segunda-feira, 4 de julho de 2011

se um de nós dois morrer

Semanas atrás li um livro inspirado nos romances e histórias de Enrique Vila-Matas (o bom "Conversas apócrifas de Enrique Vila-Matas", de Kevin Falcão Klein, que já resenhei aqui). Este "Se um de nós dois morrer" também é inspirado por Vila-Matas, mas pertence ao universo da ficção e não do ensaio (como é o caso do livro de Klein). Trata-se de um pequeno livro, bem editado, onde se faz uso de fontes diferentes, cores no texto, fotografias. O resultado, literariamente falando, é mediano. Claro, funciona como homenagem ao "mestre", a Vila-Matas, pois lembra o estilo fragmentado dele, tanto no uso massivo de referências literárias quanto no típico jogo erudito entre escritor e leitor que sepre encontramos em seus livros. A história de Roberto Pires começa com a morte de um escritor chamado Théo (um deus ex machina, claro), que deixa instruções detalhadas para sua namorada seguir após sua morte. A primeira das instruções é fazer com que Sofia (a namorada, arquétipo do conhecimento e sabedoria, claro) leve suas cinzas para o cemitério francês Pere Lachaise, para serem deixadas próximas às tumbas dos escritores que ele mais reverenciava. Ficamos sabendo que ele vivia bloqueado literariamente após der publicado um único livro. Nos anos de bloqueio literário, entre bebedeiras, viagens a França, trocas de namoradas e brigas com seu editor canalha (um personagem enigmático, que poderia aparecer com mais relevo na história a meu juízo, ele reuniu uma série de apontamentos, cartas e notas que acredita úteis como material para um livro, caso cheguem às mãos da pessoa certa: o escritor catalão Enrique Vila-Matas. Sofia, diligente como só os personagens totalmente fictícios sabem ser, presta-se a esta tarefa. Aproveitando a presença do escritor na festa literária FLIP, que acontece anualmente em Paraty ela viaja para fazer a última das vontades de seu namorado. O livro de Roberto Pires tem passagens inspiradas, uns dados interessantes (que da mesma forma que nos livros de Vila-matas podem ou não serem críveis) mas o livro como um todo não me convence. Prefiro os originais de Vila-Matas. Paciência. [início 27/06/2011 - fim 29/06/2011]
"Se um de nós dois morrer", Paulo Roberto Pires, Rio de Janeiro: editora Objetiva, 1a. edição (2011), brochura 14x23,5 cm, 117 págs. ISBN: 978-85-7962-077-5

domingo, 3 de julho de 2011

cuentos negros

"Cuentos Negros" é um presente para todos os aficcionados na prosa de Manuel Vázquez Montalbán. São textos que foram publicados originalmente em jornais. Todos tem Pepe Carvalho como protagonista. O mais antigo é de 1974 e o mais recente de 1997. Mais da metade deste livro corresponde a novela "La muchacha que pudo ser Emmanuelle", publicada originalmente na forma de folhetim, no jornal El país. Nesta novela somos apresentados a uma trama que antecede imediatamente os sucessos do livro "Quinteto de Buenos Aires". Sou daqueles que sempre fiquei curioso sobre a real motivação de Carvalho em se deslocar da España para a Argentina naquele livro. Montalbán usa sua novela para discutir as desgraças do governo militar argentino, a atuação dos grupos paramilitares, as relações entre os aparelhos de repressão franquista e argentino daquele período. Apesar do tema terrível Montalbán consegue com sua prosa irônica e tiradas filosóficas tornar a leitura agradável. A novela é repleta de boas sessões gastronômicas. Biscuter, Charo, Fuster e os demais personagens das novelas policiais de Montalbán aparecem em passagens divertidas. Além da novela o livro inclui cinco contos curtos e dois ensaios. São textos típicos da poética carvalhiana, onde há doses bem distribuídas de história, sociologia, filosofia e literatura. Carvalho também viaja nestas histórias. Além da Argentina e ele vai a Itália (em um divertido texto sobre espionagem) e Portugal (em um belo texto sobre a revolução dos cravos). Este livro (e seu irmão gêmeo, Cuentos Blancos, que também inclui textos inéditos de Montalbán, mas não relacionados às histórias de Pepe Carvalho) é um presente realmente especial. O texto introdutório assinado por Georges Tyras apresenta com paixão a obra de Montalbán (mesmo um leitor já familiarizado com sua obra aprende um bocado). Cabe um último registo. Comprei este livro pela Abebooks e o recebi em menos de dez dias. De Madrid a Santa Maria, sem a intermediação dos correios brasileiros, sem aborrecimentos e por um preço ridículo. Há algo mesmo podre com os correios brasileiros para que isto seja possível. [início 03/06/2011 - fim 26/06/2011]
"Cuentos Negros", Manuel Vázquez Montalbán, edicíon e introducción de Georges Tyras, Barcelona: Galaxia Gutenberg (Circulo de Lectores), 1a. edição (2011), capa-dura 13,5x21,5 cm, 250 págs. ISBN: 978-84-8109-923-2

sábado, 2 de julho de 2011

enchentes

“Enchentes” é o romance de estreia de Guido Kopittke, autor gaúcho com alguma experiência de produção e publicação de livros de contos e outros textos curtos. Seu romance pode ser entendido como uma alegoria, no sentido em que ele faz uma leitura do passado do Rio Grande do Sul utilizando elementos historiográficos. Todavia, também podemos entendê-lo como um conto moral, no sentido em que ele exemplifica para o leitor como as transformações sociais e políticas de um período revolucionário operam e afetam um indivíduo. Confessadamente não se trata de um romance histórico, mas antes uma ficção psicológica, na qual se tenta entender e descrever a motivação para as ações impetuosas de um jovem comerciante gaúcho nos anos que antecedem as mudanças provocadas pela revolução de 1930. Kopittke produz um enredo linear, apesar de fragmentar a voz de seu narrador e tentar alguma heterogeneidade enunciativa. Um comerciante influente de uma cidade próxima a Porto Alegre é convencido a viajar de férias, deixando seus negócios aos cuidados do filho. O núcleo central do romance é a história desse rapaz, que aproveita a oportunidade para imprimir sua marca nos negócios. De alguma forma, ele infere que, apesar da grande influência e poder de seu pai, os negócios devam ser modernizados e adaptados às novas realidades. Suas ações para alcançar esse objetivo são antes fortuitas e intuitivas que realmente planejadas. Há nele elementos modernos, transformadores, mas também um romantismo atávico, que o impede de compreender na totalidade o alcance de suas ações. Kopittke usa vários personagens para criar os cenários onde seu personagem principal confronta seus sonhos e seus planos com a realidade objetiva. Kopittke se preocupa com a adequação das formas de expressão de seus personagens. O romance é dividido nas três partes clássicas de um drama (definição, complicação, resolução). Na primeira parte, as motivações do rapaz são apresentadas. Na segunda, um elenco de personagens de apoio surge para criar alguma tensão, propor alternativas, gerar reviravoltas. Na última, Kopittke apresenta seu desfecho. Mas o leitor emerge do romance sabendo que esse final poderia ser outro, como ocorre na vida, onde, frente às mesmas condições, aos mesmos problemas, cada indivíduo, por conta de um ou outro detalhe insignificante, experimenta e acolhe soluções bastante distintas. Esse romance parece ser o resultado do projeto de entreter honestamente, sem grandes pretensões intelectuais, nem literárias. Kopittke usa o que seria material típico de um soturno e eventualmente aborrecido romance histórico para produzir uma reflexão ligeira sobre as motivações de indivíduos frente aos desafios da vida. O livro produzido pela editora Dublinense tem uma capa bastante inspirada. Seu designer explora com exuberância as possibilidades gráficas. Isso pode ser apreciado nos detalhes refletidos espalhados pelo livro (nos títulos dos capítulos e na numeração, por exemplo), elementos que jogam com o tema central da história de uma forma particularmente feliz. Enchentes parece se inspirar em Il gattopardo (O leopardo), filme de Luchino Visconti, de 1963. Há muitos clichês, frases feitas e termos gauchescos nesse livro. É um artifício limitante mesmo considerando que toda trama se passa no Rio Grande do Sul do início do século passado. É um livro linear, previsível. Um leitor ingênuo pode se satisfazer com uma história bem contada, mas um leitor reflexivo pode chegar a se irritar com a ausência de algum desafio que seja digno de nota. Kopittke povoa sua história com mais de duas dezenas de personagens. Um excesso, mesmo que todos tenham alguma função no enredo. Como a história se concentra em poucos dias, o desenvolvimento da trama depende muito do acaso, com soluções demasiado artificiais e esquemáticas. Temas que poderiam tornar-se importantes, como culpa, emancipação feminina, justiça e redenção, são tratados muito superficialmente. De qualquer forma “Enchentes” é um livro que vale o tempo de leitura. [Em tempo: esta resenha foi produzida originalmente para o Campeonato Gaúcho de Literatura de 2011, do qual fui juiz. Em função do formato desse campeonato esta resenha compartilha idéias com aquela do outro livro que julguei: "A misteriosa morte de Miguela de Alcazar", de Lourenço Cazarré]. [início - fim 25/06/2011]
"Enchentes", Guido Kopittke, Porto Alegre: editora Dublinense, 1a. edição (2010), brochura 14x21 cm, 158 págs. ISBN: 978-85-62757-08-2

sexta-feira, 1 de julho de 2011

a misteriosa morte de miguela de alcázar

Há livros que nos provocam intelectualmente e outros que simplesmente se deixam desfrutar, sem muito esforço. É o caso deste divertido "A misteriosa morte de Miguela de Alcazar", de Lourenço Cazarré, jornalista gaúcho radicado em Brasília. Cazarré é um autor experiente e já premiado, com mais de 30 livros publicados, entre contos, romances e textos dedicados ao público infanto-juvenil. "A misteriosa morte de Miguela de Alcazar" é antes uma sátira que um romance policial canônico. O deboche é explícito. Uma versão anterior dele foi publicada na forma de folhetim em um jornal brasiliense em meados dos anos 1990. Por ter sido pensado originalmente como um folhetim, o livro ainda guarda algo do ritmo e truques deste gênero, seja no tom com que o narrador se comunica com o leitor, pontuando a história com divagações; seja na sucessão de “ganchos” que aparecem ao final de cada capítulo, postergando a elucidação da história. O enredo é simples: um jornalista é escalado por seu editor para cobrir um inusitado encontro de velhos escritores de romances policiais. O encontro é sigiloso e acontece em um hotel de Brasília, administrado por um gerente bem conhecido do editor. Tanto o jornalista quanto o editor e o gerente são terrivelmente mal-educados, preconceituosos, repulsivos. Já os escritores inventados por Cazarré são caricaturas de escritores reais (entre eles Dashiell Hammett, Agatha Christie, Georges Simenon e Jorge Luis Borges). Ele faz com que cada um desses personagens de alguma forma tenha se familiarizado com o português, que falam com acentos regionais bastante marcantes. Um fala com acento mineiro, outro carioca, os demais em registros gauchesco, nordestino e paulistano. Há ainda um deles que se expressa por meio de um rascante portunhol. Esse artifício dá a Cazarré oportunidade de fazer seu narrador arriscar alguma sociologia selvagem, na qual as diferenças regionais brasileiras são contrastadas com a forma de resolução de crimes utilizadas por cada detetive, características de seus países de origem. Como é de se esperar em um romance desse tipo, alguém morre (o título do livro já antecipa isso, claro). Cabe, então, aos detetives, com a ajuda do jornalista, do gerente do hotel e de um delegado (tão pernóstico quanto os dois) descobrirem quem matou Miguela de Alcázar. Trata-se do típico problema de crime em uma sala fechada, mais do que conhecido por quem aprecia literatura policial. Esse é um romance que parece ser o resultado de um projeto de entretenimento honesto, sem grandes pretensões intelectuais, nem literárias. Cazarré brinca com a impossibilidade de se inventar uma história policial que não tenha sido ainda experimentada. É um livro bem editado, tem uma capa divertida, boa distribuição do espaço e inclui bons detalhes gráficos. O livro lembra alguns aspectos de Murder by death (Assassinato por morte), filme de Robert Moore, de 1976. Os personagens de Cazarré abusam do uso de clichês, frases feitas e termos regionais (em sua maioria gauchescos, mas há "sotaques" para todos os gostos). Parece que se aferrando ao efeito jocoso que esses termos provocam no justifica-se a forma de agir de seus personagens, acrescentando alguma graça e relevo a eles. É um livro linear, previsível. Um leitor ingênuo pode se satisfazer com uma história bem contada, mas um leitor reflexivo pode chegar a se irritar com a ausência de algum desafio que seja digno de nota. De qualquer forma Lourenço Cazarré domina bem a maquinaria da escrita literária. Mesmo um sujeito que se irrite com a proposta de seu enredo reconhece que Cazarré sabe conduzir sua história com apuro técnico sofisticado e poderoso. [Em tempo: esta resenha foi produzida originalmente para o Campeonato Gaúcho de Literatura de 2011, do qual fui juiz. Em função do formato desse campeonato esta resenha compartilha idéias com aquela do outro livro que julguei: "Enchentes", de Guido Kopittke]. [início - fim 24/06/2011]
"A misteriosa morte de Miguela de Alcazar", Lourenço Cazarré, Rio de Janeiro: editora Bertrand Brasil, 1a. edição (2009), brochura 14x21 cm, 176 págs. ISBN: 978-85-286-1379-7

terça-feira, 28 de junho de 2011

diários de bicicleta

Apesar do título remeter ao Diários de motocicleta, que é um filme de Walter Salles, baseado em um livro de Ernesto Che Guevara (De moto pela América do Sul), este "Diários de bicicleta", de David Byrne, encontrou inspiração em W.G. Sebald (do Anéis de Saturno) e em Caetano Veloso (do Verdade Tropical). "Diários de bicicleta" é um livro de sociologia descompromissada, de crítica social engajada, de filosofia expressa. É um bom livro. Byrne é um adepto do uso da bicicleta como meio de locomoção básico, para uso no dia a dia, tanto para o trabalho durante o dia, quanto para o lazer noturno ou nos finais de semana. É um entusiasta verdadeiro e convincente (um sobrevivente também, claro): usa a bicicleta como meio de transporte há uns trinta anos (que até pouco tempo levava sua bicicleta na bagagem, mesmo nas viagens longas de avião - mas hoje isto quase não é mais necessário, pois é fácil alugar uma em quase toda grande cidade). Mas no fundo sua digna apologia do massivo uso da bicicleta esconde aquilo que de fato percorre todo o livro, que são suas preocupações com os grandes temas do mundo contemporãneo: as relações entre as culturas; os desafios da economia e do fluxo do capital entre as nações; as migrações, fonte de conflitos norte e sul, ocidente e oriente; o papel fundamental da arte. É um livro honesto, com um humor leve, o leitor sendo reiteradamente convidado para acompanhar a reflexão de Byrne, mas sentindo-se a vontade para discordar de suas interpretações (há detalhes que mesmo um observador arguto perde ou entende de forma equivocada). O livro é dividido por cidades, primeiro as pequenas, ainda nos Estados Unidos (Buffalo, Rochester, Valencia, Baltimore, Sweetwater, Columbus, New Orleans, Pittsburgh), depois em algumas mundo afora (Berlin, Istambul, Buenos Aires, Manila, Sydney, Londres) e por fim de volta aos EUA, para as gigantes San Francisco e New York. Para cada uma delas um tema se sobressai: arte e política, música e história, utopia e contracultura. Mas é a apreciação das manifestações artísticas em cada lugar que parece conduzir o texto. Além de ilustrações e fotografias, que dialogam com o texto, Byrne inclui um curto epílogo falando do futuro da locomoção e um bom apêndice com dicas básicas de segurança. Ele se pergunta: porquê os habitantes de algumas cidades adotam o ciclismo e outros não, mesmo quando a geografia e o traçado urbano o facilitariam? Talvez porque "o meme do ciclismo não tenha sido inserido na cultura" (meme é o conceito criado por Richard Dawkins que tem para a memória um papel análogo ao de gene para a genética). Sua filosofia para decidir-se pelo engajamento ou não em alguma causa é boa: "Se a luta for chata, então esqueça". Com "Diários de bicicleta" ele convida o leitor a observar e participar ativamente da vida de sua cidade, de ser um sujeito que se relacione com sua vizinhança. Não há cinismo besta em suas palavras. [início 15/06/2011 - fim 21/06/2011]
"Diários de bicicleta", David Byrne, tradução de Otávio Albuquerque, Anna Lim, Fabiana de Carvalho, Barueri: editora Manole, 1a. edição (2010), capa-dura 14x22 cm, 334 págs. ISBN: 978-85-204-3007-1 [edição original: Bicycle diaries (Viking books) New York, 2009]

terça-feira, 21 de junho de 2011

os mitos gregos

Por mais que você leia e se interesse por temas abrangentes e fundadores ou absolutamente específicos e maniáticos (que o ocupem e divirtam por anos sem fim), chega uma hora que você precisa voltar para os gregos, voltar para a mitologia. O arrebatamento é sempre poderoso. Claro, um sujeito deve começar pelo Thomas Bulfinch ou Gustav Schwab, mas logo vai procurar coisas mais sutis no Pierre Grimal ou no Joseph Campbell (há uma miríade de outros livros, dicionários, inclusive originais em português, como a série do Junito Brandão, mas as releituras serão sempre bem vindas). Todavia, de tudo que já li, o compêndio de Robert Graves "Os mitos gregos" é o mais iluminador e seminal. Meu pai tem os dois volumes de uma edição surrada da Penguin, mas só quando comprei a tradução portuguesa da Dom Quixote, já no início dos anos 1990, foi que entendi mesmo o projeto de Graves. Ele é mais conhecido por romances históricos como "Eu, Cláudio", mas foi também um respeitado tradutor e poeta. Pois são estas duas ocupações e habilidades (a de tradutor e de poeta) que tornam inovadoras suas propostas de leitura dos mitos gregos. O procedimento de Graves é padronizado e tripartido. Ele reuniu tudo que pode desde vinte séculos antes do nascimento de Cristo. Para cada entrada em seu compêndio ele apresenta alguns parágrafos descritivos (que é o que usualmente se faz nos livros mais simples), lista as referências específicas de cada parágrafo (ele sabe ser detalhista e preciso) e lista suas interpretações pessoais (que transitam entre a antropologia, a história, a geografia e a medicina - há muito pouco de aporte psicológico nele). Graves adverte que deve-se distinguir o mito autêntico de vários outros tipos de registros: alegorias filosóficas; sátiras; contos; propaganda política; lendas morais; amedotas e narrativas (romanceadas, épicas ou realistas). Claro, em cada um destes registros pode haver, como em um palimpsesto, uma origem realmente mitológica. E é esta camada que interessa a Graves. Neste trabalho minuncioso ele vale-se do que se sabe da astronomia, das práticas agrícolas e comerciais, dos movimentos migratórios e incursões guerrreiras. Aprendemos que os mitos (à conveniência dos homens e mulheres poderosos de cada tempo) podem ser fundidos, adaptados, invertidos, deslocados temporalmente e até abolidos. Aprendemos o significado dos rituais de morte de jovens, dos reinados em dupla, do conhecimento e uso dos fármacos alucilógenos, do culto da deusa no Mediterrâneo (que ele descreve melhor em um outro livro dele, "A deusa branca"). Quem é afeito a abordagens românticas (como a das histórias de fada) ou psicológicas (como as interpretações freudianas, junguianas e lacanianas) não deve gostar muito desta máquina de interpretação proposta por Graves (afinal, boa parte do encanto dos mitos é sua capacidade de adapatar-se as questões contemporâneas, a forma como o homem de hoje reage e opera aos estímulos da vida em sociedade e da natureza). Deixe-me apresentar apenas um exemplo de como a coisa funciona. Afinal um sujeito pode até decepcionar-se com Graves ao descobrir que os cíclopes são apenas a representação mágica dos homens que conheciam o ofício de moldar e forjar os metais, os ferreiros. Como este conhecimento era estratégico, os reis escondiam estes homens em locais de difícil acesso (geralmente ilhas com cavernas espaçosas e fontes de calor), criando o mito dos gigantes forjadores dos raios de Zeus para impedir que curiosos se aproximassem destes locais. Estes ferreiros usualmente protegiam um de seus olhos das fagulhas que saltam dos metais quando trabalhados mecanicamente para a produção das armas e artefatos (não existiam óculos de proteção naqueles tempos) e eram suficiente robustos e sujos para emular gigantes de um olho só, escondidos em cavernas inacessíveis. Não há uma genuína poesia nesta ciência interpretativa de Robert Graves? [início 09/04/2011 - fim 16/06/2011]
"Os mitos gregos (volume 1), coleção nova enciclopédia", Robert Graves, tradução de Fernanda Branco, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1a. edição (1990), brochura 18x23,5 cm, 231 págs. ISBN: 972-20-0812-9 [edição original: The Greek Miths (Penguin books) Londres, 1955]

sábado, 18 de junho de 2011

homem comum

Este é um daqueles livros que comprei na época do lançamento, deixei para ler mais tarde e esqueci completamente. Só recentemente, ao ler "Nemesis", descobri que "Homem comum" é a primeira de um ciclo de quatro novelas de Philip Roth dedicadas a descrever aspectos do impacto da morte sobre os homens. "Homem comum" (Everyman, no original) é uma história curta, que se lê com animação e prazer (em que pese o terrível do tema). A economia formal do livro é mesmo rara. Acompanhamos rapidamente a vida pessoal atribulada, o sucesso profissional como publicitário e as reiteradas doenças de um sujeito. O livro começa com ele descrevendo seu funeral. Ele faz o censo dos presentes, tenta fixar o estado de espírito de cada um: seu irmão mais velho, duas das mulheres com quem se casou, seus filhos (os que o detestam e uma que o ama), um ou outro amigo. Este início lembra um tanto o filme "Sunset Boulevard", onde um corpo morto flutuando em uma piscina começa a contar a história de como acabou chegando até ali (lembra também o "Memórias póstumas de Brás Cubas", claro, mas o livro de Machado de Assis é linear nas reminiscências, enquanto que o personagem de Roth embaralha as suas). Ele recorda, em cenas curtas, fragmentárias, os sucessos e fracassos de sua vida: seus casamentos, as desavenças com os filhos mais velhos, suas mentiras, a inveja do irmão, suas aventuras sexuais. Há algo de monôtono nas reiteradas explicações sobre os procedimentos cirúrgicos pelos quais o personagem principal passa, mas me parece que esta saturação é proposital. Roth parece nos lembrar que os aborrecimentos pelos quais os doentes crônicos passam são mesmo infindáveis e sempre originais. Gostei particularmente de uma passagem onde este personagem principal conversa com um coveiro (pensar em Hamlet e a caveira de Yorick é uma associação óbvia). A decadência e as provações pelas quais o personagem passa são visíveis, palpáveis, inevitáveis. Este bom livro provoca reflexões potentes. A morte é mesmo um detalhe besta. [início 07/06/2011 - fim 14/06/2011]
"Homem Comum", Philip Roth, tradução de Paulo Henriques Britto, São Paulo: Companhia das Letras, 1a. edição (2007), brochura 14x21 cm, 131 págs. ISBN: 978-85-359-1087-2 [edição original: Everyman (Houghton Mifflin) New York, 2006]

sexta-feira, 17 de junho de 2011

obras encolhidas

Diomar Konrad é um bom frasista e tem mesmo uma imaginação poderosa (acrescentar que ele abusa da ironia nas horas vagas e não vagas é quase redundante). Anos atrás ele lançou uma primeira versão de suas "máximas", seus aforismos, compilados com paciência desde seus dias de estudante. A edição era bem acanhada, mas as frases se defendiam sozinhas e fisgavam o leitor. Recentemente ele produziu a segunda versão de suas frases feitas. São jogos verbais, onde ele usualmente surpreende o leitor com uma lógica torta, um viés diferente. Nesta edição ele contou com uma parceria nova, na forma de ilustrações a suas frases, produzidas por Paulo Chagas. As ilustrações dialogam com o texto, acrescentantando alguma leveza às palavras ásperas e ferinas do Diomar. Eles alcançaram mesmo um bom resultado. Se estes dois se animarem um tanto poderiam convidar uns outros sujeitos que adoram produzir frases de efeito e registrá-las em um blog (ou cousa que o valha). Sempre lembro do quão divertido é o blog mantido pelo Millor por exemplo, mas esta é apenas uma idéia torta minha. [início 13/05/2011 - fim 13/05/2011]
"Obras encolhidas - volume 2 : máximas de Diomar Konrad, ilustradas por Paulo Chagas, lidas por quem gosta de perder tempo", Diomar Konrad, ilustrações de Paulo Chagas, Santa Maria: editora Manuzio, 1a. edição (2011), brochura 11x18 cm, 48 págs. sem ISBN

quinta-feira, 16 de junho de 2011

joyce images

Comprei este livro há uns quinze anos. Foi um dos primeiros mimos relacionados a James Joyce realmente preciosos que consegui incorporar a meus guardados. A idéia original deste livro, a compilação das fotografias e design, é de um artista plástico e fotógrafo chamado Bob Cato. Ele contou com a edição realmente cuidadosa de Greg Vitiello e uma generosa e didática introdução do escritor (e joyceano de primeira hora) Anthony Burgess. Este é o tipo de livro que garante, principalmente aos familiarizados com a obra (e sobretudo a vida de Joyce), horas de puro deleite. A iconografia joyceana é relativamente grande, fazer uma compilação que seja abrangente mas não redundante não é trivial. Bob Cato conta uma história silenciosa, fazendo uso de curtas legendas, que mais contextualizam as circunstâncias do registro fotográfico que divagam sobre os fatos da vida dos sujeitos fotografados. O leitor pode se informar bem sobre Joyce no texto de Burgess e em uma cronologia detalhada incluída no final do livro. As fotos são apresentadas em ordem cronológica, os fatos mais marcantes de sua vida, de sua família, pontuados por elas. Reli (revi) este livro neste Bloomsday de 2011, enquanto me preparava e buscava inspiração para os sucessos do dia. Don Caetano Galindo estava a caminho e iria contar um tanto de sua experiência em traduzir o Ulysses. Com sua tradução a língua portuguesa será a única a ter quatro traduções completas e distintas do livro. A aventura começou com Antônio Houaiss em 1966, passou por João Palma-Ferreira em 1989, Bernardina Silveira Pinheiro em 2005 e chega agora a versão deste jovem linguísta e tradutor curitibano. Será um privilégio compartir com ele os festejos deste décimo-oitavo Bloomsday em Santa Maria, lembrar dos 33 anos da CESMA (que nasceu em um 16 de junho também). Cousa boa. É tempo: Stately, plump... [início 12/06/2011 - fim 16/06/2011]
"Joyce Images", Bob Cato, Greg Vitiello, Anthony Burgess, London: W.W. Norton & company, 1a. edição (1994), capa-dura 23x29 cm, 112 págs. ISBN: 0-393-03638-3