sábado, 7 de julho de 2018

a filha perdida

Ainda nas férias de verão li esse "A filha perdida", de Elena Ferrante. Mas como, vagabundo, fiquei meses sem registrar minhas leituras, estou conseguindo apenas muito lentamente, aos poucos, organizar as cousas. Na verdade li no início do ano, simultaneamente, três livros de Elena Ferrante: de "Um amor incômodo" já falei aqui ainda em janeiro e de "Uma noite na praia", há poucos dias. Assim como no caso de "Um amor incômodo" em "A filha perdida" encontramos uma história que equilibra dois tipos de registro, um suficientemente lírico, leve e estival, contrastado a outro, amargo, denso e cruel. Uma professora universitária ainda jovem, com menos de cinquenta anos, divorciada já há muitos anos e com duas filhas já adultas e morando com o pai no exterior, decide tirar um mês de férias em uma praia do sul italiano, numa região em que ninguém a conhece. Nesse mês ela experimenta descobertas sobre si, e reflete sobre questões que de alguma maneira já a incomodavam: sua inadaptação para a maternidade; o porquê da tensão, nem sempre apenas sexual, entre homens e mulheres; o contraste gritante entre os italianos do norte e do sul; a rudeza dos napolitanos (que é sua ascendência, coisa que ela ou nega ou esconde); a rotina besta da vida universitária; as dificuldades de entender a linguagem e o comportamento das filhas; a oposição inconciliável entre cultura acadêmica e cultura popular; a impossibilidade de ser fiel simultaneamente a si mesma e aos outros. Por vários dias em que fica ao sol tentando ler algo na praia ela vê ao longe como um grupo familiar se comporta. Ela os crítica mentalmente, ri das confusões que eles provocam no ambiente, porém fica curiosa. Nesse grupo, de homens e mulheres jovens, crianças pequenas, idosos algo deslocados, chama a atenção da narradora uma jovem mãe, que cuida de uma menina que brinca com uma boneca de pano. Ela lembra de várias passagens de sua vida de casada, mãe com filhas pequenas, e contrasta sua experiência com aquilo que vê de longe. Apesar de ter aprendido com o Coetzee que pouco importa incluir ou não spoilers em um registro como esse, uma resenha de um livro bastante lido, não vou registrar aqui exatamente o que faz a narradora para se aproximar e tornar-se uma espécie de confidente daquela jovem mãe. De qualquer forma, após essa aproximação o leitor é apresentado a desdobramentos em série, como se a narradora nos tornasse detetives de sua vida, ou ao menos detetives que precisam desvendar aquele recorte de sua vida, aquela trama. Lembro de ter terminado o livro sentindo-me cúmplice da narradora, com aquele sentimento que experimentamos ao ouvir histórias amalucadas de um grande amigo ou de uma grande amiga. Sabemos serem íntimos demais e talvez algo romanceados, até o limite da invenção, mas sabemos também que não devemos contar aquilo para mais ninguém, não por ser o acaso daquela confidência um segredo valioso ou cousa que o valha, mas por ser o símbolo perene de uma especial cumplicidade e entendimento mútuo. Interessante mesmo. Vamos a ver o que essa curiosa e reclusa escritora irá produzir no futuro. Vale! 
Registro #1282 (romance #338)
[início: 17/02/2018 - fim: 19/02/2018]
"A filha perdida)", Elena Ferrante, tradução de Marcello Lino, Rio de Janeiro: Editora Intrínsica, 1a. edição (2016), brochura 14x21 cm., 176 págs., ISBN: 978-85-510-0032-8 [edição original: La Figlia Oscura (Roma: Edizioni e/o) 2006]

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