sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

nova ortografia

Em 1990 foi assinado um tratado internacional entre os países que têm o português como língua oficial. Este tratado ganhou o nome de Acordo Ortográfico (da língua portuguesa) e pretende instituir uma ortografia oficial única da língua e com isso dar maior prestígio internacional à ela. Pelos termos do tratado a partir do momento em que três países o aprovassem ele entraria em vigor automaticamente e isto aconteceu em 2006 (após as aprovações de Brasil - 1995, Cabo Verde - 2004, São Tomé e Príncipe - 2006). Mais recentemente (2008) o tratado foi aprovado por Portugal, cujo governo considerou aplicar a norma apenas após um período de 6 anos. No Brasil decidiu-se que desde o início de 2009 duas ortografias serão legalmente vigentes e aceitas. A partir de janeiro de 2012 apenas a nova ortografia corresponderá à norma culta da língua e deverá ser utilizada oficialmente. Assim sendo o Brasil (junto com Portugal, claro) são os únicos países do mundo que promoveram quatro reformas ortográficas no período de um século (1911, 1943, 1971 e 1995 no caso brasileiro). Cabe dizer que os demais países signatários deste acordo nem existiam na primeira metade do século passado. O teor do acordo e o valor jurídico do tratado estão longe de alcançar consenso por qualquer grupo interessado neste tema (desde linguistas e filólogos, no meio acadêmico, até escritores e jornalistas, massivos operários da língua). Vale dizer que o acordo prevê apenas uniformização da ortografia, ou seja, o modo de escrever em português. Não existe lei que uniformize os modos de falar o que está grafado, porque isso é claramente impossível. Bem. Como todos os demais brasileiros eu tenho quatro anos para aprender a usar a nova ortografia. Não será difícil. Já fiz isto em 1971, quando ainda estava no que hoje é a primeira metade do ensino fundamental. Para começar a entender um tanto do problema li este "Guia prático da Nova Ortografia", do Paulo Ledur, conhecido escritor e homem de letras gaúcho. Trata-se de um livro pequeno, menos de 100 páginas. Na primeira terça o autor apresenta as mudanças obrigátorias e comenta as formas duplas (aquelas que ainda permitirão grafias distintas de muitas palavras nos países signatários, ulalá!). Na segunda terça parte o autor se esforça para exemplificar as regras de uso da nova ortografia, apresentando as normas e algumas estratégias práticas para sua aplicação. A última terça parte reproduz textualmente o tratado aprovado em 1990. O que acrescentar: parece claro para mim que o único objetivo prático desta reforma é propiciar que as grandes editoras de livros sediadas no Brasil possam alcançar o mercado dos outros países lusófonos (!?) sem impedimentos legais quanto a grafia das palavras. Estamos falando de puros e sonantes interesses econômicos. Qualquer pessoa que tenha entrado em uma livraria nestas primeiras semanas do ano acompanha o açodamento com que professores, dirigentes escolares, pais e estudantes procuram a tal "nova ortografia", como se ela fosse um ítem material a ser colocado em uma prateleira mental. O governo brasileiro gastará milhões de reais para adquirir livros adaptados à nova ortografia para serem distribuídos nas escolas de todos os níveis. Milhares de funcionários públicos farão cursos de capacitação às novas regras. Milhões de documentos oficiais serão reescritos. Estou seguro que os cartórios e todo o sistema judiciário tentarão ganhar um naco deste mercado em breve, talvez exigindo correção ortográfica em documentos e petições. Cabe registrar que ainda há um ato final: a Academia Brasileira de Letras deverá publicar um Vocabulário Oficial. É este documento que servirá de base para a republicação de todos os dicionários, todos os manuais de estilo e redação, todos os livros de auto-ajuda ortográfica nos anos vindouros (até um novo acordo, que estou certo acontecerá antes que eu morra, afinal de contas o Brasil não é mesmo para amadores). [início 14/01/2009 - fim 16/01/2009]
Guia prático da nova ortografia, Paulo Flávio Ledur, editora AGE (1a. edição) 2008, brochura 14x21, 95 págs. ISBN: 978-85-749-7410-1

2 comentários:

Natália Diacoyannis disse...

Sinceramente, não gostei das mudanças ortográficas que fizeram no português.
Um beijo

Tempestade Interior disse...

Nossa! Quantas mudanças deverão ocorrer por causa do acordo!
Por um lado, podemos entender o progresso, a união entre povo(seja ela por quais motivos forem: econômicos, políticos, estratégicos). Por outro, a dor da perda de parte do patrimônio cultural do nosso país: nossa língua-mãe.

É sem dúvida uma questão polêmica, que teremos que nos adaptar.

Belo blog e excelente texto!
Parabéns!