terça-feira, 3 de novembro de 2015

the ulysses guide

Este é o milésimo registro de leitura que publico aqui. O que começou como um bloco de pequenas notas para os amigos (sobretudo o Renato Cohen, incentivador de primeira hora) tornou-se um grande depósito. Pensei um bocado sobre qual volume representaria melhor minha aventura com os livros ou com meu processo de leitura. Elegi sucessivamente vários dentre aqueles que li recentemente para ocupar este efêmero posto (que é apenas o de livro mais recente lido, pois sempre haverá um outro qualquer cobrando atenção e tempo, numa fila sedutora e interminável que provoca uma vertigem similar a que sentimos quando elaboramos listas mentais do que devemos ler - como já nos ensinou Umberto Eco). Acontece que demorei para ficar realmente satisfeito com uma escolha. Poderia ter sido o "The Ondt e the Gracehoper", do Joyce; as "Lições de literatura", do Nabokov; os livrinhos do Danis Rose ou do Robert Gogan (que também garimpei em Dublin); os aforismos do Karl Kraus que leio e releio há semanas; aquele do Canetti que ganhei do Rafael; a "Marcha de Radetzky", do Joseph Roth; o livro de poemas do Escobar ou o de contos do Márcio Renato dos Santos; o Kenzaburo Oe que terminei na semana passada. Dentre estes e outros tantos acabei escolhendo "The Ulysses Guide", do Robert Nicholson, pois foi esse volume que marcou-me de forma indelével este ano. Foi ele quem inspirou muitas das minhas viagens sentimentais à Dublin (muito antes de conseguir fazer mesmo uma, fisicamente). A versão do livro do Nicholson que utilizei no início deste ano para planejar e detalhar meus passeios pelos caminhos de Leopold Bloom e Stephen Dedalus no Ulysses era a original, de 1988, um volume pequeno de pouco mais de 130 páginas, editado pela Methuen. Mas foi justamente ao visitar o James Joyce Centre, num dos primeiros dias por lá, que encontrei esta edição revisada, com quase o dobro do tamanho do original. Claro, não furtei-me de comprar o volume e incorporá-lo a meus guardados (os livros antigos que substituímos por suas jovens encarnações devem nos odiar um bocado, ai de nós). Robert Nicholson conhece obra e vida de James Joyce muito bem e é o curador de duas jóias dublinesas: o James Joyce Tower and Museum e o Dublin Writers Museum. Seu livro inclui mapas um tanto ingênuos porém precisos, ilustrações e fotografias de época, além da transcrição de algumas das passagens do Ulysses onde se faz referência à geografia de Dublin. O leitor pode com facilidade localizar com seu livro os lugares de maior interesse. Nicholson apresenta oito diferentes trajetos que os acólitos de Joyce podem fazer em passeios de aproximadamente três ou quatro horas. Em cada um se emula a experiência de leitura do Ulysses de uma forma diferente. O livro inclui vários apêndices: Num sincroniza os movimentos de Leopold Bloom e Stephen Dedalus; noutro apresenta uma versão simplificada (porém útil) do Linati's Schema (o famoso roteiro de interpretação do Ulysses, escrito por Joyce e enviado a um sujeito chamado Carlo Linati; mas devemos lembrar que Joyce dizia ter produzido esse roteiro mais para confundir do que para esclarecer o público leitor: "To help him to confuse the audience a little more"); noutro discute o que fez Stephen antes da história do livro começar; noutro fala das diferentes edições do Ulysses. O volume termina com uma bibliografia realmente boa e atualizada. Essa nova edição discute as circunstâncias do desaparecimento, entre 1988 e 2015, de alguns dos lugares de culto joyceano que faziam parte dos roteiros originais: o açougue Olhausen e o hotel Ormand são as perdas mais significativas, mas agora, como uma fugaz compensação, existe o "Luas", o sistema de trens de superfície que ecoa o ruído  dos bondes da época de Joyce, facilitando bastante os deslocamentos. Os roteiros permitem que o leitor encontre com facilidade muitos dos lugares citados no Ulysses. Na verdade eu sei que o melhor jeito de um flâneur joyceano divertir-se em Dublin é mesmo perder-se pela cidade e esperar aqueles momentos inevitáveis que surgem quando o sujeito dobra uma esquina qualquer e experimenta a epifania de uma descoberta; a lembrança fugidia de uma passagem do texto original; a alegria de uma associação poderosa (que talvez só ele seja capaz de apreciar e não terá importância para mais ninguém, mas que também ninguém tira do sujeito).
[início: 16/06/2014 - fim: 22/02/2015]
"The Ulysses guide: Tour through Joyce's Dublin", Robert Nicholson, Stillorgan/Dublin/Ireland: New Island Books, 1a. edição (2015), brochura 13x20 cm., 243 págs., ISBN: 978-1-84840-452-6 [edição original: (London: Methuen Books) 1988]
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[Dos 1000 livros que eu li desde 01/01/2007]
Nesses nove anos que mantenho o "Livros que eu li" 1000 registros se acumularam, quase como por mágica. Dentre eles quase 60% (593 volumes) corresponde ficção (276 romances, 59 novelas, 54 romances policiais, 5 livros de ficção-científica, 122 são conjuntos de contos, mini-contos ou aforismos, 77 são livros de poesias ou peças de teatro). Os outros 40% (407 volumes) corresponde a textos de não ficção ou aquilo que eu chamo genericamente de divertimentos. Os livros de não ficção (252 volumes) são os livros de crônicas, ensaios, perfis biográficos, memórias, divulgação científica, cartas, dicionários e livros explicitamente didáticos (uns poucos). Os divertimentos (155 volumes) são os livros de viagem, gastronomia, arte, fotografia, catálogos de exposições de arte, livros dedicados ao público infanto-juvenil, histórias em quadrinhos, fanzines, graphic novels e mangás). Gosto sempre de ler o maior número possível de obras de um mesmo autor. O escritor que mais li desde 2007 foi o madrilenho Javier Marías (que acredito ser o melhor escritor vivo). Dele já resenhei cerca de 40 livros, entre narrativas ficcionais, traduções, conjuntos de crônicas e ensaios. Li também neste período quase tudo do catalão Manuel Vázquez Montalbán, morte em 2003, escritor e jornalista que teve um papel relevante na redemocratização espanhola (fiz resenhas de 35 livros dele, a maioria romances policiais nos quais o protagonista é um detetive galego chamado Carvalho). Além desses dois espanhóis li vários livros do italiano Andrea Camilleri (25); do holandês Cees Nooteboom (23); do catalão Enrique Vila-Matas (18); do americano Philip Roth (17); do espanhol Arturo Pérez-Reverte (18); do inglês Ian McEwan (15); do irlandês James Joyce (15); dos franceses Patrick Modiano (12), Marcel Proust (10), J.M.G. Le Clézio (9), Amélie Nothomb (8) e George Simenon (8); do sul-africano J.M. Coetzee (9); do angolano José Eduardo Agualusa (9); dos alemães W.G. Sebald (9) e Herta Müller (7); do japonês Natsume Soseki (8) e do polonês Joseph Conrad (8). Seria mais do que tedioso listá-los aqui, mas sei que no conjunto li pelo menos 150 autores diferentes neste período. Como viajo sempre que possível gosto de ler algo que esteja relacionado aos lugares que visito, seja a obra de um autor local que desconheço ou o que poderia ser chamado de biografias literárias das cidades. Com essa motivação conheci e incluí no blog autores brasileiros muito bons como os curitibanos Luís Henrique Pellanda, Márcio Renato dos Santos e Caetano W. Galindo; os gaúchos Leonardo Brasiliense, Escobar Nogueira e Samir Machado de Machado, o carioca Paulo Henriques Britto, o soteropolitano João Filho, o recifense Urariano Mota, o mato-grossense Joca Reiners Terron, o sergipano Antonio Carlos Viana e o paraense Dalcídio Jurandir. Não tenho medo de ler solenes desconhecidos, autores que patrocinam os seus próprios livros, publicações de editoras que não alcançam ser divulgadas nos jornais e televisão. Tento sempre melhorar meu instinto para as picaretagens que a crítica literária e a mídia em geral tentam escoar na bacia das almas que é o mercado brasileiro mas é óbvio que leio um bocado de bobagens todos os anos. Quem acompanha o blog sabe que gosto de ler livros em espanhol. Aproximadamente um quinto dos livros que resenhei no "Livros que eu li" foi escrito nessa língua. Também há uns poucos que li no original em inglês. Cabe dizer por fim que esses registros não são nem de longe resenhas críticas profissionais, nem tampouco ensaios elaborados ou definitivos sobre os livros. São antes comentários que mesclam a cada caso tanto detalhes das tramas ou dos sucessos dos livros quanto digressões que brotaram de minha memória e afetaram meu humor ao longo desses anos, especialmente quando sou particularmente marcado por aborrecimentos ou encantamentos derivados das leituras. Haverá tempo para outros mil livros no futuro? Haverá tempo para um dia pelo menos listar o outro milhar de livros que acredito ter lido antes de 2007? Difícil dizer. Não sou exatamente um candidato a longevidade, mas espero continuar sempre me divertindo nesse processo. Apesar de saber que é muito improvável que haja qualquer futuro para a crítica de livros no Brasil, ainda acredito no prazer individual proporcionado pela lembrança das horas que passamos com eles, ainda acredito no descanso na loucura que eles proporcionam.Vale.

3 comentários:

Juca Azevedo disse...

O número de livros que você leu parece grande, mas impressiona menos do que a gigantesca qualidade dos autores. Parabéns pelo blog. Suas resenhas são sempre ótimas.

Paulo disse...

Guina, parabéns pela marca. Marías também é meu favorito vivo. O homem é um Midas.
Não será hora de começar a explorar a obra de Saul Bellow?

Aguinaldo Medici Severino disse...

Grande Juca e grande Paulo, me desculpe o atraso para responder. Correrias mil nesse fim de ano. Grayo pelas palavras gentis. Nas minhas contas em 2024 alcanço os 2000. Vamos a ver se existirá mundo digital, blogs e internet até lá (livros eu sei que haverá )