quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

la hierba de las noches

Esse é o décimo-terceiro livro de Patrick Modiano que registro aqui. No ano passado só havia lido um, o infanto-juvenil "Catherine Certitude", logo após a notícia de que ele havia ganho o prêmio Nobel, mas nesse movimentado 2015 consegui encontrar vários outros volumes da serpeante obra desse prolífico escritor. Bueno. "La hierba de las noches" é recente, publicado originalmente em 2012 (o mais recente é "Para que no te pierdas en el barrio"). Como tantas vezes nos demais romances dele encontramos um narrador que explora um mundo que é como a vida real, sempre estranha, no limite do ponderável, surpreendente. Esse narrador descreve a vida como se estivesse encapsulada em uma redoma de vidro. Em algum momento (após muito ver, guardar, experimentar e esquecer) o narrador passa por uma metamorfose e torna-se um escritor, que registra o que lembra, como se sempre tivesse sido um duplo de si mesmo. Em "La hierba de las noches" o narrador é um jovem que nunca larga sua caderneta de anotações, sempre fazendo o censo das tribos urbanas da noite parisiense. Ele é sobretudo alguém que ouve os demais, dá atenção a estranhos, finge acompanhar o raciocínio e as histórias de pessoas desconhecidas. Ser dissimulado não é exatamente falta de caráter ou o comportamento de um trapaceiro, ele faz isso por hábito, como se fosse um colecionador de histórias, nomes e lugares. Esse narrador se envolve com uma garota, estudante universitária. Ela provavelmente anda em más companhias (talvez escroques menores, traficantes, bêbados da noite do Quartier Latin, aliciadores de sua amada, assim pensa o narrador quando jovem,  mas eles são mesmo um grupo de espiões do governo marroquino que atuam clandestinamente em território francês). Em algum momento a garota desaparece, alcança dizer a ele de sua iminente fuga para a Suiça. Ele apenas saberá algo da razões e da verdade quando escrever sobre ela, passados cinquenta anos, anos vividos à mercê dos silêncios, do esquecimento, dos enganos autoinfligidos. Modiano nos lembra que os encontros verdadeiros entre duas pessoas são aqueles nos quais ambas nada sabem uma da outra. Diz também que sempre somos mais discretos sobre nossos amores, sobre nossa vida íntima (do que somos com as paixões alheias) e portanto nunca escrevemos verdadeiramente sobre esses afetos. Fazemos isso porque talvez tenhamos muito medo de perder algo precioso ao ler o que escrevemos no passado sobre nosso arrebatamento, como se estivéssemos lendo um romance vulgar, uma ficção barata. É triste, mas verdadeiro.
[início: 28/10/2015 - fim: 31/10/2015]
"La hierba de las noches", Patrick Modiano, tradução de María Teresa Gallego Urrutia, Barcelona: editorial Anagrama (Panorama de Narrativas #864), 2a. edição (2014), brochura 14x22 cm., 166 págs., ISBN: 978-84-339-7894-3 [edição original: L'kerbe des nuits (Paris: éditions Gallimard) 2012]

Um comentário:

Rodrigo Esteves disse...

Sim é incrível como fazemos segredo de nossos amores e derrotas e exploramos, explicitamos os erros alheios.