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quarta-feira, 1 de julho de 2020

mil sóis

Neste volume estão reunidos 60 poemas de Primo Levi, produzidos entre janeiro de 1946 e janeiro de 1987. Os 49 primeiros foram selecionados pelo tradutor, Mauricio Santana Dias, dentre os 63 incluídos no volume "Ad ora incerta", premiada reunião de toda produção e tradução poética de Levi até junho de 1984. Outros 11 poemas, produzidos entre setembro de 1984 e antes da morte de Levi, em abril de 1987, também foram incluídos nesta seleção. Os poemas escritos logo após a segunda grande guerra são obviamente marcados por sua experiência no campo de concentração de Auschwitz. São poemas curtos, mas duros, que cobram do leitor não solidariedade, antes sim capacidade de indignação, de indignação frente ao horror, da necessidade de que todos guardem memória daquela tragédia. Nos demais poemas encontramos vários temas recorrentes: os animais e a natureza, a passagem no tempo, a velhice, as estações que governam o cotidiano dos homens, a ideia de viagem, afastamento, o Sol e a neve, o jogo de xadrez, as relações de trabalho e a necessidade do ócio, o contato social, humano. É um livro lírico, repleto de belas imagens, metáforas, que se lê com muito prazer. A edição é bilíngue, porém, ai de mim, meu italiano lamentável pouco ajudou-me na leitura. Cito aqui um dos poemas, "Despedida", de 1974, que diz: "Ficou tarde, meus caros; / Por isso não vou aceitar o pão ou vinho de vocês, / Somente umas poucas horas de silêncio, / As histórias de Pedro, o pescador, / O perfume de musgo deste lago, / O cheiro antigo dos sarmentos queimados, / O grasnido falastrão das gaivotas, / O ouro grátis dos líquens nas telas / E uma cama para dormir sozinho. / Em troca, lhes deixarei versos nebbich como estes, / Feitos para serem lidos por cinco ou sete leitores: / Depois seguiremos, cada um por si, / Pois, como eu dizia, ficou tarde". Li esse volume quase simultaneamente a um outro livro de poemas, de Wallace Stevens, muito cerebrais e diferentes destes de Primo Levi, mas esta é outra história. Sigamos pois, em nosso baile macabro. Vale! 
Registro #1548 (poesias #131) 
[início: 01/03/2020 - fim: 20/05/2020] 
"Mil sóis: Poemas escolhidos", Primo Levi, tradução, seleção e apresentação de Mauricio Santana Dias, São Paulo: Editora Todavia, 1a. edição (2019), brochura 13,5x21 cm, 160 págs. ISBN: 978-656-80309-19-1 [edição original: Ad ora incerta (Milano: Garzanti Libri / Gruppo Editoriale Mauri-Spagnol / GEMS)1984, 1990, 1998, 2004]

terça-feira, 23 de abril de 2019

o ofício alheio

Cada livro de Primo Levi é um pequeno milagre. Só registrei dele aqui "A chave estrela", um notável livro de contos que se fundem em um romance. Todavia, quem já experimentou a potência dos relatos dele sobre os horrores dos campos de concentração nazistas ("A tabela periódica", "É isso um homem") ou de sua caminhada de volta para a Itália ("A trégua"), jamais o esquece. Um dia talvez eu deva voltar a meus guardados, reler estas joias, estas pedras preciosas de sua lavra. Neste "O ofício alheio" encontramos 51 ensaios, publicados originalmente em jornais italianos, entre 1964 e 1984. São textos notáveis, onde Levi fala dos livros que lê; dos autores que preza; de seu cotidiano, como sua tentativa de aprender uma língua nova; de questões filológicas, linguísticas; de sua vida como químico - ele já aposentado e vivendo sua metamorfose como escritor, respeitado e premiado; de curiosidades sobre a vida dos animais, das plantas e do comportamento dos homens; do sentido do humano e da religião; dos fragmentos de memória e de sua biografia, sempre em constante gestação. Os ensaios, que não são densos, antes bem humorados e leves, são escritos com maestria, num tom que deveria ser emulado por todo aquele que pretenda alcançar algum relevo neste ofício, que é o de comunicar ideias e sensações através da prosa. Vale! 
Registro #1387 (crônicas e ensaios #251) 
[início: 18/03/2019 - fim: 28/03/2019]
"O ofício alheio", Primo Levi, tradução de Silvia Massimini Felix, São Paulo: Editora UNESP, 1a. edição (2016), brochura 14x21 cm., 290 págs., ISBN: 978-85-393-0639-8 [edição original: L'autri mestiere, (Torino: Giulio Einaudi Editore) 1985]

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

a chave estrela

O químico e escritor italiano Primo Levi é muito conhecido por seus livros ambientados nos campos de concentração nazistas. Difícil não se impressionar com "A tabela periódica" ou com o "É isto um homem", onde ele escreveu que "só os piores sobreviveram aos campos de concentração". Neste "A chave estrela", primeiro livro que Primo Levi escreveu após seu afastamento das industrias químicas, os horrores do nazismo não aparecem. O livro mais parece uma coleção de contos monotemáticos que um romance propriamente dito. Somos apresentados a um alter ego de Levi, um narrador (químico como ele e que admite ter pretensões literárias) que é na verdade um bom ouvinte das histórias mirabolantes relembradas por um sujeito chamado Faussone, técnico montador de grandes guindastes e outros equipamentos industriais de grande porte. O narrador e o contador de causos Faussone são dois italianos que trabalham algumas vezes nos mesmos projetos e enquanto esperam que uma questão seja resolvida dedicam-se a conhecer o povo e a região onde estão (os campos de petróleo do sul da rússia dos anos 1970) e trocarem experiências sobre o mundo do trabalho no qual vivem. As histórias de Faussone sempre tem algo de fantasia, de farsa. O narrador tem orgulho de sua ciência e seu método de trabalho, mas também admira o conhecimento e a técnica de seu interlocutor, talvez mais orgânicos e humanos. Enfim, comprei o livro por impulso, ao vê-lo de longe, por conta de sua bela capa (uma composição de Fernand Léger), mas surpreendi-me mesmo com a boa prosa e as curiosas histórias inventadas por Primo Levi. [início 04/07/2009 - fim 15/07/2009]
"A chave estrela", Primo Levi, tradução de Maurício Santana Dias, editora Companhia das Letras (1a. edição) 2009, brochura 14x21, 200 págs., ISBN: 978-85-359-1400-9