terça-feira, 5 de dezembro de 2017

a arte da ficção

Se no "Breve história da literatura", de John Sutherland, que registrei há poucos dias, acompanhamos a vertigem de 3000 anos de literatura condensadas em 300 páginas, em "A arte da ficção" somos apresentados às técnicas que condicionam e explicam a prosa ficcional (oká, um tanto menor é a pretensão de Lodge, mas os vastos limites das duas propostas jamais são alcançados). Sutherland e Lodge são contemporâneos, nascidos na Inglaterra, nos anos 1930. Ambos fizeram carreira acadêmica nas melhores universidades inglesas, Lodge, em Birmingham, Sutherland, em Londres. As edições originais dos dois livros aconteceram em momentos diferentes. Sutherland publicou bem recentemente seu portento sobre a história da literatura (talvez seja o caso de enfatizar que ele se concentra vividamente na literatura inglesa); Lodge, publicou nos anos 1990 o seu (e igualmente enfatiza os romances escritos em inglês em seus exemplos). Enfim, em "A arte da ficção" encontramos 50 breves comentários, 50 tópicos, sobre algum aspecto da arte ficcional, publicados originalmente nas páginas do jornal "The Independent on Sunday" (tratava-se de um contraponto a uma outra série, "Ars Poetica", dedicada aos aspectos gerais da arte poética, escritos pelo poeta James Fenton). Lodge fala de como se começa e como se termina um romance; como se escolhem os nomes dos livros e dos protagonistas; como se conduz a narrativa, se manipula o tempo, se experimenta, escolhe e enfatiza vozes; como as ferramentas retóricas e linguísticas se prestam ao exercício da ficção; como evoluiu essa nobre arte e ofício; quem são os teóricos relevantes; quais são os termos dominantes; o quê diferencia um romancista de um beletrista amador. O livro destina-se ao leitor comum (complicado é encontrar um leitor comum que aceite essa condição de alvo). O formato é prático: Lodge transcreve um trecho de um determinado livro e o usa para exemplificar um aspecto de uma das técnicas narrativas. Por vezes ele fala mais do enredo daquele livro que usou como exemplo, noutras o que se enfatiza é o conceito da técnica que explica aquele efeito. Estranhei alguns termos e palavras usados pelo tradutor. Too much theory, I suppose! Paciência (que não tive, já que não me preocupei em ir atrás do que mesmo pensavam Bakhtin, Todorov e outros tantos formalistas russos sobre esses assuntos). De qualquer forma, interessante. Bom divertimento. 
Registro #1245 (crônicas e ensaios #221)
[início: 19/11/2017 - fim: 30/11/2017]
"A arte da ficção", David Lodge, tradução de Guilherme da Silva Braga, Porto Alegre: editora LPM, 1a. edição (2009), brochura 14x21 cm., 246 págs., ISBN: 978-85-254-1859-3 [edição original: The Art of Fiction (London: Secker and Warburg / Harvill Secker / Penguin Random House Group) 1992]

2 comentários:

Paulo Rafael disse...

Segui essa sugestão e estou lendo o Lodge. Valeu.

Boris Tripliov disse...

Gostei do seu blog, cara. Parabéns, suas indicações são muito boas.