domingo, 13 de setembro de 2009

tu rostro mañana 3: veneno y sombra y adiós

Tu rostro mañana 3: Veneno y sombra y adiós. Será difícil escrever esta resenha sem transformá-la em um "spoiler", ou seja, de falar sobre a trama, das histórias que se completam, dos enigmas que são elucidados. Esta terceira parte de "Teu rosto amanhã", ou melhor, terceira parte de "Tu rostro mañana", consegui comprar na versão original (pois a tradução só será publicada aqui no ano que vem). Comprei na Gran Via madrilleña, em uma tarde de sol e calor, feliz da vida ao achar o livro, como deveria sempre ser. Por conta disto já te aviso, caro e eventual leitor, só leia a partir daqui por tua conta e risco. No primeiro volume (Febre e lança) Javier Marías começa dizendo que "Ninguém nunca deveria contar nada". No segundo volume (Dança e sonho) ele começa com "Calar é a grande aspiração que ninguém realiza", um mal da modernidade, na definição do ancião Peter Wheeler. Já neste terceiro volume (Veneno y sombra y adiós) ele diz ao iniciar: "Não desejamos, mas preferimos sempre que morra quem esteja a nosso lado", e por aí segue por setecentas páginas. A teoria cede à realidade, à violência. O romance inteiro deve ter umas mil e seiscentas páginas, mas cada uma delas tem algo a dizer ao leitor (mesmo aquelas criticadas por mim no segundo volume, confesso). A história avança, paralisada que estava com a decisão de Tupra de mostrar algo ao narrador Jaime Deza. Tupra (ou Reresby, ou Ure, ou Dundas) mostra a Jaime (ou Jacobo, ou Jack, ou Iago, ou Jacques) filmes onde sujeitos estão ativa ou passivamente, direta ou indiretamente, cometendo os mais variados tipos de crimes, se drogando, sendo violentos, trepando, executando, torturando, se reunindo com tiranos, roubando, participando de jogos cruéis. São filmes que servem para ter-se e exercer-se poder sobre as pessoas. Tupra responde a indagação de Deza sobre o porque de toda aquela violência dizendo que todos os seres humanos são capazes, mesmo os que negam ou não o sabem de antemão, dos atos mais violentos, das declarações ou dos comportamentos mais torpes, desde que seja imperiosamente necessário que nos comportemos assim, seja racionalmente ou apenas institivamente. Enfim, a partir desta injeção de veneno Deza parece entender melhor o que faz no seu trabalho, utilizando aquela habilidade incomum de ser capaz de interpretar o caráter e a personalidade das pessoas apenas conversando um pequeno período de tempo com elas, ou apenas as vendo de longe, enquanto conversam com terceiros. Os personagens dos capítulos iniciais voltam a participar ativamente da trama. Sua colega Pérez-Nuix lhe pede um favor e os dois mantêm um curto romance. Deza visita um ainda assustado De la Garza, recuperado da surra que levou. Deza e Tupra viajam pelo mundo coletando informações e, além de ganhar uma certa sofisticação, ele passa a controlar muito melhor a sua arte. De férias na Espanha fica sabendo que sua ex-mulher está tendo um caso com um sujeito (o pintor Custardoy, personagem de "Coração tão branco", que conheceremos melhor aqui) que é violento com ela. Deza descobre aos poucos que ele não apenas sente ciúmes mas é capaz de ser tão violento quanto Tupra foi com De la Garza. De volta a Londres visita seu antigo professor Lord Wheeler, que vem a ser irmão de um de seus mentores nos tempos de Oxford, o mercurial Toby Rylands, que vivia já aposentado às margens do rio Ísis, com seus cisnes selvagens como companhia. Foi este último que detetou a capacidade de observação de Deza e o indicou, primeiro ao irmão Wheeler e depois ao próprio Tupra, para ser recrutado pelo serviço de informações que eles criaram. No início ele marca esta visita ao velho professor para coletar informações sobre Tupra (de quem de resto jamais saberá nada), mas acaba sabendo mais sobre o papel de Wheeler na segunda guerra mundial, sobre as circunstâncias da morte de sua mulher Valerie, sobre seus contemporâneos e colegas, sobre muitos assuntos relacionados à espionagem e os serviços de segurança da Inglaterra durante a guerra fria. Ele fala muito sobre pintura (há uma longa sessão que se dá no museu do Prado) e literatura ou ainda sobre o cinema, tudo muito interessante. Há muitas outras coisas para falar deste livro, mas a idéia aqui é fazer mesmo curtas resenhas. Poderia falar muito sobre o trecho longo onde Deza e Custardoy caminham da região do Retiro (em Madrid) até a região da praça do Oriente, que é espetacular; sobre a teoria de Marías sobre o que aconteceu no mundo entre a queda do muro em 1989 e os atentados terroristas de 2001; sobre a presença do personagem Custardoy ou os personagens ligados ao mundo taurino; ou sobre a doença e as conversas que Deza tem com seu pai; sobre as diferenças entre o jogo sujo, de desinformação, na guerra civil espanhola e na segunda guerra mundial; ou a transformação de Deza; a ainda a discussão sobre a vida pessoal e o trabalho; ou mesmo sobre as línguas e como os povos se relacionam e se afastam por conta das diferenças entre as línguas; enfim, há muitas coisas neste romance. Talvez um dia eu venha a relê-lo de uma vez só, sem interrupções. Se nos dois primeiros volumes a ambientação do romance se concentra em poucos cenários, deste último há muito mais sobre o que refletir. Aparentemente com este livro Javier Marías resolve questões pessoais com os algozes franquistas de seu pai e com seus anfitriões ingleses. Vamos esperar um tanto para ver que outra obra, que outro romance, ele escreverá após o longo período em que esteve envolvido com "Tu rostro mañana". [início 26/08/2009 - fim 04/09/2009]
"Tu rostro mañana: Veneno y sombra y adiós", Javier Marías, editora Alfaguara (1a. edição) 2007, brochura 14x23, 709 págs. ISBN: 978-84-204-7235-5

Um comentário:

Natália C. Diacoyannis disse...

To vendo que esse livro vai acabar ficando por aí né... hahaha
Obrigada pelo comentário, beijos