sábado, 27 de abril de 2013

o caderno rosa de lori lamby

"O caderno rosa de Lori Lamby" é um livro francamente pornográfico (e que livro maravilhosamente pornográfico ele é). Algo inebriado em doces lembranças o reli após encontrá-lo em meus guardados, curioso que fiquei por conta da notícia de uma peça sobre Hilda Hilst que estreava em São Paulo, dias atrás. Lembrei-me da festa de lançamento dele, num pequeno bar dos jardins, num maio já frio e úmido, há mais de vinte anos. Lembrei-me da Misa e do Péricles, dos desencontros (porque os corpos se encontram, mas as almas não), do punhado de vinho barato que bebi, de um Guina que de alguma forma já se esquivava daquela São Paulo dos campos de Piratininga. Mas meu exemplar de "O caderno rosa de Lori Lamby" não está autografado, pois naquele dia, algo arrogante e pudico, cabotino e tolo, resolvi que só levaria o outro livro que a Hilda autografava, seu belo conjunto de poemas, "Amavisse". Acho que eu já havia comprado este último no ano anterior, mas lembrar dos detalhes do que fiz em 1990 soa tão anacrônico como falar de histórias da época das cavernas, paciência. Proust já nos ensinou (foi o Elstir que nos ensinou a bem da verdade) que nossas encarnações prévias não podem ser censuradas pelo que eram, pelas decisões que tomaram, pelas tolices que fizeram. E ter esperado na fila apenas pelo autógrafo de um dos livros, e não dos dois, foi o menor do erros que cometi naquela noite. O livro de Hilda é delicioso. As ilustrações de Millôr Fernandes, que povoam o volume algo incontroláveis, traduzem para o leitor o mundo mágico inventado pela escritora. Lori Lamby é uma garota que escreve histórias bem picantes. Mas ela não o faz por uma estranha luxúria ou despudor, mas sim para ajudar seu pai escritor, pressionado por seu editor a abandonar seus livros sérios e escrever algo rentável para variar. Ao final do livro experimentamos a mesma surpresa que "O mundo de Sofia", de Jostein Gaarder, provoca, quando descobrimos que a narradora não tem nada de alter ego ou de autobiográfico, mas sim é apenas uma personagem, uma inteligentíssima e rebelde invenção afinal de contas. Uma personagem através da qual Hilda plasma literariamente seus ressentimentos com o mercado editorial brasileiro da época (e acho que ela não pararia de vomitar, caso ainda fosse viva). Como toda literatura deste gênero as associações psicanalíticas são óbvias (o final, com os pais da menina internados em um sanatório, recuperando-se do choque em descobrir os talentos da menina, é engraçado à beça). O tempo passou, "Amavisse" não se tornou "seu último livro de poesias" (como ela ameaçava), nem "O caderno rosa de Lori Lamby" e os demais livros pornográficos dela não se tornaram "uma forma de conversão dos leitores para sua literatura séria" (como seus amigos - e ela mesma - esperavam). É um livro que envelheceu um tanto (envelheci também eu, claro), mas continua bem divertido e interessante. 
[início: 23/04/2013 - fim: 25/04/2013]
"O caderno rosa de Lori Lamby", Hilda Hilst, ilustrações de Millôr Fernandes, São Paulo: Masao Ohno editor, 1a. edição (1990), brochura 15x22 cm., 88 págs., sem ISBN.

Um comentário:

Clara Lopez disse...

Acontece uma coisa estranha com a literatura de Hilst. Toda a vida ela quis ser lida por mais gente, queria não apenas viver de sua arte, mas também um público que a lesse, a compreendesse e a amasse. Se ela tivesse podido estender só um pouquinho mais sua vida teria visto sua obra mais expandida, sobretudo em razão do empenho dos que ficaram responsáveis por sua obra, criadores do site do Instituto Hilda Hilst. Mas minha impressão é que facebook não é o melhor meio de fruir sua obra, mas posso estar enganada. Não gosto muito de ler o que se publica dela na rede, acho que fica menor do que o livro, do que o conjunto todo. A literatura dela é muito centrípeta, roda em torno da palavra, em torno das repetições e fica (opinião de quem ama sua literatura ) menor, acho, na trivialidade de um post. Mas acho que ela ia adorar, claro.
grande abraço,
clara