sexta-feira, 15 de novembro de 2019

poesia holandesa

Daniel Dago, jovem senhor das cousas holandesas, organizou um volume com trinta poemas produzidos entre 1852 e 2009, a "primeira ampla antologia de poesia holandesa no Brasil", segundo ele mesmo diz, na apresentação. Nesta ele diz também que a tradução dos poemas foi feita a quatro mãos, as dele e as de Rubens Chinali, tradutor mais afeito aos jogos, métrica e rimas, ao ofício poético propriamente dito. Um pequeno parágrafo biográfico apresenta os autores incluídos na antologia. Não é o tipo de livro que lê-se de capa a contracapa, num fôlego só. São propostas poéticas muito variadas, cada uma delas uma pequena nesga na vastidão de poemas que cada um dos trinta engendrou ao longo de suas vidas. De qualquer forma o leitor diligente ganha muito escolhendo ao azar quaisquer dos poemas para ler. Do conjunto gostei particularmente de um, Hans Faverey, que diz: "Primeiro a mensagem mata / o destinatário, então / mata o remetente. / Não importa / em qual idioma. // Eu me levanto, abro / com força as portas da sacada / e respiro fundo. // As gaivotas que circulam / sobre a rua sem neve / não vou atrair / com gestos de alimentá-las. // Acendo um cigarro; / volto para meu posto / e respiro fundo. / Não há nada a se sonhar. / Tudo é possível. / Pouco importa." Bueno. Os poetas incluídos na antologia são: Piet Paaltjens, Jacques Perk, Albert Verwey, Herman Gorter, Willem Kloos, Henriette Roland Holst, Adriaan Roland Holst, Hendrik de Vries. J.H. Leopold, Theo Van Doesburg, P.C. Boutens, Jan Jacob Slauerhoff, Martinus Nijhoff, Hendrik Marsman, M. Vasalis, Ida Gerhardt, Jan Campert, J.C. Bloem, Gerrit Achterberg, Hans Lodeizen, Lucebert, Jan Hanlo, Remco Campert, Leo Vroman, Rutger Kopland, Gerrit Kouwenaar, Hans Faverey, Gerrit Komrij, Nachoem MN. Wijnberg e Ester Naomi Perquin. A edição é bilíngue, e é da Demônio Negro, ou seja, garantia de boa qualidade. Vamos em frente. Vale! 
Registro #1470 (poesia #120) 
[início: 19/09/2019 - fim: 28/09/2019]
"Poesia holandesa: do século XIX à atualidade", Daniel Dago (organização), tradução de Daniel Dago e Rubens Chinali, São Paulo: V. de Moura Mendonça Livros (Selo Demônio Negro), 1a. edição (2019), capa-dura 16,5x23,5 cm., 152 págs., ISBN: 978-85-66423-64-8

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

restos mortales

Vigésimo sexto volume com os sucessos do comissário veneziano Guido Brunetti, "Restos Mortales" é um tanto diferente da grande maioria dos anteriores. Donna Leon afasta seu personagem das Calli, Campielli e Canali de Veneza e o leva para a ilha de Sant'Erasmo, ao nordeste da Laguna. Desta vez não se trata de uma investigação oficial. Antes é o instinto moral e a memória afetiva que motivam Brunetti a examinar as circunstâncias da morte de um velho amigo de seu pai. Há uma cena algo burlesca no início do livro, que fez-me lembrar dos truques do genial Andrea Camilleri, escritor italiano que morreu há pouco tempo, de quem li livros notáveis, grande sujeito. Num julho de calores infernais, para evitar que um de seus subordinados possa ser acusado de agressão a um suspeito, Brunetti simula um desmaio, uma queda. Após uma sucessão rocambolesca de equívocos, ele resolve aceitar as recomendações médicas de ficar em licença de saúde por algumas semanas. Neste período ele passa os dias remando, num dolce far niente, lendo seus adoráveis autores clássicos: Plínio e Suetônio, Heródoto e Eurípedes. Na ilha de Sant'Erasmo, onde está hospedado, numa casa de verão de uma das tias de Paola, Brunetti reencontra um velho amigo de seu pai, Davide Casati, um sujeito taciturno. Davide demonstra ser um hábil marinheiro e também uma espécie de filósofo amador, porém alguém que esconde algo confuso na alma, somente sendo capaz de demonstrar preocupação com a morte das abelhas que cria nos baixios da Laguna de Veneza. Após a aparente morte acidental de Davide em uma dia de tempestade, Brunetti, um tanto para consolar a filha do morto, outro por sua perene curiosidade policial, resolve investigar os acontecimentos e chega a uma conclusão surpreendente. Donna Leon invoca temas diferentes desta vez. Ela discorre sobre questões ecológicas, sobre o suicídio, sobre a velhice, sobre a cobiça, sobre os animais. Em algum momento surge brevemente o nome de Robert Hughes e suas reflexões sobre arte. Que miríade de associações um sujeito não faz quando lembra de Hughes? Há notas amargas neste volume, tons duros, melancólicos, de quem já não acredita na capacidade do homem de melhorar, tornar-se menos perverso e daninho, para si mesmo e para o planeta. Enfim, trata-se de um bom equilíbrio entre diversão ligeira e importantes reflexões contemporâneas. Bom livro, como sempre deveria ser. Vale! 
Registro #1469 (romance policial #92) 
[início: 20/10/2019 - fim: 24/10/2019]
"Restos Mortales" (Brunetti #26), Donna Leon, tradução de Maia Figueroa Evans, Barcelona: Editorial Seix Barral / Booket #2776 (Grupo Planeta Manuscrito), 1a. edição (2018), brochura 12,5x19 cm., 350 págs., ISBN: 978-84-322-3331-9 [edição original: Earthly Remains (Zürick: Diogenes Verlag AG / Penguin Randon House Group) 2017]

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

el cartero del rey

Escrita em 1912, essa pequena peça de teatro deixa-se ler em um par de horas. É uma cousa sutil, delicada, algo mágica, que provoca o leitor/espectador refletir sobre nossa humana fragilidade, nossa transitória condição, nosso destino. A peça (Bengali Dak Ghar no original) foi traduzida por Yeats e por conta disto rapidamente ganhou visibilidade no ocidente, tendo sido encenada com regularidade desde sua primeira publicação (cabe dizer que ambos ganharam um prêmio Nobel, Tagore em 1913, Yeats em 1923). A história é curtíssima, e tem muito de alegórico. Uma criança, Amal, encerrada numa casa em função de sua doença, debilitante e incurável, alcança conversar e fazer perguntas a algumas pessoas, aquelas que passam próximas da janela de seu quarto. Neste ele conversa com seu pai adotivo, Madhav, e com um médico; da janela do quarto ele conversa com um leiteiro; um vigia noturno; um marinheiro; um valentão, que é chefe de sua aldeia; e com uma florista, Sudha. Basicamente ele pergunta a estas pessoas qual o destino delas, pergunta para onde eles vão. Os diálogos levam o leitor a refletir sobre o significado da vida, sobre a curiosidade que nos move, que nos obriga a tentar entender o quê significa mesmo partilhar uma existência, uns poucos anos, em um universo que tem mais de 13,77 bilhões de anos. Eventualmente, cada um de nós se desapega da vida, do eu, das cousas, dos outros. Todavia, quase sempre, esta epifania acontece quando já não somos capazes de mudar, nem tampouco entender de fato, a razão e o acaso de nossos destinos, se é que isto importa. Vale! 
Registro #1466 (drama #16) 
[início - fim: 03/10/2019]
El cartero del Rey", Rabindranath Tagore, tradução de J.A. López de Letona, Madrid: Ediciones Akal, (Básica de Bolsillo) 1a. edição (1986), brochura 12x18 cm., 80 págs., ISBN: 978-84-460-3323-3 [edição original: The Post Office (New York: Macmillan Company) 1914]

terça-feira, 5 de novembro de 2019

helena

Nunca havia lido essa peça, nem tampouco cheguei a ver uma apresentação dela, mas conhecia sua trama (graças ao bom Robert Graves, sempre o melhor artífice das associações possíveis sobre os gregos). Eurípides a escreveu no século V a.C. A peça baseia-se em uma variante da história mais conhecida de Helena de Troia (ou de Esparta). Na Ilíada aprendemos que Helena, mulher de Melenau de Esparta, foi sequestrada por Páris, filho de Príamo, rei de Troia. Desta forma ela é a causa material da longa guerra entre gregos e troianos, da morte de tantos guerreiros de ambos os lados. Em uma outra versão do mito, registrada por Heródoto e alguns outros, Helena foi transportada logo após seu sequestro para o Egito (para Mênfis), abandonada por Paris e lá mantida, incógnita, por dez anos, até ser reencontrada e levada por Menelau de volta a Esparta. É esta a variante utilizada por Eurípides para construir sua peça. Menelau, após a destruição de Troia pelos exércitos gregos, encontra nas ruínas da cidade uma Helena, mas não a sua. Esta nada mais é que um simulacro, um fantasma, um espectro engendrado por Hera, que enganou os sentidos dos dois grupos de combatentes durante os dez anos da guerra. Helena e Menelau, assim como os demais guerreiros espartanos, embarcam em um navio, mas navegam erráticos por longos sete anos pelo Mar Egeu, jamais alcançando Esparta. Imediatamente antes dos sucessos da peça, o navio deles naufraga nas costas do Egito. Enquanto Menelau procura ajuda, Helena e os demais marinheiros que sobreviveram ao naufrágio abrigam-se em uma gruta próxima da costa. Quando Menelau chega a cidade (Mênfis) encontra lá a verdadeira Helena, sua mulher há tanto anos sequestrada (na peça são 17 anos). A princípio ele pouco acredita na incrível semelhança entre a mulher que encontra no palácio e aquela que havia deixado na gruta marinha, mas após um de seus marinheiros alertá-lo que o espectro da outra Helena havia desaparecido no ar, alçado aos céus, desaparecido, ele passa a acreditar ter sido ludibriado pela deusa (Hera jamais perdoou Helena ter sido oferecida como prêmio a Páris após este ter escolhido Afrodite a mais bela das deusas e, cabe dizer, o fato de Helena ser filha bastarda de seu Zeus tonante). A peça gravita os sucessos que o casal finalmente reunido, Helena e Menelau, precisam engendrar para conseguirem fazer-se ao mar novamente, fugirem do palácio egípcio em segurança e voltarem para Esparta. A Helena de Eurípedes é uma mulher valorosa, com força moral e psicológica que supera em muito os engenhos de um tosco Menelau. É ela quem concebe todas as ações que ambos precisam tomar. Diversão garantida. A edição é bilíngue. Uns poucos comentários críticos e um prefácio assinado pelo próprio tradutor, Trajano Vieira, completam o volume. Seguro que ninguém perde tempo lendo uma peça clássica, um drama como este. Aprende-se um bocado, seja sobre a miríade de mitos que a sustentam, seja pelos matizes de entendimento de como opera a psique humana, de como nós fazemos uso da ficção para suportarmos a complexidade das paixões humanas, as surpresas do acaso, as vicissitudes da vida. Mas é hora de voltar a fazer-se ao mar. Vale! 
Registro #1465 (drama #15) 
[início: 29/08/2019 - fim: 31/08/2019] 
"Helena, de Eurípides, e seu duplo", Eurípides, tradução de Trajano Vieira, São Paulo: Editora Perspectiva (Coleção Signos #59), 1a. edição (2019), brochura 15x20,5 cm., 272 págs., ISBN: 978-85-273-1145-8

sábado, 2 de novembro de 2019

três ícones

Massimo Cacciari, filósofo italiano, ensaísta dos bons, apresenta neste pequeno volume três curtos ensaios sobre arte. Ele fala de três obras produzidas no século XV que considera "(...) em sua finalidade, em ato, apresentarem um pensamento pictórico específico". As três obras são: "A trinidade", de Andrei Rublev, parte do acervo da Galeria Tretyakov, em Moscou; "Ressurreição", de Piero della Francesca, parte do acervo exposto no Museo Civico de San Sepolcro, na Itália; e "Retrato dos Arnolfini", de Johannes de Eyck, do acervo da National Gallery, de Londres. Cacciari alcança encontrar nas três obras camadas de símbolos, de representações, de informações cifradas. Sua narrativa ilumina as obras, cada gesto capturado pelo artista, cada fragmento das imagens é por ele desconstruído, forçado a mostrar sua razão de estar ali. O que ele faz é basicamente narrar toda uma simbologia cifrada. Mas, a meu juízo, o leitor quase se afoga neste mar de referências cruzadas. A linguagem utilizada por Cacciari é muito técnica, coisa que certamente afasta alguém não muito familiarizado com a história da arte, com história das religiões, com estética, sociologia, com a filosofia, como eu. Difícil decisão recomendar ou não um livro assim. Gosto mais do estilo de Cees Nooteboom quando apresenta suas reflexões sobre arte (dele já li os seminais "El bosco", "Zurbarán", "El enigma de la luz", "Tumbas"). Claro, a rica e exuberante descrição das obras que Cacciari oferece ao leitor nos dá oportunidade de ilustrar-nos mais, a aprender algo que não conhecemos, afinal, em algum momento de nossa história perdemos a capacidade de entender certas alusões iconográficas. Será o caso de invejarmos nossos ancestrais do medievo, da renascença? Todavia, apesar do livro ser curtíssimo, precisei investir um bocado de tempo nele para poder dizer "que li este livro". Vamos em frente, tenho um outro Cacciari para registrar em breve. Vale! 
Registro #1464 (crônicas e ensaios #263) 
[início 03/04/2019 - fim: 14/09/2019] 
"Três ícones", Massimo Cacciari, tradução de Denise Bottmann e Federico Carotti, Belo Horizonte: Editora Âyiné (coleção Pré textos | Kutchak #2), 1a. edição (2007), brochura 12x18 cm., 74 págs., ISBN: 978-85-92649-14-2 [edição original: Tre Icone (Milano: Adelphi Edizione S.P.A Milano) 2007]