sábado, 2 de junho de 2012

formas do nada

Noutro dia, conversando com amigos em uma mesa de café improvisada na praça, em meio a algazarra de uma feira do livro morna e previsível, ouvi um punhado de histórias e reconheci aborrecido que o único pessimista ali era eu. Entre um sorriso hipócrita e o sarcasmo agressivo me perguntava: de onde tirar tal encantamento, alegria de viver, credulidade? Serão eles atores mais habilidosos que eu ou confrades de uma seita que alcançaram uma ilusão comum, porém satisfatória? Demorei um pouco para me recompor. Foi quando lembrei umas linhas que tinha lido já no primeiro dos poemas deste "Formas do nada", de Paulo Henriques Britto: "Ninguém busca a dor, e sim seu oposto, e todo consolo é metalinguístico". Ainda há pessimistas e hiper-realistas neste mundo, pensei, o pão que realmente nos alimenta também pode ser acre. Li e reli este livro várias vezes. É um volume pequeno, setenta e poucas páginas, mas cada poema é um assombro. São tantos os venenos, as aparições da morte, as frases que lembram da irrelevância da vida. Tudo isso está mesmo no livro ou em mim, no filtro de minha susceptibilidade? Ou será que o livro é o produto de alguém que transformou uma depressão silenciosa em arte fina? Em abril falei sobre o livro com o Galindo, il miglior fabbro, que conhece o Britto como poucos. Depois foi com a Maria Luiza, que recomendou-me o livro com entusiasmo. Já a Helga leu uns poucos poemas, mas parou logo, pois pensou haver algo de tóxico neles. Rimos um tanto quando lembrei do venerável Jorge de Burgos se envenenando ao folhear as páginas contaminadas da Poética de Aristótoles. A cada releitura encontrei mais vigor e potência nestes poemas. Paulo Henriques Britto fala das dificuldades do ofício: "Originalidade não tem vez neste mundo, nem tempo, nem lugar. O que você fizer não muda coisa alguma."; é irônico: "A realidade é um calhamaço insuportável? Tragam-me então resumos."; sarcástico: "O rancor é como um cão, melhor amigo do homem."; cruel: "Ao corpo, masmorra sem porta, pouco importa que você morra."; ainda mais que cruel: "Desista: não vai dar certo. O mundo é o mesmo de sempre, desejo é uma coisa cega."; tradutor de si mesmo: "This new one sags like an empty purse, a bat of sorts, all clammy wings and squeals. And yet it flies. We could have done far worse."; e no último dos poemas ele termina dizendo: "- pois todo poema é murmúrio frente ao amor e sua fúria."  Cada livro de um autor forte tem sua lógica interna. E cada grande autor escreve um mesmo livro, lapida cada vez com mais precisão e esmero uma pedra bruta, arrancando dela cousas progressivamente mais preciosas e belas. Talvez seja esta espécie de proximidade com a perfeição que torne as soluções dele (as sínteses potentes que alcança) enebriantes como os vapores que inspiravam as Sibilas gregas nas suas previsões. É desta forma que Paulo Henriques Britto nos obriga a pensar, a escavar fundo em nossa sensibilidade. Muito bom mesmo este livro. Mas sigamos (crânios recheados de palha, ai de nós), sigamos. [início 16/04/2012 - fim 01/06/2012]
"Formas do nada", Paulo Henriques Britto, São Paulo: editora Companhia das letras, 1a. edição (2012), brochura 13,5x21 cm, 75 págs. ISBN: 978-84-359-2053-6

Um comentário:

Clara Lopez disse...

Olá, já li seu post há algum tempo, gostei dele e de vc ter gostado do livro. Estou tentando criar forças para escrever sobre o PHB, talvez um ensaio mesmo, não sei, incluindo esse Formas do nada, que eu achei difícil de avaliar, tem o tom geral do pessimismo e do niilismo que está presente na obra dele, mas há também uma leveza extrema com relação à forma, acho que há uma espécie de 'contaminação' do poema com as formas voláteis e fáceis das midias sociais - e essa seria apenas uma das 'formas do nada', com a qual a poesia mantém constante diálogo. Há os temas 'do nada', do vazio, do sem sentido, em versos que dificilmente abandonamos, tristes que só. Enfim, vou me empenhar comigo mesma pra tentar escrever e entender esse grande poeta.
Um abraço,
Clara