quarta-feira, 3 de junho de 2009

los dominios del lobo

"Los dominios del lobo" é o primeiro romance escrito por Javier Marías. Foi publicado em 1971, quando ele era pouco mais que um adolescente e é um livro curioso de se ler, ou melhor dizendo, divertidíssimo de se ler. Cada capítulo conta uma história que pode ser lida como um conto independente dos demais. Todavia todas tem como ambientação os Estados Unidos e se passam no período que vai da guerra civil americana, em meados do século XIX, à grande depressão americana, no início dos anos 1930. Muitas das histórias incluem os mesmos personagens, mas em contextos diferentes, sem preocupação em contar uma saga. Talvez o autor esteja querendo apenas apresentar comportamentos e formas de reagir à situações, quase sempre ou trágicas ao extremo ou cômicas em um outro extremo. Em uma nota do próprio Marías incluída nesta edição ele diz abertamente que todas as ideías das histórias foram mais ou menos emprestadas, recortadas, rearranjadas ou inspiradas pelos muitos filmes produzidos nos EUA que ele assistiu em uma temporada vivida em Paris, que foi planejada para que ele ficasse perto das cinematecas francesas que programavam cinema americano dos anos 1930, 1940 e 1950 como um exercício estético (critérios estéticos da Nouvelle vague e dos Cahiers du Cinéma). No ínicio os capítulos parecem mesmo um pastiche, uma caricatura, mas aos poucos vamos percebendo a jovem maestria deste jovem Marías (como cunhou Juan Benet). São tantos os personagens, tantas as situações, tantos os clichês, que entramos aos poucos no mundo inventado por ele e acabamos por nos encantar. O bom contador de histórias que descobri ao ler seus livros mais recentes está sim escondido neste divertido livro de estréia. [início 27/04/2009 - fim 09/05/2009]
"Los dominios del lobo", Javier Marías, ediciones Debolsillo (1a. edição) 2007, brochura 13x19, 267 págs. ISBN: 978-84-8346-223-2

terça-feira, 2 de junho de 2009

barcelona petit

Comprei este livro por dois reais, isto mesmo, na Feira do livro de Santa Maria deste ano. O livro é um guia de viagens, com indicações sobre hotéis, restaurantes, pontos turísticos e toda a miríade de informações que um viajante precisa para se localizar. Mas ele não serve mais como guia de viagens. Acontece que ele foi publicado em 1992, às vésperas dos jogos olímpicos que aconteceram em Barcelona naquele ano, e acredito ter sido uma forma de apresentar a cidade, algo como introduzir Barcelona para o público brasileiro. Naquela época a cidade ainda não fazia parte do circuito de turismo de massa que observamos hoje. Sempre teve, claro, como poderia ser diferente, o charme de um lugar para onde apenas iniciados se deslocavam e somente uns afortunados faziam ali amizades e descobriam lentamente suas belezas. O autor, Francesc Petit, é o mítico catalão que adotou São Paulo para viver e que criou a mítica DPZ no final dos anos 1960 com seus colegas Roberto Duailibi e José Zaragoza. Para boa parte dos profissionais da área, parte do sucesso alcançado pelos escritórios de publicidade brasileiros hoje em dia deve-se ao papel representado pela DPZ, como escola e celeiro de grandes publicitários. Pois Petit publicou este pequeno guia e à época deve ter sido mesmo um belo presente para se dar a um amigo em viagem. Infelizmente a maior parte dos endereços, nomes, restaurantes, telefones não existem mais, não podem ser utilizados como referência. Mas a prosa leve e sofisticada de Petit dá a este pequeno livro um valor que transcende esta desatualização. Há belas ilustrações no livro (que acredito serem todas dele mesmo, bom de traço). A apresentação é feita por Pasqual Maragall, um importante político catalão, que governou Barcelona por muitos anos. Bom de se ler e tentar lembrar dos passeios pela "velha feiticeira" uma vez mais. [início 04/05/2009 - fim 07/05/2009]
"Barcelona. Petit de guia", Francesc Petit, editora Nova Fronteira (1a. edição) 1992, brochura 11x15, 185 págs., sem ISBN

segunda-feira, 1 de junho de 2009

poemórias

Neste pequeno livro Humberto Zanatta recolheu do baú de guardados de Antonio Isaia uma série de ilustrações que têm as ruas e o casario antigo de Santa Maria como tema. Elas foram produzidas usando a técnica de bico-de-pena, a partir de fotos originais dele mesmo ou de terceiros (estas últimas feitas ainda mesmo no início do século passado). Elas já haviam sido publicadas nos jornais da cidade em uma coluna que Isaia manteve por muitos anos, onde contava um tanto da história da cidade. As ilustrações vêm acompanhadas de descrições bem detalhadas do local e da época em que foram feitas e formam um belo registro do passado da cidade. À elas Zanatta, dono de vasta obra literária e musica (não por acaso patrono da recente edição da Feira do livro de Santa Maria), escreveu pequenos versos que cantam a cidade e os traços das ilustrações. São versos curtos, mas cheios de encantamento, que levam o leitor a pensar um tanto no ritmo da vida, no contínuo passar do tempo e, como não, nas mudanças radicais que ele sempre provoca. Temos assim três camadas de tempo, três técnicas de expressão (fotografia, ilustração, poesia), três olhares sobre a cidade. Curiosa mistura esta. Por fim cabe dizer que é um livrinho muito bem editado, gostoso de manusear e ler (tem a mão do Byrata nele, outro homenageado pela feira neste ano). Boa leitura. [início 05/05/2009 - fim 06/05/2009]
"Poemórias", Humberto Gabbi Zanatta, Antonio Isaia, editora Rio das Letras (1a. edição) 2009, brochura 23x15, 67 págs., sem ISBN

quinta-feira, 28 de maio de 2009

o gol iluminado

No Rio Grande do Sul futebol é levado a sério, você não pode simplesmente ter um time e eventualmente torcer por ele, você deve manifestar seu encantamento sempre que possível e preferencialmente em voz alta. Metade dos viventes destes pagos são gremistas, metade colorados. Os dois times estão entre os mais vitoriosos e são respeitados Brasil afora. Neste ano o Internacional comemora seu centenário, pois foi fundado no dia 04 de abril de 1909. Festas mil pintaram de vermelho as cidades do Rio Grande do Sul e aqui em Santa Maria não foi diferente. Um grupo de colorados cá da cidade lançou um livro de crônicas futebolísticas neste dia de centenário. Não estive lá, santista que sou, mas soube que foi um dia especial. O Athos foi o grande capitão desta empreitada. Lembro-me bem dele perguntar-me mais de um ano atrás se fulano ou beltrano que moram no meu prédio eram colorados, pois gostaria de convidá-los para um "projeto", como ele gosta de dizer. De fato Athos descobriu esta veia de empreendedor literário, um motivador/quase editor de projetos e os livros tem saído cada vez mais bem acabados, mais bonitos e com o conteúdo mais bem trabalhado também. Ele convidou seis colorados da gema, de diferentes gerações e profissões. Cada um contribuiu com oito ou dez crônicas sempre focadas no futebol e nas passagens míticas nas quais se envolveu o Internacional nestes cem anos. Cada um deles (Athos, Zanatta, Zé Mauro, Maiquel, Tex, Pedro, Tânia) tem um estilo pessoal e uma forma específica de se expressar, mas encontramos em todos a paixão, o encantamento, o prazer de torcer, típicos de quem leva mesmo o futebol a sério. São histórias boas de se ler, embora eu perca um ou outro detalhe besta. A capa é do Elias Monteiro, muito boa por sinal. O título do livro, "O gol iluminado", é homenagem a um certo gol que eu mesmo nunca vi, o gol da vitória contra o Cruzeiro na decisão do campeonato brasileiro de 1975, feito por um outro Elias, o Figueroa. Antes que um gremista me aborreça prometo que vou ler algo sobre o grêmio e resenhar aqui (não é bom se envolver em brigas com estes irredutíveis gauleses, digo, gaúchos, seja de que time for). Bom divertimento. [início 04/04/2009 - fim 05/05/2009]
"O gol iluminado", Athos Ronaldo Miralha da Cunha, Humberto Gabbi Zanatta, José Mauro Batista, Maiquel Rosauro, Odemir Tex Junior, Pedro Brum Santos, Tânia Lopes, editora Manuzio (1a. edição) 2009, brochura 14x21, 144 págs. ISBN: 978-85-7782-061-0

quarta-feira, 27 de maio de 2009

cotidiano crônico

Diomar Konrad é um jornalista que eu gosto de ler. Ele costuma dizer que gosta de provocar, de incomodar, de tirar os amigos e inimigos do sério. E ele também gosta de não ser levado muito a sério. Nas suas crônicas a ironia é mais que uma figura de linguagem ou retórica, mas sim a própria razão de ser do texto. Mas Diomar não é escravo de um estilo só. Ele sabe ser convincente e bom de se ler mesmo nos textos menos irônicos (o que talvez seja um bom exemplo de excelência invulgar). Atualmente ele escreve crônicas para um jornal da cidade. São crônicas curtas, ocupam um terço de uma página tamanho tablóide, e que precisam ser mesmo concisas, mas boas o suficiente para já ganhar a atenção do leitor no primeiro parágrafo. Neste "Cotidiano crônico" ele selecionou pouco menos de quarenta delas produzidas nos últimos seis, sete anos. Algumas sobrevivem melhor no formato livro do que outras, que perdem um tanto do frescor que tinham quando as encontramos no jornal pela primeira vez. O livro se defende sozinho, garante boa diversão e bom material para reflexão. Gosto particularmente das crônicas onde ele mostra as contradições e as bizarrices no amor e no sexo, bem como naquelas onde ele faz resenhas críticas dos maus hábitos e auto-enganos das pessoas. O livro é uma produção quase artesanal dele mesmo, por conta disto o resultado é um tanto irregular. Talvez o livro faça por merecer o olhar e o acolhimento de um editor generoso. É dura esta vida de cronista! Parabéns Diomar, mas não vou deixar de registrar aqui que eu mesmo prefiro algo mais forte, algo como um bom e definitivo sarcasmo (pois o atual quadro político, social e econômico do Brasil é para mim medíocre demais, vulgar demais, estúpido demais, para que apenas a ironia nos conforte). [início 02/05/2009 - fim 05/05/2009]
"Cotidiano crônico", Diomar Konrad, editora Manuzio (1a. edição) 2009, brochura 14,5x21, 120 págs. sem ISBN

quinta-feira, 21 de maio de 2009

menina que brincava

Como havia gostado muito do primeiro volume da trilogia Millennium de Stieg Larsson, não esperei muito para comprar e ler este segundo volume assim que ele foi publicado. Todavia este "A menina que brincava com fogo" não me agradou da mesma forma. Se no primeiro volume a falta de ambiguidade ajudava um tanto a entender os papéis representativos da complexa sociedade sueca, neste segundo o jogo do bem contra o mal é esquemático e repetitivo demais. O primeiro capítulo é apenas um prólogo dispensável, sem conexão algum com a história principal, um tanto ao estilo dos filmes de espionagem, onde algo com muita movimentação e violência antecede a entrada dos créditos iniciais. Há também longos capítulos que servem apenas para prolongar um clímax que nunca chega e retardar o fato do leitor já estar certo de saber que a mocinha vai se safar, que a verdade virá a tona, que os maus e perversos serão desmascarados. Os personagens principais, a jovem hacker e o astuto jornalista, continuam os mesmos que deixamos ao terminar o volume anterior, apesar de terem se envolvido emocionalmente e se separado abruptamente. As coincidências e acasos abundam pelo livro, sem eles nenhuma ação poderia se desenvolver adequadamente. Um novo personagem, misterioso e com ligações políticas no alto escalão do governo, domina o livro todo, até aparecer como um demônio encarnado nos capítulos finais. Não há remissão para o sujeito. Muito do passado da jovem heroína do livro é agora explicado e justificado, mas ela não ganha muito em profundidade psicológica, como se esperaria de um personagem forte. O final da história acontece rápido demais, como se o autor estivesse cansado dos tantos desvios que fez para chegar aquele ponto. Há coisas que são irritantes: acreditar que uma mocinha possa se livrar de dois fortes motociclistas suecos, uns marginais que são típicos vikings modernos, apenas usando o fator surpresa, é mesmo inverossímel demais. Há uns erros de tradução meio bobos acho eu. A menina vai comprar bebidas em um "monopólio dos espirituosos", que eu acho ser uma tradução ruim para um trivial "loja de bebidas" e várias vezes a heroína faz menção a uma "bomba de gás lacrimogênio" que possui, mas eu acredito que se trata de um simples e funcional "spray de pimenta". Como eu não sei sueco (e a tradução foi feita a partir de uma versão francesa) jamais saberei se estou certo. Paciência. Vamos a ver como Stieg Larsson termina a trilogia. Se o mundo inventado por ele for mesmo esquemático como eu imagino devemos no terceiro volume ser apresentados a história pregressa do herói jornalista e seus sucessos. Veremos. [início 19/04/2009 - fim 04/05/2009]
"A menina que brincava com fogo - Millennium 2", Stieg Larsson, tradução de Dorothée de Bruchard, editora Companhia das Letras (1a. edição) 2009, brochura 16x23, 607 págs. ISBN: 978-85-359-1422-1

segunda-feira, 18 de maio de 2009

a frase do doutor

"A frase do doutor Raimundo" é um livro curioso, pois nos contos todos os quatro autores contribuem com uma pequena parte. O livro é curto, pouco menos de cem páginas. Cada um dos autores começa e termina ao menos dois contos (o número de combinações possíveis é vinte e quatro, mas eles se contentaram em produzir dez). Um destes contos coletivos, "Relíquias de um tempo remoto", ganhou o primeiro lugar de um concurso literário em Bento Gonçalves no ano passado. Talvez motivados pela boa recepção eles decidiram produzir outros e encontraram o porto seguro de um editor, que os acolheu e publicou. O livro ficou bonito (apesar do Athos não ter gostado da capa). Alguns dos contos envolvem soluções algo fantásticas, passagens oníricas, narrativas mágicas, mas há também vários onde o pano de fundo é a crua política brasileira dos anos da ditadura militar. Em outros encontramos o amor e o sexo envolvendo as pessoas, sem medo e sem temor. As coisas da vida no Rio Grande do Sul, notadamente a geografia e a história de Santa Maria, estão sempre presentes. Algumas vezes as histórias caminham de um autor a outro sem que todas as possibilidades apresentadas se encaixem à perfeição, nem da melhor forma (a meu juízo) mas em vários dos contos observa-se um equilíbrio e ritmo bastante razoáveis, como se um único autor os tivesse produzido. Trata-se de um bom livro onde se aprende e se delicia um tanto da voz narrativa de cada um deles, indivíduos senhores do ofício solitário da escrita, mas também amigos que se divertem juntos com um brinquedo novo. [início 30/04/2009 - fim 03/05/2009]
"A frase do doutor Raimundo", Antônio Cândido de Azambuja Ribeiro, Athos Ronaldo Miralha da Cunha, Orlando Fonseca, Tânia Lopes, editora Movimento (1a. edição) 2009, brochura 14x21, 80 págs. ISBN: 978-85-7195-138-9

sábado, 9 de maio de 2009

leite derramado

"Leite derramado" é um livro de Chico Buarque que se lê sem esforço algum em um final de tarde calmo. É um livro feito para ser fácil de ler, que não exige mesmo nada do leitor (claro, exige que o sujeito seja alfabetizado e opere razoavelmente com o português, mas isto quase qualquer um faz). É um livro bem escrito, com sujeitos, verbos e predicados no lugar, miríades de adjetivos esparramados pelo texto, colorindo-o, que usa muitas palavras quase em desuso, garimpadas por Chico Buarque no Houaiss, no Aurélio ou no Aulete, repleto de metáforas ao gosto do leitor grato às idéias prontas. Mas a idéia básica do livro não é original: um sujeito entrevado em uma cama de hospital, que ora delira, ora pensa, ora relembra cousas de sua história e da história de sua família. Quem já não leu um livro com este mote? A estrutura narrativa não é linear, mas há uma generosa simetria no livro. O sujeito/narrador/velhinho no hospital fala de sucessos que vão de seu tetravô até seu suposto tetraneto. Sua história serve como metáfora para a história triste do Brasil, desde sempre assombrado por auto-enganos, decadência atávica, senso de realidade defeituoso, infestado por corruptos e apedeutas. O fato da história não ser contada seguindo uma ordem temporal facilita a vida mesmo do mais dispersivo e desleixado dos leitores. Mas, como seria de se esperar, nem de longe Chico Buarque consegue resumir 600 anos de história de Portugal e do Brasil em menos de 200 páginas. O fato do narrador moribundo ser um exemplo caricato de uma elite decadente apenas ecoa a cantilena esquerdista de sempre, que prefere transferir as mazelas brasileiras à história ao invés de identificá-la nos muitos arautos do atraso que estão bem vivos na sociedade hoje em dia. Quem se dignar a ler ao menos um jornal por semana os identifica rapidamente, mas esta é outra história. O artifício de usar um nome e suas variações para indicar a maior parte dos personagens facilita as coisas, pois o que é afirmado de um poderia ser cair na cota de outros, o que inferimos de um trecho pode ser adjudicado à outro (e você já deve ter lido livros onde isto acontece.) Os fatos históricos distribuídos no texto apenas servem para ajudar o leitor a situar-se rapidamente, não há juízo de valor ou tentativa de compreensão do significado das passagens. Na orelha do livro uma apresentação de Leyla Perone-Moisés argumenta favoravelmente ao livro lembrando exatamente sua brevidade e concisão, como se escrever algo com mais complexidade e estofo fosse mesmo um demérito. Certamente este livro ganhará prêmios e será muito citado, mas nem de longe é um livro que eu ache valer o esforço e o tempo necessários a leitura, apesar de serem ambos mínimos. Vou voltar logo ao Javier Marías e sua prosa poderosa. Much more suitable!, como diria Lord Marchmain. [início 25/04/2009 - fim 28/04/2009]
"Leite derramado", Chico Buarque, editora Companhia das Letras (1a. edição) 2009, brochura 15,5x22,5, 112 págs. ISBN: 978-85-359-1411-5

sexta-feira, 8 de maio de 2009

mañana en la batalla

Segundo o próprio Javier Marías as boas críticas e o estrondoso sucesso comercial de "Corazón tan blanco" o fez imediatamente envolver-se em um novo projeto literário. Ele não queria ficar conhecido como o autor do livro tal e que sua obra ficasse eclipsada por uma recepeção tão boa de um único livro. O resultado desta decisão é um livro ainda melhor, que li como o autor deseja, ato contínuo à leitura do anterior. "Mañana en la batalla piensa en mí" tem um início cativante. Na estival Madrid dos anos 1990 um sujeito se vê na casa de uma mulher que ele conhece pouco, apenas o suficiente para se fazer seduzir. O marido desta mulher está viajando, na Inglaterra, e o filho pequeno deles é colocado para dormir. Após o jantar e o vinho e quando já estão nas preliminares do sexo eis que a mulher tem um mal súbito e morre. O sujeito não sabe bem o que fazer, sabe vagamente o nome do marido da mulher e tampouco sabe onde ele está hospedado em Londres. Acaba descobrindo estas duas informações, mas não consegue prontamente transmitir para o marido a importante informação que tem, nem tampouco consegue ligar para a polícia. Sai furtivamente do apartamento. A partir daí Javier Marías apresenta como um sujeito fica obcecado em saber o "final da história", ou seja, como todos os demais com quem a mulher se relacionava receberam a notícia de sua morte e de como reagiram a ela. Ele vive de escrever textos para terceiros. É uma espécie de "ghost writer" para políticos iletrados, dramaturgos preguiçosos, ensaístas sem imaginação. Consegue se aproximar profissionalmente do pai da mulher morta, ao preparar um discurso para uma ocasião importante no parlamento europeu. A partir dele acaba se envolvendo com a irmã da morta. De fato ele flerta com ela antes dela lembrar-se dele. Afinal ambos relembram ter se cruzado quando ele saía do apartamento naquela madrugada em que a mulher morreu. Através dela acaba contando sua história para o viúvo, o sujeito que havia viajado à Londres naquela noite. Os grandes temas de Marías estão todos neste livro: a preocupação com os usos da língua (para esclarecer e para ocultar); os desvios por temas que parecem triviais, congelando a trama; as citações de filmes americanos, mas sempre de filmes obscuros e não comerciais; a presença seminal de Shakespeare permeando o texto; a questão da traição e da lealdade (a si mesmo e aos outros). O que impressiona no texto de Marías é sua capacidade de antecipar possibilidades e nos surpreender sempre. Se a história que o narrador conta já é impactante, a história do marido da morta é ainda mais surreal (mas ainda assim verossímil). Na verdade é o marido que quer se purgar contando a sua história, mais de saber como afinal o sujeito se envolveu com sua mulher e como a viu morrer. Uma citação ao início da peça Henry V de Shakespeare parece ser o ponto de onde todo o romance surge. Trata-se daquela terrível passagem em que o Henry V ignora seu antigo companheiro de badernas Falstaff (na época em que era somente o príncipe Hal) dizendo: "I know thee not, old man. Fall to thy prayers. How ill white hairs become a fool and jester!" Agora é oficial. Vou ler todos os Javier Marías que encontrar. Este sujeito sabe como ninguém contar uma boa história. [início 13/04/2009 - fim 27/04/2009]
"Mañana en la batalla piensa en mí", Javier Marías, ediciones Debolsillo (1a. edição) 2007, brochura 13x19, 368 págs. ISBN: 978-987-566-255-1