terça-feira, 13 de outubro de 2020

quem faz o quê?

Já faz anos que não convivo com crianças. Houve uma época em que todos os amigos tinham filhos, em que nasceram minhas sobrinhas queridas, Clara e Victória, em que tornei-me padrinho do Dante. Sempre gostei de conversar com todas elas e também presenteá-las. Depois as crianças cresceram, os casais se separaram, o ritmo da vida mudou e o hábito - que sabe ser um fiel camareiro, porém sabe também ser cruel - as colocam em um lugar inacessível, longe da minha rotina. Agora que eu tenho um fenótipo mais próximo daquela antiga definição que uns amigos fizeram nos tempos da USP, a de ser o "velho e cansado Guina", aquele que levava tudo a sério, mais para taciturno que para brincalhão, não sei mais o melhor jeito de se aproximar de crianças e jovens, sobretudo nestes tempos rudes e estúpidos que vivemos. Paciência. Noutro dia achei esse livro do Ricardo Aleixo, um livro onde um único poema  tem cada um dos versos ilustrado em páginas duplas (são desenhos bem coloridos, assinados por Regina Miranda). Lê-se o poema e recuperamos algo das alegrias de conviver com crianças, vivenciar aqueles estalos adoráveis, ver o furacão encarnado que cada uma delas tem dentro de si.  Certamente as crianças (e as crianças grandes) vivem um bom momento lendo e folheando esse livro de Ricardo Aleixo e Regina Miranda (ouvendo-o, como discute o poema). Deixo ele aqui: "Morrer é com os vivos. / Chorar é com as nuvens. / Saber é com os livros. / Separar é com as margens. / Voar é com as pedras. / Pisar é com os pés. / Piscar é com as pálpebras. / Calar é com a voz. / Morder é com os dentes. / Durar é com o tempo. / Lembrar é com os elefantes. / Soprar é com o vento. / Ver é com os fatos. / Mascar é com as cabras. / Assustar é com os ratos. / Desdobrar-se é com as cobras. / Tatear é com os cegos. / Roer é com os esquilos. / Ouvir é com os morcegos. / E ouver... / é com os crocodilos.". Vamos a ver se encontro algum jovem casal que tenha alguma criança em casa para presenteá-lo com esse "Quem faz o quê?". E segue o baile. Vale!
Registro #1579 (infanto-juvenil #50)
[início - fim: 21/09/2020]
"Quem faz o quê?", Ricardo Aleixo (texto), Regina Miranda (ilustrações), Belo Horizonte: Formato Editorial, 1a. edição (1999), brochura 20,5x23 cm., 28 págs., ISBN: 85-7208-240-9

sábado, 10 de outubro de 2020

rei lear

Quando se trata de bons livros, não importa quantas vezes um sujeito volte a lê-los, o assombro sempre será diferente, o encantamento sempre se dará de uma forma distinta, as descobertas sempre serão diversas das anteriores. Shakespeare, o eterno Shakespeare, inventou seu Rei Lear há mais de quatrocentos anos e esse drama segue nos arrebatando. Charles Lamb e Harold Bloom já nos ensinaram que a leitura de Rei Lear é particularmente gratificante porque, em geral, as montagens e/ou adaptações ficam sempre aquém do texto, porque os atores e/os diretores são sempre derrotados pela potência da peça, por sua riqueza, por seu caráter quase mitológico, por sua tessitura poética que remete a de uma santa escritura. Se for este mesmo o caso, a tarefa do leitor agora ficou muito mais prazerosa, pois Lawrence Flores Pereira, respeitado e premiado professor e tradutor, que já nos havia proporcionado suas ótimas versões de Hamlet e de Otelo, acabou de publicar seu Rei Lear. Não me atrevo aqui a fazer um resumo da peça. Talvez, numa sinopse, seja só o caso de lembrar que há duas tramas intrincadas, dois enredos paralelos: o enredo principal é o de Lear, rei da Bretanha, que planeja dividir seu reino entre suas três filhas (Regan, Goneril e Cordélia), mas apenas provoca conflitos e destruição, morte e loucura; a segunda trama é a de Gloucester, um conde do reino bretão, que é enganado por seu filho bastardo (Edmund), renega seu filho natural (Edgard) e, a exemplo de Lear, produz a si e a todos os que o cercam, somente degradação, sofrimento, ruína, realçando o conflito e caos gerado por Lear. Um leitor romântico (ou um que não seja pelo menos um pouco niilista ou cínico) precisa emparedar seu coração, pois na peça quase todos os personagens sofrem demasiadamente. O espectador/leitor também sofre com eles, até o final, mesmo quando uns poucos dentre os virtuosos personagens sobrevivem e todos os maus, os completamente perversos, sejam derrubados. De certa forma a loucura de Lear é a loucura grandiloquente deste nosso século, onde a falta de sabedoria, a vocação para destruição e o desentendimento sobre o que seja amar são a verdadeira norma contemporânea, fazem parte de nosso triste cotidiano (seja no envolvimento real entre os homo sapiens, seja nas especulares relações sociais virtuais, no contínuo autoengano das redes, que apenas deixa aflorar nosso lado mais sombrio). A tradução de Lawrence - frente toda a complexidade da peça, que funde prosa e verso, canções e retórica, com ritmos diferentes - valoriza sempre o verso (instável, no original, nas palavras dele mesmo), oferecendo ao leitor um léxico rico e variado, com elementos eruditos e populares, soluções muito originais, criativas. Gostei muito de ler. Os usuais mimos da coleção Penguin Classics Companhia das Letras estão presentes: (i) uma bela introdução, que ocupa um terço do volume, assinada por Lawrence e por Kathrin H. Rosenfield; (ii) duas notas breves que especificam as fontes e o compromisso tradutório utilizado (vale lembrar que o projeto de tradução do Lawrence pode ser encontrado na Revista de Literatura e Linguística Eutomia (ISSN 1982-6850); (iii) as referências bibliográficas fundamentais; e, por fim, (iv) aquilo que sempre é uma festa para o leitor curioso, uma leitura à parte que todos devem fazer simultaneamente ou mesmo só após terminar o texto: extensas notas de tradução para cada uma das 26 cenas da peça, que ocupam aproximadamente um quarto do volume, onde ora se argumenta sobre as soluções adotadas na tradução de passagens específicas, ora se fala da conveniência ou não de um determinado procedimento cênico, mas que também oferece explicações sobre aquilo que é cifrado ou enigmático demais no original, como certos antropônimos, topônimos, passagens que fazem alusão a mitologia, história e sociologia. Só um detalhe besta, que acho ser um deslize que a Penguin/Companhia poderia ter evitado: o sumiço do Conde de Kent na lista de personagens (logo ele, que é o primeiro a falar na peça). Outro detalhe besta, mas bacana desta vez, é que achei muito curioso Lawrence ter utilizado nas passagens fantásticas e loucas dos discursos do Pobre Tom (Edgard) a palavra "Trasgo", resgatando-a do folclore português (da província do norte de Portugal, Trás-os-montes), quando quer identificar os demônios que se ocupam deste pobre personagem. Acontece que "Trasgo" foi incorporado notavelmente pelos tradutores de Harry Potter para o português, já há vinte anos, quando precisaram identificar aquilo que J.K. Rowling chamou de "Trolls" em seu livro (é uma bobagem, mas pareceu-me um fortuito encontro entre registros eruditos e populares, tão presentes na peça). Finalizo reproduzindo aqui duas citações marcantes da peça, que parecem tão adequadas para os nossos dias, dias povoados por vazio e estupidez: "When we are born, we cry that we are come to this great stage of fools" e "Nothing will come of nothing.” ("Quando nascemos, choramos por aportar / A esse vasto palco de loucos." e "Mas nada virá de nada."), nas versões de Lawrence. Livro para se ler com atenção, esforço e disciplina. Vale muito a pena. Evoé Lawrence, Evoé! Vale!
Registro #1578 (drama #23)
[início: 22/07/2020 - fim: 29/09/2020]
"Rei Lear", William Shakespeare, tradução de Lawrence Flores Pereira, São Paulo: editora Schwarcz: Penguin Classics Companhia das Letras, 1a. edição (2020), brochura 13x20 cm., 320 págs., ISBN: 978-85-8285-111-1 [edição original: His True Chronicle Historie of the Life and Death of King Lear and His Three Daughters. With the Unfortunate Life of Edgar, Sonne and Heire to the Earle of Gloster, and His Sullen and Assumed Humor of Tom of Bedlam (London) first quarto, 1608; second quarto, 1619; The Tragedie of King Leat (London: Isaac Jaggard and Edward Blount) first folio, 1623; Foakes, R.A. (ed,), Arden Shakespeare, Third Series (London: Bloomsbury), 1997]

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

no coração do país

Desde fevereiro, quando fui a África do Sul, como já contei aqui, já havia pensado em reler livros do J.M. Coetzee. Após ter lido o bom "À espera dos bárbaros" li "No coração do país". É o segundo livro dele, foi publicado originalmente em 1977 e chegou a receber um prêmio em seu país. Não me pareceu tão impactante quanto outros livros dele que já li, como, por exemplo, "Desonra", "O mestre de Petersburgo" e "A vida dos animais". O livro é composto por 266 cenas, como se fosse uma longa peça de teatro. As cenas não estão organizadas cronologicamente e nem tudo pode ser real, verdadeiro (a propósito: poucas coisas são mais irritantes hoje em dia que essa obsessão de muitos escritores contemporâneos em tentar trazer a realidade para seus livros, tentando incorporar fatos terríveis do cotidiano e com isso poder defender suas pautas ideológicas, como em uma espécie de quixotismo, de heroísmo auto proclamado. Arre!). Mas continuando com o Coetzee. Talvez as 266 cenas sejam apenas produtos da imaginação da narradora, que descobriremos já perto do final do livro chamar-se Magda, filha de um velho bass (senhor de terras), no interior - quase no deserto - da África do Sul. O que acontece entre as cenas narradas por Magda cabe ao leitor imaginar, inventar. Magda parece o tempo todo flutuar em um mundo de sonho, irreal, fantasioso, criando esse mundo em seu quarto sem janelas, enlouquecida. A história envolve culpa, violência e degradação. A fazenda onde vivem pai e filha está claramente decadente, mesmo no início da história, quando a menina lembra da chegada da segunda mulher de seu pai (sua madrasta). Se ela teve irmãos e primos, mãe e madrasta, criados, professores e colegas de escola, saberemos que todos morreram ou abandonaram a fazenda, deixando-os sós, com apenas um velho casal de empregados negros, que logo também escapará daquela ruína. O relacionamento dela com o pai é mais que estranho. Há tensão sexual, ciúme e raiva entre eles. Quando criança, ela imaginou matar pai e madrasta, ao vê-los copulando. Em algum momento um jovem negro, Hendrick, é contratado para trabalhar na fazenda. Tempos depois ele se casa com Anna, uma garota muito jovem. Quando o pai de Magda passa a se relacionar com Anna, uma metáfora do despótico poder de um senhor de terras nos tempos de Apartheid na África do Sul, floresce novamente nela o ciúme (ou, antes, simplesmente a curiosidade sobre o mecanismo do sexo). Há uma brincadeira interessante do autor, que gostei muito, que envolve a passagem de aviões sobre a fazenda e as tentativas de Magda de interagir com estes aviões escrevendo poemas com pedras no chão do deserto. De resto prefiro não descrever aqui o que segue - factualmente ou não - na narrativa. O leitor sabe que desde o início o quão pouco confiável são as memórias e descrições de Magda. Enfim, o que resta ao leitor é apenas a sufocante sensação de impotência frente a violência e a passagem do tempo, frente ao novo e a nosso medo da morte, frente a finitude e aos mecanismos da escravidão. Vale! 
Registro #1577 (romance #389)
[início: 18/09/2020 - fim: 22/09/2020] 
"No coração do país", J.M. Coetzee, tradução de Luiz Antônio Oliveira de Araújo, São Paulo: Editora Best Seller, 1a. edição (1997), brochura 14x21 cm., 180 págs., ISBN: 85-7123-583-X [edição original: In the Heart of the Country (Londres: Secker & Warburg) 1977]

domingo, 4 de outubro de 2020

el suplicio de las moscas

"El suplicio de las moscas", volume de aforismos, anotações e reflexões de Elias Canetti, corresponde ao período que vai de 1986 a 1992. Livros deste tipo dele são sempre bons. Já registrei aqui "La provincia del hombre" (que reúne anotações do período que vai de 1942 a 1972), "Festa sobre as bombas" (publicado postumamente, correspondendo a todo o período em que ele viveu na Inglaterra e na Suiça) e "Sobre a morte" (reflexões específicas sobre a morte, escritas entre 1942 e 1993). Há um outro livro deste gênero, "O coração secreto do relógio", que cobre o período de 1973 a 1985, que li há décadas e resta perdido em meus guardados. "El suplicio de las moscas" está dividido em nove conjuntos. Canetti fala do homo sapiens (suas virtudes, defeitos, caráter vocação para a destruição e o sublime), de autores que aprecia (Kafka, Brückner, Swift, Blake, Pascal, Babel), falta do tempo e dos deuses, da morte, das línguas e da amizade, do medo, do judaísmo, mitologia e velhice, da capacidade de amar. Há várias anotações longas, onde Canetti sintetiza o que pensa sobre tragédias gregas (Sófocles, sobretudo: As Traquínias, Electra, Filoctetes, Édipo Rei, Édipo em Colono, Antígona). As anotações têm algo de enigmático, podem ser entendidas como definições incontroversas sobre um assunto, ou apenas como provocações, temas para discussão, que talvez merecessem posteriormente ser melhor entendidos, por ele mesmo. Não podendo citar todas anotações, deixo aqui quatro delas: “É inteligente como um jornal. Sabe tudo. Mas o que sabe muda todos os dias”; “Há quem sirva à riqueza e há quem sirva à fama. Nenhum dos dois é inocente, pois esperam despojos”; “Frequentemente pessoas ficam gravemente doentes para converterem-se em outras, e, decepcionados, curam-se”; “Tudo soa convincente quando se sabe pouco”. ÔBeleza. Sempre grande é o Canetti. Vamos em frente. Vale!
Registro #1576 (aforismos #11)
[início: 03/08/2020 - fim: 17/09/2020]
"El suplicio de las moscas", Elías Canetti, tradução de Cristina García Ohlrich, Madrid: Anaya & Mario Muchnik (Grupo Anaya), 1a. edição (1994), brochura 13x20 cm, 155 págs., ISBN: 978-84-7979-072-5 [edição original: Die Fliegenpein (München: Deutscher Taschenbuch Verlag) 1992]

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

massao ohno, editor

Esse é o livro mais bonito que li neste ano. É um livro que rende homenagem a um dos melhores artífices brasileiros, o editor, designer, tipógrafo, experimentador, artista gráfico e pensador das artes, Massao Ohno, paulista filho de imigrantes japoneses, que viveu entre 1936 e 2010. É um livro que evoca aqueles curtos períodos onde parece que o Brasil é um país normal, com alguma chance de evoluir, transformar-se, florescer, não essa fossa séptica mental e moral à qual normalmente retornamos, inexoravelmente. Massao começou a trabalhar com artes gráficas em meados dos anos 1950. De editor artesanal, que até custeava os primeiros trabalhos de jovens promissores poetas, Masso Ohno tornou-se em cinco décadas um dos mais respeitados editores brasileiros, referência única em qualidade de produção gráfica, fusão harmônica entre a forma dos livros e seu conteúdo, criatividade e originalidade. O resultado desta vida, os livros que editou com seus parceiros artistas, são livros arte, livros objeto, avant la lettre, já se sabe. Lê-se e vê-se este volume com um espanto perene nos olhos. Nele encontramos o que no Brasil fez-se de melhor, na poesia, nas artes plásticas, no cinema, na cultura. Os poetas que ele editou (Claudio Willer, Jorge Mautner, Carlos Vogt, Mario Chamie, Hilda Hilst, Olga Savary, Lêdo Ivo, Carlos Nejar, Paulo Mendes Campos, Vinícios de Moraes - para citar só dez dentre dezenas de outros) foram apresentados em volumes ilustrados por artistas plásticos geniais (João Suzuki, Wesley Duke Lee, Manabu Mabe, Tide Hellmeister, Arcângelo Ianelli, Mira Schendel, Tomie Otake, Carlos Vizioli, Millôr Fernandes, Cyro del Nero - novamente, citando apenas uns poucos). Ohno também colaborou vários outros respeitados editores (
Roswitha Kempf, João Farkas, Ênio Silveira), formou jovens talentos e foi um ativo divulgador da cultura e da língua japonesa no Brasil. Esse volume foi idealizado por José Armando Pereira da Silva, respeitado historiador da arte. Seu meticuloso levantamento da produção editorial de Massao Ohno foi feito em colaboração com a secretaria de cultura e as bibliotecas públicas da cidade de São Paulo, consumiu quase quinze anos e fez com que hoje estejam disponíveis para consulta, depositados na Biblioteca Mário de Andrade, aproximadamente 650 livros. O resultado do rastreamento de José Armando indica um número ligeiramente maior, listando 777 livros editados por Ohno, entre 1959 a 2010. No volume estão reproduzidas um quarto das sempre belas capas das obras, mas os textos que contextualizam cada fase da carreira de Ohno também são muito bons. Todo um panorama da arte e cultura brasileira da segunda metade do século passado se desvela. Nem preciso acrescentar que é um livro muito bem editado pela Ateliê. Ao folheá-lo, fui garimpando mentalmente as pequenas joias que estão entre meus guardados, não mais que dez delas, coisas de T. S. Eliot e James Joyce, Hilda Hilst e Paul Valéry, Augusto e Haroldo de Campos, Olga Savary e Bashô). Livro para se desfrutar, ler e reler, alegrar os dias, purgar-nos destes aziagos dias de pandemia. Evoé, Massao Ohno, miglior fabbro, evoé. Vale! 
Registro #1575 (livro de arte #38)
[início: 17/03/2020 - fim: 22/09/2020]
"Massao Ohno, editor", José Armando Pereira da Silva, Cotia: Ateliê Editorial (Coleção artes do livro #12), 1a. edição (2019), capa-dura 21x21 cm, 320 págs. ISBN: 978-85-7480-839-0