segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

o romancista ingênuo e o sentimental

Eu já tinha decidido a terminar as postagens deste 2011 com o livro anterior, o interessante Donde se guardan los libros, de Jesús Marchamalo, mas li esse pequeno livro de Ohran Pamuk e não consegui esperar até janeiro. "O romancista ingênuo e o sentimental" é resultado da participação de Pamuk nas Norton Lectures, da Harvard University, no semestre letivo de 2009-2010 (já li vários livros saídos dessas conferências, livros de Northrop Frye, Harold Bloom, Italo Calvino e Umberto Eco). Utilizando uma idéia original de Schiller, Pamuk separa os romancistas em dois grupos: aqueles que não se preocupam com os aspectos artificiais da escrita e da leitura dos romances (os "ingênuos") e aqueles que dão muita atenção aos métodos de escrita e à maneira como nossa mente opera quando lemos uma história (os "sentimentais", ou "reflexivos"). Interessante, mas como qualquer classificação binária o argumento parece facilitar o entedimento da complexidade que é o ofício de produzir ficção na forma de romance, entretanto acaba apenas oferecendo mais temas de reflexão que respostas definitivas. São seis capítulos, seis palestras de mais ou menos cinquenta minutos. O texto é bem escrito, didático, sem malabarismos. Pamuk advoga um procedimento de escrita onde o romance pode ser associado à pintura de um grande quadro; compara os romances à museus da língua e dos hábitos; fala da insuficiência inata dos romances, pois eles são idealizações da realidade; fala de um "centro atrator" dos romances; nos ensina que o esforço por ler um grande romance está relacionado a nosso desejo de ser especiais, de nos distinguir dos outros; comenta sobre as diferenças de um escritor europeu ou americano e os escritores da periferia, como ele; tenta transmitir seu otimismo com o futuro do romance, como arte poderosa e seminal. O livro inclui um bom índice remissivo. Leitura divertida para esses dias vagabundos de final de ano. Bueno. Agora é oficial, cousas novas, só em 2012. [início 13/10/2011 - fim 25/12/2011] 
"O romancista ingênuo e o sentimental", Orhan Pamuk, tradução de Hildegard Feist, São Paulo: editora Companhia das Letras (1a. edição) 2011, brochura 14x21, 146 págs. ISBN: 978-85-359-1984-4 [edição original: Saf ve Düşünceli Romancı (İstanbul: İletişim Yayınları) 2011]
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Balanço final [26.12.2011]
Este não foi um ano tão complicado e triste quanto o anterior, mas ainda assim tive uma boa cota de aborrecimentos. Alegrias também, claro, não posso ser tão casmurro e pessimista: doña Natália vai começar o curso superior, doña Helga está bem animada com seus projetos, o povo de São Paulo segue forte e unido. Nunca a literatura foi tão fundamental para encontrar algum descanso da loucura. Li realmente um bocado de coisas boas. O melhor livro ano certamente é “Los enamoramientos”, do Javier Marías. Li várias coisas espetaculares dele, especialmente análises do cotidiano espanhol que me inspiraram e confortaram. Voltei ao Proust, após tantos anos, e acho que termino a releitura do ciclo todo antes do meu aniversário, em março, como havia planejado. Li vários livros do Enrique Vila-Matas (bons, mas que sabem ser irregulares), W.G. Sebald, Jim Harrison (um dos poucos romancistas americanos que li nesse ano, preciso corrigir isso no futuro). Não consegui arrumar tempo para reler o Cervantes, mas li alguns gregos, uns espanhóis que não conhecia (Cercas, Pitol), alguma mitologia (Graves), mais poesia (Pound, Szymborska, Britto, Tavares, Coleridge), mais literatura portuguesa e mais literatura brasileira (nisso fui incentivado por sujeitos como o Marcelo Sahea, o Hugo Crema e a Luciana Thomé, grande czarina do gauchão de literatura - que arbitrei). Foi o ano em que don Caetano Galindo esteve no Bloomsday, deixando-nos sua nova tradução do Ulysses de presente (que em 2012 será lançada com festa). Como no ano anterior, li muitos livros em espanhol (31% do total em 2011). Cometi a imprudência de ler muitos romances policiais em sequência, intoxicando-me de Simenon. Paciência. Ao final foram 147 livros (37 romances, 27 de crônicas ou ensaios, 22 de contos, 15 romances policiais, 10 livros com perfis e relatos, 9 de poesia, 7 histórias em quadrinhos, cartuns ou mangás, 7 novelas, 6 de gastronomia, 3 livros infanto-juvenis, 2 de aforismos, 1 de cartas e 1 de fotografias. Desde que comecei esses registros, em 2007, já são quase 600 títulos. Quase tudo lido com muita alegria. Estou bem satisfeito. Vamos a ver o que 2012 nos reserva. Vale.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

donde se guardan los libros

Esse livro é um mimo que todo bibliófilo folheia encantado, é uma jóia para todos aqueles que amam verdadeiramente os livros. Jesús Marchamalo é espanhol, um jornalista cultural premiado, que já publicou vários livros onde apresenta curtas biografias de escritores, tradutores e filólogos. "Donde se guardam los libros" oferece uma abordagem diferente. Ao invés de falar explicitamente dos seus biografados ele mostra e descreve as bibliotecas deles, fazendo uma curta digressão sobre sua gênese, os critérios de organização, as motivações, as técnicas de manutenção, os temas e histórias que abrigam. São vinte escritores: Fernando Savater, Clara Sánchez, Arturo Pérez-Reverte, Antonio Gamoneda, Enrique Vila-Matas, Gustavo Martín Garzo, Clara Janés, Juan Eduardo Zúñiga, Luis Alberto de Cuenca, Carmem Posadas, Francisco Rico, José Maria Merino, Mario Vargas Llosa, Andrés Trapiello, Soledad Puértolas, Javier Marías, Luís Landero, Jesús Ferrero, Juan Manuel de Prada e Luís Mateo Díaz. Além de transcrever o registro das conversas com eles, de cada um Marchamalo pede que descreva três volumes em particular: um de sua própria produção, um de literatura em geral e um especificamente de literatura espanhola. A edição da Siruela é belíssima, cheia de fotografias e ilustrações. As fotografias recortam a imensidão dos livros (nenhuma das bibliotecas parece ter menos de dez mil volumes, estamos falando de bibliófilos mesmo, maníacos e acumuladores quase todos). Marchamalo dificilmente mostra as estantes em sua totalidade, mas sim pequenas tomadas de detalhes que contam algo da personalidade dos proprietários dos livros. Não há leitor que possa folhear o livro sem sorrir satisfeito, concordando com uma escolha, reconhecendo volumes que também possui, admirando a forma e a textura dos livros. Há quem guarde alguns livros empilhados pelas paredes, sem classificação; há quem compre sempre um novo exemplar quando não encontra algo que está seguro de possuir - perdido entre os guardados; há quem desterre para algum sótão ou porão, de tempos em tempos, volumes que aborrecem ou desagradam; há quem acrescente caixas pelos corredores, contendo tesouros desconhecidos; há quem compre outros apartamentos, outras casas, para ir morar exilado dos livros, pois esses tomaram-lhe todo o espaço vital; há quem distribua pacientemente os volumes para os amigos, os parentes, as bibliotecas públicas. Alguns anotam e rasuram todos os livros que leem, outros zelosamente apenas marcam umas poucas passagens à lápis. Há quem conheça o primeiro livro, o embrião da montanha que agregou-se à ele. A maioria deles acrescenta às estantes artefatos acumulados ao longo da vida: esculturas, brinquedos, relógios, chaves, copos, aparadores, pratos, cinzeiros, postais, carimbos de ex-libris, fotografias, guias de viagem, cartões, mapas, garrafas de bebidas. Alguns se lamentam dos livros esquecidos em viagens, perdidos em mudanças, roubados por amigos cruéis. O livro é pequeno, cada escritor tem pouco espaço para falar de sua relação com os livros, mas o tempo de construção de cada uma das bibliotecas parece congelado nas belas fotografias de Marchamalo (acho que são mais de cem delas). Uma versão digital desse livro, com filmes das bibliotecas e animações com os livros, ao invés das fotografias, seria um desejo autoral possível para os próximos anos, explorando as possibilidades que a tecnologia certamente oferecerá. Cabe dizer que Marchamalo tem um bom blog, que vale uma visita. Bueno. Esse é um livro certo para encerrar o ciclo de leituras do ano, mas ainda tenho tempo de registrar que o único problema desse livro é cultivar a inveja pela fortuna desses sujeitos, lamentar o fato deles terem aqueles livros todos à mão, enquanto nós, os leitores, não os temos, não da mesma forma e quantidade, por maior que seja cada uma de nossas coleções de livros. Impossível mitigar essa cobiça. Vale. [início: 11/11/2011 - fim: 20/12/2012
"Donde se guardan los libros: Bibliotecas de escritores", Jesús Marchamalo, Madrid: ediciones Siruela (coleção El Ojo del Tiempo / Fundación Germán Sánchez Ruipérez) (1a. edição) 2011, brochura 16x24, 223 págs. ISBN: 978-84-9841-609-1
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domingo, 18 de dezembro de 2011

poemas de wislawa szymborska

Esqueci do Lustra, coloquei o Macau de lado, Uma viagem à Índia se apequenou num ai, Entremilênios mal deixou eco, n.d.a. perdeu seu brilho, Terceira sede parece bobo, A balada do velho marinheiro deixou de ecooar forte em minha memória. Tudo o que li de poesia nesse 2011 repentinamente ficou pálido e sem viço. Claro, estou exagerando, há vezes que sou mesmo um cabotino teatral demais, mas de qualquer forma esses poemas de Wislawa Szymborska (que ganhou o prêmio Nobel de 1996) são estupendos, seminais, assombrosos. Cousa de gênio. Li e reli, mostrei aos amigos. Esse é o teste definitivo. Quando você não fica com vergonha de mostrar ou declamar um poema para os amigos é porque está seguro que não vai passar por um bobo sentimental. Nada que eu escreva emula, ainda que parcialmente, o prazer de encontrá-los pela primeira vez, pequenas jóias, pequenas construções, recolhos de palavras simples que escondem uma potência dos diabos. A tradutora destas maravilhas, Regina Przybycien, selecionou poemas entre toda a produção de Szymborska, desde os do distante 1957 até os mais recentes, de 2002. Ela assina também um pequeno prefácio biográfico. A edição inclui as versões originais dos poemas. Com isso esse livro poderá ser também utilizado para fins didáticos, por aqueles que querem se familiarizar com o polonês. Nelson Ascher assina a orelha do livro, com um texto conciso e forte. Se é para recortar algo do livro escolho esse: "As três palavras mais estranhas. Quando pronuncio a palavra Futuro, / a primeira sílaba já se perde no passado. / Quando pronuncio a palavra Silêncio, / suprimo-o. / Quando pronuncio a palavra Nada, / crio algo que não cabe em nenhum não ser. /" [início: 14/12/2011 - fim: 18/12/2011] 
"Poemas", Wislawa Szymborska, tradução de Regina Przybycien, São Paulo: editora Companhia das Letras (1a. edição) 2011, brochura 14x21, 165 págs. ISBN: 978-85-359-1957-8

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

macau

Li esse pequeno livro de poemas por indicação de don Caetano Galindo. Li há tempos, ainda na segunda metade de setembro, mas só agora me atrevo a registrar algo. Nesse meio tempo li os poemas novíssimos brasileiros compilados por Claudio Daniel, li o Lustra, do Ezra Pound, li o Uma viagem à Índia, do Gonçalo Tavares, e os resenhei de pronto, quase sempre, mas o pequeno livro do Britto teimava em não me oferecer uma abertura, um gancho para encaixar minhas idéias sobre ele. Mas o ano está a terminar e é tempo de colocar a casa em ordem. Vencedor do prêmio Brasil Telecon de poesia em 2004, "Macau" enfeixa quatroze poemas produzidos na virada do milênio, entre 1998 e 2003. São poemas curtos, econômicos, mas de uma potência que derruba o leitor vagabundo, que não se concentra nas estruturas, nas construções e propostas do autor. As imagens, as situações descritas, as metáforas, tudo aquilo que torna a boa poesia sempre um nocaute, sempre um assombro, encontramos distribuídos sem parcimônia por todo o livro. Britto chega a ser irritante por fazer parecer que tudo o que produz é um feito corriqueiro. Não há temas menores, falta de ritmo, repetições, aborrecimentos, tudo o que encontramos aqui parece ter o poder nos alegrar e surpreender. Grande livro. [início 17/09/2011 - fim 30/09/2011]
"Macau", Paulo Henriques Britto, São Paulo: editora Companhia das Letras (2a. edição) 2006, brochura 12,5x18,5, 80 págs. ISBN: 85-359-0694-0

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

uma viagem à índia

Dos livros que já li de Gonçalo M. Tavares este é o mais convincente. Sobre "O senhor Brecht" e "Biblioteca" não há mais o que falar, me pareceram apenas exercícios estilísticos, onde mal se lê/vê e se aceita os atributos que eventualmente o texto alcança. Acho que até os chamei de maçantes, pois me entediaram do começo ao fim. Paciência. Apesar dessa inevitável prevenção inicial li "Uma viagem à Índia" com um prazer indistinto. Nos dez cantos de "Uma viagem à Índia" acompanhamos um português chamado Bloom por diversas aventuras, cujas motivações e consequências emulam principalmente o Camões de Os Lusíadas - com o qual o próprio Tavares indica ter uma "proximidade amorosa", e que oferecem ao leitor instigantes idéias e reflexões. Trata-se de um poema épico bastante honesto. Bloom sai às pressas de sua Lisboa para uma viagem que percorre lugares da Inglaterra, França, Aústria, Índia, encontra o caminho de volta pela França e termina em Portugal (claro, o eterno retorno às origens se repete em toda jornada heróica). Ele procura aprender (e também esquecer) durante essa viagem. É um texto complexo, onde Gonçalo Tavares demonstra sua erudição, fazendo ilações filosóficas, apresentando argumentos e dados, sintetizando séculos de história e literatura européia, contrastando os numerosos encontros da velha Europa (do ocidente) com a ainda mais velha Índia (o oriente), encontros esses fundados na saga portuguesa de Vasco da Gama. Claro, há algo de pretensioso nesse projeto: repetir as sagas, as épicas, as mitologias, os grandes poemas que já contaram o vagar de um homem comum pela história de todo um povo, de toda uma civilização, mas sobre isso o próprio Tavares deve saber que não tem controle algum, pois serão os leitores do futuro que darão alguma relevância e/ou mérito a seu texto. Há quem tenha afirmado que seu texto deve algo ao Ulysses de James Joyce, mas além do nome do personagem, Bloom, não encontro paralelo algum (a não ser a óbvia angústia da influência joyceana, claro). Por outro lado, ao ler a epopéia de Gonçalo Tavares lembrei muito do Omeros, de Derek Walcott, que por sua vez emula aspectos da Odisséia de Homero. Há passagens realmente boas, que li várias vezes. É o tipo de livro que espero voltar a ler, para retomar idéias e impressões. A edição inclui um bom prefácio (assinado pelo decano dos filólogos de Portugal, Eduardo Lourenço) e uma espécie de índice selecionado, um itinerário de leitura ou mapa dos cantos (que o autor chamou de Melancolia Contemporânea), onde os temas principais de cada canto são indicados graficamente, possibilitando ao leitor voltar rapidamente a cada um deles após a primeira leitura. Curiosamente o último desses termos é "Tédio" (o herói de Tavares alcança no final um tédio definitivo - que para mim é a morte, mas é possível que um outro leitor entenda isso de forma diferente), mas esse é um livro que em nenhum momento entedia ou aborrece o leitor. [início 26/11/2011 - fim 13/12/2011] 
"Uma Viagem à Índia", Gonçalo M. Tavares, São Paulo: editora Leya (1a. edição) 2010, brochura 13,5x20,5, 480 págs. ISBN: 978-85-62936-41-8 [edição original: Lisboa: editorial Caminho, 2010]

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

coisa de amador

Jornalista, ilustrador e editor de arte (e com uma indissimulada alma roqueira) Paulo Chagas trabalha em Santa Maria já há tempos. Algo de sua produção plástica pode ser acompanhada no Flickr e também em um blog, o Pomada Elétrica, onde ele alterna bom humor e algum sarcasmo. Além de seu trabalho feito para jornais eu conhecia as ilustrações que ele fez em parcerias literárias com o Márcio Grings, o Eduardo Macedo e o Diomar Konrad. Recentemente ele decidiu que era hora de publicar um trabalho solo e o resultado é "Coisa de amador". Chagas reuniu de seus guardados algumas histórias em quadrinhos, selecionou cousas divertidas de seus sketchbooks, acrescentou histórias novas e produziu uma narrativa que amarra todo o material. É um livro francamente confessional, intimista e biográfico, um convite de entrada para o mundo de influências, laboratório de idéias e playground  das horas vagas frequentado pelo Chagas. O livro funciona como uma espécie de portfolio dos quadrinhos e desenhos dele. Ele mesmo, em uma das orelhas do livro, cita algumas de suas referências: Disney, Sakai, Pazienza, Moebius, Crumb e Angeli, mas eu vi um Art Spiegelman escondido ali (menos no traço que na mordacidade das histórias). Vamos a ver se um dia desses ele esquece as ironias e nos apresenta um segundo volume, talvez um "Coisa de profissional" (dos bons, que ele é). [início/fim: 03/12/2011]
"Coisa de amador", Paulo Chagas, Santa Maria: editora Manuzio (edição do Autor: Barco a Vapor) (1a. edição) 2011, brochura 20x26, 64 págs. ISBN: 978-85-912821-0-4

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

asterios polyp

Não tenho problema algum em ler graphic novels ou histórias em quadrinhos de vez em quando. Elas são divertidas, relaxam o cérebro, oferecem algum exercício não convencional. Talvez a única diferença entre essa minha cinquentona encarnação e aquela de minha meninice é que agora posso comprar qualquer gibi, qualquer revistinha, praticamente na hora que quiser, sem ficar contando o dinheiro suado do meu pai (ou do meu mesmo, depois dos quinze). Começo assim, confessional e cabotino, pois o velho curandeiro de Viena já nos ensinou que poucas coisas além das que aprendemos a gostar na infância tornam-se realmente relevantes na vida adulta. Paciência. Mas o que dizer dessa graphic novel? Bueno. Um sujeito precisa ser um bocado condescendente para encontrar algo em "Asterios Polyp" além da diversão ligeira que até uma honesta revista artesanal alcança provocar às vezes. Claro, Mazzucchelli ganhou prêmios e foi elogiado por críticos mundo afora, sabe desenhar, domina técnicas de ilustração, tem senso de ritmo e movimento, não esconde sua inspiração direta em poderosos mitos gregos, e editou um livro com muito apuro e correção, mas o que o leitor encontra é uma historieta de amor bem esquemática e rasa. Não há desafios estéticos (a um artista plástico contemporâneo só resta rir das exemplificações canhestras de Mazzucchelli). Os personagens são caricacturais ao extremo, os sentimentos e estados de ânimos deles sempre apresentados como se o leitor fosse incapaz de entendê-los ou antecipá-los através dos diálogos ou da narrativa. O desfile de questões moderninhas: dicotomias, culpa mal elaborada, a incomunicabilidade intrínsica do homem, o dualismo, a oposição de contrários que afinal se complementam, tornam a leitura apenas um exercício de paciência, principalmente porque o texto é de uma obviedade sem fim. Já sabemos o que a história vai oferecer, mas o ordálio precisa ser acompanhado até o fim. [início 19/10/2011 - fim 21/10/2011] 
"Asterios Polyp", David Mazzucchelli, tradução de Daniel Pellizzari, São Paulo: editora Companhia das Letras (1a. edição) 2011, brochura 19,5x26, 344 págs. ISBN: 978-85-359-1866-1 [edição original: New York: Pantheon Books (Randon House Inc) 2009]

domingo, 11 de dezembro de 2011

e depois

De Natsume Soseki já resenhei aqui três bons livros: "Eu sou um gato" (seu livro de estréia, de 1905), "Kokoro" (um de seus últimos, de 1914) e "Sanshiro" (publicado em 1908). "E depois" é de 1909, faz parte de uma trilogia que começa com "Sanshiro" e termina com "Mon", uma trilogia onde Soseki discute as transformações (rápido crescimento econômico, reforma agrária, industrialização e modernização, com forte impacto nas tradições, convenções e relações sociais) pelas quais o Japão passou do final do século XIX para o início do século XX. Em "E depois" Soseki nos apresenta Daisuke, rapaz que recebeu a melhor educação possível, é poliglota e bom leitor, interage com diplomatas estrangeiros, homens de negócios importantes, amigos de sua família, mas não encontrou alguma ocupação fixa, vivendo das mesadas generosas que recebe de seu pai. Ele leva uma vida reflexiva, mantém elípticas e cifradas (no sentido que nunca expõe verdadeiramente suas opiniões) com seu irmão, sua cunhada, seus amigos. Seu pai tem interesse que ele trabalhe nos negócios da família e se case com a filha de um rico produtor rural. Daisuke reencontra dois de seus grandes amigos dos tempos de escola. Um deles, Hiraoka, casou-se com uma garota, Michiyo, por quem ele, Daisuke, teve algum interesse, mas não atreveu-se a avançar. Esse amigo envolveu-se em uma confusão financeira e teve de abandonar sua promissora carreira adminstrativa, tornando-se um rancoroso jornalista. O outro, Terao, tinha planos de tornar-se um escritor importante, mas tem dificuldades em publicar seus textos e reclama reiteradamente do pragmatismo da sociedade japonesa de seu tempo e das bruscas transformações sociais que vivenciam. Daisuke sabe que é incapaz de prover seu próprio sustento, mas também não se vê ocupando-se dos mesmos afazeres mundanos de seus amigos. Ao tentar conciliar suas dificuldades financeiras com aquelas de seus dois amigos, conseguindo empréstimos com sua cunhada e seu irmão, Daisuke acaba percebendo-se apaixonado pela mulher de seu amigo e que essa paixão é correspondida por ela. Nos termos em que o personagem imagina, essa relação é claramente algo difícil de ser aceito pela sociedade japonesa em que vive. Dividido entre suas obrigações morais e o desejo, sua responsabilidade filial e a individualidade, Daisuke antecipa todos seus movimentos, suas palavras, as reações das pessoas com quem interage, como se a vida pudesse ser controlada e racionalizada. Sua mente ansiosa o impede de interpretar corretamente o alcance de seus atos, as consequências de suas decisões. O título já sugere que um enredo como esse pode ter múltiplos desfechos, menos manter-se indefinidamente congelado (e essa seria a principal metáfora de Soseki no livro: ele parece insinuar que o Japão que se ocidentaliza - e não perde a essência, as tradições - é incapaz de antever as consequências sociais da rápida transformação da sociedade). Como na vida real, as coisas não se resolvem sozinhas, o tempo não costuma afastar para sempre aquilo que nos aflige e assusta. Soseki é mesmo um escritor poderoso. [início 28/10/2011 - fim 11/12/2011] 
"E depois", Natsume Soseki, tradução de Lica Hashimoto, São Paulo: editora Estação Liberdade (1a. edição) 2011, brochura 16x23, 280 págs. ISBN: 978-85-7448-201-9 [edição original: Sorekara (それから) Tokyo, 1909]

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

lustra

Quando soube que havia no mercado uma edição de Lustra encomendei o livro imediatamente. Como postergar a leitura e o encontro dos poemas de Ezra Pound, sempre tão seminais e inspiradores? Encontrá-los tão bem apresentados nessa edição bilíngue da Annablume foi um inevitável prazer. (As coisas da Demônio Negro sempre são boas, já havia me alertado o Sahea). Li o livro com vagar, quase escandindo os poemas, me esforçando para acompanhar as escolhas do tradutor, Dirceu Villa, que preparou essas maravilhas para uma dissertação de mestrado, defendida em 2004. Uns poucos poemas desse livro haviam sido traduzidos para o português anteriormente. Além dos poemas encontramos no livro uma generosa apresentação biográfica e poética de Pound (assinada pelo tradutor). Villa inclui também notas explicativas para cada um dos poemas, onde o leitor curioso pode aprender a gênese do trabalho de Pound, suas influências e método. Trabalho muito bem feito. "Lustra" foi publicado em 1916, quando Pound tinha um pouco mais de trinta anos, já respeitado e temido. Mas apesar da versão original ter quase cem anos os poemas parecem ter o dinamismo e vigor dos dias que correm. Não há frouxidão, auto-indulgência, choramingas, confessionalismos bobos, aos quais hoje muitos poetas, tanto jovens quanto já vetustos, recorrem. Claro, não se espera que todo poeta tenha a erudição e a facilidade para aprender e entender línguas, operar com elas, tenha a imaginação poderosa e o rigor estético dele, mas um poeta inculto normalmente aborrece o leitor com superficialismos, com apelos canhestros por emoção, com metáforas bestas. Gostei de tanta coisa nesse livro. Gostei de ler "And yet everyone speaks evil of death", "I have detested you long enough" (de sua tentativa de pacto com Whitman), "let us take arms agains this sea of stupidities", "It rests me to be among beautiful women, why should one always lie about such matters?", "Save this damm'd profession of writing". Eram esses os estímulos que eu precisava para voltar aos gregos, voltar aos mitos. Realmente, que belo livro! [início 25/10/2011 - fim 01/12/2011] 
"Lustra", Erza Pound, tradução de Dirceu Villa, editora Annablume (selo Demônio Negro), 1a. edição (2011), capa-dura 16,5x23,5 cm, 360 págs. ISBN: 978-85-63198-07-5 [edição original: Lustra (London: Elkin Mathews - The Bodley Head ) 1916]

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

ella era hemingway. no soy auster.

São duas argumentações, duas idéias, bem curtas e auto-referentes, que Enrique Vila-Matas decidiu por alguma razão publicar na forma de uma pequena plaquete (chamar de livro seria um abuso, claro) e não incluir em uma coletânia de ensaios e crônicas. Na primeira, "Ella era Hemingway", o narrador - do que pode ser um curto ensaio, uma crônica ou um conto - descreve seu assombro com sua própria incapacidade de entender um conto de Hemingway (e entender, sobretudo, porque este afirmava ser "Cat in the rain" o melhor conto já escrito). Na segunda argumentação, "No soy Auster", o narrador (que talvez seja o Vila-Matas real) fala sobre o que o aproxima e o que o distingue de Paul Auster, escritor americano que certamente o Vila-Matas real admira (há um vídeo muito bom no YouTube onde ambos são entrevistados, onde aprendemos que ambos compartilham muitas obsessões e vivências). Não há o que acrescentar. As duas histórias apresentam ao leitor como Vila-Matas opera: tudo pode ser ficcionalizado, tudo pode alcançar ter valor literário, tudo pode ser discutido e argumentado. Vamos em frente. [início/fim: 06/12/2011]
"Ella era Hemingway. No soy Auster", Enrique Vila-Matas, Barcelona: ediciones Alfabia, 3a. edição (2011), brochura 10x14 cm, 32 págs. ISBN: 978-84-612-4973-2 [edição original: Alfabia (Barcelona) 2008]

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

a culpa é do padre 2

Vamos a ver. Penso que existem dois tipos de livros. Aqueles que nos dão genuíno prazer e aqueles que teimam em nos aborrecer. Quando li “A culpa é do padre”, do Ronaldo Lippold, lançado em meados de 2009, vi logo que ele pertencia ao primeiro grupo. Que livro divertido! E, além de divertido, despretensioso. Pois essa parece ter sido também a opinião de uma legião de leitores. Não apenas a edição original do livro esgotou-se em pouco mais de seis meses como seus leitores, quando encontravam o Lippold por esses pagos afora, invariavelmente costumavam pedir a ele uma nova fornada de suas memórias, seus causos e histórias. Quem conhece o Lippold sabe o quanto ele é elétrico. Enquanto promovia “A culpa é do padre” já matutava uma sequência, motivava seus colaboradores, continuava a escrever. Agora ele decidiu enfrentar o lançamento de um segundo livro, produzindo esse “A culpa é do padre II”. Inclui um tanto de suas outras paixões: dá espaço para sua mulher (a Neneca) a falar da arte de produzir cervejas artesanais, a sua filha para escolher a tipologia dos títulos das histórias, a seu cunhado (o padre) a incluir um de seus contos. Um segundo livro de qualquer escritor não costuma ter vida fácil. Os leitores (sobretudo aqueles que também são críticos) sabem ser infiéis e cruéis. Até autores experientes, seguindo o mesmo roteiro, utilizando a mesma técnica, mantendo o mesmo formato, não tem como prever a reação dos leitores. O leitor irá divertir-se como no primeiro livro? As histórias continuarão líricas e tocantes? Acredito que sim. Claro, os livros têm de se defender sozinhos, mas acredito que elas funcionam, tem algo daquele encanto original, continuam espontâneas, ora provocando o riso, ora partilhando suas recordações e memórias afetivas com o leitor. O Lippold arrisca um tanto mais desta vez. Além de dar um acabamento mais literário aos textos ele incluiu algumas invenções mais sombrias. A vida e a literatura têm dessas coisas. Talvez um escritor deva mesmo seguir seu instinto e não se aferrar às fórmulas fáceis. Acho que esse livro encontrará seus leitores como velhos amigos se encontram, com surpresa e prazer (e quando amigos se encontram não há aborrecimentos). Bom divertimento. [início 29/11/2011 - fim 05/12/2011] 
"A culpa é do padre II: Em busca da cerveja perfeita", Ronaldo Lippold, Santa Maria: editora Manuzio (edição do Autor: Rio das Letras) (1a. edição) 2011, brochura 16x21,136 págs. ISBN: 978-85-65172-01-1

domingo, 4 de dezembro de 2011

la vida descalzo

Encontrei esse pequeno livro durante a última Feira de livros de Porto Alegre. Não me lembro bem se foi nos guardados da Calle Corrientes ou da Sur Distribuidora (sempre capitaneadas, respectivamente, pelos industriosos Miguel Gómez e Enaldo Fernandes, senhores e mascates dos livros). Paciência. "La vida descalzo" é um volume onde encontramos memórias de infância e fotografias em preto e branco (de alguém que podemos identificar com o autor, Alan Pauls, mas nunca se deve fiar completamente em algo impresso). Entretanto o livro oferece algo mais, há também um pouco de ensaística, reflexões e digressões sobre a passagem do tempo (onde o narrador contrasta aquilo que lembra dos dias vagabundos de verão com suas férias mais recentes, menos aventurescas, mais cerebrais e intencionalmente monótonas). O registro intimista do narrador envolve o leitor (coisa fácil, pois quem é que não experimentou com certo assombro os primeiros contatos com o mar?) Os jogos dos amigos francos ou de ocasião, os conselhos do pai - já separado de sua mãe, a curiosidade sobre o futuro dos filhos - sua família de agora, os dias curtos de inverno e longos de verão, alternadamente se confundindo e povoando suas memórias. Ele atribui a amigos os comentários mais duros sobre as diferenças entre o jovem e o homem maduro que frequentam a praia. A mística do cinema e da cultura popular dos anos 1960 também auxiliam o narrador no resgate (ou construção) das lembranças. Proust já havia nos ensinado que o mar sempre nos consolaria dos aborrecimentos da vida. Por isso mesmo um cético como eu não se impressiona tanto com o lirismo da descoberta do mundo mágico dos livros e da leitura experimentada pelo narrador. Artificial demais, me diz o casmurro Guina, que também já foi ao mar e andou descalso pela praia, também já enfrentou a fria aragem salgada e os agressivos raios do sol. O certo seria eu ler antes os romances afamados de Pauls, como Wasabi, O Passado, A história do pranto e A história do cabelo, mas fiquei feliz em ter encontrado antes esse pequeno livro. Interessante mesmo. [início 22/11/2011 - fim 24/11/2011] 
"La vida descalzo", Alan Pauls, Buenos Aires: editorial Sudamericana, 1a. edição (2006), brochura 13x20 cm, 125 págs. ISBN: 978-950-07-2746-4

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

antes das primeiras estórias

Nesse pequeno livro encontramos quatro contos de João Guimarães Rosa, publicados quando ele era apenas um jovem estudante de medicina, no início dos anos 1930. São histórias inventivas, que garantem alguns minutos de divertimento para o leitor curioso, mas nada espetaculares (claro, se um sujeito as ler sem saber que foram produzidas pelo grande Guimarãoes Rosa talvez até desdenhe e ria delas). O rebuscamento do texto, o rico vocabulário (estamos falando de textos que têm mais de oitenta anos) e o exotismo da ambientação das histórias denunciam alguém já muito seguro de sua formação. Umas das histórias foi publicada em "O Jornal" e as outras três na revista "O Cruzeiro", publicações de prestígio dos Diários Associados, o poderoso grupo de mídia comandado por Assis Chateaubriand. Em "O mistério de Higmore Hall", um conto fantástico, gótico, Rosa conta uma história algo previsível de loucura e vingança; "Makiné" é uma história que lembra as invenções amalucadas de Borges, ambientada em uma exótica e selvagem África; Em "Chronos kai anagke", o conto mais interessante, encontramos um jogador de xadrez que alcança um nível em seu jogo que só pode ser debitado à algum pacto demoníaco, mas nem ele nem o leitor podem ter certeza disso; "Caçadores de camurças" é um aborrecido conto de amor e morte, ambientado nos Alpes. Essa edição da Record inclui as ilustrações originais que acompanharam a publicação, assinadas por um sujeito chamado Carlos Chambelland, algumas fotos e um curto prefácio do escritor moçambicano Mia Couto. Ele ficou mais entusiasmado que eu com esses contos. "Antes das primeiras estórias" é o tipo de livro que só deve interessar mesmo aqueles muito curiosos na obra de Guimarães Rosa. [início 22/11/2011 - fim 23/11/2011]
"Antes das primeiras estórias", João Guimarães Rosa, Rio de Janeiro: editora Nova Fronteira, 1a. edição (2011), brochura 13,5x21 cm, 132 págs. ISBN: 978-85-209-2622-2

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

teatro

Provocado por don Hugo Crema eis que decidi aumentar minha cota de livros de autores brasileiros. Não me arrependi com "Teatro", romance antigo, de 1998, reimpresso recentemente. As pistas falsas bem contadas de "Teatro" são uma festa para o leitor. Bernardo Carvalho apresenta uma história intrincada, um romance psicológico realmente interessante, que funciona tanto como estudo de caso da forma como opera a mente de um sujeito paranóico, quanto pela inventividade e concisão. O livro é realmente pequeno, mas tão bem escrito que não reclamamos da economia de Carvalho. Descrever a narrativa com alguma precisão desarma os truques utilizados pelo autor, mas vamos a ver o que eu consigo: São dois capítulos. No primeiro Carvalho decalca para suas finalidades um personagem que é aparentado a Theodore Kaczynski (o Unabomber, o professor universitário amalucado que tornou-se terrorista urbano e assombrou os Estados Unidos por muitos anos, até ser preso, em 1997). O narrador da história descreve sua participação na investigação das atividades desse personagem, mas ao saber fortuitamente da prisão do sujeito percebe que deve fugir, procurar exílio, temer por sua vida e sanidade. Como aquele curandeiro de Viena já nos ensinou nada é trivial em um delírio crônico. A imaginação, articulação e lógica interna dos paranóicos sempre são surpreendentes. No segundo capítulo encontramos um ator pornográfico famoso enredado em um assassinato político. Um fotógrafo tenta entender as motivações do assassinato e o leitor começa a entender as mensagens cifradas com as quais o autor povoou sua história. Os dois capítulos se complementam, o que poderia ser aceito como verdade passa rapidamente a irrelevância, o que é dito na segunda parte pode ser apenas o discurso de um louco. As falsidades bem ensaiadas, os estudados simulacros, as melhores atuações de atores sobre o palco (como diz um bolero antigo) deleitam do começo ao fim. Fazia tempo que não lia algo tão instigante e provocador. Grande livro. [início 18/11/2011 - fim 22/11/2011]
"Teatro", Bernardo Carvalho, São Paulo: editora Companhia das letras, 1a. edição (1998), brochura 14x21 cm, 132 págs. ISBN: 85-7164-749-6

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

ainda temos tempo

Lançado em 2006, durante a 30a. edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, "Ainda temos tempo" reúne quinze histórias assinadas pelo industrioso Leon Cakoff. São antes causos que crônicas, antes registros de viagens e aventuras que ensaios sobre cinema, sua grande paixão. Cakoff morreu em outubro, às vésperas da 35a edição da Mostra que ele idealizou em 1977. Meses antes eu havia lido na Folha de São Paulo um relato corajoso seu dando conta dos aborrecimentos decorrentes da descoberta de um câncer no cérebro e da arriscada intervenção cirúrgica pela qual ele havia passado. O texto oferecia conforto e solidariedade a todos que padecem de algum mal, mas também tinha alguma ironia e sarcasmo (de fato não há porque ser auto-indulgente ao nos confrontar-nos com a morte). "Ainda temos tempo" é irregular, mas gostoso de ler. Cakoff devia estar acostumado a contar esses causos aos amigos, mas algo da graça das histórias se perdeu ao serem fixadas em livro. Cakoff, que formou-se em sociologia, é generoso em interpretar o que vê nos países que visita, mas não é nem definitivo, nem professoral. Nos solidarizamos com ele quando um casal de jovens franceses rouba seu dinheiro, sentimos alívio quando um burocrata russo o libera para voltar a Alemanha, aprendemos a valorizar o tempo que dedicamos aos prazeres. Seu senso de liberdade é algo marcante, invejável. Ele não tem medo de apontar o dedo para os reis nus das tiranias, do comunismo e do fascismo, da hipocrisia e da mentira. Ao mesmo tempo sabe contar as coisas boas, os encontros e passeios com amigos, o aceno cúmplice a um desconhecido, o copo de vinho dividido com aqueles que ouvem suas histórias. Há pessoas que não precisamos conhecer pessoalmente para admirar. Ele deve ter sido um grande sujeito. O livro inclui um prefácio generoso de Carlos Reichenbach. Nota breve: Acho que este é o primeiro exemplar de um livro da Cosac Naify que encontrei realmente mal editado. Claro, pode se tratar de algo requentado por conta da morte do autor, paciência, mas além do fato da capa estar mal colada, as ilustrações, que são bonitas, mais poluem que deleitam o leitor. [início 21/10/2011 - fim 21/11/2011] 
"Ainda temos tempo", Leon Cakoff, São Paulo: editora Cosac Naify, 1a. edição (2006), brochura 13,5x20 cm, 176 págs. ISBN: 85-7503-556-8

domingo, 20 de novembro de 2011

não há nada lá

Soube há tempos deste livro e bem que tentei encontrar um exemplar da edição original, publicado pelo próprio Joca Reiners Terron. Mas os volumes da finada (e louvada) "Ciência do acidente" são difíceis de encontrar. Se como muitos antes dele Terron editou a si mesmo, foi como poucos, e com faro e tino, que soube editar sujeitos de verve poderosa como Glauco Mattoso, Marçal Aquino, Mário Bortolotto, Nelson de Oliveira e outros tantos. "Não há nada lá" poderia se chamar "O apocalipse segundo Joca Reiners Terron". Se João escreveu seu apocalipse na ilha de Patmos, Terron teve a idéia do seu ao sair do "Rancho nordestino", no Bixiga paulista. Algo intoxicado ele provoca alguns amigos no bar, fala de um bispo de Macau que conhecia a verdade sobre o segredo de Fátima, das maquinações que as verdades sofrem ao serem registradas, do uso político e eclesiástico das verdades, de um provável fim do livro e de um inevitável fim do mundo. Nenhum dos zé-manés que ouviram sua história de bar parece ter se convencido muito, mas ele jogou sua cerveja quente no chão, guspiu alguns tronantes "É o caralho", rumou Rua santo Antônio abaixo e foi para casa escrever sua história. Em "Não há nada lá" encontramos sete histórias aparentadas, divididas em sete séries regressivas (o livro todo é paginado em ordem decrescente, mas isso é só um artifício extra). Além desses quarenta e nove capítulos correspondentes às sete histórias, há dois capítulos soltos, um logo no início e outro quase no final: esse último é uma espécie de Gênesis, intitulado "O bispo de Macau", onde Terron conta o insight original de seu livro e aquele primeiro, "Das considerações", é um breve resumo técnico sobre um conceito geométrico, o de Tesseract. Cada uma das sete histórias que Terron conta é um recorte arbitrário na biografia de sete indivíduos, cada um enigmático e perturbado a seu modo, que fazem às vezes de anjos destruidores, portadores de selos e verdades, cavaleiros de seu apocalipse literário. Terron até inclui um glossário ao final do livro identificando objetivamente seus anjos anunciadores: William Burroughs, Raymond Roussel, Torquato Neto, Isidore Ducasse, Arthur Rimbaud, Aleister Crowley, Lúcia (de Jesus dos Santos). O livro é povoado por outros personagens (Fernando Pessoa, Billy the Kid, Jimmy Hendrix, o papa Pio XI), não menos provocadores que os anjos de Terron. Suas histórias são amalucadas e divertidas. São de alguém imerso no universo da cultura popular, de alguém que parece querer esconder sua sofisticação. Encontramos os macacos voadores de "O mágico de Oz", poetas malditos traficando haxixe, poetas esotéricos enganando a polícia, duelos a bala (e com palavras) no velho oeste, teorias conspiratórias saídas de uma espécie de arquivo x, um divertido papa transfigurado em diabo gay, cenas escatológicas dignas dos filmes do David Cronenberg, cenas belíssimas que devem algo aos filmes de Peter Greenaway, a perene presença da igreja católica em suas maquinações, o poder das drogas e alucinações. "Não há nada lá" transborda o milenarismo dos anos em que foi escrito originalmente (o final do século XX). Enfim, é um bom livro, que oferece muitas associações e provocações a um leitor curioso. Preciso ler outras coisas desse sujeito. [início 12/11/2011 - fim 18/11/2011]
"Não há nada lá", Joca Reiners Terron, São Paulo: editora Companhia das letras, 1a. edição (2011), brochura 12,5x18 cm, 160 págs. ISBN: 978-85-359-1940-0 [edição original: Não há nada lá (São Paulo: editora Ciência do acidente) 2001]

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

jakob von gunten

Esse pequeno livro de Robert Walser atormentou-me por meses. Não que sua leitura seja maçante ou exatamente impenetrável, mas sim por conta dos desvios que fiz, dos outros volumes que comecei a ler nesse período, quase sempre por absoluto impulso (isso sempre prejudica os livros que cobram mais zêlo e atenção do leitor, como é o caso de "Jokob von Gunten"). Pelo que descobri lendo alguns textos sobre ele, Walser nunca pertenceu a um grupo ou corrente literária em sua Suiça natal, mas foi, no início de sua carreira como escritor  um sujeito bastante respeitado, tanto pela poderosa imaginação literária encontrada em suas histórias quanto pelo virtuosismo com que escrevia em alemão. Ele tinha quase trinta anos, em 1909, quando "Jakob von Gunten" foi publicado. Uns quinze anos depos ele sofreu uma espécie de colpaso e passou seus últimos vinte e cinco anos internado em uma clínica psiquiátrica.  Os romances e contos de Walser ficaram praticamente esquecidos, sem grande circulação, até muitos anos depois do período em que esteve internado, mas desde o início dos anos 1970 sua obra tem sido reeditada com invulgar sucesso. Muitos escritores e críticos contemporâneos louvam a importância de sua obra. "Jakob von Gunten" é um livro curioso. Narrado em primeira pessoa, dividido em capítulos curtos e diretos, de pouco mais de duas ou três páginas cada um, encontramos nele as reflexões de um sujeito que se matricula em uma escola especializada em formar criados. É um projeto curioso, principalmente pelas ilações de que ele é membro de uma família de posses. Jakob quer ser educado não para se libertar, não para ter os instrumentos para desafiar a vida, trabalhar e crescer intelectualmente, mas justamente o oposto, ele quer anular-se em tarefas mecânicas e repetitivas, que não exijam dele nada além de subserviência, obediência cega e disciplina. Na escola, administrada por um casal de irmãos, Jakob conhece os poucos colegas estudantes que ainda estão matriculados: Kraus, Schacht, Schilinski, Fuchs, Peter, Heinrich, Tremala e Hans. O livro descreve quase sempre com sarcasmo o que se discute nas aulas. A ironia de Jakob o aproxima do diretor do instituto. Ambos desenvolvem uma relação tensa e ambivalente, um misto de agressividade e admiração mútua. Com o colega Kraus as conversas são mais técnicas, objetivando entender o futuro profissional que os aguarda. Mas é com a irmã do diretor do instituto que Jakob mantém a relação mais estranha. Ele se apaixona por ela e aparentemente é correspondido, mas essa aproximação funciona mais como uma libertação para Lisa, sempre eclipsada por seu tirânico irmão. Após a morte da irmã do diretor ele providencia bons empregos para todos os estudantes, mas não para Jakob. Os dois saem do instituto juntos, como se fossem explorar o mundo a partir dali. Minha primeira impressão é associar "Jakob von Gunten" a "O Ateneu", livro de Raul Pompéia que li há uns quarenta anos, mas nesse último as descrições dos relacionamentos entre os alunos e o final dramático são detalhados demais, explicitados demais. O livro de Walser é mais seco, deixa ao leitor a incumbência de penetrar a mente racional de Jakob, força o leitor a interpretar o bizarro desejo de Jakob de alcançar a insignificância. Livro muito apropriado para entender algo desses dias de imbecilidade reinante.  [início 01/08/2011 - fim 15/11/2011]
"Jakob von Gunten: um diário", Robert Walser, tradução de Sergio Tellaroli, São Paulo: editora Companhia das Letras, 1a. edição (2011), brochura 14x21 cm, 148 págs. ISBN978-85-359-1820-5 [edição original: Jakob von Gunten (Berlin, Bruno Cassirer Verlag) 1909]

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

perder teorías

Esse pequeno livro nasceu da mesma idéia que criou "Dublinesca", mas tem um outro fôlego, outra abordagem, outra proposta. Em "Dublinesca" acompanhamos os sucessos de um editor em crise, Samuel Riba, que reflete sobre o fim do mundo dos livros como conhecemos e organiza uma espécie de funeral da "era de Gutenberg", escolhendo o Bloomsday (a gloriosa festa literária dedicada ao Ulysses de James Joyce), na brumosa Dublín, para marcar o réquíem dos livros e da literatura. É um romance muito irônico e muito divertido, onde tanto os leitores contumazes de Joyce, quanto os entusiastas da prosa rascante de Vila-Matas, encontram genuíno prazer. "Perder Teorías" funciona como uma espécie de adestramento à ele. O narrador deve ser o mesmo Samuel Riba (inominado, claro), mas se nos breves capítulos de "Perder teorías" ele engendra a idéia de escrever uma teoria sistematizada do romance moderno (para logo abandoná-la, renegá-la, antecipando sua futilidade e inoperância), será em "Dublinesca" que ela é posta em prática, tranformando-se em um romance. Vila-Matas inclui um prólogo laudatório e cifrado, assinado por Liz Themerson, uma pretensa hispanista americana. Mas se é que eu entendi bem esse prólogo deve ser mais uma daquelas "trampas" vila-matianas, engendradas para confundir e brincar com o leitor, pois não existe uma Liz Themerson real. "Perder teorías" funciona como um apêndice do que se discute em "Dublinesca" e como um exercício estilístico do que encontramos sempre nos livros de Vila-Matas. Divertido, mas nada transcendental. Vamos em frente. [início 04/11/2011 - fim 14/11/2011]
"Perder teorías", Enrique Vila-Matas, Barcelona: editora Seix Barral (coleção Únicos), 1a. edição (2010), capa-dura 12x19 cm, 80 págs. ISBN: 978-84-322-4324-0

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

el viajero más lento

A edição original de "El viajero más lento" é de 1992. Quase vinte anos depois Enrique Vila-Matas o republica em uma edição muito bem cuidada da Seix Barral. O curioso da globalização é ter em mãos um livro que tem como data final, incluída no novo epílogo, o início de maio desse 2011. Das gráficas de Barcelona a Santa Maria quase sem escalas (devo incluir nesta conta, talvez por se tratar mesmo de "El viajero más lento", o bom par de meses que o livro descansou em minha biblioteca). São trinta e cinco textos, se incluirmos o prólogo e os dois novos epílogos (preparados especialmente para essa reedição). Os textos originais, publicados em jornais e revistas antes que em livro, pertencem a um período longo de tempo, o mais antigo de 1968, boa parte deles, do final dos anos 1980. São ensaios literários, reflexões sobre literatura, autores. Não li nem metade de tudo o que Vila-Matas já publicou, mas nesse livro reconheço vários dos temas caros à ele: o jogo da citação literária, dos pastiches, o jogo das influências, das opiniões sobre a história da literatura contemporânea, o censo dos habitantes do mundo maravilhoso dos livros, a invenção amalucada de conexões entre temas aparentemente díspares. O próprio Vila-Matas apresenta cada um dos textos e indica ao leitor quais narrativas longas brotaram das idéias originais publicadas no livro. Ele fala também de seu método de invenção (se é que isso é possível) e da escolha de leituras e temas. Gostei muito de ler a entrevista com Marlon Brando que ele fingiu traduzir em 1980 (cabe lembrar que nele nenhuma informação pode ser trivialmente aceita como verdadeira). A entrevista (verdadeira?) com Salvador Dali também está incluída na compilação. A história do exílio de don Pio Baroja (El acero del dolor) é particularmente tocante. Nela encontramos a associação entre o ofício do escritor e o ato de cruzar fronteiras, uma coisa boa de se pensar. É um livro para se disfrutar, com calma e prazer, mas tendo em conta, como Vila-Matas mesmo diz: "Ya hace años que no soy nada amigo de las afirmaciones categóricas. Salbo que sean dichas en tono irónico." Sejamos irônicos pois. [início 24/10/2011 - fim 13/11/2011]
"El viajero más lento: El arte de no terminar nada", Enrique Vila-Matas, Barcelona: editora Seix Barral, 1a. edição (2011), brochura 13,5x23 cm, 222 págs. ISBN: 978-84-322-0943-7 [edição original: Barcelona: Anagrama, 1992]

domingo, 13 de novembro de 2011

o dinheiro e as palavras

Li esse "O dinheiro e as palavras" simultaneamente ao bom "O negócio dos livros". Mas eles são livros com projetos diferentes. "O negócio dos livros" é um livro de memórias, onde Schiffrin conta seus tempos na editora Phanteon e reflete um tanto sobre como o ofício de editar e comercializar livros modificou-se nas últimas décadas. Dez anos após "O megócio dos livros", Schiffrin foca seu discurso em alternativas ao cenário terrível que apresenta logo na introdução: o controle da publicação de livros por conglomerados, a  pressão por lucros imediatos, a expansão desse conceito aos mercados inglês, francês, alemão e espanhol. Não apenas a diversidade de títulos, o preço deles e a facilidade de acesso a informações que está em risco, Schiffrin advoga que são a democracia e a liberdade que estão sob ataque sistemático dos grandes conglomerados. Ele afirma que a imprensa tem sido criminosa em não cobrir adequadamente essas questões. Bueno. Se eu tivesse de escolher um subtítulo adequado para os dois livros defenderia algo do tipo "It's the economy, stupid". Digo isso pois é a lógica onipotente da economia de mercado que explica a concentração da capacidade de editar e comercializar livros em poucos grupos e que explica o comportamento padronizado, hoje, de quase todos os agentes desse setor. Mesmo em um país com um mercado ridiculamente pequeno como o brasileiro as transformações são bastante visíveis (entrada de grandes grupos americanos e europeus no mercado, fechamento de livrarias independentes e sebos, fechamento de distribuidoras de livros, aumento da força relativa de compras - e controle - governamentais, pasteurização dos métodos e das idéias através da manipulação dos meios de divulgação, a presença perene da mídia no negócio). Talvez, mais do que dirigido àqueles envolvidos na linha de produção e comercialização dos livros (editores, publicitários, agentes, gráficos, designers, livreiros, antiquários, jornalistas) é aos escritores (ou aspirantes a escritores) que esse livro parece ser mais útil. Um escritor não pode hoje ficar encastelado em seus originais chorando a ausência de editor/mecenas (e vale lembrar que a morte da maioria deles aconteceu há uns dois séculos, mais ou menos). Ao menos para os agentes que não são cínicos e não vivem apenas de reproduzir conceitos bobos esse livro é seminal. Talvez, como no mundo todo, no Brasil haja uma glamurização excessiva ao ato de escrever, ao ofício de falar e viver dos livros, que, associada a uma condenação paranóica as forças do mercado, por conta da eventual capacidade dessas forças de impedir o acesso do público leitor às maravilhas criadas por esses escritores estóicos e abnegados, tenha tornado o negócio dos livros um setor complexo demais para ser entendido apenas pela régua do amor que muitos devotam a ele. [Me irrito com a patetice de quem defende o ato de ler, mas não lê - como legiões de políticos, notadamente no Brasil; defende o livre pensamento, mas é escravo mental de associações, partidos e empresas; defende apoio governamental, mas quer apenas dinheiro chapa branca para desviar para sua turminha. O negócio da cultura não é para estômagos sensíveis e eu sou um chato profissional, fazer o quê?] Schiffrin tem um texto muito bom e o livro é fácil de ler. Os capítulos são objetivos: qual é o papel do estado?, o caso norueguês pode ser copiado?, o exemplo do cinema é adequado?, a canibalização das livrarias é um fenômeno reversível?, o jornalismo sobrevive ao esgotamento imposto pelas redes sociais?, é possível financiar publicamente os jornais? Em algum momento ele pergunta se a rede de resenhistas pagos, assessores de imprensa, jornalistas palpiteiros, sujeitos que criam prêmios públicos e privados, blogueiros financiados e demais habitantes das redes sociais ajudam ou simplesmente confundem ainda mais os leitores sobre o valor intrínsico de um livro. Se os leitores soubessem que boa parte que é agitado nas redes sociais nada mais é que marola paga pelos grandes conglomerados talvez não se dirigisse tão rapidamente às livrarias. Tirando o fato de que não existe livre mercado nos campos da cultura e que os jovens estão sendo ensinados a desprezar os jornais como fonte de informação suas demais conclusões não são definitivas. Apesar de solidamente calcado em dados estatísticos (de até 2009) há a sensação de que o quadro ainda está incompleto. O papel dos meios digitais não está completamente entendido (nem será tão cedo, dada a aceleração do fenômeno). Essa nova mídia não foi completamente implementada, nem ainda consolidado, não alcançou hegemonia, nem tem um hardware, nem formato definitivo para edição, comercialização e leitura de livros. Qual será o cenário em cinco, dez anos? Schiffrin promete algumas perguntas e algumas respostas, em um novo livro, em breve. Vamos a ver o que acontece. Enquanto isso vou ali ler meus livros (e não me preocupar com os blogueiros pagos, jornalistas toscos, escritores que se descobrem gênios, mas não descobrem que são textualmente ágrafos, sujeitos que advogam a censura como ferramenta de doutrinação e editores inescrupulosos). Assim segue meu mundo.  [início 12/11/2011 - fim 13/11/2011]
"O dinheiro e as palavras", André Schiffrin, tradução de Celso Mauro Paciornik, São Paulo: editora Beí, 1a. edição (2011), brochura 13,5x20,5 cm, 149 págs. ISBN: 978-85-7850-071-9 [edição original: Words & money (Verso books, New York) 2010]

sábado, 12 de novembro de 2011

o negócio dos livros

Apesar do título e da irônica apresentação à edição brasileira assinada pelos editores da Casa da Palavra, não acho que esse seja exatamente um livro de ensaios, onde são defendidos determinados pontos de vista ou idéias (como no caso, algo sobre o funcionamento do mercado editorial). Acho que o livro funciona como a boa autobiografia que é, isso sim. André Schriffin é hoje um sujeito de quase ointenta anos, foi editor poderosíssimo nos anos 1960 e 1970, na respeitada editora Pantheon, à época parte do grupo Random House. O que ele descreve em seu "O negocio dos livros" é a ascenção e queda da Pantheon, fundada por seu pai e alguns sócios ainda no início dos anos 1940, sua inserção nela ainda muito jovem, a transformação dela em uma referência na área (livros de política, economia, sociologia, educação), a história de seu afastamento forçado em 1980 e a criação da New Press, sua editora "sem fins lucrativos". Ao descrever a Pantheon ele fala dos hábitos de leitura, do papel dos livros e da livre discussão de idéias no século XX. Claro, há longas sessões onde Schiffin detalha o processo das sucessivas e agressivas aquisições pelo qual passou o mercado dos livros, até a configuração atual, onde cinco grandes grupos monopolizam 95% das vendas no mercado americano. Para o leitor curioso esses grupos são: Time Warner, Disney, Viacom/CBS, Bertelsmann e News Corporation. O que um sujeito pode acreditar ser uma editora é na verdade parte de um mosaico de marcas de fantasia, selos editoriais, que convergem à um conjunto pequeno de conglomerados. Como esses mesmos conglomerados controlam os demais segmentos midiáticos (jornais, revistas, radios, emissoras de televisão, cinemas, internet, publicidade), o controle das idéias é quase automático. Schiffrin fala basicamente de livros de não-ficção e do mercado americano, mas a situação da literatura de ficção e das editoras em todo o mundo não deve ser muito diferente. "O negócio dos livros" é muito bem escrito, informativo, objetivo e elegante, funciona como uma espécie de thriller literário. Schiffrin apresenta muitos dados brutos sobre o mercado editorial, exemplifica e apresenta sugestões para o futuro. Como o livro foi publicado originalmente em 2000 (e em 2006 em português), Schiffrin é prudente em avaliar o impacto da tecnologia digital na produção e comercialização dos livros, mas todas as afirmações que faz antecipam o que hoje percebemos claramente como realidade (discussões sobre autoria, a questão do copyright, do acesso a internet, da edição e distribuição on-line de livros). Bom livro. [início 11/11/2011 - fim 12/11/2011]
"O negócio dos livros: como as grandes corporações decidem o que você lê", André Schiffrin, tradução de Alexandre Martins, Rio de Janeiro: editora Casa da Palavra, 1a. edição (2006), brochura 14x21 cm, 184 págs. ISBN: 85-7734-023-6 [edição original: The business of books: How the international conglomerates took over publishing and changed the way we read (Verso books, New York) 2000]

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

os demônios

Sabia da existência desse livro, mas foi ao andar com o industrioso designer Paulo Chagas, na Feira do livro de Porto Alegre, que topei com ele. O Paulo comprou primeiro, mas eu também consegui meu exemplar. Eloar Guazzelli é um artista plástico e ilustrador dos bons. Tem trabalhos bem variados, um traço que convence sempre e uma imaginação dos diabos. Aqui ele adapta um conto fantástico de Aluízio Azevedo, escrito no final do século XIX. Não conhecia o conto, mas fiquei curioso. Procurei nos meus guardados, para tentar ler o original, mas só consegui mesmo uma versão pela internet, que já imprimi e lerei um dia desses. É um conto curto, pouco menos de 10 mil palavras. Aluízio Azevedo descreve uma experiência de terror noturno, aquela sensação terrível de algo imaterial, irreal, que esteja mesmo acontecendo e nos assombrando. Quem já não passou pelos aborrecimentos gerados pelo medo? A adaptação do Guazzelli é realmente poderosa e encantadora. Ele se concentra em tons escuros, noturnos, usa uma paleta cromática mágica, cria aquela perturbação que prende e enreda o leitor. Uma graphic novel tem que alcançar valor intrínsico, sem depender do texto original, do roteiro, tem de acrescentar algo a obra que emula e transveste em um novo formato. Sou suspeito para falar da arte de Guazzelli, mas acho que ele alcançou esse efeito nesse trabalho. Experiência divertida essa. Cousa boa. [início - fim 06/11/2011]

"Demônios (em quadrinhos)", Aluízio Azevedo, adaptado por Eloar Guazzelli, São Paulo: editora Peirópolis, 1a. edição (2010), brochura 20,5x27 cm, 56 págs. ISBN 978-85-7596-183-4

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

el oro del rey

Uma das coisas que faço com reiterado prazer é voltar às histórias ligeiras, aos romances de aventuras, aos livros que cobram um exercício de minha memória afetiva, ao reconstruir com prazer aquelas tardes sem fim que ficava lendo os livros de meu pai. As aventuras do capitão Alatriste começaram a ser produzidas por Arturo Pérez-Reverte há pouco mais de quinze anos e alcançaram assombroso sucesso de crítica (o entusiasmo do catedrático Francisco Rico é insuspeito) e de público (as vendas se contam na casa dos milhões). De fato essa série de livros de Pérez-Reverte desvelam algo da Espanha do Siglo de Oro, quando o império se estendia por todo o globo. Como sempre, também em "El oro del rey" a história é narrada por Íñigo Balboa, que já velho, relembra os sucessos de sua juventude ao lado do industrioso capitão Alatriste. A ação se dá logo após os feitos descritos em "El sol de Breda", na cinza e fria região de Flandres, mas agora estamos em território espanhol, na ensolarada Andaluzia, na região do porto de Cádiz, da cidade de Sevilha, de Sanlúcar de Barrameda e do rio Guadalquivir. Alatristre é recrutado pelo duque de Medinaceli para uma empreitada arriscada em nome do rei da Espanha (Filipe IV): resgatar um grande carregamento de ouro que está sendo desviado pelo duque de Medina-Sidonia, o poderoso mandatário de toda a região da Andaluzia. Pérez-Reverte usa elementos históricos reais (uma conspiração independista planejada por Medina-Sidonia em meados do século XVII) e a flexibilidade do mundo da ficção inventado por ele, para contar uma história divertida,e movimentada, mas, claro, repleta de coisas previsíveis como combates singulares, visitas a catacumbas e prisões, passeios pela região do Guadalquivir, lutas encarniçadas com espadas e punhais, escaramuças noturnas, assaltos a navios repletos de soldados inimigos, mortes honradas e mortes miseráveis, condecorações honoríficas, reconhecimento público pelas façanhas. Há também o tempero das paixões amorosas, como a de Íñigo por Angélica de Alquézar, a sobrinha de um grande inimigo de Alatriste, que já conhecemos dos volumes anteriores do ciclo (O capitão Alatriste, Limpeza de Sangue, El sol de Breda), assim como a aparição mefistotélica do espadachim Gualterio Malatesta. Alatriste está como sempre caladão, pouco filosófico e muito objetivo. É uma máquina de guerra renascentista. O escritor Francisco de Quevedo volta a aparecer, como sempre usado por Pérez-Reverte para pontuar aqui e acolá com alguma referência histórica (ou para histórica) mais ou menos confiável. O trabalho de pesquisa de Pérez-Reverte não deve ser trivial e o efeito alcançado é mais que satisfatório. Leitura para um dia vagabundo, sem culpa e sem temor. [início 30/10/2011 - fim 01/11/2011] 

"El oro del rey (Las aventuras del capitán Alatriste) volume IV", Arturo Pérez-Reverte, Madrid: Punto de lectura (grupo Santillana de ediciones), 2a. edição (2008), brochura 12,5x19 cm, 254 págs. ISBN: 978-84-663-2056-6 [edição original: Madrid: Alfaguara, 2000]

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

vertigem

Winfried Georg Maximiliam Sebald, ou apenas W.G. Sebald, como ele assinava seus livros, tinha 46 anos e uma consistente carreira acadêmica quando publicou "Vertigem", seu primeiro texto de ficção, em 1990. Também foi poeta, ensaista e tradutor, mas foram seus livros de ficção que garantiram a ele reconhecimento e admiração. Em um período curto, pouco mais de dez anos, publicou cinco livros que são muito parecidos entre si, formando um conjunto bastante homogêneo, que talvez devesse ser lido como elementos de um único projeto literário, de uma única proposta estética. Suas longas descrições de lugares, pessoas (e das sensações que ele experimenta) parecem sempre fugir de algo objetivo, afastando-se de um final possível. Sua narrativa acumula digressões que ora aguçam a curiosidade do leitor, mas ora o entendiam. Entretanto Sebald, em geral, sabe equilibrar o que poderíamos chamar apenas de enumeração das coisas de seu interesse (a fixação de memórias pessoais e coletivas, o contraste entre o choque do novo e encantamento com aquilo que o hábito - fiel camareiro, dizia o Prout - nos oferece reiteradamente). Ele traça correspondências entre acontecimentos de sua vida (ou da vida do sujeito que narra a história, há uma superposição curiosa aqui) que parecem muito distante entre si, tanto espacialmente quanto temporalmente, mas que parecem encontrar alguma ordem na forma organizada por ele. Acho que é justamente à Proust que Sebald deve algo, afinal de contas. No "Em busca do tempo perdido" há uma história grandiosa que o leitor acompanha até descobrir no último volume o resultado das metamorfoses, das sucessivas encarnações dos personagens de Proust. Nos cinco livros de Sebald o que encontramos são reflexões e digressões sobre as experiências de vida do autor, que vive parte do horror da segunda grande guerra mundial, emigra ainda jovem à Inglaterra, alcança uma formação e uma atividade profissional sólida, mas que precisa prescrutar seu passado para entender do quê realmente é feito. Isso se repete em todos os livros dele que li (mesmo aqueles onde isso é subentendido, velado). "Vertigem" é dividido em quatro seções, que implicam em viagens de descobrimento e volta para reflexão. Primeiro ele fala de Henri Beyle (sem ajudar o leitor lembrando-o que é de Stendhal que se fala). Descreve as viagens de Stendhal pelos domínios de Napoleão e suas relações amorosas (que lembram as bizarrices de um Casanova). Na segunda seção é o narrador quem percorre um caminho parecido com o de Beyle/Stendhal, saindo de Viena, passando por Innsbruck e depois flanando pelo norte italiano, por Veneza, Verona, Pádua e Riva. O narrador de Sebald conversa com estranhos, anota impressões, experimenta coisas. Ele sempre dá um jeito de encontrar algúem que tem tanto apreço pela memória e por contar histórias como ele (claro, isso é artificial, ficcional, não há como se repetir tantas vezes no mundo real, apesar da realidade sempre ser mais surpreendente que o mundo da ficção). Na terceira seção Sebald faz um desvio e fala dos tempos de Franz Kafka em um sanatório de Riva del Guarda, no norte italiano. Através das cartas amorosas (confusamente amorosas) de Kafka dirigidas a Felice Bauer (e nesta parte Sebald deve muito ao que Elias Canetti fala do amor e do amor epistolar) Sebald desenvolve a sua teoria do amor. Na parte final Sebald (talvez fortalecido por suas errâncias italianas) parte em busca de um outro tipo de amor, o amor por uma cidade que foi a sua na Alemanha, na infância e adolescência, antes da emigração quase forçada à Inglaterra. Ali, praticamente incógnito, como um Ulysses que retorna a Ítaca mas não tem pretendentes para abater (se é que os fantasmas pessoais de uma pessoa não possam ser representados pelos pretendentes - é uma coisa para se pensar), o narrador resgata algo de seu passado, fala de suas surpresas, de suas decepções. Mas a volta inevitável à Inglaterra é feita com um novo olhar, pois cada experiência que acumulamos nos metamorfoseia um tanto e, mesmo quase-estaticamente, como na termodinâmica, voltamos diferentes de qualquer viagem (ou de qualquer vilegiatura, como Proust já nos ensinou no "Os prazeres e os dias"). Se o narrador estava incomodado e aborrecido com algo ao iniciar sua jornada ("uma fase particularmente difícil de minha vida", ele diz) ao final há a rotina e o hábito para consolá-lo das eventuais agruras que o acompanharam e que ele ainda traz de volta. Em "Vertigem" assim como nos demais livros de Sebald, há muitas imagens distribuídas no texto. Nos volumes iniciais de sua obra de ficção (Vertigem, Os emigrantes) ainda encontramos associações explícitas entre as imagens e o texto, mas nos volumes finais (Os anéis de Saturno, Guerra aérea e literatura, Austerlitz) essa associação é menos objetiva, como se ele experimentasse afirmar seu estilo. Não acredito que um outro sujeito possa usar os mesmos recursos narrativos de Sebald, imitá-lo, emulá-lo, sem parecer anacrônico e besta (já li coisas assim na seara de vários  "Jovens Escritores de Literatura Brasileira Contemporânea" - definição boa desse fenômeno inventada por don Hugo Crema - mas o efeito é risível). Afinal parece que seus temas e o tratamento que ele dá a eles é algo que não emigra bem para às mãos de um outro autor. De qualquer forma a experiência de ler esses contos e romances de Sebald foi proveitosa (um ponto para don Fernando Landgraf pela dica). O duque de Vértigo (título literário-nobiliárquico concedido por Javier Marías a Sebald em 2000) tem mesmo genuíno valor. [início 23/10/2011 - fim 25/10/2011] 
"Vertigem: Sensações", W.G. Sebald, tradução de José Marcos Macedo, São Paulo: editora Companhia das Letras, 1a. edição (2008), brochura 14x21 cm, 199 págs. ISBN: 978-85-359-1334-7 [edição original: Schwindel: Gefühle, (Eichborn Verlag) Frankfurt/Deutschland, 1990]

terça-feira, 1 de novembro de 2011

hijos sin hijos

Esse pequeno livro de contos de Enrique Vila-Matas não é exatamente arrebatador. Claro, as histórias são inventivas, cheias de malabarismos mentais e funcionam como provocação intelectual e entreterimento rápido, mas não pertencem ao melhor que li dele até aqui. O que encontramos em "Hijos sin hijos" são treze contos amalucados. Dez deles são curtos, cinco curtíssimos e um relativamente longo. A maioria envolve o universo dos sonhos, das metamorfoses, das reflexões rápidas anotadas em uma espécie de diário. Por vezes os narradores das histórias, frente a perplexidade com a vida, flertam com perversões, amoralidades, logro e mentira. Noutras parecem se esforçar para esconder ou cifrar coisas, mas sem a enxurrada de citações  que tipicamente são utilizadas por Vila-Matas. Cada uma das histórias é localizada espacial e temporalmente, como se o autor pretendesse apresentar um painel da geografia e da história de seu país através de relatos que são cotidianos, personalizados, antes confissões. pessoais que digressões de terceiros. O padrão para se entender as histórias é oferecido pelo próprio autor (em sua generosa e completíssima webpage), quando afirma que os heróis dessas histórias são pessoas que ao decidirem não deixar descendência somente sobrevivem naquilo que produzem e dizem, naquilo que contam e registram. Não farei um censo das histórias aqui, mas gostei de uma em que após o marido perder o emprego sua mulher decide também ficar desempregada (Mandando todo al diablo); do thriller pseudo-religioso de La familia suspendida; do tom folhetinesco e labiríntico de El hijo del columpio; da história onde uma garota conta sucessos de amor e morte em uma relação incestuosa (Mirando al mar y otros temas); da história onde um garoto mudo aterroriza seus pais (Te manda saludos Dante). Haverá algum outro Vila-Matas por aqui em breve. [início 13/10/2011 - fim 23/10/2011]
"Hijos sin hijos", Enrique Vila-Matas, Barcelona: editorial Anagrama (compactos), 2a. edição (2007), brochura 13,5x20,5 cm, 217 págs. ISBN: 978-84-339-6687-2 [edição original: Barcelona (editorial Anagrama) 1993]

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

os emigrantes

Por comodismo vou classificar esse livro como de contos, mas ele é algo indefinível, um híbrido, um misto de relatos inventados, biografias e memórias. Vou deixar os comentários sobre a forma e o estilo dos livros de Sebald para depois, quando fizer o relato do último dos livros dele que li (que por acaso é o primeiro publicado por ele, Vertigem). "Os emigrantes" é de 1992. São quatro relatos breves, quase-biografias de sujeitos que emigraram, pessoas que experimentaram o desapego de suas histórias, de suas famílias, de suas origens. Mas esses retratados não são exatamente reais - apesar de certamente serem decalcados de pessoas reais, aparentados ou bons amigos do autor. Digo isso apenas na medida em que alguém pode ser amigo de alguém, inclusive porque o conceito de amizade de Sebald é algo mais complexo do que transparece desses relatos. Os quatro personagens (Henry Selwyn, Paul Bereyter, Ambros Adelwarth, Max Ferber) representam uma coletividade, uma legião formada por todos que experimentaram a violência, a perda e o desespero derivados das guerras que assombram os homens. Sebald fala do desapego e do desespero, mas também da idéia da morte, do suicídio, como forma - válida - de se entender o mundo (e como forma de abandoná-lo, como já nos ensinou o Vila-Matas). A origem dos personagens é variada. Selwyn é lituano, emigra para a Inglaterra no final do século XIX, exerce a medicina com relativo sucesso, mas termina seus dias despauperado, cuidando de plantas e cavalos em uma propriedade rural. Já Bereyter é um professor alemão da escola primária, de mãe alemã e pai meio judeu. A se acreditar no relato, Sebald foi seu aluno e Bereyter um excelente educador, disciplinado formador de jovens. A segunda grande guerra força Bereyter a servir no exército alemão e viajar por toda a zona de ocupação. Assim como no caso de Selwyn, no final da vida Bereyter percebe-se esgotado, sem possibilidades, sem alternativas. A idéia de suicídio é inevitável. O terceiro retratado é Ambros Adelwarth, que pode ser um tio-avô do narrador (mas as vezes ele grafa Ambrose e não Ambros, o que me faz pensar que existe um Adelwarth histórico e um ficcional - ou que houve um erro de revisão na produção do livro, o que seria engraçado afinal de contas). Esse Ambros emigra para os Estados Unidos e vive como mordomo de um rico rapaz, herdeiro de banqueiros judeus de Nova York. Esse rapaz é viciado em jogos e cassinos, acaba enlouquecendo e sendo internado em uma clínica, onde morre. Ambros continua servindo os pais desse rapaz até aposentar-se e internar-se voluntariamente também ele em uma clínica para doentes mentais, onde padece de sofrimentos terríveis nas mãos de médicos algo inescrupulosos. O último personagem é um pintor, Max Ferber, cujos pais morreram em um campo de concentração. Assim como Sebald esse sujeito emigrou da Alemanha para a Inglaterra, radicando-se na cinza, industriosa e poluída Manchester. As descrições de Sebald são poderosas. O impacto da história recolhida no diário da mãe de Ferber, às vésperas de seu internamento nos campos de concentração, é terrível. Diferentemente dos livros posteriores de Sebald nesse há um diálogo explícito entre as imagens do livro e o texto. Há idéias inventivas nele, como o comentário sobre a inveja que pretensamente os alemães tinham (e talvez ainda têm) dos nomes judeus, o uso reiterado de passaportes e vistos ou a imagem das três jovens parcas entrevista em um quadro pintado por Ferber. Uma coisa que se repete nas histórias e me chamou a atenção é o estranhamento que o narrador de Sebald sempre experimenta com atendentes nos hotéis em que se hospeda, como se ele emulasse a timidez de um emigrante que é humilhado sistematicamente ao se apresentar nos balcões de check-in. Sebald sempre encontra interlocutores (que junto com ele são os narradores das biografias de seus personagens) tão detalhistas e meticulosos como ele. Sebald, também um emigrante, alguém que se confunde com seus personagens, também poderia ter suas andanças pela Europa descritas por algum autor que se apropiasse de sua história. Esses narradores auxiliares acabam lembrando o leitor do artificialismo de sua técnica, mas isso pode também ser proposital. É coisa para se pensar. Vou deixar isso para a resenha do Vertigem, que em breve incluirei aqui. [início 14/10/2011 - fim 24/10/2011] 
"Os emigrantes", W.G. Sebald, tradução de José Marcos Macedo, São Paulo: editora Companhia das Letras, 1a. edição (2009), brochura 14x21 cm, 287 págs. ISBN: 978-85-359-1462-7 [edição original: Die Ausgewanderten: Vier lange Erzählungen, (Carl Hanser Verlag) München/Deutschland, 1992]