segunda-feira, 18 de maio de 2015

james joyce apocalypse & exile

Vi a exposição "James Joyce: Apocalypse & Exile" em fevereiro, na Marsh's Library, em Dublin. Estava bastante frio, mas era um dia bem ensolarado, sem nuvens. A caminhada foi curta, não mais de quinze minutos de Ballsbridge (onde estava hospedado) até a região da Saint Patrick's Cathedral. A Marsh's é a biblioteca pública mais antiga da Irlanda, aberta ao público em 1707. Foi fundada por um dos arcebispos de Dublin (Narciso Marsh) e contém cerca de 25.000 volumes, principalmente incunábulos, obras litúrgicas e bíblias impressas entre os séculos XVI a XVIII, mas que possui também um variado acervo profano, com livros de ciências, matemática, literatura e ensaios. A Marsh's é citada em pelo menos três das obras de James Joyce, Ulysses, Finnegans Wake e Stephen Hero. O livro de visitantes da biblioteca dá conta que Joyce a visitou nos dias 22 e 23 de outubro de 1902 (tinha pouco mais de 20 anos). A exposição mostra os livros que Joyce consultou nesses dias, obras poéticas de Dante, Boccaccio e Petrarca e ensaios inspirados na tradição espiritual franciscana (no século XVII havia um grupo grande de frades medicantes de orientação franciscana exilados em Dublin). Na exposição (e de resto nesse catálogo) encontramos vinte e cinco livros, todos parte do enorme acervo da biblioteca, incluindo as primeiras edições de Ulysses, Stephens Hero e Finnegans Wake. O primeiro item da exposição é um dos livros de visita da biblioteca onde pode-se encontrar a assinatura de Joyce. Nas quatro salas de exposição encontravam-se também volumes de autores italianos do século XIV (os já citados Dante, Petraca e Boccaccio); autores do século XVII que discutem o culto a são Francisco de Assis (livros de são Bonaventura da Banoregio, Fortunatus Hueber e Willem Spoelberch); autores que discutem as profecias de um filósofo místico, o abade cisterciense Joachin Abbas (ou Joachim de Fiore), que advogava o milenarismo (uma volta do Messias cristão); autores de orientação franciscana que em algum momento estiveram radicados na Irlanda (Mícheál Ó Cléirigh, John Punch, Patrick Fleming, Hugh MacCaughwell, John Colgan e Luke Wadding, entre outros). Todos os livros podiam ser manipulados (desde que você usasse luvas). Claro, tive tempo de ver as altas prateleiras, conversar com as bibliotecárias, sentar nas mesas de consulta e experimentar algo daquilo tudo, vagar pelos salões da biblioteca como quem percorre uma caverna com tesouros e se imagina ali para sempre, com todo o tempo possível para desfrutá-la. O material iconográfico produzido para a exposição é de muito boa qualidade (postais, cartazes e esse catálogo). Além de fac-símiles de cada um dos livros da exposição, o catálogo incluí cinco ensaios: "Exile and the irish franciscan tradition" (assinado por John McCafferty e Mícheál Ó Cléirigh); "Joyce's saints and sages: history, hagiology and the irish franciscan tradition", "Joachin of Fiore and 'Joachitism' from Stephen Hero to Finnegans Wake" e "Joyce and the Trecento" (assinados por (Anne Marie D'Arcy); "James Joyce and the 'Stagnant bay' of Marsh's Library" (assinado por Jason Mcelligott). Ainda vou falar mais desses dias de alegria em Dublin, os dias de minha devota peregrinação pelo mundo de James Joyce. Vale.
[início: 04/02/2015 - fim: 30/04/2015]
"James Joyce: Apocalypse & Exile",  John Maccaggerty, Marina Ansaldo, Anne Marie D'Arcy, Jason Mcelligott, Mícheál Ó Cléirigh, Dublin: Marsh's Library (Department of Arts, Heritage and the Gaeltacht), 1a. edição (2014), brochura 17x24 cm, 96 págs., ISBN: 978-0-9930953-0-6

2 comentários:

Leonardo da Rosa disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Leonardo da Rosa disse...

É interessante marcar o momento em que nos deparamos com as coisas do mundo. Quem me dera ter a disposição para escrever sobre minhas impressões de leitura - guardá-las, rememorá-las e comparar o progresso de minhas ideias. São relatos interessantíssimos os que propões aqui, Aguinaldo. A blogsfera agradece por seu conteúdo. Está adicionado à lista de leitura!

- Léo ao Léu