domingo, 20 de setembro de 2020

à espera dos bárbaros

Noutro dia o Robson Greystoke avisou-me do lançamento de "Waiting for the Barbarians", filme estrelado pelo Johnny Depp e baseado num livro do J.M. Coetzee, prêmio Nobel de literatura de 2003. Eu disse a ele que havia lido o livro há décadas e que era bom. Fui aos guardados e resolvi reler. Coetzee publicou-o originalmente em 1980. O título remete a um famoso poema de Kaváfis. A trama envolve a incompreensão entre os povos, a inexorável passagem do tempo, sobre o quão rude, perverso e mau pode um homo sapiens ser, sobre quanta dor e perdas uma pessoa pode suportar. Em uma fortificação remota, na fronteira quase irreal de um império não nominado, um velho magistrado narra os sucessos da chegada de um destacamento vindo da capital imperial, para os preparativos de uma guerra contra os bárbaros do país vizinho. O magistrado sabe que os tais bárbaros não existem, pois o povo dali é formado apenas por pescadores, pobres agricultores, nômades do deserto, vendedores de artesanato. Seu passatempo é reunir fragmentos de uma antiga civilização que existiu naquela região, vestígios de uma cultura sofisticada e rica, mas que agora é incompreensível. O coronel que lidera o destacamento imperial é um sujeito taciturno, obcecado por cumprir suas ordens, capaz de mandar torturar e matar sem culpa. O jovem oficial que o acompanha, igualmente cruel, sonha antecipadamente com a glória de conquistas que jamais se materializarão. Coetzee descreve a degradação física e moral destes três personagens, que se dá de diferentes formas. Ele contrasta a desonra destes três homens com a de uma garota, presa pelo Coronel imperial em sua primeira incursão ao país dos bárbaros e que pouco compreende a espiral de tragédias na qual vê-se envolvida. A tensão sexual entre ela e o velho magistrado é apenas outra forma alegórica de Coetzee descrever a cumplicidade, mesmo inconsciente, que têm todos aqueles que servem um governo despótico, um sistema judicial corrompido, uma sociedade indecente. O magistrado recupera algo de sua humanidade (no processo em que perde todo seu poder, respeito e amor-próprio), mas a destruição e mortes provocadas pelo império decadente naquela remota colônia permanecerá para sempre (assim como a da antiga civilização sobre a qual o forte foi construído). Coetzee sempre alcança nos ensinar o quão pouco vale a vida de um ser humano, o quão inútil é a presença do homo sapiens neste planeta. Belo livro. Vale!
Registro #1570 (romance #387) 
[início: 20/06/2020 - fim: 28/06/2020]
"À espera dos bárbaros", J.M. Coetzee, tradução de Luiz Antônio Oliveira de Araújo, São Paulo: Editora Best Seller, 1a. edição (1989), brochura 14x21 cm., 191 págs., ISBN: 85-7123-097-8 [edição original: Waiting for the Barbarians (Londres: Secker & Warburg) 1980]

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

tirar del hilo

O grande Andrea Camilleri morreu em 2019. Como só leio as traduções espanholas e não os originais italianos tenho pelo menos seis livros dele para ler. Dentre estes seis estão o famoso "Riccardino", último volume da série de aventuras do Comissário Montalbano, escrito em 2006, porém programado para ser publicado após sua morte (na verdade os editores italianos publicaram duas versões do Riccardino, pois Camilleri não ficaria 13 anos sem mexer naqueles originais, claro). "Tirar del hilo" foi publicado originalmente em 2016. Camilleri afirma nas notas do final que esse volume recebeu contribuições criativas de Valentina Alferj, pois neste período a cegueira já havia limitado suas ações. A trama não é simples e é deliciosa de se ler. Montalbano, envolvido com a recepção de barcos de refugiados que continuamente chegam ao sul italiano, precisa investigar a morte de uma estilista. Como sempre nas novelas policiais de Camilleri, duas questões sociais e/ou políticas, bem distintas, ocupam a mente do investigador, que acaba encontrando, ao associá-las, a chave da solução de ambas. A questão do excesso de imigrantes/refugiados bem sabe-se que jamais terá solução, enquanto houver desigualdade no mundo e regimes ditatoriais os expulsando de suas casas. Camilleri fala de xenofobismo, da capacidade de amar, da mentira, da hipocrisia. Suas reflexões quase ficam anacrônicas em um romance policial canônico, mas para o leitor tudo é deleite. O título denuncia um eco grego e óbvio, a ideia de um fio - de Ariadne - que levará o heroi (Teseu) a salvar-se do labirinto de Minos. Montalbano, o Teseu moderno, encontra a solução com ajuda de sonhos e uma ariadniana gata (e mais ou menos a abandonará - como Teseu - após sua função, sem maiores problemas). Belo livro. Vamos a ver quando os demais volumes de Camilleri irão aparecer em espanhol. Vamos em frente. Vale!
Registro #1569 (romance policial #97)
[início: 28/07/2020 - fim: 31/07/2019]
"Tirar del hilo", Andrea Camilleri, tradução de Carlos Mayor, Barcelona: publicaciones y ediciones Salamandra, 1a. edição (2020), brochura 14x21 cm., 265 págs., ISBN: 978-84-9838-992-0 [edição original: L'altro capo del filo (Palermo: Sellerio editore) 2016]

terça-feira, 15 de setembro de 2020

assombro zen

Marco Aurélio de Souza apresenta neste pequeno volume 38 poemas curtos. Não são exatamente haikus (ou anti-haikus), mas flertam com a estrutura de três versos em uma única estrofe. Nos poemas encontramos a justaposição de imagens e ideias dos haikus tradicionais, mas o mundo imagético de Marcos Aurélio não é aquele idílico, da natureza, do mundo flutuante japonês, antes sim do mundo rude, sujo e barulhento, citadino, contemporâneo, repleto de misérias e cruel, bem nosso, brasileiro (essa proposta estética já se encontrava em seu volume de contos: "Os touros de Basã"). Vamos a ver o que esse jovem paranaense vai inventar no futuro. Deixo aqui uma de suas propostas: "No centro velho a cidade saciada / Regurgita seu fastio / Pipocam putas pelos bares de biombo". Segue o baile. Vamos em frente. Vale!
Registro #1568 (poesia #133)
[início - fim: 07/06/2019]
"Assombro Zen, Marco Aurélio de Souza, Curitiba: Kotter Editorial, 1a. edição (2020), brochura 13x18,5 cm, 88 págs., ISBN: 978-65-80103-87-4

domingo, 13 de setembro de 2020

ricardo aleixo

A coleção "Encontros"  da editora Azougue reúne entrevistas com músicos, filósofos, arquitetos, dramaturgos, poetas e tantos outros artífices do pensamento, brasileiros e latino-americanos. Neste volume, lançado em 2017, encontramos dezenove entrevistas e/ou depoimentos de Ricardo Aleixo, premiado e respeitado poeta mineiro, lá das terras altas do Campo Alegre de sua Belo Horizonte fundamental. As fontes deste material são variadas: nove entrevistas haviam sido publicadas em jornais ou revistas, cinco foram transmitidas originalmente pela televisão, uma pelo rádio e três em meios digitais. Uma última foi gravada pela organizadora da coleção, Telma Scherer, após uma das performances de Aleixo. A mais antiga é de 1996 e a mais recente é de 2014. Como é natural neste tipo de registro, de linguagem informal e que gravita o momento específico da conversa, em algumas encontramos ênfase na história pessoal e influências na formação, noutras é do projeto estético e das técnicas que se fala. Todavia, apesar de temporalmente afastadas por quase duas décadas observa-se notável uniformidade nelas, além de complementaridade, pois a cada entrevista ou depoimento o leitor tem a chance de rever uma ideia, conferir o acerto dos caminhos antes projetados, relembrar um dado biográfico. Enfim, o volume é um fértil depósito de informações que progressivamente se somam. John Cage, ora silente, ora tonante, paira sobre as dezenove entrevistas, soberano, mas Aleixo também rende homenagens às suas, digamos assim, Musas poéticas, que são os laços familiares, Augusto de Campos, Hélio Oiticica, Lygia Pape e Décio Pignatari, Exu e seus caminhos, o futebol e a música, a ideia e os atos de liberdade, a oralidade. A entrevista que mais gostei é de 2010, foi provocada por Fernando Pérez e Guilherme Ribeiro e publicada em uma revista universitária chilena (clika aqui e lê). Entretanto, como já registrei acima, todas elas são muito boas. Nada supera a leitura de uma obra (e no caso do Aleixo, também a fruição ao vivo de seus atos performáticos, seus cantares poéticos), mas neste volume o leitor tem a chance de aprender algo sobre a formação, processo de criação e estímulos intelectuais de um grande artista brasileiro. Segue o baile. Vamos em frente. Vale!
Registro #1567 (perfis e relatos #101)
[início: 07/10/2019 - fim: 20/09/2020]
"Ricardo Aleixo: encontros", Ricardo Aleixo, Telma Scherer (organização), Rio de Janeiro: Azougue (Coleção Encontros: a arte da entrevista, #54), 1a. edição (2017), brochura 14x28 cm, 248 págs., ISBN: 978-85-79202-16-2

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

los emplazados

Nos idos de março, quando subi para as terras altas de Itaara, em meu isolamento por conta da pandemia, levei um bom estoque de livros. Achei adequado levar alguns de Elías Canetti, sujeito que entendia muito sobre a morte. Pois fiz bem. Alternando Canetti com outros livros e divertimentos alcancei não deixar-me derrotar pela solidão, frio ou medo da morte. Reli as três peças reunidas neste volume: La boda, La comedia de la vanidad e Los emplazados. Como cada uma envolve reflexões muito especiais, farei registros separados delas. "Los emplazados" é de 1964. O título original é Die Befristeten, que dá a ideia de limitação, de algo temporário. Em espanhol se dá a ideia de "colocados", colocar alguma coisa em seu lugar, ou de convocar oficialmente alguém, na tradução inglesa (The Numbered), se enfatiza algo particular da peça, o fato de todos os personagens serem identificados por números, e a tradução publicada no Brasil (Os que Têm a Hora Marcada) talvez se associe mais precisamente ao título original. Bueno. Li essa peça pela primeira vez em 1983, na mesma época em que li "Auto de Fé", o romance fundamental de Canetti. Esta curiosa peça parte de uma situação absurda, distópica, para provocar no leitor/espectador boas reflexões sobre a condição humana. Canetti propõe um mundo (pós-apocaliptico?, pós-científico?), no qual a sociedade é organizada de tal forma que todos, ao nascer, recebem como nome um número, que corresponde aos anos que viverá (esse número é guardado em uma cápsula que todos carregam presas ao pescoço). Assim sendo, trata-se exatamente o contrário da realidade, pois não há em sua proposta dramática a loteria da vida, com a qual estamos suficientemente acostumados, que implica em aceitar que o momento da morte de cada um não é algo previsível. A sociedade é uma teocracia, ou seja, a religião fundamenta o poder político, organiza as leis. Não aceitar a inevitabilidade da morte no ano do seu nome equivale a um anátema, a excomunhão, ao exílio social. "Cinquenta", o protagonista da história, não aceita a ideia de morrer com cinquenta anos e questiona o sujeito responsável por verificar os prazos de vida ("Capsulón", na tradução espanhola). Um terceiro personagem principal, "Amigo", lamenta o desaparecimento de sua irmã, que fugiu da sociedade ao cumprir seus doze anos. A recusa de Cinquenta em aceitar seu destino provoca uma espécie de revolução, o início de uma nova seita, de organização social. Canetti parece antecipar o controle biométrico das pessoas (via implantes de chips no corpo, algo real neste nosso século XXI), de uma espécie de controle técnico do tempo de vida (com os avanços da medicina moderna) e da atração natural entre semelhantes (os jovens - pessoas com números baixos - só se identificam com jovens, os velhos - pessoas com números altos, socialmente admirados - exploram os demais). Filosoficamente, o leitor é apresentado a vários espantos: Seria bom se cada um de nós soubesse antecipadamente nosso tempo de vida?; neste mundo, viveríamos plenamente ou igualmente escravizados?; a ideia da morte e a ideia da vida são especulares, complementares ou contraditórias entre si?; viver ignorante de nosso destino não seria preferível?; em um mundo onde o tempo é propriedade de cada um, não compartilhável, é necessário aprender algo, reproduzir-se, fazer planos?; o mundo onde o medo da morte não existe, é bom? (lembrei de uma passagem do Blade Runner, em que Roy, um dos replicantes, diz a Decker, o humano: "que bom viver com medo!", - teria Phillip F. Dick conhecido esta peça?, a ver!). Grande Canetti. Poucos escritores escreveram tão bem sobre a morte e descreveram tão bem a psiquê de nós, pobres e limitados homo sapiens. Em breve farei registros das outras duas peças reunidas neste volume. Segue o baile. Vamos em frente. Vale!
Registro #1566 (drama #22)
[início: 13/04/2020 - fim: 19/04/2020]
"Los emplazados", Elías Canetti, Barcelona: Muchnik Editores, 1a. edição (1982), brochura 13x20 cm, 260 págs., ISBN: 84-85501-46-2 [edição original: Die Befristeten (München: Deutscher Taschenbuch Verlag) 1964]

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

explora madrid

Já registrei aqui algo das boas lembranças que tenho de Madrid ("Escrito en el cielo", "Guia Madrid diferente"). De tempos em tempos leio algo sobre a cidade. Esse "Explora Madrid" é um volume fartamente ilustrado. Encontramos dezenas de reproduções fotográficas, gravuras, desenhos, pinturas, mapas. Os textos são curtos. Tratam da história e de anedotas, causos populares, lendas urbanas. Não é propriamente um guia turístico, nem tampouco está desatualizado. Os autores tentem a valorizar aspectos não exatamente históricos, antes sim indiscrições, mexericos, fofocas que ficaram populares. Eles também enfatizam que o segredo de um bom turista é ter novos olhos a cada visita, pois os descobrimentos são pessoais, intransferíveis. De qualquer forma, o livro é dividido de forma canônica. Um terço corresponde a geografia e história formal da cidade, descrevendo os vestígios urbanos da Madrid Medieval, da Madrid de los Austrias, da Madrid de los Borbones. Comentários sobre mais de trinta lugares são apresentados em um mapa, o que ajuda o leitor a localizar-se e deambular pela cidade. Os dois terços restantes são divididos em três partes: uma trata de lugares associados a causos bizarros, mortes, assassinatos, as tais lendas urbanas; uma a lugares de encanto, onde amores virtuosos ou proibidos se consumaram; uma última sobre as Tabernas ou Casas mais castizas (genuínas, tradicionais) de Madrid. O livro inclui também uma última seção, onde se fala de curiosidades histórias e apresenta as receitas mais tradicionais da cidade. Por fim, uma farta bibliografia ajuda o leitor curioso a procurar mais informações. O leitor aprende um bocado lendo os ensaios incluídos no livro, mas apenas folheá-lo, com calma, vagabundo, sem medo, já faz a alma um grande bem. Vamos em frente. Vale!
Registro #1565 (turismo #16)
[início: 13/07/2020 - fim: 19/07/2020]
"Explora Madrid", Fátima de la Fuente del Moral e Enrique Fernández Envid, Madrid: Ediciones La Librería, 1a. edição (2017), brochura 21x21 cm, 212 págs., ISBN: 978-84-9873-361-7

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

estudo sobre a carne humana

De Deonísio da Silva, respeitado escritor, professor e filólogo, só conhecia o bom livro de referência "De onde vem as palavras", que partilha espaço em minha biblioteca com os Houaiss e os Aurélios, o Oxford e o Cambridge, os Câmara Cascudo e um punhado de outros mais. Semanas atrás, ouvi uma transmissão do "Universidade aberta", mantido pela Secretaria de Cultura de Porto Alegre e coordenado pelo professor Sergius Gonzaga, no qual o Deonísio da Silva era o entrevistado. Aprendi um bocado, sobre sua vida, carreira acadêmica e produção literária. Descobri que o sujeito já publicou mais de trinta volumes, entre romances, contos e ensaios (e que já foi várias vezes premiado). Curioso, procurei alguns livros, e resolvi começar pelo mais antigo que encontrei. Em "Estudo sobre a carne humana", de 1975, estão reunidos quatorze contos curtos. Neles transparece um fino leitor de tipos humanos, alguém que sabe incluir nas narrativas, sem sufocá-las, passagens das mitologias, histórias bíblicas, alguma etimologia, curiosos registros de linguagem popular e, sobretudo, o clima tenso e hipócrita dos tempos repressores da ditadura militar. Ele parece navegar por um mar de censores, cuidando o tom, mas sem comprometer as verdades de suas histórias. Há também muito humor nas histórias, que se passam tanto no mundo urbano, citadino, quanto no mundo do campo, periférico, das pequenas cidades. Os temas dos contos são variados. Alguns flertam com causos ou lendas urbanas (a do americano que ao fazer uma pesquisa médica no campo é visto como um vampiro no imaginário do povo, a do destino do dinheiro talvez escondido por um fazendeiro de origem italiana, a do médico inepto que por acaso descobre uma doença real em um paciente, a do diplomata que faz parecer que sabe muito sobre o mundo das mulheres, a do amigo estudante que volta de Paris e conta histórias em um bar, a de uma velha senhora que morre queimada, a de um bastardo "alemão" do norte brasileiro que se entrega a bebida). Outros contos tratam do ambiente escolar, tanto das seculares quanto das confessionais (são onde o sarcasmo domina a narrativa, demonstrando como a experiência pessoal pode se metamorfosear em literatura sem ofender ninguém). Como já registrei acima, o que se destaca em todos os contos é a capacidade de criar personagens (além de provocar o leitor com deliciosos jogos verbais). Lembrei muito do Elias Canetti, de um livro dele onde são apresentados perfis de pessoas, associados a suas características físicas ("O Todo ouvidos"), que li há décadas. É isso, vamos seguir em nosso baile macabro de pandemia. Vale!
Registro #1564 (contos #182)
[início: 13/08/2020 - fim: 18/08/2020]
"Estudo sobre a carne humana", Deonísio da Silva, Curitiba: Editora Hoje, 1a. edição (1975), brochura 12x19,5 cm, 83 págs., sem ISBN

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

aurora bernardini: entrevista

"Aurora Bernardini: entrevista" é o primeiro volume de uma coleção de entrevistas publicada pela editora Medusa, de Curitiba. Aurora Bernardini é italiana de nascimento (1941), mas radicou-se no Brasil na adolescência (1954) e fez carreira universitária na USP, onde foi de aluna (de graduação, mestrado e doutorado, nos anos 1960 e 1970 ) a professora titular. Além das atividades acadêmicas ela também traduziu ou profissionalmente ou apenas por prazer muitos autores, sobretudo italianos e russos, sendo bastante respeitada pela qualidade de seu trabalho. Neste volume estão reunidas basicamente duas entrevistas e um conjunto de exemplos de tradução, comentados por ela. A primeira entrevista é bastante curta, cousa de dez laudas, e é conduzida Andréia Guerini, uma das organizadoras do volume. A segunda entrevista foi conduzida por Leandro Silveira Pereira é bem mais longa (quase quatro vezes mais extensa) e já havia sido publicada na Revista Getúlio, em 2007. Em ambas ela fala algo de sua vida, sua formação, suas escolhas estilísticas, seu amor pela poesia, sua experiência no complicado mundo editorial, entre outros assuntos literários. O tema que mais surpreende o leitor é sua descrição de como envolveu-se na tradução de "boletins amazônicos" produzidos por um conterrâneo seu, o nobre italiano Ermanno Stradelli, um explorador, etnógrafo e folclorista que viveu no Brasil entre os anos 1879 e 1926 (quando morreu, em Manaus). Como ela mesmo diz em algum momento da segunda entrevista, ela o fez porque gostaria de compensar-se da frustração de trazer ao Brasil grandes autores (Velimir Khlébnikov, Boris Pasternak, Marina Tsvetáieva, Luigi Pirandello, Giuseppe Ungaretti), que o público não lê.  Os exemplos de tradução reunidos neste volume são do russo Khlébnikov, do italiano Pirandello, do brasileiro Raduan Nassar e do italiano Eugenio Montale (onde ela se corresponde com um outro grande tradutor brasileiro, o paulista Haroldo de Campos). O livro inclui também uns mimos: um curto ensaio e um apêndice (confusos à beça, pois trata-se de uma comunicação acadêmica sem o aparato visual que deve ter sido utilizado na ocasião); uma longa lista das traduções publicadas por Bernardini; uma relação de alguns de seus artigos artigos publicados em livros, revistas e sites eletrônicos. Ao leitor só resta agradecer a Aurora Bernardini por ser tão diligente e industriosa. Evoé! Em breve registro aqui o outro volume da coleção, entrevistas com o catarinense Donaldo Schüler. Segue o baile. Vale!
Registro #1563 (perfis e memórias #100)
[início: 19/06/2020 - fim: 21/06/2020]
"Aurora Bernardini: entrevista", Andréia Guerini e Sérgio Medeiros (organização), Curitiba: Editora Medusa (coleção Palavra do tradutor), 1a. edição (2018), brochura 13,5x19,5 cm, 116 págs., ISBN: 978-85-64029-57-6

terça-feira, 1 de setembro de 2020

beer

Já contei aqui que há tempos ganhei de presente de don Renato Cohen um pacote com vários livros de arte (Vintage Pictures and advertising), para serem utilizados em fins decorativos. Naquela oportunidade falei de um livro com rótulos de vinhos e cartazes de propaganda de vinícolas (Wine Labels). Esse outro volume é irmão daquele. Agora trata-se de uma coleção de reproduções de garrafas ou latas de cervejas e de cervejarias. Assim como a anterior são um pouco mais de cem reproduções. O leitor perde-se ao folhear o livrinho sem pressa, deixar-se levar pela aventura daqueles rótulos que provavelmente nunca encontrará adornando garrafas reais, que se possa encontrar em uma loja. O design dos rótulos é realmente antigo, acredito que da primeira metade do século passado, ou ainda mais velhos. O leitor pode ter uma amostra do efeito visual dos rótulos neste link Pinterest: clika! Li/vi esse livrinho faz tempo, mas a experiência estética foi agradável o suficiente, prazerosa o suficiente, para que, mesmo nestes tempos dementes e sombrios de pandemia, a vida fosse minimamente tolerável lá nas terras altas de Itaara, onde fiquei cinco meses isolado. Segue o baile. Vale! 
Registro #1562 (livro de arte #36) 
[início - fim: 11/06/2020] 
"Beer: Vintage Pictures and advertising", Hong Kong: Retro Books Team (CookLovers), 1a. edição (2012), capa-dura 14x17,5 cm, 64 págs. ISBN: 978-8562-24766-8

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

a lua é um balão

Já li "A lua é um balão" um bom número de vezes. Os causos e fragmentos de memória reunidas nele tornaram-se em certa época boa parte de meu cancioneiro de contador de histórias. David Niven nasceu em 1910 e morreu em 1983, fez mais de 90 filmes e ganhou um Oscar, o de melhor ator, em 1958. Alcançou muito sucesso na vida, mas não sucesso gratuito, pois sempre foi muito diligente e trabalhador. No livro ele fala de sua vida, desde a infância até basicamente os anos 1960, quando saiu dos Estados Unidos e passou a viver no sul da França (existe um segundo volume de suas memórias, "Mulheres de classe, cavalos de raça", que é tão divertido quanto este, onde explora mais os filmes que fez após esta volta à Europa e as últimas duas décadas de sua vida). O tom de "A lua é um balão" sempre é bem humorado, mesmo quando ele fala de suas dificuldades, seus fracassos, suas perdas. Niven conta sobre seus anos de formação, inicialmente em colégios de elite inglesa, muito embora ele não fosse um exemplo de estudante; de sua iniciação sexual; da derrocada financeira de sua família, com a morte de seu pai na primeira grande guerra; de sua formação militar e vida no exterior; de como emigrou para os Estados Unidos, tornou-se um vendedor de whisky e acabou entrando quase por acaso no mundo do cinema; dos filmes que fez, na época em que o cinema era onipresente no imaginário popular; de seu reengajamento militar, para servir na segunda grande guerra; dos altos e baixos de sua carreira; de seus muitos amigos e família. Não me atrevo a tentar resumir a vida movimentada de um sujeito como ele em uma resenha ligeira como essa. O que sempre me impressiona neste livro é o tom do registro, mesmo quando o assunto é delicado ou até constrangedor Niven alcança manter o leitor preso a narrativa. Com estoicismo ele enfrenta tanto a sedução do limite, da hybris grega, quanto as derrotas e fracasso. Talvez este seja o mais precioso ensinamento que ganhei na primeira leitura e que poupou-me nestas últimas quatro décadas de sofrer muitos aborrecimentos. Grato por isto, David Niven. Grato. Vale! 
Registro #1561 (perfis e memórias #99)
[início: 01/07/2020 - fim: 11/07/2020]
"A lua é um balão", David Niven, São Paulo: Nova Época Editorial, 2a. edição (1975), brochura 14x21 cm, 336 págs., sem ISBN [edição original: The Moon's a Ballon (London: Hamish Hamilton) 1971]

domingo, 30 de agosto de 2020

vidas imaginarias

Sobre Marcel Schwob li boas recomendações em textos de Borges e Sebald, de Vila-Matas e Bolaños, de Javier Marías e outros tantos, mas foi o industrioso José Francisco Botelho quem convenceu-me a de fato procurar algo dele. "Vidas imaginarias" é de 1896. Schwob tem uma biografia de lenda, viajou muito, leu muito e sofreu muito, mas isso um leitor curioso deve procurar por aí, sozinho, no mar piscoso e infinito  de informações recolhidas neste curioso século XXI. São vinte e dois contos, que flertam com um mundo de sonho, fantástico, que brotam de uma rara erudição, de uma imaginação dos diabos. Num bom prólogo, assinado por ele mesmo, Schwob nos ensina que muitos biógrafos, talvez por se imaginarem historiadores, se furtaram de escrever retratos verdadeiramente admiráveis por ficarem intoxicados com a vida de grandes artistas, autores, escritores, esquecendo-se que o verdadeiro engenho da arte deve ser dedicado a descrever o caráter belo e único que todas as personas possuem, tanto as ditas divinas, quanto as de famosos e medíocres ou, até mesmo, as de criminosos. Sob este estatuto Schwob escreve seus contos. As histórias incluídas em "Vidas imaginadas" reinventam momentos de epifania, singulares, expressivos das vidas de vinte e dois homo sapiens, alguns cujos nomes podem até ser conhecidos de um leitor experiente (o poeta Lucrécio, o escritor Petrônio, o pintor Uccello, a princesa indígena Pocahontas, o capitão pirata Kid), mas isso não é realmente importante. Acontece que, assim como para estes cinco que citei (e outros leitores citariam outros tantos), todo o conjunto de vidas imaginadas por Schwob, num vai e vem entre ficção e realidade é escrito com a mesma exuberância, seja a de uns santos mártires ou hereges, de prostitutas e matronas romanas, de juízes e cartomantes, de indivíduos que se imaginavam possuídos por deuses, de piratas menos conhecidos ou de assassinos seriais ingleses. Todos parecem renascer como personagens inventados, acrescidos em suas biografias, em suas vidas vividas, de uma pátina vistosa e mágica. Haverá mais Schwob por aqui em breve. Vale! 
Registro #1560 (contos #181) 
[início: 20/07/2020 - fim: 25/07/2020]
"Vidas imaginarias", Marcel Schwob, tradução de Jorge González Batlle, ilustrações de Elena Ferrándiz, Barcelona: Thule Ediciones, 1a. edição (2018), brochura 14,5x22 cm, 159 págs. ISBN: 978-84-16817-33-7

sábado, 29 de agosto de 2020

barcelona: secretos a la vista

Foi Sílvia Serra, amiga querida, desde sua fundamental Barcelona, quem falou-me de Xavier Theros, um conterrâneo seu, escritor e antropólogo, que recentemente recebeu um prêmio literário. Encomendei alguns livros dele e comecei por "Barcelona: Secretos a la vista", publicado em 2015. São 90 crônicas, publicadas originalmente no jornal espanhol El País, e que podem ser consultadas no site deles: clika! Cada crônica é acompanhada de uma fotografia, sendo que no livro elas estão em preto e branco, e no site do jornal, em cores (fotografias assinadas por Tamara López Seoane). Não são textos ligeiros, escritos para atrair turistas ou para mitigar saudades em quem um dia deambulou por aquela bela cidade. Theros parte de pequenos detalhes arquitetônicos, de esculturas, de cartazes de propaganda, de grafites, de objetos que vê perdidos nas ruas (dentre tantos outros vestígios urbanos) para contar histórias de lugares, evocar o passado, capturar a passagem do tempo, descrever as metamorfoses da cidade. Xavier vai a museus e praças, a bares e restaurantes, visita fábricas antigas e cemitérios, percorre estações de metrô, rememora séries e filmes de sua juventude, conta notícias que se transformaram em fábulas urbanas, vaga pelos bairros de todo o entorno da cidade (do Besòs ao Llobregat, da orla do Mediterrâneo à Serra de Collserola), conta anedotas e causos bizarros. O autor procura ensinar aos leitores o prazer de descobrir nas pequenas coisas algo transcendental, mágico, algo que guarda, ainda não corrompida, a verdade de um tempo, de uma sociedade, de uma cultura. Apesar o lirismo das evocações, não há melancolia nelas. Trata-se de um exercício cerebral, de uma educação dos sentidos, de uma desaceleração, que permite a cada um entender a urbe e a si mesmo. A experiência pessoal de Xavier é intransferível, mas seu método não. Podemos aplicá-lo em nossas cidades, em nossos bairros; procurar, nos escolhos de nossa memória, a mesma magia que ele alcançou registrar em seus relatos; devemos nós também louvar nossas cidades, por mais defeitos e problemas que tenham. Lembrei-me de um poema do catalão Joan Maragall, "Oda nova a Barcelona", que termina assim: "(...) Tal com ets, tal te vull, ciutat mala: és com un mal donat, de tu s'exhala: que ets vana i coquina i traïdora i grollera, que ens fa abaixar el rostre. Barcelona! i amb tos pecats, nostra! nostra! Barcelona nostra! la gran encisera!", [(...) Eu te quero do jeito que você é, ó cidade má / tu és como um mal imposto, que emana de ti, porque és vaidosa e travessa e traiçoeira e rude, que temos que baixar nossos olhos / Barcelona! com todos os seus pecados, é nossa! é nossa! / Nossa Barcelona! A grande feiticeira!]. Que saudades tenho da velha feiticeira, da especialmente bela Barcelona. Vale! 
Registro #1559 (turismo #15) 
[início: 19/07/2020 - fim: 28/07/2020]
"Barcelona: Secretos a la vista", Xavier Theros, fotografias de Tamara López Seoane, Barcelona: Editorial Comanegra, 1a. edição (2015), brochura 16,5x23,5 cm, 217 págs. ISBN: 978-84-16033-74-4

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

aranhas

De Carlos Henrique Schroeder já li os bons romances "História da chuva", de 2015, e "As fantasias eletivas", de 2014. "Aranhas" é seu volume mais recente. Trata-se de uma reunião de trinta e dois contos: dois terços narrativas bem curtas e um terço de contos comparativamente bem mais longos. No último conto, Armadeira (Phoneutria nigriventer), ecos de boa parte das trinta e uma histórias anteriores são evocados, reunindo os protagonistas delas em uma espécie de jogo, um jogo macabro, fantástico, de sonho. A exemplo deste último, cada conto recebe como título o nome de uma aranha. O leitor é informado que as histórias surgiram em meio a pesadelos associados a duas pinturas de  Odilon Redon, pintor e gravador francês, seminal mestre simbolista (as duas pinturas podem ser conferidas aqui: clika1 e clika2). Todavia, como sempre na boa literatura, sempre é bom enfatizar, não se sabe se as imagens da aranha triste ou da sorridente de Redon impressionaram o autor Schroeder ou apenas o narrador de suas histórias. As histórias gravitam temas fortes ou violentos: a hipocrisia; as relações de poder; os relacionamentos tóxicos; a tensão sexual entre indivíduos que vivem próximos; a memória de acontecimentos da infância que aflora e perturba adultos; a doença e a morte. Por vezes o narrador das histórias conversa com o leitor, confessando certas indecisões e justificando as guinadas abruptas delas (talvez haja um excesso de mortes - mas, claro, estamos no mundo das aranhas, muitas delas venenosas - entretanto estas mortes parecem saídas fáceis para as histórias, desfechos de ocasião). Gostei particularmente de algumas, aquelas em que se sobressaem um registro particular de linguagem (gírias ou língua cifrada de certas tribos urbanas) ou encontramos elaboradas descrições de ofícios e atos do cotidiano. Em todos os contos mais longos Schroeder alcança mostrar seu arsenal estético, para deleite do leitor, já nos contos curtos nem sempre isso acontece, parecem que ficam a dever algo (ao menos para esse menor dos anões dentre os leitores). Enfim, bom livro de um bom escritor. É hora de seguir em frente. Vale!
Registro #1558 (contos #180)
[início: 06/07/2020 - fim: 09/07/2020]
"Aranhas", Carlos Henrique Schroeder, Rio de Janeiro: Editora Record, 1a. edição (2020), brochura 14x21cm, 189 pág. ISBN: 978-85-01-11850-9

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

los errantes

Depois de terminar o bom "Sobre os ossos dos mortos", resolvi conhecer outras cousas de Olga Tokarczuk, autora polonesa que recebeu o prêmio Nobel de literatura em 2018. Encontrei primeiro "Los errantes", publicado originalmente em polonês em 2008 e cuja tradução para o inglês recebeu, em 2018, o prestigioso prêmio Man Booker International. Trata-se de um romance extenso, caudaloso, de quase 400 páginas, porém fragmentado, composto de 116 histórias que conversam entre si, histórias quase sempre bem curtas, pois apenas onze delas têm mais de oito laudas (em média são 3,33 laudas por fragmento). As histórias brotam da experiência das viagens, do constante movimento (aquele que impede que o mal nos encontre). O título original (Bieguni) remete a uma antiga seita russa de sujeitos que viviam da bondade de estranhos (um tipo de monge). Outros temas são recorrentes: a anatomia (tanto dos homo sapiens quanto de outros seres vivos); a vida universitária e/ou participação em congressos científicos; as diferenças entre mulheres e homens; a passagem do tempo, que nos envelhece, levando-nos da vida à morte. As digressões da narradora de Tokarczuk lembram muito àquelas dos narradores de W.G. Sebald, num bom equilíbrio entre erudição, virtuosismo e descrições admiravelmente poéticas, imaginativas. O tema principal que citei acima é a psicologia das viagens, a forma como o viajante é afetado pelo distanciamento entre sua casa, sua cidade ou seu país e os lugares onde subitamente se percebe, num espanto. A narradora descreve três estágios que um viajante experimenta ao acordar em um lugar diferente: a suposição errada de estar em casa, a curiosidade ou confusão sobre onde ele se encontra, até por fim a iluminação ou sabedoria que advém da consciência de que nada importa, além da realidade do sujeito existir, estar ali, ao acordar. Em um dos fragmentos ela fala do deus Kairós, aquele do momento congelado, o momento oportuno (essa discussão faz parte de outra, maior e mais importante, onde se contrasta a ideia de tempo como um fluxo contínuo, como metaforicamente o fluxo de um rio, e o tempo discreto, que se pode medir, contar em fragmentos unitários). Esse livro foi escrito durante um período em que a autora recebeu bolsas de fundações holandesas e belgas, talvez por isso haja várias menções a cousas desta região na trama, muito embora a narradora faça registros de pesquisas em museus em Viena, Berlim, Dresdem, Leiden, Amsterdam, Riga, São Petersburgo e Filadélfia. A narradora conta várias histórias sobre gravadores; faz curtas biografias de vários anatomistas; descreve quartos de hotéis e salas de espera de aeroportos; canta certos feriados santos, que são diferentes na Europa continental, no sul do hemisfério, no leste europeu e na Escandinávia; fala da geografia sempre distinta dos lugares; da ubiquidade das massas de turistas; da presença grega que dá aos viventes contemporâneos da tradição greco-romana uma particular consciência do eu, em contraste com aspectos das culturas orientais. O livro inclui doze ilustrações de mapas antigos, algo impenetráveis, vagamente associados aos fragmentos mais longos da história (não há uma conexão direta, antes uma alusão, o que remete também aos textos de Sebald, que incluem fotografias e ilustrações). Algumas histórias se destacam pelo bizarro ou surpresa que provocam. Uma é a de uma mulher que escreve várias cartas ao imperador austríaco Francisco I, no século XVIII, reclamando o corpo de seu pai, um sujeito negro do norte da África que havia recebido uma refinada educação e que em vida foi servo da corte imperial, privando ali de muitas benesses, mas que após a morte acabou tendo seu corpo embalsamado e exposto à visitação pública por décadas (o leitor fica sem saber se o sujeito continua embalsamado, em algum museu europeu, ou se já foi enterrado dignamente, como a filha esperava). Outra história amalucada é a do translado do coração do compositor polonês Frédéric Chopin, da França para Varsóvia (à época sob domínio russo), para uma missa de réquiem e posterior funeral. Vinhetas extravagantes e curiosas como estas povoam o livro, formando um mosaico de cenas que lembram a atmosfera de sonho de filmes como "E la nave va". "Moby Dick", o romance de Melville, é várias vezes citados na trama. Mais não digo, pois não alcanço reproduzir o prazer que só a leitura dos 116 fragmentos poderá oferecer ao leitor. Enfim, impressionante a maestria desta autora. Certamente haverá outros Tokarczuk por aqui. Segue o baile. Vale! 
Registro #1557 (romance #386)
[início: 01/08/2020 - fim: 06/08/2020]
"Los errantes", Olga Tokarczuk, tradução de Agata Orzeszek, Barcelona: editorial Anagrama (Panorama de Narrativas #1061), 1a. edição (2019), brochura 14x22 cm., 390 págs., ISBN: 978-84-339-8053-3 [edição original: Bieguni (Varsóvia: Wydawnictwo Literackie) 2007]

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

medio siglo con Borges

Como já disse antes, nestes tempos
difíceis, agressivos, cruéis, dementes e sombrios de pandemia só nos resta seguir o baile, ou combater a estupidez generalizada com alguma boa prosa ou poesia. Desde 17 de março, até uns poucos dias, fiquei isolado em meu bivaque particular, nas terras altas de Itaara, com meu Cappuccio servindo-me de guarda. Tive dificuldades para retornar ao apartamento citadino, aos ruídos da urbe, bem diferentes do campo, à presença das gentes e de suas circunstâncias, à proximidade das notícias que correm ao vento. Mas o hábito, sempre fiel camareiro, haverá de readaptar-me a tudo isso. De resto, fiquei boas semanas sem computador, daí esse hiato nos registros de leitura. Paciência. Li há tempos, portanto, esse "Medio siglo com Borges". É a publicação mais recente - saiu em abril - do genial Mario Vargas Llosa, um dos últimos grandes de todas literaturas, aí de nós. Trata-se da reunião de nove textos, artigos, entrevistas ou narrativas com um toque de imaginação, que foram publicados anteriormente em jornais ou lidos em conferências ou, ainda, já inseridas em livro. O mais antigo dos textos é de novembro de 1963: uma entrevista que Borges, já com 65 anos, venerável e cego, concede a um jovem Llosa, 27 anos, naquela época radicado na França. O mais recente é um artigo/resenha, publicado em setembro de 2014, que trata de um livro que ele encontra por acaso em um sebo, livro assinado por Borges e Maria Kodama, que desperta nele reminiscências de seus muitos anos de leitura e releitura das cousas de Borges. O leitor é levado por uma densa corrente de memórias afetivas e reflexões sofisticadas sobre a obra e a personalidade de Borges. Llosa fala das obsessões de Borges, sua biografia, seus amores, sua influência, de questões linguísticas, de sua relação com a Argentina e o Peru, enfim, de sua vida, que pode ser resumida no belo, porém triste, aforismo/epitáfio: "vivío leyendo y leyó viviendo" (que brota de uma frase ainda mais triste, da primeira entrevista, onde Borges diz: "Muchas cosas he leído y pocas he vivido"). Pode-se ler esses textos em um par de horas, mas eu fiquei com eles por dias, nostálgico e reflexivo, hedonista, "dronwing in honey, stingless", como sempre deve ser. Vale! 
Registro #1556 (crônicas e ensaios #276)
[início: 13/07/2020 - fim: 19/07/2020]
"Medio siglo con Borges", Mario Vargas Llosa, Madrid: Alfaguara (Grupo Santillana de ediciones / Penguin Random House Grupo Editorial), 1a. edição (2020), brochura 15x24 cm, 109 págs. ISBN: 978-84-204-3597-8

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

wine labels

Há tempos ganhei de presente de don Renato Cohen um pacote com vários livros de arte. Um deles foi esse Wine Labels, uma coleção de reproduções de rótulos de vinícolas e garrafas de vinho, bem antigas, coleção chamada Vintage Pictures and advertising. A ideia é que eles possam ser plastificados ou enquadrados, para serem usados em decoração, mas eu não fiz isto. Não há texto, nem identificação do responsável pela organização. São um pouco mais de cem reproduções. Ao leitor cabe apenas o deleite de ver, folhear o livrinho sem pressa, deixar-se levar pela aventura daqueles rótulos que provavelmente nunca encontrará adornando uma garrafa real, que se possa encontrar em uma loja de vinhos. O design dos rótulos é realmente antigo, acredito que da primeira metade do século passado, ou ainda mais velhos. O leitor pode ter uma amostra do efeito visual dos rótulos neste link Pinterest: clika! A experiência estética é agradável, prazerosa, algo tão difícil nestes tempos agressivos, cruéis, dementes, sombrios, de pandemia. Segue o baile. Vale! 
Registro #1555 (livro de arte #35) 
[início - fim: 11/06/2020] 
"Wine Labels: Vintage Pictures and advertising", Hong Kong: Retro Books Team (CookLovers), 1a. edição (2012), capa-dura 14x17,5 cm, 64 págs. ISBN: 978-85622-4767-5

quinta-feira, 16 de julho de 2020

o verão tardio

De Luiz Ruffato só havia lido, há quase duas décadas, o bom "Eles eram muitos cavalos". Noutro dia achei perdido em meus guardados "O verão tardio", livro mais recente dele, publicado em 2019. Não é um romance para leitores sensíveis, deprimidos, ou leitores que estejam, nestes dias sombrios de pandemia, isolados e/ou particularmente preocupados com o futuro e o destino, com a saúde e a morte. Digo isso pois Ruffato descreve a realidade cruel deste desgraçado Brasil, um país de contínuo fracasso, de auto-engano, de hipocrisia, de fuga, de gente que se orgulha de sua estupidez, de indivíduos que voluntariamente tornam-se escravos mentais de partidos políticos, de ideologias, de completos canalhas. "O verão tardio" é um livro bem escrito, onde se destaca a linguagem, os diálogos fundidos à narrativa, à forma escolhida pelo autor para contar sua história. A narrativa gravita a vida de um sujeito de seus sessenta anos, Oséias, que volta a sua cidade natal, Cataguases, em uma espécie de balanço final de sua vida. Acompanhamos catálogos de fragmentos de sua história de vida, seu casamento e divórcio, sua relação com a família (pais e irmãos), seus amigos, sua cidade, seu ofício profissional. Todas as mazelas do Brasil são elencadas no livro em algum momento. Todos os temas que nos assombram há décadas são descritos. Ruffato não pontifica, deixa ao leitor o juízo ou simpatia pelos personagens que vagam por seu livro como fantasmas, em contínuo transe, todos eles igualmente lamentáveis, tristes, fracassados, à beira de um surto psicótico. Enfim, livro interessante, mas acho eu, o menor dos anões desta paróquia, que seja melhor que os leitores deixem para lê-lo em dias menos cruéis, menos terríveis, menos vagabundos, menos trágicos. Vale! 
Registro #1554 (romance #385)
[início: 20/06/2020 - fim: 21/06/2020]
"O verão tardio", Luiz Ruffato, São Paulo: editora Schwarcz (Companhia das Letras / Penguin Random House), 1a. edição (2019), brochura 14x21 cm., 232 págs., ISBN: 978-85-359-3211-9

quarta-feira, 15 de julho de 2020

no me cogeréis vivo

"No me cogeréis vivo" é um volume onde estão reunidos 167 artigos de Arturo Pérez-Reverte publicados originalmente em jornal (na coluna Patente de Corso do caderno XL Semanal), entre setembro de 2001 e julho de 2005. Esse período corresponde aos últimos anos do governo Aznar e os primeiros do governo Zapatero. Não preciso aqui repetir meu costumeiro entusiasmo  com a excelência de tudo que Pérez-Reverte publica (já falei sobre três volumes de artigos dele: "Una história de España", "Perros y hijos de perra" e "Los barcos si pierden en terra"). Pérez-Reverte fala do cotidiano espanhol, de política, das transformações pelas quais passa a Europa, seu país e suas fundamentais Madrid e Cartagena. Fala de questões filológicas e de la lengua espanhola, discutidas nas reuniões das quintas-feiras na Real Academia Espanhola, de questões náuticas, dos livros que lê, dos políticos e das muitas coisas estúpidas ditas pelos políticos. Comenta sobre a estupidez reinante dos hipócritas e canalhas que defendem ideias ditas politicamente corretas; sobre os censores de costumes e de comportamento; sobre questões ambientais. Louva indivíduos que o influenciaram, o educaram, as exposições que viu, as viagens que fez, os encontros que teve com amigos e de sua experiência como jornalista em conflitos bélicos. Com ele caminhamos pelo bairro de las letras de Madrid, vamos a restaurantes, lembramos de Cervantes, Quevedo, Góngora, Calderón de la Barca, de Lope de Vega. Ele faz brotar da infância sua admiração pelas histórias dos romanos, dos gregos, dos árabes de sua península. Com ele vamos aos portos, aos mercados, aos cafés, ao cinema, a lugares ermos e perigosos das cidades que ele visita. Suas crônicas/artigos/ensaios se distinguem de material comum, aquele que notadamente encontramos em jornais brasileiros, pois é notável sua coragem intelectual, sua capacidade de denúncia fundamentada, à quaisquer grupos ou indivíduos que mereçam sua atenção. Não se trata de ser um simples paladino de boas causas ou malabarista de palavras. Seu afiado senso de justiça, sua capacidade de saber dosar argumentação lógica com sonoros palavrões (que deixariam o coro purista e hipócrita de jornalistas brasileiros corados - e prontos para denunciá-lo nos tribunais de exceção de inspiração fascista que vicejam por aqui nestes podres dias de pandemia), tornam a leitura das quase 200 crônicas uma alegria, dias de genuíno prazer e educação. Pérez-Reverte não tem medo de ridicularizar quem quer que seja, desde o tonto mal educado que viaja a seu lado em um avião, até os ministros de governo, tão servis à programas políticos inúteis, contaminados por ideologias que alcançam o patético, quando não apenas servem para corrupção e desvio de dinheiro público. Seu colega articulista, Javier Marías - el perro inglés, ganha um punhado de citações, sempre bem humoradas, corteses, fraternais. ÔBeleza. Sorte que tenho ainda uns volumes de Pérez-Reverte escondidos nos guardados. Vale! 
Registro #1553 (crônicas e ensaios #275) 
[início: 11/02/2013 - fim: 01/07/2020]
"No me cogeréis vivo: artículos 2001-2005", Arturo Pérez-Reverte, Madrid: Punto de Lectura (Santillana ediciones generales / Penguin Random House Grupo Editorial), 1a. edição (2005), brochura 12,5x19 cm, 605 págs. ISBN: 978-84-663-1891-4

sábado, 11 de julho de 2020

com el agua al cuello

"Con el agua al cuello" é a vigésima nona aventura de Guido Brunetti, comissário da polícia veneziana. Foi publicado recentemente, em março. Mesmo com as dificuldades da pandemia consegui meu exemplar em poucos dias (graças a Casa del Libro e a DHL, por supuesto). Esse volume trata da sistemática contaminação das águas da cidade e de como um sujeito cuja mulher está em estado terminal, com câncer, é envolvido em uma trama de acobertamento, perpetrada justamente pela empresa responsável por verificar a qualidade da água. A história se passa no verão, com a cidade repleta de turistas, o que dificulta o deslocamento dos personagens pela cidade. Desta vez poucos dos costumeiros personagens se apresentam, como se fosse uma peça escrita para ser encenada em um teatro de bolso, com pouca movimentação e pouco público. Guido Brunetti e sua colega comissária Griffoni se encarregam de investigar as circunstâncias da morte de um químico, responsável pela coleta e análise de amostras da água que é servida para a população. Os dois contam com a ajuda da sempre eficiente secretária Elettra. A narrativa usa pouco como cenário o escritório da comissaria, preferindo levar os protagonistas e os leitores por vários cafés da cidade (com seus típicos tramezzini veneziani). Como sempre acontece nos romances policiais de Donna Leon a chave estrutural segue um drama grego clássico, no caso a trilogia de Orestes de Ésquilo: Agamemnon, Coéforas e Euménides. A questão moral em jogo, o tema, é a maldição que recai sobre aqueles que cometem um crime contra a cidade (a pólis). Todavia, assim como na peça final da trilogia, há uma nítida transição desde o ciclo sangrento do início (quando são as Erínias que comandam o destino das gentes) para o surgimento de uma justiça conciliadora, civilizada, na figura de Palas Atena. Donna Leon sabe tornar crível toda a trama, cujo tema é atualíssimo e certamente se repete por todas as cidades (ela inclusive cita uma tentativa recente de privatização das águas italianas, que não chegou a ser autorizada, após dois plebiscitos). A bem da verdade a trama é um tanto parecida com um outro volume dela, o décimo-quinto, "Veneno de cristal", que também fala sobre a fatal combinação entre a poluição das águas da laguna e a avareza. Entretanto, em "Con el agua al cuello" a solução é mais sutil, melhor resolvida dramaticamente, demonstrando como Brunetti é um personagem complexo e, como não, universal. A ver o que ela nos preparará para sua trigésima aventura, no ano que vem. Belo livro. Vale! 
Registro #1552 (romance policial #96) 
[início: 06/06/2020 - fim: 09/06/2020]
"Con el agua al cuello", Donna Leon, tradução de Maia Figueroa Evans, Barcelona: Seix Barral / Biblioteca Formentor (Editora Planeta S.A.), 1a. edição (2020), brochura 13,5x23 cm., 344 págs., ISBN: 978-84-322-3638-9 [edicão original: Trace elements (Zürich: Diogenes Verlag AG) 2020]

terça-feira, 7 de julho de 2020

lacombe lucien

"Lacombe Lucien", filme de Louis Malle, foi lançado em 1974, mas eu só o assisti em 1980 ou 1981. Lembro-me bem do filme, sobretudo porque naquela época eu lia muito Paulo Francis e ele era particularmente sádico em denunciar reiteradamente a sociedade francesa, falando do porco papel de boa parte daquela população durante a ocupação alemã, na segunda grande guerra. Recentemente comprei um pacote de livros do Patrick Modiano, dentre eles a versão original do roteiro do filme, que é assinado por ele e o diretor, Louis Malle. A leitura silenciosa do livro é tão impactante quando o filme. Não me cabe aqui contar detalhes do  roteiro/filme, claro. Só recomendo, como um dos filmes fundamentais, que todos deveriam tentar ver, mas sei que isso dificilmente acontece, tão anestesiados estão os viventes deste desgraçado país. Gostei de ler o roteiro. Não sou mais aquele jovem de vinte anos, que se instruía na vida, tentava ilustrar-se e que era praticamente imune ao cinismo. Hoje, já praticamente sessentão, vejo a desgraça dos atos e destino daquele protagonista como fruto do completo acaso, como quase tudo nesta vida. Retrospectivamente é fácil ser heroico, estar do lado certo da história, esbanjar bom mocismo, máximas éticas e morais. Noutro dia vi uma entrevista com um de meus gurus espanhóis, o escritor Arturo Pérez-Reverte, em que ele dizia desprezar muito mais a estupidez que a maldade. Segundo ele tendemos quase sempre a sermos condescendentes com as pessoas simples, mal educadas, idiotas, reputando a elas uma inocência que as blindaria dos funestos desdobramentos de suas insensatas escolhas e decisões. Lacombe Lucien é um destes sujeitos, que sempre existiram e existirão, que passam pela vida sem entender quase nada de sua complexidade. Grande livro. Grande filme. Grande Modiano e grande Louis Malle. Vamos em frente. Vale! 
Registro #1551 (drama #21) 
[início - fim: 12/06/2020]
"Lacombe Lucien", Louis Malle e Patrick Modiano, tradução de María Teresa Gallego Urrutia, Barcelona: editorial Anagrama (Panorama de Narrativas #981), 1a. edição (2018), brochura 14x22 cm., 156 págs., ISBN: 978-84-339-8011-3 [edição original: Lacombe Lucien (Paris: éditions Gallimard) 1974]

domingo, 5 de julho de 2020

potnia

"Potnia" é um livro de poemas, e também o livro de um único poema: extenso, estirado, multifacetado, polimorfo. Segundo Leonardo Chioda, logo no início de seu livro, "Potnia (...) é um título de honra, usado pelos poetas para exaltar deusas e mulheres de extremo poder". Estamos no mundo das ideias de Robert Graves, no mundo da "Deusa branca", aquela que sob vários nomes fez-se cultuar por todo o orbe, aquela que tornou-se a linguagem poética de todos os mitos e religiões originais, todos os gênesis, todos os círculos de renascimento e morte. Após um prólogo/contrato entre narrador e leitor, e de três cantos evocativos, emerge o livro, dividido em três partes principais: "Épura & Medula", "Nume" e "Axioma". No primeiro conjunto encontramos 74 poemas, onde um narrador, desde a orla de um mundo novo que vai sendo gerado a cada verso, contempla a vastidão de um grande mar (o signo que domina "Potnia" é o da água, em todas suas possibilidades, como James Joyce já nos ensinou: sua universalidade, vastidão, inquietação, quietude, imperturbabilidade, virtudes curativas, infalibilidade como paradigma e modelo, onipresença, metamorfoses como vapor, névoa, nuvem, chuva, granizo, neve e granizo). São poemas complexos, que cobram tempo e esforço do leitor, onde as imagens evocadas importam mais do que se está sendo descrito (descrições que se desdobram, em parênteses, travessões e chaves em cascata). No segundo conjunto, "Nume", o narrador é Ulysses, que faz-se ao mar, navega de volta a sua Ítaca fundamental. A água continua soberana e as musas condutoras dos poemas são as deidades aquáticas: as sereias, as ondinas, as nereidas, as náiades. Elas fazem 35 conjurações, 35 encantos, que provocam em Ulysses o melhor entendimento de sua jornada. Somos lembrados que se o corpo é quase água, que é branca, transparente, o sangue que flui por nossas veias é salgado e rubro. O porto do narrador neste conjunto não é Ítaca, mas a poesia forte de João Cabral de Melo Neto, que oferece lições ao narrador e ao leitor. O último conjunto de poemas é "Axioma", um conjunto de 30 poemas curtos e três codas, que tratam de conceitos/palavras, potências mitológicas, oferecem um contraste entre a tradição e o cotidiano, demonstram a circularidade da vida, o eterno retorno de todos nós, seres em busca da palavra perfeita, da capacidade de expressão, de comunicação. "Potnia" não me parece um livro fácil, mas recompensa o leitor diligente com imagens, metáforas e histórias realmente potentes. Lembrei de coisas da Hilda Hilst (um reverdeço, uma vida espessa, um respeito por nossa capacidade de amar, mas talvez isso seja apenas devido a coincidência de ter relido ela recentemente, acontece), e também da Teogonia (a invenção de um mundo). Enfim, vamos a ver se encontro outras coisas de Leonardo Chioda. Vale! 
Registro #1550 (poesia #132) 
[início: 16/06/2020 - fim: 21/06/2020]
"Potnia", Leonardo Chioda, São Paulo: V. de Moura Mendonça Livros (Selo Demônio Negro), 1a. edição (2016), brochura 16x23 cm., 198 págs., ISBN: 978-85-66423-29-7

sábado, 4 de julho de 2020

martini

Nestes dias funestos, abancado em casa, sem muita possibilidade de festejos etílicos, resolvi fazer um itinerário emocional, por minha memória, por minhas aventuras pelo universo dos coquetéis, dos combates de Baco, das transgressões. Vaguei por meus guardados, olhando sobretudo a seção dos livros dedicados aos prazeres, às aventuras, ao desejo. Esse "Martini", de Alexander Struminger, me acompanha há décadas, já li, emprestei, tive a sorte de receber de volta, mostrei em festas, desde os dias em que, titubeante, não me entendia entre continuar paulista, algo mundano ou tornar-me gáucho, provinciano como só neste estado se pode ser. Mas isso é história. Alas! Pois esse pequeno volume descreve a história, a mixologia, as receitas, os utensílios, as controvérsias, os procedimentos dos "bartenders" e a biografia de alguns dos grandes entusiastas deste icônico "cocktail". É um volume pequeno, fartamente ilustrado, que ensina o leitor a como aprender, a como melhor degustar os Dry Martinis, com a prática, o tempo, o exercício, o prazer. O certo deveria ser esta uma época de alegrias e descobertas, mas não, estamos aqui, neste baile macabro, contando mortos ao invés de contar bons momentos. Só mesmo algo intoxicado para suportar a estupidez reinante, a falta de caráter e bons modos, a notória vocação para a voluntária escravidão mental e subserviência à canalhas da grande maioria da população deste desgraçado país. Então, segue o baile, agora com uma taça de Martini à mão. Vale! 
Registro #1549 (gastronomia #44) 
[início: 17/05/2020 - fim: 22/05/2020] 
"Martini", Alexandre B. Struminger, New York: Todtri Productions, 1a. edição (1996), capa-dura 18,5x18,5 cm, 48 págs. ISBN: 1-57717-022-9

quarta-feira, 1 de julho de 2020

mil sóis

Neste volume estão reunidos 60 poemas de Primo Levi, produzidos entre janeiro de 1946 e janeiro de 1987. Os 49 primeiros foram selecionados pelo tradutor, Mauricio Santana Dias, dentre os 63 incluídos no volume "Ad ora incerta", premiada reunião de toda produção e tradução poética de Levi até junho de 1984. Outros 11 poemas, produzidos entre setembro de 1984 e antes da morte de Levi, em abril de 1987, também foram incluídos nesta seleção. Os poemas escritos logo após a segunda grande guerra são obviamente marcados por sua experiência no campo de concentração de Auschwitz. São poemas curtos, mas duros, que cobram do leitor não solidariedade, antes sim capacidade de indignação, de indignação frente ao horror, da necessidade de que todos guardem memória daquela tragédia. Nos demais poemas encontramos vários temas recorrentes: os animais e a natureza, a passagem no tempo, a velhice, as estações que governam o cotidiano dos homens, a ideia de viagem, afastamento, o Sol e a neve, o jogo de xadrez, as relações de trabalho e a necessidade do ócio, o contato social, humano. É um livro lírico, repleto de belas imagens, metáforas, que se lê com muito prazer. A edição é bilíngue, porém, ai de mim, meu italiano lamentável pouco ajudou-me na leitura. Cito aqui um dos poemas, "Despedida", de 1974, que diz: "Ficou tarde, meus caros; / Por isso não vou aceitar o pão ou vinho de vocês, / Somente umas poucas horas de silêncio, / As histórias de Pedro, o pescador, / O perfume de musgo deste lago, / O cheiro antigo dos sarmentos queimados, / O grasnido falastrão das gaivotas, / O ouro grátis dos líquens nas telas / E uma cama para dormir sozinho. / Em troca, lhes deixarei versos nebbich como estes, / Feitos para serem lidos por cinco ou sete leitores: / Depois seguiremos, cada um por si, / Pois, como eu dizia, ficou tarde". Li esse volume quase simultaneamente a um outro livro de poemas, de Wallace Stevens, muito cerebrais e diferentes destes de Primo Levi, mas esta é outra história. Sigamos pois, em nosso baile macabro. Vale! 
Registro #1548 (poesias #131) 
[início: 01/03/2020 - fim: 20/05/2020] 
"Mil sóis: Poemas escolhidos", Primo Levi, tradução, seleção e apresentação de Mauricio Santana Dias, São Paulo: Editora Todavia, 1a. edição (2019), brochura 13,5x21 cm, 160 págs. ISBN: 978-656-80309-19-1 [edição original: Ad ora incerta (Milano: Garzanti Libri / Gruppo Editoriale Mauri-Spagnol / GEMS)1984, 1990, 1998, 2004]