segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

1q84 livro3

Com esse volume Haruki Murakami termina sua trilogia "1Q84". Já falei um tanto sobre esse longo romance nos registros do livro1 e do livro2. Não vou contar como terminam os sucessos de Tengo e Aomane pois obviamente isso estragaria boa parte do prazer de um eventual leitor da trilogia. Mas posso deixar aqui alguns comentários ligeiros (mas de qualquer forma, por favor, pare aqui caso você não goste de spoilers). Diferentemente dos dois livros anteriores agora não são mais capítulos alternados dedicados a Aomane e a Tengo. Ushikawa, o persistente investigador particular contratado pela seita religiosa cujo líder Aomane matou no segundo livro (e sobre o qual Tengo revelou segredos ao reescrever a história da jovem Fukaeri no primeiro livro) agora toma um terço da narrativa para contar como persegue os dois. Associar a aventura de nossa vida (nós leitores do livro, no mundo contemporâneo real) a um mundo paralelo no qual Aomane, Tengo e Ushikawa participam de um jogo cujas regras são desconhecidas e também mutáveis ao mesmo tempo parece ser a metáfora principal do livro. O acaso, as surpresas, os desdobramentos dos atos simples que os protagonistas da história de Murakami vivem espelham nossa vida, nossa experiência com a magia e o absurdo das cousas. É pouco sofisticado para mim, mas paciência, Murakami é o senhor da história que inventou. O que me irrita mais no livro são as repetições exaustivas de cada acontecimento. Todos os personagens, desde o mais simplório e inútil até o narrador mais do que onisciente, repetem ao leitor cada causo importante do livro. É chato. As dificuldades de Aomane em ler "Em busca do tempo perdido", de Proust, durante as semanas em que fica incomunicável em seu apartamento são risíveis (pois no livro de Proust o leitor tem que se esforçar um bocado para entender a trama e no livro de Murakami o excesso de fantasia só serve para esconder o quão simples é a história que se narra. Outra coisa que não gosto no livro são as descrições com "merchandise": o chopp é Calsberg; a whiskey é Cutty Sark; o posto de gasolina é Esso; a câmara fotográfica é Minolta; o cigarro é Seven Eleven , a empresa é NHK; o distrito é Kôenji; o bairro é Jiyûgaoka; a estação de trem é Shinjuku. Paciência. Enfim, "1Q84" me parece uma versão um tanto mais adulta de "O mundo de Sofia" (de Jostein Gaarder), talvez um "O mundo de Sofia" misturado com aquele cristianismo alternativo (hipster?) de livros como "O código Da Vinci" (de Dan Brown) por exemplo. Claro que vou continuar lendo coisas de Murakami (a Ana Marques já me disse que gostou de "Kafka à Beira-mar", o Olavo falou bem de "Norwegian Wood" e o Parreira disse que gostou dos dois). Mas agora é tempo de viajar. Ler o Hughes, o Graves, o Nabokov. E depois contar sobre as maravilhas de Dublin, Madrid, Pamplona. Veremos.  
[início: 29/12/2014 - 14/01/2015]
"1Q84, livro3 (outubro-dezembro)", Haruki Murakami, tradução de Lica Hashimoto, Rio de Janeiro: editora Objetiva / Grupo Prisa, 1a. edição (2013), brochura 15x23,5 cm., 469 págs., ISBN: 978-85-7962-264-9 [edição original: 1Q84 ((いちきゅうはちよん) (Tokyo: Shinchosha Publishing Co) 2010]

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

giacomo joyce (over again)

Hoje se comemora o dia em que James Joyce nasceu (na Brighton Square de Rathgar, um subúrbio de Dublin, em 1882). Em sua homenagem resolvi reler o "Giacomo Joyce" (numa versão espanhola desta vez, que encontrei ano passado na livraria La Central, em Madrid, e trouxe comigo nesta nova viagem, sobre a qual contarei depois). Li esse livro pela primeira vez numa tradução de Paulo Leminski publicada pela Brasiliense, depois outra tradução, assinada por José Antônio Arantes, publicada pela Iluminuras, e mais recentemente uma terceira, assinada por Roberto Schmitt-Prym. Na verdade reencontrei e reli as mirradas páginas desse livro tantas e tantas vezes, sempre com alegria e espanto. Trata-se de uma pequena jóia, publicada postumamente. Richard Elmann, o conhecido biógrafo de Joyce, afirmou certa vez que "Giacomo Joyce" é "uma tentativa de educação sentimental de uma jovem italiana". Mas Joyce nunca fez chegar até sua amada de ocasião (Amalia Popper, uma de suas alunas de inglês em Trieste), essas poucas páginas de aforismos, reflexões, poemas em prosa, escritas em 1914 e somente encontradas por seu irmão Stanislaus em 1968, muito anos após sua morte. Nessa edição, além da tradução do texto encontramos prólogo muito bem escrito, assinado por Liliana Herr. "Giacomo Joyce" é sim para se ler com calma, saboreando as imagens, os sons que são pelo texto inspirados, aproveitando ao máximo a concisão e os efeitos provocados pela visão de uma bela e jovem mulher sobre um homem cuja imaginação não conhecia limites.
[início - fim: 02/02/2015]
"Giacomo Joyce", James Joyce, tradução de Micaela Ortelli, Buenos Aires: Ediciones Godot Argentina, 1a. edição (2013), brochura 10,5x12 cm., 80 págs., ISBN: 978-987-1489-68-8-1[edição original: Giacomo Joyce (Londres: Faber and Faber) 1968]

domingo, 1 de fevereiro de 2015

cuecas por cima das calças

Depois de ler os divertidos "Jesus" e "Dúvidas cruéis de um idiota" encontrei de Rafael Koff esse "Cuecas por cima das calças". São tirinhas bem humoradas que fazem paródia do universo dos super heróis e super vilões. Não importa se o herói ou o vilão pertence a  Marvel Comics (leia-se Walt Disney Company), a DC Comics (leia-se Time Warner) ou qualquer outro grupo editorial do gênero, Rafael sabe explorar ao máximo o ridículo e absurdo das aventuras desses personagens tão icônicos da cultura pop. Além de diversão ligeira e descompromissada os cartuns oferecem também alguma sociologia selvagem, como por exemplo quando apresenta versões das roupas dos super heróis caso as histórias em quadrinhos tivessem as mulheres como público alvo (óbvio que para Rafael as super mulheres passam a usar uniformes bem comportados e os super homens tangas minúsculas). Quase nenhum dos cartuns poderia ser publicado em um mundo governado pelas legiões de defensores do politicamente correto que brotaram de algum monturo nos Estados Unidos tempos atrás e vicejam hoje alegremente mundo afora. Felizmente no Brasil ainda há espaço para o humor (mas eu, pessimista que sou, ainda acho que os canalhas desse glorioso governo federal que nos desgoverna tão completamente ainda implantarão censura prévia nesse desgraçado país). Enfim, aproveitem enquanto isso for possível. Cabe lembrar que os livros independentes do Rafael podem ser adquiridos através do site Wix. Vale.
[início - fim: 04/01/2015]
"Cuecas por cima das calças", Rafael Koff, editora Manuzio, 1a. edição (2014), brochura 21x15 cm., 98 págs., sem ISBN

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

dúvidas cruéis de um idiota

No último sábado encontrei os Koff (Rogério e Rafael) e uma das Fleig (a Lúcia) num almoço divertido (e recheado de surpresas). Do Rafael já havia lido "Jesus", uma divertida história em quadrinhos que não é nada lisonjeira com o personagem bíblico. "Jesus" é antigo, de 2009 e demonstra (ainda mais veementemente agora, após o massacre dos cartunistas do jornal satírico francês Charlie Hebdo) que o livre e completo humor sempre será uma das ferramentas mais eficazes no processo de libertar qualquer tipo de sujeito crente ou obcecado da escravidão mental em que se encontra. Seus livros independentes de humor - que podem ser adquiridos através do site Wix - foram originalmente produzidos através de "crowdfunding", ou seja, financiamento coletivo. "Dúvidas cruéis de um idiota" é de 2014 e muito menos provocador que "Jesus", mas tem lá sua boa cota de sarcasmo e escatologia. Trata-se de noventa e um cartuns e aforismos bem humorados, que apostam sempre no estranhamento provocado por uma premissa bizarra e ilógica (como por exemplo: "Vampiros não precisariam fazer o teste de HIV em suas possíveis vítimas?", "Se eu tenho filhos gêmeos posso carregar a foto de só um deles na carteira", "Se um cachorro policial não recolhe seu próprio cocô da rua ele deve se aplicar uma multa?" ou "Os porcos se sentem mal quando precisam tirar dinheiro do cofrinho?". As ilustrações reforçam o humor do aforismo e a maluquice das dúvidas e/ou questionamentos. Ainda acho que ele deveria investir num ISBN para enfrentar a guerra sem quartel do mercado literário brasileiro, mas ele argumenta que "as vendas diretas estão indo muito bem, obrigado". Haverá mais livrinhos do Koff por aqui. Vale.
[início - fim: 15/12/2014]
"Dúvidas cruéis de um idiota", Rafael Koff, editora Manuzio, 1a. edição (2014), brochura 21x15 cm., 98 págs., sem ISBN

domingo, 25 de janeiro de 2015

1q84 livro2

Acho que é o caso de avisar o eventual leitor deste registro que há umas tantas informações sobre o enredo no que se seguirá abaixo. Nada muito fundamental, mas num livro que é basicamente um thriller de suspense, bem esquemático e previsível, antecipar as surpresas que o autor oferece ao leitor não poderá ser a mim debitado caso esse eventual leitor continuar a partir daqui. Bueno. Os sucessos do primeiro livro eu comentei no registro anterior. No segundo volume de "1Q84" Haruki Murakami continua sua narrativa das aventuras simétricas de Aomane e Tengo em capítulos alternados. O leitor já sabe que os dois têm uma ligação antiga, da infância, e de certa forma são solitários e idealizam suas relações afetivas na esperança de um dia se encontrarem, muito embora só saibam um do outro o nome próprio. As duas histórias ficam um bocado mais complexas. A atividade ilícita de Aomane, ser uma assassina de indivíduos envolvidos em maus tratos às mulheres e a atividade ilícita de Tengo, ser o ghost writer de um romance, geram desdobramentos com os quais ambos não contavam. A última pessoa que Aomane deve matar é o líder da seita religiosa sobre a qual trata o livro escrito pela menina Fukaeri (livro que foi reescrito/adaptado por Tengo e alcançou sucesso absoluto de vendas). Um terceiro personagem importante surge na trama, uma espécie de detetive particular, chamado Ushikawa, sujeito que trabalha para a seita religiosa e passa seus dias a tentar descobrir detalhes da vida de Aomane e Tengo. Nesse segundo volume "1Q84" torna-se francamente um romance fantástico, com um mundo paralelo que seletivamente somente alguns percebem, um balaio aborrecido de citações que lembram livros de auto-ajuda, metáforas e associações amalucadas do que é narrado com a sociedade contemporânea (Murakami faz seu livro acontecer em 1984 mas ele escreve em 2009/2010, então já sabe o quanto das perspectivas e ilusões daquela época já se confirmaram ou se mostraram erros terríveis). O volume termina como em todo romance que segue os passos inevitáveis das jornadas de herói em suas segundas partes, ou seja, no auge das crises e provações pelas quais passam seus personagens: Tengo parte em busca do pai que ele abandonou e de quem se esqueceu; Aomane tenta refazer sua trajetória, voltar no tempo, experimenta a idéia do suicídio como forma de redenção. Argh! Em breve escrevo o registro de leitura da última parte de "1Q84". Paciência. 
[início: 26/12/2014 - 30/12/2014]
"1Q84, livro2 (julho-setembro)", Haruki Murakami, tradução de Lica Hashimoto, Rio de Janeiro: editora Objetiva / Grupo Prisa, 1a. edição (2013), brochura 15x23,5 cm., 373 págs., ISBN: 978-85-7962-205-2 [edição original: 1Q84 ((いちきゅうはちよん) (Tokyo: Shinchosha Publishing Co) 2009]

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

1q84 livro1

Após ter lido de Haruki Murakami "Do que eu falo quando eu falo de corrida" e  "O incolor Tsukura Tazaki e seus anos de peregrinação" decidi enfrentar seu livro mais ambicioso, 1Q84, publicado em três partes entre 2009 e 2010. O título explicita uma brincadeira fonética, pois o número 9 em japonês é pronunciado "kiú", que é mais ou menos o som da letra Q em inglês. O livro se passa em 1984, de abril a dezembro, ou melhor, esse primeiro volume corresponde aos meses de abril a junho, sendo que os outros dois volumes seguem cronologicamente os meses de 1984 até dezembro. Uma associação com 1984, a admirável distopia de George Orwell é inevitável, mas o mundo fantástico criado por Murakami é bem menos assustador e verossímil. Logo veremos. O que é narrado em capítulos alternados corresponde as vidas paralelas de dois protagonistas do livro, Aomane e Tengo. Aomane é uma garota  que trabalha com fisioterapia e artes marciais, mas que mantém uma outra atividade profissional em segredo. Tengo tem mais ou menos a mesma idade que Aomane e também tem uma atividade profissional pública (é professor de matemática no nível médio e tem ambições literárias) e, a exemplo dela, se envolve em um projeto - no caso dele literário - secreto. Murakami sabe contar sua história e rapidamente envolve o leitor em uma trama de mistério e aventura. Seus personagens são solitários, quase anestesiados por convenções e regras de conduta. Ele mescla no livro partes algo eruditas, reflexões filosóficas, digressões sobre música, literatura, arte e economia com descrições mundanas, referências a cultura pop e generosas cenas com as proezas sexuais de seus personagens. Já li os dois outros volumes e não quero antecipar o desfecho do livro (nem poluir demasiadamente esse registro com spoilers). A forma como ele apresenta o fluxo de consciência de seus personagens se destaca, mas a narrativa não me empolga muito (por mais fantasia, metáforas inteligentes e invenção que ele acrescenta ao livro). Bueno. Em breve conto mais sobre os sucessos de Aomane e Tengo.
[início: 19/12/2014 - 23/12/2014]
"1Q84, livro1 (abril-junho)", Haruki Murakami, tradução de Lica Hashimoto, Rio de Janeiro: editora Objetiva / Grupo Prisa, 1a. edição (2012), brochura 15x23,5 cm., 430 págs., ISBN: 978-85-7962-180-2 [edição original: 1Q84 ((いちきゅうはちよん) (Tokyo: Shinchosha Publishing Co) 2009]

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

e se?

Randall Munroe é um físico que encontrou formas divertidas (e conceitualmente corretas) de falar sobre ciência. Ele é o criador da webcomic xkcd (que ele define como histórias em quadrinhos que mesclam romance, sarcasmo, matemática e linguagem). Suas discussões sobre ciência e matemática utilizam ilustrações com stick figures (aqueles desenhos simples de figuras humanas, os homens palitos), são repletos de referências a cultura pop e fazem muito sucesso com o público universitário jovem. Em "E se?" Randall reúne 56 das respostas mais inventivas e populares que publicou em seu site, além de uma coleção das perguntas ainda mais bizarras (e irrespondíveis) que recebeu. O tom é sempre bem humorado, mas suas respostas são realmente rigorosas (apesar dele fazer associações amalucadas demais, associações que nem sempre são as mais produtivas cientificamente falando). As respostas tratam de questões de física, química, informática, engenharia, geografia, biologia e estatística. Quase sempre ele especula sobre uma situação catastrófica, destruidora, fatal (para o homo sapiens sapiens, a terra ou o universo). Gostei de várias delas, mas tem algumas que são aborrecidas o suficiente para afastar um sujeito que não tenha muita curiosidade científica. Enfim, não é um livro para se ler de capa a capa, de uma vez só. O leitor pode experimentar o tipo de respostas de Randall na página what if do xkcd. E bom divertimento.
[início: 13/11/2014 - 05/12/2014]
"E se? Respostas científicas para perguntas absurdas", Randall Munroe, tradução de Érico Assis, São Paulo: Companhia das Letras (editora Schwarcz),1a. edição (2014), brochura 18,5x23 cm., 325 págs., ISBN: 978-85-359-2483-1 [edição original: What if? - Serious Answers to Absurd Hypothetical Questions (Boston/USA: Houghton Mifflin Harcourt) 2014]

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

anjo negro

Após ter lido o bom "Afirma Pereira" decidi procurar outros livros de Antonio Tabucchi. Encontrei esse "Anjo negro" num garimpo por Porto Alegre, acompanhado pela feliz e quase diáfana Natália (como foi bom aquele dia de aventuras). Bueno. Nos seis contos reunidos neste livro um narrador conta algo sobre uma pessoa (ou cousa, ou situação) essencialmente má ou perversa. Talvez "L'angelo nero" seja em italiano uma metáfora para a depressão (como "Black dogs" o é em inglês). Não sei. São histórias algo fantásticas, inquietantes, onde pouco importa seu desfecho quando comparadas com o clima etéreo e intimista criado para ser o habitat dos personagens inventados por Tabucchi. Em "Vozes trazidas por alguma coisa, impossível dizer o quê" um sujeito ouve frases que pela sincronicidade com seus pensamentos o faz perseguir a idéia louca de que um amigo seu - já morto há muitos anos - o espera no alto de uma torre e lá lhe entregará os segredos de como escrever um livro. Em "Noite, mar ou distância" um grupo de jovens participam de uma tertúlia literária com um escritor mais velho. Ao saírem do lugar são abordados por agentes da polícia secreta (de Salazar, no Portugal de 1969) e passam a ser agredidos, humilhados e ameaçados. Uma das garotas agredidas volta para a casa do sujeito. Em "Boi, boi, boi, boi da cara preta..." uma jovem escritora rouba um livro de um sujeito e ganha alguma fama. Ao ir receber um prêmio literário ela flerta com um velho senhor num trem, uma espécie de anjo vingador. Em "O bater das asas de uma borboleta em Nova York pode provocar um tufão em Pequim?" um sujeito é interrogado por um policial que sabe todos os detalhes de um crime que cometeu há muitos anos. O policial parece mais interessado em fazer com que o sujeito sinta culpa e se arrependa de seu crime do que efetivamente condená-lo. Em "A truta que pula entre as pedras lembra-me da sua vida" um velho escritor devaneia sobre duas mulheres com quem se envolveu quarenta anos antes. Ao ser acordado para o jantar e sair do transe propõe a uma jovem escritora - que é a única pessoa que o visita - entregar-lhe suas poesias inéditas para que sejam publicadas aos poucos, por vários anos após sua morte, como uma forma de manter vivo o interesse do público por sua obra. Na última história (e que Tabucchi afirma numa curta nota ter sido o que restou de um projeto baldado de um romance) um sujeito lembra dos atos algo perversos que pratica em sua infância: caçar de ratos, esconder coisas, roubar a correspondência dos vizinhos, ouvir conversas que a mãe conta aos outros. Lembra também das cartas que escrevia para seu herói infantil, o capitão Nemo, personagem de Júlio Verne, como se essas cartas o mantivessem congelado naquela idade, naquele mundo. Interessante. 
[início: 14/12/2014 - fim: 16/12/2014]
"Anjo negro", Antonio Tabucchi, tradução de Mário Fondelli, Rio de Janeiro: editora Rocco (1a. edição) 1994, brochura 14x21 cm., 145 págs., ISBN: 85-325-0466-3 [edição original: L'angelo nero (Milano: Feltrinelli) 1991]

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

pasta senza vino

"Pasta senza vino" é um romance honesto e bem escrito. Tem algo de esquemático, com sua cronologia rígida, algumas coincidências cósmicas e seus capítulos curtos, folhetinescos, mas tem sim o frescor de uma proposta realmente digna e agradável de ler. Lembra muito o despojamento daquela série de livros do inglês Peter Mayle, criador de histórias que se passam no sul da França ("Toujours Provence", "Hotel Pastis" e "Chasing Cézanne" por exemplo). Esses livros fizeram muito sucesso no início dos anos 1990 por mesclar nossa curiosidade pelo exotismo de uma região com o atávico desejo de transformações ou viagens que todos experimentamos em algum momento da vida (e cabe dizer que o autor de "Pasta senza vino", Eduardo Krause, a exemplo de Peter Mayle, é publicitário). Bueno. Similaridades à parte, "Pasta senza vino" é um romance que sabe se defender sozinho. Acompanhamos a história de Antonello Bianchi, um jovem envolvido com o mundo da gastronomia desde a infância e que trabalha atraindo turistas para um restaurante numa das praças centrais de Firenze. Filho de um italiano (derrotado pelo álcool) e de uma brasileira (já morta) Antonello é um hedonista típico, que vive seus dias apenas pelo prazer em seduzir turistas estrangeiras, administrar eventuais conflitos entre suas namoradas italianas, torcer para seu time de futebol e trabalhar pouco. O leitor já sabe ao final do primeiro capítulo que tornar-se um cozinheiro talentoso é o destino de Antonello porém Krause alcança manter por todo o livro nossa curiosidade pelos detalhes da trajetória de seu personagem. Por todo o livro Krause mistura ao português frases e palavras em italiano (um tipo de registro que poderia soar afetado e artificial, como acontece de fato quando alguém volta de uma viagem - mesmo curta - e passa a se utilizar de termos numa língua estrangeira qualquer na esperança daquele exotismo tornar suas aventuras e experiências mais críveis e descoladas). De qualquer forma Krause consegue fugir deste risco. Os vapores das receitas sutilmente distribuídas pelo livro, receitas que os personagens provam ou preparam, parecem sempre se metamorfosear, de palavras em imagens, de imagens na vontade de prepararmos nós mesmos algo diferente para comer ao terminar a leitura. Vamos a ver qual será a próxima aventura literária deste curioso escritor.
[início: 08/12/2014 - fim: 09/12/2014]
"Pasta senza vino", Eduardo Krause, Porto Alegre: Terceiro Selo (editora Dublinense), 1a. edição (2014), brochura 14x21 cm., 288 págs., ISBN: 978-85-68076-02-6