terça-feira, 11 de setembro de 2018

la llamada de la tribu

Em julho, Helga e eu zarpamos para Buenos Aires. Fazia bastante frio e choveu à beça, mas conseguimos aproveitar os dias nos cafés, nos museus, nas livrarias e também nas calles (como não flanar sem rumo em uma cidade como Buenos Aires?) Aconteceram várias cousas bacanas. Por uma coincidência dos diabos fiquei hospedado ao lado de um apartamento que já havia sido habitado pelo Garcia Lorca, em 1933. Pensei muito nele e em sua poesia. Tomamos vinho e passeamos, achamos por acaso lugares bacanas, como um piano bar que também funciona como livraria, chamado "Clásica y Moderna" e a "Quetec oliva y gourmet", na Avenida de Mayo. Na excelente Fundación PROA achei dois livros do Joyce recentemente publicados por lá: uma nova versão do Ulysses e uma nova versão de seus poemas. Em uma das excursões literárias que fizemos encontrei esse "La llamada de la tribu", livro de Mário Vargas Llosa, que quente como pão fresco ocupava várias estantes da boa livraria Cúspide. Li a introdução ao livro ainda lá em Buenos Aires e imaginava que em poucos dias terminaria a leitura, mas não foi isso que aconteceu. Trata-se de um volume robusto, denso, que cobra atenção e reflexão do leitor. Na verdade são sete pequenas biografias o que Vargas Llosa engendrou. Há algo explicitamente autobiográfico na escolha dos sujeitos sobre os quais ele fala: Adam Smith, José Ortega y Gasset, Friedrich von Hayek, Karl Popper, Raymond Aron, Isaiah Berlin e Jean-François Revel. A estes sete sujeitos, sete filósofos, Vargas Llosa atribuiu sua formação e conversão ao cânone liberal, a defesa desta doutrina (que não é única, nem invariante no tempo) como opção mais viável para a melhor convivência entre os homo sapiens deste planeta. A leitura sistemática destes autores, em suas próprias palavras, "moldou sua forma de pensar e ver o mundo nos últimos cinquenta anos". Não é pouco. Apesar de saber ao menos os nomes e fragmentos biográficos, nada li sistematicamente dos gurus ideológicos de Vargas Llosa, com a exceção de um único livro de Isaiah Berlin, que já registrei aqui, sobre as raízes do Romantismo, e de Karl Popper, de quem li dois poderosos volumes por indicação do Manoel Robillota, num curso de evolução dos conceitos da Física, que fiz no IFUSP, na flutuante primeira metade dos anos 1980. Ainda tenho os surrados volumes de "A sociedade aberta e seus inimigos" em minha biblioteca que fica guardada no campus da UFSM. Lembro-me bem que meu colega de aventuras neste tempo era o Samuel Pessoa, ainda não metamorfoseado no seminal doutor em economia que é hoje. Bueno. Um outro autor, seduzido pelas ideias liberais, talvez fizesse outras escolhas, mas eu entendo as dele. Nos ensaios (pois é disso que se trata), Vargas Llosa analisa vida e obra de cada um dos sujeitos biografados. A ênfase é em seu envolvimento pessoal com a obra deles, mas os aspectos mais relevantes são antes literários que biográficos. Levei várias semanas para encontrar o ritmo adequado de leitura. Cada autor cobra uma percepção diferente. Todavia, aprendi um bocado. De Adam Smith , Raymond Aron e Ortega Y Gasset só conhecia umas piadas, uns fragmentos biográficos, uns chistes; de von Hayek e Revel nada de nada. Há muitas pérolas neste livro. Fiquei impressionado sobretudo com as reflexões de Raymond Aron, Jean Revel e Isaiah Berlin. Os sete cavaleiros de Vargas Lllosa acreditam que viver civilizadamente implica na aceitação tácita da liberdade e da legalidade, do individualismo e da propriedade privada, da luta pelos direitos humanos, boa convivência humana e paz. O livro serve como uma síntese política do século XX, das transformações sociais  e conflagrações pelas quais passamos. Helas! Não se pode fazer tudo na vida, ler tudo, dedicar-se com disciplina a assuntos que não são exatamente afeitos a seu ofício ou ocupação. Mas como não digressar pelas ideias dos outros, sem medo, sem temor, mas também sem esperança, sem a certeza de que aquilo nos servirá para entendermos melhor o mundo, enquanto ainda somos curiosos. Se o Vargas Llosa só ficou sabendo da existência de "Rumo a estação Finlândia", de Edmund Wilson, uns dez anos depois de mim (que o li em 1986), tudo é possível. Outros livros já cobram meu tempo, minha atenção, mas este ficará em minha memória como um livro de aprendizado, um volume de encantamentos. Talvez devesse ser sempre assim. Vale! 
Registro #1326 (crônicas e ensaios #232) 
[início 27/07/2018 - fim: 10/09/2018]
"La llamada de la tribu", Mário Vargas-Llosa, Cíudad Autônoma de Buenos Aires: Alfaguara / Penguin Random House Grupo Editorial, 1a. edição (2018), brochura 13x21,5 cm., 312 págs., ISBN: 978-987-738-452-9

Um comentário:

Dario de Andrade disse...

Valeu pela dica! Fiquei curiosíssimo em ler o livro, mesmo em meu espanhol tatibitate. Encontrei seu blog por acaso - coisas do google - e gostei muito! Excelentes notas de leitura e comentários. Virei leitor habitual!