sexta-feira, 28 de agosto de 2015

as pequenas virtudes

Quando encontramos um livro por acaso (um livro antigo, dos anos 1960, apesar de ter sido traduzido para o português somente agora) e descobrimos nele todo um conjunto de idéias e passagens admiráveis nos perguntamos os porquês de nunca termos ouvido nada sobre sua autora antes. Como é vasto o mundo dos livros. Quão tolos somos por imaginar que um dia poderemos ler tudo o que importa e é bom. Bueno. Nunca havia lido nada de Natalia Ginzburg. Neste "As pequenas virtudes" estão reunidos onze ensaios curtos, que brotam de sua biografia e memória, mas que têm um refinamento literário surpreendente. O texto mais antigo é de 1944, o mais recente de 1962. Com a exceção de um todos haviam sido publicados originalmente em revistas e jornais italianos. As seis histórias reunidas num primeiro conjunto são registros de experiências pessoais duras: a rotina de uma família que vive confinada nos tempos da segunda grande guerra; o despojamento de preferir usar apenas sapatos gastos, como sua mãe fazia antes dela; a lembrança da personalidade difícil de um amigo (Cesare Pavese) que comete suicídio; apontamentos de um caderno de viagem, onde se descreve uma melancólica Inglaterra e também os hábitos alimentares dos ingleses; um texto onde ela explica as diferenças entre seu comportamento e o de seu marido. O segundo conjunto de ensaios reúne reflexões sobre a complexidade da vida. Parece que estamos a conversar com uma pessoa experiente, não um professor, mas alguém cujas opiniões respeitamos porque ele argumenta e reflete, sintetiza e exemplifica, mas sabe que não se pode esgotar e ser definitivo sobre aquele assunto. Ela faz duros comentários sobre as diferenças entre sua geração (ela viveu entre 1916 e 1991) e a de seus pais, ou seja, a geração daqueles responsáveis por levar a Itália para o desastre da segunda grande guerra; apresenta um longo ensaio sobre o seu ofício, que é o de escrever e suportar as consequências deste hábito; fala sobre o silêncio e a quase impossibilidade de entender completamente um outro indivíduo; faz uma viagem biográfica da infância e maturidade, uma viagem de auto conhecimento, sem ser cabotina ou condescendente; fala de como pensa ser correto (ou possível) ensinar algo aos filhos. Como não ficar admirado por uma autora que escreve algo assim potente: "A Itália é um país pronto a dobrar-se aos piores governo. É um país, como se sabe, onde tudo funciona mal. É um país onde reina a desordem, o cinismo, a incompetência, a confusão. E, apesar disso, se sente pelas ruas a inteligência circular como um sangue que pulsa. É uma inteligência que evidentemente não serve para nada. Não é usada em benefício de nenhuma instituição que possa melhorar minimamente a condição humana. Entretanto aquece o coração e o consola, ainda que se trate de um conforto enganador e, talvez, insensato". Quando escrevi noutro dia o quanto estava gostando de ler "As pequenas virtudes" doña Denise Bottmann me disse que Natalia Ginzburg foi mãe do Carlo Ginzburg, historiador de quem li o surpreendente "Os queijos e os vermes" no início dos anos 1980. Ulalá, genética é mesmo destino! Deve haver outras coisas dela já traduzidas por aí. É tempo de procurar. 
[início: 20/08/2015 - fim: 25/08/2015]
"As pequenas virtudes", Natalia Ginzburg, tradução de Maurício Santana Dias, São Paulo: editora Cosac Naify, 1a. edição (2015), brochura 13x20 cm., 158 págs., ISBN: 978-85-405-0910-8 [edição original: Le piccole virtù (Torino: Einaudi) 1962]

Um comentário:

José Ewerton Neto disse...



Boa resenha de iniciação a um autor. Conhecia de nome, apenas. Vou procurar o livro. Grato, Jose Ewerton Neto