sexta-feira, 6 de maio de 2011

o caminho de guermantes

Nestes últimos dias, imerso na releitura deste livro, fiquei a me perguntar se haveria ainda algo em mim daquele rapaz de vinte e poucos anos que o leu pela primeira vez. As metamorfoses pelas quais passei teriam obliterado completamente o jovem Guina? Difícil saber. Publicado originalmente em duas partes, em 1919 e 1922, ¨O caminho de Guermantes¨ é o terceiro dos volumes do ciclo "Em busca do tempo perdido". Este volume é composto de duas partes simétricas e, em extensão, similares. Como em uma peça musical - uma sinfonia por exemplo - Proust expõe primeiramente os temas com que vai trabalhar, depois os concentra e os desenvolve em uma cena longa (no caso deste livro, em recepções mundanas, primeiro na casa da marquesa de Villeparisis, depois no salão da duquesa de Guermantes) e por fim retoma os temas em breves, mas intensas, codas de encerramento. Na primeira destas duas partes encontramos o narrador e sua família como locatários do duque e da duquesa de Guermantes, Oriane, por quem ele se apaixona (como já havia se apaixonado por Gilberte, pelas moças em flor de Balbec e pela Sra. Swann). Ele vai a ópera e faz uma apreciação estética das qualidades vocais e dramáticas da atriz Berma bastante distinta da que fizera anteriormente. Depois ele visita seu amigo Saint-Loup em sua guarnição militar (Doncières) e logo volta a Paris (onde continua assediando a duquesa) e almoça com Robert e sua amante (Raquel, que o leitor já conheceu em outra circunstância). É na longa cena seguinte que o narrador visita o salão da marquesa de Villeparisis e tudo o que havia sido discutido antes (a vida em sociedade, a aparência enganadora das pessoas, a história e a genealogia da França, a moral dúbia dos homens, as implicações e desdobramentos do caso Dreyfus, as relações profissionais e pessoais, as relações de classe entre os franceses) é refletido em diálogos impressionantes, vívidos. No dia seguinte duas surpresas quebram o ritmo do livro (e elas irão modificar a forma de ver o mundo do narrador). Primeiro seu breve encontro com o barão de Charlus logo após sairem do salão da marquesa e depois o passeio com a avó pelos Campos Elíseos (quando ela tem uma apoplexia). Na segunda parte Proust retoma os mesmos temas e argumentos da primeira (e faz seus personagens usarem a retórica quase da mesma forma) mas agora seu narrador como que amadureceu. Os primeiros movimentos desta parte: a morte da avó, o luto e a solidão do narrador, os encontros amorosos com Albertine, uma outra visita ao salão da marquesa, os preparativos para um encontro amoroso com a Sra. de Stermaria e o jantar noturno no Bois de Boulogne com Saint-Loup e seus amigos, preparam ao leitor para a maravilha que é a descrição dos sucessos do jantar na casa da duquesa de Guermantes (onde o narrador - para seu espanto - é o convidado de honra). Tudo o que ele vê (e Proust faz com que seja o leitor que experiencie tudo aquilo com se fosse o leitor aquele narrador) entra em uma espécie de máquina de análise. Apesar da frivolidade das pessoas depreendemos verdades e leis morais. Como na primeira parte o livro termina com uma coda surpreendente: a visita noturna do narrador a casa do barão de Charlus (e sua dificuldade de entender o seu caráter - bem como sua cifrada proposta sexual) e o reencontro com Swann na casa da duquesa (quando a morte comparece novamente, onipotente). É impossível sintetizar o prazer que extraímos deste livro, o prazer que na verdade extraímos de nós mesmos, ao comparar nossas experiências com aquelas descritas no livro. Difícil escolher o que mais gosto: o sarcasmo com a aristocracia, a ironia, o desprezo pela inconsequência dos médicos, o manual infernal de arrivismo, as metáforas deliciosas. Tudo neste livro leva o leitor a um novo patamar de compreensão do mundo. Esta reedição da Globo da tradução original de Mario Quintana é bonita e cheia de mimos para o leitor (prefácio, resumo, caudalosas notas, posfácio), mas há uns reiterados erros bobos (como grafar Oriana e Oriane para o nome da duquesa) que mereceriam outra classe de apuro. Já tenho o ¨Sodoma e Gomorra¨ desta nova edição para ler. Mas os três volumes restantes do ciclo não foram revistos e publicados, portanto talvez eu acabe lendo mesmo as versões mais antigas. Mas não há pressa. Logo veremos. [início 18/04/2011 - fim 28/04/2011]
"O caminho de Guermantes: Em busca do tempo perdido (vol.3)", Marcel Proust, tradução de Mário Quintana, São Paulo: editora Globo, 3a. edição, revista (2007), brochura 16x23 cm, 687 págs. ISBN: 978-85-250-4227-9 [edição original: Lé côté de Guermantes (éditions Gallimard), 1919-1922]

3 comentários:

Djabal disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Djabal disse...

Lendo seu sumário, relembrei a minha leitura, de meses a fio, e a impressão forte, fortíssima que ficou. Passei a relembrar das experiências comuns (minha e dele), as frases e as opiniões... A semana passada escrevi para a editora perguntando sobre os volumes restantes. Claro que não obtive resposta. Assim a vontade de reler, após completar a nova edição, diminui. Agora, aumentou o desejo de começar agora.
Um grande abraço.

Aguinaldo Medici Severino disse...

olá
a globo acho que desistiu do projeto (há muitos erros de digitação no volume que li, o trabalho de reedição não foi muito bem feito na verdade - as fotos das guardas são de um mal gosto dos diabos, paciência)
a notícia boa é que no ano que vem a companhia das letras vai publicar uma tradução completa e nova do ciclo (assinada pelo jornalista mario sérgio conti).
o negócio é esperar.
um abraço
aguinaldo