Mostrando postagens classificadas por relevância para a consulta Barcelona. Ordenar por data Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens classificadas por relevância para a consulta Barcelona. Ordenar por data Mostrar todas as postagens

sábado, 29 de agosto de 2020

barcelona: secretos a la vista

Foi Sílvia Serra, amiga querida, desde sua fundamental Barcelona, quem falou-me de Xavier Theros, um conterrâneo seu, escritor e antropólogo, que recentemente recebeu um prêmio literário. Encomendei alguns livros dele e comecei por "Barcelona: Secretos a la vista", publicado em 2015. São 90 crônicas, publicadas originalmente no jornal espanhol El País, e que podem ser consultadas no site deles: clika! Cada crônica é acompanhada de uma fotografia, sendo que no livro elas estão em preto e branco, e no site do jornal, em cores (fotografias assinadas por Tamara López Seoane). Não são textos ligeiros, escritos para atrair turistas ou para mitigar saudades em quem um dia deambulou por aquela bela cidade. Theros parte de pequenos detalhes arquitetônicos, de esculturas, de cartazes de propaganda, de grafites, de objetos que vê perdidos nas ruas (dentre tantos outros vestígios urbanos) para contar histórias de lugares, evocar o passado, capturar a passagem do tempo, descrever as metamorfoses da cidade. Xavier vai a museus e praças, a bares e restaurantes, visita fábricas antigas e cemitérios, percorre estações de metrô, rememora séries e filmes de sua juventude, conta notícias que se transformaram em fábulas urbanas, vaga pelos bairros de todo o entorno da cidade (do Besòs ao Llobregat, da orla do Mediterrâneo à Serra de Collserola), conta anedotas e causos bizarros. O autor procura ensinar aos leitores o prazer de descobrir nas pequenas coisas algo transcendental, mágico, algo que guarda, ainda não corrompida, a verdade de um tempo, de uma sociedade, de uma cultura. Apesar o lirismo das evocações, não há melancolia nelas. Trata-se de um exercício cerebral, de uma educação dos sentidos, de uma desaceleração, que permite a cada um entender a urbe e a si mesmo. A experiência pessoal de Xavier é intransferível, mas seu método não. Podemos aplicá-lo em nossas cidades, em nossos bairros; procurar, nos escolhos de nossa memória, a mesma magia que ele alcançou registrar em seus relatos; devemos nós também louvar nossas cidades, por mais defeitos e problemas que tenham. Lembrei-me de um poema do catalão Joan Maragall, "Oda nova a Barcelona", que termina assim: "(...) Tal com ets, tal te vull, ciutat mala: és com un mal donat, de tu s'exhala: que ets vana i coquina i traïdora i grollera, que ens fa abaixar el rostre. Barcelona! i amb tos pecats, nostra! nostra! Barcelona nostra! la gran encisera!", [(...) Eu te quero do jeito que você é, ó cidade má / tu és como um mal imposto, que emana de ti, porque és vaidosa e travessa e traiçoeira e rude, que temos que baixar nossos olhos / Barcelona! com todos os seus pecados, é nossa! é nossa! / Nossa Barcelona! A grande feiticeira!]. Que saudades tenho da velha feiticeira, da especialmente bela Barcelona. Vale! 
Registro #1559 (turismo #15) 
[início: 19/07/2020 - fim: 28/07/2020]
"Barcelona: Secretos a la vista", Xavier Theros, fotografias de Tamara López Seoane, Barcelona: Editorial Comanegra, 1a. edição (2015), brochura 16,5x23,5 cm, 217 págs. ISBN: 978-84-16033-74-4

quarta-feira, 4 de março de 2009

barcelona

Neste livro há 51 notas curtas, parte de um conjunto originalmente preparado para um blog diário, distribuído para vários sites e jornais, produzidas pelo jornalista Marcos Eizerik em 2003 durante sua estada em Barcelona, na Espanha. Não acompanhei o blog quando ele foi publicado originalmente, talvez tenha sido uma experiência boa, mas transpostas para um livro, a meu juízo, ele perde muito de sua força. Claro, ele escolheu as postagens que são menos datadas, mas, mesmo assim, o que nos é apresentado neste livro é mais daquela Barcelona chapa-branca, artificial, turística (e que o estado espanhol e a Catalunha vendem bem há anos), mas que não tem muito a ver com a realidade daquela cidade. A Barcelona profunda, que certamente ele conheceu ao morar lá durante um ano, aparece apenas em vislumbres em seu texto, e isto é uma pena. Barcelona é uma cidade que sabe ser cruel, como qualquer cidade grande e complexa sabe ser. Isto não é um problema, mas a glamurização que vaza das páginas de Marcos não ajuda o leitor a conhecer esta complexidade melhor. Acho que livros que falem sobre uma cidade devem ter o tom que Robert Hughes encontrou em "Barcelona: a grande feiticeira" por exemplo, onde ele é capaz de cantar as maravilhas da cidade sem deixar de contextualizar suas muitas contradições e defeitos (que afinal todas as cidades, todas as aldeias, todos os bairros, todas as cavernas, têm, e que aliás só se identificam por terem ser defeitos particulares). A meu juízo se alguém quer conhecer Barcelona deve ir a Barcelona, andar pelas ruas, pelo metro, andar a pé, falar com o povo e ir, lentamente, separando o "plan" turístico do "plan" cotidiano. É fácil ter experiências deste tipo. Um sujeito pode pegar um metro qualquer e deixar-se ir até as estações mais afastadas do centro. Lentamente o público vai mudar. Seguro que sim. Mudando o foco um tanto e pensando apenas na forma de apresentação do livro, Marcos usa em excesso fórmulas e bordões que cansam o leitor. As variações do "O caro senhor, cara senhora", usado vezes sem fim por Nelson Rodrigues, à época num falso desleixo que ele usava em suas crônicas diárias, décadas atrás, mais incomodam antes de agradar. José Roberto Torero, santista e jornalista dos bons, faz um generoso prefácio. Concordo com os argumentos que ele usa para apoiar o livro, principalmente com o que há de ficcional nele (há muito de invenção no livro). Nestes trechos Eizerik demonstra que é um bom escritor. [início - fim 28/01/2009]
"Barcelona: um ano com 365 dias", Marcos Eizerik, editora AGE (1a. edição) 2008, brochura 14x21, 160 págs. ISBN: 978-85-7497-399-9

quarta-feira, 10 de maio de 2017

homenagem a barcelona

Admirado com o acabamento da boa edição que "As ilhas gregas" de Lawrence Dürrell ganhou da portuguesa Relógio D'água resolvi comprar outros volumes da coleção de livros de viagens deles. "Homenagem a Barcelona" é de Colm Tóibín, premiado escritor irlandês. Ele viveu em Barcelona por muitos anos e aprendeu a amar a cidade. Isso costuma acontecer após algum tempo, mas não com todo mundo, nem o tempo todo, pois não é fácil, como parece ao experimentarmos os primeiros deslumbramentos, entender as sutilezas e matizes do caráter dos catalães. Ele viveu em Barcelona quase ininterruptamente entre 1975 e 1978, mantendo-se com aulas de inglês e morando em apartamentos baratos. Depois voltou à cidade, em um ano sabático, já escritor experimentado e com algum dinheiro, em 1988, justamente por encomenda para escrever esse livro, antecipando a curiosidade dos leitores europeus com os sucessos que viriam com a Olimpíada de 1992. O livro é antigo, de 1990, foi parcialmente reescrito em 2002, mas muito daquilo que Tóibín registra é perene, já que nem de longe se trata de um livro para fins turísticos. Gostei particularmente de suas reflexões sobre história e política, sobretudo sobre a guerra civil espanhola, pois ele rapidamente, e com clareza, explica a complexidade das forças políticas e interesses cruzados experimentados pelos cidadãos, seja sobre o período da guerra civil, seja sobre o período que se segue a redemocratização, com a morte de Franco. Tóibín é muito feliz em sua técnica de utilizar um artista plástico, poeta, músico ou arquiteto (Picasso, Miró, Dalí, Casals, Lorca, Maragall, Cerdà, Montaner, Gaudí e Cadafalch) para com ele trilhar uma parte de Barcelona, um parque ou edificação, um período de tempo da história da cidade ou o interior profundo da Catalunha. Seus comentários sobre a língua catalã e as relações sociais dos catalães me pareceram menos brilhantes que os registros políticos e/ou históricos. Para entender algo sobre arte e arquitetura ainda prefiro o detalhamento que se encontra no livro de Robert Hughes, mas esse livro de Tóibín tem algo o Hughes não tem, parece ser mais familiar, quente, menos crítico, definitivo e frio. São experiências de leitura muito diferentes. Escritor talentoso como é, ele enfeitiça o leitor com sua prosa envolvente, criando imagens incríveis das festas, danças, explosões de fogos, dos bares e restaurantes, das mitologias antigas que brotam do chão e das pedras da cidade. Sua descrição das festas da paixão e de Páscoa em um pequeno vilarejo próximo a Girona, dos passeios solitários pela Costa Brava e da aglomeração na Diada (festa nacional da Catalunha, 11 de setembro) são impressionantes. Tóibín contrasta a cidade que conheceu em 1975 com aquela de 1988. Saudosista, faz coro com seus amigos catalães que reclamam dos turistas mal educados, daqueles que não apoiam a causa da independência catalã, dos imigrantes que não praticam o catalão e suas tradições sagradas. Não consigo imaginar o que ele diria da Barcelona de 2017, meca do turismo de massa, hiper cosmopolita. Cabe registrar que o título do livro faz homenagem ao escritor George Orwell, que lutou na guerra civil espanhola e escreveu sobre ela, em seu "Homenagem a Catalunha", de 1938. Vale.
[início: 09/04/2017 -  fim: 18/04/2017]
"Homenagem a Barcelona", Colm Tóibín, tradução de Ana Falcão Bastos, Lisboa: Relógio D'Água Editores (coleção Viagens), 1a. edição (2016), brochura 13x20 cm., 274 págs., ISBN: 978-989-641-640-0 [edição original: Homage to Barcelona (New York: Simon and Schuster Ltd), 1990]

sexta-feira, 20 de julho de 2007

seny y rauxa

Barcelona é um livro estupendo. É ao mesmo tempo um longo ensaio sobre a história de uma cidade, um excelente guia de viagens, um compêndio de críticas de arte e de artistas, uma reflexão desapaixonada sobre um povo e uma cultura. Conhecia Robert Hughes de seus documentários sobre arte moderna produzidos pela BBC nos anos 1980 e veiculados pela TV cultura de São Paulo: "O Choque do Novo" e "Visões da América". Lembro-me das conversas longas sobre cada um dos episódios que tinha com don Renato Cohen, hugheano de primeira hora. Hughes nasceu na Austrália mas se radicou ainda jovem no continente europeu em meados dos anos 1960. Desde 1970 é crítico de arte da revista Time em Nova York. "Barcelona" foi publicado às vésperas das olimpíadas de 1992 e textualmente se limita a descrever a história da cidade apenas até a morte de Antônio Gaudí, um pouco antes do início da guerra civil espanhola, no final dos anos 1930. O projeto inicial dele envolvia focar-se na arquitetura para descrever o período modernista catalão (mas conhecido em outros lugares como período art noveau, que vai da segunda metade do século XIX até 1910, aproximadamente). Mas segundo ele é impossível descrever estes 30, 40 anos sem ao menos refletir sobre os 2000 anos anteriores, desde o surgimento de Barcelona como pequena colônica na época de Augusto. Os capítulos não são esquemáticos. Quase todos os temas são apresentados sem atropelo, fundindo os fatos históricos mais importantes, a análise das influências, as mitologias, as descrições, as biografias, os relatos, as citações, a crítica de arte em um todo muito agradável de ler. O estilo é mesmo a marca de Hughes. Mesmo sendo um texto de fácil leitura em nenhum momento encontramos argumentos rasos e divagações inúteis. Contando com um detalhado guia remissivo e uma bibliografia extensa certamente este texto pode ser utilizado como porta de entrada ao universo da cultura catalã tanto por arquitetos, quanto artísticas plásticos, músicos, historiadores, curiosos e também, incrível, por viajantes em busca de sugestões de passeios turísticos. Eu li boa parte do livro com um mapa de Barcelona ao lado, procurando as referências e tentando lembrar um tanto dos passeios que fiz. Barcelona é mesmo " la gran encisera", a grande feiticeira, como o poeta Maragall escreveu um dia: "orgulhosa, traiçoeira e vulgar", mas completamente deles, orgulhosos, traiçoeiros e até vulgares, catalães.
“Barcelona”, Robert Hughes, tradução de Denise Bottman, Editora Companhia das Letras, 1a. edição (1955) ISBN: 85-7164-443-8

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

las cuevas del orotava

Há livros que compramos e que ficam nos guardados, nos acompanhando de longe, anos a fio, antes que seja possível nos dedicarmos verdadeiramente a eles. Comprei esse volume em uma da viagens que fiz a Barcelona para ver Helga e Natália, tempos atrás, há pelo menos um lustro, cinco anos, diria um espanhol com mais facilidade do que nós, mas que existe no léxico português e também funciona bem. Trata-se de um registro produzido em 2004 em homenagem aos 75 anos de um restaurante que fez história em Barcelona, o "Orotava", mas que logo depois deixaria de funcionar. Fundado em 1929, em seu apogeu foi respeitado tanto pela gastronomia quanto por ser um local de encanto, de encontros, de arte, de tertúlias memoráveis. Era ponto de encontro de escritores e artistas plásticos e seu proprietário, José Maria Luna, era um entusiasta das artes plásticas e tornou seu restaurante uma espécie de galeria informal. Durante o período da ditadura franquista o restaurante foi obrigado a mudar de nome (chamou-se El Hostalillo, pois o catalão estava proibido oficialmente).  Em 1979, novamente com sua denominação original, já na redemocratização espanhola e para os festejos do cinquentenário do restaurante, seus proprietários produziram um livro arte, uma espécie de catálogo ilustrado de seu famoso cardápio. Não se tratavam de ilustrações ordinárias, comuns, e sim obras de arte produzidas especialmente para a ocasião, obras de artistas identificados com a Catalunha naquela época, como Llorens Artigas, Salvador Dalí, Jorge Castillo, Josep Maria Subirachs, Eduardo Arroyo, Salvador Espriu, Modest Cuixat, Montserrat Guriol, Pablo Picasso, Joan Tharrats, Alfonso  Pérez Esquivel, Antoni Clavé, Riera Aragó, Antoní Tápies, Oswaldo Guayasamín, Xavier Corberó, Josep Guinovart, Eduardo Chillida, Antonio Vives Fierro, Ràfols Casamada, Joan Miró, Amélia Riera e Benjamín Palencia. Miró produziu também um mosaico, que ainda pode ser visto na fachada do prédio número 335 da carrer Consell de Cent. O livro arte de 1979 foi organizado por Manuel Vázquez Montalbán, um dos grandes escritores catalães do século passado. O livro de 2004 inclui fac-símiles daquele livro arte original,  dezenas de fotografias, assinadas por Toni Catany, e vários textos curtos, produzidos por antigos frequentadores do restaurante. O longo texto de Montalbán se destaca. Segundo os editores trata-se do último texto produzido por ele, que morreu no final de 2003, na Tailândia, antes de ver o livro impresso. Os demais textos incluídos no livro também tem seu encanto. Pois o Orotava encerrou suas atividades em 2005 e as centenas de obras de artes e antiguidades reunidas nele foram leiloadas. Restou esse belo livro que guarda algo da magia que devia acontecer todas as noites em seus salões. Curiosamente o volume que comprei contém uma dedicatória do próprio José Maria Luna, endereçada a Joan Laporta, antigo presidente do Barcelona. Pelo jeito as palavras gentis de Luna na dedicatória, "amb tot el meu reconixement i afecte", não encontraram em Laporta o devido acolhimento. Sorte a minha. Como registrei no último livro que incluí no "Livros que eu li" em 2018, um ano sem voltar a Espanha é um ano perdido, ainda mais se Barcelona, a bela feiticeira do Mediterrâneo, não estiver no roteiro de viagem. Começo assim, com um livro dedicado à Barcelona, minha jornada pelos livros em 2019. Vale!
Registro #1355 (perfis e relatos #85)
[início: 01/06/2018 - fim: 25/11/2018]
"Las cuevas del Orotava: 75 anos de buen comer en Cataluña", Manuel Vázquez Montalbán, Barcelona: Editora Planeta, 1a. edição (2004), capa-dura 30x30 cm, 351 págs. ISBN: 978-84-08-05510-0

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

gaudí

Livros sempre ajudam quando se quer conhecer um assunto novo. Pensei nisto mais cedo pois hoje, 02 de outubro, o Brasil ganhou o direito de sediar as olimpíadas de 2016. O sucesso turístico de Barcelona foi um dos argumentos ufanistas mas batidos para justificar a necessidade da vinda do evento para o Rio de Janeiro. Acontece que se você quer saber mesmo porque legiões de turistas se deslocam a Barcelona todos os anos não adianta dizer que foram as olimpíadas de 1992 sediadas ali que colocaram a cidade no mapa. Isto é de uma bobagem sem par. Um jeito especial de aprender algo é ler por exemplo "Barcelona", do Robert Hughes, onde ele conta uma história da cidade justamente até as vésperas da edição daquela olimpíada. Barcelona já tinha 2000 anos de implementos quando isto aconteceu. Um outro jeito de aprender um tanto sobre a cidade é ler sobre os grandes arquitetos do modernismo catalão: Gaudí, Cadafalch, Montaner. Outro é ir visitar a cidade e conviver com o povo (eles não são exatamente cordiais e hospitaleiros, mas esta é outra história, basta dizer que o nacionalismo é sempre o último refúgio dos velhacos e eles existem tanto lá quanto neste pobre Brasil). O que vou resenhar, pois acabei de ler e ver não é um livro sobre Barcelona, mas sim um conjunto de três livretos sobre as obras arquitetônicas de don Antoni Placid Gaudí i Cornet, ou simplesmente de Gaudí. Noutro dia vi na CESMA este conjunto de livrinhos sobre o Gaudí e não deixei para outro dia resolvi levá-los naquela hora mesmo. São livros de arte onde encontramos belíssimas fotografias de todas suas obras. Curtos textos contextualizam as condições da encomenda e da construção das casas, dos monumentos, dos parques, das igrejas. Os autores incluem também trajetos que podemos fazer pela Espanha para encontrar tudo que tem a marca dele. No primeiro volume o trajeto é oeste-leste: Finca Güell, Finca Miralles, Colegio de las Teresianas, Casa Vicens, Parc Güell, Bellesguard. O segundo volume apresenta aquele eixo monumental mais perto das Ramblas e do Eixemple: Igreja da Sagrada Familia, Casa Milá, Casa Batló, Casa Calvet e Palau Güell. Estes dois trajetos podem ser feitos em dias de longas caminhadas. O terceiro volume apresenta obras executadas no interior da Catalunha, em Santander, em Mallorca, em León: Bodegues Güell, Cripta de la colonia Güell, Catedral de Palma de Mallorca, jardins Artigas, Casa de los Botines, Palau Episcopal de Astorga, Vila Quijano El Capricho. Os três volumes cumprem o propósito de proporcionar um educativo primeiro contato com a obra de Gaudí. Entre a ficção ufanista dos velhacos que venderam as olimpiadas de 2016 e a realidade concreta da Barcelona deste cruel século XXI não há muito o que dizer. Talvez só lembrar que ela não foi feita em sete anos. [início 21/08/2009 - fim 12/09/2009]
"Gaudí: paso a paso", H. Kliczkowski e Paco Asensio, Loft Pulications (H.Kliczkowski-onlybook) 2003, brochura 13,5x20, 64 págs. ISBN: 84-96241-23-8 (vol.1), ISBN: 84-96241-24-6 (vol.2) , ISBN: 84-96241-25-4 (vol.3)

terça-feira, 2 de junho de 2009

barcelona petit

Comprei este livro por dois reais, isto mesmo, na Feira do livro de Santa Maria deste ano. O livro é um guia de viagens, com indicações sobre hotéis, restaurantes, pontos turísticos e toda a miríade de informações que um viajante precisa para se localizar. Mas ele não serve mais como guia de viagens. Acontece que ele foi publicado em 1992, às vésperas dos jogos olímpicos que aconteceram em Barcelona naquele ano, e acredito ter sido uma forma de apresentar a cidade, algo como introduzir Barcelona para o público brasileiro. Naquela época a cidade ainda não fazia parte do circuito de turismo de massa que observamos hoje. Sempre teve, claro, como poderia ser diferente, o charme de um lugar para onde apenas iniciados se deslocavam e somente uns afortunados faziam ali amizades e descobriam lentamente suas belezas. O autor, Francesc Petit, é o mítico catalão que adotou São Paulo para viver e que criou a mítica DPZ no final dos anos 1960 com seus colegas Roberto Duailibi e José Zaragoza. Para boa parte dos profissionais da área, parte do sucesso alcançado pelos escritórios de publicidade brasileiros hoje em dia deve-se ao papel representado pela DPZ, como escola e celeiro de grandes publicitários. Pois Petit publicou este pequeno guia e à época deve ter sido mesmo um belo presente para se dar a um amigo em viagem. Infelizmente a maior parte dos endereços, nomes, restaurantes, telefones não existem mais, não podem ser utilizados como referência. Mas a prosa leve e sofisticada de Petit dá a este pequeno livro um valor que transcende esta desatualização. Há belas ilustrações no livro (que acredito serem todas dele mesmo, bom de traço). A apresentação é feita por Pasqual Maragall, um importante político catalão, que governou Barcelona por muitos anos. Bom de se ler e tentar lembrar dos passeios pela "velha feiticeira" uma vez mais. [início 04/05/2009 - fim 07/05/2009]
"Barcelona. Petit de guia", Francesc Petit, editora Nova Fronteira (1a. edição) 1992, brochura 11x15, 185 págs., sem ISBN

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

barcelona

De tempos em tempos faço uma viagem sentimental por Madrid, por Barcelona, por Dublin, por São Paulo e por tantas outras cidades onde tive experiências mágicas. O mais recente sobre Barcelona foi "Secretos a la vista", onde Xavier Theros passeia por sua cidade com uma prosa muito especial. Mas já fiz registros de livros de Robert Hughes, de Manuel Vázquez Montalbán e de tantos outros, que cantam cada um algo diferente a velha feiticeira da Catalunya. Nesse belo volume estão reunidas 119 reproduções fotográficas da cidade. A maioria delas é assinada por Père Vivas. Os textos que identificam as fotografias são bem curtos, a edição é trilíngue (espanhol, francês e italiano). É o tipo de livro que se deixa folhear com prazer, sobretudo em uma tarde como esta em que escrevo, de chuva e frio. O tipo de livro que evoca espantos e alegrias. Passeamos pelo Eixample, pelo Güell e as Ramblas, pelas ruelas do Gótico, do Born e do Raval, pelos sabores e cores dos mercados públicos, pelas franjas do Collserola, Montjuïc, Tibidabo e Pedralbes, pela Sagrada Família e os tantos edifícios de arquitetura modernista (Casa Batló, La Pedrera, Casa Milà, Casa Batlló, Casa Amatller). Fiquei com ele à mão lá nas terras altas de Itaara e ainda não o devolvi a seu nicho da biblioteca citadina. Ainda é tempo de estímulos felizes, mesmo após estes tantos medíocres dias de pandemia e estupidez generalizada. Segue o baile. Vale!
Registro #1574 (arte #37)
[início: 16/03/2020 - fim: 26/09/2020] 
"Barcelona", Paz Marrodán e Jaume Serrat (coordenação), Borja Calzado (texto), Père Vivas, Juanjo Puente, Ricard Pla, Lluís Beltrán, Jordi Todó  (fotografias), Barcelona: Triangle Postals, 1a. edição (2001), capa-dura 22,5x26 cm., 136 págs., ISBN: 84-8478-005-8

segunda-feira, 3 de maio de 2010

romance de barcelona

"Romance de Barcelona" é uma versão atualizada de um guia de viagens que já resenhei aqui no ano passado (Barcelona Petit de Guia, um pequeno e velho volume, publicado em 1992). Trata-se do mesmo livro em uma versão aumentada, um guia de viagens, com indicações sobre hotéis, restaurantes, pontos turísticos e toda a miríade de informações que um viajante precisa para se localizar (além de uma longa seção que mais parece um Almanaque de Gotha sentimental de Petit). Mas da mesma forma que seu irmão mais velho ele não serve como guia de viagens. A lista de hotéis, restaurantes, bares, etcetera e tal pode ter sido atualizada, mas sem a ajuda de um bom mapa e de endereços eletrônicos as indicações de pouco valem para um sujeito ainda não iniciado nos encantos da grande feiticeira do mediterrâneo. Além das costumeiras e belas ilustrações de Petit o livro inclui uma apresentação assinada por um jornalista catalão chamado Jesus Ulled que o define apropriadamente. Para ele Petit fantasia demais e, por amor a cidade, não vê seus defeitos (que são muitos), sufocados que são por sua paixão desmedida e sua leitura parcial da história. Podemos ler este livro para entrar em um determinado clima, para nos aproximarmos da visão idealizada de quem ama um lugar, sem limites, sem pudor. Conhecermos um punhado de histórias que poderemos depois conferir, visitamos espiritualmente um certo número de lugares que poderemos depois também visitar com nosso próprio coração, nos familiarizamos com nomes que um dia poderemos também lembrar com saudade. Talvez as confidências que a memória faz a um sujeito somente a ele podem mesmo interessar, particularmente anacrônicas que são. Paciência. [início 03/04/2010 - fim 18/04/2010]
"Romance de Barcelona", Francesc Petit, editora Novo Século, 1a. edição (2009), brochura 14x21 cm, 463 págs. ISBN: 978-85-7679-218-5

sexta-feira, 16 de abril de 2010

quem inventou picasso

Há livros que são ficção com ares de ensaio e outros que são ensaios, teses, disfarçados de ficção. "Quem inventou Picasso" fica mais próximo deste último tipo. Seu autor, Francesc Petit, é um publicitário e designer que fez muito sucesso no Brasil a partir dos anos 1960, mas que nasceu na Catalunha e tem com o país dos catalães uma relação forte. Infelizmente este livro dele é tão parcial, e ele defende teses caras a autonomia e liberdade da Catalunha tão francamente, sem permitir um mínimo de contestação, que não há como aceitá-lo como um bom romance. O enredo é curioso. Dois artistas plásticos, um jovem e um outro mais velho, já consagrado no mercado, se encontram por acaso e instantaneamente se percebem bastante afinados. O artista mais velho leva o mais jovem por um passeio histórico cultural pelos arredores de Barcelona, através do qual, explica ao mais jovem suas teorias sobre a importância da Catalunha na formação do pintor Pablo Picasso. Segundo esta tese foi no contato com os grandes mestres do modernismo catalão que Picasso afinou as bases do trabalho que o levaria a conquistar Paris assim que lá se instalasse. Claro, Picasso viveu sim em Barcelona nos últimos anos do século XIX, um pouco antes de se instalar definitivamente em Paris, mas desde sua infância andaluz (ele nasceu em Málaga) e seus dias de estudante na Galícia, sua genialidade artística já era reconhecida. De qualquer forma o livro de Petit percorre Barcelona, seus bares, restaurantes, museus, galerias e rincões, contanto um tanto da história rica daquela região da Espanha. O livro acaba ficando repetitivo, apesar de toda a beleza e histórias curiosas, que um leitor atento aproveita com verdadeiro prazer. No livro os dois artistas criam um movimento artístico moderno que alcança seu objetivo maior: divulgar a arte catalã. No fundo Petit escreve como se descrevesse um sonho, um desejo, de que Barcelona e seu modernismo fossem mais aceitos e respeitados. [início 26/03/2010 - fim 31/03/2010]
"Quem Inventou Picasso", Francesc Petit, editora Arx, 1a. edição (2007), brochura 16x23 cm, 207 págs. ISBN: 978-85-7581-265-5

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

la boqueria

Quando foi que vi este livro pela primeira vez? Acho que foi na biblioteca pública do Montbau, mas pode ter sido também na La Central, vai saber. Mas certamente era quando eu estava a aprender um tanto sobre Manolo Vázquez Montalbán, apresentado por doña Eliana, vale a pena registrar. Já tinha percebido que o sujeito era um entusiasta da gastronomia e este belo livro impressiona de cara, tanto pelo texto quanto pelas fotografias, belíssimas. Depois de uns anos lendo seus livros, tanto aqueles da série Carvalho, quanto os demais, sempre bem convincentes e estruturados, já posso dizer que de Montalbán eu entendo. Mas me faltava reencontrar este livro de gastronomia, este livro que fala de um mercado fundamental, a verdadeira catedral para os sentidos - que frase! - que é o La Boqueria de Barcelona, o La Boqueria de las Ramblas. Claro, Barcelona tem uns cinquenta bons mercados públicos, cada um interessante e acolhedor a seu modo, mas qualquer sujeito que tenha tido a oportunidade de visitar a Boqueria entende este estusiasmo particular que ele provoca. Trata-se de um mercado amplo, onde são oferecidos todas as delícias de um gastrônomo, onde são permitidos excessos e extravagâncias, comilanças e invenções. O livro é bem editado, o papel é de boa qualidade, o texto de Montalbán é laudatório, mas muito informativo e original. As fotografias são assinadas por três pessoas (Eva Guillament, Antonio Lajusticia, Txema Salvans). Há também várias fotos antigas (do início do século XX), ilustrando as passagens onde Montalbán fala da história dos mercados de Barcelona (ok, são 46, e todos merecem uma visita). Ter encontrado este livro não representa a felicidade, mas não tê-lo era mesmo insuportável. [início 2007? - fim 14/09/2010]
"La Boqueria: la catedral dels sentits", Manuel Vázquez Montalbán, Eva Guillamet, Antonio Lajusticia, Txema Salvans, tradução de Jordi Curell e Valerie Collins, Editora do Ajuntament de Barcelona, 1a. edição (2002), brochura 30,5x30 cm, 211 págs. ISBN: 84- 7609-948-7

sexta-feira, 3 de maio de 2019

carvalho, problemas de identidad

Carlos Zanón é escritor e roteirista espanhol, autor premiado de romances policiais. Recentemente o poderoso grupo editorial Planeta o convidou para escrever um romance que desse continuidade às aventuras do mítico detetive Carvalho, invenção genial de Manuel Vázquez Montalbán, que morreu em 2003. Quem já leu algum dos livros de Montalbán sabe do tamanho da responsabilidade. Carvalho surge em 1972, ainda sem muitos dos predicados que acostumamos associar a ele, em "Yo maté a Kennedy". É protagonista de pelo menos vinte e cinco romances ou livros de contos de Montalbán, até seu encantamento em "Milênio", de 2004, e algumas reencarnações recompiladas de jornais e publicadas nos "Cuentos negros", de 2011. Zanón opta por imaginar em seu livro um outro Pepe Carvalho, um detetive real cuja expertise foi utilizada por Montalbán na gênese do Carvalho original. Trata-se de uma espécie de jogo: o Carvalho de Montalbán perdeu-se como personagem em "Milênio", após sua volta ao mundo fugindo da Interpol, e o Carvalho de Zanón continua a viver em Barcelona, lembrando episodicamente de como "El escritor", ou seja, Montalbán, usava suas histórias reais nas narrativas ficcionais que publicava. Os sentimentos são ambíguos. Apesar de feliz por não mais ler seu nome associado a um personagem de ficção e precisar dar explicações a gente curiosa, ele sente saudades das conversas que tinha com o homem Montalbán, o jornalista e intelectual dinâmico que era. Enfim, funciona como explicação para essa nova metamorfose do personagem. De qualquer forma "Carvalho: problemas de identidad" demora um pouco para prender o leitor. Estamos no verão de 2017, às vésperas do plebiscito pela separação da Catalunya que tantos desdobramentos já experimentou, e que de certa forma fraturou toda a Espanha (as eleições da semana passada estão aí como exemplo). As obsessões e temas de Montalbán aparecem como em uma pátina ou palimpsesto: os turistas que passeiam pelas Ramblas catalanas, Biscuter e sua ambição gastronômica, a cresecente presença de chineses em sua Barcelona fundamental, a queima ritual de livros, as saudades de Charo, as relações com a comunidade européia, as relações autofágicas entre direita e esquerda, a rivalidade entre Madrid e Barcelona, os contatos com a polícia e o submundo, as receitas, as citações eruditas disfarçadas, o separatismo catalão, as preocupações com o destino político e econômico da Espanha. O Carvalho de Zanón continua sarcástico, amargo, abusando do cinismo, talvez com menos vigor físico e mais problemas de saúde, enredado em relações amorosas confusas e desgastantes. Os crimes que ele investiga são, a exemplo dos romances originais, o que menos importam na narrativa, são peças acessórias que servem para conduzir o ritmo do livro, mas que não são foco de real interesse. Carvalho precisa entender as razões para a morte de uma velha senhora e sua neta ao mesmo tempo que investiga o desaparecimento de uma prostituta em Montjüic. Afinal, o livro funciona como homenagem a Vázquez Montalbán e também funciona como romance policial independente. Vamos a ver se esse projeto terá continuidade, se haverá outros Carvalhos no futuro. Em tempo: Sempre vale a pena atualizar-se nas cousas de Montalbán acompanhando o site Vespito. Vale!
Registro #1390 (romance policial #82) 
[início: 13/03/2019 - fim: 23/03/2019]
"Carvalho: problemas de identidad", Carlos Zanón, Barcelona: Editorial Planeta, 3a. edição (2019), capa-dura 16x24 cm., 350 págs., ISBN: 978-84-08-20148-9

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

feiticeira


Quando vi este livro do Hughes e o ano da publicação fiquei curioso e ávido por ler, pois o outro livro dele "Barcelona", que li recentemente e reenhei aqui, havia realmente me impressionado muito. Será que ele continuaria a história da "velha feiticeira" do ponto em que parou? Acrescentaria alguma coisa? Infelizmente não é bem isto. Publicado em 2004, mais de quinze anos após o anterior, "Barcelona: The Great Enchantress" tem pouco material inédito. Feito de encomenda para o grupo National Geographic, em uma série de reportagens sobre cidades do mundo, este pequeno livrinho contem claro algumas das excelentes passagens do livro anterior, mas são realmente muito curtas para se ter uma idéia do que o outro livro apresentava. Não há o farto material iconográfico, as longas passagens sutis e inspiradas de antes. Não há os anexos bibliográficos e as sugestões de leituras mais técnicas. Claro, há um tom mais pessoal, agradável de se acompanhar e boas passagens que contam um tanto como o autor veio pela primeira vez a cidade e dos grandes amigos que fez (e manteve) ao longo dos últimos quarenta anos. Uma frase inédita que realmente eu gostei diz algo mais ou menos assim: Você é uma pessoas realmente afortunada caso, não muito tarde na tua vida, descubra uma outra cidade, distinta de sua cidade natal, que seja verdadeiramente a "sua" cidade. Eu acredito nisto também. Se identificar com um lugar a ponto de gostar de se apresentar como um nativo daquele lugar me parece um fenômeno que dá ao sujeito um prazer enorme e indistinto. Se é que eu posso sugerir algo para os eventuais e extemporâneos leitores deste blog eu diria que a leitura indicada segue sendo o original Barcelona, de 1988. Este livro é apenas um aperitivo que, ao menos para mim, de alguma forma pode até afastar o leitor do encantamento que a velha feiticeira pode provocar. De qualquer forma é um livro honesto a disposição de quem se inspire a enfrentá-lo.
Barcelona: The Great Enchantress, Robert Hughes, National Geographic Directions, 1a. edi ção (2004) ISBN: 0-7922-6794-X

sábado, 31 de março de 2007

libro negro

Ganhei este livro de presente de aniversário. O autor é catalão e minha amiga Eliana me disse que eu devia ler algo dele antes de viajar a Barcelona. Estava envolvido com o Quarteto de Alexandria do Durrell e gostei da coincidência. Na última hora decidi levar o livro junto com a bagagem e li quase metade no avião. Agora, nestes dias longos, no metrô e nos ônibus catalães acabei terminando. Montalbán foi um escritor muito respeitado e influente, principalmente nos anos que se seguiram a redemocratização espanhola. Tem uma obra muito vasta, incluindo romances, poesias, ensaios, críticas gastronômicas e literárias, textos políticos e também sua produção acadêmica como professor de história na universidade autônama de barcelona. Mas este blog é sobre livros e não - quase infelizmente, posso dizer - sobre os escritores. Rosa de Alexandria é um dos livros da série Carvalho, um inspetor/detetive particular que tem um refinado sentido gastronômico e uma notável capacidade de entender a psicologia de assassinos, psicopatas, prostitutas e policiais. É um bom livro. Há um crime para ser solucionado e após várias peripécias somos apresentados ao assassino. Nada que você não tenho lido antes em Dashiell Hammett, em Patricia Highsmith, em Rubem Fonseca, etcetera e tal, mas é sempre bom ler algo de um escritor sobre o qual nunca havíamos lido nada. O interior da Catalunha é descrito de uma forma muito vívida e detalhes da transição do franquismo para o regime democrático são colocados de forma sutil. Há muito humor e ironia neste belo livrinho, que sempre vou associar a esta conturbada barcelona de hoje em dia. A Companhia das Letras lançou vários livros desta série Carvalho (é incrível como não podemos mesmo acompanhar tudo o que é lançado neste mundo vasto das letras). Para quem gosta de romances policiais é mesmo uma bela surpresa.
"A Rosa de Alexandria", Manuel Vázquez Montalbán, tradução de Rosa Freire d'Aguiar, editora Companhia das Letras, 1a. edição (2006) ISBN: 85-359-0775-0

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

el viajero más lento

A edição original de "El viajero más lento" é de 1992. Quase vinte anos depois Enrique Vila-Matas o republica em uma edição muito bem cuidada da Seix Barral. O curioso da globalização é ter em mãos um livro que tem como data final, incluída no novo epílogo, o início de maio desse 2011. Das gráficas de Barcelona a Santa Maria quase sem escalas (devo incluir nesta conta, talvez por se tratar mesmo de "El viajero más lento", o bom par de meses que o livro descansou em minha biblioteca). São trinta e cinco textos, se incluirmos o prólogo e os dois novos epílogos (preparados especialmente para essa reedição). Os textos originais, publicados em jornais e revistas antes que em livro, pertencem a um período longo de tempo, o mais antigo de 1968, boa parte deles, do final dos anos 1980. São ensaios literários, reflexões sobre literatura, autores. Não li nem metade de tudo o que Vila-Matas já publicou, mas nesse livro reconheço vários dos temas caros à ele: o jogo da citação literária, dos pastiches, o jogo das influências, das opiniões sobre a história da literatura contemporânea, o censo dos habitantes do mundo maravilhoso dos livros, a invenção amalucada de conexões entre temas aparentemente díspares. O próprio Vila-Matas apresenta cada um dos textos e indica ao leitor quais narrativas longas brotaram das idéias originais publicadas no livro. Ele fala também de seu método de invenção (se é que isso é possível) e da escolha de leituras e temas. Gostei muito de ler a entrevista com Marlon Brando que ele fingiu traduzir em 1980 (cabe lembrar que nele nenhuma informação pode ser trivialmente aceita como verdadeira). A entrevista (verdadeira?) com Salvador Dali também está incluída na compilação. A história do exílio de don Pio Baroja (El acero del dolor) é particularmente tocante. Nela encontramos a associação entre o ofício do escritor e o ato de cruzar fronteiras, uma coisa boa de se pensar. É um livro para se disfrutar, com calma e prazer, mas tendo em conta, como Vila-Matas mesmo diz: "Ya hace años que no soy nada amigo de las afirmaciones categóricas. Salbo que sean dichas en tono irónico." Sejamos irônicos pois. [início 24/10/2011 - fim 13/11/2011]
"El viajero más lento: El arte de no terminar nada", Enrique Vila-Matas, Barcelona: editora Seix Barral, 1a. edição (2011), brochura 13,5x23 cm, 222 págs. ISBN: 978-84-322-0943-7 [edição original: Barcelona: Anagrama, 1992]

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

barcelona

De todos os guias e mapas que já comprei ao longo de minhas modestas e curtas viagens este é que mais me agradou, por isto decidi resenhá-lo aqui. Ele é pequeno, cabe no bolso de um casaco em um dia de inverno ou em uma bolsa à tiracolo em um dia de verão. Cada página se divide entre um mapa que se desdobra e uma página de informações. Assim o leitor, viajante, turista, curioso, vai de bairro a bairro da velha feiticeira sem chance de esquecer uma dica cultural, gastronômica, irrelevante que seja, por conta de divisões aleatórias do conteúdo "turístico" que cada cidade tem. O livro é bem ilustrado, as fotos são de boa qualidade. O texto é objetivo e direto, sem muita adjetivação. Depois dos mapas e da descrição dos bairros as usuais seções de um livro de viagens aparece: dicas de aeroporto e de translados, dicas de gastronomia e de compras, dicas de bancos e de festas. Na verdade cada um de nós deve construir seu guia pessoal de cada cidade que visita, de cada região que explora, de cada país com o qual se envolve, mas na falta deste envolvimento um bom guia sempre é fundamental. Bom divertimento. [início 01/08/2009 - fim 26/09/2009]
"Barcelona: Plano guia, la ciudad, plano a plano, guía práctica", Llátzer Moix, Josep Liz, editorial Turism de Barcelona - Triangle Postals (1a. edição) 2009, brochura 11x19,5, 64 págs., ISBN: 978-84-8478-367-1

quinta-feira, 23 de maio de 2019

esta bruma insensata

Em "Esta bruma insensata", seu romance mais recente, Enrique Vila-Matas oferece uma vez mais uma narrativa onde importam antes as ideias, a discussão sobre o ofício da invenção literária, intertextualidade, metalinguagem ou o mundo diáfano dos livros e não necessariamente a trama, a história, os sucessos e aborrecimentos de personagens que, sabemos todos, só existem na imaginação de escritores e leitores. No livro acompanhamos três dias da vida de Simon Schneider, um sujeito algo misantropo, que vive isolado num casarão em ruínas de Cap de Creus, no ponto mais oriental da Península Ibérica, próximo à badalada Cadaqués, na Catalunya. Simon vive de traduções e também do curioso ofício que é compilar aforismos e frases feitas. Nos últimos vinte anos ele vendeu suas frases compiladas e aforismos sobretudo para um irmão mais novo, Rainer Schneider Reus, sujeito que era um medíocre escritor quando morava na Catalunha, mas que emigrou para os Estados Unidos e tornou-se um escritor respeitado, tanto por seus truques metaliterários quanto por sua reclusão, sua aversão a exposição pública, ao estilo de Thomas Pynchon ou J. D. Salinger. Simon entende que a força e o sucesso dos livros de Rainer deve muito a seu trabalho, às frases feitas que envia ao irmão. Ao mesmo tempo tem consciência do fracasso, sabe que a matéria prima da literatura sempre é algo que já foi contado e recontado infinitas vezes, que a originalidade é uma quimera, um sonho, esquecido entre "brumas insensatas", para aproveitar o título do livro. Vila-Matas situa temporalmente seu livro no final de outubro de 2017, nos dias em que massivas manifestações públicas aconteceram em Barcelona em função da declaração unilateral de independência anunciada pela Generalitat de Catalunya (e que tantos desdobramentos fez toda España experimentar desde então). Rainer e Simon funcionam como  Doppelgänger um do outro, são duplos, faces opostas e complementares, um do outro. A bem da verdade, entendi o relacionamento deles dois algo parecido com o de James Joyce e seu irmão Stanislaus, sempre tratado como um escravo particular, desde os tempos em que viviam em Trieste até o final da vida de Joyce, já em Zürich. Há momentos em que Simon e Rainer confessam fé cega na literatura, no poder das palavras, ja noutras, com sarcasmo, renunciam a ela, por sua natural impostura. O livro oscila entre estas duas ambições, louvar a literatura e renegá-la. Vila-Matas povoa seu livro com citações interessantes (de Elias Canetti, Raymond Queneau, Anthony Burgess, Ortega y Gasset, Winston Churchill e tantos outros). Ele faz seu personagem principal, Simon, deambular de Cap de Creus a Cadaqués, dali a Barcelona, justamente nos dias das manifestações contra ou a favor da independência da Catalunya, para encontrar, mas isso só nos últimos capítulos do livro, com seu famoso e dissimulado irmão. Esse encontro, em um hotel do Eixample barcelonês, funciona como um momento de auto-análise, uma sessão de psicanálise, uma interpretação do valor das palavras trocadas entre eles. Com bem diz um deles nestas seções finais do livro, "a paranóia é como o alho, deve ser usada com parcimônia". O livro termina enigmático, com uma palavra dita por Rainer para Simon, que lembra o final do "Cidadão Kane", de Orson Welles, e também termina com Simon perseguindo, pelas ruas coloridas de amarelo da Catalunha, uma esquiva Dorothy, que talvez fosse a mulher de Rainer, ou talvez não, vai saber. Vivemos todos sob um nevoeiro sem sentido. A literatura de ficção, Vila-Matas faz Simon enunciar: "gosta do passado e por isso corre o risco de não ser outra coisa que algo do passado". Sempre provocante, esse curioso e prolífico catalão. Vale! 
Registro #1403 (romance #356) 
[início: 11/05/2019 - fim: 22/05/2019]
"Esta bruma insensata", Enrique Vila-Matas, Barcelona: Editorial Seix Barral Biblioteca Breve (Grupo Planeta) 1a. edição (2019), brochura 13,5x23 cm., 311 págs., ISBN: 978-84-322-3489-7

sábado, 16 de dezembro de 2017

barcelonas

Lá em maio, ainda quando lia o bom "Homenagem a Barcelona", de Colm Tóibín, resolvi começar a folhear "Barcelonas", mimo que carrego comigo há décadas. Ato contínuo "I was drowning in honey, stingless", como sempre deve ser. Manuel Vázquez Montalbán escreveu o robusto  texto desse livro, que inclusive inspirou e foi confessadamente utilizado por Tóibín na elaboração do seu, como material de divulgação dos Jogos Olímpicos de Barcelona, que seriam celebrados em 1992. Mas se o que escreve Montalbán é seminal, rico e detalhado, repleto de informações e poesia, são as ilustrações, reproduções fotográficas, desenhos e imagens incluídas no livro que nos enfeitiçam, conduzem nosso olhar, quase nos impedindo acompanhar cada página de leitura até o fim. Talvez esse prodígio seja culpa do desenho gráfico do livro, assinado por Ferràn Cartes, um respeitado artista plástico catalão. Montalbán divide seu livro em seis grandes seções. "Desde as colinas", onde treina o olhar do leitor, fazendo-o acompanhar a geografia da cidade quando vista do alto, do Tibidabo, de Vallvidrera (habitat de Pepe Carvalho, seu personagem icônico), de Montjuïc, e também de suas sete modestas colinas, como as de Roma em número (os catalães são sempre tremendos em suas ambições): Monterols, Putxet, Creueta del Coll, Carmel, Rovira, Peira e Modollell. "Las ciudades sumergidas" percorre o tempo, as camadas de povos e culturas que se fixaram naquela região onde hoje vivem os catalães, importante centro comercial do Mediterrâneo desde tempos remotos. Em "El hombre libre en la ciudade libre" quem se sobressai são os indivíduos, em número anônimos, mas quando são identificados tornam-se na visão de Montalbán quase heróis, fadas, portentos (Montalbán descreve aqui e nas duas seções seguintes os períodos trágicos da cidade, sempre as voltas com um desejo de independência baldado; as fotografias destas três seções são soturnas, pesadas, carregadas de mágoa). A seção seguinte, "La Bem Plantada", conta a arquitetura, a engenharia, a distribuição dos equipamentos urbanos, a vocação da cidade para aceitar planejamentos que a modificam sem que a magia original se perdesse; fala dos bares, teatros e museus, dos desastres que a guerra civil provocou nas ruas, nas esculturas, nos bairros, nas edificações, e nas gentes, claro. "La ciudade ocupada" fala de como corações e mentes catalãs se resignaram nos anos da ditadura franquista, de como se operou o milagre da transição para a democracia, a reconstrução moral da cidade ocupada, como o título explicita. "Milênio" encerra o volume, prospecta um futuro, um porvir, uma possibilidade. Montalbán fala sobretudo dos projetos urbanos que serão feitos para os Jogos Olímpicos (a decisão havia sido tomada há pouco, em 1986), mas também fala do reerguimento da auto estima da cidade, da oportunidade, da possível volta da magia, da renovada utopia. Quase tudo o que foi escrito em 1987 ainda vale hoje, trinta anos depois. Inegavelmente os Jogos Olímpicos foram um sucesso e a cidade tornou-se um local de turismo privilegiado e marcante. Montalbán foi também um poeta, foi um homem otimista, sempre acreditou na capacidade de uma coletividade vencer qualquer obstáculo, qualquer desafio. Ele filtra com esses seus olhos confiantes uma sociedade complexa, que talvez tivesse mais matizes sociais do que ele era capaz de aceitar. Reli esse livro sobretudo por conta do que aconteceu na Catalunha neste ano. A tentativa da Generalitat de Catalunya (capitaneada por Carles Puigdemont) de forçar sua separação do Estado Espanhol, declarando unilateralmente a independência, em outubro, implicou em uma intervenção na Generalitat, a fuga de Puigdemont  e vários outros diputats independentistas para a Bélgica e a convocação de eleições gerais para o próximo 21 de dezembro. Ninguém sabe dizer hoje qual será o resultado prático das eleições. Ganhem os grupos nacionalistas ou os independentistas a questão da identidade catalã não se tornará por mágica menos complicada, menos tensa, menos humilhante para os catalães. Logo saberemos. Talvez eu acrescente um post-scriptum nesse registro, contando os sucessos das eleições. Vamos ver. Vale!
Registro #1248 (perfis e memórias #83)
[início: 10/05/2017 - fim: 15/12/2017]
"Barcelonas", Manuel Vázquez Montalbán, Barcelona: Editorial Empúries / Grup62, 1a. edição (1987), capa-dura 31,5x31,5 cm., 247 págs., ISBN: 84-7596-145-5

terça-feira, 1 de novembro de 2011

hijos sin hijos

Esse pequeno livro de contos de Enrique Vila-Matas não é exatamente arrebatador. Claro, as histórias são inventivas, cheias de malabarismos mentais e funcionam como provocação intelectual e entreterimento rápido, mas não pertencem ao melhor que li dele até aqui. O que encontramos em "Hijos sin hijos" são treze contos amalucados. Dez deles são curtos, cinco curtíssimos e um relativamente longo. A maioria envolve o universo dos sonhos, das metamorfoses, das reflexões rápidas anotadas em uma espécie de diário. Por vezes os narradores das histórias, frente a perplexidade com a vida, flertam com perversões, amoralidades, logro e mentira. Noutras parecem se esforçar para esconder ou cifrar coisas, mas sem a enxurrada de citações  que tipicamente são utilizadas por Vila-Matas. Cada uma das histórias é localizada espacial e temporalmente, como se o autor pretendesse apresentar um painel da geografia e da história de seu país através de relatos que são cotidianos, personalizados, antes confissões. pessoais que digressões de terceiros. O padrão para se entender as histórias é oferecido pelo próprio autor (em sua generosa e completíssima webpage), quando afirma que os heróis dessas histórias são pessoas que ao decidirem não deixar descendência somente sobrevivem naquilo que produzem e dizem, naquilo que contam e registram. Não farei um censo das histórias aqui, mas gostei de uma em que após o marido perder o emprego sua mulher decide também ficar desempregada (Mandando todo al diablo); do thriller pseudo-religioso de La familia suspendida; do tom folhetinesco e labiríntico de El hijo del columpio; da história onde uma garota conta sucessos de amor e morte em uma relação incestuosa (Mirando al mar y otros temas); da história onde um garoto mudo aterroriza seus pais (Te manda saludos Dante). Haverá algum outro Vila-Matas por aqui em breve. [início 13/10/2011 - fim 23/10/2011]
"Hijos sin hijos", Enrique Vila-Matas, Barcelona: editorial Anagrama (compactos), 2a. edição (2007), brochura 13,5x20,5 cm, 217 págs. ISBN: 978-84-339-6687-2 [edição original: Barcelona (editorial Anagrama) 1993]

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

ella era hemingway. no soy auster.

São duas argumentações, duas idéias, bem curtas e auto-referentes, que Enrique Vila-Matas decidiu por alguma razão publicar na forma de uma pequena plaquete (chamar de livro seria um abuso, claro) e não incluir em uma coletânia de ensaios e crônicas. Na primeira, "Ella era Hemingway", o narrador - do que pode ser um curto ensaio, uma crônica ou um conto - descreve seu assombro com sua própria incapacidade de entender um conto de Hemingway (e entender, sobretudo, porque este afirmava ser "Cat in the rain" o melhor conto já escrito). Na segunda argumentação, "No soy Auster", o narrador (que talvez seja o Vila-Matas real) fala sobre o que o aproxima e o que o distingue de Paul Auster, escritor americano que certamente o Vila-Matas real admira (há um vídeo muito bom no YouTube onde ambos são entrevistados, onde aprendemos que ambos compartilham muitas obsessões e vivências). Não há o que acrescentar. As duas histórias apresentam ao leitor como Vila-Matas opera: tudo pode ser ficcionalizado, tudo pode alcançar ter valor literário, tudo pode ser discutido e argumentado. Vamos em frente. [início/fim: 06/12/2011]
"Ella era Hemingway. No soy Auster", Enrique Vila-Matas, Barcelona: ediciones Alfabia, 3a. edição (2011), brochura 10x14 cm, 32 págs. ISBN: 978-84-612-4973-2 [edição original: Alfabia (Barcelona) 2008]