sábado, 11 de julho de 2020

com el agua al cuello

"Con el agua al cuello" é a vigésima nona aventura de Guido Brunetti, comissário da polícia veneziana. Foi publicado recentemente, em março. Mesmo com as dificuldades da pandemia consegui meu exemplar em poucos dias (graças a Casa del Libro e a DHL, por supuesto). Esse volume trata da sistemática contaminação das águas da cidade e de como um sujeito cuja mulher está em estado terminal, com câncer, é envolvido em uma trama de acobertamento, perpetrada justamente pela empresa responsável por verificar a qualidade da água. A história se passa no verão, com a cidade repleta de turistas, o que dificulta o deslocamento dos personagens pela cidade. Desta vez poucos dos costumeiros personagens se apresentam, como se fosse uma peça escrita para ser encenada em um teatro de bolso, com pouca movimentação e pouco público. Guido Brunetti e sua colega comissária Griffoni se encarregam de investigar as circunstâncias da morte de um químico, responsável pela coleta e análise de amostras da água que é servida para a população. Os dois contam com a ajuda da sempre eficiente secretária Elettra. A narrativa usa pouco como cenário o escritório da comissaria, preferindo levar os protagonistas e os leitores por vários cafés da cidade (com seus típicos tramezzini veneziani). Como sempre acontece nos romances policiais de Donna Leon a chave estrutural segue um drama grego clássico, no caso a trilogia de Orestes de Ésquilo: Agamemnon, Coéforas e Euménides. A questão moral em jogo, o tema, é a maldição que recai sobre aqueles que cometem um crime contra a cidade (a pólis). Todavia, assim como na peça final da trilogia, há uma nítida transição desde o ciclo sangrento do início (quando são as Erínias que comandam o destino das gentes) para o surgimento de uma justiça conciliadora, civilizada, na figura de Palas Atena. Donna Leon sabe tornar crível toda a trama, cujo tema é atualíssimo e certamente se repete por todas as cidades (ela inclusive cita uma tentativa recente de privatização das águas italianas, que não chegou a ser autorizada, após dois plebiscitos). A bem da verdade a trama é um tanto parecida com um outro volume dela, o décimo-quinto, "Veneno de cristal", que também fala sobre a fatal combinação entre a poluição das águas da laguna e a avareza. Entretanto, em "Con el agua al cuello" a solução é mais sutil, melhor resolvida dramaticamente, demonstrando como Brunetti é um personagem complexo e, como não, universal. A ver o que ela nos preparará para sua trigésima aventura, no ano que vem. Belo livro. Vale! 
Registro #1552 (romance policial #96) 
[início: 06/06/2020 - fim: 09/06/2020]
"Con el agua al cuello", Donna Leon, tradução de Maia Figueroa Evans, Barcelona: Seix Barral / Biblioteca Formentor (Editora Planeta S.A.), 1a. edição (2020), brochura 13,5x23 cm., 344 págs., ISBN: 978-84-322-3638-9 [edicão original: Trace elements (Zürich: Diogenes Verlag AG) 2020]

terça-feira, 7 de julho de 2020

lacombe lucien

"Lacombe Lucien", filme de Louis Malle, foi lançado em 1974, mas eu só o assisti em 1980 ou 1981. Lembro-me bem do filme, sobretudo porque naquela época eu lia muito Paulo Francis e ele era particularmente sádico em denunciar reiteradamente a sociedade francesa, falando do porco papel de boa parte daquela população durante a ocupação alemã, na segunda grande guerra. Recentemente comprei um pacote de livros do Patrick Modiano, dentre eles a versão original do roteiro do filme, que é assinado por ele e o diretor, Louis Malle. A leitura silenciosa do livro é tão impactante quando o filme. Não me cabe aqui contar detalhes do  roteiro/filme, claro. Só recomendo, como um dos filmes fundamentais, que todos deveriam tentar ver, mas sei que isso dificilmente acontece, tão anestesiados estão os viventes deste desgraçado país. Gostei de ler o roteiro. Não sou mais aquele jovem de vinte anos, que se instruía na vida, tentava ilustrar-se e que era praticamente imune ao cinismo. Hoje, já praticamente sessentão, vejo a desgraça dos atos e destino daquele protagonista como fruto do completo acaso, como quase tudo nesta vida. Retrospectivamente é fácil ser heroico, estar do lado certo da história, esbanjar bom mocismo, máximas éticas e morais. Noutro dia vi uma entrevista com um de meus gurus espanhóis, o escritor Arturo Pérez-Reverte, em que ele dizia desprezar muito mais a estupidez que a maldade. Segundo ele tendemos quase sempre a sermos condescendentes com as pessoas simples, mal educadas, idiotas, reputando a elas uma inocência que as blindaria dos funestos desdobramentos de suas insensatas escolhas e decisões. Lacombe Lucien é um destes sujeitos, que sempre existiram e existirão, que passam pela vida sem entender quase nada de sua complexidade. Grande livro. Grande filme. Grande Modiano e grande Louis Malle. Vamos em frente. Vale! 
Registro #1551 (drama #21) 
[início - fim: 12/06/2020]
"Lacombe Lucien", Louis Malle e Patrick Modiano, tradução de María Teresa Gallego Urrutia, Barcelona: editorial Anagrama (Panorama de Narrativas #981), 1a. edição (2018), brochura 14x22 cm., 156 págs., ISBN: 978-84-339-8011-3 [edição original: Lacombe Lucien (Paris: éditions Gallimard) 1974]

domingo, 5 de julho de 2020

potnia

"Potnia" é um livro de poemas, e também o livro de um único poema: extenso, estirado, multifacetado, polimorfo. Segundo Leonardo Chioda, logo no início de seu livro, "Potnia (...) é um título de honra, usado pelos poetas para exaltar deusas e mulheres de extremo poder". Estamos no mundo das ideias de Robert Graves, no mundo da "Deusa branca", aquela que sob vários nomes fez-se cultuar por todo o orbe, aquela que tornou-se a linguagem poética de todos os mitos e religiões originais, todos os gênesis, todos os círculos de renascimento e morte. Após um prólogo/contrato entre narrador e leitor, e de três cantos evocativos, emerge o livro, dividido em três partes principais: "Épura & Medula", "Nume" e "Axioma". No primeiro conjunto encontramos 74 poemas, onde um narrador, desde a orla de um mundo novo que vai sendo gerado a cada verso, contempla a vastidão de um grande mar (o signo que domina "Potnia" é o da água, em todas suas possibilidades, como James Joyce já nos ensinou: sua universalidade, vastidão, inquietação, quietude, imperturbabilidade, virtudes curativas, infalibilidade como paradigma e modelo, onipresença, metamorfoses como vapor, névoa, nuvem, chuva, granizo, neve e granizo). São poemas complexos, que cobram tempo e esforço do leitor, onde as imagens evocadas importam mais do que se está sendo descrito (descrições que se desdobram, em parênteses, travessões e chaves em cascata). No segundo conjunto, "Nume", o narrador é Ulysses, que faz-se ao mar, navega de volta a sua Ítaca fundamental. A água continua soberana e as musas condutoras dos poemas são as deidades aquáticas: as sereias, as ondinas, as nereidas, as náiades. Elas fazem 35 conjurações, 35 encantos, que provocam em Ulysses o melhor entendimento de sua jornada. Somos lembrados que se o corpo é quase água, que é branca, transparente, o sangue que flui por nossas veias é salgado e rubro. O porto do narrador neste conjunto não é Ítaca, mas a poesia forte de João Cabral de Melo Neto, que oferece lições ao narrador e ao leitor. O último conjunto de poemas é "Axioma", um conjunto de 30 poemas curtos e três codas, que tratam de conceitos/palavras, potências mitológicas, oferecem um contraste entre a tradição e o cotidiano, demonstram a circularidade da vida, o eterno retorno de todos nós, seres em busca da palavra perfeita, da capacidade de expressão, de comunicação. "Potnia" não me parece um livro fácil, mas recompensa o leitor diligente com imagens, metáforas e histórias realmente potentes. Lembrei de coisas da Hilda Hilst (um reverdeço, uma vida espessa, um respeito por nossa capacidade de amar, mas talvez isso seja apenas devido a coincidência de ter relido ela recentemente, acontece), e também da Teogonia (a invenção de um mundo). Enfim, vamos a ver se encontro outras coisas de Leonardo Chioda. Vale! 
Registro #1550 (poesia #132) 
[início: 16/06/2020 - fim: 21/06/2020]
"Potnia", Leonardo Chioda, São Paulo: V. de Moura Mendonça Livros (Selo Demônio Negro), 1a. edição (2016), brochura 16x23 cm., 198 págs., ISBN: 978-85-66423-29-7

sábado, 4 de julho de 2020

martini

Nestes dias funestos, abancado em casa, sem muita possibilidade de festejos etílicos, resolvi fazer um itinerário emocional, por minha memória, por minhas aventuras pelo universo dos coquetéis, dos combates de Baco, das transgressões. Vaguei por meus guardados, olhando sobretudo a seção dos livros dedicados aos prazeres, às aventuras, ao desejo. Esse "Martini", de Alexander Struminger, me acompanha há décadas, já li, emprestei, tive a sorte de receber de volta, mostrei em festas, desde os dias em que, titubeante, não me entendia entre continuar paulista, algo mundano ou tornar-me gáucho, provinciano como só neste estado se pode ser. Mas isso é história. Alas! Pois esse pequeno volume descreve a história, a mixologia, as receitas, os utensílios, as controvérsias, os procedimentos dos "bartenders" e a biografia de alguns dos grandes entusiastas deste icônico "cocktail". É um volume pequeno, fartamente ilustrado, que ensina o leitor a como aprender, a como melhor degustar os Dry Martinis, com a prática, o tempo, o exercício, o prazer. O certo deveria ser esta uma época de alegrias e descobertas, mas não, estamos aqui, neste baile macabro, contando mortos ao invés de contar bons momentos. Só mesmo algo intoxicado para suportar a estupidez reinante, a falta de caráter e bons modos, a notória vocação para a voluntária escravidão mental e subserviência à canalhas da grande maioria da população deste desgraçado país. Então, segue o baile, agora com uma taça de Martini à mão. Vale! 
Registro #1549 (gastronomia #44) 
[início: 17/05/2020 - fim: 22/05/2020] 
"Martini", Alexandre B. Struminger, New York: Todtri Productions, 1a. edição (1996), capa-dura 18,5x18,5 cm, 48 págs. ISBN: 1-57717-022-9

quarta-feira, 1 de julho de 2020

mil sóis

Neste volume estão reunidos 60 poemas de Primo Levi, produzidos entre janeiro de 1946 e janeiro de 1987. Os 49 primeiros foram selecionados pelo tradutor, Mauricio Santana Dias, dentre os 63 incluídos no volume "Ad ora incerta", premiada reunião de toda produção e tradução poética de Levi até junho de 1984. Outros 11 poemas, produzidos entre setembro de 1984 e antes da morte de Levi, em abril de 1987, também foram incluídos nesta seleção. Os poemas escritos logo após a segunda grande guerra são obviamente marcados por sua experiência no campo de concentração de Auschwitz. São poemas curtos, mas duros, que cobram do leitor não solidariedade, antes sim capacidade de indignação, de indignação frente ao horror, da necessidade de que todos guardem memória daquela tragédia. Nos demais poemas encontramos vários temas recorrentes: os animais e a natureza, a passagem no tempo, a velhice, as estações que governam o cotidiano dos homens, a ideia de viagem, afastamento, o Sol e a neve, o jogo de xadrez, as relações de trabalho e a necessidade do ócio, o contato social, humano. É um livro lírico, repleto de belas imagens, metáforas, que se lê com muito prazer. A edição é bilíngue, porém, ai de mim, meu italiano lamentável pouco ajudou-me na leitura. Cito aqui um dos poemas, "Despedida", de 1974, que diz: "Ficou tarde, meus caros; / Por isso não vou aceitar o pão ou vinho de vocês, / Somente umas poucas horas de silêncio, / As histórias de Pedro, o pescador, / O perfume de musgo deste lago, / O cheiro antigo dos sarmentos queimados, / O grasnido falastrão das gaivotas, / O ouro grátis dos líquens nas telas / E uma cama para dormir sozinho. / Em troca, lhes deixarei versos nebbich como estes, / Feitos para serem lidos por cinco ou sete leitores: / Depois seguiremos, cada um por si, / Pois, como eu dizia, ficou tarde". Li esse volume quase simultaneamente a um outro livro de poemas, de Wallace Stevens, muito cerebrais e diferentes destes de Primo Levi, mas esta é outra história. Sigamos pois, em nosso baile macabro. Vale! 
Registro #1548 (poesias #131) 
[início: 01/03/2020 - fim: 20/05/2020] 
"Mil sóis: Poemas escolhidos", Primo Levi, tradução, seleção e apresentação de Mauricio Santana Dias, São Paulo: Editora Todavia, 1a. edição (2019), brochura 13,5x21 cm, 160 págs. ISBN: 978-656-80309-19-1 [edição original: Ad ora incerta (Milano: Garzanti Libri / Gruppo Editoriale Mauri-Spagnol / GEMS)1984, 1990, 1998, 2004]

segunda-feira, 29 de junho de 2020

donde todo ha sucedido

Já contei aqui como descobri perdidos em meus guardados dois livros de crônicas do Javier Marías. Um deles era uma antologia de textos sobre futebol, "Salvajes y sentimentales", que já registrei aqui. O outro é "Donde todo ha sucedido", textos sobre cinema, sobre os quais falo agora. São 63 crônicas, publicadas originalmente em jornais, entre 1993 e 2004, e já reunidas em livro anteriormente. O interessante da releitura destas crônicas, no meu caso, é receber de uma só vez o impacto das impressões dele sobre este assunto. Quem já leu algum romance de Javier Marías sabe o quão influenciados pelo cinema eles são. O primeiro deles, "Los domínios del lobo", é uma colagem brutal de cenas cinematográficas, que emulam os filmes americanos que retratam o período que vai da guerra civil, no século XIX, até a grande depressão, nos anos 1930. Em todos os demais é comum encontrarmos alguma reflexão ou memória de uma cena de um determinado filme ou seguir a narrativa, pelos personagens de seus livros, dos atos de algum ator, num contraste sempre especial. Marías fala sobre questões técnicas de apreciação, o papel do cinema em sua geração de escritores e de seus filmes favoritos (que é uma coisa de momento, cambiante), mas que à época destas reflexões sobre cinema ele afirma serem The River, de Jean Renoir; The Man Who Shot Liberty Valance, de John Ford; Campanadas a medianoche, de Orson Welles; The Ghost and Mrs. Muir, de Joseph L. Mankiewicz; The Life and Death of Colonel Blimp, de Michael Powell e Emeric Pressburger; Singin' in the Rain, de Stanley Donen e Gene Kelly; North by Northwest, de Alfred Hitchcock; The Apartment, de Billy Wilder; The Wild Bunch, de Sam Peckinpah; The Dead, de John Houston. Escreve bastante sobre John Ford e sobre Orson Welles, seus diretores favoritos. Gostei particularmente de uma crônica sobre Leni Riefenstahl; outra sobre o dia em que dividiu uma mesa de bar madrileña com Hanna Schygulla; ainda outra sobre a influência de um tio seu, cineasta algo maldito, chamado Jesús Franco. Javier Marías fala sobre os grandes temas do cinema (que também são os grandes temas literários): a liberdade, a morte e a dor, o ódio e o amor, o ressentimento e o orgulho, a lei, a justiça e a maldade, a renúncia e a força. Também fala da política, sociedade, boa educação e questões de seu tempo. Nunca me canso de ler o que produz esse especial escritor, já se sabe. Vamos em frente. Vale! 
Registro #1547 (crônicas e ensaios #274) 
[início: 10/06/2020 - fim: 13/06/2020]
"Donde todo ha sucedido: Al salir del cine", Javier Marías, edicíon de Inés Blanca y Reyes Pinzás, Barcelona: Galaxia Gutenberg (Círculo de Lectores), 1a. edição (2005), capa-dura 13x21 cm., 286 págs., ISBN: 978-84-8109-513-3

sexta-feira, 26 de junho de 2020

trece fábulas y media y fábula decimocuarta

Neste pequeno volume encontramos curtas fábulas sem moral, fábulas para gente grande, fábulas que antes provocam reflexão e não se limitam a uma única interpretação. O que está em jogo sempre é o comportamento humano; nossa capacidade de produzir maravilhas e misérias; a realidade de coabitarem em nossa psique, de ocuparem nosso corpo, tanto a dignidade quanto a impostura. Somos sim, maldita gente má. Há sempre um fragmento de frase destacado nas quatorze histórias que compõe o livro. Este fragmento ilumina aquilo que será brevemente desenvolvido nelas, assim como as colagens reproduzidas em preto e branco, assinadas por Emma Cohen (uma conhecida atriz espanhola, já morta). Como em um exercício de psicanálise, o impacto das curtas histórias provocam o leitor a interpretar ou a revelar algo de si naqueles bizarros acontecimentos. Os protagonistas de Juan Benet vivem vários dos conflitos típicos dos homo sapiens: são personagens que delegam à terceiros o seu destino; vivem de aparência e hipocrisia; se iludem com afazeres ridículos, insignificantes; esperam o acaso, e também o nada; flertam com a morte, escravos de desejos e sua ambição; são hedonistas e fracos. Algumas das fábulas têm inspiração bíblica (como a história de Abraão e Isaac, invertida, transformada em uma quase piada íidiche) ou brotam das histórias das mil e uma noites (uma releitura do encontro em Samarra, genial). Se há um personagem que paira sobre todas elas este é a morte, mas Benet sempre zomba dela e de sua onipotência. Enfim, trata-se de um pequeno livro cheio de inspiração e virtuosismo. Lembrei, a ler velhas anotações que havia feito no volume, que este foi um presente de don Manuel Vázquez, em 1998, quando a vida parecia mais fácil, sem limites. Que saudades de don Manolo, grande Manolo, e que grande autor é don Juan Benet, por supuesto!. Vale! 
Registro #1546 (contos #179) 
[início - fim: 02/06/2020]
"Trece fábulas y media y Fábula decimocuarta", Juan Benet, Madrid: Alfaguara (Grupo Santillana de ediciones), 1a. edição (1998), brochura 15x24 cm, 125 págs. ISBN: 84-204-8375-3

terça-feira, 23 de junho de 2020

não está mais aqui quem falou

Nunca havia lido nada de Noemi Jaffe. Gostei de alguns comentários dela no bom podcast "De modo geral" e resolvi experimentar. Esse volume, "Não está mais aqui quem falou", foi publicado em 2017. São quarenta contos ou crônicas curtas quase todas, narrativas curtíssimas, verdadeiros aforismos. Alguns trechos das histórias parecem terem sido capturados de um fluxo, partes de um discurso que começou antes e talvez continue em outro lugar, mas resta ali grafado na forma como o leitor encontra. Os temas são muito variados e há um jogo, que flerta com a dúvida, com a verossimilhança, com a verdade última das coisas (brincando com a ideia de verdade e não verdade). Em algum momento parece que Jaffe tenta emular o Flaubert de Bouvard e Pécuchet, em textos de uma curiosidade esdrúxula (como ela mesma define em algum lugar), associações selvagens (que escondem uma cultura vasta), propostas de jogos verbais, catálogo de palavras. Lembrei coisas que li da Lydia Davis, do David Sedaris, da Patti Smith, do Sam Sheppard e do Caetano Galindo (cada um parecendo espoucar em um texto ou outro). Há histórias etimológicas, sobre a origem das palavras, dos lugares comuns, das frases feitas, das mutações dos conceitos e ideias, espantos com histórias das línguas e da tradução. Outras são releituras de mitos, de passagens bíblicas. Gostei muito de uma história sobre Rubem Braga, outra sobre Primo Levi, outra ainda sobre Manuel Bandeira e Beckett, as reflexões sobre a velhice, beleza, hospitalidade, solidariedade. Ojo!, é o caso de procurar mais coisas desta notável escritora. Vale! 
Registro #1545 (contos #178) 
[início: 08/06/2020 - fim: 10/06/2020] 
"Não está mais aqui quem falou", Noemi Jaffe, São Paulo: editora Schwarcz (Companhia das Letras / Penguin Random House), 1a. edição (2017), brochura 14x21 cm., 144 págs., ISBN: 978-85-359-2948-5

sábado, 20 de junho de 2020

la canción de la bolsa para el mareo

Entre novembro de 2013 e agosto de 2014 Nick Cave e seus companheiros da The Bad Seeds fizeram uma turnê pela Europa, Canadá e Estados Unidos. Em algum momento, no início de junho de 2016, Cave teve uma epifania ou, talvez melhor dizendo, ele fez uma associação entre a recente visão de uma garota decapitada em um acidente de transito em uma estrada no Tennessee e a lembrança de um rapaz que havia saltado de uma ponte ferroviária, e morrido na queda, uma lembrança dos tempos de sua juventude, quando ele morava na Austrália. A partir daí Cave passa usar os sacos de enjoo que são distribuídos nos aviões para fazer anotações e desenhos, produzir registros fragmentários  de seu humor, contar causos, evocar memórias, construir poemas e ideias para canções (ao final do livro conheceremos três delas: "King-sized Nick Cave Blues", "The Beekeeper's wife" e "The Recruitment Officer", ainda não musicadas). O livro reproduz imagens de 22 dos sacos de enjoo, mas o texto do livro é muito maior do que aparece nelas (ele deve ter usado mais de uma centena sacos, a se acreditar que tudo que resta transcrito no livro foi escrito originalmente neles). Não é uma narrativa linear. Como ele mesmo diz, as bolsas de enjoo estão sempre cheias de tudo que ele ama e também odeia ("Eventually everybody took up residence inside me"), ou seja, é uma metáfora antropofágica de seu processo criativo. Encontramos nos sacos pistas de como ele entende seu ofício, seu talento; a exposição de suas mitologias; um elenco de desabafos, espantos do passado e sonhos capturados. Ele fala dos fugidios encontros com fãs, do cotidiano com o povo que dá suporte técnico às turnês e com a banda. Há algo de obsessivo, uma mania por sistematização, repetições, uma máquina de associações contínuas, de um cérebro criativo e sensível. Ele chora em um show de Bryan Ferry e imagina ter sido vampirizado por Bob Dylan certa vez. Conhecemos suas nove musas (cada uma com sua função no palco, velando por cada canção), seus nove anjos, os nove vezes nove tormentos que distraem um artista, os nove dragões metafóricos de sua fé e ofício, da gênese criativa de seu mundo, conhecemos seus muitos colaboradores do passado, as nove pessoas que lhe são caras, merecedoras de sua gratidão. Há temas que se repetem: as pontes; os rios; uma menina negra de saias curtas; a mulher que não atende o telefone, do outro lado do Atlântico; os sonhos lúbricos; os fiapos que ele compulsivamente tenta tirar da jaqueta; a irmandade dos nômades confrades da banda. Vale a pena conferir o texto completo desde livro narrado pelo próprio Nick Cave num podcast depositado no Spotify  e acompanhar o website dele (Nick Cave). O sujeito sabe pensar e criar. Bom divertimento. Segue o baile. Vale! 
Registro #1544 (perfis e memórias #98) 
[início: 02/06/2020 - fim: 04/06/2020] 
"La canción de la bolsa para el mareo", Nick Cave, tradução de Mariano Peyrou, Madrid: Sexto Piso España, 1a. edição (2015), capa-dura 14x21 cm, 184 págs. ISBN: 978-84-15601-97-5 [edição original: The Sick Bag Song (Edinburgh: Canongate) 2015]

quarta-feira, 17 de junho de 2020

o encantamento dos sentidos

Rogério Koff apresenta, em seu "O encantamento dos sentidos", uma análise detalhada de um texto de Edmund Burke (que foi filósofo, político - membro do parlamento inglês - e escritor, nascido na Irlanda, em 1729, e morto na Inglaterra, em 1797). Este texto, On the Sublime and Beauty ("Investigação filosófica sobre as origens de nossas ideias do sublime e da beleza", em português), foi publicado em meados do século XVIII, quando Burke tinha menos de 30 anos. O texto que Koff nos oferece é acadêmico, formal e rigoroso, porém escrito de maneira acessível, mesmo para um neófito sobre o tema (como eu, por supuesto). Para alcançar oferecer ao leitor suas reflexões sobre este assunto, Koff, divide o livro, após uma curta seção de apresentação, em três capítulos de quase idêntica extensão. O primeiro capítulo trata da vida e obra de Burke e poderia, a meu juízo, ser lido de forma independente, ou melhor, acredito que o leitor interessado apenas na questão sobre o sublime e a beleza poderia ler diretamente os dois seguintes. Neste primeiro capítulo aprendemos sobre os anos de formação de Burke; seus interesses anteriores a imersão no mundo político, que se materializaram em livros sobre teoria política (A Vindication of Natural Society: or, a View of the Miseries and Evils arising to Mankind from every Species of Artificial Society, publicado em 1756) e  sobre estética (On the Sublime and Beauty, de 1757); acompanhamos as circunstâncias de sua guinada para carreira política em 1761, ainda em Dublin, e depois, quando já radicado em Londres, tornar-se secretário do Primeiro-Ministro inglês à época, Charles Watson-Wentworth, marquês de Rockingham. Após esta época, quando Burke assume completamente essa sua persona política, ele passa a escrever apenas sobre as questões políticas de seu tempo (tanto sobre as complexas e delicadas relações entre Inglaterra e suas colônias: a Irlanda, a américa colonial e continente indiano, quanto, sobretudo, produzindo sua obra Reflexões sobre a revolução na França, que é de 1790, e é onde ele antecipa os excessos que levariam a revolução francesa a seu colapso, texto pelo qual é mais conhecido e respeitado). É no segundo capítulo que Koff trata propriamente do texto de Burke que lhe interessa (On the Sublime and Beaut). Aprendemos que Burke, com este texto, participa do debate sobre estética, onde se propõe transgredir tanto a idealização ou racionalidade platônica da beleza (vista como a forma/ideia perfeita, verdadeira) quanto o conceito de "elevação da mente", de um texto sobre o sublime, escrito provavelmente no século II e atribuído a um sujeito chamado Longinus. Pois Burke sugere a necessidade de uma nova categoria para o conceito de estética, que se distingue - e transcende - o conceito de beleza, apesar de ambas terem como origem as mesmas paixões humanas. Não são questões ligeiras, que me caberia resumir aqui (não tenho formação de filósofo, já se sabe). O leitor precisa investir um certo tempo para aprender a aplicação de vários conceitos filosóficos utilizados e entender também o contexto histórico da evolução destes temas. Já no terceiro capítulo (e também em uma curta seção de considerações finais), Koff estende as reflexões do capítulo anterior, apresentando a repercussão, metamorfoses e rupturas do conceito de sublime ao longo do tempo - desde a antiguidade, passando pelo neoclassicismo, romantismo e outros ismos - até sua substituição pelo conceito de expressão, no mundo contemporâneo das artes plásticas. Koff incorpora neste capítulo e nas considerações finais breves ideias de Boileau, Locke, Doran, Hume, Kant, Schiller, Goethe, Gombrich, Norman, Paglia, Greenberg, Scruton, Kirk, Freud, Peirce, Chama e Pereira Coutinho. Fala também, ou melhor, reflete algo, sobre o papel da experiência estética (da teoria estética de Burke) em ambientes externos às artes plásticas, como na esfera política por exemplo, ou melhor, no entendimento de fenômenos sociais e políticos, onde a sabedoria, e a consciência de nossas imperfeições, derivadas do debate sobre estética, sobre a beleza e o sublime, parecem poder nos capacitar melhor para entender de fato a realidade objetiva. Nas considerações finais, Koff fala também da ascensão de Burke como eventual patrono do conservadorismo moderno. O livro inclui uma apresentação assinada por Robson Pereira Gonçalves e um texto de apoio nas orelhas e contracapa, assinado por Luiz Rohden, leitores de primeira hora. Além disto, o livro inclui duas dezenas de reproduções coloridas de pinturas. Essas reproduções dos quadros são utilizados por Koff para ilustrar como vários conceitos associados aos de Sublime e de Beleza podem ser exemplificados neles. A inserção destas imagens me incomodou um tanto. Apesar da descrição de todas elas estar incorporada ao texto de alguma forma, não resta claro se de fato, os artistas, os artífices das obras, racionalmente, conscientemente ou por leituras, conheciam e/ou entendiam tais conceitos ao expressarem-se plasticamente nelas. As paixões ou instinto dos artistas me parecem estar além de qualquer enquadramento filosófico. Mas isso pode ser um defeito de leitura meu. Paciência. Parabéns don Rogério, grande abraço, gostei de ler esse teu belo livro. Segue o baile. Vale! 
Registro #1543 (ensaios #273)
[início: 15/05/2020 - fim: 10/06/2020]
"O encantamento dos sentidos: O sublime e a beleza na teoria estética de Edmund Burke", Rogério Ferrer Koff, Santa Maria: Editora UFSM, 1a. edição (2020), brochura 14x21 cm, 176 págs. ISBN: 978-85-7391-346-0

domingo, 14 de junho de 2020

amavisse

Já contei aqui sobre o dia em que fui ao lançamento de "O caderno roda de Lori Lamby", da Hilda Hilst, porém, por arrogância ou timidez, acabei não comprando o livro naquele momento e só levando seu "Amavisse", que já tinha, para ser autografado. Trinta anos depois, nestes dias bestas, isolado em minha mansarda, recolhi vários livros que estavam perdidos nos guardados. Lembrei-me novamente da Misa, do Péricles, dos dias paulistas, daquele "mezzo del cammin di nostra vita", pois um dos livros que encontrei foi exatamente "Amavisse", que há época ela dizia ser seu último livro de poesias (felizmente ela abandonou esse projeto e publicou pelo menos três outros volumes de poesias depois, antes de morrer, em 2004). "Amavisse" enfeixa três conjuntos: Amavisse, Via espessa e Via vazia, com, respectivamente, vinte e um, dezessete e doze poemas. Num poema de apresentação ela se diz uma porca-poeta e reclama da fome de deus por desgraças, perguntando se ele já ouvira falar na palavra amor. No primeiro conjunto, Amavisse, encontramos poemas de amor, lançados ao vento por uma mulher que se escancara (a mulher-avesso) e são levados ao leitor metamorfoseados em pássaros (os pássaros-poesia). Hilda cria várias imagens realmente bonitas, faz brotar neologismos (adoro seu reverdeço e também de suas muitas palavras valise, sempre geniais), mostra sua paleta das paixões: o peito tingido de vermelho, o amor púrpura, chagado. Ao final do conjunto ela se pergunta "(...) o que há de ser da minha boca de inventos / Neste entardecer. E do outro que sai / Da garganta dos loucos, o que há de ser?". No segundo conjunto, Via espessa, um louco se apresenta, nas vestes junguianas da sombra, aquele arquétipo que representa o lado sombrio, conturbado e primitivo da personalidade dos homo sapiens, aquela parte da consciência individual que não foi exatamente assimilada e possa ser incorporada à consciência coletiva. Esse louco segue sua Samsara pessoal, suas metamorfoses, seus renascimentos, saltimbanco. No final do conjunto, acontece a fusão, entre a poeta e sua sombra: "E enfeixando energia, cintilando / Fez de nós dois um único indivíduo". O último conjunto, Via vazia, é de poemas com menos versos, comparados aos dois conjuntos anteriores. Como um animal em uma floresta primitiva a poeta reclama do pai, das vicissitudes deste mundo, acusa esse pai de já estar cumprido o fado do homem, transformado em um "(...) escuro cego raivoso animal (...)", como esse pai pretendia desde o início. Todavia, é dela, a poeta, ao final também deste terceiro conjunto, a palavra final, o controle do processo, em uma antropofagia pessoal: "O tempo não roerá o verso da minha boca. / Águas manchadas de um torpor de vinhos: / Hei de tragá-las todas. E lúbrico, descontínuo / O tempo não viverá se tocar a minha boca". Que belo livro, ao qual um sujeito precisa sim voltar de tempos em tempos, sobretudo neste, tão contaminado por desinteligência e voluntária escravidão à totalitarismos. Só coisas como o amor, os amores de Hilda Hilst, parecem ser capazes de poder nos salvar. Vale! 
Registro #1542 (poesia #130)
[início: 17/05/2020 - fim: 22/05/2020] 
"Amavisse", Hilda Hilst, São Paulo: Massao Ohno Editor, 1a. edição (1989), brochura 14x21 cm., 48 págs., sem ISBN

sábado, 13 de junho de 2020

otoño en madrid hacia 1950

Neste volume estão reunidos quatro textos de Juan Benet que foram publicados originalmente em jornais, entre 1972 e 1985. Benet foi um escritor espanhol muito respeitado que viveu entre 1927 e 1993. O leitor encontra nas narrativas algo singular, pois as memórias do autor escondem seu protagonismo, seu eu, sua vaidade. Os quatro registros se referem basicamente a experiências que se plasmaram no lustro que vai de 1945 e 1949, quando Benet tinha entre 18 e 23 anos, mas que nortearam suas escolhas, sua carreira, suas ambições. "Barojiana", publicada em 1972, trata das tertúlias que aconteciam na casa de don Pío Baroja, prolífico autor espanhol da primeira metade do século XX. Benet parte da obra de Baroja, da leitura de seus livros e de suas influências, para identificar o encantamento que sua presença provocava nos presentes. Ainda jovem, ele percebe o poder das escolhas literárias de um autor em seu entorno mundano. "Caneja, Juan Manuel" é um curto ensaio sobre um premiado e reconhecido pintor nascido em Palência, autor de impressivas paisagens da meseta castelhana, de influência cubista. Benet fala das vicissitudes pelas quais Caneja passou durante a ditadura franquista, de seu laconismo, e sentido de humor. "El Madrid de Eloy" é um ensaio que enfeixa uma miríade de reflexões sobre a Vila de Madrid, a capital do Estado Español, no início dos anos 1980. Benet fala de autores que parecem capturar algo da magia madritense, de causos, de suas viagens da juventude pela Europa, de personalidades que marcaram a ele e a cidade. "Luis Martín-Santos, um memento", oferece o que o título promete, uma registro de lembranças sobre um inteligentíssimo amigo médico e também poeta, que morreu jovem, num acidente de carro. Nas quatro narrativas Benet alcança ofuscar-se, parecer irrelevante, tornando protagonistas todos os demais, dando relevância às circunstâncias sociais, à política, aos conceitos filosóficos e considerações literárias que brotam exatamente da relação dele com os outros. Há algo de proustiano nas longas descrições, no deslocamento do tempo, no olhar fino sobre o efeito que as estações, o clima e os horários têm sobre as gentes. No último ensaio, sobretudo, afloram descrições maravilhosas da Madrid do pós guerra, nos anos 1940, daquele mundo artificial, que pouco foi afetado materialmente pela guerra, porém que viveria praticamente isolada, política e economicamente, da comunidade internacional, até a morte do ditador Franco, em meados dos anos 1970. Livro muito interessante. Preciso tomar vergonha e ler os romances de Benet que restam abandonados em meus guardados há tantos anos. Vale! 
Registro #1541 (perfis e memórias #97) 
[início: 22/05/2020 - fim: 25/05/2020] 
"Otoño en Madrid hacia 1950", Juan Benet, Barcelona: editorial Random House Mondadori (Debolsillo - Contemporánea), 1a. edição (2010), brochura 12,5x19cm., 155 págs., ISBN: 978-84-9908-169-4

quinta-feira, 11 de junho de 2020

salvajes y sentimentales

Ao tentar arrumar meus guardados, cansado, nestes dias canalhas de pandemia, eis que descubro que não havia lido ainda dois volumes de artigos de Javier Marías. Um deles é esse "Salvajes y sentimentales", onde estão reunidos 72 artigos, publicados originalmente entre 1992 e 2010. A bem da verdade eu já havia lido boa parte deles, quando enfeixados nos volumes em que Marías reúne suas contribuições em jornal a cada dois anos (clika!: Javier Marías). Todavia, neste volume em especial há vários textos que foram produzidos por encomenda, para livros que rendiam homenagem à efemérides do Real Madrid ou do Barcelona, e também escritos para encartes especiais dedicados a cobertura da Copa do Mundo de futebol de 1994. Como tudo que Javier Marías produz os artigos são exemplares, tanto pela técnica literária e argumentativa quanto por conta dos efeitos que provoca no leitor, convidando-o a refletir sobre uma miríade de assuntos. Bom observador e juiz de caráter, Marías sabe destacar nos artigos a dimensão dramática do jogo ("En este juego, si no hay drama no hay nada"); as infinitas possibilidades de interpretação da qualidade e/ou resultado de uma partida ("Como con las traducciones, uno se pregunta cómo una partida puede ser tan distinta según el intérprete, y sin embargo la misma"); o impacto social do jogo ("Ser aficionado al fútbol y a algun que otro deporte no me impide darme conta del carácter enfermizo y perverso que afecta y rige a ese mundo, que tal vez refleja mejor que ningún otro el descabezado espíritu competitivo que domina cada vez más nuestras sociedades"); o porco papel dos dirigentes esportivos ("Si para seguir el fútbol hay que ver a menudo a estos sujetos broncos, será cuestión de ir pensando en quitarse"); a nefasta ligação entre políticos e futebol, quase uma usurpação (canalhas como Havelange, Blatter, Berlusconi e tantos outros são vergastados sem dó); as sadias provocações cruzadas com outros aficionados (Juan García Hortelano, inolvidable colchonero; Manuel Vázquez Montalbán, culé de leyenda);  a ligação do esporte com a euforia e alegrias da infância; o fato das alegrias e vitórias passadas não poderem mitigar a angústia das derrotas de hoje, do presente. De tempos em tempos, rende homenagens a seu santo particular, o argentino Alfredo Di Stéfano, que jogou no Real Madrid, entre 1953 e 1964. A seleção e edição dos artigos foi feita por Paul Ingendaay, um jornalista alemão. Foram publicados neste formato primeiro na Alemanha, país onde os livros de Marías são muito apreciados, para depois ganharem edição na Espanha. Livro bacana, mesmo para um sujeito quase avesso ao futebol, como eu. Vale! 
Registro #1540 (crônicas e ensaios #272) 
[início: 26/05/2020 - fim: 31/05/2020]
"Salvajes y sentimentales: Letras de fútbol", Javier Marías, Madrid: Alfaguara (Grupo Santillana de ediciones / Penguin Random House Grupo Editorial), 1a. edição (2010), brochura 15x24 cm, 317 págs. ISBN: 978-84-204-0536-0

terça-feira, 9 de junho de 2020

habitante irreal

Já registrei aqui, do inquieto escritor Paulo Scott, algo sobre três de seus romances ("Ithaca Road", "O ano em que vivi de literatura" e "Marrom e amarelo") e dois de seus conjuntos de poemas ("Garopaba, Monstro, Tubarão" e "A timidez do monstro"). Trata-se de um autor que experimenta bastante, tanto com a linguagem quanto com os temas. É um autor que não aposta, até onde sou capaz de entender, em fórmulas fáceis ou segue caminhos literários confortáveis. "Habitante irreal" foi publicado originalmente há quase dez anos, em 2011. Começa em 1989 e segue até quase o final da segunda metade da primeira década dos anos 2000. Há um detalhe na narrativa que me faz imaginar que tudo se passa mesmo em uma única noite turbulenta e de sonho, mas isso cada leitor é quem deve conferir. Acompanhamos os destinos de três protagonistas: Paulo, um sujeito patético, que se deixa desgraçar pela vida, por ser incapaz de pensar nos desdobramentos de seus atos; Maína, uma jovem indígena, do povo Kaingang, que vive o mesmo destino que quase todos os indígenas deste desgraçado país experimentam; e Donato, filho de Maína, um jovem que pelo azar do destino e da vida, como sempre acontece, o faz consumir sua psique e tolerância para alcançar sobreviver aos atos de terceiros, atos terríveis, muito além de seu controle e até mesmo compreensão. A narrativa enfeixa muitos temas, talvez mais temas que um autor menos corajoso, ou menos senhor de sua capacidade criativa, fosse capaz de equilibrar ao longo de todo o romance. O volume é dividido em quatro capítulos. Os dois primeiros correspondem ao encontro - e aos efeitos do encontro - entre Paulo e Maíra. O terceiro descreve a educação sentimental de Donato. O quarto e último tratam do resultado de um quase experimento antropológico, perpetrado por Luísa e Henrique, os pais adotivos de Donato. Trata-se de um romance em que brotam reflexões e ecos factuais de importantes questões brasileiras contemporâneas: a ascensão e morte do projeto esquerdista de poder, o aborto, o genocídio indígena, o incesto, a judicialização do cotidiano das gentes, o suicídio, a questão fundiária, a fuga hedonista, o tardio iluminismo brasileiro (se é que se pode falar em iluminismo neste país), a migração de legiões de brasileiros para outros países. Enfim, um panorama cirúrgico do Brasil. Há um faceta freudiana também, uma necessidade de matar um pai que não merece nem mesmo a morte. Paulo Scott alcança oferecer ao leitor um portento, uma miríade de questionamentos sobre nossa particular condição de brasileiros, que oscilamos entre a cumplicidade com crimes imprescritíveis e a sensação de fracasso pessoal, de uma culpa repartida.  Bueno. Há livros que esperam seus leitores nascer (ou a apanharem um bom tanto da vida, antes de serem capazes de absorver as reflexões neles contidas). Obviamente não posso dizer nada sobre qual seria o  impacto de ter lido esse livro em 2011, mas lendo-o agora, imagino que pouco importa, pois ainda há legiões de viventes deste país que ainda não acompanharão - hoje, já início da segunda década do século XXI, às provocações e encantamentos que ele oferece. Belo livro. Vale! 
Registro #1539 (romance #384) 
[início: 25/05/2020 - fim: 26/05/2020] 
"Habitante irreal", Paulo Scott, Rio de Janeiro: editora Objetiva / Selo Alfaguara (Grupo Prisa), 1a. edição (2011), brochura 15x23 cm., 262 págs., ISBN: 978-85-7962-107-9

sábado, 6 de junho de 2020

nuestros comienzos en la vida

"Nuestros comienzos en la vida" é uma peça, um drama em um ato, que se lê em voz alta em pouco menos de duas horas. Foi publicada simultaneamente ao romance "Recuerdos durmientes" em 2017, três anos após ele ter recebido o prêmio Nobel de literatura. Trata-se de um jogo de espelhos, pois o drama que lemos se passa no camarim e no palco de um teatro, onde se encena "A gaivota", famosa peça de Anton Tchekhov. Jean é um jovem que tem a ambição de tornar-se escritor, mas experimenta censura da mãe, uma atriz medíocre, e o atual marido dela, um jornalista arrogante, que imagina poder controlar o destino do rapaz. Jean está enamorado de Dominique, uma jovem atriz que teve a sorte de ser escolhida para o papel de Nina Zarêtchnaia, protagonista da peça de Tchekhov, o que aparentemente lhe garantirá um futuro respeitável. Assim como em Tchekhov os conflitos do jovem escritor dominam as cenas da peça, evidenciando várias questões do tempo francês em que se passa a peça (meados dos anos 1960), sobretudo a opressão de sua mãe e os fracassos dela que o assombram, assim como as relações abusivas entre homens e mulheres. Ao mesmo tempo Jean tem medo que sua Dominique emule tão completamente sua personagem Nina que o abandone, como se dá na peça de Tchekhov. A peça de Modiano oferece ao leitor vários planos temporais, várias situações que contrastam os sonhos da juventude com a experiência daqueles que conhecem todo seu passado, fala das metamorfoses pelas quais todos passamos com o tempo, em nosso corpo e em nossas ideias. Diferentemente de como se dá na vida, na realidade, vários destinos se superpõe na peça, e não saberemos exatamente o que acontece de fato com o casal Jean/Dominique. Muito interessante, uma aula de dramaturgia, uma festa para os sentidos. Lembrei muito de "A outra/Another Woman", filme de Woody Allen que adoro e revejo sempre que posso. Sim. Vale sempre a pena ler Patrick Modiano. Vale! 
Registro #1538 (drama #20) 
[início - fim: 20/05/2020]
"Nuestros comienzos en la vida", Patrick Modiano, tradução de María Teresa Gallego Urrutia, Barcelona: editorial Anagrama (Panorama de Narrativas #983), 1a. edição (2018), brochura 14x22 cm., 109 págs., ISBN: 978-84-339-8013-7 [edição original: Nos débuts dans la vie (Paris: éditions Gallimard) 2017]

quarta-feira, 3 de junho de 2020

amazona

Esse foi o livro mais divertido que li neste ano. Ao mesmo tempo é dos livros mais transgressores e potentes que li, tanto pela fina percepção da realidade brasileira quanto pela capacidade de denúncia de nossas contínuas e voluntárias mazelas. "Amazona", de Sérgio Sant'Anna, foi publicado originalmente em 1986, no início daquele torto interregno entre o último presidente do período ditatorial, João Figueiredo, a patética posse de José Sarney no lugar do morto eleito indiretamente, Tancredo Neves, a constituinte de 1988, as eleições diretas de 1989 e a posse de Fernando Collor. Trata-se de um folhetim sofisticado, a história de uma mulher chamada Dionísia, que por um lance do destino sai de sua Niterói fundamental e da condição suburbana de mulher de um bancário carreirista, segundo ou terceiro escalão de um banco carioca ligado ao regime militar, para tornar-se candidata às eleições para a Assembleia Constituinte e eventualmente candidata presidencial em 1988, parte de um ufano projeto proto anarquista de construção de um Brasil mais democrático. O livro é povoado por personagens interessantes, todos eles que podem ser identificados com arquétipos da brasilidade: o puxa-saco, o corrupto, o venal, o falso intelectual, o fascista, o mentiroso, o machista, o conservador, o assassino, o torturador, o arrivista, o drogadito, o sujeito de classe média enfastiado, o beato, o hedonista, o sádico, o elitista, o falso esclarecido, o hippongo eterno, o idiota fundamental, o patético sonhador esquerdista, o sáfico, o escravo mental, e tantos outros, que só aqui são levados a sério (ou tolerados, aceitos - por conta das categorias politicamente corretas). As mulheres de Sant'Anna são perspicazes, inteligentes; os homens são ridículos, tontos. Vários truques que lembram os livros do Machado de Assis prendem o leitor à narrativa. O desejo, a morte, os jogos literários povoam o volume. Fazia um tempão que não lia um livro com tantas boas descrições de trepadas, gozos, fodas, transas, cópulas, todas elas sem culpa, naturais, integradas ao texto da melhor forma possível. Gostei muito. Minha primeira impressão foi a de inveja de quem leu esse livro em 1986. Afinal, toda a materialidade das desgraças brasileiras dos anos 1980 em diante está nele contida, escrachada, debochada, denunciada, achincalhada como sempre deve ser, "avant la lettre". Erza Pound sempre esteve certo quando disse que os verdadeiros artistas são antenas da raça, antecipam os desenvolvimentos da sociedade, como um sistema de alarme, que - como sempre acontece no Brasil - ignoramos solenemente, incapacitados que somos a enfrentar nossos fantasmas. Bueno. Livro bom prá caralho. Recomendo. Grande Sant'Anna. Vale! 
Registro #1537 (romance #383) 
[início: 14/05/2020 - fim: 17/05/2020]
"Amazona", Sérgio Sant'Anna, São Paulo: editora Schwarcz (Companhia das Letras / Penguin Random House), 2a. edição (2019), brochura 14x21 cm., 302 págs., ISBN: 978-85-359-3274-4

segunda-feira, 1 de junho de 2020

las joyas del paraíso

Publicado em 2012, "Las joyas del Paraíso" é um dos raros livros de Donna Leon que não faz parte da série de volumes que têm como protagonista o comissário Guido Brunetti. O cenário continua sendo sua Venezia fundamental, mas este romance (histórico, talvez?) trata de questões musicais, sobretudo ópera do período barroco, de história das religiões e da geopolítica europeia dos séculos XVII e XVIII. Encontramos novamente suas costumeiras vergastadas no modo de vida italiano, pois Donna Leon faz seus personagens rirem da burocracia, leniência com a corrupção e a mentira, avarícia e cupidez, xenofobia entranhada e hábitos condenáveis do cotidiano daquele povo. Sarcasmo total. A história que ela oferece ao leitor envolve descobrir (o tom é detetivesco, como nos volumes do ciclo brunettiano) um provável tesouro relacionado ao conteúdo de dois baús que teriam pertencido a Agostino Steffani, um compositor, diplomata e bispo católico, de origem veneziana, que viveu entre 1654 e 1728. Nos dias em que estive a ler esse volume ouvi muito Steffani, principalmente suas obras mais conhecidas e respeitadas: Stabat Mater (com a notável Cecilia Bartoli) e Niobe, rainha de Tebas. A protagonista de Donna Leon é uma jovem especialista em música em cuja carreira acadêmica levou-a a estudar e viver em várias cidades da Europa. No início da trama Caterina Pellegrini é contratada para voltar a sua cidade natal, Veneza, e certificar documentos relacionados à Steffani contidos em dois baús lacrados. No desenrolar da história o leitor é apresentado a um rumoroso caso de infidelidade conjugal, associado à ascensão da casa de Hanover, na figura do rei Jorge I, como casa regente da Grã-Bretanha, em 1714. É um livro para melômanos. Aprende-se um bocado sobre música, composição, biblioteconomia, arquivos, política europeia do século XVIII. Todavia, como em todo romance (policial, talvez?) a narrativa toda reduz-se a descobrir a existência ou não de um tesouro, de um prêmio que recompense a diligência de uma pessoa muito capaz. Divertido. Mas vamos em frente. Vale! 
Registro #1536 (romance #382) 
[início: 27/04/2020 - fim: 28/04/2020]
"Las joyas del Paraíso", Donna Leon, tradução de Maia Figueroa Evans, Barcelona: Seix Barral / Biblioteca Formentor #2597 (Editora Planeta S.A.), 1a. edição (2014), brochura 13,5x23 cm., 316 págs., ISBN: 978-84-322-2397-6 [edicão original: The Jewels of Paradise (Zürich: Diogenes Verlag AG) 2012]

sábado, 30 de maio de 2020

rapaz com cicatriz

Do Escobar Nogueira já registrei aqui três bons volumes de poesias: Curta-metragem (2006), Pejuçara (2009) e Borges vai ao cinema com Maria Kodama (2015). "Rapaz com cicatriz" é sua publicação mais recente. São 42 poemas divididos em três conjuntos. São propostas curtas, que quase sempre capturam uma experiência, um momento que se esvai, uma conversa entre um poeta e suas encarnações antigas, ainda não exatamente poéticas, mas que já tinham tino de grafar no corpo as cousas da vida, que são agora são por ele recolhidas. No primeiro dos conjuntos, Rapaz com cicatriz, o poeta fala de uma infância remota, da escola e da família, de histórias em quadrinhos e de planos ou sonhos de um futuro. No segundo conjunto, "O livro caixa de Ramilo Rocha", bipartido entre dois subconjuntos, primeiro o narrador faz um censo sentimental de seus amores, talvez apenas imaginados, sublimados, depois explicita a experiência igualmente  bruta e doce que é a do sexo, pago em dinheiro ou em dores. O último conjunto, "Máquina lírica", já é a do poeta precursor de si mesmo, em seu tempo, que viaja, vence o cotidiano, lê, amarga a vida, olha para o passado sem pressa, sem culpa, sem temor. Poemas bem burilados, de um bom leitor e artífice. Evoé Escobar, evoé. Vale! 
Registro #1535 (poesias #129) 
[início: 06/05/2020 - fim: 08/05/2020]
"Rapaz com cicatriz", Escobar Nogueira, Porto Alegre: Artes & Ecos, 1a. edição (2020), brochura 14x21 cm., 72 págs., ISBN: 978-85-93459-27-6

quinta-feira, 28 de maio de 2020

sardenha como uma infância

Esse pequeno livro conduz o leitor para uma viagem de sonho, compartilha conosco impressões e reflexões ricas, nos convida à liberdade, à vida. Todavia o autor implicitamente nos faz lembrar que nenhuma experiência é verdadeiramente partilhável, que apenas cada um de nós, a cada vez, a cada tempo, é capaz de aceitar - ou não - passar por uma educação sentimental autêntica, deixar-se viajar sem medo, bem observar, interagir dignamente com o novo, com aquilo que inexiste em nosso cotidiano. Elio Vittorini, escritor, crítico e tradutor italiano, viveu na primeira metade do século XX. Foi também um ativista, um militante antifascista, mas é realmente respeitado pelas inovações formais que introduziu na literatura italiana de seu tempo. "Sardenha como uma infância" é um relato de viagens, porém, é também uma narrativa muito inventiva, que ecoa uma visão de mundo entre sofisticada e ingênua: o desejo de que a felicidade não seja um período de férias entre privações e sofrimentos do cotidiano, antes sim a condição natural de todos os homo sapiens. Publicado em 1932, em uma revista literária de Florença, o texto original concorreu a um prêmio de melhor relato de viagens à Sardenha (Vittorini dividiu o prêmio com um sujeito chamado Virgilio Lilli). Um grupo de jovens (Vittorini nasceu em 1908) é levado à Sardenha por algumas semanas. Quase todos são jornalistas, que viajam em grupo, usando todos os meios de transporte disponíveis na ilha, hospedando-se ao azar das circunstâncias, sem culpa ou itinerário. A maioria das cidades da ilha são visitadas. São cidades antiquíssimas, criadas pelos povos da cultura Nurágica (os sardos originais do período neolítico, descendentes de fenícios, de egípcios, de turcos?, ninguém sabe ao certo), e mil vezes dominadas por gregos, cartagineses, romanos, sarracenos, catalães, franceses. O grupo consegue lugar em um navio de cabotagem e faz também a circum-navegação da ilha, parando em cada cidade portuária, sem pressa, ao sabor dos ventos e das marés. Vittorini produz 43 curtos relatos, onde natureza em sua potência e os vestígios da passagem dos homens são contrastados. Alguns parecem contos, invenções, já outros são instantâneos de uma descoberta, de uma reflexão, de um aprendizado. O livro inclui também um poema intitulado "Nei morlacchi", um louvor a um povo/grupo étnico dos Bálcãs (os Morlacchi), que lembra o "Del Natural", de W.G. Sebald. Esse volume faz parte de uma coleção da Cosac Naify que inclui pequenas narrativas de viagens de Jean-Paul Sartre, Joseph Brodsky, Le Corbusier e Elias Canetti. Segue o baile. Vale! 
Registro #1534 (perfis e memórias #96) 
[início: 06/04/2020 - fim: 08/05/2020]
"Sardenha como uma infância", Elio Vittorini, tradução de Maurício Santana Dias, São Paulo: editora Cosac Naify (Coleção Companheiro de viagem), 1a. edição (2011), brochura 15,5x19 cm., 128 págs., ISBN: 978-85-7503-964-9 [edição original: Sardegna como un'infanzia / Viaggio in Sardegna (Florença: L'Italia Letteraria) 1932]

segunda-feira, 25 de maio de 2020

en el nombre del hijo

"En el nombre del hijo" é a vigésima oitava aventura de Guido Brunetti, comissário da polícia veneziana, genial invenção de Donna Leon. Neste episódio não há muita movimentação, correrias, surpresas, mudanças súbitas. De certa maneira o leitor já imagina, ao fim das primeiras páginas e em também em função do título do livro, qual é o desdobramento natural da trama. Mas isso não significa que seja um livro monótono. Antes o contrário. Donna Leon povoa sua narrativa com diálogos muito interessantes, exemplos notáveis de como incorporar em um romance informações muito variadas, sobre arte, cultura clássica, a história de Veneza e do mundo contemporâneo, contrastando-as. Esses diálogos magistrais também são exercícios de mundanidade e de boa educação, mostram pessoas que sabem expressar seus sentimentos de forma ora precisa ora elíptica, dependendo do que for mais conveniente, prático, necessário. Brunetti, instigado por seu sogro, o conte Orazio Falier, se envolve em uma questão moral, que implica em julgar a decisão de um velho amigo de ambos, um sujeito nascido na Espanha, muito rico e muito respeitado no mundo das artes plásticas, Gonzalo Rodríguez de Tejada. Donna Leon oferece sua costumeira cota de descrições dos encontros gastronômicos da família Brunetti, sempre um festival para os sentidos, assim como da forma como Brunetti interage com sua cidade, sempre em mutação. Ela fala da importância dos encontros familiares, do prazer em ler os clássicos gregos e romanos, da inevitabilidade do acaso. Descobri lendo esse volume que Donna Leon, após mais de trinta anos vivendo em Veneza, passou a residir na Suiça. Assim como seu protagonista, a autora parece ter se cansado definitivamente dos turistas, da degradação nos costumes, da inexorável passagem do tempo. Segue o baile. Vale! 
Registro #1533 (romance policial #95) 
[início: 21/03/2020 - fim: 22/03/2020]
"En el nombre del hijo", Donna Leon, tradução de Maia Figueroa Evans, Barcelona: Seix Barral / Biblioteca Formentor (Editora Planeta S.A.), 1a. edição (2019), brochura 13,5x23 cm., 310 págs., ISBN: 978-84-322-3481-1 [edicão original: Unto Us a Son is Given (Zürich: Diogenes Verlag AG) 2019]

sábado, 23 de maio de 2020

a guerra das salamandras

Karel Čapekfoi um escritor tcheco, que viveu entre 1890 e 1938. É reputado a ele o neologismo "robot", para identificar a máquina/equipamento que realiza trabalhos de forma autônoma, por programação prévia. Esse seu curioso "A guerra das salamandras" foi publicado originalmente em 1936. Trata-se de um romance que pode ser lido como uma alegoria fantástica, uma fábula moral e também como uma elaborada denúncia. Um capitão de origem tcheca, chamado J. van Toch, navegando pelo Oceano Índico, toma ciência da existência de uma espécie de salamandras invulgarmente inteligentes. Em um primeiro momento ele as domestica para sua vantagem pessoal, privada, utilizando-as como habilidosas pescadoras de pérolas. De volta à Europa este capitão convence um seu compatriota, chamado G.H. Bondy, a investir na criação das salamandras em larga escala, fato que acaba acontecendo. Em função de sua exuberante cognição e capacidade de evolução, em pouco tempo milhões de salamandras passam a ser utilizadas em todos os lugares do planeta como mão de obra escrava, trabalhando em uma miríade de projetos, em regiões submarinas e costeiras, usualmente inóspitas para os homo sapiens. Entre a completa escravidão e a auto-organização, com variados graus de independência, poucas décadas decorrem, culminando em uma fatal declaração de guerra das salamandras, dirigida à todas as nações do planeta, em busca de mais territórios submarinos para sua procriação e autogestão. A guerra propriamente dita é descrita em uns poucos capítulos no final do livro e não serei eu quem roubará do leitor o prazer de conhecer seu desfecho (que tem algo de Vico, de bíblico, acho eu). O que realmente importa no romance são as longas descrições de como os europeus alcançaram submeter as salamandras à escravidão. O tom sempre é irônico, satírico. Ademais, o fato de tratarem-se de salamandras (e não de homo sapiens) faz com que o leitor aceite com bom humor toda a narrativa. Todavia, o que Čapek faz é ilustrar como todo o período colonial e a construção da civilização industrial na Europa fez-se sobre os cadáveres de milhões de indivíduos, de milhares de culturas e povos. Na narrativa de Čapek não há mocinhos. Todos as ideologias políticas do século XX são igualmente daninhas, incompatíveis com o bem comum de todas as espécies e povos do planeta, pouco importa se apresentam-se sob os véus de liberalismo, socialismo, anarquismo, corporativismo, marxismo, comunismo, social-democracia, conservadorismo, nacionalismo, fascismo ou o diabo à quatro. Pouco importa se utilizamos os olhos da literatura, seja literatura fantástica, ficção científica ou contos de fadas, pouco importa se utilizamos as ferramentas da filosofia, sociologia ou antropologia, o homo sapiens não vale mesmo nem um tostão de mel coado. Maldita gente má. Vale! 
Registro #1532 (romance #381) 
[início: 07/05/2020 - fim: 09/05/2020]
"A guerra das salamandras", Karel Čapek, tradução de Luís Carlos Cabral, Rio de Janeiro: Editora Record, 1a. edição (2011), brochura 14x21cm, 334 pág. ISBN: 978-85-01-08053-0 [edição original: Válka s mloky (Praga: Frantisek Borový) 1936]

quarta-feira, 20 de maio de 2020

anjo noturno

Há poucos dias morreu Sérgio Sant'Anna, escritor carioca bastante premiado e respeitado. A comoção nas redes sociais foi geral. Muitos amigos queridos publicaram registros necrológicos dele, reputando-o como um dos maiores escritores brasileiros de sua geração. Pois eu, sempre vaidoso em dizer que já li de tudo e mais um pouco, dei-me conta que nunca li Sérgio Sant'Anna, nada mesmo, ai de mim (a vaidade é o mais tolo dos vícios). Procurei nos guardados e garimpei alguns livros dele (sou um fiel discípulo de Richard de Bury e em casa guardo mais livros que viverei para um dia ler, ou tampouco reler, paciência). Resolvi ler o primeiro deles que encontrei, "Anjo noturno", publicado em 2017. São nove narrativas, realmente muito interessantes. As duas primeiras, "Augusta" e "Um conto límpido e obscuro", são contos curtos, que exploram estágios opostos da cumplicidade e tensão sexual que sempre existe entre homens e mulheres, no segundo a de quem se conhece muito bem e sublima o sexo, enquanto no primeiro a do casal que mal se conhece mas percebe a mútua atração de seus corpos. "Talk show" é uma divertida confissão de um sujeito que cai na armadilha da necessidade e comparece a um grotesco programa de entrevistas. Os dois seguintes, "A mãe" e "A rua e a casa", são distintos na forma (cabe dizer que todos os contos/narrativas deste volume são bem inventivos e diferentes entre si), porém parecem tratar de um mesmo sujeito em duas situações distintas: primeiro conta o que sabe sobre sua mãe e termina fazendo o censo das mortes de sua família, no segundo conta o cotidiano carioca dos anos 1940/50 (num feliz experimento de construção de uma narrativa em segunda pessoa). "Amigos" é um resumo sentimental de um Brasil que faliu em sua potência (como todos os brasis passados e futuros faliram e falirão inapelavelmente), aquele Brasil do período que vai da segunda eleição de Getúlio Vargas para a presidência e o golpe de 1968 dentro do golpe militar de 1964. "História de um pensamento" é uma epifania, a tentativa de explicar a fugacidade de um pensamento que se desprende de um corpo. "Uma peça sem nome" é um drama é cinco atos curtos, que lembra a ambientação de "A comilança", aquele filme de Marco Ferreri, dos anos 1970, em que se satiriza uma sociedade decadente (não consigo imaginar uma cidade brasileira prestar-se a isso tão bem quanto o Rio de Janeiro contemporâneo). A última das nove narrativas é "O conto fracassado", uma exuberante demonstração de como se dá o processo criativo, a construção ficcional, o ofício do escritor, no qual o autor parece retomar vários dos temas explorados nas oito histórias anteriores, como se fossem escolhos em um rio que se cruzou. Enfim, Sérgio Sant'Anna nos ensina, neste pequeno e potente livro, que não há assunto ou conceito que não possa ser plasmado em prosa, desde que o autor tenha destreza e tino adequados. Haverá mais Sant'Anna por aqui. Vale! 
Registro #1531 (contos #177) 
[início: 10/05/2020 - fim: 14/05/2020]
"Anjo noturno: narrativas", Sérgio Sant'Anna, São Paulo: editora Schwarcz (Companhia das Letras / Penguin Random House), 1a. edição (2017), brochura 14x21 cm., 176 págs., ISBN: 978-85-359-2972-0