sábado, 1 de novembro de 2008

tatuaje

Se em “Yo maté a Kennedy” o personagem Pepe Carvalho é engenderado pela primeira vez, neste “Tatuaje” o encontramos já no formato em que ele passará a ser conhecido por sua legião de aficionados. É bom registrar que estes aficionados o seguiram como bacantes em festa por trinta anos, até o cárcere de “Milênio”, último volume da saga do detetive catalão (galego de nascimento.) Manuel Vázquez Montalbán em “Tatuaje” nos faz encontrar pela primeira vez vários personagens da série: o engraxate Bromuro, fornecedor de informações que só alguém das ruas e sem medo dos vapores que emanan das Ramblas (do Caganell diria mais apropriadamente o Robert Hughes que eu abandonei, mas a quem em breve voltarei); a voluptuosa Charo, prostituta que manterá um relacionamento curioso com o detetive até o final; o vizinho iconoclasta Fuster, senhor dos comentários curtos e dos conselhos econômicos e jurídicos invariavelmente trocados por comida; o estafeta Biscuter, ex-colega de cadeia, ou Ginés, o delegado ainda franquista, saudoso das masmorras da Via Laietana. Também temos vislumbres da serra de Collserola, do distrito de Vallvidrera, lugar mítico da casa de máquinas da cozinha terroir e primordial de Carvalho e é claro, como não, temos Barcelona, a eterna feiticeira. Todos aparecem ao menos um tanto. Acompanhamos Carvalho na solução de um crime pelos carrers de Barcelona e pelos canais de Amsterdan. Elipticamente ficamos sabendo uns poucos detalhes do passado de Carvalho, nada muito detalhado, apenas pinceladas de informação, que mais iludem que explicam. A política espanhola da metade da década de 1970 aparece, exuberante e contraditória, exatamente como o próprio detetive, que afinal foi comunista e agente da CIA, e que é um intelectual de formação universitária sólida, mas que também queima livros como se enfadasse da cultura. A solução do crime, descobrir como sempre quem afinal matou o homem tatuado das primeiras páginas é o de menos, pouco importa de verdade. Em “Tatuaje” aprendemos a respeitar este sujeito inverossímel, irreal, mas pleno de vida que é Pepe Carvalho Tourón.
"Tatuaje”, Manuel Vázquez Montalbán, editora Planeta, 1a. edição (2004), brochura 15x23cm, 226 págs. ISBN: 978-84-08-05131-2

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