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quarta-feira, 26 de agosto de 2020

medio siglo con Borges

Como já disse antes, nestes tempos
difíceis, agressivos, cruéis, dementes e sombrios de pandemia só nos resta seguir o baile, ou combater a estupidez generalizada com alguma boa prosa ou poesia. Desde 17 de março, até uns poucos dias, fiquei isolado em meu bivaque particular, nas terras altas de Itaara, com meu Cappuccio servindo-me de guarda. Tive dificuldades para retornar ao apartamento citadino, aos ruídos da urbe, bem diferentes do campo, à presença das gentes e de suas circunstâncias, à proximidade das notícias que correm ao vento. Mas o hábito, sempre fiel camareiro, haverá de readaptar-me a tudo isso. De resto, fiquei boas semanas sem computador, daí esse hiato nos registros de leitura. Paciência. Li há tempos, portanto, esse "Medio siglo com Borges". É a publicação mais recente - saiu em abril - do genial Mario Vargas Llosa, um dos últimos grandes de todas literaturas, aí de nós. Trata-se da reunião de nove textos, artigos, entrevistas ou narrativas com um toque de imaginação, que foram publicados anteriormente em jornais ou lidos em conferências ou, ainda, já inseridas em livro. O mais antigo dos textos é de novembro de 1963: uma entrevista que Borges, já com 65 anos, venerável e cego, concede a um jovem Llosa, 27 anos, naquela época radicado na França. O mais recente é um artigo/resenha, publicado em setembro de 2014, que trata de um livro que ele encontra por acaso em um sebo, livro assinado por Borges e Maria Kodama, que desperta nele reminiscências de seus muitos anos de leitura e releitura das cousas de Borges. O leitor é levado por uma densa corrente de memórias afetivas e reflexões sofisticadas sobre a obra e a personalidade de Borges. Llosa fala das obsessões de Borges, sua biografia, seus amores, sua influência, de questões linguísticas, de sua relação com a Argentina e o Peru, enfim, de sua vida, que pode ser resumida no belo, porém triste, aforismo/epitáfio: "vivío leyendo y leyó viviendo" (que brota de uma frase ainda mais triste, da primeira entrevista, onde Borges diz: "Muchas cosas he leído y pocas he vivido"). Pode-se ler esses textos em um par de horas, mas eu fiquei com eles por dias, nostálgico e reflexivo, hedonista, "dronwing in honey, stingless", como sempre deve ser. Vale! 
Registro #1556 (crônicas e ensaios #276)
[início: 13/07/2020 - fim: 19/07/2020]
"Medio siglo con Borges", Mario Vargas Llosa, Madrid: Alfaguara (Grupo Santillana de ediciones / Penguin Random House Grupo Editorial), 1a. edição (2020), brochura 15x24 cm, 109 págs. ISBN: 978-84-204-3597-8

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

los cuentos de la peste

Além de habilidoso romancista, inventor de histórias igualmente cativantes e fortes, Mario Vargas Llosa também aventurou-se pelo teatro ao longo de sua carreira literária, tendo publicado pelo menos uma dezena de peças. "Los cuentos de la peste" é a mais recente. Foi montada pela primeira vez em janeiro de 2015, no Teatro Español de Madrid, sob direção de Joan Ollé e contou com o próprio Llosa atuando. A peça é baseada no "Decameron", de Giovanni Boccaccio. Llosa transporta o leitor/espectador para os arredores de Florença, em meados do século XIV, quando eclodiu a peste negra, que tantas vidas cobrou. A peça é dividida em duas partes ou atos, de dez cenas cada um. Assim como no original de Boccaccio, a eclosão da peste faz com que um grupo se isole e, de certa maneira, sobrevivam à doença inventando histórias, inventando mundos. A literatura funciona como metáfora para a fuga da realidade, para a experiência de viver em fantasia destinos que jamais viveríamos. Na peça de Llosa são apenas cinco os atores (enquanto para Boccaccio eram dez, o dobro). Nenhum deles é de fato quem afirma ser: O duque Ugolino, também é um covarde que fugiu da luta nas cruzadas, que nunca foi capaz de amar; Giovanni Boccaccio, apenas um inquisitor cruel de seu tempo, não um poeta; Aminta, condessa de la Santa Croce, uma princesa muçulmana, enganada por homens vis; Pánfilo, um ator mambembe travestido de monja; Filomena, uma monja travestida de atriz mambembe. A bem da verdade cada um deles passa por diferentes metamorfoses nos contos que contam na peça, nos vinte esquetes teatrais em que a peça é dividida, assumindo papéis que, assim como um caleidoscópio, multiplicam a luz, as imagens, as histórias. Os atores falam de questões de seu tempo, do medo da morte, do amor e do desejo, das relações entre distintas classes sociais, do destino, de suas biografias inventadas e por inventar, das mentiras cotidianas que sustentaram no passado. Ao enganarem a peste, contando os contos, livraram-se da morte, mas também da ilusória existência de seus passados. Será possível voltar à realidade? Será tolerável viver uma vida sem mentiras? No final da peça Boccaccio sabe que deve agora escrever seu "Decameron", na língua franca do povo, o italiano, não no latim de seus poemas. A vida imaginada e a vida vivida, a ficção e a realidade, serão plasmadas naquele livro. De certa forma, Llosa está falando de nosso mundo contemporâneo, das infinitas formas que utilizamos para fugir das pragas reais e metafóricas que vivemos, das insuportáveis e cruéis facetas da vida em sociedade, da farsa que praticamos nas redes sociais, do autoengano, das manipulações à qual tão alegremente nos submetemos e de forma tão desprezível praticamos contra nossos semelhantes. Que jogo mágico e interessante Mario Vargas Llosa nos oferece. A edição é muito bonita, com muitas reproduções fotográficas da montagem original da peça, fotografias assinadas por Ros Ríbas. Lembrei dos dias em que morei em Madrid, jovem neófito e necessariamente deslumbrado, das poucas peças e apresentações teatrais que vi, inclusive lá no Teatro Español, que fica justamente na icônica Plaza de Santa Ana, ai de mim. Vale! 
Registro #1474 (drama #17) 
[início: 07/11/2019 - fim: 12/11/2019]
"Los cuentos de la peste", Mário Vargas Llosa, fotografias de Ros Ríbas, Cíudad Autônoma de Buenos Aires: Aguilar, Altae, Taurus, Alfaguara / Penguin Random House Grupo Editorial, 1a. edição (2015), brochura 14x23 cm., 280 págs., ISBN: 978-987-738-029-3

sábado, 7 de setembro de 2019

el héroe discreto

Romance publicado em 2013, entre dois outros já registrados aqui, os bons "El sueño del Celta", de 2010 e "Cinco esquinas", de 2016, "El héroe discreto" funciona tanto como romance, quanto como uma aula magna de construção de narrativas. Vargas Llosa alterna em capítulos temáticos duas histórias que lentamente, só quase no final, irão convergir, mesclarem-se. Não quero contar muito da trama para não roubar nenhum prazer do leitor. Posso dizer que as histórias são sobre um valente empresário de Piura, cidade do interior peruano, e um nobre advogado (um oxímoro, claro) de Lima, a capital do Peru. Ambos são afetados pelas más ações de terceiros, e precisam valer-se de toda honestidade intelectual, engenho e artimanhas para se safarem, não se prejudicarem. Vargas Llosa oferece ao leitor um romance bem humorado, longo, mas que nos prende do começo ao fim. Incrível o fôlego e a capacidade de invenção deste senhor já octogenário. Não sou exatamente um especialista na língua espanhola, mas a linguagem utilizada no livro me parece ser seu maior predicado. Llosa faz seus personagens abusarem de palavrões, gírias, jogos de palavras, diminutivos carinhosos, maneirismos e toda uma tradição oral, elementos que contrastam a vida no interior e a vida na capital. Ele também alterna duas ou mais narrativas dentro de um mesmo capítulo, como se o narrador contasse sua história emulando as vozes e trejeitos dos personagens em uma apresentação teatral, mesa de bar ou sala de aula. Pelo menos dois personagens antigos de Llosa reaparecem no livro, o sargento Lituma (que conhecemos desde "A casa verde", de 1966 e don Rigoberto (com sua lasciva Lucrécia e seu filho Fonchito, de "Os cadernos de don Rigoberto", de 1997). Dá vontade de voltar a esses textos antigos. Que belo livro. Mas vamos em frente. Vale! 
Registro #1445 (romance #362) 
[início: 31/08/2019 - fim: 05/09/2019] 
"El héroe discreto", Mário Vargas Llosa, Cíudad Autônoma de Buenos Aires: Aguilar, Altae, Taurus, Alfaguara / Penguin Random House Grupo Editorial, 1a. edição (2013), brochura 15x24 cm., 392 págs., ISBN: 978-987-04-3113-8

terça-feira, 11 de setembro de 2018

la llamada de la tribu

Em julho, Helga e eu zarpamos para Buenos Aires. Fazia bastante frio e choveu à beça, mas conseguimos aproveitar os dias nos cafés, nos museus, nas livrarias e também nas calles (como não flanar sem rumo em uma cidade como Buenos Aires?) Aconteceram várias cousas bacanas. Por uma coincidência dos diabos fiquei hospedado ao lado de um apartamento que já havia sido habitado pelo Garcia Lorca, em 1933. Pensei muito nele e em sua poesia. Tomamos vinho e passeamos, achamos por acaso lugares bacanas, como um piano bar que também funciona como livraria, chamado "Clásica y Moderna" e a "Quetec oliva y gourmet", na Avenida de Mayo. Na excelente Fundación PROA achei dois livros do Joyce recentemente publicados por lá: uma nova versão do Ulysses e uma nova versão de seus poemas. Em uma das excursões literárias que fizemos encontrei esse "La llamada de la tribu", livro de Mário Vargas Llosa, que quente como pão fresco ocupava várias estantes da boa livraria Cúspide. Li a introdução ao livro ainda lá em Buenos Aires e imaginava que em poucos dias terminaria a leitura, mas não foi isso que aconteceu. Trata-se de um volume robusto, denso, que cobra atenção e reflexão do leitor. Na verdade são sete pequenas biografias o que Vargas Llosa engendrou. Há algo explicitamente autobiográfico na escolha dos sujeitos sobre os quais ele fala: Adam Smith, José Ortega y Gasset, Friedrich von Hayek, Karl Popper, Raymond Aron, Isaiah Berlin e Jean-François Revel. A estes sete sujeitos, sete filósofos, Vargas Llosa atribuiu sua formação e conversão ao cânone liberal, a defesa desta doutrina (que não é única, nem invariante no tempo) como opção mais viável para a melhor convivência entre os homo sapiens deste planeta. A leitura sistemática destes autores, em suas próprias palavras, "moldou sua forma de pensar e ver o mundo nos últimos cinquenta anos". Não é pouco. Apesar de saber ao menos os nomes e fragmentos biográficos, nada li sistematicamente dos gurus ideológicos de Vargas Llosa, com a exceção de um único livro de Isaiah Berlin, que já registrei aqui, sobre as raízes do Romantismo, e de Karl Popper, de quem li dois poderosos volumes por indicação do Manoel Robillota, num curso de evolução dos conceitos da Física, que fiz no IFUSP, na flutuante primeira metade dos anos 1980. Ainda tenho os surrados volumes de "A sociedade aberta e seus inimigos" em minha biblioteca que fica guardada no campus da UFSM. Lembro-me bem que meu colega de aventuras neste tempo era o Samuel Pessoa, ainda não metamorfoseado no seminal doutor em economia que é hoje. Bueno. Um outro autor, seduzido pelas ideias liberais, talvez fizesse outras escolhas, mas eu entendo as dele. Nos ensaios (pois é disso que se trata), Vargas Llosa analisa vida e obra de cada um dos sujeitos biografados. A ênfase é em seu envolvimento pessoal com a obra deles, mas os aspectos mais relevantes são antes literários que biográficos. Levei várias semanas para encontrar o ritmo adequado de leitura. Cada autor cobra uma percepção diferente. Todavia, aprendi um bocado. De Adam Smith , Raymond Aron e Ortega Y Gasset só conhecia umas piadas, uns fragmentos biográficos, uns chistes; de von Hayek e Revel nada de nada. Há muitas pérolas neste livro. Fiquei impressionado sobretudo com as reflexões de Raymond Aron, Jean Revel e Isaiah Berlin. Os sete cavaleiros de Vargas Lllosa acreditam que viver civilizadamente implica na aceitação tácita da liberdade e da legalidade, do individualismo e da propriedade privada, da luta pelos direitos humanos, boa convivência humana e paz. O livro serve como uma síntese política do século XX, das transformações sociais  e conflagrações pelas quais passamos. Helas! Não se pode fazer tudo na vida, ler tudo, dedicar-se com disciplina a assuntos que não são exatamente afeitos a seu ofício ou ocupação. Mas como não digressar pelas ideias dos outros, sem medo, sem temor, mas também sem esperança, sem a certeza de que aquilo nos servirá para entendermos melhor o mundo, enquanto ainda somos curiosos. Se o Vargas Llosa só ficou sabendo da existência de "Rumo a estação Finlândia", de Edmund Wilson, uns dez anos depois de mim (que o li em 1986), tudo é possível. Outros livros já cobram meu tempo, minha atenção, mas este ficará em minha memória como um livro de aprendizado, um volume de encantamentos. Talvez devesse ser sempre assim. Vale! 
Registro #1326 (crônicas e ensaios #232) 
[início 27/07/2018 - fim: 10/09/2018]
"La llamada de la tribu", Mário Vargas-Llosa, Cíudad Autônoma de Buenos Aires: Alfaguara / Penguin Random House Grupo Editorial, 1a. edição (2018), brochura 13x21,5 cm., 312 págs., ISBN: 978-987-738-452-9

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

elogio da leitura

Neste pequeno livro encontramos o discurso de aceitação do prêmio Nobel de literatura de 2010, recebido pelo peruano Mario Vargas Llosa. O texto é objetivo e rende homenagens tanto à sensibilidade e a memória afetiva de um escritor emocionado quanto à razão de um intelectual engajado, que sabe de seu papel ao defender opiniões. Vargas Llosa conta rapidamente suas errâncias e seus anos de formação. Ele dá conta de como aprendeu a ler; de suas influências e débitos literários; de seu ideário político; fala dos muitos povos de seu país, de suas variadas línguas e culturas, e de como ali se mesclaram; fala dos desafios, perigos e da complexidade inerente que é a vida no mundo contemporâneo (sobretudo do papel da literatura frente a estes desafios). Como ele mesmo diz: "Sem a literatura seríamos menos conscientes da importância da liberdade para que a vida possa ser vivida e do inferno em que ela se converte quando é controlada por um tirano, uma ideologia ou uma religião. A literatura cria uma fraternidade dentro da diversidade humana e eclipsa as fronteiras erguidas entres os homo sapiens sapiens, seja pela ignorância, seja pelas ideologias, religiões, idiomas ou pela estupidez. A leitura é mais que um entretenimento, mais do que um exercício intelectual que aguça a sensibilidade e desperta o espírito crítico. É uma necessidade imprescindível para a que a civilização continue existindo". Vê-se que ele é mesmo um otimista. Quem viver mais tempo verá se não será a ignorância e a barbárie quem terá a última palavra. O livro inclui também uma transcrição da entrevista que Adam Smith, editor-chefe do site da fundação Nobel (Nobelprize.org) fez com Vargas Llosa ainda na manhã do 7 de outubro de 2010, quando foi anunciado o prêmio. É curta, mas o leitor percebe que o sujeito sabe ser lúcido mesmo quando é pego desprevenido. Vale.
[início - fim: 11/08/2016]
"Elogia da leitura", Mario Vargas Llosa, tradução de Larry Fernandes, Santos: editora Simonsen, 1a. edição (2015), capa-dura 12x18 cm., 48 págs., ISBN: 978-85- [edição original: In praise of reading and fiction (New York: Farrar, Straus and Giroux (Macmillan group) 2011]

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

cinco esquinas

Um bom escritor sempre tem a última palavra. Mario Vargas Llosa inventa em seu mais recente romance, "Cinco esquinas", uma sátira divertida sobre o Peru dos anos Fujimori. Seus personagens são reais ou ao menos compartilham o mesmo nome de pessoas reais, mas a narrativa segue as regras da ficção, afinal mesmo a realidade precisa ser algo inventada. A história é conhecida. Em 1990 Vargas Llosa decide concorrer a presidência de seu país, tem a maior fração de votos num primeiro turno mas perde por uma grande margem para Alberto Fujimori no segundo. As advertências que fez durante a campanha se confirmam. Durante dez anos Fujimori torna-se um ditador de fato, destrói a economia, implanta com seu braço direito Vladimiro Montesinos um aparato de repressão sanguinário e corrompe completamente o Peru. Julgado e condenado por vários crimes, cumpre até hoje sua pena de vinte e cinco anos de prisão (pelo menos ficamos sabendo que no Peru existe uma sistema judiciário que funciona). Enquanto isso, em meio a tantos sucessos, Vargas Llosa seguiu sua vida, escreveu vários livros e ganhou vários prêmios, entre eles o Nobel de literatura de 2010. O que se conta em "Cinco esquinas" é rocambolesco, lembra muito um folhetim, uma alegoria sobre um país distante e fantástico, uma sarcástica história de detetives. Ele se esforça por apresentar os diferentes matizes da miséria ética e a degradação de toda a sociedade peruana daquele tempo, mas não há rancor, o tom nunca é panfletário, a violência poucas vezes deixa de ser apenas um conceito terrível que se prefere evitar. Com a exceção de Juan Peineta, um velho recitador de versos, todos os demais personagens do livro são desprezíveis, ou mesquinhos, ou alienados, ou corruptos, ou oportunistas ou simplesmente maus (e há dezenas deles, alguns que apenas acompanhamos por um parágrafo, onde eles nos ajudam a elucidar alguma cousa boba da trama, afinal somos o detetive escondido no livro). Claro, estamos lidando com um autor que domina completamente o seu ofício. Os diálogos são muito bem escritos e as várias técnicas narrativas utilizadas surpreendem pela inventividade. Há uma generosa cota de erotismo em "Cinco esquinas", o sujeito sabe excitar, sem insultar, o leitor (o resultado literário das descrições de sexo sempre é um bom teste para avaliar o quão talentoso é um escritor). O romance não é nem de longe o mais espetacular de Vargas Llosa que já li, mas inegavelmente ele deixa-se ler quase de uma vez só sem aborrecimentos. Vargas Llosa nunca perde o ritmo e a capacidade de surpreender o leitor. Ele utiliza a história do livro, que é parte da história de seu país, sobretudo para enfatizar o nefasto comportamento daqueles jornalistas que, corrompidos pelo poder ou simplesmente vocacionados para o sórdido, achincalham e mentem, usam seus espaços em jornais e revistas, rádios e programas de televisão para destruir qualquer um que se oponha aos desejos de uma pessoa poderosa, de um tiranete de plantão. Funciona durante algum tempo e o custo social é sempre alto, mas acabamos por enxergar cada ator do cenário político de um país, inclusive dentre os jornalistas, sem os véus do embuste e da impostura. Nem é preciso dizer que qualquer brasileiro minimamente inteligente já cansou desse tipo de canalha. Vale.
[início: 02/08/2016 - fim: 03/08/2016]
"Cinco esquinas", Mario Vargas Llosa, Madrid: Alfaguara (Grupo Santillana de ediciones / Penguin Random House Grupo Editorial), 1a. edição (2016), brochura 15x24 cm, 318 págs. ISBN: 978-84-204-1896-4

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

a orgia perpétua

No final de 1959 Mario Vargas Llosa sai de Madrid, onde vivia com uma bolsa de estudos e emigra para Paris, onde acreditava que também conseguiria uma. Mesmo descobrindo que a promessa de bolsa não se concretizaria ele decide permanecer na cidade e dedica-se a literatura. Seu primeiro livro, La ciudad y los perros, seria publicado em 1963. Os primeiros anos em Paris foram muito difíceis, entretanto a leitura de "Madame Bovary", de Flaubert, confortou-o e o converteu definitivamente à literatura ("o livro vampirizou rapidamente minha atenção", diz ele). "A orgia perpétua", publicado originalmente em 1975, conta a história dessa paixão pelo livro de Flaubert. Trata-se de um longo ensaio, dividido em três partes: (i) na primeira, relativamente curta, Vargas Llosa fala de seu amor pelo livro, da protagonista da história, da história de composição do livro, sua recepção pela crítica, da evolução da apreciação dos leitores ao longo do tempo e das seis leituras completas que já havia feito dele nos quinze anos que haviam se passado desde que comprara seu exemplar; (ii) na segunda, bem maior e mais importante são descritos todos os aspectos relacionados ao livro, suas fontes literárias, o método de composição de Flaubert, detalhes da vida pessoal do autor, os personagens, a estrutura, o estilo, o uso do tempo e as vozes narrativas, o autor analisa como o livro funciona, fala da ordem em que os capítulos são encadeados, da obsessão de Flaubert pela forma, de quais são os elementos que o fazem destacar-se como um romance verdadeiramente moderno; (iii) a terceira parte é bem curta, ainda menor que a primeira, e nela Vargas Llosa explica a influência do romance de Flaubert no mundo literário que se segue a sua publicação, que é o da segunda metade do século XIX e o início do século XX. Sendo mais conciso, o livro é dividido entre a apresentação subjetiva das impressões de um leitor sobre uma obra; a análise objetiva, científica, de seu mecanismo e a exegese de sua historiografia, sua influência. É um livro interessante mas seu virtuosismo acaba aborrecendo o leitor, pois parece que estamos a ouvir detalhes demais sobre a paixão de um sujeito por uma pessoa que não conhecemos muito bem. Claro, você fica com vontade de reler o livro e pensa acompanhar as observações de Vargas Llosa, mas sabe que jamais alcançará a compreensão do sujeito, nem sentirá o mesmo arrebatamento que ele experimentou. A abordagem de Vargas Llosa é praticamente oposta à de Nabokov em seu Lições de literatura, já registrado aqui, já que ele faz aquilo que esse último mais condena: lê o livro se identificando com os personagens, utilizando-o para aprender a viver e, quando objetivo, científico, acadêmico, permitindo-se demasiadas generalizações. Sabe-se lá quem dos dois está certo. Sei que o amor à literatura não basta, não substituirá nunca a vida. Podemos suportar uma existência mergulhando na literatura, como numa orgia perpétua (palavras do próprio Flaubert), mas a realidade é eficaz o suficiente para sempre nos cobrar a conta desta orgia.
[início: 19/11/2015 - fim: 24/11/2015]
"A orgia perpétua: Flaubert e Madame Bovary", Mario Vargas Llosa, tradução de José Rubem Siqueira, Rio de Janeiro: editora Objetiva (Alfaguara / Grupo Penguin Random House), 1a. edição (2015), 15x23 cm., 278 págs., ISBN: 978-85-7962-431-5 [edição original: La orgía perpetua: Flaubert y Madame Bovary (Barcelona: Seix Barral / Grupo Planeta) 1975]

sábado, 19 de março de 2011

cartas a um jovem escritor

Fiquei tão irritado com a banalidade de um livro noutro dia (o maçante "Para ser escritor") que resolvi experimentar este pequeno livro de Mario Vargas Llosa. "Cartas a um jovem escritor" foi publicado originalmente em 1997. Os comentários de Vargas Llosa são sóbrios e a linguagem bastante precisa. Ele não adjetiva excessivamente, não se traveste de moralista ou pontifica modas e tendências. Não é um livro técnico sobre o ofício de se escrever profissionalmente, mas antes um livro sobre as técnicas do romance. Pacientemente, mas sem digressões muito longas, Vargas Llosa descreve aquilo que é imprescindível na construção de um livro. Ele sabe ser retórico, faz o leitor perguntar-se pelas motivações que podem levá-lo a escrever, perguntar-se do porque escolher o rigor e a disciplina inerentes ao ato de escrever, ao ato de inventar realidades, ao invés de se esforçar por viver a realidade da vida. Ele dá conselhos e descreve a arquitetura dos romances: desde a escolha de uma voz e elaboração de personagens, até a estrutura espacial e temporal das histórias, passando pelo estilo, níveis de realidade, truques narrativos e intertextualidades possíveis. É o tipo do livro que leva o leitor a sério e não se contenta em apenas listar conceitos e teorias acadêmicas (nem a ser auto-indulgente e cabotino, como me parece o caso do livro de Charles Kiefer). Cabe registrar que em 1997 Vargas Llosa já tinha construído uma obra literária consistente e respeitada, já tinha recebido o prêmio Cervantes, mas os exemplos que ele dá em seu livro são pinçados de Flaubert e Joyce, de Henry James e Joseph Conrad (dentre vários outros romancistas realmente fortes). Vargas Llosa diz ao leitor que o esforço verdadeiro e a disciplina, a honestidade intelectual, as leituras sistemáticas e o amadurecimento podem levá-lo a desenvolver um estilo, alcançar um poder de persuasão literário realmente poderoso. [início 03/03/2011 - fim 04/03/2011]
"Cartas a um jovem escritor: ´toda a vida merece um livro´", Mario Vargas Llosa, tradução de Regina Lyra, Rio de Janeiro: editora Elsevier (Alegro), 1a. edição (2006), brochura 12x18 cm, 181 págs. ISBN: 978-85-352-2110-7 [edição original: Cartas a un juven novelista, Planeta (Barcelona) 1997]

sábado, 4 de dezembro de 2010

el sueño del celta

Comprei este "El sueño del celta" na feira do livro de Porto Alegre. O povo da feira que trabalha com livros importados em espanhol (o Miguel da Calle Corrientes e os distribuidores da Sur e da Maneco) estavam muito animados, pois o livro chegou uns poucos dias depois de seu lançamento mundial, que ocorreu exatamente um mês atrás, no último 03 de novembro. Li em algum lugar que foram 500 mil exemplares nesta primeira fornada, metade para o mercado espanhol e outra metade para o mercado americano (das américas do sul e do norte, grande é este continente). O lançamento em grande escala aproveitou a recente outorga do prêmio Nobel à Vargas Llosa pois fazia tempo que um sujeito que escreve em espanhol não ganhava (o anterior foi Octávio Paz, em 1990). Emendei a leitura deste longo romance com os outros projetos que já havia iniciado (são tantas as leituras de final de ano, este é mesmo o único jeito de se seguir em frente). Não posso dizer que gostei deste livro. Trata-se de um romance histórico, onde Llosa conta os sucessos da vida de um sujeito chamado Roger Casement, um irlandês que foi dos primeiros a denunciar os crimes cometidos pelos exploradores europeus na África, notadamente no Congo Belga (ou Zaire, ou a atual República Democrática do Congo). Ele também foi dos primeiros a denunciar - na condição de cônsul - os crimes cometidos contra os indígenas da região de exploração de borracha na amazônia peruana e colombiana do início dos anos 1910. Além destes lugares ele foi cônsul inglês em Lisboa, no Rio de Janeiro e no Pará. Tornou-se cavaleiro do Império Britânico por seus serviços prestados. Nos últimos anos de sua vida engajou-se na luta pela independência da Irlanda e foi condenado a forca após o desastre do levante da páscoa irlandês de 1916 (propositalmente o livro terminou de ser escrito no 19 de abril de 2010, exatamente 84 anos após esta tentativa frustada de independência irlandesa - Vargas Llosa sabe um tanto de marketing). O livro é dividido em duas series de histórias que se alternam. Em uma acompanhamos a biografia romanceada de Casement. Começa com sua educação formal, sua inserção no elitista corpo diplomático inglês do final do século XIX e sua primeira viagem à Africa, no grupo de exploradores comandado por Henry Stanley, um dos sujeitos que grangearam fama no processo de colonização da África. Os capítulos seguem até os dias que antecedem a primeira guerra mundial, suas viagens ao interior da Irlanda, suas gestões com os revolucionários irlandeses nos Estados Unidos e com os membros do alto comando alemão, de quem pretendia receber ajuda na luta pela independência. Os outros capítulos tratam dos últimos dias de Casement na prisão, desde quando recebe sua sentença de pena de morte, reencontra alguns amigos, conversa com o sheriff da prisão e segue até os momentos que antecedem sua morte. Trata-se de um personagem interessante, pouco conhecido e ambíguo o suficiente para merecer esta espécie de resgate histórico promovida por Llosa, mas ao mesmo tempo o sujeito retratado no livro é de uma ingenuidade e/ou estupidez atroz, que se deixa enganar pelo serviço de contra-espionagem inglês de formas quase bisonhas. Como um sujeito como ele pôde ser umas das principais lideranças de sua época e acreditar que uma insurreição contra os ingleses daria certo? A campanha de difamação contra Casement, promovida pelo governo inglês, aparentemente diminuiu o reconhecimento dele como uma liderança importante na independência. Apenas em meados dos anos 1960 seus restos mortais foram levados a Irlanda e seu nome incluído no panteão dos heróis da pátria. Talvez os verdadeiros revolucionários tenham de ter mesmo uma cota de loucura maior que a média, além de uma completa inaptidão para a realidade, por falta de sabedoria prática, vai-se saber. Como panfleto, como livro dedicado a incentivar uma causa nobre, "El sueño del celta" até funciona, pois gostamos de conhecer personagens assim, mas como literatura, algo que assombre e estimule o leitor, este livro deixa muito a desejar. Certamente há coisas mais poderosas de Vargas Llosa para se ler. Preciso voltar a elas um dia destes. [início 17/11/2010 - fim 03/12/2010]
"El sueño del celta", Mario Vargas Llosa, editora Alfaguara, 1a. edição (2010), brochura 15x24 cm, 455 págs. ISBN: 978-987-04-1644-9

terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

Amores e desamores

Há poucas coisas mais instigantes que uma boa ficção. Deve ser por isto que sempre prestamos atenção nos velhinhos contadores de histórias ou naqueles colegas que sabem prender-nos com um assunto. Depois dos ensaios e de alguma poesia que li estava na hora de voltar à ficção. O povo do café já havia lido este livro e todos fizeram elogios: "belos personagens", "bela trama", "surpreendente", "o primeiro capítulo matou à pau!", e por aí seguiam as análises. Demorei para começar. O livro ficou todo o dezembro e janeiro se escondendo e dando lugar aos outros, mas agora no início de fevereiro chegou sua vez. Mário Vargas Llosa conta a história de um relacionamento conturbado que se passa em diferentes cidades ao longo da vida de um sujeito. São sete capítulos, em cada um deles uma cidade, um elenco de personagens interessantes e um esquema: há uma cortina de fumaça, um recorte mais ou menos factual de um período da história da segunda metade do século passado; um encontro surpreendente entre o sujeito e a senhora de sua paixão; algum desenvolvimento e enfim o desfecho, sempre desfavorável para o narrador, afinal trata-se de homem apaixonado que não controla nada em seu relacionamento, mas sim pontua toda sua vida nele. "O homem só é um enigma para si mesmo", já disse com propriedade algum sábio. Vargas Llosa é um mestre e não esconde seus truques. Mesmo sabendo da forma literária e dos artifícios lemos o livro com prazer. Há um excesso de variações nos temas, mas ele está descrevendo mais de quarenta anos de história peruana, de história européia, do circuito de traduções internacionais, do tráfico de afrodisíacos africanos para a ásia, do surgimento da aids, da ievitabilidade do câncer, do repetitivo exílio latinoamericano e principalmente está escrevendo sobre o amor, o mais antigo dos temas literários. Na verdade a menina má deve ser mesmo o próprio Peru, desafortunado país. São muitos os assuntos, mas não se pode falar mal de um livro apenas por seus excessos. Fiquei com vontade de ler outras coisas do Vargas Llosa para verificar se ele é mesmo apenas escravo de seu talento ou de fato um criador hiper imaginativo. Preciso conferir isto. "Travessuras da Menina Má" deixa-se ler com prazer, quase como um livro de contos bem amarrados, mas faltou alguma coisa neste livro para me fazer recomendá-lo sem restrições.
"Travessuras da menina má", Mário Vargas Llosa, tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht, editora Alfaguara, 1a. edição (2006) ISBN: 85-7302-808-4