quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

esaú e jacó

Assim que eu terminei o livro anterior, de Natsume Soseki, resolvi reler um Machado de Assis para checar se haviam mesmo semelhanças entre eles. Escolhi o "Esaú e Jacó", que a bem da verdade eu não estou certo de ter lido alguma vez. É um texto ligeiro. Lê-se com um sorriso armado no rosto e não há nada que dificulte a vida do leitor (elipses, monólogos interiores intrincados, mudanças de vozes rápidas), mas tem seu vigor e é irônico na medida certa. Claro, há um belo uso de uma estrutura narrativa onde quem conta a história (o autor imaginário inventado por Machado de Assis) trata a si mesmo quase sempre na terceira pessoa e digressa sobre tudo a seu alcance, senhor do universo do romance como é de fato. Ele abusa da metalinguagem, sempre dialogando com o leitor e antecipando passagens futuras do romance. Trata-se claro de um poderoso Machado de Assis, il miglior fabbro. Os personagens principais são gêmeos que discordam na vida em quase tudo, menos no amor por uma moça, chamada Flora. Mesmo após sua morte as diferenças entre os dois continuam marcantes (em que pese o desejo da mãe em vê-los pacificados) e provavelmente, pois o romance se encerra neste ponto, continuarão pela vida deles afora. A mãe dos garotos consultou uma vidente quando do nascimento deles e acredita na promessa de um futuro de glória para ambos. Um velho diplomata (o Conselheiro Aires, personagem que dá nome ao último romance de Machado de Assis) acompanha analiticamente as venturas dos dois irmãos, ora aconselhando o pai dos rapazes, ora ouvindo a moça dividida entre os dois, ora refletindo sobre os sucessos da época (as semanas que antecedem a proclamação da república no Brasil, em 1889). Os outros personagens são acessórios: o pai da moça é um típico político brasileiro, que muda de posição política ao ritmo das mudanças de poder; os pais dos gêmeos são monarquistas alienados, que pouco entendem o que se está a produzir nos estertores de um império dos trópicos claramente anacrônico; alguns personagens aparecem para demonstar como certos períodos históricos permitem ascenção social rápida, mudanças de classe e de códigos morais, como o dinheiro pode trocar de mãos rapidamente. Um romance de Machado de Assis sempre ensina algo para o leitor. [início 08/01/2009 - fim 09/01/2009]
"Esaú e Jacó", Machado de Assis, editora Nova Fronteira (1a. edição) 1982, brochura 14x21, 292 págs. ISBN: 85-209-0959-0

Um comentário:

Tempestade Interior disse...

Bah, sempre pensei que esse livro era como "Dom Casmurro" (Que detestei; não pela linguagem, mas pelo enredo)mas pelo jeito é muito interessante, parecido com "Tambores Silenciosos" de Guimarães Rosa. Pela história ter pontos políticos e tratar sobre um determinado período histórico que o Brasil vivenciou.
Pelo que tu relatou, tem um ponto em comum também com "A missa do galo" onde trata sobre a incredulidade de videntes, não sei se é o caso em "Esaú e Jacó" , mas de qualquer forma são temas em comum.

Adorei teu blog, sei que tu é da Física da UFSM e não esperava que tu gostasse de ler outras coisas além das exatas. Achei fantástico teus textos!

Muito tri. Parabéns