quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

the schooldays of jesus

Há três anos, quando li "A infância de Jesus", não tinha ideia que esse livro do Coetzee seria o primeiro de uma nova trilogia (como aquela dos bons "Boyhood", "Youth" e "Summertime"). Lembro do espanto com a proposta, algo amalucada, sobre Novílla, uma cidade onde os habitantes, vindos de um lugar inominado, do qual nada lembram, começam uma nova vida. Como numa espécie de repovoamento da Terra pós dilúvio, eles chegam até Novílla de barco, concebidos imaculadamente, sem parentescos entre si, ganham novos nomes e ocupações. A organização social dali parece ser como o sonho de um velho comunista que vê seus projetos utópicos consagrados. Todos falam espanhol. Pensei no livro como uma alegoria, um contido e mágico realismo, um enigmático romance de fantasia, onde encontramos releituras de passagens bíblicas e literárias (algo do "Don Quijote" e de alguns contos de fada, algo do "Cândido" e do "Admirável Mundo Novo"). Coetzee faz seus personagens discutirem temas filosóficos importantes (a natureza do mal, a origem da cognição, a lei do terceiro excluído). Apesar da estranheza o leitor fica preso ao destino daqueles personagens bizarros, cujos nomes parecem definir sua vocação. No início deste 2016 Coetzee publicou a continuação de sua história, um volume intitulado "The Schooldays of Jesus".  Entende-se melhor o primeiro livro, mas novos enigmas são apresentados. Trata-se de um romance onde a ênfase continua na discussão de temas metafísicos, desta vez sobre a teoria dos números, a harmonia das esferas de Pitágoras, a húbris grega. O volume anterior termina com a fuga de Inés, Simón e Davíd de Novílla (devido as dificuldades de Davíd adaptar-se ao sistema escolar da cidade). Eles rumam para Estrella, uma cidade menor, mais rural que urbana, onde temporariamente trabalham numa fazenda, coletando frutas. A questão escolar de Davíd ainda precisa ser solucionada. As proprietárias da fazenda onde Inés e Simón trabalham se oferecem para zelar pelos estudos de Davíd (são as três graças, ou as três parcas, gregas. Inicialmente ele é apresentado a um engenheiro que lhe dá noções básicas de matemática, mas ele é um aluno difícil e esse tutor sugere que ele entre para uma das academias da cidade (além das escolas convencionais Estrella tem três "academias": uma dedicada ao "canto", outra a "dança" e uma terceira ao "átomo"). A narrativa prossegue, cheia de desvios, acumulando personagens e histórias curtas (que discutem a natureza das paixões humanas, teoria musical; o aprendizado de técnicas de escrita como o ato de criar vida; definições para amor, ego e liberdade; as relações entre crime e castigo, o livre-arbítrio e o poder do estado). Com o tempo Davíd aprende a "dançar números", uma forma de conexão pura entre os homens e as estrelas. O livro termina com Davíd em transe, girando continuamente com um dervixe, experimentando algum tipo de contato com as esferas celestes, vendo estrelas como um Tycho Brahe, acoplado ao transcendental. A cada capítulo um leitor obcecado com associações (como eu) encontra diversos temas estimulantes. Mas este mar de associações intoxicou-me, ou melhor, intoxiquei-me sozinho tentando fazer associações. Talvez o inusitado dos nomes e atos dos personagens seja um tropo proposital de Coetzee, produzidos para induzir o leitor a buscar pistas falsas. Talvez o certo seja ignorar essa compulsão por entender o que há de criptografado na narrativa (se é que tais associações realmente existem, afinal não há Jesus algum na história e o simples paralelo bíblico aos sucessos do livro é algo óbvio demais). Talvez devamos aceitar apenas o que diz e faz Simón, o narrador, o personagem que ordena o caos de ideias e paixões dos demais, que guia o leitor pelas ilhas serpeantes das digressões de Coetzee, que predica como um profeta e acompanha diálogos como um filósofo. Definitivamente, enredo e venturas dos muitos personagens parecem ser apenas distração, cenografia, truques de um mágico habilidoso. Contar histórias é fácil, filosofar é difícil. O que verdadeiramente estimula, desafia e ilumina os homo sapiens sapiens é a filosofia, parece nos lembrar, professoral, Coetzee). Vamos ver como ele apresentará os novos sucessos de Simón, Inés e Davíd no último volume da trilogia. Daí, talvez, possamos entender mais. Vale. Em tempo: esse é o último registro de leitura do ano. Antes do solstício farei um balanço dos livros lidos no ano.
[início: 23/11/2016 - fim: 01/12/2016]
"The Schooldays of Jesus", J.M. Coetzee, London: Harvill Secker / Vintage (Penguin Random House UK), 1a. edição (206). brochura 13,5x21,5 cm., 260 págs., ISBN: 978-1-911-21536-3
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Balanço final: 21/12/2016 [solstício de verão]
Esse foi um ano bastante complicado, terrível, aborrecido, pesado, dominado pela estupidez reinante deste desgraçado país, repleto de pequenos dissabores que conseguiram ofuscar as poucas alegrias que vivi (seria hipocrisia não ficar satisfeito com os sucessos de Helga e Natália, ou com a saúde dos gatos, ou com as descobertas no novo apartamento). De qualquer forma, assim como num dia disse Flaubert, meu coração está transformado em uma necrópole. Arre! Vamos em frente. Ao finalizar 2016 alcancei o décimo ano de registros deste “Livros que eu li”. Se 2015 foi o ano de uma maioria folgada de romances, esse 2016 foi o ano dos livros de crônicas, dos livros de ensaios, dos livros de não-ficção. Fiz 111 registros de leitura, bem próximo da média dos dez anos do blog. Foram 30 de crônicas e ensaios (27% do total); 20 romances (18%); 11 de histórias em quadrinhos, graphic novels, cartuns ou mangás; 10 de poesia; 8 de contos; 7 de perfis, biografias, memórias e relatos; 4 novelas; 4 dedicados ao público infanto-juvenil; 4 livros de arte; 3 romances policiais; 2 de gastronomia; 2 coleções de aforismos; 2 de turismo e apenas um dos seguintes quatro gêneros: didáticos; catálogos; divulgação científica e música (o adorável livrinho de canções irlandesas do Robert Gogan, joyceano dos bons que conheci em Dublin). Aliás li um bocado de coisas relacionadas a Joyce e a Irlanda: o fenomenal guia de leitura do Ulysses assinado pelo Caetano Galindo; três ou quatro guias literários de Dublin; a biografia do tradutor argentino do Ulysses, Salas Subirat; o livro dedicado a cerveja Guinness; os poemas reunidos em Pomes Pennyeach; o belo The Ondt and the Gracehoper (parte do Finnegans Wake); a divertida versão em mangá do Ulysses; e o bom livro da catarinense Dirce Waltrick do Amarante sobre os tradutores brasileiros de Joyce. Li três livros do romeno Cartarescu, sempre uma surpresa; três do bom holandês Nooteboom (inclusive um comemorativo dos 500 anos de morte do Bosch) e três do argentino Giardinelli. Gostei muito do catálogo de uma exposição que não vi, a "Rastros", do piauiense Weaver Lima. Li com calma várias coletâneas de poesias: a do Mautner, a da Szymborska, a do Marco de Menezes, da Cristina Macedo, do Ricardo Freire, entre outros. Consegui ler um Javier Marías (suas notas de aula dedicadas ao Quijote, neste quarto centenário da morte de Cervantes), e dei sorte, pois um ano sem ler Javier Marías é um ano perdido. Não cumpri várias promessas (não terminei o Tristram Shandy, nem o Quijote, nem os contos do Tolstói, nem os ensaios do Haroldo de Campos compilados pelo Marcelo Tápia, nem os poemas do Waly Salomão). Não consegui terminar de organizar o livro do Abdon Grillo. Organizei um Bloomsday em homenagem ao Antônio Houaiss (por conta dos 50 anos de sua tradução do Ulysses). Enfim, consegui manter minha cota de livros em inglês (11% do total) e em espanhol (24% do total); alcancei ultrapassar os 300 registros de romances, os 200 registros de livros de ensaios e os 125 de coletâneas de contos; tive a sorte de encontrar algum descanso com a leitura de mais de cem escritores diferentes, companheiros de viagem neste 2016. Logo veremos os sucessos de 2017. Vale. E viva a dona Vic.

sábado, 3 de dezembro de 2016

strong opinions

Esse livro me acompanha há tempos. Lembro-me de ter começado a lê-lo em um hotel madrilenho, ainda no início do ano passado. Desde então ocupei-me de tantas outras coisas e leituras, mudei de apartamento, tentei organizar meus livros em suas novas e alvas moradas, mas esqueci as "strong opinions" de Nabokov na pilha de guardados. Reencontrei-o no início desta primavera brasileira, terrível e estúpida como poucas. Ler Nabokov sempre é uma festa para os sentidos. O sujeito domina tão completamente a linguagem, expressa-se com tal precisão, encadeia argumentos e silogismos tão bem escritos que nunca aborrece o leitor. Em "Strong opinions" estão reunidos três conjuntos distintos de textos dele. A primeira parte é justamente a mais extensa. Envolve a transcrição de 22 entrevistas, originalmente publicadas em jornais ou revistas, entre 1962 e 1972. Há uma natural repetição das perguntas (jornalistas não são usualmente reconhecidos por sua originalidade), mas a cadência e o tom das respostas refletem distintos estados de ânimo de Nabokov, que por vezes enfatiza um aspecto ou outro dos questionamentos. Zeloso de tudo o que produzia, Nabokov só respondia perguntas por escrito, inclusive cobrando a correção do material imediatamente antes da composição final e/ou impressão. O período das entrevistas corresponde aos anos que se seguiram ao sucesso absoluto de seu livro "Lolita" e da versão cinematográfica dirigida por Stanley Kubrick. Parte em função da notoriedade e parte em função da estabilidade financeira alcançada permitiu que Nabokov deixasse de ministrar aulas (já registrei aqui as transcrições de seus cursos de literatura russa e aquele dedicado, grosso modo, a literatura em língua inglesa, francesa e alemã). Nesta época ele radicou-se na Suíça e passou a dedicar-se exclusivamente a produção literária (e as inevitáveis excursões de caça a borboletas). A segunda parte é bem curta. São reproduções de cartas que Nabokov enviou a redação de jornais e revistas literárias, entre 1961 e 1971. São cartas curtas, onde em geral ele corrige furiosamente alguma informação pouco acurada sobre seus livros, sua vida ou suas declarações públicas. A terceira e última parte é mais técnica. Estão nela reunidos 14 ensaios longos, produzidos entre 1939 e 1970, publicados originalmente em jornais especializados ou revistas científicas. Cinco deles são registros de classificação de borboletas por ele coletadas (Lepidopterologia nunca foi apenas uma distração). Uns três ou quatro são ensaios sobre o ofício da literatura, de seu entendimento da técnica e da inspiração, do ofício da crítica. Um outro traz diatribe feroz dirigida as opiniões de Edmund Wilson sobre seu livro "Ada" (de 1969). Os demais são críticas literárias produzidas por encomenda. Nabokov fala de Hodasevich, um importante poeta russo; de Sartre; de sua própria tradução de "Eugene Onegin" (de Pushkin); de uma questão jurídica associada a tradução francesa de "Lolita"; de Mandelstham, outro grande poeta russo; de uma outra tradução de "Eugene Onegin", produzida por uma americana que o aborreceu (talvez ela nunca tenha lido nada em russo na vida, diz ele). Quase todos os textos deste livro são cheios de humor, quando não ferino sarcasmo. Envolvem registros de memória, dos tempos vividos na Rússia, na Europa e nos Estados Unidos, refletem um conhecimento refinado das coisas (não apenas de literatura, mas também de política, relações internacionais, interações pessoais, cultura, arte e da sociedade de seu tempo). Devia ser um inferno conviver com ele, mas o sujeito sabia defender suas opiniões e sua obra. Vale.
[início: 20/09/2016 - fim: 24/11/2016]
"Strong opinions", Vladimir Nabokov, New York: Vintage International edition (Penguin Random House , 1a. edição (1990), brochura 13x20cm., 340 págs., ISBN: 978-0-679-72609-8 [edição original: (New York: McGraw-Hill Book Company) 1973]

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

a pedido do embaixador

Desde meados dos anos 1970, quando comecei a ler com método e disciplina, nunca me preocupei muito com o gênero, extensão, idade ou nacionalidade dos livros que me caem às mãos. Claro, aprendi cedo (e foi com a Dorothy Parker) que há livros que ao invés de serem abandonados displicentemente na estante e esquecidos merecem sim ser jogados pela janela, com fúria. Neste "Livros que eu li" é raro que eu fale muito mal de algum livro, pois desde o momento em que decido continuar com a leitura e terminá-la, sei que há algo neles que pode ser registrado, por mais ruim que tenha sido a experiência. Não é o caso deste "A pedido do embaixador". Que livro absurdo.  Fernando Perdigão deve ter ficado algo intoxicado após assistir muitas séries policiais na televisão ou lido toda uma coleção de romances policiais e resolveu escrever o seu. Inventou um protagonista, um detetive ("incorrigível" diz ele, informação que o editor achou importante incluir na capa). Todavia, o que o leitor encontra no tal detetive Andrade é uma caricatura patética, um personagem sem nenhum vestígio de verossimilhança e que não se presta nem para fazer o leitor dar boas risadas do absurdo da coisa toda. O elenco de personagens coadjuvantes brota completo de um manual de fórmulas para o gênero: um aprendiz (no caso uma aprendiz, uma inspetora recém promovida); um chefe que despreza seu comandado; um informante com contatos tão decisivos quanto improváveis; uma empregada cínica que é boa cozinheira; uma namorada que é prostituta nas horas vagas. Tudo é previsível, a trama é repetida e resumida para o leitor várias vezes, mas é frouxa e mirabolante demais. O narrador arrasta o leitor por páginas sem fim apenas para dar oportunidade e palco para o detetive pontificar com seu rosário de comentários homofóbicos, racistas e misóginos, xenófobos e machistas; repetir piadas de duplo sentido; disparar ameaças em todas as direções; explicitar mil vezes seus preconceitos, intratabilidade, truculência e inadequação social. Acho as iniciativas e leis politicamente corretas uma marca negativa de nosso tempo, sobretudo no Brasil, onde qualquer tentativa de uniformização social está fadada ao fracasso. Paciência. O mundo real e o mundo dos livros estão repletos de lorpas, de pessoas grosseiras e irascíveis, selvagens ou abobalhadas, limitadas e patéticas com as quais é possível conviver, porém o que Fernando Perdigão criou é apenas um pastiche que serve para nos lembrar das muitas vantagens da boa educação. E é só por isso que registro seu livro aqui. Vamos em frente (afinal o Nabokov já nos ensinou que não devemos nunca levar personagens literários a sério).
[início: 30/06/2016 - fim: 18/07/2016]
"A pedido do embaixador: Um caso ordinário do incorrigível detetive Andrade", Fernando Perdigão, Rio de Janeiro: editora Record, 1a. edição (2015), brochura 13,5x20,5 cm., 239 págs., ISBN: 978-85-01-10479-3

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

ensino de filosofia e currículo

Há dois meses, o acaso, sempre um fiel camareiro, colocou Ronai Rocha e eu próximos em uma fila de aeroporto. Íamos num mesmo voo para São Paulo. Ali não podíamos conversar, mas ao fazermos escala antes de nos tocar o outro trecho da viagem, o dele mais ao norte, o meu mais a oeste, deste pródigo e desgraçado Brasil, conseguimos dividir uns pães de queijo e um café. Ele contou-me detalhes de uma notícia desagradável, relacionada a um livro que acabara de escrever e fora rejeitado por conta de uma chicana jurídica. Cerrei os dentes para não escarnecer em voz alta o nome da tola viúva do Paulo Freire que o havia prejudicado. A estupidez, já se sabe, sempre provoca calamidades. Paciência. Pouco tempo depois, já de volta, como Mário de Andrade, abancado à escrivaninha, só que em Santa Maria, na minha casa da Rua Quintino Bocaiúva, de supetão senti um friúme por dentro. Lembrei a história que ouvira do Ronai e da falta de tino e tato (sem falar da falta de instinto e competência editorial) de todos os envolvidos na rejeição do livro. Novamente, como o velho Mário, fiquei algo trêmulo, comovido. Resolvi reler a reedição de um livro que ele havia publicado em 2008 (e que já registrei aqui): Ensino de Filosofia e Currículo. Essa segunda edição passou por uma revisão completa e ganhou uma formatação mais caprichada. O texto atualizado discorre sobre os temas mais importantes relacionados ao ensino de filosofia (e de resto fala bastante sobre o ensino médio brasileiro). As ideias do Ronai não são apenas seminais. Ele as apresenta com clareza e sofisticação. Os argumentos são sólidos e o encadeamento deles sempre próximos do irrefutável (meus adjetivos tendem ser mais taxativos que os do Ronai, já se vê, mas é nele e em seu livro que o leitor deve confiar, não em mim). Sua discussão sobre as dificuldades na inserção da filosofia no currículo do ensino médio, sobretudo quando não se considera que cada uma das demais disciplinas também propõem conteúdos específicos que necessariamente devem ser conectados de forma didaticamente eficaz uns com os outros, é a chave do livro. O prefácio a essa segunda edição, assinado por Gisele Secco, dá conta do impacto do lançamento original do livro na comunidade de educadores e filósofos. Os argumentos de Ronai de certa maneira antecipam alguns dos desastres que acabaram por encetar a reforma do ensino médio atualmente em discussão (cabe dizer para os mais açodados ou simplesmente tolos que as linhas gerais da atual proposta de reforma já haviam sido delineadas pelo glorioso Ministério da Educação ainda no início do trágico governo anterior). Com a reforma nem o mais atrevido dos analistas sabe prognosticar qual será o futuro da formação básica dos estudantes brasileiros. Livro atualíssimo, "Ensino de Filosofia e Currículo" merece ser lido por todo aquele realmente interessado em filosofia e educação básica deste país. E eu, nem sempre otimista, estou seguro que aquele outro livro do Ronai, o livro explicitamente novo dele sobre o tema, encontrará em breve o caminho para sua edição. Ulalá. Vai ser divertido. Vale.
[início: 10/10/2016 - fim: 21/11/2016]
"Ensino de Filosofia e Currículo", Ronai Pires da Rocha, Editora da UFSM, 2a. edição (2015), brochura 15x24cm, 221 págs. ISBN: 978-85-7391-230-2

domingo, 27 de novembro de 2016

yo, otro libro egocéntrico

Foi Sílvia, amiga querida, que lá de sua atrevida Barcelona sugeriu a Helga que comprasse algo do Juanjo Sáez. Juanjo é um quadrinista, roteirista e ilustrador espanhol, ou melhor, catalão (não podemos confundir essas cousas quando falamos de um legítimo barcelonês). Começou em seu ofício com fanzines e revistas alternativas, de arte e cultura. Posteriormente manteve colaborações com jornais e revistas de grande circulação. Desde do início dos anos 2000 publicou quase uma dezena de volumes de antologias de seus cartuns e histórias em quadrinhos (para ele mesmo, que assina uma introdução, trata-se de uma forma de fixar em livro coisas que desapareceriam com os jornais e também uma forma de organizar-se mentalmente). O traço é curioso. Seus personagens não tem olhos, nariz ou boca. Só nos momentos em que experimentam uma forte emoção é que ganham traços de alguma parte da anatomia de seus rostos. Em compensação seus personagens falam, muito, tem opinião sobre tudo, refletem sobre si e o mundo. As histórias reunidas em "Yo, el otro libro egocéntrino" foram publicadas originalmente nos anos 1990 e 2000 (o livro é de 2010). O livro oferece justamente o que o título promete. São histórias centradas no autor, que sempre é um personagem em suas histórias. Ele também faz uso de um alter ego que policia suas ideias, critica continuamente suas escolhas, reclama de sua timidez e inação. Parece uma brincadeira contínua com o shakespeariano fantasma do pai do Hamlet. Como todo bom cartunista ele abusa da ironia e do sarcasmo, nunca edulcora a vida e o comportamento dos homens (nem tampouco utiliza seu traço para fazer proselitismo político, explicitando alguma servidão mental e política a algum grupo - cousa que muitos de seus congêneres brasileiros se orgulham em fazer). Enfim, gostei. Grato Sílvia pela lembrança. Vamos a ver se a encontro (e encontro mais coisas do Juanjo) numa próxima viagem à Espanha. Em tempo (1): Juanjo coloca no Facebook e no Twitter um bocado de ilustrações bacanas. Em tempo (2): Conceitualmente, o estilo de Juanjo lembra as coisas do Angeli, apesar do Angeli não ser nada verborrágico e utilizar-se mais da força de seu traço comparativamente a seu texto. Sei lá. Talvez um teórico dos quadrinhos um dia possa me explicar se essa associação tem algum valor. Vale. 
[início: 06/11/2016 - fim: 15/11/2016]
"Yo: El otro libro egocéntrico", Juanjo Sáez, Barcelona: Reservoir Books (Random House Mondadori), 1a. edição (2010), capa-dura 24,5x16,5 cm., 232 págs., ISBN: 978-84-897-2230-4

terça-feira, 22 de novembro de 2016

written in my heart

Como já contei em um outro registro, no início de 2015 aventurei-me por Dublin, com cópias anotadas das páginas do "The Ulysses Guide" debaixo do braço. Esforcei-me para não perder nenhum dos lugares bacanas da cidade relacionados à James Joyce e seu Ulysses. Foi divertido. Mesmo o mais severo dos especialistas em Joyce reconhece que o livro de Robert Nicholson é preciso e completo, muito útil, mas não é o tipo de guia que um turista pode carregar facilmente em uma viagem longa. Recentemente foi publicado um novo livro com referências joyceanas, um guia mais moderno, compacto, com informações igualmente precisas, porém mais objetivas, sintéticas: "Written in my heart". A diagramação e os roteiros sugeridos são mais simples de seguir. Enquanto no livro do Nicholson os roteiros seguem mais ou menos a ordem dos dezoito capítulos do Ulysses e os passeios de Leopold Bloom e Stephen Deadalus, neste novo nove roteiros são distribuídos geograficamente pela cidade. São roteiros longos, que cobram tempo do flâneur, mas quem vai a Dublin com pressa? Mark Traynor e Emily Carson, dois experientes jovens dublinenses, ligados ao James Joyce Centre, acompanham o leitor pelas ruas da cidade, fazendo referência aos edifícios, parques, pubs, hotéis e monumentos que são ou citados nos livros de Joyce ou foram frequentados por ele e pessoas de seu círculo de amizade. Esses pontos de referência são identificados em mapas por meio de ilustrações estilizadas (assinadas por uma jovem designer, Fuchsia Macaree). O texto inclui citações curtas dos livros de Joyce, associadas a cada um dos pontos de parada. Para facilitar a vida do leitor cada um dos nove roteiros se distingue dos demais pela cor. Mesmo em uma época em que aplicativos para smarphones oferecem bons serviços de localização e referência às cousas do Joyce (há o Digital Dubliners, o Walking Ulysses e o bom mapa do Daniel Gray), esse livro me parece uma boa alternativa, principalmente para quem não conhece muito das referências literárias de Dublin. Ô beleza. 
[início: 14/11/2016 - fim 16/11/2016]
"Written in my heart: Walks through James Joyce's Dublin", Mark Traynor, Emily Carson, ilustrações de Fuchsia Macaree, Dublin: The O'Brien Press, 1a. edição (2016), brochura 13x19,5 cm., 96 págs., ISBN: 978-1-84717-820-6

domingo, 20 de novembro de 2016

homens elegantes

Ao finalizar a leitura de “Homens elegantes”, romance mais recente de Samir Machado de Machado, escrevi numa rede social que se tratava do romance mais “camp” que eu já havia lido, acrescentando pouco depois que era uma narrativa que merecia leitura por bons e variados motivos. De fato “Homens elegantes” é um romance divertido; exagerado; repleto de amalucadas e criativas citações; povoado de personagens extravagantes; recheado com uma miríade de informações (aquele tipo de informações que quanto mais irrelevantes e tolas, mais saborosas são, pois fazem festa nos sentidos do leitor). O que Samir Machado oferece é um jogo, onde cabe ao leitor descobrir até qual camada de entendimento ou associação é capaz de alcançar. Na mais superficial das camadas o que temos é a paródia de um romance histórico (que se passa na segunda metade do século XVIII). Nele acompanhamos os sucessos de um jovem oficial brasileiro que é enviado à Inglaterra para descobrir a origem de um contrabando muito peculiar, o de livros pornográficos. Portugal é um capricho inglês, portanto os ingleses são o único aliado confiável. O que parecia apenas contrabando revela-se uma bizarra conspiração que envolve interesses cruzados dos serviços secretos de várias nações europeias. Os planos mirabolantes do vilão da história envolve associar sodomia a terremotos (como o que havia destruído Lisboa em 1755), alardear o fim dos tempos, influir nos planos jacobitas na tomada do trono inglês, provocar insurreições separatistas em cidades brasileiras para facilitar que o Brasil fosse tomado de Portugal pela coroa espanhola. A chave de leitura do livro é mesmo o humor, mas as digressões de Samir Machado oferecem ideias interessantes ao leitor. Apesar de ser um livro longo para o padrão das edições brasileiras, ele deixa-se ler rapidamente. O ritmo é continuamente acelerado. O intervalo entre a chegada do protagonista a Londres e o desfecho do livro, numa curiosa batalha naval no estuário do Tâmisa, é de apenas poucas semanas (como sempre acontece num romance ou filme de aventuras ou espionagem). Mas há tempo de sobra para o narrador explorar a geografia de Londres, visitar bordeis e teatros, seduzir e ser seduzido, mostrar suas habilidades de espadachim e sua invulgar cultura. O que mais positivamente me surpreendeu no livro é a forma como Samir Machado trata do homossexualismo e da cultura LGBT, com total desembaraço, sem afetação ou hipocrisia. O protagonista da história e praticamente todos os demais personagens relevantes são abertamente gays e interagem homoeroticamente sempre que uma brecha na narrativa permite. O livro também é um manual de mundanidade, onde aprendemos algo da linguagem dos leques; dos passos de danças de salão; das gírias e procedimentos de sedução gays; de etiqueta, vestuário, esgrima e moda; das variedades de chá e as técnicas de seu preparo; de atores shakespearianos; do valor da tipografia e do design na produção de livros; da arte da confeitaria; dos problemas de tradução e autoria nas obras de ficção; de receitas de drinks; de teoria musical e de óperas; dos jogos de cartas e das trapaças possíveis; da literatura de entretenimento; de religião e milenarismo; de geopolítica e historiografia; das piadas típicas do humor judaico; da tecnologia da impressão, edição e distribuição de livros. Todos esses mimos são incorporados naturalmente à trama. De resto, saber quantas citações contemporâneas de cinema, literatura e música, da cultura pop e dos games, do universo gay ou sobre a sociedade brasileira estão entranhadas no livro, só o Samir Machado poderá um dia responder. Muito original (mas como a ficção pode competir com a realidade quando temos notícia de que há quinze dias um padre acusou gays pela cólera divina que provocou um terremoto no centro da Itália?) Enfim. Bem escrito, "Homens elegantes" parece ter sido produzido à medida para ser filmado ou por um Baz Luhrmann (numa versão light) ou um John Waters (numa versão hardcore). Logo veremos. 
[início: 30/10/2016 - fim: 05/11/2016]
"Homens Elegantes", Samir Machado de Machado, Rio de Janeiro: editora Rocco, 1a. edição (2016), brochura 16x23 cm., 574 págs., ISBN: 978-85-325-3040-0

sábado, 19 de novembro de 2016

onde está mimi?

O Byrata das histórias gaudérias e de dinossauros eu já conheço muito bem. Não conhecia seus livros diretamente dedicados ao público infanto-juvenil, como esta historieta sobre uma gata chamada Mimi que sumiu. E essa gata existiu mesmo. Era a mascote da família Byrata, ali na Vale Machado, perto do Colégio Manoel Ribas, de Santa Maria. Num dia de verão desapareceu, virou um sopro, uma memória e também uma dor. Elaborar perdas, vivenciar o luto, assimilar a morte, sempre é algo que fazemos cada um a seu modo e a seu tempo. Byrata optou por registrar as buscas que ele e seus outros mascotes fizeram para encontrar Mimi. Acompanhamos os esforços de um cachorro chamado Toco e de um gato chamado Morcego em lembrar seu dono do sumiço da gata e até esperamos um final feliz, mas como sua gata é agora também um personagem que segue as leis da ficção literária, ficará para sempre na condição do final do livro: perdida sim, provavelmente morta, mas talvez até viva, porquê não?, em outra casa, com outra família, vivendo outras e novas aventuras. Lembra aquele gato famoso da física, o gato de Schrödinger, sempre paradoxalmente vivo-morto dentro de uma caixa  (enquanto a deixamos fechada, sem abrir), nunca apenas vivo ou apenas morto. Claro, vale lembrar que as leis da mecânica quântica não funcionam no mundo macroscópico, o nosso, dos homens e dos gatos, mas o símile de Schrödinger tem essa singular função didática. Grande Byrata. Sua Mimi sempre viverá na memória, na sua, na dos teus e de nós, os leitores deste lírico livrinho. Abraços. 
[início-fim: 10/11/2016]
"Onde está Mimi?: A história de uma gatinha que sumiu", Byrata (Jorge Ubiratã da Silva Lopes), Santa Maria/RS: editora Rio das Letras, 1a. edição (2016), brochura 20x20 cm, 24 págs., ISBN: 978-85-65172-24-0

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

ulisses

Já havia lido essa versão mangá do Ulysses numa tradução para o inglês (publiquei um registro da divertida experiência num já distante março de 2013). Recentemente a LPM publicou a versão brasileira. Os desenhos são exatamente os mesmos. A tradução para o português não me parece ter se utilizado de material de nenhuma das três traduções já consagradas do livro (a do Antônio Houaiss, a da Bernardina Pinheiro e a do Caetano Galindo). Continuo achando o que já escrevi naquele antigo registro. O resultado não é ruim, mas obviamente condensado demais para que um sujeito possa dizer que conhece o Ulysses de Joyce (muito embora neste curioso início de século XXI talvez seja possível afirmar que leu-se o Ulysses deste jeito). Apenas algumas passagens emblemáticas de cada um dos 18 capítulos do livro são apresentadas. Algumas soluções são realmente interessantes, outras algo equivocadas, literais ou frouxas demais, sem nada das sutilezas de Joyce (traduzir o "Mrkgnao! the cat said loudly" por "Miaaau", é uma bobagem). Falta muito do humor de Joyce no livro (claro, o mangá oferece alguma graça, mas nada que se compare ao que Joyce faz). É sempre divertido ver Bloom, Molly, Stephen e tantos outros personagens com aqueles olhos enormes característicos dos mangás japoneses. Após esta familiarização talvez um jovem leitor se anime e algum dia enfrente o original (ou uma cinco traduções disponíveis para o português, afinal além das três citadas lá em cima, há duas outras publicadas em Portugal, a do João Palma-Ferreira e a do Jorge Vaz de Carvalho). Os prazeres que o Ulysses oferece nunca se esgotam, já se sabe. E haverá muito mais Joyce por aqui antes do final do ano. Vale.
[início: 28/10/2016 - fim: 16/11/2016]
"Ulisses", James Joyce, tradução de Drik Sada, Porto Alegre: LPM (coleção Pocket Mangá, v. 1220), 1a. edição (2016), brochura 105,x17,5 cm., 400 págs., ISBN: 978-85-254-3413-5 [edição original: Ulysses (Tokyo: Kazuki / East Press) 2013]

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

gigantes invioláveis

Karen Wolf produziu esse pequeno livro para divulgar, sobretudo ao público infantil, aquilo que está escrito num dos artigos da constituição federal, o quinto, aquele que que trata dos direitos e garantias fundamentais dos brasileiros (e dos estrangeiros residentes no país). Ele inventou cinco personagens (uma gata, uma papagaia, uma ursa, uma formiga e uma elefanta) para representar os cinco direitos fundamentais descritos nesse artigo da constituição (o direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade). As ilustrações foram produzidas em cores fortes, quentes, são antropomórficas e divertidas. Os textos são curtos e objetivos, afirmam didaticamente o que cada um dos cinco direitos significa, numa linguagem simples, porém precisa. Um adulto que se dispor a ler esse livro para as crianças (e que tenha alguma imaginação ou tino) saberá seguir a ideia básica de Karen, que é a de facilitar o acesso a informação, de forma a permitir que todos, pouco importando a idade, tenham alguma noção destas garantias constitucionais. Claro, é preciso ser um tanto otimista para acreditar que sua oferta seja bem acolhida pela sociedade brasileira, a meu juízo praticamente afogada num mar de hipocrisia e desinformação, quase toda ela escravizada mentalmente por velhas ideologias e práticas das mais condenáveis. Mas o projeto de Karen, mais que otimista, nasce da certeza que as futuras gerações de brasileiros podem sim ser capazes de transformar nosso país em um lugar melhor e mais digno. Parabéns minha cara. Longa vida aos "Gigantes invioláveis". Que eles cresçam e encontrem sempre um lugar nos corações e mentes de todos os brasileiros. Mesmo sendo o cínico incorrigível que sou rendo-me a seus esforços e entendo o grande valor de sua iniciativa. Vale.
[início - fim: 15/10/2016]
"Gigantes invioláveis", Karen Emília Antoniazzi Wolf, ilustrações de Isadora Forner Stefanello e Tiago Forner Stefanello, Santa Maria: Stefanello Studio, 1a. edição (2016), brochura 20x19,5 cm., 33 págs., sem ISBN

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

a casa cai

Apesar de ser bem escrito esse romance não empolga. Acompanhamos os sucessos do protagonista antes com tédio do que com curiosidade. Marcelo Backes conta a história de um sujeito que herda do pai alguns apartamentos no Rio de Janeiro e precisa administrar simultaneamente três tarefas: o início de um relacionamento amoroso, a reforma de um dos apartamentos que herdou e conhecer algo de seu pai, por meio dos surpreendentes guardados que encontra num cofre. Para dar alguma verossimilhança aos atos de seu anacrônico personagem principal ele o cria como um ex-seminarista, um sujeito que abandonou sua talvez claudicante vocação religiosa após a notícia da morte do pai. Sendo alguém que viveu desde a infância uma vida de contemplação e distanciamento das cousas do mundo, o sujeito descobre-se neófito de tudo que tenha a ver com a mundanidade, com a vida prática, com o século XXI. Só de um tolo assim, que parece renascer com a morte do pai, podemos aceitar a inaptidão tanto para tarefas simples, como sacar dinheiro em um caixa automático de banco ou tomar um ônibus, quanto com as mais complexas, como entender a psique de seu pai ou de como relacionar-se com várias mulheres simultaneamente. O sujeito não é um imbecil, um lorpa. Trata-se de alguém culto, que obteve uma formação singular nos tempos de seminário e é capaz de fazer associações curiosas entre as situações banais que experimenta com temas filosóficos, música e artes plásticas. Mas o leitor já sabe desde o início do livro que aquele tipo de personagem nem por sorte merece um destino bom. Backes interpola aos três grandes capítulos nos quais conta a história de seu ex-seminarista duas pequenas passagens. Nestas sabemos algo de como o pai do sujeito fez sua fortuna, nos anos 1960, por meio de especulação imobiliária e diversos atos de corrupção; e também algo dos dias de seminário do protagonista. São as peças mais interessantes de seu livro. É pouco.
[início: 31/10/2016 - fim: 08/11/2016]
"A casa cai", Marcelo Backes, São Paulo: editora Schwarcz (Companhia das Letras), 1a. edição (2014), brochura 14x21 cm., 425 págs., ISBN: 978-85-359-2487-9

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

guinness

Esse é o centésimo registro de leitura do ano (e o milésimo centésimo décimo quarto desde janeiro de 2007). Haverá apenas uns poucos mais até o 31 de dezembro e aí a primeira década deste blog estará encerrada. Bueno. Para comemorar escrevo sobre "Guinness", livro que acompanhou-me solidário, por semanas de alegrias e aborrecimentos, de calor e frio, desde a época do Bloomsday deste ano. O livro me fez lembrar que assim como o Mercat de la Boqueria é a catedral dos sentidos daqueles que visitam Barcelona, a gigantesca sede da cervejaria Guinness é a catedral dos sentidos daqueles que visitam Dublin. Antes mesmo de cruzar o umbral da St. James's Gate o visitante sabe que está sobre o efeito de algum tipo de encantamento, pois conhecerá onde começou a aventura da produção de uma das mais celebradas cervejas do mundo. O autor, Bill Yenne, dedicou vários anos à produção deste livro, tendo tido acesso aos centenários arquivos de produção da cervejaria e a entrevistas com seu atual mestre cervejeiro. Em capítulos curtos ele conta uma miríade de histórias, desde a mais importante, que é a de como um jovem empresário de Kildare, Arthur Guinness, mudou-se para Dublin e em 1759 começou a produzir suas cervejas escuras e amargas até aquela que dá conta de quantas pessoas visitam as instalações da cervejaria por ano (trata-se do maior destino turístico atual da Irlanda em número absoluto de visitantes). Os capítulos são tematicamente equilibrados, falam da história da companhia; da técnica de produção de cervejas; da política, economia e cultura irlandesa dos 250 anos de existência da cervejaria; dos investimentos em pubs e fábricas; das contínuas inovações tecnológicas; da química do processo de fermentação das cervejas; da associação do nome da companhia ao famoso livro de recordes; dos agressivos investimentos em design e marketing; da expansão da marca pelos cinco continentes; das vendas e lucratividade da companhia; das sucessões familiares e de como após duzentos e cinquenta anos a Guinness tornou-se parte do maior conglomerado do setor de bebidas do mundo, a Diageo. Claro, nada substitui o prazer de degustar uma Guinness, mas o sujeito aprende um bocado lendo esse livro, principalmente sobre as técnicas de produção e as diferenças entre a Guinness (que é do tipo stout) e as demais cervejas escuras de alta fermentação. Acho que não é necessário mais do que isso para deixar o sujeito de bom humor. Sláinte. 
[início: 16/06/2016 - fim: 08/11/2016]
"Guinness: The 250-year quest for the perfect pint", Bill Yenne, Hoboken / New Jersey: John Wiley and Sons, 1a. edição (2007), capa-dura 16x23,5 cm., 250 págs., ISBN: 978-0-470-12052-1

sábado, 5 de novembro de 2016

morte súbita

A ideia do livro é amalucada e parecia promissora, mas o resultado obtido por mexicano Álvaro Enrigue neste seu "Morte súbita" não funcionou comigo. Somos apresentados a uma improvável partida de tênis entre o poeta espanhol Francisco de Quevedo e o pintor italiano Michelangelo Caravaggio (que acontece na Piazza Navonna de Roma, em 1599). Os marcadores de pontos dos dois jogadores não são menos ilustres: Galileu Galilei marca os de seu compatriota italiano, enquanto que o terceiro Duque de Osuna, don Pedro Téllez-Girón, marca os de seu amigo Quevedo. A bem da verdade a partida de tênis é apenas um artifício utilizado por Enrigue para falar dos embates entre a reforma protestante e a contrarreforma católica no século XVI e seus desdobramentos, nas artes, na política e na sociedade, que eventualmente culminarão naquilo que pode ser entendido como o início da modernidade. Enrigue nos faz acompanhar o destino de alguns objetos icônicos: de uma bola de tênis feita em parte com os cabelos de Ana Bolena (uma das mulheres do rei inglês Henrique VIII); de um escapulário que teria sido dado ao explorador Cortés por sua mulher asteca, Malinche; de um manto real do imperador asteca Montezuma, joia da arte plumária asteca, que acaba se tornando parte das vestes cerimoniais de um importante bispo católico; dos quadros produzidos por Caravaggio e sua revolucionária técnica. Além de contar algo dos muitos jogos dos astecas que inspiraram as regras do tênis moderno, ele detalha as regras do bizarro jogo quinhentista (conhecido como pallacorda) em que ele colocou Caravaggio e Quevedo (o resultado do jogo o título já antecipa, só se decide por morte súbita, um ponto final). Seu livro é fragmentado em dezenas de pequenas histórias, algumas curiosas, outras irrelevantes, outras ainda certamente inventadas por ele para adaptar os destinos cruzados dos personagens que aparecem nas demais. Todas estão de alguma forma estão relacionadas a uma mais importante, a trágica história da destruição das civilizações pré-colombianas pelos europeus. Lembrei dos bons ensaios de Carlos Fuentes, que li no início dos anos 1990, reunidos em "O espelho enterrado" e, claro, do bom livro de Andrea Camilleri em que ele fala dos sucessos da vida de Caravaggio, "El color del sol". Interessante esse livro do Álvaro Enrigue, mas artificial demais para o meu gosto. Vale. 
[início: 09/10/2016 - 21/20/2016]
"Morte súbita", Álvaro Enrigue, tradução de Sérgio Molina, São Paulo: editora Schwarcz (Companhia das Letras), 1a. edição (2016), brochura 14x21 cm., 296 págs., ISBN: 978-85-359-2715-3

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

os cientistas da minha formação

A ideia é boa: contar a história dos cientistas que forjaram a formação de um outro cientista, mas Mario Novello, sempre incorrigível, faz o leitor entender já nos primeiros parágrafos que ele falará sempre mais de si do que qualquer outro indivíduo, tenha esse mais mérito, precedência ou tino, pouco importa. É pena. Não que o Novello não seja um físico importante, cujo mérito não mereça consideração e registro. É óbvio que trata-se de alguém que formou dezenas de bons estudantes, publicou centenas de artigos e é respeitado de fato por uma parte considerável da comunidade acadêmica, brasileira e internacional. Mas aquilo que ele mesmo promete na introdução: "Não é minha intenção aproveitar-me deles como um meio de falar de mim", nunca é alcançado. Claro, Cesar Lattes, José Leite Lopes, Jayme Tiomno e Mario Schenberg, percorrem alguns capítulos do livro, são citados ali e acolá, ora com uma discreta reverência ora com vistoso desdém, mas fazem parte da narrativa. Porém, o que o livro de fato faz é descrever as contribuições de Novello nas várias questões da física que o interessaram em sua exitosa carreira: a origem das massas das partículas elementares; a violação das simetrias fundamentais; as ondas gravitacionais; o problema cosmológico; a relação entre a cosmologia e a física das altas energias; a formação das galáxias e a variação das leis da física no universo. Um sujeito curioso nestes temas aprenderá um bocado. Mas tanto o Lattes quanto o Leite Lopes, o Tiomno e Schenberg (e de resto o próprio CBPF, Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas) são apenas coadjuvantes da trama, aparecem como indivíduos que em alguma época e de alguma forma se interessaram pelos problemas discutidos por Novello. Há uma inegável repetição de histórias (Novello antecipa já na introdução que escreve de memória e não tem a intenção de que os fatos tenham acontecido exatamente como ele os descreve). A edição, algo frouxa, mistura textos produzidos para outros fins e em outras épocas com coisas mais recentes, não respeitando ordem temática ou cronológica. Isso acaba resultando numa espécie de recorte de artigos mal acabado. O rosário de registros de sua precedência na previsão de fatos científicos que mereceram ou prêmios Nobel de Física ou outras distinções tão notáveis quanto, cansam o leitor, mesmo aquele mais crédulo ou neófito. Oká. A bem da verdade aprende-se um bocado com a leitura deste "Os cientistas de minha formação", mas ele poderia ter tirado os nomes e a menção dos quatro grandes físicos de sua narrativa sem prejuízo algum a seus argumentos e história de vida acadêmica. Como um amigo meu lembrou-me noutro dia, esse tipo de registro historiográfico é similar àquele de Garry Kasparov em sua série de livros "My great predecessors". O xadrez parece ter começado em 1963, quando ele nasceu. Paciência. Autoconfiança pode ser tudo na vida de um sujeito. Vale.
[início: 21/10/2016 - fim: 31/10/2016]
"Os cientistas de minha formação", Mário Novello, São Paulo: LF Editorial / Editora Livraria da Física, 1a. edição (2016), capa-dura, 16x23 cm., 212 págs., ISBN: 978-85- 7861-391-4

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

absolutamente nada

Só conhecia o Robert Walser da jornada infernal de "Jakob von Guten", que  atormentou-me por meses. Já as narrativas de Robert Walser reunidas neste "Absolutamente nada" por Sergio Tellaroli são igualmente tensas, talvez até um bocado mais enigmáticas. Parecem registros de sonhos amalucados, trechos de divagações de difícil entendimento, mas ao mesmo tempo são cheias de vigor e beleza, algo musicais, sempre irônicas, que estimulam o leitor a mil associações e tentativas de compreensão. Registro aqui o livro como de contos, mas as narrativas tem várias vocações distintas. Algumas se deixam ler mesmo como contos, invenções, mas há ensaios filosóficos, esquetes teatrais, discursos, reflexões irônicas sobre a vida e o destino de todos nós, os homo sapiens sapiens. São 41 histórias, produzidas originalmente para jornais e revistas, publicadas entre 1907 e 1929, e reunidas em livro ainda durante sua vida (ele morreu em 1956). As histórias são em geral curtas. Dependendo do tema podemos apenas vagamente inferir se ele está sendo brincalhão ou tentando mesmo apresentar um tema árido com palavras ora simples ora rebuscadas, como se fosse um bufão que apresentasse um seminário formal ou tese. Alguns descrições de caráter lembram coisas do Elias Canetti (como por exemplo aquela série de perfis bizarros traduzida no Brasil por "O todo ouvidos"). Outras parecem transcrições dos diários de homens loucos (ou de um cientista que estudasse homens loucos). Talvez, mais apropriadamente, seja apenas o resultado engenhoso de um autor realmente criativo, inventivo como poucos. Vale.
[início: 15/08/2016 - 21/10/2016]
"Absolutamente nada e outras histórias", Robert Walser, tradução de Sérgio Tellaroli, São Paulo: editora 34, 1a. edição (2014), brochura 14x21 cm., 168 págs., ISBN: 978-85-7326-583-5 [edição original: Sämtliche Werke in Einzelausgaben in zwanzig Bänden, Jochen Greven (org.) (Zürich/Frankfurt: Suhrkamp) 1985-86, after Select Stories / Christopher Middleton (org.) (New York: Farrar, Straus & Giroux) 1982]

domingo, 30 de outubro de 2016

las manos de los maestros: ensayos selectos I

É inevitável, cedo ou tarde um sujeito interessado em literatura deve voltar ao Coetzee, caso precise de um estímulo realmente provocador. Dos treze ensaios reunidos neste primeiro volume de "Las manos de los maestros" três eu já conhecia de "Inner Workings" (aqueles dedicados a Walt Whitman, William Faulkner e Arthur Miller) e três de "Stranger Shores" (os identificados por What is a classic?, Gordimer and Turguéniev e Doris Lessing). Os demais são mais recentes, quase todos publicados na revista New York Review of Books. A grande maioria trata explicitamente de questões literárias, mas há também ensaios cuja ênfase é em interpretações sociológicas, reflexões sobre a África do Sul, análises sobre autores radicados na Austrália e finas indagações culturais, coisas que o Coetzee sempre faz muito bem. Coetzee fala de T.S. Eliot e J. S. Bach a partir de sua própria biografia; analisa o fundo moral, cristão a bem da verdade, na crítica que os hotentotes e bôeres experimentavam na África do Sul colonial; fala de pintores e poetas sul-africanos que descreveram a paisagem daquele país; reflete sobre o diário de uma espécie de anti-herói sul-africano dos tempos dos bôeres, Hendrik Witbooi; discute livros recém publicados (quando não a obra inteira) de vários autores, em geral tão seminais quanto ele: Nadine Gordimer, Dóris Lessing, William Faulkner, Patrick White, Les Murray, Philip Roth, Walt Whitman, Arthur Miller e Gerald Murname. Maravilha.
[início: 10/09/2016 - 27/10/2016]
"Las manos de los maestros: Ensayos selectos I", J.M. Coetzee, tradução de Pedro Tena, Eduardo Hojman e Javier Calvo, Barcelona: Penguin Random House Grupo Editorial, 1a. edição (2016), brochura 13,5x23 cm., 255 págs., ISBN: 978-84-397-3145-0 [edição original: (New York: New York Review of Books) 2001, 2007, 2010, 2011, 2012, 2013; Writers at the Movies (New York: Harper Collins) 2000; South African Literary History: Totality and/or Fragment (Essen: Die Blaue Eule) 1997; Current Writing (Graz) 1993; Votre paix ser la mort de ma nation (Paris) 2011)]

sábado, 29 de outubro de 2016

mutações da literatura no século XXI

Em quatorze ensaios curtos e muito bem escritos Leyla Perrone-Moisés alcança oferecer ao leitor um bom panorama da literatura contemporânea. Nos seis primeiros dos quatorze ensaios ela faz um resumo do que pode ser entendido com os dilemas da cultura no século XX. Ela discute, define, conceitua, esclarece, reflete sobre o que pode ser dito do "fim da literatura", da herança cultural que pode ser recebida por meio da literatura e dos livros, do pós-modernismo na literatura, dos tons infinitos de cinza que são as formas de crítica literária e do ensino de literatura nas escolas. Nos demais ensaios ela analisa em detalhe as experiências narrativas mais comumente utilizadas nas últimas décadas, por escritores brasileiros e estrangeiros. Fala dos modismos e do mercado dos livros, das reflexões que escritores de sucesso produzem acerca de seu ofício, dos exercícios de metaficção e intertextualidade, de autoficção e das tentativas de capturar a modernidade, da literatura de entretenimento e da literatura sofisticada, que cobra erudição do leitor. O tom é sempre neutro. Ela nunca utiliza categorias de apreciação ou gosto vagas. Há livros que ela analisa minuciosamente e outros que descreve em dois ou três curtos parágrafos. Compara estilos e propostas narrativas. Tenta contrastar os ciclos ficcionais do século passado com aquilo que é produzido hoje. Fala de diversos escritores sem induzir o leitor a classificar um autor como melhor que outros. Certamente ela poderia obscurecer o texto com chavões acadêmicos e outros malabarismos, mas afortunadamente ela preferiu escrever um livro que mesmo o mais neófito dos leitores, o mais iludido dos jovens youtubers poderá aproveitar. Enfim, aprende-se um bocado com Leyla Perrone-Moisés. Belo livro.
[início: 13/10/2016 - fim: 20/12/2016]
"Mutações da literatura no século XXI", Leyla Perrone-Moisés, São Paulo: editora Schwarcz (Companhia das Letras), 1a. edição (2016), brochura 14x21 cm., 296 págs., ISBN: 978-85-359-2773-3

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

o gato por dentro

Aborrecido em um aeroporto e já tendo terminado os dois livros que levara comigo, inevitavelmente procurei uma livraria. A seleção em oferta era sofrível, mas por sorte consegui encontrar esse William Burroughs e um Hunter S. Thompson (sobre o qual em breve escreverei aqui). "O gato por dentro" é uma pequena série de apontamentos autobiográficos que Burroughs fez sobre seus gatos. O sujeito fala sobre os gatos como se deve, com o maior respeito e gratidão, sabedor dos muitos méritos que os gatos têm e que por fortuna partilham conosco, pobres homo sapiens sapiens que somos. A edição original incluía desenhos e grafismos de Brion Gysin, o artista plástico, músico e poeta multitalentoso que inspirou não apenas o povo da geração Beat (Burroughs entre eles), mas também a geração imediatamente posterior (David Bowie, Keith Haring, Mick Jagger). A edição original com os desenhos de Gysin custa uns três mil dólares hoje em dia. Bueno. Burroughs descreve seu livro como uma alegoria, na qual sua vida espelha-se à dos gatos que o cercam (os gatos oferecendo infinitas charadas, inventando jogos e diversões, procurando proteção). Um texto assim poderia facilmente descambar para o piegas, mas Burroughs sabe o que escreve. Há algo no texto que lembra ensinamentos zen, princípios filosóficos sofisticados. Grande Burroughs. Como não concordar com ele quando diz: "Nos somos os gatos por dentro. Os gatos que não podem andar sozinhos, e para nós há apenas um lugar". A quantas tristezas estamos condenados.
[início/fim: 20/10/2016]
"O gato por dentro", William Burroughs, tradução de Edmundo Barreiros, Porto Alegre: L&PM editores, 1a. edição (2015), brochura 11x18 cm., 102 págs., ISBN: 978-85-254-1526-4 [edição original: The Cat Inside (New York: The Grenfell Press) 1986]

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

filhos da américa

Nunca havia lido nada da Nélida Piñon. Noutro dia vimos, Helga e eu, uma boa entrevista com ela, senhora lúcida e de ideias sutis. Sua linguagem nos enfeitiçou, sua sagacidade parecia vir de alguém que sabe dos aborrecimentos da vida, mas não se abala por eles, sem ser pessimista ou cabotina. No final de semana seguinte o acaso, sempre um fiel camareiro, fez-me encontrar esse "Filhos da América". São ensaios, discursos, necrológios. A edição, frouxa para dizer o mínimo, não identifica a origem deles. Mas o leitor entende pelo contexto que um é o discurso referente as comemorações do centenário de falecimento de Machado de Assis, que ela proferiu na Academia Brasileira de Letras; outro um discurso de aceitação de um prêmio acadêmico em uma universidade gaúcha; outro ainda o discurso de recepção a um colega imortal na ABL. São textos muito bons. Vários deles tratam de sua biografia literária, da gênese de alguns de seus livros ("Vozes do deserto", "República dos sonhos", Guia-mapa de Gabriel Arcanjo"). Claro, um dia preciso ler sua ficção, seguro que sim. Outros são textos de reflexão sobre literatura, as fontes gregas, hebraicas, romanas e ibéricas que nutriram a língua e a literatura brasileira. Outros ainda são necrológios, registros sobre a morte de amigos queridos ou personalidades por quem guarda admiração (Clarice Lispector; Carmem Barcells, Júlio Cortazar, Raquel de Queiroz, Tomás Elroy Martinez, santa Tereza de Ávila, Guilherme Cabrera Infante, Guamám Ayala, José de Anchieta, José Maria Arguedas, Marília Pêra). Há um conjunto de cinco ou seis ensaios relativamente curtos que louvam o brasileiro maior de sua grei (palavra que ela usa invulgarmente): Machado de Assis. Por meio deles ela faz reduções sociológicas e antropológicas sobre o Brasil e o continente Ibero-Americano; reflete sobre a cultura e a palavra; percorre a geografia do Rio de Janeiro; tenta decifrar os mitos fundadores da literatura brasileira e o papel singular de Machado. Muito interessante mesmo. Um leitor curioso pode encontrar parte do material reunido nesse "Filhos da América" na página eletrônica dedicada a ela que está depositada na ABL. Vale a pena.
[início: 20/10/2016 - 24/10/2016]
"Filhos da América", Nélida Piñon, Rio de Janeiro: editora Record, 1a. edição (2016), brochura 14x21 cm., 398 págs., ISBN: 978-85-01-08770-6

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

um nazista em copacabana

Ubiratan Muarrek conta uma história improvável, mas sua técnica e construção narrativa realmente se destacam e salvam seu livro. O título é enganador, induz o leitor a algo bastante periférico na trama, muito embora esse personagem que brota do título possa ter sido propositalmente abandonado para eventualmente ser explorado no futuro (ao menos eu, o menor dos anões desta paróquia, não abandonaria Otto Funk morto nos anos 1970/80, solitário num apartamento no Flamengo, sem reinventá-lo e a seus sucessos pregressos, mas isso é algo que só o Muarrek poderá fazer, caso tenha tempo e tino). "Um nazista em Copacabana" conta na verdade a história de um bobão chamado Delúbio. Esse sujeito talvez seja mineiro e talvez seja são-bernardense (e de bobões são-bernardenses ou mineiros eu entendo muito bem, pois nasci em São Bernardo do Campo nos anos 1960, cidade onde boa parte da trama se desenrola, e sou neto de mineiros). Bueno. Pois este sujeito se envolve com Diana, uma garota que é filha do tal "nazista de Copacabana", Otto Funk. O romance dá conta dos desacertos políticos típicos do Brasil contemporâneo, de como os indivíduos comuns junto com seus sonhos e projetos acabam sempre destruídos pela máquina eficiente de corrupção e hipocrisia que opera em todos níveis deste desafortunado país. Um terço do romance canta as cousas do Rio de Janeiro, primeiro sobre como um imigrante alemão acaba se radicando por lá e se envolvendo com uma carioca da gema, Iracema, mãe de Diana. Depois de como são os dias aborrecidos de Diana, grávida e assustada na companhia da mãe e de uma vizinha voyeur. A parte mais longa do romance dá conta do quê fez Diana em São Bernardo do Campo com seu príncipe consorte, Delúbio. O que sustenta o romance é o hábil controle que Muarrek tem dos pensamentos de seus personagens, de como lentamente ele esclarece ou obscurece a trama, povoa a narrativa com personagens curiosos que espalham pistas falsas para o leitor. Interessante. Ojo. Esse Ubiratan Muarrek deve ter outras cousas para serem lidas em seu balaio de letras. Logo veremos.  
[início: 19/08/2016 - fim: 18/09/2016]
"Um nazista em Copacabana", Ubiratan Muarrek, Rio de Janeiro: editora Rocco, 1a. edição (2016), brochura 16x23 cm., 350 págs., ISBN: 978-85-325-3006-6

terça-feira, 25 de outubro de 2016

um amor feliz

Da Wislawa Szymborska já li duas boas antologias de poesia, o "Poemas", lançado em 2011 pela Companhia das Letras, e o "Paisagem com grão de areia", da portuguesa Relógio D'Água. Recentemente a tradutora Regina Przybycien produziu uma seleção de poemas, desta vez reunindo cousas desde o primeiro livro publicado pela Wislawa (Wolanie do Yeti, de 1957) até o último (o póstumo Wystarczy, de 2012). São 85 poemas, retirados de onze livros (Wolanie do Yeti, 1957; Sól, 1962; Sto Pociech,1967; Wszelki Wypadek, 1972; Wielka Liczba, 1976; Ludzie na Moscie, 1986; Koniec i Poczatek, 1993; Chwila, 2002; Dwukropek, 2006; Tutaj, 2009; Wystarczy, 2012). Os temas são bastante variados. A tradutora chama a atenção pelo interesse da poeta por temas científicos, pela astronomia, matemática e biologia, mas também encontramos investigações curiosas sobre o mundo das coisas inanimadas (pedras, areia, água, terreno) e dos conceitos puros (beleza, consciência, ausência, risos, cores). E há também as relações humanas, as coisas boas e más que fazemos todos, nós homo sapiens sapiens. Não é o tipo de livro para se ler de capa a capa. Folheamos vagabundos o livro e encontramos prováveis verdades, enigmas sem solução, perguntas que se esquivam de respostas, vestígios de memórias sepultadas pelo tempo, que se metamorfosearam em algo mais puro (será isso a poesia?). A poeta se orgulha de ser mulher, num mundo misógino e duro; controla a ironia que verte em gotas nos olhos do leitor. O livro inclui também o curto discurso de aceitação do prêmio Nobel de literatura de 1996, onde ela louva a potência infinita que guardam duas palavras que todos deveríamos prezar: "não sei". Grande poeta. Evoé Szymborska, evoé.
[início: 23/09/2016 - fim: 18/10/2016]
"Um amor feliz", Wislawa Szymborska, tradução de Regina Przybycien, São Paulo: editora Companhia das Letras (1a. edição) 2016, brochura 14x21, 327 págs. ISBN: 978-85-359-2788-7 [edição original: The Wislawa Szymborska Foundation]

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

el traductor del ulises

Lucas Petersen, jovem jornalista argentino, dedicou-se a escrever uma biografia completa e detalhada de José Salas Subirat, o primeiro tradutor do Ulysses para o espanhol. Nas palavras do próprio Salas Subirat, ainda em 1928: "Una autobiografia no tiene ninguna importancia. Si mi biografía la hiciera otro me gustaría leerla: es posible que supiera algo con respecto a mí.". "El tradutor del Ulises" tem quatrocentas páginas, só um quarto delas, pouco mais que cem, dedicadas a tradução do Ulysses, de James Joyce. Muito provavelmente ninguém se daria ao trabalho de escrever sobre Salas Subirat caso ele não tivesse se dedicado a traduzir o Ulysses. Não que sua vida não tivesse sido movimentada, cheia de passagens mirabolantes (o sujeito sobreviveu até a um pouso forçado de um avião, numa praia brasileira, nos anos 1950). De fato, como não se interessar por um autodidata; escritor bissexto de ficção (que chamou a atenção de Mario de Andrade, ainda no início dos anos 1920); frequentador excêntrico de salões literários; diligente vendedor de seguros de vida; empresário talentoso; tradutor; editor; estudioso de filosofia; melômano e crítico musical; autor de manuais de auto-ajuda. Petersen nos apresenta um homem complexo, multitalentoso, que tem facilidade para aprender línguas e é respeitado por sua capacidade empresarial. A crítica especializada costuma reputar muitos defeitos a tradução de Salas Subirat (Borges dizia que era péssima, "pero todo el mundo aplaudía aquella tontería"). Mas é fato que ele a produziu em 1945, vinte anos após a publicação original, sem acesso algum a outras traduções e ao enorme aparato técnico que hoje pode ser consultado rapidamente pela internet. Cabe registrar que a primeira tradução para o português só foi publicada em 1966, por Antônio Houaiss. Mesmo a segunda edição de Salas Subirat, revista e publicada em 1952, não pode ser considerada definitiva, pois ele interrompeu-a por conta da grave doença de uma de suas filhas (uma terceira versão, do final dos anos 1950, perdeu-se naquele acidente de avião que citei acima). De qualquer forma Petersen enfatiza as soluções criativas da tradução de Salas Subirat. Aparentemente sua primeira tradução foi produzida mais para consumo próprio, para que a trama e o encadeamento de sucessos do livro se desvelasse, enquanto que na segunda versão, já mais seguro, arrisca muito mais, alcançando emular em espanhol a musicalidade, a fusão de palavras, o fluxo de consciência das personagens e os jogos verbais propostos por Joyce (e eliminar os defeitos apontados pela crítica, sobretudo os apontados por Borges). A edição é muito bem cuidada. Inclui um bibliografia completa de Salas Subirat; as dezenas de fontes bibliográficas utilizadas por Petersen, reproduções fotográficas e fac-símiles do exemplar que Salas Subirat utilizou para sua tradução e um bom índice onomástico. Um leitor que domine o espanhol tem hoje a disposição três outras traduções do Ulysses, certamente devedoras dos muitos caminhos explorados por Salas Subirat: a de José María Valverde (de 1976), a de Francisco García Tortosa e María Luisa Venegas (de 1999) e de Marcelo Zabaloy e Edgardo Russo (de 2015). Bom divertimento. 
[início: 02/10/2016 - fim: 16/10/2016]
"El traductor del Ulises: Salas Subirat. La desconocida historia del argentino que tradujo la obra maestra de Joyce", Lucas Petersen, Buenos Aires: Sudamericana / Penguin Random House Grupo Editorial, 1a edição (2016), brochura 15,5x23 cm., 398 págs., ISBN: 978-950-07-5613-6

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

el ojo castaño de nuestro amor

As vinte narrativas autobiográficas desse "El ojo castaño de nuestro amor" devem também um bocado para a invenção. Se elas brotaram da memória passaram também pelo filtro brincalhão de um escritor que sabe as regras de seu ofício e as infinitas formas de manipular um leitor. Cartarescu chega aos cinquenta anos e precisa fazer uma espécie de balanço, dar contas de suas experiências mais transformadoras. Em quase todas há uma feroz ironia, um olho que pisca buscando cumplicidade (talvez solidariedade antes que cumplicidade, mas nunca condescendência), encontramos o desnudamento de um sujeito que sabemos estar de alguma forma nos ludibriando, como faz um mágico num circo. Os temas são variados. Cartarescu fala de uma ilha que desapareceu no Danúbio (por conta de uma hidrelétrica) que inspirava seus sonhos de garoto; da gênese de seu primeiro "eu" poeta; conta a vida de Ovídio, o poeta romano exilado em Tomis; partilha seu assombro com os resultados da queda do regime ditatorial de Ceausescu; fala do desejo juvenil em possuir uma legítima calça Levi's; dos efeitos do café sobre ele e a gênese de seu primeiro livro em prosa, "Lulu"; da história de como conseguiu escrever "Levantul", seu poema épico; faz um censo acadêmico sobre a produção poética contemporânea da Romênia; analisa o "Lolita", de Nabokov, e explica como os leitores são os grandes senhores da interpretação de um texto; fala de seu amor aos livros; conta a história de sua mãe e a de uma namorada (de quem roubo sonhos para transcrevê-los em seus livros); descreve a juventude e os aborrecimentos da velhice; explica o que entende sobre "ser europeu". Ri-se das situações cômicas descritas por ele, típicas de um país onde só a censura e o controle social explicam como somos afinal capazes de tolerar comportamentos esdrúxulos. E ri-se também dos momentos mais amargos recriados por ele, aqueles mais graves, pois a função do riso também é amortecer o efeito das dores e das experiências ruins (e eventualmente transformá-las em literatura, como não?).
[início: 19/09/2016 - fim: 02/10/2016]
"El ojo castaño de nuestro amor", Mircea Cartarescu, tradução de Maria Ochoa de Eribe Urdinguio, Madrid: editorial Impedimenta, 1a. edição (2016), brochura 14x21 cm., 208 págs., ISBN: 978-84-16542-32-1 [edição original: Ochiul caprui al dragsotei noastre (Bucaresti: Cartea Romanesca), 2015]

terça-feira, 27 de setembro de 2016

a origem dos elementos químicos

Neste pequeno livro Antônio Morais apresenta uma versão didática de um assunto complexo, que é o de explicar a nucleossíntese, ou seja, a formação dos elementos da tabela periódica. Trata-se de uma conquista da física que começou em meados dos anos 1940, quando George Gamow propôs o modelo do Big-Bang, a hipótese de que o universo evoluiu a partir de um estado extremamente quente e denso que, ao se expandir com o tempo, se resfria e se dilui. Gamow propôs também modelos para a criação das galáxias e para as reações nucleares nas estrelas. Antônio Morais parte da ideia de átomo dos gregos e sua cosmologia e acompanha o leitor por uma sucessão de grandes feitos científicos do século XX que culminam com a detecção da radiação cósmica de fundo, que é o resquício das altas temperaturas no passado de nosso universo. Há um pouco de tudo: história da tabela periódica; o modelo padrão de partículas; teoria das cordas; a física das supernovas; a física das interações fundamentais da matéria. A linguagem é simples, mas os conceitos físicos são sempre bem explicados. Não há espaço para aprofundar as questões, mas o livro se presta a informar corretamente o leitor sobre temas que são fascinantes, mas que cobram uma capacidade de abstração não trivial. Em suma, trata-se de um texto escrito para um público amplo, notadamente o do ensino fundamental e médio, que pode transmitir ao leitor algo da aventura da física do século XX.
[início: 05/04/2016 - fim: 19/09/2016]
"A origem dos elementos químicos: Uma abordagem inicial", Antônio Manuel Alves Morais, São Paulo: Livraria da Física Editorial, 2a. edição (2010), brochura 14x21 cm., 104 págs., ISBN: 978-85-7861-042-5

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

cuadernos d'itaca

De todos os bons trabalhos que já li de Alfonso Zapico esse é o mais pessoal, mais intimista, mais especial. São onze histórias curtas, onde ele faz uma espécie de balanço ou ajuste de contas, tanto de sua vida, sua história pessoal, quanto de seu ofício, sua arte. "Cuadernos d'Itaca" está escrito em asturiano, língua que alguém que entenda o português de Portugal e algo do espanhol da Espanha acaba entendendo também, com um justo e necessário esforço. Abundam os "X" galegos e os "LL" catalães (mas só mesmo um linguista para me ensinar como se deve ler essa língua). De qualquer forma aprendi que pelo menos 400 mil pessoas a dominam bem, ao menos como segunda língua. Como vasto é o mundo. Bueno. Vivendo há muitos anos na França Zapico retorna de férias a sua Astúrias natal e sente-se um estrangeiro. Ele se inspira nas viagens de Ulysses pelo mar Egeu para descrever algo de sua "Señardá" (quem diz a palavra que descreve saudade só existe em português não conhece asturiano). Umas gaivotas lhe mostram o caminho. O inspiram a recolher de seu caderno de rascunhos as histórias que contem algo de sua terra. Zapico escreve sobre seu tio Milio, que perdeu o emprego em uma fábrica estatal de equipamentos bélicos; sobre sua decisão de emigrar ao norte, à França; sobre sua casa editorial (a Astiberri), como se fossem uns piratas no mar revolto da edição de livros; faz uma sociologia selvagens dos hábitos franceses; descreve as dificuldades de uma mulher espanhola em conseguir cargos de comando num mundo europeu machista; fala do fechamento das minas asturianas de carvão e o impacto disto na sociedade local; filosofa sobre os tempos modernos, do feroz neoliberalismo que compromete o futuro de uma sociedade que se imaginava sempre ser possível prosperar; conta a história de uma senhora de quase cem anos que emigrou como ele para a França nos tempos da guerra civil espanhola; fala da experiência de viver uns dias na Polônia, num evento literário, um país tão complexo como o seu (afinal, como ele diz, parafrasendo Tolstói "todos os países que parecem felizes são iguais, mas todos os países infelizes o são cada um à sua maneira". Há que se respeitar um autor que usa sua arte para interpretar honestamente o mundo e o tempo que vive (não há um pingo de autoindulgência, comprometimento ideológico ou partidário, cabotinismo ou hipocrisia em suas histórias - cousa que muitos escritores brasileiros se aferram em fazer, imaginando que todos seus eventuais leitores são incapazes de pensar por conta própria). Enfim, como já nos ensinou Auden (traduzido por José Paulo Paes e certamente lido pelo Zapico), todos nós em algum momento nos perguntamos: "Para onde aponta esta jornada, que o vigia do cais, / Parado sob a sua má estrela, inveja tão amargamente, / Enquanto as montanhas nadam para longe em braçadas lentas, calmas, / E as gaivotas abdicam seu vôo? Promete acaso uma vida mais justa?”. Evoé Zapico, evoé. 
[início: 18/08/2016 - fim: 25/09/2016]
"Cuadernos d'Itaca", Alfonso Zapico Fernández, Oviedo/Espanha: Ediciones Trabe, 1a. edição (2014), capa-dura 24x30 cm., 89 págs., ISBN: 978-84-8053-747-6

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

curiosidade

Esse é o milésimo centésimo registro de leitura que faço neste "Livros que eu li", iniciado já no longínquo 01 de janeiro de 2007. Para comemorar este registro e também para celebrar o início da primavera que experimentaremos ainda hoje mais tarde, perto do meio dia, escolhi "Curiosidade", de Alberto Manguel. Os livros de Albert Manguel sempre são especiais. O sujeito sabe contar histórias, tem uma imaginação dos diabos e faz associações das mais criativas e pertinentes. Quem não invejaria francamente alguém que tem 30 mil livros e um castelo na França para guardá-los; quem não gostaria de partilhar de um naco que fosse de seu tempo, memória e experiência? Já li e reli vários outros livros dele, sendo "A Biblioteca à noite" e "A cidade das palavras" dois dos mais recentes. Se nesses ele fala do amor aos livros e do local onde podemos guardá-los, em "Curiosidade" ele discorre sobre aspectos relacionados ao processo de escolha dos livros que lemos ou relemos. Para acompanhá-lo na assombrosa tarefa de descrever do que trata a curiosidade humana Manguel elege Dante Alighieri, assim como este adotou Virgílio em sua jornada Inferno e Purgatório adentro (Beatriz e São Bernardo o levarão depois ao Paraíso, mas essa é outra história). Com a "Divina Commedia" debaixo do braço Manguel parte em suas investigações, buscando clareza e compreensão, curioso ele mesmo por tudo sob o sol e sobre o mar. Os dezessete capítulos têm uma estrutura fixa. Primeiro ele narra um fato quase banal de sua vida (algo sobre sua infância, seus primeiros contatos com as letras e os livros, seus primeiros professores, seu cachorro, um pequeno AVC que sofreu, um trabalho humanitário para o governo canadense, a política conturbada de seu país natal, uma entrevista especial, e assim por diante); depois ele localiza na Divina Comédia argumentos de Dante sobre um assunto que pode ser associado diretamente (ou hiperbolicamente) àquela passagem da memória; e, por fim, ele desenvolve seu raciocínio/associação, acrescentando ao texto de Dante camadas de outros, contando histórias, resumindo algo da mitologia dos gregos e romanos, falando das repercussões, ecos ou influências produzidos por outros autores e/ou escolas de pensamento sobre aquele assunto. Em cada página o leitor encontra algo com o qual poderia dedicar-se uma vida inteira (e há uma generosa lista de livros nas notas de cada capítulo que facilitam essa possível imersão). Os títulos dos capítulos são chaves para análises de temas bem amplos. Minucioso, Manguel se pergunta sobre o que é a curiosidade; sobre o processo de raciocinar; sobre o que vemos e perguntamos; sobre nossa linguagem e nosso eu; nosso papel individual na história; nas consequências de nossas ações; na ordem e desordem natural de tudo; dos porquês e do porvir; da possibilidade de existir mesmo verdade naquilo que aprendemos ou lemos. Além da sofisticada análise do texto de Dante, Manguel vale-se de muitos outros escritores e pensadores, de uma miríade de mitos e histórias. Alguns são óbvias escolhas quando se trata de discutir o engenho humano (Aristóteles, Cervantes, Primo Levi, Nelson Mandela, Lévi-Strauss, Sócrates, santo Agostinho, Homero, David Hume, Lewis Carroll, Tomás de Aquino), mas há vários outros sobre os quais nunca havia ouvido falar, ai de mim, como Paul Otlet e Olympe de Gouges (cada leitor encontrará suas próprias lacunas de formação e seguirá sua própria curiosidade). Fenomenal. A única coisa que eu não gosto neste livro é a tola decisão editorial brasileira de acrescentar um "Uma história da" ao título original do livro, que é simplesmente "Curiosidade", ponto. O livro inclui ainda um vasto índice remissivo e reproduções de xilogravuras que ilustram vários cantos de uma edição de 1487 de "A Divina Comédia", dentre várias outras ilustrações e reproduções fotográficas. Manguel repete algo já ensinado por Ricardo de Bury em seu Philobiblon que todo colecionador de livros deve lembrar: "Um dia alguém deverá contar a meus livros que eu não voltarei mais". Em minha jornada pelo livro lembrei várias vezes do Luiz-Olyntho e do Robson Gonçalves, amigos queridos, que certamente trilharão a leitura deste livro garimpando mais preciosidades do que meu engenho permitiu. Sobre esse "Curiosidade" vamos os três conversar, seguro que sim. Vale.
[início: 01/09/2016 - fim: 19/09/2016]
"Uma história natural da curiosidade", Alberto Manguel, tradução de Paulo Geiger, São Paulo: Editora Schwarcz (Companhia das Letras), 1a. edição (2016), brochura 14x21 cm., 488 págs., ISBN: 978-85-359-2770-2 [edição original: Curiosity (New Haven/Connecticut: Yale University Press) 2015]