sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

juro no decir nunca la verdad

Em "Juro no decir nunca la verdad" encontramos 95 crônicas publicadas originalmente no El País Semanal entre 10 de fevereiro de 2013 e 01 de fevereiro deste terrível 2015 que se encerra. Mesmo passados os muitos meses de sua publicação nenhuma das crônicas parece datada ou envelhecida, nenhuma soa incongruente ou irrelevante. O estilista Javier Marías dos romances e contos é também um inventor inspirado em suas crônicas. Marías sobretudo argumenta, defende uma posição, contrasta seu entendimento das coisas com o senso comum ou com opiniões de terceiros. Ele sempre é implacável em seu juízo, mas nunca mal educado ou descortês. É justo (como sabem ser Eáco, Minos e Radamanto, os juízes do inferno), seja com os políticos de seu país, com o patético ex-treinador do seu time de futebol, com os funcionários de um aeroporto em Londres que roubaram pertences seus, com  colegas escritores, ou ainda com vizinhos de bairro e conterrâneos madrilleños. Trinta ou quarenta por cento dos textos são marcadamente políticos, onde Marías interpreta o momento político e econômico do seu e dos demais países da comunidade européia, mas há um número maior de textos sobre outros assuntos, como seu ofício, suas influências literárias, sua família e amigos, sua memória das coisas da infância ou juventude, seu azedume em relação a onipresença da igreja no cotidiano espanhol, sua paixão pelo cinema ou sua prática como acadêmico nas reuniões da Real Academia Española de la Lengua. Dos disparates que presencia ou lê brotam crônicas nada ligeiras. Produzidas para emular falsa simplicidade, elas se deixar ler nos domingos pela manhã ora com sorriso ora com esgar. Nelas encontramos argumentos vigorosos e complexos, seminais e definidores. Ele nunca é panfletário ou engajado (no mau sentido da palavra, ou seja, no sentido que experimentamos, por exemplo, na quase totalidade das opiniões de intelectuais e escritores brasileiros contemporâneos). Ele nunca se ilude com a aparência do que vê, reproduz versões oficiais, aceita as promessas ou regras dos jogos de poder (coisa que os servis jornalistas brasileiros, quase todos escravos mentais de alguma forma pagos com dinheiro público, fazem rotineiramente). Quando ele acusa um erro ou atenta para um problema sempre encadeia seus argumentos com lógica e método. Ele antecipa movimentos e/ou desdobramentos dos fatos aparentemente corriqueiros que registra. Apesar de reiteradas mostras de sabedoria Marías nunca é pedante (seu humor é algo que encanta o leitor mesmo quando o assunto é árido, complicado, de entendimento sutil). Como não rir do sarcasmo de um "Si los tontos volaran no se vería el sol"? Pois então. Quer ler algo não ficcional de Javier Marías? Experimente a leitura de qualquer um de seus conjuntos de crônicas: Mano de sombraSeré amado cuando falteA veces un caballeroHarán de mí un criminalEl oficio de oír lloverDemasiada nieve alrededorNi se les ocurra disparar e Tiempos ridículos. Em todos encontramos aulas exemplares da história recente da Espanha. Bom divertimento. Cabe aqui uma última nota. Há um causo que vou lamentar por muitos anos ainda. Acontece que perdi a oportunidade, em fevereiro último, de cumprimentar don Javier Marías. O vi na Calle Cava Baja, em Madrid. Estávamos Lola, Manolo e eu saindo da Taberna e Posada de la Villa, onde havíamos tomado umas copas e fazíamos planos para jantar. Lola chamou nossa atenção e disse que o Marías estava ali, na diagonal, do outro lado da rua, fumando calmo seu cigarro debaixo do dintel de uma porta. Fiz menção de irmos lá cumprimentá-lo, porém Lola lembrou do quão zeloso de sua privacidade era ele. Estava frio naquele inverno e o lusco-fusco do início da noite fazia as luzes bruxulearem. Ficamos uns minutos ali parados, indecisos, em quase transe. Manolo bromeava como sempre faz, nos incentivando a cruzarmos a rua e eventualmente recebermos nossa cota de impropérios marianos. Lola lembrou de uma amiga que não foi exatamente bem recebida em circunstâncias parecidas. Fomos covardes, ai de nós, decidimos deixá-lo na paz de seu santo cigarro. Seguimos no sentido oposto, Cava Baja abaixo e ficamos um bom tempo falando dele e de seus livros. Manolo ria de nossa continuada timidez. Nem Lola nem eu sabíamos explicar o que de fato nos impediu. Era tarde. Como teria sido divertido ter ao menos balbuciado um par de frases com ele naquele dia. Vale.
[início: 07/10/2015 - fim: 05/12/2015]
"Juro no decir nunca la verdad", Javier Marías, Madrid: Alfaguara (Grupo Santillana de ediciones), 1a. edição (2015), brochura 14x22 cm, 378 págs. ISBN: 978-84-204-1210-8
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Balanço final [25.12.2015]
Ninguém intelectualmente honesto pode dizer que 2015 foi um bom ano para o Brasil e para os brasileiros. E mais não digo sobre a irreversível miséria mental e moral que se abateu sobre esse desgraçado país. Ponto. Li um bocado, 109 livros, mas não consegui produzir as resenhas no mesmo ritmo das leituras (o fato de mudar de apartamento e queimar meu computador semanas atrás explica um tanto, mas não tudo deste descompasso). Estou devendo escrever registros de livros que li ainda no início de novembro. Paciência. Esse foi o ano dos romances. Foram 41 (38% do total). Só em 2009 havia lido tantas narrativas longas (talvez para compensar o fato de ter-me dedicado no ano passado a ler muitos ensaios e outros volumes de não-ficção). Nessa cota de romances quase um terço é invenção do Patrick Modiano, prêmio Nobel do ano passado, que li com disciplina e método (a obra dele é mesmo um interessante mosaico de livros curtos e potentes). Li um bom conjunto de livros em espanhol e vários em inglês comprados em Dublin, livros que tratam do mundo de James Joyce, pomos de ouro colhidos numa viagem há tanto tempo planejada. Li volumes do Haruki Murakami que não me agradaram nada, coisas da Natalia Ginzburg que me agradaram um bocado e reli o ciclo Fundação do Asimov com pouco mais que tédio (Noigandres, eh noigandres). Gostei dos vários Joseph Roth que li e fiquei realmente impressionado com o poder da narrativa do romeno Mircea Cartarescu (haverá vários dele em 2016, seguro que sim). Dediquei bom tempo ao robusto conjunto de ensaios sobre J.M. Coetzee editado pelo Lawrence Flores e a Kathrin Rosenfield. Aproveitei cada minuto da leitura da tradução que o Lawrence fez do Hamlet. Ouro puro. Li vários livros independentes (digamos assim), livros editados por pequenas editoras, de gente que acredita sobretudo no poder da palavra e de sua capacidade de contribuir com algo seu no mar revolto da literatura (autores que ou são vaidosos o suficiente ou muito seguros de si para se atreverem-se a publicar algo numa época em que a maioria das pessoas mais se orgulha de ser imbecil e/ou analfabeta do que qualquer outra coisa). Fiz 109 registros de leitura, um tanto acima da média dos três anteriores, mas algo abaixo da média histórica, iniciada em 2007, que é agora de 113 livros por ano. Foram 41 romances; 17 de crônicas e ensaios; 14 de contos; 7 de histórias em quadrinhos, graphic novels, cartuns ou mangás; 6 novelas; 5 de poesia; 3 de perfis, biografias, memórias e relatos; outros 3 de ficção científica; 2 de fotografias e 2 de turismo; além de apenas um dos seguintes nove gêneros: romances policiais; infanto-juvenis; gastronomia; arte; didáticos; dramas; cartas; catálogos e de divulgação científica. Abandonei uma miríade de projetos, desisti de coisas que sabia serem fundamentais, importantes até demais, mas que não resistiram a meu caótico processo de leitura. Ultrapassei a mítica marca dos 1000 livros lidos desde que comecei a fazer esses registros (sabe-se lá quantos livros li antes, entre meados dos anos 1970 e o final de 2006, mas sei que foram mais de 2000). Falei sobre a vertigem de fazer essa lista de livros lidos num artigo publicado na Revista Cândido (da Biblioteca Pública do Paraná). Fizemos a festa dos 90 anos para meu pai, o original Aguinaldo Severino, grande festa, grandes alegrias. O Sr. BB, o mais jovem de nossos gatos, morreu. A Pato, a nova mais jovem gata, apareceu. Helga e Natália seguem bem. Estamos a sair do #403 para o #902, animados. Organizei com ajuda da CESMA e do Ponto de Cinema mais uma edição do Bloomsday Santa Maria, a vigésima-segunda da série. No ano que vem faremos a edição número 23 e comemoraremos os cinquenta anos da tradução que o Antônio Houaiss fez do Ulysses (o Galindo até reclamou da escolha, mas para ele já tenho planos, em 2022). Viajei para Dublin, Pamplona e Madrid. Em Dublin tive a sorte de conhecer dois arquitetos, o Kevin e seu irmão John, esse último um sujeito que sabia um bocado de coisas sobre o Joyce e me abriu um bocado de portas mágicas (sem ele não teria conhecido o mercurial Brendan e sua James Joyce House, nem as casas onde viveu James Joyce, nos subúrbios ao sul de Dublin, Rathgar e Rathmines). Conhecer o adorável P.J. Murphy, o industrioso Conor Fennell e o povo amigo da Martello Tower também foram experiências dos diabos. Nunca há timidez quando se trata de verdadeiros viciados em James Joyce e sua obra. A cidade tratou-me com cortesia e eu soube bem minha cota de Guinness. Sláinte. Ah! E em 2016 começo o décimo ano desta série de registros de leitura. Veremos.
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quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

o homem que queria ser rei

Em "O homem que queria ser rei" Kipling cria um narrador que nos conta a história de dois ingleses, Peachy Carnehan e Daniel Dravot, que empreendem a façanha de tornarem-se reis em um pequeno vale nos confins do Afeganistão. A história se passa na primeira metade do século XIX, quando a Inglaterra já controla e administra os territórios atuais da Índia, Paquistão, Bangladesh e Mianmar. O narrador é um jornalista que encontra por acaso um dos sujeitos ambiciosos em uma viagem de trem. Este o convence a entrar em contato com um seu colega e transmitir-lhe uma mensagem cifrada. Antecipando os riscos envolvidos no planos dos dois sujeitos o jornalista num primeiro momento consegue impedi-los de cruzar a fronteira em direção ao Afeganistão quando alerta as autoridades da presença dos dois aventureiros na região. Os dois posteriormente o procuram na redação do jornal e conseguem dele mapas e informações atualizadas sobre a geopolítica da região. Entediado no tórrido verão indiano e sem notícias importantes para divulgar dessa vez ele se diverte alimentando o mirabolante plano dos dois, já que no fundo pouco acredita em sua viabilidade. Despede-se dos dois quando ambos já estão disfarçados de peregrinos muçulmanos em uma caravana rumo à fronteira. Anos mais tarde, Carnehan, bastante ferido e visivelmente endoidecido, aparece na redação do jornal, conta detalhes de suas aventuras e as circunstâncias da morte de Dravot. Trata-se de uma novela engajada, moral, metafórica, através da qual Kipling denuncia os métodos de dominação inglesa do subcontinente indiano. A história faz várias alusões aos ritos e à simbologia maçônica (Carnehan e Dravot utilizam princípios e técnicas dos maçons para fazerem-se passar por deuses encarnados e submeterem os habitantes do longínquo e miserável vale afegão). A história é movimentada e divertida. Lembro-me de ter visto uma versão cinematográfica dela em meados dos anos 1970 (Sean Connery no papel de Dravot e Michael Caine no de Carnehan, John Houston assinou a direção do filme). Esse livro faz parte de uma coleção de histórias curtas (A arte da novela, da Grua Livros, originalmente produzidas pela Melville House Publishing, da qual já li "A briga dos dois Ivans", "A lição do mestre", "O colóquio dos cachorros", "Michael Kohlhass" e "O véu erguido").
[início: 02/12/2015 - fim: 03/12/2015]
"O homem que queria ser rei", Rudyard Kipling, tradução de Sérgio Flaksman, São Paulo: Grua livros, 1a. edição (2015), brochura 13x18 cm., 74 págs., ISBN: 978-85- 61578-49-7 [edição original: The Man Who Would Be King / The Phantom 'Rickshaw and Other Eerie Tales (Allahabad/India: A.H. Wheeler and Co. of Allahabad) 1888]

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

dicionário amoroso do rio de janeiro

Esse é um dos volumes da coleção "Dicionário Amoroso de ..." editados pela Casarão do Verbo. Já fiz visitas guiadas pelo Recife de Urariano Mota, a Salvador de João Filho, a Porto Alegre de Altair Martins e a Curitiba de Marcio Renato dos Santos, agora é a vez do Rio de Janeiro de Alvaro Costa e Silva. São 48 verbetes, 48 crônicas curtas, onde ele conta algo dos lugares que frequenta e aprendeu a amar. É um livro que canta mais a cidade, o centro da cidade, suas ruas e gentes, menos seu mar e suas praias, de seus morros e de sua periferia. Um outro escritor ou jornalista que fosse escalado para sua função talvez escolhesse outros temas, os abordaria de forma diferente, enfatizaria outros assuntos, elencaria outros personagens para ilustrar a persona do carioca arquetípico. Como não, em se tratando de uma cidade tão plural e encantadora quanto o Rio de Janeiro? Há temas inevitáveis, claro. Alvaro fala de bares e sambistas, das ruas e do futebol, dos blocos de carnaval e dos muitos cronistas que já contaram como ele a cidade, mas consegue escapar de esteriótipos e generalizações. Alguns verbetes são criações de amigos: Alexei Bueno fala das esculturas da cidade; Luiz Simas de velhos sambas de enredo; Ruy Castro dos sebos; Alberto Mussa dos romances ali ambientados; Kamille Viola de algo da vida noturna. As ilustrações do livro são assinadas por Aliedo Kammar. Divertido.
[início: 11/12/2015 - fim: 13/12/2015]
"Dicionário amoroso do Rio de Janeiro", Alvaro Costa e Silva, Anajé/Bahia: Editora Casarão do Verbo, 1a. edição (2015), brochura 15x23 cm., 272 págs., ISBN: 978-85-61878-45-0

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

o ano em que vivi de literatura

O ano de Graciliano, um escritor gaúcho radicado no Rio de Janeiro e narrador de "O ano em que vivi de literatura", é 2011, mas começa mesmo em novembro de 2010, quando encontra por acaso, num elevador de hotel paulista, uma das juradas de um grande prêmio literário. O sujeito eventualmente ganha o tal prêmio (que ele, antes um bom arrivista que um falso intelectual, transforma num apartamento no Humaitá, bairro de classe média carioca). Graciliano passa seu frenético ano de reinado mundano e literário tentando não pensar no livro novo que deveria escrever, trepando e se embebedando sempre que possível e assombrado com as lembranças de uma irmã de quem não tem notícias há vinte e cinco anos. Paulo Scott utiliza parágrafos longos onde registra muito bem tanto o fluxo de consciência de seu protagonista, seu mundo interior e suas dúvidas, quanto os diálogos exaltados que Graciliano mantém com os bizarros personagens que inventou. Ele descreve com sarcasmo tribos urbanas e literárias, hipsters e acadêmicos, jornalistas e blogueiros, editores e cineastas, todos iguais em suas ilusões, superficialidade, ufanismo, incomunicabilidade e inevitável decadência. O ritmo do livro e o protagonista lembram muito "La dolce vita" (de Fellini) e "Celebrity" (de Woody Allen). Assim como nesses dois filmes assistimos o falso glamour de certos ofícios e vidas (as de jornalista ou de cineasta, respectivamente), "O ano em que vivi de literatura" oferece ao leitor um antídoto à ambição de escrever e tornar-se um ícone literário. O livro termina reproduzindo um encontro casual num elevador de hotel, mas agora Graciliano é apenas cortês, não o escritor sedutor e envolvente que encontramos no início do livro, já parece imunizado do torpor que o cegava, parece ter se apercebido antes que os demais os desdobramentos inevitáveis de uma vida de auto-engano.
[início: 05/11/2015 - 09/11/2015]
"O ano em que vivi de literatura", Paulo Scott, Rio de Janeiro: editora Foz, 1a. edição (2015), brochura 14x23 cm., 253 págs., ISBN: 978-85- 66023-25-1

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

la hierba de las noches

Esse é o décimo-terceiro livro de Patrick Modiano que registro aqui. No ano passado só havia lido um, o infanto-juvenil "Catherine Certitude", logo após a notícia de que ele havia ganho o prêmio Nobel, mas nesse movimentado 2015 consegui encontrar vários outros volumes da serpeante obra desse prolífico escritor. Bueno. "La hierba de las noches" é recente, publicado originalmente em 2012 (o mais recente é "Para que no te pierdas en el barrio"). Como tantas vezes nos demais romances dele encontramos um narrador que explora um mundo que é como a vida real, sempre estranha, no limite do ponderável, surpreendente. Esse narrador descreve a vida como se estivesse encapsulada em uma redoma de vidro. Em algum momento (após muito ver, guardar, experimentar e esquecer) o narrador passa por uma metamorfose e torna-se um escritor, que registra o que lembra, como se sempre tivesse sido um duplo de si mesmo. Em "La hierba de las noches" o narrador é um jovem que nunca larga sua caderneta de anotações, sempre fazendo o censo das tribos urbanas da noite parisiense. Ele é sobretudo alguém que ouve os demais, dá atenção a estranhos, finge acompanhar o raciocínio e as histórias de pessoas desconhecidas. Ser dissimulado não é exatamente falta de caráter ou o comportamento de um trapaceiro, ele faz isso por hábito, como se fosse um colecionador de histórias, nomes e lugares. Esse narrador se envolve com uma garota, estudante universitária. Ela provavelmente anda em más companhias (talvez escroques menores, traficantes, bêbados da noite do Quartier Latin, aliciadores de sua amada, assim pensa o narrador quando jovem,  mas eles são mesmo um grupo de espiões do governo marroquino que atuam clandestinamente em território francês). Em algum momento a garota desaparece, alcança dizer a ele de sua iminente fuga para a Suiça. Ele apenas saberá algo da razões e da verdade quando escrever sobre ela, passados cinquenta anos, anos vividos à mercê dos silêncios, do esquecimento, dos enganos autoinfligidos. Modiano nos lembra que os encontros verdadeiros entre duas pessoas são aqueles nos quais ambas nada sabem uma da outra. Diz também que sempre somos mais discretos sobre nossos amores, sobre nossa vida íntima (do que somos com as paixões alheias) e portanto nunca escrevemos verdadeiramente sobre esses afetos. Fazemos isso porque talvez tenhamos muito medo de perder algo precioso ao ler o que escrevemos no passado sobre nosso arrebatamento, como se estivéssemos lendo um romance vulgar, uma ficção barata. É triste, mas verdadeiro.
[início: 28/10/2015 - fim: 31/10/2015]
"La hierba de las noches", Patrick Modiano, tradução de María Teresa Gallego Urrutia, Barcelona: editorial Anagrama (Panorama de Narrativas #864), 2a. edição (2014), brochura 14x22 cm., 166 págs., ISBN: 978-84-339-7894-3 [edição original: L'kerbe des nuits (Paris: éditions Gallimard) 2012]

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

o frango ensopado da minha mãe

Se lhe cabe nessas festas de final de ano presentear uma pessoa querida (e que goste simultaneamente de culinária e de boa literatura) talvez seja o caso de considerar esse livro da Nina Horta. Quem acompanha suas crônicas semanais na Folha de São Paulo sabe o quão bem ela escreve. Não se trata de uma neófita das letras, uma iniciante dos livros (ainda tenho em meus guardados - e uso - seu "Não é sopa", livro de crônicas e receitas lançado há vinte anos). Em "O frango ensopado da minha mãe" estão reunidas 115 crônicas. Seus assuntos são variados, ela fala do negócio da comida, da alimentação, dos hábitos culinários, da qualidade dos produtos, das memórias paulistas, da perenidade de certas receitas, da gastronomia como fenômeno social, das viagens pelo mundo, faz resenha de livros. Todavia o que torna esse livro especial é a qualidade do texto. Nina Horta faz associações poderosas, cria imagens vívidas de suas experiências, usa um vocabulário rico, cita autores clássicos sem nunca ser pedante. As décadas de experiência em sua empresa de buffet forjaram uma mulher que equilibra bem o humor e a seriedade, partilha sem medo sua sabedoria prática, demonstra ser boa observadora. Em certas crônicas ela está no campo ou na praia e ensina coisas como os passos rápidos para matar e preparar uma galinha; noutras ela está totalmente urbana, senhora dos jogos mundanos, como quando num restaurante sofisticado faz um censo quase cruel dos demais clientes, imaginando suas vidas e pequenas misérias. O livro inclui algumas invenções, bons textos de ficção (Seu "Otelmo" é divertidíssimo, um disfarçado Hamlet mineiro). Divertido.
[início: 09/11/2015 - fim: 11/11/2015]
"O frango ensopado da minha mãe: Crônicas de comida", Nina Horta, São Paulo: editora Schwarcz (Companhia das Letras), 1a. edição (2015), brochura 14x21 cm., 280 págs., ISBN: 978-85-359-2639-2

domingo, 29 de novembro de 2015

a bela helena

Em "A bela Helena" Miriam Mambrini dá voz a uma mulher que conta sua vida como num romance, num Bildungsroman, um romance de formação. Talita (quem é a bela Helena do título só o leitor alcançará descobrir) reflete sobre seu passado; faz um balanço dos sucessos de sua vida; digressa sobre os momentos chave que experimentou; fala de seus amores, sua família, suas conquistas. O tom não é exatamente melancólico, mas a aproximação de seus sessenta anos e de uma festa de passagem de ano dão a suas memórias uma camada de intimidade que é um bocado triste (não explicitamente triste, mas sim daquele tipo de abatimento que só os amigos ou pessoas queridas percebem num sujeito antes que ele próprio se dê conta). A Talita que Miriam inventou é uma carioca, vive na segunda metade do século passado, mas sua existência parece descolada da história do Brasil. Pouco saberá o leitor dos efeitos sobre ela derivados das transformações políticas, econômicas e culturais pelas quais passou a sociedade brasileira. Isso não é um defeito. Miriam alcança deixar sua protagonista manter o interesse do leitor apenas em sua trajetória. Só seu mundo interior, seus sentimentos, as metamorfoses que experimenta importam. Cees Nooteboom escreveu um livro que diz, com uma falsa clareza: "Eu tinha mil vidas e escolhi uma só". A Talita desse "A bela Helena" parece inverter a asserção e dizer algo como: "Eu tinha uma vida e escolhi ser mil mulheres". Vou procurar outras coisas de Miriam Mambrini. Vale.
[início: 17/10/2015 - 19/11/2015]
"A bela Helena", Miriam Mambrini, Rio de Janeiro: editora 7 letras, 1a. edição (2015), brochura 15,5x23 cm., 210 págs., ISBN: 978-85-421-0349-6

sábado, 28 de novembro de 2015

caro michele

"Caro Michele" é uma poética dos sentimentos, mas é uma poética racional, onde a lógica vale mais que a fúria, as surpresas. A imaginação de Natália Ginzburg apresenta cenas da vida privada de uma família italiana do início dos anos 1970 (as histórias do livro acontecem num intervalo curto, pouco mais de dez meses). O leitor encontra aos poucos dezenas de nomes, uma contínua avalanche de personagens, mas todos eles gravitam de alguma forma Adriana, uma mulher ainda jovem, 43 anos, mãe de quatro filhas e um filho, o Michele do título, separada de seu marido, que o leitor descobrirá ser um artista plástico algo excêntrico. Ginzburg desenvolve sua história sobretudo através de cartas mas há vários capítulos onde alguém narra em terceira pessoa. Esse narrador nunca julga os atos que registra (em contraste com os signatários das cartas, sempre críticos e dispostos a desnudar virtudes e defeitos dos demais). As histórias enfeixadas por Adriana formam um mosaico esdrúxulo, onde sua atenção se divide entre os ecos do passado e o destino imediato daqueles que ela ama. Sua maior preocupação é entender o filho, sempre em movimento, sempre distante dela, indecifrável. Os capítulos evoluem rápidos, as cenas se acumulam, revelando serem irrelevantes quase depois de acontecidas (como na vida mesmo, onde o que parece importante num momento torna-se apenas uma lembrança tola logo depois). Ginzburg não se perde com descrições, não tergiversa, obriga seus personagens a serem frios, objetivos, diretos. O leitor sabe das motivações de Michele (ao contrário de Adriana e quase todos os demais personagens), sabe de sua participação nos processos de radicalização da política européia que se sucederam ao movimento estudantil do final dos anos 1960. Mais do que o destino de Michele o que me interessou no livro foi a vívida experiência do cotidiano de uma família de classe média italiana. Os personagens são muito sinceros, transparentes, nunca são hipócritas ou dissimulados com os demais. Nenhum aparenta ser conservador política, moral ou sexualmente. Seria assim mesmo o perfil médio daquela sociedade, ou será que Ginzburg focaliza apenas o que seria representativo do comportamento de uma família de esquerda? Talvez seja esse o caso. Belo livro. Vou garimpar mais coisas dela por aí. Também li dela "As pequenas virtudes" e "Léxico familiar". 
[início: 17/11/2015 - fim: 19/11/2015]
"Caro Michele", Natália Ginzburg, tradução de Homero Freitas de Andrade, São Paulo: editora Cosac Naify, 1a. edição (2009), capa dura 16,5x22,5 cm., 186 págs., ISBN: 978-85-7503-704-1 [edição original: Caro Michele (Milano: Mondadori) 1975]

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

seres urbanos

"Seres Urbanos" é uma antologia de trabalhos originalmente publicados em fanzines cearenses na década de 1990. Recentemente "Seres urbanos" ganhou o prêmio Miolo(s) de melhor HQ (o Miolo(s) é um encontro de artistas plásticos e editores independentes que acontece anualmente na Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo). O grupo Seres Urbanos começou a produzir fanzines na capital cearense após dois rapazes, Weaver Lima e Marcílio, participarem de uma oficina de quadrinhos na Universidade Federal do Ceará. Posteriormente incorporaram-se outros garotos: Elvis, Lupin, Mychel, Galba e Kaos. Esse dois últimos já eram artistas plásticos mais ou menos conhecidos. O Kaos trabalhava com arte postal e "mídia xerox" desde pelo menos meados dos anos 1980. O grupo produzia fanzines para shows de música (shows do Patu Fu, Titãs, Planet Hemp e Raimundos, por exemplo), também participava de projetos experimentais de intervenção urbana e exposições improvisadas de arte alternativa. Eles chegaram a manter uma página de experimentação gráfica num jornal de grande circulação de Fortaleza e trabalhos do grupo ganharam repercussão em jornais de São Paulo e Rio de Janeiro. Enfim, trata-se mesmo de uma antologia das boas, tanto dos trabalhos feitos em conjunto pelo grupo quanto aqueles publicados individualmente por cada um deles. As influências são mais ou menos claras: revistas de histórias em quadrinhos como Métal Hurland (francesa), El víbora (espanhola), Animal (brasileira) e Fierro (argentina). Não é o tipo de livro que se deixa ler de capa a capa, mas há muito material interessante ali para ser garimpado. O livro inclui reproduções de capas dos fanzines e também uma longa entrevista com os integrantes do grupo. Muito divertido. Parabéns ao grupo. A edição em livro foi viabilizada por um edital da Secretaria Estadual da Cultura do Ceará. 
[início: 01/10/2015 - fim: 25/11/2015]
"Seres Urbanos, 1991-1998, Antologia do quadrinho underground cearence", Weaver, Marcílio, Elvis, Lupin, Kaos, Galba, Mychel, Fortaleza/Ceará: Sebo, 1a. edição (2015), brochura 20,5x30 cm., 96 págs., ISBN: 978-85-01526-13-X

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

um arado rasgando a carne

O Cláudio B. Carlos chama suas histórias reunidas nesse livro de narrativas (e ele é o senhor do livro, tem razão, claro) mas eu, ai de mim, escravo de mim mesmo, devo classificá-lo nas categorias que inventei tempos atrás ao criar o "Livros que eu li". Registrarei "Um arado rasgando a carne" na cota dos livros de contos. De fato o Cláudio narra/inventa um mundo muito particular e reúne nele 29 causos curtos, curtíssimos até, que congelam estados d'álma, partilham reflexões, descrevem sonhos de passagem da noite para o dia, dialoga com o leitor de uma forma que aqueles pensamentos parecem cristalizar-se ali na hora mesma da leitura. Cláudio sabe dominar a escatologia feroz de algumas histórias, emular uns pastiches ou causos gáuchos (divertidíssimos), tratar da memória sem ser piegas, inventar imagens fortes e fazer os bichos falarem (com mais propriedade e tino que os homens toscos que o leitor comum conhece). Quando ele sai do cenário campeiro e migra para o território urbano o tom é mais sombrio, pesado. Sua erudição (digamos assim, talvez ele não goste de explicitar tanto seu domínio da tradição literária e da cultura) vaza o tempo todo e o leitor encontra no narrador/autor alguém que conhece mitologia (há uma releitura maravilhosa de uma história budista ); o mundo dos livros; a história gauchesca; sabe enxergar bem as complexidades do mundo contemporâneo. Bom livro, boas histórias.
[início: 18/09/2015 - fim: 21/11/2015]
"Um arado rasgando a carne: narrativas", Cláudio B. Carlos (CC), São Paulo: Clube dos autores, 3a. edição, revista, (2012), brochura 10,5x14,5 cm., 72 págs., sem ISBN.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

siete casas vacías

Lançado em maio deste ano, "Siete casas vacías" ganhou o IV Premio Internacional de Narrativa Breve Ribera del Duero. São sete contos, quase todos curtos. Na verdade só um deles é longo, tão longo que alcança a soma das páginas dos demais. Pois justamente esse, "La respiración cavernaria", ilustra bem o estilo de Schweblin, onde sempre encontramos personagens que vivem um drama paralisante; um mundo que parece bizarro, irreal; diálogos belíssimos que também provocam ou flertam com a ambiguidade das idéias, dos conceitos. Lola, protagonista de "La respiración cavernaria", é alguém que sofre da doença de Alzheimer ou algo igualmente degenarativo. Demoramos um tempo para decifrar a ordem dos fragmentos do que ela é capaz de lembrar a cada dia e assim compreendermos afinal o que se narra. Nos demais contos os personagens também experimentam jornadas angustiantes. Entretanto Schweblin alterna neles cenas curtas, bem cômicas, de puro contrassenso, com outras terríveis, plenas de dor e solidão, daquele tipo de solidão que poucos sabem tolerar sem enlouquecer (e daquele tipo de dor que nos modifica para sempre): Em "Nada de todo esto" uma garota narra os atos de cleptomania selvagem da mãe; em "Mis padres y mis hijos" um sujeito visita a ex-mulher e assiste inerte a sucessão de confusões provocadas por seus pais amalucados; em "Pasa siempre en la casa" um filho se exaspera com as contínuas visitas que sua mãe faz aos vizinhos para lamentar a morte do filho deles; em "Cuarenta centímetros cuadrados" nos surpreendemos com o quê faz uma mulher que sai de casa com planos de apenas comprar aspirinas para a sogra; em "Un hombre sin suerte" é uma menina quem se afasta dos pais, momentaneamente mais preocupados com sua irmã num hospital, e acaba se envolvendo numa trapalhada; em "Salir" uma mulher sai do chuveiro, parece congelar naquele instante o tempo, abandona o que dizia ao marido, caminha por seu bairro, conversa com um desconhecido, toma café e retorna para casa, para ali terminar de enxugar seu corpo, algo mudada. São contos menos surreais e fantásticos que aqueles de "Pássaros na boca", mas igualmente densos e bem escritos. A ver o que Samanta Schweblin fará no futuro.
[início: 30/10/2015 - fim: 06/11/2015]
"Siete casas vacías", Samanta Schweblin, Madrid: Editorial Páginas de Espuma,(Colección voces / Literatura 213) 1a. edição (2015), brochura 15x24 cm., 123 págs., ISBN: 978-84-8393-185-1

terça-feira, 17 de novembro de 2015

borges vai ao cinema com maria kodama

Do Escobar já li pelo menos dois outros conjuntos de poemas: Curta-Metragem (de 2006) e Pejuçara (de 2009). Recentemente ele lançou esse "Borges vai ao cinema com Maria Kodama", e eu, ai de mim, perdi o dia de lançamento (ou os dias, soube depois), pois estava mascateando meu trabalho por aí. Paciência. Se naqueles dois outros livros o mundo que brota da memória e da arte do poeta é sobretudo o do campo, de uma cidade pequena, de um tempo mais próximo à infância ou da juventude, o que encontramos em "Borges vai ao cinema com Maria Kodama" são resultado do filtro de um homem que viaja, vai a cafés, a museus e teatros, que vê tv (a sofisticada, das performances de arte contemporânea, e a popular, dos jogos de futebol ou tênis), que interage através das novas mídias que vicejam tomando conta das almas, que capta rapidamente os estímulos gerados por aquilo que está a seu redor, que é um flâneur de seu tempo. Ao mesmo tempo não tem medo de olhar para o passado, vocalizar experiências dos pais, da vida colona, dos sonhos de rapaz; nem tampouco falar das influências poéticas, louvar aqueles poetas com quem dialoga. As palavras que Escobar mói ou reinventa são simples, mas poderosas. As imagens que cria são de um cotidiano que nós, talvez por sermos o oposto do que deve ser um verdadeiro vate, somos incapazes de decifrar como ele. Escobar, seguro de si e de suas escolhas, demonstra uma vez mais o quão bom poeta é. Vale.
[início: 01/10/2015 - fim: 09/10/2015]
"Borges vai o cinema com Maria Kodama", Escobar Nogueira, Lisboa/Portugal: Chiado Editora, 1a. edição (2015), brochura 14x21,5 cm., 70 págs., ISBN: 978-989-51-4446-4

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

minda-au

São sete contos curtos, compactos, que se deixam ler com alegria. "Minda-au", publicado originalmente em 2010, foi o livro de estréia de Márcio Renato dos Santos. Ele é o homem curioso que anda por sua Curitiba ancestral catalogando as gentes, os hábitos, os comportamentos (dele já li os bons "Mais laiquis", lançado este ano; "2,99" e "Dicionário amoroso de Curitiba", ambos de 2014. Em "Sub" acompanhamos o impacto da chuva na vida de um sujeito que vive nas ruas, num contraste  lírico entre riqueza e pobreza; em "A guitarra de Jerez" o tom já flerta com o fantástico, quando seguimos os azares que uma guitarra enfeitiçada trás a seus proprietários; em "O espírito da floresta" a ironia subjuga o fantástico, quando trilhamos a rotina de uma mulher assombrada por uma lenda urbana; "De teletransporte número 2" pode ser tanto o sonho amalucado de um rapaz quanto o delírio de alguém que foi alvejado em um assalto e delira; "Os homens sem alma" já é mais cruel, pois o narrador faz o censo das mediocridades encarnadas em um sujeito; "Pra quem busca uma vida nova" rimos da solidão de um rapaz curitibano que tenta viver em Porto Alegre para descobrir simultaneamente a inaptidão dele para o exílio voluntário e o provincianismo da cidade que ele antes idealizava; "Ali, agora" é uma espécie de réquiem que um jovem escritor produz para seu mentor, seu antigo mestre, que agoniza (ou já está morto). São histórias singelas, onde sempre se capta um sentimento genuíno, uma virtude, um aspecto do cotidiano contemporâneo, ou ainda algo abstrato, aquilo que podemos associar aos compromissos que os homens fazem para sobreviver com alguma dignidade frente os aborrecimentos desta vida.
[início: 09/10/2015 - 13/10/2015]
"Minda-au", Marcio Renato dos Santos, Rio de Janeiro: editora Record, 1a. edição (2010), brochura 13,5x20.5 cm., 80 págs., ISBN: 978-85-01-09016-4

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

marcha de radetzky

"Marcha de Radetzky" é o romance mais ambicioso de Joseph Roth. Antes de ser a história de três gerações de uma família, desde meados do século XIX até o início da primeira grande guerra, o que o leitor acompanha são os últimos momentos de um império, o Austro-húngaro, que se esfacela. Um jovem tenente de origem eslovena chamado Joseph Trotta salva a vida do imperador, o Kaiser Francisco José I, durante a batalha de Solferino, em 1859. Por conta deste gesto ganha um título de nobreza, o de barão de Sipolje. Trotta casa-se e enviúva cedo. Incomodado com as citações algo exageradas sobre sua bravura ao salvar o Kaiser, transcritas em livros escolares, ele resolve abandonar o exército e educar seu filho único, Franz Freiherr, para seguir carreira como funcionário público. Esse filho, o segundo barão von Trotta, torna-se um respeitado comissário distrital, uma espécie de governador geral de uma das províncias centrais do Império (na região da atual República Tcheca). Ele pouco sabe do passado simples do pai, das razões dele ter se afastado do exército apesar de seu reconhecido heroísmo, e da existência do avó esloveno, um velho guarda caça da periferia. Passa os dias como eficiente membro da enorme máquina burocrática de administração do Império. Franz von Trotta também se casa e enviúva cedo, também tem um único filho, Carl Joseph. Ao contrário de seu pai, Franz não impede o desejo do filho de entrar para o exército. Carl Joseph torna-se tenente como seu avô e é designado para servir num respeitado regimento de cavalaria. De alguma forma a burocracia do Império facilita os planos do rapaz, assim como havia facilitado a ascensão do pai, mas sua inaptidão para a vida militar faz com que Carl se envolva em situações embaraçosas que acabam obrigando-o a mudar de regimento, passando a servir na inóspita fronteira Russa. Mas também ali seus vícios de caráter e tibiez geram problemas e constrangimentos: o envolvimento com uma mulher casada, o contínuo entorpecimento provocado pela bebida, as mentiras que conta para o pai e o acúmulo de dívidas de jogo o fazem flertar com a possibilidade de fugir do exército. Quando o pai se prontifica a encontrar-se com o próprio Kaiser para conseguir uma solução para os problemas do filho eis que o Império sofre o trauma do assassinato do herdeiro do trono e se mobiliza para o que viria a ser o início da primeira grande guerra. Carl poderá finalmente experimentar as loucuras de um campo de batalha, como seu avô. Roth é um mestre no encadeamento de cenas. O romance é longo, mais de quatrocentas páginas compactas, mas a leitura é fácil, a psicologia dos personagens nítida, os diálogos quase sempre irônicos e divertidos. Roth nos apresenta uma sociedade sem identidade, que passou por muitas experiências mas não aprendeu nada com elas, um conjunto de indivíduos que não percebe o anacronismo de sua situação, a proximidade de um desastre definitivo, a inevitabilidade de sua destruição e morte. A mediocridade da educação das elites burocráticas e do treinamento dos militares condena antecipadamente a todos. Os interesses difusos de todos os povos aglutinados ao Império são mais que contraditórios. Não há o que lamentar quando um povo inteiro se ilude, não pesa as consequências de seus atos desarrazoados e escolhas ruins. Belo livro.
[início: 09/09/2015 - fim: 01/10/2015]
"Marcha de Radetzky", Joseph Roth, tradução de Luís S. Krausz, São Paulo: editora Madalena/Mundaréu (coleção Linha do Tempo), 1a. edição (2015), brochura 13x21 cm., 423 págs., ISBN: 978-85-68259-01-6 [edição original: Radetzkymarsch (Köln: Kiepenheuer) 1932]

terça-feira, 3 de novembro de 2015

the ulysses guide

Este é o milésimo registro de leitura que publico aqui. O que começou como um bloco de pequenas notas para os amigos (sobretudo o Renato Cohen, incentivador de primeira hora) tornou-se um grande depósito. Pensei um bocado sobre qual volume representaria melhor minha aventura com os livros ou com meu processo de leitura. Elegi sucessivamente vários dentre aqueles que li recentemente para ocupar este efêmero posto (que é apenas o de livro mais recente lido, pois sempre haverá um outro qualquer cobrando atenção e tempo, numa fila sedutora e interminável que provoca uma vertigem similar a que sentimos quando elaboramos listas mentais do que devemos ler - como já nos ensinou Umberto Eco). Acontece que demorei para ficar realmente satisfeito com uma escolha. Poderia ter sido o "The Ondt e the Gracehoper", do Joyce; as "Lições de literatura", do Nabokov; os livrinhos do Danis Rose ou do Robert Gogan (que também garimpei em Dublin); os aforismos do Karl Kraus que leio e releio há semanas; aquele do Canetti que ganhei do Rafael; a "Marcha de Radetzky", do Joseph Roth; o livro de poemas do Escobar ou o de contos do Márcio Renato dos Santos; o Kenzaburo Oe que terminei na semana passada. Dentre estes e outros tantos acabei escolhendo "The Ulysses Guide", do Robert Nicholson, pois foi esse volume que marcou-me de forma indelével este ano. Foi ele quem inspirou muitas das minhas viagens sentimentais à Dublin (muito antes de conseguir fazer mesmo uma, fisicamente). A versão do livro do Nicholson que utilizei no início deste ano para planejar e detalhar meus passeios pelos caminhos de Leopold Bloom e Stephen Dedalus no Ulysses era a original, de 1988, um volume pequeno de pouco mais de 130 páginas, editado pela Methuen. Mas foi justamente ao visitar o James Joyce Centre, num dos primeiros dias por lá, que encontrei esta edição revisada, com quase o dobro do tamanho do original. Claro, não furtei-me de comprar o volume e incorporá-lo a meus guardados (os livros antigos que substituímos por suas jovens encarnações devem nos odiar um bocado, ai de nós). Robert Nicholson conhece obra e vida de James Joyce muito bem e é o curador de duas jóias dublinesas: o James Joyce Tower and Museum e o Dublin Writers Museum. Seu livro inclui mapas um tanto ingênuos porém precisos, ilustrações e fotografias de época, além da transcrição de algumas das passagens do Ulysses onde se faz referência à geografia de Dublin. O leitor pode com facilidade localizar com seu livro os lugares de maior interesse. Nicholson apresenta oito diferentes trajetos que os acólitos de Joyce podem fazer em passeios de aproximadamente três ou quatro horas. Em cada um se emula a experiência de leitura do Ulysses de uma forma diferente. O livro inclui vários apêndices: Num sincroniza os movimentos de Leopold Bloom e Stephen Dedalus; noutro apresenta uma versão simplificada (porém útil) do Linati's Schema (o famoso roteiro de interpretação do Ulysses, escrito por Joyce e enviado a um sujeito chamado Carlo Linati; mas devemos lembrar que Joyce dizia ter produzido esse roteiro mais para confundir do que para esclarecer o público leitor: "To help him to confuse the audience a little more"); noutro discute o que fez Stephen antes da história do livro começar; noutro fala das diferentes edições do Ulysses. O volume termina com uma bibliografia realmente boa e atualizada. Essa nova edição discute as circunstâncias do desaparecimento, entre 1988 e 2015, de alguns dos lugares de culto joyceano que faziam parte dos roteiros originais: o açougue Olhausen e o hotel Ormand são as perdas mais significativas, mas agora, como uma fugaz compensação, existe o "Luas", o sistema de trens de superfície que ecoa o ruído  dos bondes da época de Joyce, facilitando bastante os deslocamentos. Os roteiros permitem que o leitor encontre com facilidade muitos dos lugares citados no Ulysses. Na verdade eu sei que o melhor jeito de um flâneur joyceano divertir-se em Dublin é mesmo perder-se pela cidade e esperar aqueles momentos inevitáveis que surgem quando o sujeito dobra uma esquina qualquer e experimenta a epifania de uma descoberta; a lembrança fugidia de uma passagem do texto original; a alegria de uma associação poderosa (que talvez só ele seja capaz de apreciar e não terá importância para mais ninguém, mas que também ninguém tira do sujeito).
[início: 16/06/2014 - fim: 22/02/2015]
"The Ulysses guide: Tour through Joyce's Dublin", Robert Nicholson, Stillorgan/Dublin/Ireland: New Island Books, 1a. edição (2015), brochura 13x20 cm., 243 págs., ISBN: 978-1-84840-452-6 [edição original: (London: Methuen Books) 1988]
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[Dos 1000 livros que eu li desde 01/01/2007]
Nesses nove anos que mantenho o "Livros que eu li" 1000 registros se acumularam, quase como por mágica. Dentre eles quase 60% (593 volumes) corresponde ficção (276 romances, 59 novelas, 54 romances policiais, 5 livros de ficção-científica, 122 são conjuntos de contos, mini-contos ou aforismos, 77 são livros de poesias ou peças de teatro). Os outros 40% (407 volumes) corresponde a textos de não ficção ou aquilo que eu chamo genericamente de divertimentos. Os livros de não ficção (252 volumes) são os livros de crônicas, ensaios, perfis biográficos, memórias, divulgação científica, cartas, dicionários e livros explicitamente didáticos (uns poucos). Os divertimentos (155 volumes) são os livros de viagem, gastronomia, arte, fotografia, catálogos de exposições de arte, livros dedicados ao público infanto-juvenil, histórias em quadrinhos, fanzines, graphic novels e mangás). Gosto sempre de ler o maior número possível de obras de um mesmo autor. O escritor que mais li desde 2007 foi o madrilenho Javier Marías (que acredito ser o melhor escritor vivo). Dele já resenhei cerca de 40 livros, entre narrativas ficcionais, traduções, conjuntos de crônicas e ensaios. Li também neste período quase tudo do catalão Manuel Vázquez Montalbán, morte em 2003, escritor e jornalista que teve um papel relevante na redemocratização espanhola (fiz resenhas de 35 livros dele, a maioria romances policiais nos quais o protagonista é um detetive galego chamado Carvalho). Além desses dois espanhóis li vários livros do italiano Andrea Camilleri (25); do holandês Cees Nooteboom (23); do catalão Enrique Vila-Matas (18); do americano Philip Roth (17); do espanhol Arturo Pérez-Reverte (18); do inglês Ian McEwan (15); do irlandês James Joyce (15); dos franceses Patrick Modiano (12), Marcel Proust (10), J.M.G. Le Clézio (9), Amélie Nothomb (8) e George Simenon (8); do sul-africano J.M. Coetzee (9); do angolano José Eduardo Agualusa (9); dos alemães W.G. Sebald (9) e Herta Müller (7); do japonês Natsume Soseki (8) e do polonês Joseph Conrad (8). Seria mais do que tedioso listá-los aqui, mas sei que no conjunto li pelo menos 150 autores diferentes neste período. Como viajo sempre que possível gosto de ler algo que esteja relacionado aos lugares que visito, seja a obra de um autor local que desconheço ou o que poderia ser chamado de biografias literárias das cidades. Com essa motivação conheci e incluí no blog autores brasileiros muito bons como os curitibanos Luís Henrique Pellanda, Márcio Renato dos Santos e Caetano W. Galindo; os gaúchos Leonardo Brasiliense, Escobar Nogueira e Samir Machado de Machado, o carioca Paulo Henriques Britto, o soteropolitano João Filho, o recifense Urariano Mota, o mato-grossense Joca Reiners Terron, o sergipano Antonio Carlos Viana e o paraense Dalcídio Jurandir. Não tenho medo de ler solenes desconhecidos, autores que patrocinam os seus próprios livros, publicações de editoras que não alcançam ser divulgadas nos jornais e televisão. Tento sempre melhorar meu instinto para as picaretagens que a crítica literária e a mídia em geral tentam escoar na bacia das almas que é o mercado brasileiro mas é óbvio que leio um bocado de bobagens todos os anos. Quem acompanha o blog sabe que gosto de ler livros em espanhol. Aproximadamente um quinto dos livros que resenhei no "Livros que eu li" foi escrito nessa língua. Também há uns poucos que li no original em inglês. Cabe dizer por fim que esses registros não são nem de longe resenhas críticas profissionais, nem tampouco ensaios elaborados ou definitivos sobre os livros. São antes comentários que mesclam a cada caso tanto detalhes das tramas ou dos sucessos dos livros quanto digressões que brotaram de minha memória e afetaram meu humor ao longo desses anos, especialmente quando sou particularmente marcado por aborrecimentos ou encantamentos derivados das leituras. Haverá tempo para outros mil livros no futuro? Haverá tempo para um dia pelo menos listar o outro milhar de livros que acredito ter lido antes de 2007? Difícil dizer. Não sou exatamente um candidato a longevidade, mas espero continuar sempre me divertindo nesse processo. Apesar de saber que é muito improvável que haja qualquer futuro para a crítica de livros no Brasil, ainda acredito no prazer individual proporcionado pela lembrança das horas que passamos com eles, ainda acredito no descanso na loucura que eles proporcionam.Vale.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

literatura, violência e melancolia

Nesse pequeno livro Jaime Ginzburg convida à reflexão sobre as relações entre violência e cultura. A primeira ambição é estimular estudantes e professores, sobretudo de letras e ciências humanas, que atuem ou não nos vários níveis de redes de ensino, a debaterem de forma sistemática, qualificada e coerente a violência na sociedade brasileira contemporânea. Não se trata de um texto esgotador, antes é uma série de provocações, exercícios de abordagem sobre o tema. Como um paleontólogo da alma humana ele utiliza a literatura para prospectar registros de atitudes e práticas violentas da sociedade, exemplificando, através tanto de narrativas ficcionais quanto ensaios críticos, como opera a tolerância humana à violência institucionalizada. Nos curtos capítulos em que é dividido o livro ("literatura e violência"; "morte e melancolia"; "o mal-estar da literatura"; "tempos sombrios") Jaime faz uso de diferentes ferramentas de interpretação (grosso modo, associados a cada capítulo: a teoria literária; a filosofia; a psicologia; a sociologia). Entretanto, essas complexas ferramentas de análise não contaminam o livro pois o tratamento que Jaime imprime ao texto o torna muito acessível, sem jargões, fazendo-o fácil de ler. Ao citar José de Alencar e Machado de Assis, Guimarães Rosa e Caio Fernando Abreu, Hilda Hilst e Raduan Nassar, Shakespere e Borges, bem como quando contrapõe Freud, Marx e Nietzsche à Descartes, Jaime nos lembra que a realidade do mundo e a realidade das obras literárias somente encontram similitude quando entendemos muito bem tanto o mundo quanto as obras literárias. E, se é que eu entendi bem, que no caso específico da violência apesar de nossa incompreensão sobre sua realidade ainda ser grande demais, a experiência da leitura, da literatura, nos capacita a entendê-la melhor, ou seja, através das representações literárias da violência aprendemos como nos contrapor a ela, individual e coletivamente. Conheço o Jaime e sei o quanto ele é otimista da capacidade humana de entender melhor seu mundo e transformá-lo (sempre na direção de sociedades mais justas, por suposto). Mas não posso deixar de registrar que eu, quando se trata de pensar a violência, continuo um tanto mais cínico e pessimista. Sinto-me como Frederick, aquele personagem do Woody Allen interpretado por Max von Sydow no filme "Hannah e suas irmãs", que dizia "You missed a very dull TV show on Auschwitz. More gruesome film clips, and more puzzled intellectuals declaring their mystification over the systematic murder of millions. The reason they can never answer the question "How could it possibly happen?" is that it's the wrong question. Given what people are, the question is "Why doesn't it happen more often?". Bobagem minha. O mundo certamente merece que temas complexos recebam mais olhares generosos e seminais como esse de Jaime Ginzburg. Parabéns meu caro, belo livro.
[início: 10/10/2015 - fim: 12/10/2015]
"Literatura, violência e melancolia", Jaime Ginzburg, Campinas: Editora Autores Associados (Coleção Ensaios e Letras), 1a. edição (2013) brochura 14x19 cm., 116 págs., ISBN: 978-85-7496-256-6

terça-feira, 13 de outubro de 2015

saudade

Há quase vinte anos conheci duas pessoas especiais, a Sirlei e o Ernani. Foi na sede do Instituto Estadual do Livro, em Porto Alegre, num dia em que o Donaldo Schüler falava sobre o Finnegans Wake e James Joyce (conheci um bocado de gente bacana naquele dia, mas esta é outra história). Nesse período de tempo que vai de meados dos anos 1990 até agora fizemos muitas coisas boas juntos, dividimos algumas tristezas, compartilhamos alegrias, mas também deixamos de nos encontrar como conseguíamos antes, na maioria das vezes por conta de minha agenda errática ou das trapaças do acaso. No início deste ano, por conta da virada do ano, Helga, Natália e eu ganhamos esse livro deles. O livro andou pela casa, foi lido por nós e combinamos de ir a Porto Alegre visitá-los, juntos, mas quem disse que conseguimos. Argh! Ainda há tempo, mas o ano termina rápido, os dias minguam. Veremos. "Saudade" foi produzido por um diretor, professor e dramaturgo argentino que está radicado em Portugal há muitos anos, Claudio Hochman. Ele escreveu sete contos curtos para que seu filho os lesse, um por dia, durante uma semana de retiro num acampamento de férias. A história discute o significado da palavra "Saudade", vocábulo e conceito estranho para um portenho que ensinava o filho a entender o português. A cada dia um arrogante rei que se imaginava muito culto tenta decifrar o sentido da palavra saudade (que lhe foi proposta por um diabólico Fernando Pessoa, claro). A história também fala à criança como os dias da semana são ditos em outras línguas (palavras associadas aos deuses e aos planetas, não a nossos monótonos múltiplos de "feiras"). Ao descobrir/sentir o significado de saudade o rei torna-se mais sábio e mais tolerante com aqueles que eventualmente sabem menos do que ele. Posteriormente, em 2009, os contos foram publicados em livro, numa edição bilíngue, castelhano e português. Com isso aquilo que era um segredo entre pai e filho tornou-se público. Dois anos depois uma outra editora decidiu reeditar o livro, incluindo ilustrações do português João Vaz de Carvalho. Ontem, que foi o dia das crianças, reli o livro, lembrei da Sirlei e do Ernani. Sei que vamos nos encontrar, como não, afinal já sabemos o que é sentir saudades.
[início 01/01/2015 - fim: 12/10/2015]
"Saudade: um conto para sete dias", Claudio Hochman, ilustrações de João Vaz de Carvalho, Editora Schwarcz (Companhia das Letrinhas), 1a. edição (2013), capa-dura 27x10 cm., 36 págs., ISBN: 978-85-7406-597-7 [edição original: Saudade, un cuento para siete dias (Aveiro/Portugal: Editora Teatro Aveirense) 2009; edição original com ilustrações (Gafanha da Nazaré/Portugal: Bags of Books editions) 2011]

sábado, 10 de outubro de 2015

curso sobre el quijote

Ano passado, após ter lido o seminal "Lições de literatura russa", procurei outros conjuntos de notas de aula de Vladimir Nabokov. Por sorte encontrei dele esse "Curso sobre el Quijote", pois nesse 2015 se comemora os 400 anos do lançamento da segunda parte do Quixote (uma edição comemorativa acabou de ser publicada pela Real Academia Española). Trata-se de um livro que foi preparado a partir das aulas ministradas durante o período sabático em que Nabokov passou na Harvard University, em Massachusetts, no outono/inverno de 1951/52 (Nabokov manteve uma posição permanente na Cornell University, em New York, entre 1941 e 1959). Nesta edição, preparada pelo mesmo Fredson Bowers que organizou as "Lições de literatura russa" citadas acima, estão incluídos trechos generosos do texto original de Cervantes utilizados por Nabokov para apoiar/ilustrar suas considerações e opiniões (algo em torno de 40% do total do livro). Nabokov é um professor aplicado, não utiliza manuais ou resumos temáticos, combate tanto argumentos de outros acadêmicos quanto as opiniões dos leitores comuns. Ele busca no texto original as passagens que explicam a coesão da estrutura do romance; o processo de construção dos personagens; a técnica de Cervantes de isolar grupos de personagens para desenvolver um tema específico; as interpolações incluídas no romance (como "A novela do curioso impertinente" e a história de Cardênio e Lucinda); os momentos em que o texto fica obscuro; os lances geniais e também as falhas, os defeitos do livro. Nabokov aprecia muito a força dos diálogos de Cervantes, mas lamenta suas descrições da paisagem natural. O leitor perde, claro, o encantamento que a presença e a voz de Nabokov deveria produzir nas aulas, mas pode acompanhar no texto as ironias e o bom humor dele (ri um bocado durante a leitura). O livro está estruturado em três partes. Na primeira ele apresenta suas idéias sobre o quê é um romance; fala da fortuna crítica e dos mitos literários associados ao livro; detalha os componentes estruturais do livro: fragmentos de velhos romances de cavalaria, refrãos e jogos de palavras, diálogos teatralizados, pastiches de poemas, descrições pastoris - arcádicas, trapaças e ardis com efeitos cômicos; explica como Don Quixote e Sancho Pança perdem contato com o livro que os fez nascer e vagam hoje pelo mundo, ganharam vitalidade com o tempo, tornando-se únicos; contextualiza aquilo que para ele é o mais exasperante: a naturalidade dos atos violentos e cruéis (tanto físicos quanto psicológicos) distribuídos no livro; fala do falso cronista da história (o árabe Cide Hamete Benengeli), de Dulcinéia e da Morte; apóia (talvez o certo seja dizer que brinca com a idéia de apoiar) a possibilidade da segunda parte espúria do Quixote (publicada em 1614 por um sujeito que usou o pseudônimo de Alonso Fernández de Avellaneda) ter sido escrita pelo próprio Cervantes, como forma de fazer propaganda e aumentar as vendas da verdadeira segunda parte, publicada em 1615 (sobretudo por ser, segundo ele, literariamente falando, a melhor solução para muitas questões estruturais do livro). A segunda parte é uma espécie de jogo, onde Nabokov faz um censo de todas as batalhas nas quais se envolveu don Quixote (tanto as físicas quanto as morais, ou seja, aquelas em que ele apenas argumenta e não se envolve em combates). Ele faz uma analogia com as regras de contagem de pontos do tênis (pontos, games e sets), games, matches) para chegar a um curioso 6-3, 3-6, 6-4 e 5-7, que dá um empate em número de games e sets. Todavia don Quixote perderia, pois não chegaria a jogar um quinto set, perdendo para a morte. É um tanto forçado, mas tem lá sua graça, principalmente porque Nabokov descreve detalhadamente as circunstâncias de cada uma das vitórias e derrotas. "Narración y Comentario", a terceira parte do livro é composta de resumos temáticos de cada um dos 126 capítulos (somando as duas partes do livro). Em geral ele descreve os fatos do capítulo e transcreve uma passagem que lhe pareceu interessante ou bem escrita. Segundo Fredson Bowers, na apresentação, esta terceira parte não era discutida pormenorizadamente nas aulas, apenas eventualmente utilizada por Nabokov quando a discussão sobre o livro merecia algum detalhamento ou explicação, uma espécie de complemento ou expansão daquilo que era discutido nas aulas. Está incluído num apêndice a transcrição do material que Nabokov distribuía aos alunos com trechos dos dois livros que mais influenciaram Cervantes na composição do Quixote: "Le morte d' Arthur", de Thomas Malory e "Amadís de Gaula", de Vasco Lobeira. Os manuscritos originais de Nabokov estavam distribuídos em seis cadernos, correspondentes as seis palestras (lectures) ministradas. Enfim, Nabokov defende que o Quixote não é o melhor romance já escrito mas que o gênio de Cervantes e sua excepcional intuição artística deu a seu personagem central uma vitalidade incomum, algo que apenas muito raramente um autor alcança fazer. Em tempo: O governo espanhol prepara para o ano que vem muitas festividades por conta dos 400 anos da morte de Cervantes. Talvez seja a hora de reler o Quijote, voltar à Castilla-La Mancha, cruzar uma vez mais aquelas planícies áridas, comer queijo manchego e tomar vinho barato (não, melhor tomar um bom vinho barato). Vale.
[início: 01/09/2015 - fim: 09/10/2015]
"Curso sobre el Quijote", Vladimir Nabokov, tradução de Maria Luisa Balseiro, Barcelona: Ediciones B (Zeta Bolsillo: Biblioteca Ana Maria Moix), S.A., 1a. edição (2009), brochura 12,5x20 cm., 412 págs., ISBN: 978-84-9872-309-0 [edição original: Lectures on Don Quixote (New York: Harcourt Brace Jovanovich: New York) 1983]

sábado, 3 de outubro de 2015

léxico familiar

Semanas atrás, num daqueles espasmos pretensamente importantes de nossa industria cultural, houve um breve debate sobre os limites legais (na acepção jurídica do termo) da ficção e autoficção praticada por alguns escritores brasileiros contemporâneos. Logo alguma outra tonteria entrou na cardápio das redações e das mídias sociais e não se falou mais sobre autoficção. Historicamente falando a crítica literária atribui a um escritor francês, Serge Doubrovsky, a paternidade desse estilo de escrita onde se combina elementos de ficção e de autobiografia. As classificações servem sim para propósitos didáticos mas quase sempre restringem demais os conceitos. Paciência. Por mim todo e qualquer texto inventado e produzido pelos homo sapiens sapiens (desde que rastejamos assustados para fora de uma caverna) é sempre ficção e autobiografia. Claro, há aqueles que acreditam em origens e/ou inspiração divina e/ou mágica para muitos textos, mais não precisamos ser hermeneutas praticantes para interpretar que de uma narrativa se sabe apenas dos feitos e dos desejos dos homens. Natalia Ginzburg nos adverte (sim, adverte), logo na primeira página desse seu "Léxico familiar" que os lugares, fatos e pessoas nele são reais, não há nada inventado, mas que há lacunas suficientes no livro para que ele não possa ser lido (e ela sugere que deva ser assim) como um romance canônico, sem exigir dele nada que um romance não possa oferecer. Não há datas em seu livro, mas sabemos que ela nasceu em 1916, filha caçula com quatro irmãos, e que morreu em 1991. O que está registrado no livro começa com ela ainda menina, com dez, onze anos, e segue até meados dos anos 1950, quando de seu segundo casamento. O que no livro está registrado é basicamente o modo de vida de uma família burguesa e sofisticada (cujo pai é um professor universitário de origem judaica e cuja mãe é católica). Ela conta (discretamente seria uma definição, mas a imagem que tenho é que ela escreve como quem fala sem elevar nunca o tom de voz) as formas de relacionamento entre os membros desta família e suas conexões com uma sociedade italiana que se transformava rapidamente, sobretudo por conta das duas grandes guerras do século passado, da luta contra o fascismo e das discussões sobre a viabilidade da implantação do comunismo na Itália que se segue à guerra. Qualquer um que lembre de suas histórias familiares irá identificar vividamente os personagens/parentes de Natalia Ginzburg: o pai irascível porém amoroso; a mãe discreta e sábia; os irmãos que parecem ter sido trocados na maternidade, por terem temperamento demasiadamente distinto; os amigos algo misteriosos que se fundem à rotina familiar. Irá também reconhecer aquelas histórias típicas que nunca são contadas exatamente da mesma forma; os segredos que parecem importantes e depois se sabem ridículos; as tragédias pessoais que não se pode transferir ou purgar; o ruído nas conversações (tanto o literal quanto o metafórico); a força dos livros, da educação e da cultura. Muito bom. Fiquei até com vontade de reler "As pequenas virtudes" mas não, há outros livros dela por aí. Lembrei de muitas coisas lendo "Léxico familiar". Lembrei do Elias Canetti, do Pedro da Silva Nava, do Proust, dos tempos de São Bernardo, de uns primos distantes de meu pai em Ouro Preto, das histórias que meus pais me contaram (mas, aí de mim, que já se perderam ou se fundiram a outras, muitas delas inventadas em terras distantes, embaralhadas agora em minha memória.) E por fim Natalia Ginzburg me fez lembrar de um sujeito que num dos filmes do Woody Allen dizia: "A felicidade humana não faz parte do desenho da criação, (...) somos nós apenas, com nossa capacidade de amar, que damos sentido ao universo indiferente".
[início: 14/09/2015 - fim: 28/09/2015]
"Léxico familiar", Natália Ginzburg, tradução de Homero Freitas de Andrade, São Paulo: editora Cosac Naify, 1a. edição (2009), capa dura 16,5x22,5 cm., 240 págs., ISBN: 978-85- 7503-879-6 [edição original: Lessico famigliare (Turim: Einaudi) 1963]

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

os óculos de paula

De Cassionei Petry li os contos reunidos em "Arranhões e outras feridas", publicado em 2012. No ano passado ele publicou "Os óculos de Paula", um romance metaficcional, ou seja, uma narrativa que explicita o processo de construção de uma obra de ficção, que é aquela que o leitor está justamente a ler. Na história mais aparente o leitor acompanha os desdobramentos do reencontro entre Paula e Fred, dois antigos namorados, ela dona de casa, ele um professor do ensino médio que mantém um blog. Ambos estão casados e têm filhos, envelheceram um tanto, mas do reencontro, que se deu através das redes sociais, surge alguma tensão e/ou curiosidade que reaviva o desejo sexual entre eles. Mas esse enredo é apenas aquilo que o narrador apresenta superficialmente. O que interessa mesmo, literariamente falando, é o processo conduzido pelo escritor - o Cassionei, afinal - que leva o leitor a decifrar o sentido real do texto, a trajetória de uma existência, de uma vida específica, como nos textos policiais clássicos. Trata-se de uma história curta, fragmentada, que se deixa ler quase de um fôlego só. A narrativa é povoada de heróis e influências literárias (o que pode ser uma invenção, um estratagema, mas que acredito serem aquelas que agradam mesmo o autor). O texto inclui reflexões ligeiras (mas que aparentam ter mais estofo filosófico do que têm de fato), sobretudo acerca da questão do suicídio e dos bloqueios literários que acometem os escritores. O resultado é interessante (o final realmente é bem planejado e salva o livro), mas acho eu que o Cassionei perde algo quando tenta tornar excessivamente realista, excessivamente verossímil, o mundo literário que criou (que é, afinal, sobre o processo criativo, a experiência de inventar uma história). Talvez fosse o caso de evitar as repetições, ser menos detalhista, não explicar ou generalizar tudo. Mas os livros devem se defender sozinhos e esse "Os óculos de Paula" não faz feio não. Sendo o entusiasta pela literatura que sei o Cassionei ser, haverá outros romances, contos e histórias dele para lermos no futuro. Enquanto isso talvez seja o caso de acompanhar a produção dele em seu bom blog, o "Cassionei lê e escreve". Vale.
[início: 05/09/2015 - fim: 06/09/2015]
"Os óculos de Paula", Cassionei N. Petry, Rio de Janeiro: Livros Ilimitados Editora (selo Autoral), 1a. edição (2014), brochura 15,5x23 cm., 134 págs., ISBN: 978-85-6646442-9

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

da física do faraó ao fóton

Conheci os Tufailes, ou seja, a Adriana e o Alberto, lá no IFUSP, nos anos 1990, quando ambos ainda eram estudantes de graduação e estavam envolvidos em projetos de iniciação científica. Hoje eles são ativos e respeitados pesquisadores nas áreas de sistemas dinâmicos, caos e outras cositas mais. Em 2013 eles lançaram esse "Da Física do Faraó ao Fóton", mas só no início deste ano tive a chance de utilizar o livro deles em uma das minhas aulas e fiquei animado em incluir um registro aqui. Eles compartilham com o leitor, com disciplina e método, uma série de atividades práticas que podem ser utilizadas tanto para fins didáticos quanto para divulgação científica ou mesmo entretenimento. Eles discutem conceitos físicos importantes e sofisticados a partir de situações simples do cotidiano, utilizando-se de balões, imãs de geladeira, papagaios/pandorgas, espelhos e velas, material de escritório e brinquedos, dentre uma miríade de outras coisas. Trata-se assim de um livro que propicia sobretudo um exercício de encantamento, de treinamento do olhar científico, de aproximação descompromissada da ciência para aqueles que são curiosos pelos fenômenos naturais porém não gostam de entrar em laboratórios. Claro, aqueles que são educadores das distintas áreas das ciências da natureza são os que mais diretamente se valerão desta proposta, pois poderão com a ajuda deste livro oferecer a seus estudantes não apenas demostrações qualitativas de fenômenos físicos, mas também propor experimentos quantitativos de física e desenvolver atividades práticas, estimulando-os ao mesmo tempo a procurar na bibliografia técnica respostas a quaisquer dúvidas. O livro tem dezenas de referências bibliográficas, afortunadamente distribuídas ao longo do texto, logo após cada tópico ou assunto, não acumuladas no final, o que sempre desestimula o leitor. Adriana e Alberto se utilizam de fotografias e ilustrações para indicar aos leitores a melhor forma de abordar cada problema e não se furtam de incluir equações e fórmulas quando elas são necessárias para explicar corretamente um fenômeno. Por fim, cabe dizer que "Da Física do Faraó ao Fóton" é um livro que resume as atividades práticas desenvolvidas por eles nos últimos anos na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP) e em cursos de divulgação oferecidos pelo Instituto de Ciência e Tecnologia de Fluidos Complexos (INCT-FCx), do qual ambos fazem parte. Há um curto teaser sobre o livro no YouTube e um vídeo curioso com o trabalho mais recente deles (o sol de laboratório) na edição de março de 2015 da Revista Fapesp. No final do livro eles fazem um convite aos leitores que todos aqueles que também trabalham com ciência certamente respaldam: "Descubram outras maravilhas através da ciência nos mais diversos lugares e situações, como museus, exposições, laboratórios, brinquedos, meios de comunicação, literatura e nas situações quotidianas. Boa sorte!". Parabéns meus caros, continuem com suas lasersices por aí. Vale.
[início: 12/04/2015 - 19/09/2015]
"Da Física do Faraó ao Fóton: Percepções, Experimentos e demonstrações de Física", Adriana Pedroso Biscaia Tufaile, Alberto Tufaile, São Paulo: Editora Livraria da Física, 1a. edição (2013), brochura 16x23 cm., 158 págs., ISBN: 978-85-7861-195-8

domingo, 27 de setembro de 2015

adam e evelyn

De Ingo Schulze só conhecia o bom "Celular", seu livro de contos publicado em 2007. "Adam e Evelyn" é um bom romance. A matriz é a história bíblica, claro, o título e os nomes dos personagens, não apenas dos dois protagonistas, Adam e Evelyn, mas de todos os demais, não disfarçam nada da alegoria inicial, mas a narrativa que brota das páginas é algo bem inventivo, autônomo da camisa de força bíblica. Schulze criou uma espécie de livro de estrada, um "road-book" outonal, que começa em meados de um agosto (o 19 de agosto de 1989) e termina no final de novembro deste mesmo ano, logo após a queda do Muro de Berlim. Adam e Evelyn são um casal de alemães orientais, sem filhos, ele com 33 anos e ela com 21, ele alfaiate e fotógrafo amador, ela garçonete. No 19 de agosto de 1989 Evelyn flagra seu marido fazendo sexo com uma de suas clientes (Lili, uma Lilith não tão devoradora com o original bíblico). Esta data é aquela em que a Hungria abriu suas fronteiras com a Áustria, decisão que permitiu que um grupo grande de alemães orientais (muitos em férias na Hungria naquele verão) fugissem para o ocidente, iniciando o processo que rapidamente culminou com a queda do Muro de Berlim, no dia 9 de novembro de 1989. Schulze faz seus personagens viajarem, da Alemanha Oriental para a Tchecoslováquia, de lá para a Hungria e logo para a Alemanha Ocidental. Não há um projeto, o que os move é antes a reação de cada um deles ao flagrante do adultério que a oportunidade de emigar ou fugir. Trata-se sim da história de um casal que precisa resolver uma questão doméstica, mas que estão no centro de um processo histórico tremendo, convulsivo, incontrolável, quase ininteligível para o indivíduo que o experimenta. Schulze é um mestre nos diálogos, faz com que a forma de se expressar de cada personagem seja única, vívida. A narrativa avança rapidamente, acompanhando os fatos reais da época, mas Schulze nos lembra que estamos lendo um livro de ficção, uma história, um romance, não um ensaio ou um registro de memórias. O paraíso perdido e o conquistado não são lugares tão distintos assim, nem tampouco a queda (ou a idéia de uma queda) um evento que de fato defina quem exatamente faz o bem ou o mal. Esse nosso mundo não é mesmo raso, nem novo. Eu poderia escrever um bocado sobre as boas alegorias que Schulze espalha pelo livro: a tartaruga, seu carro, um cubo mágico, as velhas fotografias, a camiseta com a bandeira do Brasil, a chave da casa/república, o processo de revelação fotográfica, mas isso deixo para um eventual leitor curioso, já falei demais por aqui (e gostei um bocado deste livro). Impossível ler este livro e não lembrar do maravilhoso "Roads to Berlin", do Cees Nooteboom, que também experimentou ao vivo a queda do Muro de Berlim. Vale.
"Adam e Evelyn", Ingo Schulze, tradução de Sergio Tellaroli, São Paulo: editora Cosac Naify, 1a. edição (2013), brochura 14x18,5 cm., 384 págs., ISBN: 978-85-405-0370-0 [edição original: Adam und Evelyn (Berlin: BV Bestseller Verlag GmbH) 2008]