sexta-feira, 24 de abril de 2015

fundação e império

Após o primeiro volume o leitor já sabe como funciona a proposta de Isaac Asimov na série "Fundação": o tempo passa aos saltos (uma ou duas gerações, de forma que alguém sempre é aparentado de um avô ou neto de um personagem já conhecido); o conjunto novo de personagens descreve o quadro social e político de sua época; como num jogo de xadrez forças opostas se alinham e se distribuem pelo espaço (a galáxia inteira, sempre); uma guerra/crise acontece, um tipo de herói age para salvar o dia e o narrador descreve a nova configuração de poder. Enfim, o plano de Hari Seldon para minimizar o interregno entre dois impérios galáticos segue a sequência causal imaginada por ele no início da saga. No livro as leis da história são tão absolutas quanto as leis da física (considera-se apenas que as probabilidades de erro da história são maiores, afinal o número de homo sapiens sapiens na galáxia é menor do que o número de átomos, um mero problema estatístico). Assim sendo, não há como as ações de um único homem afetarem as tendências sócio-históricas de toda a galáxia (o determinismo histórico é sempre um deus ex machina, tanto na ficção quanto na realidade). Em "Fundação e Império" são duas as crises Seldon que devem ser enfrentadas pelos homens. A primeira cinquenta anos após o final do primeiro volume, a segunda após outros noventa anos. Na segunda parte do livro um novo personagem domina as ações, um sujeito conhecido como o "Mulo", que tem a habilidade de ajustar/modificar a mente e as emoções daqueles que o cercam. Esse sujeito torna-se o conquistador de toda a galáxia, mas sabemos que sua vitória é passageira. Assim como ele todos os demais personagens buscam encontrar a segunda Fundação criada por Hari Seldon, mas esse enigma só será deslindado na terceira parte da história. Logo veremos.
[início: 17/04/2015 - fim: 18/04/2015]
"Fundação e Império", Isaac Asimov, tradução de Fábio Fernandes, São Paulo: editora Aleph, 1a. edição (2009), brochura 16x23 cm., 244 págs., ISBN: 978-85-7657-067-7 [edição original: Foundation and Empire (New York: Gnome Press) 1952]

quarta-feira, 22 de abril de 2015

fundação

Com livros de ficção científica a fórmula simples: não importa o quanto é amalucada uma idéia ou proposta desde que a cousa mantenha-se auto-consistente durante o tempo de leitura (isso vale para qualquer dos infinitos gêneros e sub-gêneros fantásticos, mais do que vale para as narrativas realistas). Li a Trilogia da Fundação pela primeira vez no final dos 1970, antes de entrar na universidade, de ser um físico praticante, ver Star Wars no cinema, conhecer as idéias do Campbell, um tanto de mitologia, arte e filosofia, além de ter lido uns 1500 livros mais (entre eles o bom e velho Gibbon de "A história do declínio e queda do Império Romano"). Noutro dia o Marcos Fernandes, amigo paulista, economista dos bons e por vezes um otimista aprendiz de Hari Seldon, falou-me desta nova edição da trilogia e animei-me a voltar a ela. Claro, lê-se "Fundação" com prazer, o ritmo da narrativa é vertiginoso o suficiente para manter o interesse do leitor até o final, mas faltou-me a ingenuidade dos 16, 17 anos para poder apreciar melhor o livro. Aquilo que ele tem de melhor continua lá: enigmas e disputas como num bom romance policial, invenção realmente criativa de possibilidades tecnológicas e uso flexível de conceitos científicos corretos; mas confesso que me aborreci desta vez com as repetições no enredo, o fato de tudo ser demasiadamente explicado e a certeza de que nenhum personagem da história é digno de ser cultuado (a não ser o inefável Seldon, que desaparece fisicamente do livro nas primeiras cinquenta páginas para só aparecer ex machina de tempos em tempos quando é necessário resolver - artificialmente - um problema). A história é mais ou menos conhecida: num futuro absurdamente distante os homo sapiens sapiens vivem num regime imperial que domina toda a galáxia (algo com 25 bilhões de planetas onde vivem um quintilhão de pessoas, ou seja, "dez elevado a décima-oitava potência" pessoas). Hari Seldon é um psico-historiador que prevê a dissolução desse vasto império, um período de trinta mil anos de caos e o estabelecimento de um segundo império. Para evitar os tais trinta mil anos de sofrimento e morte, eis que ele e seus seguidores imaginam um plano que une algo de matemática avançada, métodos estatísticos, alta tecnologia e neurologia aplicada para minimizar o inevitável interregno para apenas mil anos. Esse plano implica no estabelecimento de duas entidades, duas Fundações, em extremos opostos da galáxia. Nesse primeiro volume são descritas as três primeiras ditas "crises do plano" imaginado por Seldon, uma cinquenta anos após seu exílio para a primeira Fundação, a segunda após outros trinta anos e uma terceira após mais setenta anos. Detalhar mais do que isso rouba o quê há de prazeroso no livro. É interessante, curioso, educativo; literatura de entretenimento que eu indicaria sem medo para meus sobrinhos adolescentes (caso eu os tivesse, claro), mas que chegou a aborrecer esse velho senhor e suas cãs. Vamos em frente.
[início: 15/04/2015 - fim: 16/04/2015]
"Fundação", Isaac Asimov, tradução de Fábio Fernandes, São Paulo: editora Aleph, 1a. edição (2009), brochura 16x23 cm., 239 págs., ISBN: 978-85-7657-066-0 [edição original: Foundation (New York: Gnome Press) 1951]

quarta-feira, 15 de abril de 2015

primavera do cão

Esse certamente é o mais compacto dos romances de Patrick Modiano que li. O sempre dúplice narrador de Modiano conta os fatos que lembra de um fotógrafo chamado Francis Jansen, que teria sido amigo de Robert Capa. O narrador convive com Jansen apenas os meses de uma primavera quente de meados dos anos 1960. O que aproxima os dois, narrador e personagem, é aquilo que podemos chamar de ambição literária (ou procedimento literário) de Modiano: o trabalho documental de registrar e catalogar informações para que as pessoas e as coisas não desapareçam sem deixar vestígios. Após ter sido  casualmente convidado por Jansen para participar junto com uma namorada de uma sessão fotográfica, o narrador passa a frequentar o ateliê de Jansen e decide catalogar o disperso acervo fotográfico do sujeito. Jansen percebe que o rapaz, um aprendiz de escritor, talvez alcançasse em seus escritos aquilo que ele tinha como objetivo no ofício do fotógrafo, fundir-se à paisagem e tornar-se invisível (capturar a luz natural, dizia). Jansen e o narrador operam assim uma espécie de sinestesia vivida. Após os três meses de primavera Jensen embarca para seu exílio voluntário no México e desaparece, nunca mais dá notícias. Após trinta anos o narrador decide escrever um livro onde cataloga as últimas lembranças que tem daquele sujeito: um relacionamento amoroso conturbado; o fato do marido de uma amante sua talvez ter sido um agente nazista durante a guerra; a melancólica festa de sua despedida; um último passeio por Paris que fazem juntos; uma visita ao campo, onde ele reconhece a paisagem de algumas fotografias (que se perderam todas, certamente, só existem em sua memória). Por uma associação dos diabos lembrei-me de um livro de Javier Marías, "Negra espalda del tiempo", em que um narrador conta a história de escritores que desaparecem, voluntariamente ou não, em lugares remotos, longe de casa. No caso de Marías ficamos sabendo as circunstancias da morte do escritor Wilfrid Ewart, no México, numa noite de ano novo; no caso de Modiano em "Primavera do cão" o narrador não se dá ao trabalho de inventar o futuro para seu personagem, preocupado que está apenas em seu passado. Interessante.
[início - fim: 14/04/2015]
"Primavera do cão", Patrick Modiano, tradução de Maria de Fátima Oliva do Couto, Rio de Janeiro: editora Record, 1a. edição (2015), brochura 13,5x21 cm., 110 págs., ISBN: 978-85-01-10306-2 [edição original: Chien de printemps (Paris: Editions du Seuil) 1993]

segunda-feira, 13 de abril de 2015

na lata

Você percebe que o bom poeta que lê há 150 páginas realmente é dos grandes quando encontra um "SEM PACTO // "I make a pact with you, Walt Whitman" // Erza Pound // 'poeta que se diluiu / dá cria: / diluidores mil // e cda / deu mole / dilui-se / cedeu // com drummond não tem pacto: / carrego comigo / só / sua pedra impacto // pra jogar na moleira / versiprosa brasil / que ele mesmo / pariu'. Frederico Barbosa reuniu em "Na lata" toda sua produção poética de 1978 a 2013, 35 anos de poesias. São pelo menos oito outros livros que desaguaram nesse: Rarefato (Iluminuras, 1990); Nada Feito Nada (Perspectiva, 1993); Contracorrente (Iluminuras, 1993); Louco no Oco sem Beiras (Ateliê editorial, 2001); Cantas de Amor entre os Escombros (Landy editora, 2002); Brasibraseiro (Landy editora, 2004); A Consciência do Zero (editora Lamparina, 2004) e Signicidade (Dulcineia Catadora, 2009). Mas há outros poemas que não vieram de livros, mas sim de jornais, de revistas, de sites, de blogs, das efêmeras e turbulentas redes sociais (ou seja, nenhum poema perdeu-se da arca desse Noé criador de "already mades", como grafou Kenneth David Jackson na contracapa). Pois sim, Frederico Barbosa fez retoques ou revisou completamente muitos deles, misturou-os todos, organizou-os não cronologicamente ou compartimentados em suas prévias encarnações, mas sim num livro onde todos eles ficam juntos, redistribuídos em nove conjuntos, nove temas, talvez inventados quando da edição do "Na lata", talvez já engendrados quando da criação deles. Um dos objetivos confessos do livros é explorar o conceito de palavra-impacto (a poesia como composição construtora de efeitos). Não sei se entendi corretamente, mas acho que o leitor encontra impacto suficiente no livro para esse conceito merecer crédito. Os nove conjuntos de poemas se oferecem ao leitor como se fossem novos, inéditos (e são mesmo, se um sujeito leitor não os conhecia antes). As propostas tem vocação distinta: ora se fala da literatura, da tradição poética, dos precursores de um efebo; ora é a geografia da história pessoal do poeta que transborda dos poemas; ora vaza o engajamento de um sujeito vive seu tempo (nec metu); ou são palavras de um sedutor, de um apaixonado, de alguém que usa os sentidos do corpo ao enfeitiçar (e ser enfeitiçado) pela Musa. Gostei muito de um efeito que Frederico usa em vários poemas, o de fragmentar as palavras para que o poema se encaixe numa determinada forma. Gostei particularmente das séries "Sobre Si", "De Ocasião" e "Lírica Paralela"; das séries de poemas mais longos (ou conjuntos temáticos de poemas enfeixados num título); das citações literárias (o descobrimento do Ulysses, de James Joyce, em seu "Certa biblioteca pessoal 1978" é algo que me fez viajar feliz pela memória dos dias de São Bernardo do Campo) e especialmente de "Um poema para si" (cuja reprodução encontrei num blog). Bueno. Livros de poemas não se esgotam numa leitura, nem em duas, nem em muitas, por isso é bom saber que esse "Na lata" estará nos meus guardados, ao alcance da mão, para ser folheado num outro dia, numa outra primavera, num outro verão. Vale.
[início: 16/06/2014 - fim: 11/04/2015]
"Na lata: poesia reunida 1978-2013", Frederico Barbosa, São Paulo: editora Iluminuras, 1a. edição (2013), brochura 14x21 cm., 368 págs., ISBN: 978-85-7321-407-9

domingo, 12 de abril de 2015

certos homens

São cinquenta crônicas, quase todas originalmente produzidas para a Veja São Paulo. A maioria delas foi publicada entre 2007 e 2011, mas há algumas antigas, de meados dos anos 1990, que talvez o editor entendeu ficar bem com as mais recentes. São crônicas de um cotidiano urbano, de um sujeito que entende seu mundo, tem os sentidos suficientemente em forma para registrar com verossimilhança aquilo que o cerca. Ivan Angelo repercute os assuntos com calma e sem se envolver em polêmicas inúteis. Algumas descrevem uma visita física ao campo, ao subúrbio, a praia; noutras uma visita espiritual ao passado, a memória da infância e da juventude; mas a maioria é mesmo sobre os dias em uma grande cidade que nivela todos os viventes pelo anonimato. Em uma ou outra crônica arrisca um tema mais controverso, digressa por estereótipos e lugares comuns. Ler muitas de uma vez cansa, afinal elas foram produzidas para serem absorvidas num café da manhã de domingo, sob o sol, quando estamos cercados pelo cheiro de café bem forte e pães ainda quentes. Entretanto, quando retomamos a leitura  após termos abandonados o livro por uns dias, sentimos novamente a força e a verdade das histórias, do registro vivo de nosso tempo.
[início: 02/03/2015 - fim: 11/04/2015]
"Certos homens", Ivan Angelo, Porto Alegre: Arquipélago editorial (coleção: Arte da crônica), 1a. edição (2011), brochura 14x21 cm., 205 págs., ISBN: 978-85-60171-21-7

quinta-feira, 9 de abril de 2015

things i didn't know

Quando um grande amigo passa pelos aborrecimentos de uma separação é inevitável: você acaba ficando com parte da vida dele (não apenas as histórias e palavras ditas por ele, mas muitas vezes dos objetos dos quais ele prefere se desfazer). De don Renato Cohen, capitão de longo curso, ganhei um bocado de livros, como esse "Things I didn't know", de Robert Hughes. Renato e eu devemos ao Hughes um tanto de nossa educação estética. Lembro-me de como comentávamos cada um dos capítulos de "O choque do novo", série que assistíamos na TV Cultura de São Paulo nos anos 1980. Depois lemos "Barcelona" e "Goya" e, mas recentemente, vimos "American Visions", outro bom documentário. "Things I didn't know" é uma boa autobiografia, mas ela conta apenas metade de uma história, pois termina quando Hughes emigra para os Estados Unidos e passa a colaborar com a revista Time, em 1970 (ele viveria mais de quarenta anos lá e só morreria, ativo e ainda influente no mundo da crítica de arte, em agosto de 2012). Lê-se suas memórias com prazer. À exceção do primeiro capítulo, dedicado a descrição de um grave acidente automobilístico ocorrido em sua Austrália natal e dos kafkianos desdobramentos jurídicos dele, os demais oito seguem a seta do tempo linearmente, desde sua infância em Sidney, filho mais novo de uma próspera família de advogados cujo pai combateu na primeira grande guerra, até a vida louca na Londres hiperurbana do final dos anos 1960, já casado e com um filho pequeno. Hughes nos conta sobre seus pais e antepassados remotos (o manual dos livros de memórias praticamente obriga um capítulo dedicado a essas arqueologias pessoais) e fala bastante sobre sua educação jesuítica e mentores intelectuais. Descreve como se aproximou da arte através da arquitetura (em seu curso superior de belas artes) e como entrou no mundo da televisão (e mesmo na crítica de arte) por acaso. A Austrália de seus dias de estudante (anos 1950) era muito conservadora, provinciana e o acesso a peças originais de arte moderna limitadíssimo. A discussão sobre arte moderna praticamente inexistia. Portanto, sua educação estética não é exatamente formal, fruto da experiência acadêmica. Hughes se aproxima dos artistas de seu país, sobretudo artistas plásticos, mas também atores, músicos, dramaturgos, frequenta ateliers, galerias, exposições, lê os livros clássicos sobre o tema que encontra. Faz algum turismo em Londres. Depois dos anos em que tenta viver como pintor, logo após terminar os estudos superiores, descobre que sua habilidade em falar e escrever sobre pintura é muito superior a sua técnica. Incentivado por um mentor (o escritor australiano Alan Moorehead) ele emigra para a Inglaterra e vive como escritor freelancer dos cadernos culturais de jornais londrinos (antes de se fixar em Londres ele passa um curto período nos Estados Unidos, onde conhece Robert Rauschenberg, Cy Twombly e Jasper Johns, além de gastar dinheiro em Las Vegas). Posteriormente vive uns anos na Itália e descobre lá um admirável mundo novo de arte escultória e afrescos etruscos e romanos (também aprende a relacionar-se melhor com os amigos influentes ligados ao jornalismo e ao circuito das artes). No final dos anos 1960 ele acompanha com seu trabalho a explosão da contracultura, tempo de maior engajamento político, contestação dos sistemas de poder estabelecidos, curiosidade com a experiência das drogas. Hughes não é exatamente um enfant terrible, mas frequenta vários círculos de ativistas políticos e culturais (sua mulher acaba sendo descrita com crueldade como uma drogada incorrigível). Com fontes limitadas de trabalho e a perspectiva do nascimento de um filho, Hughes e a mulher passam algum tempo na Espanha, ainda sob a ditadura franquista. Lá ele conhece a renaixença catalã e, em Madrid, os grandes pintores do século de ouro espanhol. Cada uma de suas cumulativas experiências longe da Austrália o fazem entender o fenômeno da arte com maior abrangência. Ainda trabalhando com a produção de documentários culturais na BBC2 londrina, no final dos anos 1960 Hughes escreve dois livros de arte, que venderam pouco mas alcançaram críticas bastante generosas ("The Art of Australia", em 1966 e "Heaven and Hell in Western Art", em 1969). Henry Grunwald, um australiano de nascimento e à época editor da Time Magazine, interessou-se por "Heaven and hell in Western Art" e resolveu contratar Hughes para a posição de crítico de arte da revista. Hughes parte de Roma para Nova Iorque e sabe que sua vida mudaria completamente. Mas isso só uma biografia completa poderá detalhar (sem saber onde encontrar uma, achei esse bom site sobre ele). Enfim, trata-se de um livro irregular, com passagens muito estimulantes mas também com seções bem tediosas. Esses altos e baixos não desmerecem totalmente o livro. Hughes nos ensina a enxergar melhor o mundo, perceber melhor as relações entre as pessoas, principalmente através das lentes da arte moderna. Defende a idéia que cada obra de arte deve oferecer ao indivíduo algo estimulante, inquietante, caso contrário é lixo (e não se deve entender cada movimento artístico como algo monolítico, inexpugnável, imune a críticas). Fala da vitalidade australiana, da busca incessante por conhecimento, da capacidade de aprender (e do papel da sorte em nossa vida, como não?). E como não agradecer uma vez mais o Cohen por me oferecer um presente tão especial assim. Evoé Renato Cohen, evoé.
[início: 12/01/2015 - fim: 07/04/2015]
"Things I didn't know: a memoir", Robert Hughes, New York: Alfred A. Knopf (Random House), 1a. edição (2006), capa-dura 16,5x24 cm., 399 págs., ISBN: 1-4000-4444-8

quarta-feira, 8 de abril de 2015

mais laiquis

São treze contos curtos, ligeiros, que se deixam ler num par de viagens da casa para o trabalho. O que se narra é o cotidiano de uma grande cidade, a vida que passa num sopro, o realismo áspero deste início de século, a ilusão de que quanto mais rapidamente fazemos algo mais ativos estamos, seja no trabalho, numa etapa nos estudos, num deslocamento, numa tarefa, no exercício do amor e da mundanidade, nas múltiplas interações com os outros. O humor dos contos é apenas aparente, camufla destinos ou comportamentos algo cruéis. Marcio Renato narra sobretudo aborrecimentos: o de uma garota que espera o amante acordar num hotel, sem ânimo para postar algo numa rede social; a noite de um profissional que se embriaga como se comemorasse mais sua solidão que o sucesso no trabalho; o desaparecimento de um corretor que sabe de sua inaptidão para viver numa grande cidade; o anacronismo de uma banda de velhos amigos roqueiros; a inveja dos amigos de um sujeito que alcança publicar um livro; a entrevista amalucada com um crítico de arte charlatão; a namorada de um ciclista que descobre que não o conhece muito bem. O minimalismo deles lembra Raymond Carver (lembrei várias vezes de um velho filme de Robert Altman baseado nos contos de Carver, "Short Cuts"). Marcio sabe escrever bons diálogos e quando é descritivo foca no que realmente é fundamental na história. Eu, mais velho e mais pessimista que ele, chamaria esse livro de "Os desajustados", porém "Mais Laiquis" talvez seja irônico na medida certa para identificar o bom livro que é.
[início - fim: 07/03/2015]
"Mais Laiquis", Marcio Renato dos Santos, Curitiba/PR: editora Tulipas Negras, 1a. edição (2015), brochura 13x21,5 cm., 80 págs., ISBN: 978-85-917171-1-8

terça-feira, 7 de abril de 2015

la torre de londres

Nesse volume encontramos dois textos curtos de Natsume Soseki. Ambos tem uma vocação diferente da que encontramos no outro volume dele que já resenhei aqui (onde estão reunidos "Carta de Londres" e "Diario de la bicicleta"). Se nesses os textos são dirigidos a amigos em Tóquio que posteriormente foram reproduzidos numa revista quando Soseki retorna ao Japão, "La Torre de Londres" e "El museo Carlyle" certamente foram escritos já no Japão, baseado em registros de seu diário e de sua memória (e também editados numa revista). Soseki, que morou em Londres entre 1990 e 1903,  visitou a Torre de Londres uma única vez. Ele enfatiza que uma segunda ou mais visitas destruiria lamentavelmente a rica lembrança da primeira. Ele percorre os vários prédios do conjunto arquitetônico (pois a Torre de Londres não é uma torre isolada), descreve as instalações, mobiliário, inscrições gravadas nas paredes e conta rapidamente os sucessos mais terríveis que ocorreram ali. Ele confessa que as descrições que faz tem muito de invenção, de recriação dramática, sobretudo quando fala das circunstâncias de algumas das mortes mais célebres, como a de Edward IV, Lady Jane Grey, Edward V e seu irmão (os jovens príncipes). Contrastando com a escala grandiosa e os feitos lúgubres associados à Torre, Soseki descreve no segundo texto uma visita que fez a casa/museu de Thomas Carlyle, o renomado escritor e historiador inglês do século XIX. Se na visita à Torre a natural curiosidade dos demais visitantes com o inusitado de um oriental bem vestido fazer turismo não chegou a incomodá-lo, na visita à casa de Carlyle ele foi acompanhado por um guia que incomodou-o o tempo todo. Esse guia infernal insistia em dar explicações sobre a origem dos móveis e disposição deles pela casa, enquanto Soseki queria apenas ter acesso a biblioteca e conhecer o andar onde estava instalado o escritório original do escritor (que de resto projetou a casa e o escritório para ter paz e silêncio quando trabalhava). O texto é bem humorado e quando Soseki consegue livrar-se do guia e passeia só pelo jardim dos fundos da casa também nós, os leitores, sentimos algum alívio e ficamos mais dispostos a desfrutar as delícias daquele belo lugar. Vale.
[início: 14/03/2015 - fim: 16/03/2015]
"La Torre de Londres: seguido de El Museu Carlyle", Natsume Soseki, tradução de Fernando Ortega, Palma/España: José J. de Olañeta editor (coleccíon Centellas), 1a. edição (2013), brochura 9,5x14 cm., 125 págs., ISBN: 978-84-9716-865-6 [edição original: 倫敦塔 (Tokyo: Hototogisu,  ホトトギス) 1905]

segunda-feira, 6 de abril de 2015

cartas de lejos

Encontrei esse livro na boa Auzolan Librería, em Pamplona. Josep Pla sabe contar suas histórias e compartilhar com o leitor suas alegrias, encantos, descobertas. Nessas "Cartas de lejos" encontramos Pla no extremo norte da Catalunya, em Pontvendres, na fronteira com a França e partimos com ele numa longa viagem. A versão revisada em livro é de 1981, mas os textos foram antes publicados em jornal, aos poucos, durante o período da viagem, por volta de 1925/1926. A bússula de Pla ruma ao norte, para a fria Escandinávia com seus fiordes e montanhas, mas faz o trajeto vagarosamente, percorrendo antes as planícies e vales do continente europeu, as pequenas e grandes cidades da França e Inglaterra, Bélgica e Holanda, Alemanha e Dinamarca,  para só então enfrentar as alturas da Noruega, Finlândia e Suécia.  Ele visita tabernas e pensões populares, fala com gente simples sobre trivialidades, mas também vai a universidades, aos teatros, fala com seus colegas jornalistas em cada canto. As distâncias que vence são enormes, o tempo desprendido longo. Ele faz uso sobretudo de trens e barcos, nunca avião ou automóvel. Pla fala do prazer em descobrir as cidades, observar os costumes, experimentar a comida, contrastar aquilo que cada povo diz de si mesmo com aquilo que ele vê. São impressões fotográficas, sintéticas, mas muito ricas. As superstições populares de cada lugar são comparadas com aquelas que ele conhece de sua sempre presente Catalunha (um homem sempre carrega muito de sua casa consigo, quase como um caramujo). Há registros sobre culinária e linguística, sociologia, economia e política, geografia e história dos lugares. As imagens que ele cria são poderosas, os adjetivos contidos. Não se trata de textos para turistas, uma compilação informativa de hotéis e pontos de interesse, mas sim algo de interesse perene, crônicas literárias subjetivas das descobertas que um homem realmente curioso faz. Nunca me canso de dizer: Que narrador poderoso. Que sujeito! Felicitats Josep!
[início: 12/02/2015 - fim: 20/02/2015]
"Cartas de lejos", Josep Pla i Casadevall, tradução de Josep Daurella, Barcelona: Ediciones Destino (Contemporánea Narrativa, colección Austral, 851) / Grupo Planeta), 1a. edição (2015), brochura 13x19 cm., 274 págs., ISBN: 978-84-233-4889-3 [edição original: Cartes de lluny - l'obra completa de Josep Pla (Barcelona: Josep Vergés i Matas / ediciones Destino) 1979]