sobre a vida. Mostrei a ela pelo skype uns dias antes de seu aniversário. Transcrevi o texto, ao qual juntei algumas das belas ilustrações do livro (colagens e gravuras na verdade) que achei na internet. No livro conta-se uma curta história de uma gata curiosa sobre o significado de seu nome: "Wabi Sabi". Para a cultura japonesa Wabi Sabi é um conceito importante, associado à estética e ao modo mesmo como os japoneses vêem o mundo. Se é que eu entendi bem uma coisa para ser completamente bela (em termos japoneses) deve incluir em si uma imperfeição, uma incompletude, uma impermanência. É um termo emprestado do taoismo e do zen-budismo que pode ser usado por artistas, designers, arquitetos, poetas (por todos e por ninguém em particular). Todos os personagens que a gata encontra durante sua viagem de auto-conhecimento respondem à ela que seu nome "é um tanto difícil de explicar", coisa que a deixa progressivamente mais curiosa, mas ao final ela alcança uma compreensão. As colagens que enfeitam o livro são de fato belíssimas (Ed Young é o nome do sujeito que as produziu) e o tratamento gráfico do livro é muito bom. Talvez eu devesse incluí-lo na categoria de livro de arte e não como infanto-juvenil, como sugere o próprio editor. O livro inclui vários haicais. Acredito que Helga gostou desta nova gata que a espera por aqui. Feliz aniversário gata, uma vez mais. [início 14/10/2009 - fim 14/10/2009]
"Wabi Sabi", Mark Relbstein, tradução de Luzia Aparecida dos Santos e Monica Stahel (haicais), arte de Ed Young, Editora Martins Fontes (1a. edição) 2009, capa-dura 27,5x27,5, 40 págs., ISBN: 978-84-7827-164-0

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

sanshiro

"Sanshiro" é um romance do mesmo autor de "Eu sou um gato" e "Kokoro" que já resenhei aqui. Gostei dos dois livros anteriores e gostei deste também. São temáticas e tratamentos distintos, mas o autor sabe contar sua história e ensinar algo ao leitor. É incrível com um bom romance sobrevive ao tempo (Sanshiro foi publicado em 1908). Esta leitura deu-me um prazer adicional, pois ganhei o livro de presente de Helga catalana, senhora das livrarias e espaços culturais barceloneses. Foi mesmo um grande presente. A história que se conta é curiosa: um rapaz sai da província e chega a capital Tóquio para estudar na universidade. O mundo cosmopolita e sofisticado da cidade grande enfumaça a percepção que este rapaz tem das experiências pelas quais passa. Um sujeito da mesma cidade do narrador estuda ciências (física especificamente) e tem um relacionamento com a cidade e com a universidade que é mais pragmático e objetivo que aquele escolhido pelo narrador. Os outros interlocutores importantes do narrador são um colega dispersivo e algo inconsequente (que lembra o Bloch de Proust); um pintor de relativo sucesso (que lembra o Elstir de Proust); um tolo professor de universidade (que lembra o Cottard de Proust); uma moça (por quem se apaixona a primeira vista, claro, e que lembra a Gilberte de Proust); uma outra moça (que ajuda e com quem tenta estabelecer uma relação de amizade, que lembra a Albertine de Proust). É um romance que descreve como um sujeito aprende a decodificar o mundo, ou seja, aprende a interagir com as sutilezas do comportamento humano e se conhecer propriamente falando. As muitas confusões e situações nas quais o narrador se envolve são típicas de quem está tentando conhecer o mundo real a seu redor, sem as máscaras da ignorância e/ou do preconceito. Incrível como neste romance, anterior ao poderoso Proust que domina minhas melhores lembranças literárias, Soseki consegue construir personagens verossímeis e ao mesmo tempo tão atuais. Talvez eu exagere um tanto nos paralelos entre este livro e aqueles do ciclo "Em busca do tempo perdido", mas trata-se de um romance que não deixará nenhum leitor indiferente. Belo presente este de doña Helga. Vamos a ver se leio agora "Botchan", romance que deu fama perene a Soseki. Veremos. [início 18/09/2009 - fim 06/10/2009]
"Sanshiro", Natsume Soseki, tradução de Yoshino Ogata, Editorial Impedimenta (1a. edição) 1999, brochura 13x20, 330 págs., ISBN: 978-84-937110-0-9

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

galileu galilei

Neste pequeno livro Antônio Augusto Passos Videira (professor e pesquisador da Universidade Estadual do Rio de Janeiro) nos apresenta com rigor e riqueza historiográfica um pouco da vida e das descobertas de um sujeito que contribuiu muito para mudar a forma como o ser humano se vê e interpreta o mundo em que vive. Em meados de 1609 Galileu Galilei usou e aperfeiçoou um recém-descoberto instrumento, aparentado ao que hoje chamamos de luneta, para observar o céu. Galileu viu que Júpiter tinha satélites como a Terra, que Vênus tinha fases como a Lua, que o Sol tinha manchas e sobretudo observou detalhadamente a Lua. Estas observações foram publicadas no livro "Siderius Nuncius - O mensageiro das estrelas", em 1610. O impacto da forma que Galileu usou para proceder seu trabalho experimental e expôr suas conclusões teóricas marca uma mudança fundamental nas ciências naturais, sobretudo a matemática, em certa medida contribuindo para consolidar aquilo que chamamos de ciência moderna, e na própria história do homem, fortalecendo o papel do trabalho intelectual, o papel do indivíduo que produz conhecimento a partir de observações (e não a partir de revelações místicas). A União Astronômica Internacional escolheu 2009 como o Ano Internacional da Astronomia para lembrarmos e comemorarmos os feitos de Galileu. Guto Videira disserta no livro as descobertas em si, mas também comenta e reflete sobre as muitas contribuições científicas de Galileu, pontuando e exemplificando repetidas vezes. O livro é escrito em uma linguagem acessível, inclui uma generosa sessão de sugestões comentadas de leitura e uma completa relação dos livros publicados por Galileu. Voltado para todo aquele que tem curiosidade científica mas também não suporta diluições e vulgarismos "As descobertas astronômicas de Galileu Galilei" é um livro que se deixa ler com muito prazer. [início 01/10/2009 - fim 03/10/2009]
"As descobertas astronômicas de Galileu Galilei", Antônio Augusto Passos Videira, Vieira & Lent editores (1a. edição) 2009, brochura 13x18, 112 págs., ISBN: 978-85-88782-61-7

terça-feira, 3 de novembro de 2009

el paraíso está aquí al lado

"El paraíso está aquí al lado" é o primeiro livro de Cees Nooteboom, publicado quando ele tinha vinte e um, vinte e dois anos, em 1955. O título original é Philip en de anderen, algo como Philip e os outros. É um conto de fadas, uma história onde se conta uma viagem de iniciação de um jovem, por cidades européias muito distintas entre si (cidades da Itália, da França, da Holanda e da Escandinávia), viagem onde ele mantem contato com pessoas muito diferentes e tem experiências marcantes. Não é um livro muito fácil de ler. Há muitas camadas de histórias que se superpõe e por vezes é difícil descobrir quem é mesmo o narrador ou de quem ele fala. Os temas que Nooteboom irá utilizar ou ao menos citar em seus trabalhos posteriores estão neste livro: as estradas, os caroneiros e os caminhões, os mosteiros e os monges, o circo e os mágicos, a mitologia grego-romana e a fantasia, as cidades e a paisagem, as mulheres e a necessidade de viajar para entender a si próprio. O livro começa e termina com visitas a um tio iconoclasta e sofisticado. No primeiro encontro o jovem narrador tem seis anos e aprende a aceitar as convenções do tio. No último o narrador, já mais rebelde, pensa mais em si que nas regras da boa educação ou da hipocrisia. Nesta edição espanhola que li (da Galaxia Gutenberg, belíssima cabe dizer) há um epílogo escrito por Nooteboom em 1999, onde ele comenta a recepção favorável que este livro teve por uma geração ou mais de contemporâneos e filhos de contemporâneos seus. É um texto curto, duas ou três páginas, mas muito poético. Ele lembra o leitor que a passagem do tempo não é isenta de perigos e que nossas sucessivas encarnações ao longo da vida tornam os jovens que fomos por vezes extranhos demais para que com eles privássemos de alguma intimidade ou mesmo alguma lembrança favorável. Cees Nooteboom sabe mesmo contar uma história. [início 20/08/2009 - fim 28/09/2009]
"El paraíso está aquí al lado", Cees Nooteboom, tradução de Isabel-Clara Lorda Vidal y Pedro Gómez Carrizo, Ediciones Galaxia Gutenberg (1a. edição) 1999, capa-dura 12,5x21, 190 págs., ISBN: 84-8109-251-7

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

penápolis

Máucio, como é conhecido o Mario Lúcio Rodrigues, é um sujeito de muitos talentos e vez ou outra nos surpreende com um empreendimento curioso. Sua última sacada interessante é a publicação deste pequeno livro de cartuns onde as galinhas e os galos contam histórias. Alguns dos cartuns já haviam sido publicados na revista/fanzine "Garganta do diabo", outros foram produzidos para esta edição. Os personagens falam de variados temas próprios do cotidiano, com humor mais que ironia, com alegria mais que crítica. Não há como eu emular um dos cartuns aqui e esperar que você entenda a proposta, portanto, se você gosta de quadrinhos, charges e cartuns a sugestão é procurar um dos serviços de tele-entrega que o o Máucio inventou para fazer chegar o livro até a sua casa. Bom divertimento. [início 27/09/2009 - fim 27/09/2009]
"Penápolis: o mundo, segundo as galinhas", Máucio (Mario Lúcio Bonotto Rodrigues, editora Manuzio (1a. edição) 2009, brochura 15x15, 60 págs., ISBN: 978-85-xxx-xxxx-x

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

barcelona

De todos os guias e mapas que já comprei ao longo de minhas modestas e curtas viagens este é que mais me agradou, por isto decidi resenhá-lo aqui. Ele é pequeno, cabe no bolso de um casaco em um dia de inverno ou em uma bolsa à tiracolo em um dia de verão. Cada página se divide entre um mapa que se desdobra e uma página de informações. Assim o leitor, viajante, turista, curioso, vai de bairro a bairro da velha feiticeira sem chance de esquecer uma dica cultural, gastronômica, irrelevante que seja, por conta de divisões aleatórias do conteúdo "turístico" que cada cidade tem. O livro é bem ilustrado, as fotos são de boa qualidade. O texto é objetivo e direto, sem muita adjetivação. Depois dos mapas e da descrição dos bairros as usuais seções de um livro de viagens aparece: dicas de aeroporto e de translados, dicas de gastronomia e de compras, dicas de bancos e de festas. Na verdade cada um de nós deve construir seu guia pessoal de cada cidade que visita, de cada região que explora, de cada país com o qual se envolve, mas na falta deste envolvimento um bom guia sempre é fundamental. Bom divertimento. [início 01/08/2009 - fim 26/09/2009]
"Barcelona: Plano guia, la ciudad, plano a plano, guía práctica", Llátzer Moix, Josep Liz, editorial Turism de Barcelona - Triangle Postals (1a. edição) 2009, brochura 11x19,5, 64 págs., ISBN: 978-84-8478-367-1

sábado, 24 de outubro de 2009

lluvia roja

Cees Nooteboom é o tipo de sujeito que não me canso de recomendar. "Lluvia roja" foi publicado originalmente em 2007. Esta tradução espanhola que li foi publicada agora há pouco e está fresca como pão quente. A edição, muito bem cuidada, é de junho de 2009. Nooteboom colige três grupos de artigos curtos. São fragmentos de memórias, de experiências e fatos acontecidos com ele nos últimos quarenta, cinquenta anos, mas como bom ficcionista que é inclui textos algo mais inventivos, como em uma sinfonia: um prólogo, dois intermezzos e uma coda, muito boa mesmo, maravilhosa. Há também um poema, que fecha o livro e parece indicar um caminho para o leitor. Que sujeito! Boa parte dos textos falam de suas temporadas de verão em Menorca, a menor das ilhas Baleares espanholas. Ele descreve sua inserção em um canto afastado da ilha, como conheceu e fez amizades com os moradores, como aprendeu a respeitar o ritmo e as transformações do lugar. Ao mesmo tempo ele fala de suas viagens pelo mundo, da aventura de conhecer línguas novas e modos de pensar diferentes; fala também de seus companheiros de viagens e de trabalho, de sua admiração pelo teatro, pela culinária e a botânica; fala de suas leituras e dos escritores que o influenciaram; dos leitores que encontra e com quem conversa; da memória das coisas e das pessoas. Acho incrível como ele encontra poesia em assuntos tão distintos, por vezes tão áridos. Nooteboom descreve o ato de viajar sem glamurizá-lo, com sabedoria ele ensina ao leitor que o desejo de experimentar este estilo de vida, de ser nômade, deve respeitar nossa bússola interior, que afinal é a única que importa e é confiável. Quem tiver a sorte de viajar com este errante Nooteboom terá experiências incríveis. [início 20/09/2009 - fim 25/09/2009]
"Lluvia roja", Cees Nooteboom, tradução de Isabel-Clara Lorda Vidal, Ediciones Siruela - debolsillo (1a. edição) 2009, brochura 14x21,5, 205 págs., ISBN: 978-84-9841-258-1

domingo, 18 de outubro de 2009

pamplona

Quando lemos "O caminho de Swann" de Proust acompanhamos o narrador e sua família por dois passeios dominicais pelas vizinhanças da casa de campo em Combray. Um é o caminho de Swann propriamente, o outro o caminho de Guermantes. Em algum ponto após descrever um deles o narrador diz: "...je tourne une rue... mais... c’est dans mon coeur. - Dobro uma esquina..., mas dentro do meu coração." Estes desvios são sim sempre muito mais numerosos (e sempre mais poderosos) que aqueles que fazemos fisicamente em nossas vidas. Resolvi resenhar aqui o guia turístico da prefeitura de Pamplona em Navarra "Pamplona: guía breve", pois de uma certa maneira também lá fiz um desvio "dans mon coeur." Pamplona é uma cidade pequena para os padrões brasileiros (deve ter um pouco mais de 250.000 habitantes), mas causou-me um impressão muito boa (o que por si só já me preocupa um paranóico como eu). Tudo muito organizado, muito limpo, muito bonito. Pareceu-me que eles misturam bem o passado com coisas modernas, com facilidades modernas. Mas o que dizer de uma cidade onde se fica em "plan turístico" apenas dois ou três dias? O guía é muito bem produzido, com muitas fotografias e ilustrações, mas também com textos ricos onde os muitos aspectos relacionados à cidade são apresentados. com riqueza de detalhes Claro, um guía literário tem de incluir a história, falar dos lugares de interesse turístico, citar os monumentos importantes, os hotéis, os restaurantes. Mas neste guía os autores (não nominados, pois deve ter sido mesmo um trabalho coletivo de encomenda para a prefeitura da cidade) se preocupam também em incluir algo mais imaterial, registrar aqueles "desvios no coração" que todo aquele que viajando a esmo teve ao se aproximar de algo que não havia programado, a algo que se torna de pronto uma experiência nova. Apesar de ter sido convidado por Cristina há quinze anos para visitar Pamplona só agora tive a chance de conhecê-la. Assim, só por ser um cabotino contumaz é que registro aqui a vontade de um dia voltar as terras altas de Navarra, de cruzar uma vez mais o casco histórico, perder-me pela ciudadela, ver melhor o café Iruña - que me lembrou um filme com o Tyrone Power, passear pelos parques e os jardins, disfrutando tudo com calma, sem medo e sem temor. [início 06/08/2009 - fim 26/09/2009]
"Pamplona: guía breve", editorial Ayuntamiento de Pamplona (3a. edição) 2009, brochura 12.5x24cm, 88 págs., ISBN: 978-84-89590-83-4

terça-feira, 13 de outubro de 2009

la música del hambre

Comprei este "La música del hambre" em um sebo barcelonês, onde uma senhora e seu neto conversavam amigavelmente, mas quase aos berros, enquanto eu fazia o censo dos livros e decidia o que comprar. Le Clézio havia acabado de publicar este livro na França quando recebeu a notícia de que tinha ganho o prêmio Nobel do ano passado. Esta tradução espanhola foi publicada no início deste ano. O livro é quase um conto de fadas, uma história de reminiscências da segunda grande guerra, mas com o tratamento que a memória dá aos sucessos e venturas de um passado distante. Ao longo do livro há algumas menções a teoria musical e no fim parece que o autor gostaria que terminássemos de ler o livro ouvindo o Bolero de Ravel. Cabe lembrar que Bolero é aquela peça musical composta para um balé onde a melodia uniforme é produzida pela repetição de um número pequeno de compassos, alcançando um final vibrante. A história gira em torno de um núcleo familiar de emigrantes mauricianos (daí valer a pena a meu juízo ler-se antes "O Africano" e "A Quarentena", dois outros livros dele onde se explica um tanto a história deste grupo de pessoas). A personagem principal é Ethel Brun (ou Soliman), uma jovem que acompanha a decadência financeira de sua familia e a vertigem associada a forma degradante como a França caiu sob a dominação alemã na segunda grande guerra, ou seja, de como o cerco alemão se fecha não militarmente, mas antes abstratamente no coração da população, instigando divisões, gerando segregacionismo, em um processo de lento convencimento e dominação, como se o mal não pudesse ser evitado. Ethel é filha única de um casal de emigrantes da Ilha Maurício. Através dela ficamos sabendo um tanto da sociedade parisiense dos anos 1920, 1930. Aos poucos os temas fúteis e pretensamente intelectuais dos salões mantidos pelos membros de sua família são contaminados pelo um nome novo, progressivamente dominante, Hitler. Le Clezio mais do que analisar ou justificar o comportamento dos personagens ou mesmo de querer detalhar passagens da história da segunda grande guerra, retrata os movimentos de um grupo pequeno de pessoas, deste núcleo familiar que está condenado a sucumbir nas mãos dos nazistas. Uma história familiar é sempre mais rica que a história das nações. Se é que eu conheço a história de Le Clezio, Ethel é uma personagem que representa sua mãe, uma de suas avós ou outro alguém muito próximo dele, que também teve de fugir dos nazistas durante a ocupação da França, que também passou por dificuldades mil, que também teve seu passado material destruído e seu futuro imediato envolvido no mar de incertezas de um grande conflito. É um bom livro afinal de contas, um conto de fadas terrível - como sempre são os contos de fadas - mais ainda assim um bom livro. [início 24/08/2009 - fim 21/09/2009]
"La música del hambre", J.M.G. Le Clézio, Tusquets editores (1a. edição) 2009, brochura 14x21, 210 págs., ISBN: 978-84-8383-153-3