segunda-feira, 7 de setembro de 2020

explora madrid

Já registrei aqui algo das boas lembranças que tenho de Madrid ("Escrito en el cielo", "Guia Madrid diferente"). De tempos em tempos leio algo sobre a cidade. Esse "Explora Madrid" é um volume fartamente ilustrado. Encontramos dezenas de reproduções fotográficas, gravuras, desenhos, pinturas, mapas. Os textos são curtos. Tratam da história e de anedotas, causos populares, lendas urbanas. Não é propriamente um guia turístico, nem tampouco está desatualizado. Os autores tentem a valorizar aspectos não exatamente históricos, antes sim indiscrições, mexericos, fofocas que ficaram populares. Eles também enfatizam que o segredo de um bom turista é ter novos olhos a cada visita, pois os descobrimentos são pessoais, intransferíveis. De qualquer forma, o livro é dividido de forma canônica. Um terço corresponde a geografia e história formal da cidade, descrevendo os vestígios urbanos da Madrid Medieval, da Madrid de los Austrias, da Madrid de los Borbones. Comentários sobre mais de trinta lugares são apresentados em um mapa, o que ajuda o leitor a localizar-se e deambular pela cidade. Os dois terços restantes são divididos em três partes: uma trata de lugares associados a causos bizarros, mortes, assassinatos, as tais lendas urbanas; uma a lugares de encanto, onde amores virtuosos ou proibidos se consumaram; uma última sobre as Tabernas ou Casas mais castizas (genuínas, tradicionais) de Madrid. O livro inclui também uma última seção, onde se fala de curiosidades histórias e apresenta as receitas mais tradicionais da cidade. Por fim, uma farta bibliografia ajuda o leitor curioso a procurar mais informações. O leitor aprende um bocado lendo os ensaios incluídos no livro, mas apenas folheá-lo, com calma, vagabundo, sem medo, já faz a alma um grande bem. Vamos em frente. Vale!
Registro #1565 (turismo #16)
[início: 13/07/2020 - fim: 19/07/2020]
"Explora Madrid", Fátima de la Fuente del Moral e Enrique Fernández Envid, Madrid: Ediciones La Librería, 1a. edição (2017), brochura 21x21 cm, 212 págs., ISBN: 978-84-9873-361-7

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

estudo sobre a carne humana

De Deonísio da Silva, respeitado escritor, professor e filólogo, só conhecia o bom livro de referência "De onde vem as palavras", que partilha espaço em minha biblioteca com os Houaiss e os Aurélios, o Oxford e o Cambridge, os Câmara Cascudo e um punhado de outros mais. Semanas atrás, ouvi uma transmissão do "Universidade aberta", mantido pela Secretaria de Cultura de Porto Alegre e coordenado pelo professor Sergius Gonzaga, no qual o Deonísio da Silva era o entrevistado. Aprendi um bocado, sobre sua vida, carreira acadêmica e produção literária. Descobri que o sujeito já publicou mais de trinta volumes, entre romances, contos e ensaios (e que já foi várias vezes premiado). Curioso, procurei alguns livros, e resolvi começar pelo mais antigo que encontrei. Em "Estudo sobre a carne humana", de 1975, estão reunidos quatorze contos curtos. Neles transparece um fino leitor de tipos humanos, alguém que sabe incluir nas narrativas, sem sufocá-las, passagens das mitologias, histórias bíblicas, alguma etimologia, curiosos registros de linguagem popular e, sobretudo, o clima tenso e hipócrita dos tempos repressores da ditadura militar. Ele parece navegar por um mar de censores, cuidando o tom, mas sem comprometer as verdades de suas histórias. Há também muito humor nas histórias, que se passam tanto no mundo urbano, citadino, quanto no mundo do campo, periférico, das pequenas cidades. Os temas dos contos são variados. Alguns flertam com causos ou lendas urbanas (a do americano que ao fazer uma pesquisa médica no campo é visto como um vampiro no imaginário do povo, a do destino do dinheiro talvez escondido por um fazendeiro de origem italiana, a do médico inepto que por acaso descobre uma doença real em um paciente, a do diplomata que faz parecer que sabe muito sobre o mundo das mulheres, a do amigo estudante que volta de Paris e conta histórias em um bar, a de uma velha senhora que morre queimada, a de um bastardo "alemão" do norte brasileiro que se entrega a bebida). Outros contos tratam do ambiente escolar, tanto das seculares quanto das confessionais (são onde o sarcasmo domina a narrativa, demonstrando como a experiência pessoal pode se metamorfosear em literatura sem ofender ninguém). Como já registrei acima, o que se destaca em todos os contos é a capacidade de criar personagens (além de provocar o leitor com deliciosos jogos verbais). Lembrei muito do Elias Canetti, de um livro dele onde são apresentados perfis de pessoas, associados a suas características físicas ("O Todo ouvidos"), que li há décadas. É isso, vamos seguir em nosso baile macabro de pandemia. Vale!
Registro #1564 (contos #182)
[início: 13/08/2020 - fim: 18/08/2020]
"Estudo sobre a carne humana", Deonísio da Silva, Curitiba: Editora Hoje, 1a. edição (1975), brochura 12x19,5 cm, 83 págs., sem ISBN

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

aurora bernardini: entrevista

"Aurora Bernardini: entrevista" é o primeiro volume de uma coleção de entrevistas publicada pela editora Medusa, de Curitiba. Aurora Bernardini é italiana de nascimento (1941), mas radicou-se no Brasil na adolescência (1954) e fez carreira universitária na USP, onde foi de aluna (de graduação, mestrado e doutorado, nos anos 1960 e 1970 ) a professora titular. Além das atividades acadêmicas ela também traduziu ou profissionalmente ou apenas por prazer muitos autores, sobretudo italianos e russos, sendo bastante respeitada pela qualidade de seu trabalho. Neste volume estão reunidas basicamente duas entrevistas e um conjunto de exemplos de tradução, comentados por ela. A primeira entrevista é bastante curta, cousa de dez laudas, e é conduzida Andréia Guerini, uma das organizadoras do volume. A segunda entrevista foi conduzida por Leandro Silveira Pereira é bem mais longa (quase quatro vezes mais extensa) e já havia sido publicada na Revista Getúlio, em 2007. Em ambas ela fala algo de sua vida, sua formação, suas escolhas estilísticas, seu amor pela poesia, sua experiência no complicado mundo editorial, entre outros assuntos literários. O tema que mais surpreende o leitor é sua descrição de como envolveu-se na tradução de "boletins amazônicos" produzidos por um conterrâneo seu, o nobre italiano Ermanno Stradelli, um explorador, etnógrafo e folclorista que viveu no Brasil entre os anos 1879 e 1926 (quando morreu, em Manaus). Como ela mesmo diz em algum momento da segunda entrevista, ela o fez porque gostaria de compensar-se da frustração de trazer ao Brasil grandes autores (Velimir Khlébnikov, Boris Pasternak, Marina Tsvetáieva, Luigi Pirandello, Giuseppe Ungaretti), que o público não lê.  Os exemplos de tradução reunidos neste volume são do russo Khlébnikov, do italiano Pirandello, do brasileiro Raduan Nassar e do italiano Eugenio Montale (onde ela se corresponde com um outro grande tradutor brasileiro, o paulista Haroldo de Campos). O livro inclui também uns mimos: um curto ensaio e um apêndice (confusos à beça, pois trata-se de uma comunicação acadêmica sem o aparato visual que deve ter sido utilizado na ocasião); uma longa lista das traduções publicadas por Bernardini; uma relação de alguns de seus artigos artigos publicados em livros, revistas e sites eletrônicos. Ao leitor só resta agradecer a Aurora Bernardini por ser tão diligente e industriosa. Evoé! Em breve registro aqui o outro volume da coleção, entrevistas com o catarinense Donaldo Schüler. Segue o baile. Vale!
Registro #1563 (perfis e memórias #100)
[início: 19/06/2020 - fim: 21/06/2020]
"Aurora Bernardini: entrevista", Andréia Guerini e Sérgio Medeiros (organização), Curitiba: Editora Medusa (coleção Palavra do tradutor), 1a. edição (2018), brochura 13,5x19,5 cm, 116 págs., ISBN: 978-85-64029-57-6

terça-feira, 1 de setembro de 2020

beer

Já contei aqui que há tempos ganhei de presente de don Renato Cohen um pacote com vários livros de arte (Vintage Pictures and advertising), para serem utilizados em fins decorativos. Naquela oportunidade falei de um livro com rótulos de vinhos e cartazes de propaganda de vinícolas (Wine Labels). Esse outro volume é irmão daquele. Agora trata-se de uma coleção de reproduções de garrafas ou latas de cervejas e de cervejarias. Assim como a anterior são um pouco mais de cem reproduções. O leitor perde-se ao folhear o livrinho sem pressa, deixar-se levar pela aventura daqueles rótulos que provavelmente nunca encontrará adornando garrafas reais, que se possa encontrar em uma loja. O design dos rótulos é realmente antigo, acredito que da primeira metade do século passado, ou ainda mais velhos. O leitor pode ter uma amostra do efeito visual dos rótulos neste link Pinterest: clika! Li/vi esse livrinho faz tempo, mas a experiência estética foi agradável o suficiente, prazerosa o suficiente, para que, mesmo nestes tempos dementes e sombrios de pandemia, a vida fosse minimamente tolerável lá nas terras altas de Itaara, onde fiquei cinco meses isolado. Segue o baile. Vale! 
Registro #1562 (livro de arte #36) 
[início - fim: 11/06/2020] 
"Beer: Vintage Pictures and advertising", Hong Kong: Retro Books Team (CookLovers), 1a. edição (2012), capa-dura 14x17,5 cm, 64 págs. ISBN: 978-8562-24766-8

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

a lua é um balão

Já li "A lua é um balão" um bom número de vezes. Os causos e fragmentos de memória reunidas nele tornaram-se em certa época boa parte de meu cancioneiro de contador de histórias. David Niven nasceu em 1910 e morreu em 1983, fez mais de 90 filmes e ganhou um Oscar, o de melhor ator, em 1958. Alcançou muito sucesso na vida, mas não sucesso gratuito, pois sempre foi muito diligente e trabalhador. No livro ele fala de sua vida, desde a infância até basicamente os anos 1960, quando saiu dos Estados Unidos e passou a viver no sul da França (existe um segundo volume de suas memórias, "Mulheres de classe, cavalos de raça", que é tão divertido quanto este, onde explora mais os filmes que fez após esta volta à Europa e as últimas duas décadas de sua vida). O tom de "A lua é um balão" sempre é bem humorado, mesmo quando ele fala de suas dificuldades, seus fracassos, suas perdas. Niven conta sobre seus anos de formação, inicialmente em colégios de elite inglesa, muito embora ele não fosse um exemplo de estudante; de sua iniciação sexual; da derrocada financeira de sua família, com a morte de seu pai na primeira grande guerra; de sua formação militar e vida no exterior; de como emigrou para os Estados Unidos, tornou-se um vendedor de whisky e acabou entrando quase por acaso no mundo do cinema; dos filmes que fez, na época em que o cinema era onipresente no imaginário popular; de seu reengajamento militar, para servir na segunda grande guerra; dos altos e baixos de sua carreira; de seus muitos amigos e família. Não me atrevo a tentar resumir a vida movimentada de um sujeito como ele em uma resenha ligeira como essa. O que sempre me impressiona neste livro é o tom do registro, mesmo quando o assunto é delicado ou até constrangedor Niven alcança manter o leitor preso a narrativa. Com estoicismo ele enfrenta tanto a sedução do limite, da hybris grega, quanto as derrotas e fracasso. Talvez este seja o mais precioso ensinamento que ganhei na primeira leitura e que poupou-me nestas últimas quatro décadas de sofrer muitos aborrecimentos. Grato por isto, David Niven. Grato. Vale! 
Registro #1561 (perfis e memórias #99)
[início: 01/07/2020 - fim: 11/07/2020]
"A lua é um balão", David Niven, São Paulo: Nova Época Editorial, 2a. edição (1975), brochura 14x21 cm, 336 págs., sem ISBN [edição original: The Moon's a Ballon (London: Hamish Hamilton) 1971]

domingo, 30 de agosto de 2020

vidas imaginarias

Sobre Marcel Schwob li boas recomendações em textos de Borges e Sebald, de Vila-Matas e Bolaños, de Javier Marías e outros tantos, mas foi o industrioso José Francisco Botelho quem convenceu-me a de fato procurar algo dele. "Vidas imaginarias" é de 1896. Schwob tem uma biografia de lenda, viajou muito, leu muito e sofreu muito, mas isso um leitor curioso deve procurar por aí, sozinho, no mar piscoso e infinito  de informações recolhidas neste curioso século XXI. São vinte e dois contos, que flertam com um mundo de sonho, fantástico, que brotam de uma rara erudição, de uma imaginação dos diabos. Num bom prólogo, assinado por ele mesmo, Schwob nos ensina que muitos biógrafos, talvez por se imaginarem historiadores, se furtaram de escrever retratos verdadeiramente admiráveis por ficarem intoxicados com a vida de grandes artistas, autores, escritores, esquecendo-se que o verdadeiro engenho da arte deve ser dedicado a descrever o caráter belo e único que todas as personas possuem, tanto as ditas divinas, quanto as de famosos e medíocres ou, até mesmo, as de criminosos. Sob este estatuto Schwob escreve seus contos. As histórias incluídas em "Vidas imaginadas" reinventam momentos de epifania, singulares, expressivos das vidas de vinte e dois homo sapiens, alguns cujos nomes podem até ser conhecidos de um leitor experiente (o poeta Lucrécio, o escritor Petrônio, o pintor Uccello, a princesa indígena Pocahontas, o capitão pirata Kid), mas isso não é realmente importante. Acontece que, assim como para estes cinco que citei (e outros leitores citariam outros tantos), todo o conjunto de vidas imaginadas por Schwob, num vai e vem entre ficção e realidade é escrito com a mesma exuberância, seja a de uns santos mártires ou hereges, de prostitutas e matronas romanas, de juízes e cartomantes, de indivíduos que se imaginavam possuídos por deuses, de piratas menos conhecidos ou de assassinos seriais ingleses. Todos parecem renascer como personagens inventados, acrescidos em suas biografias, em suas vidas vividas, de uma pátina vistosa e mágica. Haverá mais Schwob por aqui em breve. Vale! 
Registro #1560 (contos #181) 
[início: 20/07/2020 - fim: 25/07/2020]
"Vidas imaginarias", Marcel Schwob, tradução de Jorge González Batlle, ilustrações de Elena Ferrándiz, Barcelona: Thule Ediciones, 1a. edição (2018), brochura 14,5x22 cm, 159 págs. ISBN: 978-84-16817-33-7

sábado, 29 de agosto de 2020

barcelona: secretos a la vista

Foi Sílvia Serra, amiga querida, desde sua fundamental Barcelona, quem falou-me de Xavier Theros, um conterrâneo seu, escritor e antropólogo, que recentemente recebeu um prêmio literário. Encomendei alguns livros dele e comecei por "Barcelona: Secretos a la vista", publicado em 2015. São 90 crônicas, publicadas originalmente no jornal espanhol El País, e que podem ser consultadas no site deles: clika! Cada crônica é acompanhada de uma fotografia, sendo que no livro elas estão em preto e branco, e no site do jornal, em cores (fotografias assinadas por Tamara López Seoane). Não são textos ligeiros, escritos para atrair turistas ou para mitigar saudades em quem um dia deambulou por aquela bela cidade. Theros parte de pequenos detalhes arquitetônicos, de esculturas, de cartazes de propaganda, de grafites, de objetos que vê perdidos nas ruas (dentre tantos outros vestígios urbanos) para contar histórias de lugares, evocar o passado, capturar a passagem do tempo, descrever as metamorfoses da cidade. Xavier vai a museus e praças, a bares e restaurantes, visita fábricas antigas e cemitérios, percorre estações de metrô, rememora séries e filmes de sua juventude, conta notícias que se transformaram em fábulas urbanas, vaga pelos bairros de todo o entorno da cidade (do Besòs ao Llobregat, da orla do Mediterrâneo à Serra de Collserola), conta anedotas e causos bizarros. O autor procura ensinar aos leitores o prazer de descobrir nas pequenas coisas algo transcendental, mágico, algo que guarda, ainda não corrompida, a verdade de um tempo, de uma sociedade, de uma cultura. Apesar o lirismo das evocações, não há melancolia nelas. Trata-se de um exercício cerebral, de uma educação dos sentidos, de uma desaceleração, que permite a cada um entender a urbe e a si mesmo. A experiência pessoal de Xavier é intransferível, mas seu método não. Podemos aplicá-lo em nossas cidades, em nossos bairros; procurar, nos escolhos de nossa memória, a mesma magia que ele alcançou registrar em seus relatos; devemos nós também louvar nossas cidades, por mais defeitos e problemas que tenham. Lembrei-me de um poema do catalão Joan Maragall, "Oda nova a Barcelona", que termina assim: "(...) Tal com ets, tal te vull, ciutat mala: és com un mal donat, de tu s'exhala: que ets vana i coquina i traïdora i grollera, que ens fa abaixar el rostre. Barcelona! i amb tos pecats, nostra! nostra! Barcelona nostra! la gran encisera!", [(...) Eu te quero do jeito que você é, ó cidade má / tu és como um mal imposto, que emana de ti, porque és vaidosa e travessa e traiçoeira e rude, que temos que baixar nossos olhos / Barcelona! com todos os seus pecados, é nossa! é nossa! / Nossa Barcelona! A grande feiticeira!]. Que saudades tenho da velha feiticeira, da especialmente bela Barcelona. Vale! 
Registro #1559 (turismo #15) 
[início: 19/07/2020 - fim: 28/07/2020]
"Barcelona: Secretos a la vista", Xavier Theros, fotografias de Tamara López Seoane, Barcelona: Editorial Comanegra, 1a. edição (2015), brochura 16,5x23,5 cm, 217 págs. ISBN: 978-84-16033-74-4

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

aranhas

De Carlos Henrique Schroeder já li os bons romances "História da chuva", de 2015, e "As fantasias eletivas", de 2014. "Aranhas" é seu volume mais recente. Trata-se de uma reunião de trinta e dois contos: dois terços narrativas bem curtas e um terço de contos comparativamente bem mais longos. No último conto, Armadeira (Phoneutria nigriventer), ecos de boa parte das trinta e uma histórias anteriores são evocados, reunindo os protagonistas delas em uma espécie de jogo, um jogo macabro, fantástico, de sonho. A exemplo deste último, cada conto recebe como título o nome de uma aranha. O leitor é informado que as histórias surgiram em meio a pesadelos associados a duas pinturas de  Odilon Redon, pintor e gravador francês, seminal mestre simbolista (as duas pinturas podem ser conferidas aqui: clika1 e clika2). Todavia, como sempre na boa literatura, sempre é bom enfatizar, não se sabe se as imagens da aranha triste ou da sorridente de Redon impressionaram o autor Schroeder ou apenas o narrador de suas histórias. As histórias gravitam temas fortes ou violentos: a hipocrisia; as relações de poder; os relacionamentos tóxicos; a tensão sexual entre indivíduos que vivem próximos; a memória de acontecimentos da infância que aflora e perturba adultos; a doença e a morte. Por vezes o narrador das histórias conversa com o leitor, confessando certas indecisões e justificando as guinadas abruptas delas (talvez haja um excesso de mortes - mas, claro, estamos no mundo das aranhas, muitas delas venenosas - entretanto estas mortes parecem saídas fáceis para as histórias, desfechos de ocasião). Gostei particularmente de algumas, aquelas em que se sobressaem um registro particular de linguagem (gírias ou língua cifrada de certas tribos urbanas) ou encontramos elaboradas descrições de ofícios e atos do cotidiano. Em todos os contos mais longos Schroeder alcança mostrar seu arsenal estético, para deleite do leitor, já nos contos curtos nem sempre isso acontece, parecem que ficam a dever algo (ao menos para esse menor dos anões dentre os leitores). Enfim, bom livro de um bom escritor. É hora de seguir em frente. Vale!
Registro #1558 (contos #180)
[início: 06/07/2020 - fim: 09/07/2020]
"Aranhas", Carlos Henrique Schroeder, Rio de Janeiro: Editora Record, 1a. edição (2020), brochura 14x21cm, 189 pág. ISBN: 978-85-01-11850-9

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

los errantes

Depois de terminar o bom "Sobre os ossos dos mortos", resolvi conhecer outras cousas de Olga Tokarczuk, autora polonesa que recebeu o prêmio Nobel de literatura em 2018. Encontrei primeiro "Los errantes", publicado originalmente em polonês em 2008 e cuja tradução para o inglês recebeu, em 2018, o prestigioso prêmio Man Booker International. Trata-se de um romance extenso, caudaloso, de quase 400 páginas, porém fragmentado, composto de 116 histórias que conversam entre si, histórias quase sempre bem curtas, pois apenas onze delas têm mais de oito laudas (em média são 3,33 laudas por fragmento). As histórias brotam da experiência das viagens, do constante movimento (aquele que impede que o mal nos encontre). O título original (Bieguni) remete a uma antiga seita russa de sujeitos que viviam da bondade de estranhos (um tipo de monge). Outros temas são recorrentes: a anatomia (tanto dos homo sapiens quanto de outros seres vivos); a vida universitária e/ou participação em congressos científicos; as diferenças entre mulheres e homens; a passagem do tempo, que nos envelhece, levando-nos da vida à morte. As digressões da narradora de Tokarczuk lembram muito àquelas dos narradores de W.G. Sebald, num bom equilíbrio entre erudição, virtuosismo e descrições admiravelmente poéticas, imaginativas. O tema principal que citei acima é a psicologia das viagens, a forma como o viajante é afetado pelo distanciamento entre sua casa, sua cidade ou seu país e os lugares onde subitamente se percebe, num espanto. A narradora descreve três estágios que um viajante experimenta ao acordar em um lugar diferente: a suposição errada de estar em casa, a curiosidade ou confusão sobre onde ele se encontra, até por fim a iluminação ou sabedoria que advém da consciência de que nada importa, além da realidade do sujeito existir, estar ali, ao acordar. Em um dos fragmentos ela fala do deus Kairós, aquele do momento congelado, o momento oportuno (essa discussão faz parte de outra, maior e mais importante, onde se contrasta a ideia de tempo como um fluxo contínuo, como metaforicamente o fluxo de um rio, e o tempo discreto, que se pode medir, contar em fragmentos unitários). Esse livro foi escrito durante um período em que a autora recebeu bolsas de fundações holandesas e belgas, talvez por isso haja várias menções a cousas desta região na trama, muito embora a narradora faça registros de pesquisas em museus em Viena, Berlim, Dresdem, Leiden, Amsterdam, Riga, São Petersburgo e Filadélfia. A narradora conta várias histórias sobre gravadores; faz curtas biografias de vários anatomistas; descreve quartos de hotéis e salas de espera de aeroportos; canta certos feriados santos, que são diferentes na Europa continental, no sul do hemisfério, no leste europeu e na Escandinávia; fala da geografia sempre distinta dos lugares; da ubiquidade das massas de turistas; da presença grega que dá aos viventes contemporâneos da tradição greco-romana uma particular consciência do eu, em contraste com aspectos das culturas orientais. O livro inclui doze ilustrações de mapas antigos, algo impenetráveis, vagamente associados aos fragmentos mais longos da história (não há uma conexão direta, antes uma alusão, o que remete também aos textos de Sebald, que incluem fotografias e ilustrações). Algumas histórias se destacam pelo bizarro ou surpresa que provocam. Uma é a de uma mulher que escreve várias cartas ao imperador austríaco Francisco I, no século XVIII, reclamando o corpo de seu pai, um sujeito negro do norte da África que havia recebido uma refinada educação e que em vida foi servo da corte imperial, privando ali de muitas benesses, mas que após a morte acabou tendo seu corpo embalsamado e exposto à visitação pública por décadas (o leitor fica sem saber se o sujeito continua embalsamado, em algum museu europeu, ou se já foi enterrado dignamente, como a filha esperava). Outra história amalucada é a do translado do coração do compositor polonês Frédéric Chopin, da França para Varsóvia (à época sob domínio russo), para uma missa de réquiem e posterior funeral. Vinhetas extravagantes e curiosas como estas povoam o livro, formando um mosaico de cenas que lembram a atmosfera de sonho de filmes como "E la nave va". "Moby Dick", o romance de Melville, é várias vezes citados na trama. Mais não digo, pois não alcanço reproduzir o prazer que só a leitura dos 116 fragmentos poderá oferecer ao leitor. Enfim, impressionante a maestria desta autora. Certamente haverá outros Tokarczuk por aqui. Segue o baile. Vale! 
Registro #1557 (romance #386)
[início: 01/08/2020 - fim: 06/08/2020]
"Los errantes", Olga Tokarczuk, tradução de Agata Orzeszek, Barcelona: editorial Anagrama (Panorama de Narrativas #1061), 1a. edição (2019), brochura 14x22 cm., 390 págs., ISBN: 978-84-339-8053-3 [edição original: Bieguni (Varsóvia: Wydawnictwo Literackie) 2007]