domingo, 5 de fevereiro de 2017

a invenção da natureza

Ler livros de quinhentas páginas é uma típica ocupação maravilhosa das férias, mas este "A invenção da natureza" é tão bem escrito que é muito provável que o leitor acabe tendo de procurar algo novo para ler bem antes do que imaginava. Andrea Wulf nos apresenta o multitalentoso naturalista e explorador Alexander von Humboldt em detalhes. Trata-se de alguém sempre curioso das cousas do mundo, sempre em movimento, estudando e encontrando associações entre os mais variados assuntos. Na verdade Wulf não apenas conta a história da vida e das muitas descobertas do prolífico von Humboldt (homem dos séculos XVII e XVIII, que nasceu em 1769 e morreu em 1859). Ela também produziu e incluiu em seu livro extensas passagens biográficas de outros cientistas naturais, políticos, exploradores e pensadores tão produtivos e memoráveis quanto ele, como Goethe, Thomas Jefferson, Simón Bolívar, Darwin, Thoreau, George Marsh, Ernst Haeckel e John Muir. A vida de Humboldt e suas contribuições para a ciência e o mundo contemporâneo não cabem neste registro de leitura (não cabem nem na biografia de Wulf, a bem da verdade). O livro descreve cronologicamente a evolução do pensamento de Humboldt; suas principais contribuições científicas; o roteiro de suas grandes viagens (a primeira pelas Américas, do sul, central e do norte; a segunda pela Rússia dos czares, pela Sibéria); os temas de seus livros; a repercussão de suas pesquisas; a efetiva rede de colaboração científica criada por ele; sua habilidade política e gerencial. Lendo o livro nos convencemos da originalidade do pensamento de Humboldt, de suas preocupações ecológicas (foi dos primeiros a registrar o impacto das atividades humanas no clima e no geografia do planeta) e humanistas (era absolutamente refratário a ideia e a prática da escravidão). O livro é fartamente ilustrado, inclusive com uma reprodução do Naturgemälde (sua proposta para a geografia das plantas) e tantas outras maravilhas. Há também um extenso conjunto de notas e posfácio onde Wulf explica do que trata cada um dos volumes publicados da enorme produção de Humboldt. Grande sujeito. Vale a pena consultar os guardados da página eletrônica da Fundação von Humboldt. E vale a pena se aventurar por esta excelente biografia. 
[início: 27/12/2016 - fim: 05/01/2017]
"A invenção da natureza: A vida e as descobertas de Alexander von Humboldt", Andrea Wulf, tradução de Renato Marques, São Paulo: editora Planeta do Brasil (selo Crítica), 1a. edição (2016), capa-dura 16x23,5 cm, 589 págs., ISBN: 978-85-422-0755-2 [edição original: The invention of Nature (New York: Knopf Doubleday Publishing Group) 2015]

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

grito

De Godofredo de Oliveira Neto só conhecia os dois machadianos e curiosos contos reunidos em "Ilusão e mentira", de 2014. "Grito" é seu romance mais recente. Foi publicado no outono do ano passado. Trata-se de uma proposta também curiosa, que usa admiravelmente bem a linguagem para descrever o que se passa na cabeça de uma idosa atriz, Eugênia, mulher solitária, já aposentada e encerrada em um apartamento de Copacabana. Nos vinte e um "atos" em que é dividido o romance acompanhamos vinte e um "esquetes" teatrais que brotam da imaginação e fantasia de "dona" Eugênia. Alguns flertam com a realidade, mas a maioria deles são apenas sonhos, fragmentos de romances antigos, memórias em curto-circuito, ideias amalucadas para montagens teatrais. A consciência dela parece tentar entender a si mesma e os sucessos da vida de um vizinho, Fausto, rapaz que aparentemente afeiçoou-se a ela, pode ter planos de tornar-se ator e esporadicamente a recebe em seu apartamento. O que Godofredo de Oliveira mais acertadamente registra em seu livro são as dificuldades, quando não a impossibilidade, de comunicação. O entendimento que fazemos dos outros nunca é preciso. E na vida, sempre somos mais inventivos e criativos que na ficção. Isso é irrelevante, mas lembrei-me imediatamente de um filme antigo de Peter Yates, "O fiel camareiro" (The Dresser, no original) no qual acompanhamos os últimos atos de um ator senil (dois grandes atores, Albert Finney e Edward Fox, interpretam os protagonistas do filme, respectivamente, o velho ator e seu "fiel" camareiro). Assim como Yates, Godofredo de Oliveira Neto soube contar uma bela história. Vale.
[início: 05/01/2017 - fim: 06/01/2017]
"Grito", Godofredo de Oliveira Neto, Rio de Janeiro: editora Record, 1a. edição (2016) brochura 14x21 cm., 158 págs., ISBN: 978-85-01-10701-5

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

a borboleta e o sino

Há livros que são peças quase únicas, obras de arte rara, mimos travestidos em papel e tinta. Esses objetos são especiais, pois os colocamos nas prateleiras das estantes sempre em um lugar onde é fácil vê-los novamente, para um renovado fragmento de deleite bobo, cabotinos que inevitavelmente somos. É o caso do que farei com este "A borboleta e o sino", antologia de haikus de Yosa Buson, importante poeta e também pintor japonês do século XVIII, recentemente publicado pela editora catarinense Cultura e Barbárie. Sérgio Medeiros assina a seleção dos haikus e sua tradução (ele diz que os poemas foram "mudados" para o português). Os poemas estão agrupados em séries dedicadas às estações do ano: primavera (23 haikus), verão (49), outono (45) e inverno (34). Cada conjunto inclui reproduções de imagens muito bonitas do austríaco Egon Schiele e do próprio Yosa Buson (o belo projeto gráfico do livro é assinado pela designer Marina Moros). O leitor acompanha Buson pelo ano e seus muitos sucessos: a chuva e o terremoto; o desabrochar das flores e as folhas que caem; o cinza das brasas e da neve; o monge irritado na rua e o vendedor que boceja; o edredom curto e a lua refletida num lago; um arrebol e salmões empilhados. Tudo o que se sente, se vê, se ouve e se cheira é matéria para um poema. Numa introdução e num posfácio (ambos curtos), Sergio Medeiros fala algo de seu ofício, de seu interesse pelo idioma japonês, do quão exemplarmente os versos de Buson são objetivos e belos. Lembrei-me daquela velha história zen na qual se narra como um jardineiro retira do jardin que preparou para seu imperador a rocha que este tinha mais admirado do conjunto (para "torná-lo perfeito", reza a lenda). Como o habilidoso artífice do jardim de palavras de Buson em português, Sergio Medeiros opta por uma solução diferente daquela do jardineiro zen. Para finalizar seu livro ele não retira, mas escolhe incluir um poema mais, aquele que dá nome a sua antologia: "A borboleta e o sino". Agora sim, parece ele nos dizer, tudo está perfeito! 
[início: 08/12/2016 - fim: 06/01/2017]
"A borboleta e o sino: uma antologia de haikus", Yosa Buson, tradução de Sergio Medeiros, Desterro/Florianópolis: editora Cultura e Barbárie (selo Armazém), 1a. edição (2016), brochura 11,5x20,5 cm., 180 págs., ISBN: 978-85-63003-35-5

sábado, 28 de janeiro de 2017

as ilhas gregas

Publicado em 1978, mas reunindo textos que começaram a ser escritos ao final da segunda grande guerra, em 1945, "As ilhas gregas" foi originalmente concebido como um livro de viagens, um guia turístico, uma homenagem ao sol e ao mar gregos. A massificação do turismo e os quarenta anos de publicação certamente tiram do livro sua funcionalidade como guia, mas não o impacto nos sentidos, o doce encantamento, o fluxo sedutor de imagens e histórias criadas por Lawrence Durrell. Lê-se esse livro com calma, ou seja, com aquilo que definia a arte de viajar pelo menos até a primeira metade do século passado, bem mais uma experiência transformadora, de reflexão e aprendizado que a espécie de gincana que fazemos hoje em dia. Durrell viveu muitos anos na Grécia, sobretudo em Corfu, Rodes e Chipre (que hoje não é uma ilha grega, mas um estado independente). Ele pegava carona em barcos de cabotagem, cruzava a pé as ilhas mais remotas, dormia sob as estrelas e ao redor do fogo, como muitos dos heróis da Ilíada fizeram antes dele. Seu livro não faz o censo das quase duas mil ilhas gregas, mas se arrisca em contar a história e geografia dos conjuntos mais icônicos delas (as Jônicas, como Corfu e Paxos; as do mar Egeu, como Creta e Lesbos; as Espórades, como Rodes e Samos; as Cíclades, como Naxos e Mykonos e as Sarônicas, como Salamina e Spetses). Sua narrativa inclui digressões pela mitologia, linguagem, folclore, arte, causos pitorescos, filosofia, botânica, histórias de bar e de pescadores, reflexões sociológicas e políticas. Quem já leu o conjunto de volumes reunidos em "O quarteto de Alexandria" sabe o quão hábil Durrell sabe ser. Suas histórias ora são divertidas, ora líricas, alcançam emocionar o leitor e também instruí-lo. O tom das histórias lembra as de um outro grande escritor, o catalão Josep Pla, que também sabe contar o que vê quanto está longe de sua terra e deixa o leitor, debaixo de sua má estrela, invejoso do destino e das escolhas do viajante (como já nos ensinou Auden). Durrell é especialmente inventivo quando fala da arquitetura dos portos (em seu tempo vivido nas ilhas as travessias eram todas feitas em pequenos barcos à vapor); das técnicas de navegação, de coleta de esponjas e da pesca; descreve os templos em ruínas e as conversas com os lunáticos dos pequenos vilarejos (sempre os interlocutores mais fidedignos); interpõe às antigas lendas e mitos gregos a rotina e hábitos contemporâneos dos indivíduos com quem interage. Certamente aquelas ilhas não existem mais da forma que Durrell as viu, mas o que importa? A experiência de cada um que viaja e vê é a única que vale. Já é tempo, vamos em frente.
[início: 15/12/2016 - fim: 22/12/2016]
"As ilhas gregas", Lawrence Durrell, tradução de Carlos Leite, Lisboa: Relógio D'Água editores, 1a. edição (2016), brochura 13x20 cm., 331 págs., ISBN: 978-989-641-644-7 [edição original: The Greek Islands (London: Faber and Faber) 1978]

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

zona de sombra

Comprei esse "Zona de sombra" durante a Feira do Livro de Santa Maria, no início do ano passado. A ideia era ler rápido e presentear um afilhado meu que é um pequeno grande leitor, o Dante. Mas, ai de mim, envolvi-me em tantos projetos de leitura que esqueci completamente deste. Quantas vezes o Dante me cobrou o livro com aqueles seus olhos fulminantes! Só mesmo um padrinho velho e canalha como eu para os suportar sorrindo e postergar tantas vezes a entrega do presente, inventando uma desculpa besta a cada vez. Na última segunda-feira recebi dele um ultimato (e assinei um "documento" comprometendo-me em entregar o livro "na primeira oportunidade", uma licença de rábula amador). Bueno. Parei tudo e terminei rápido. É um livro bem interessante, que se deixa ler com facilidade. Luís Dill inventou trinta e duas possibilidades para o encadeamento de uma história de aventuras, com direito a tiroteios, lutas, encontros fortuitos, personagens curiosos, conversas entre gente muito diferente da protagonista, Tamara. A solução de cada uma das trinta e duas histórias só se dá nos últimos parágrafos. No primeiro capítulo, único comum a todas elas, encontramos Tamara, uma adolescente, que vai ao show de um cantor de quem é fã, presencia um crime e passa a ser perseguida por desconhecidos. Na fuga ela tenta esconder-se em um edifício de aspecto sombrio, ainda em construção, onde a iluminação difusa de alguns apartamentos denuncia que ali talvez alguém possa ajudá-la a telefonar para os pais ou para a polícia e voltar para casa. A partir daí começa o jogo "borgeano" de Dill, com uma sucessão de caminhos que se bifurcam: A garota deve subir ao primeiro ou ao segundo andar do edifício? Cada escolha implica em uma outra, e o jogo poderia seguir ao infinito. Como o livro deve ser finito Dill propõe apenas cinco vezes uma nova bifurcação. Tamara deve entrar num apartamento ou no outro de cada andar? Deve aceitar ou não a ajuda dos moradores de cada um deles? Deve voltar para o térreo ou não? Deve reagir de que forma às ameaças do líder da perseguição? Seu celular tocará num momento chave da trama ou não? Assim, o leitor encontrará trinta e dois futuros do jardim de caminhos de Tamara (mas não são todos os futuros possíveis, Borges nos diria). Gostei (e acho que o Dante vai gostar). Vamos ver o que ele diz.
[início: 04/05/2016 - fim: 19/01/2017]
"Zona de sombra", Luís Dill, Porto Alegre: Artes e Ofícios Editora, 1a. edição (2014), brochura 14x21 cm, 200 págs., ISBN: 978-85-7421-229-6

domingo, 22 de janeiro de 2017

ascensão

Em "Ascensão" Dirce Waltrick do Amarante enfeixa historietas divertidas, histórias amalucadas. Elas provocam no leitor curiosidade e estranhamento. Algumas parecem conhecidas, cousas que lemos há muito tempo e soam familiares, pois possuem aquela aura de algo que ouvimos de um tio-avô ou vizinho excêntrico, sempre espirituoso e brincalhão. Doze ela chama de "Monólogos". São contos sintéticos, curtíssimos, de um fraseado quase musical, que brincam com a linguagem e flertam com o surrealismo (e que se não são dela podem ser de Borges, de Cortázar, de Jarry, de Tzara, de Breton). Dez são ideias de esquetes teatrais, tão nonsenses quanto os "Monólogos", porém ainda mais concisas e crípticas. Quando as lemos parece que ficamos presos num transe ou  sono leve, enfeitiçados ou bêbados, entreouvindo um grupo teatral a ensaiar peças que não conhece muito bem. O livro é fartamente ilustrado com reproduções de um livro de coreografia do início do século XVIII (Chorégraphie, ou L'art de décrire la dance par caractères, de R. A. Feuillet). Os doidos passos de dança indicados por Feuillet parecem sim ser o acompanhamento adequado para as curiosas narrativas da Dirce. A edição é artesanal, muito bacana e bem cuidada. Todo um detalhe. Vale. 
[início: 15/12/2016 - fim: 20/12/2016]
"Ascensão: Contos dramáticos", Dirce Waltrick do Amarante, Desterro/Florianópolis: Cultura e Barbárie editora (selo Armazém), 1a. edição (2016), brochura 12,5x21 cm., 96 págs., ISBN: 978-85-63003-37-9

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

árvores ornamentais

Uma das coisas que minha mãe realmente gostava de fazer era cuidar de plantas e contemplar árvores e flores. Ela sabia "fazer mudas" das plantas mais improváveis que encontrava e sempre foi uma generosa fornecedora de "mudinhas" para seus vizinhos menos hábeis com a terra, os vasos e a água. Sua casa, lá na Caiapós, sempre foi um pouco horta, pomar e viveiro de flores. Aliás, presenteá-la com flores era certeza de deixá-la feliz. As estações modulavam a coloração da casas e providenciavam a romã para o dia de reis, os antúrios para o dia de finados, as rosas miúdas que as formigas teimavam em destruir, a floresta de samambaias e xaxim, a bucha que usávamos como esponja, o manacá, a mirra, as orquídeas e tantas outras plantas que ornamentavam o quintal, terraço e pátio, para deleite de quem tinha tempo e tino de apreciá-las. Há um mês, no 19 de dezembro passado, ela morreu, dona Victória Medici morreu. Tinha quase 84 anos, que teria feito no início desde janeiro. Mexendo nos guardados dela encontrei esse "Árvores ornamentais na cidade de São Paulo", um dos livros que dei a ela de presente (esse foi num Natal, o de 2001). Desde sua morte fiquei com ele por perto, reli as descrições das árvores incluídas nele e apreciei as aquarelas muito bonitas que o ilustram. Texto e arte são obra de uma artista plástica americana que viveu no Brasil. Jean Smith passeava por São Paulo procurando e encontrando árvores em floração, coisa que a maioria de nós se esquece de fazer, iludidos pelo tempo fugidio e pelos ruídos da cidade. Ela publicou ao menos dois livros com suas coleções de árvores ornamentais paulistas. Neste estão reunidas 31 pranchas. Difícil dizer qual a mais bonita. Na descrição aprendemos algo da época de floração, das características das flores, de sua origem e forma de melhor cultivar, de seus nomes populares. A edição é bilíngue, português e inglês. Qualquer amor é mesmo um pouquinho de saúde, um descanso na loucura. Mas o amor às flores é um tipo especial de amor (isso eu sei, foi minha mãe quem me ensinou). Viva Vic.
[início: 19/12/2016 - fim: 19/01/2017]
"Árvores ornamentais na cidade de São Paulo. Flowering Trees in the city of São Paulo", Jean Irwin Smith, tradução de Merle Scoss e Melania Scoss, São Paulo: editora Terceiro Nome, 1a. edição (2000), brochura 18x25 cm., 90 págs., ISBN: 85-87556-05-3

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

mulher de porto pim

Nos livros de Antonio Tabucchi sempre alguém viaja e com esse alguém segue o leitor. No caso das histórias reunidas em "Mulher de Porto Pim" o destino dos sucessos é o Arquipélago dos Açores, o conjunto de nove ilhas que forma a parte mais a oeste de Portugal (O italiano Tabucchi teve uma relação especial com Portugal, viveu lá muitos anos, tornou-se um especialista em Fernando Pessoa, traduziu autores portugueses e italianos de uma língua para a outra, encantou-se com o lugar, ou melhor, com os muitos lugares que chamamos de Portugal). Para simplificar vou classificar esse livro como de contos, mas como sempre acontece com Tabucchi há algo cifrado em seu estilo. Algumas histórias parecem crônicas de viagem, registros objetivos de uma sensação, de uma experiência. Noutras o leitor se convence da pura invenção, da realidade de uma ficção curiosa, das habilidades de um autor criativo. Enfim, são oito narrativas curtas. Lemos sobre um homem que imagina uma nova Grécia nos Açores, com deuses, mitos e heróis; a história de um casal entreouvida num barco, sem início ou fim; o censo dos bares de uma das ilhas dos Açores, lugares construídos com restos de naufrágios, destino de deserdados e solitários do mundo; o resumo rápido da vida do poeta Antero de Quental, filho da Ilha de São Miguel, nos Açores. Encontramos também duas crônicas sobre a caça as baleias: uma delas quase científica, produzida dos fragmentos de diversos autores que já se interessaram pelo assunto; a segunda inventiva, na qual um narrador acompanha o capitão de longo curso de um barco baleeiro e as façanhas que resultam na morte de uma grande baleia (como se fosse a última de sua espécie a ser cruelmente abatida, como se apenas um réquiem nos redimisse da culpa). O conto que dá nome ao livro é a história de amor e morte que um velho músico de uma taberna das ilhas conta para um ouvinte curioso (sempre aquele sujeito que nas histórias de Tabucchi está no local certo para experimentar algo transcendental). O livro termina com uma história contada por uma baleia, que vê os homens na praia e estranha o comportamento daqueles seres bizarros e tristes. Especial. O leitor termina o livro e já se imagina num cais, preparando-se para zarpar rumo àquelas ilhas. Livro para se ler com calma, ouvindo o barulho do mar e do vento, dos peixes e dos pássaros. Vale.
[início: 21/12/2016 - fim: 22/12/2016]
"Mulher de Porto Pin e outras histórias", Antonio Tabucchi, tradução de Maria Emília Marques Mano, Alfragide/Portugal: Publicações Dom Quixote (Grupo LeYa), 1a. edição (2016), capa-dura 12x19 cm., 126 págs., ISBN: 978-972-20-6017-2 [edição original: Donna di Porto Pim (Palermo/Italia: Sellerio Editore ) 1983]

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

guerra das gueixas

"Guerra das gueixas" foi publicado originalmente há quase um século (primeiro de forma seriada em um jornal, depois em livro, em 1918). Nagai Kafu conta a história de uma gueixa ingênua, Komayo. O realismo é a chave do livro, não há falso moralismo nele. O mundo das gueixas é um mundo de escravidão sexual, de convenções anacrônicas, de submissão completa aos desejos dos homens. Kafu nada edulcora a vida libertina das gueixas. Suas alegorias românticas são antes a forma irônica de explicitar a realidade da armadilha social na qual elas estavam imersas. Ele nos ensina algo da etiqueta e do treinamento das gueixas, algo similar ao dos músicos, atores ou dançarinos. A sofisticada educação para o entretenimento e mundanidade custava caro e a "casa das gueixas" (okiya) que as financiavam alcançavam manter as mulheres presas a contratos impossíveis de serem um dia rescindidos por elas mesmas. Komayo, uma garota de vinte e quatro anos, volta a atuar como gueixa após a morte do marido, um sujeito do interior com quem havia se casado após ele pagar sua dívida. A vida do interior lhe parecia insuportável e ela acredita que poderia novamente conseguir um patrono ou um amante na capital japonesa. Ela reencontra Yoshioka, um bem sucedido bancário, com quem havia se relacionado quando jovem. Indecisa entre aceitar a proposta de tornar-se amante deste rapaz ou relacionar-se com um ator de teatro kabuki, Segawa, por quem subitamente se apaixona, Komayo vê ambos se afastarem. Kafu apresenta ao leitor os vários estágios emocionais entre as alegrias e fantasias da paixão e o reconhecimento das perdas. Komayo é uma protagonista que encontra deleite e sofrimento com os mesmos objetos, nos mesmos assuntos e com a mesma intensidade. O amor não é apenas o primo da morte (como já nos ensinou Drummond), mas um monstro voraz que provoca derrotas e ilusões em troca de uns poucos prazeres. Livro interessante. Vamos a ver se encontro algo mais de Nagai Kafu.
[início: 12/12/2016 - fim: 21/12/2016]
"Guerra das gueixas", Nagai Kafu, tradução de Andrei Cunha, São Paulo: editora Estação Liberdade, 1a. edição (2016), brochura 14x21 cm., 246 págs., ISBN: 978-85-7448-267-5 [edição original: Ude Kurabe (腕くらべ) 1916-1917)]