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segunda-feira, 8 de abril de 2019

riminhas para crianças grandes

Esse volume da Âyiné é um livro de poemas e também um livro objeto, um livro arte, apesar de ser múltiplo. Nele estão reunidos dois tipos de invenções nada convencionais da poeta Wislawa Szymborska, que recebeu o prêmio Nobel em 1996. Na primeira parte do livro estão reunidos seis conjuntos de poemas que brincam com palavras, conceitos, frases feitas, com as possíveis recepções destas frases feitas nos leitores. Noutra estão enfeixados 45 cartões postais que reproduzem colagens originais que Szymborska costumeiramente enviava a seus amigos nas festas de final de ano. A edição é bilíngue, mas quem poderia dizer que sabe polonês a ponto de acompanhar as soluções encontradas pelos tradutores Piotr Kilanowski e Eneida Fabre? Eu não consigo, menor dos anões que sou, mas me diverti muito com as tais "riminhas" da Szymborska. As duas propostas, os poemas e os postais, se complementam, são igualmente bem humoradas, de um frescor que encanta, de uma engenhosidade que disfarça uma inteligência refinada e inquisitiva. Talvez seja o caso de dizer apenas um tanto mais para aguçar a curiosidade do eventual leitor destes registros. Os seis conjuntos de poemas rendem-se a formas identificadas - em português - como "Dasvodcas", poemas de uma linha baseados em um velho provérbio polonês; "Moscovinas", poemas satíricos sobre a ocupação soviética do país; "Melhoríadas", que brincam com informações encontradas em cartazes, em hotéis, restaurantes e repartições públicas; "Altruitinhas", baseadas em um bordão de propaganda comunista dos anos 1950; "Escultações", fragmentos engraçados ouvidos quando se flana por uma cidade, no meio do burburinho das ruas e "Limeriques", talvez a única forma que seja mais ou menos conhecida por pessoas cultas (já registrei aqui algo sobre o bom livro de Dirce Waltrick do Amarante com suas traduções dos Limericks de Edward Lear, um dos mestres do gênero). Mesmo sem conhecer nada sobre estas formas, o leitor entende rapidamente o jogo envolvido nelas e se diverte com o livro. Os postais, que são resultado de processos de recorte e colagem, intervenção em iconografia encontrada em jornais e revistas, embalagens e rótulos, papéis de embrulho e livros, cobram mais envolvimento do leitor. Nem tudo é óbvio e mesmo os títulos das obras soam traiçoeiros, brincalhões. Não se trata de algo que deve ser entendido com a razão, com o intelecto, mas sim experimentado com os sentidos de uma criança que descobre o mundo, sem temor, sem reservas. As artes plásticas e a literatura interagem desde que o engenho humano as criou, mas trata-se de linguagens bem diferentes. Nem todo mundo que aprecie os postais gostará dos poemas, etc e tal. Eu mesmo gostei muito de ambos. Enfim. Trata-se de um livro que vale o tempo que dedicamos a ele, que faz a alma um grande bem. Vale! 
Registro #1373 (poesias #105) 
[início 30/01/2019 - fim: 28/03/2019] 
"Riminhas para crianças grandes", Wislawa Szymbosrka,  tradução de Piotr Kilanowski e Eneida Fabre, Belo Horizonte: Editora Âyiné (coleção Das Andere #10), 1a. edição (2018), brochura 12x18 cm., 124 págs., ISBN: 978-85-92649-42-5

terça-feira, 25 de outubro de 2016

um amor feliz

Da Wislawa Szymborska já li duas boas antologias de poesia, o "Poemas", lançado em 2011 pela Companhia das Letras, e o "Paisagem com grão de areia", da portuguesa Relógio D'Água. Recentemente a tradutora Regina Przybycien produziu uma seleção de poemas, desta vez reunindo cousas desde o primeiro livro publicado pela Wislawa (Wolanie do Yeti, de 1957) até o último (o póstumo Wystarczy, de 2012). São 85 poemas, retirados de onze livros (Wolanie do Yeti, 1957; Sól, 1962; Sto Pociech,1967; Wszelki Wypadek, 1972; Wielka Liczba, 1976; Ludzie na Moscie, 1986; Koniec i Poczatek, 1993; Chwila, 2002; Dwukropek, 2006; Tutaj, 2009; Wystarczy, 2012). Os temas são bastante variados. A tradutora chama a atenção pelo interesse da poeta por temas científicos, pela astronomia, matemática e biologia, mas também encontramos investigações curiosas sobre o mundo das coisas inanimadas (pedras, areia, água, terreno) e dos conceitos puros (beleza, consciência, ausência, risos, cores). E há também as relações humanas, as coisas boas e más que fazemos todos, nós homo sapiens sapiens. Não é o tipo de livro para se ler de capa a capa. Folheamos vagabundos o livro e encontramos prováveis verdades, enigmas sem solução, perguntas que se esquivam de respostas, vestígios de memórias sepultadas pelo tempo, que se metamorfosearam em algo mais puro (será isso a poesia?). A poeta se orgulha de ser mulher, num mundo misógino e duro; controla a ironia que verte em gotas nos olhos do leitor. O livro inclui também o curto discurso de aceitação do prêmio Nobel de literatura de 1996, onde ela louva a potência infinita que guardam duas palavras que todos deveríamos prezar: "não sei". Grande poeta. Evoé Szymborska, evoé.
[início: 23/09/2016 - fim: 18/10/2016]
"Um amor feliz", Wislawa Szymborska, tradução de Regina Przybycien, São Paulo: editora Companhia das Letras (1a. edição) 2016, brochura 14x21, 327 págs. ISBN: 978-85-359-2788-7 [edição original: The Wislawa Szymborska Foundation]

sábado, 27 de julho de 2013

paisagem com grão de areia

Tudo sobre meu assombro com a poesia poderosa de Wislawa Szymborska já falei quando li coisas dela primeira vez, na edição assinada pela tradutora Regina Przybycien e que resenhei aqui. Mas em outubro passado, flanando pelo Rio de Janeiro, entre um trabalho feliz na UERJ e encontros doces com Gabriella, Guto e Maria Luíza, eis que descobri uma edição portuguesa de seus poemas, editada em 1998 pela Relógio D'Água (que está a nos dever uma nova tradução do Ulysses, mas essa é outra história). Que beleza! Assim como na seleção de Regina Przybycien essa edição é bilíngue, mas essa informação só serve para dizer que os olhos teimam em espiar os originais buscando pistas, mas o polonês é um completo hieróglifo para este pequeno anão de província, que mal e porcamente lê seu português (mas aprendi que ryba é peixe e isso basta para alegrar um sujeito). Livros assim lê-se aos poucos, principalmente pelo fato do português de Portugal oferecer ritmos e sons algo diferentes, que o leitor tem de respeitar (e o tolo acordo ortográfico não será capaz de fazê-los desaparecer). São exatos cem poemas, cada um deles com uma proposta mágica para o leitor. Cabe dizer que a edição original, de 1996, ano em que Szymborska recebeu o prêmio Nobel, eram 102 os poemas, selecionados dentre aqueles publicados a partir de 1957. Os temas são vastos, mas se repetem o infinito, o cosmos, os planetas, as estrelas e a tecnologia, em contraste com os homens, os animais, os sonhos, a ironia e o tempo. Ela fala das guerras e da morte (como se fosse fácil falar destas cousas) e também do enigma que é a poesia e seu ofício. Há um poema que parece explicar "A educação pela pedra" (de nosso João Cabral de Melo Neto), noutro Szymborska explica a grande sorte que é não se saber exatamente em que mundo se vive. São tantas as maravilhas, que poeta especial foi esta senhora. Lendo é tão óbvio, mas somente os poetas fortes sabem tornar claras certas cousas, como a distinção terrível entre realidade e sonho em que ela grafa: "A fugacidade dos sonhos leva a que a memória os sacuda facilmente de si. /  A realidade não tem que recear o esquecimento. / Pesada é a sua arte. / Senta-nos no pescoço, pesa-nos no coração, enreda-se nos pés. / Dela não há fuga possível porque em cada fuga nossa a temos por companhia. / E não há estação no decurso da viagem em que não esteja à nossa espera."
[início: 29/10/2012 - fim: 09/07/2013]
"Paisagem com grão de areia", Wislawa Szymborska, tradução de Julio Sousa Gomes, Lisboa: Relógio D'Água editores, 1a. edição (1998), brochura 14x21 cm., 359 págs., ISBN: 972-708-490-7 [edição original: Widok z ziarnkiem piasku (Poznan: Wydawnictwo a5) 1996]

domingo, 18 de dezembro de 2011

poemas de wislawa szymborska

Esqueci do Lustra, coloquei o Macau de lado, Uma viagem à Índia se apequenou num ai, Entremilênios mal deixou eco, n.d.a. perdeu seu brilho, Terceira sede parece bobo, A balada do velho marinheiro deixou de ecooar forte em minha memória. Tudo o que li de poesia nesse 2011 repentinamente ficou pálido e sem viço. Claro, estou exagerando, há vezes que sou mesmo um cabotino teatral demais, mas de qualquer forma esses poemas de Wislawa Szymborska (que ganhou o prêmio Nobel de 1996) são estupendos, seminais, assombrosos. Cousa de gênio. Li e reli, mostrei aos amigos. Esse é o teste definitivo. Quando você não fica com vergonha de mostrar ou declamar um poema para os amigos é porque está seguro que não vai passar por um bobo sentimental. Nada que eu escreva emula, ainda que parcialmente, o prazer de encontrá-los pela primeira vez, pequenas jóias, pequenas construções, recolhos de palavras simples que escondem uma potência dos diabos. A tradutora destas maravilhas, Regina Przybycien, selecionou poemas entre toda a produção de Szymborska, desde os do distante 1957 até os mais recentes, de 2002. Ela assina também um pequeno prefácio biográfico. A edição inclui as versões originais dos poemas. Com isso esse livro poderá ser também utilizado para fins didáticos, por aqueles que querem se familiarizar com o polonês. Nelson Ascher assina a orelha do livro, com um texto conciso e forte. Se é para recortar algo do livro escolho esse: "As três palavras mais estranhas. Quando pronuncio a palavra Futuro, / a primeira sílaba já se perde no passado. / Quando pronuncio a palavra Silêncio, / suprimo-o. / Quando pronuncio a palavra Nada, / crio algo que não cabe em nenhum não ser. /" [início: 14/12/2011 - fim: 18/12/2011] 
"Poemas", Wislawa Szymborska, tradução de Regina Przybycien, São Paulo: editora Companhia das Letras (1a. edição) 2011, brochura 14x21, 165 págs. ISBN: 978-85-359-1957-8