sábado, 3 de dezembro de 2016

strong opinions

Esse livro me acompanha há tempos. Lembro-me de ter começado a lê-lo em um hotel madrilenho, ainda no início do ano passado. Desde então ocupei-me de tantas outras coisas e leituras, mudei de apartamento, tentei organizar meus livros em suas novas e alvas moradas, mas esqueci as "strong opinions" de Nabokov na pilha de guardados. Reencontrei-o no início desta primavera brasileira, terrível e estúpida como poucas. Ler Nabokov sempre é uma festa para os sentidos. O sujeito domina tão completamente a linguagem, expressa-se com tal precisão, encadeia argumentos e silogismos tão bem escritos que nunca aborrece o leitor. Em "Strong opinions" estão reunidos três conjuntos distintos de textos dele. A primeira parte é justamente a mais extensa. Envolve a transcrição de 22 entrevistas, originalmente publicadas em jornais ou revistas, entre 1962 e 1972. Há uma natural repetição das perguntas (jornalistas não são usualmente reconhecidos por sua originalidade), mas a cadência e o tom das respostas refletem distintos estados de ânimo de Nabokov, que por vezes enfatiza um aspecto ou outro dos questionamentos. Zeloso de tudo o que produzia, Nabokov só respondia perguntas por escrito, inclusive cobrando a correção do material imediatamente antes da composição final e/ou impressão. O período das entrevistas corresponde aos anos que se seguiram ao sucesso absoluto de seu livro "Lolita" e da versão cinematográfica dirigida por Stanley Kubrick. Parte em função da notoriedade e parte em função da estabilidade financeira alcançada permitiu que Nabokov deixasse de ministrar aulas (já registrei aqui as transcrições de seus cursos de literatura russa e aquele dedicado, grosso modo, a literatura em língua inglesa, francesa e alemã). Nesta época ele radicou-se na Suíça e passou a dedicar-se exclusivamente a produção literária (e as inevitáveis excursões de caça a borboletas). A segunda parte é bem curta. São reproduções de cartas que Nabokov enviou a redação de jornais e revistas literárias, entre 1961 e 1971. São cartas curtas, onde em geral ele corrige furiosamente alguma informação pouco acurada sobre seus livros, sua vida ou suas declarações públicas. A terceira e última parte é mais técnica. Estão nela reunidos 14 ensaios longos, produzidos entre 1939 e 1970, publicados originalmente em jornais especializados ou revistas científicas. Cinco deles são registros de classificação de borboletas por ele coletadas (Lepidopterologia nunca foi apenas uma distração). Uns três ou quatro são ensaios sobre o ofício da literatura, de seu entendimento da técnica e da inspiração, do ofício da crítica. Um outro traz diatribe feroz dirigida as opiniões de Edmund Wilson sobre seu livro "Ada" (de 1969). Os demais são críticas literárias produzidas por encomenda. Nabokov fala de Hodasevich, um importante poeta russo; de Sartre; de sua própria tradução de "Eugene Onegin" (de Pushkin); de uma questão jurídica associada a tradução francesa de "Lolita"; de Mandelstham, outro grande poeta russo; de uma outra tradução de "Eugene Onegin", produzida por uma americana que o aborreceu (talvez ela nunca tenha lido nada em russo na vida, diz ele). Quase todos os textos deste livro são cheios de humor, quando não ferino sarcasmo. Envolvem registros de memória, dos tempos vividos na Rússia, na Europa e nos Estados Unidos, refletem um conhecimento refinado das coisas (não apenas de literatura, mas também de política, relações internacionais, interações pessoais, cultura, arte e da sociedade de seu tempo). Devia ser um inferno conviver com ele, mas o sujeito sabia defender suas opiniões e sua obra. Vale.
[início: 20/09/2016 - fim: 24/11/2016]
"Strong opinions", Vladimir Nabokov, New York: Vintage International edition (Penguin Random House , 1a. edição (1990), brochura 13x20cm., 340 págs., ISBN: 978-0-679-72609-8 [edição original: (New York: McGraw-Hill Book Company) 1973]

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