quinta-feira, 4 de abril de 2019

lições de poética

Assim como no início do ano passado, as semanas de férias e os compromissos de preparação do ano acadêmico afastaram-me dos registros de leitura. Mas dos livros não, claro, estes sempre me acompanham, eficientes lenitivos para loucuras que nos são impostas, único viático possível para os nascidos neste desgraçado e condenado país. Paciência. "Lições de poética" reúne três lições, como o título do livro define. São aulas magnas, três palestras, proferidas por Paul Valéry no Collège de France, em 1938. Valéry diz que suas lições não correspondem a ensinamentos, antes sim a provocações que eventualmente e na medida do possível podem despertar nos ouvintes atenção a aspectos do ofício poético que normalmente são negligenciados. Tratam-se de reflexões sobre o ato criativo, sobre a utilidade ou inutilidade da arte e da vida, sobre o que ele chama de obra do intelecto, que são atos, não objetos mortos. A materialização de uma obra do intelecto, em qualquer campo, seja na arte, na ciência ou na técnica, pouco guarda da potência do ato original, engendrado pelo artista, pelo cientista ou pelo artífice. Ele faz uso de analogias com a economia, com a natureza, entende a capacidade de ensinar como a instrumentalização precisa do intelecto, algo muito difícil de ser alcançado. Nenhum tema é esgotado, nenhuma ideia não deixa de guardar em si seu contrário, também válido. A racionalização da arte não pode prender-se a teorias, escolas, doutrinas, perder-se em disputas estéreis em que as palavras e conceitos mostram-se ocas, vazias de significados. É um livro pequenino, mas que cobra leitura atenta e tempo de reflexão. Vale! 
Registro #1369 (crônicas e ensaios #245) 
[início 30/01/2019 - fim: 03/02/2019] 
"Lições de poética", Paul Valéry,  tradução de Pedro Sette-Câmara, Belo Horizonte: Editora Âyiné (coleção Das Andere #5), 1a. edição (2018), brochura 12x18 cm., 91 págs., ISBN: 978-85-92649-35-7

Um comentário:

Talita Hadassa disse...

Adorei a sua forma de se expressar.