terça-feira, 7 de julho de 2009

enquanto agonizo

Em "Enquanto agonizo" William Faulkner nos mostra como uma situação banal pode gerar um romance poderoso. A ação se dá na mítica cidade inventada por Faulkner, Yoknapatawpha, no mundo rural e antiquado do sul dos Estados Unidos do início do século XX. São 59 capítulos (um deles com apenas quatro palavras) onde quinze personagens pensam e falam continuamente, detalhando cada um deles aspectos de suas vidas e da vida de Addie Bundren, uma mulher que acaba de morrer e manifestou o desejo de ser enterrada em sua cidade natal, distante 60 quilometros do local de sua morte. Na viagem para transportar o ataúde da mulher morta até esta cidade, para ser finalmente enterrado, o viúvo e seus cinco filhos se envolvem em peripécias incríveis, irritantes, angustiantes. É um livro que cobra um esforço do leitor, pois trata-se de um seminal volume onde a técnica narrativa de fluxo da consciência é utilizada exemplarmente. Olhamos para cada um dos personagens (além dos membros da família Brunden somos apresentados a seis ou sete outros personagens que explicitam a história, as dúvidas, os atos e o bizarro comportamentos daquele desgraçado núcleo familiar) ora com compaixão, ora com ganas de eliminá-los do convívio humano . É um livro cruel, que não glamuriza para o leitor a vida dura do campo, a ignorância dos homens, a pobreza de espírito e a estupidez da falta de senso. Lembro de ter lido este livro em uma outra tradução, no início dos anos 1980, mas esta releitura me encontrou mais acostumado com a vida e os homens sombrios, portanto aproveitei mais o romance. Que bela história. Difícil ficar indiferente à ela. [início 17/06/2009 - fim 19/06/2009]
"Enquanto agonizo", William Faulkner, tradução de Wladir Dupont, editora LP&M pocket (1a. edição) 2009, vol. 747, brochura 11x18, 224 págs., ISBN: 978-85-254-1852-4

2 comentários:

Natália C. Diacoyannis disse...

Esse livro me atraiu só pela capa que tu postou, então resolvi ler tua opinião sobre ele.
Gostei. E achei bem curioso um dos capítulos ter só 4 palavras, adoro essas atitudes originais que alguns autores resolvem tomar.
Quem sabe um dia tu não me empresta esse livro? :P
Tu deveria ter sido crítico literário Dini!!!

Ronai disse...

Estou lendo o "Goya", de Robert Hughes e ao encontrar essa frase - "Um ensaísta sobre música que nunca pensou sobre Beethoven, ou um crítico literário que jamais leu os romances de Charles Dickens - o que valeriam as opiniões de pessoas como essas, que impulsos poderiam ter adquirido? Pessoas assim não podem ser levadas a sério." - lembrei de ti, eterno guerrilheiro dos bons impulsos. Pelo que contas, um livro como esse deve entrar para a lista das coisas que se devem levar a sério. Saudações!