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quinta-feira, 22 de outubro de 2020

línea de fuego

A Guerra Civil Espanhola durou pouco menos de três anos (de 17/7/1936 a 01/04/1939). Morreram nela aproximadamente 500 mil pessoas (há quem diga que foram apenas 150 mil e há outros que afirmam que o número de mortes alcançou 1 milhão). De qualquer forma foi uma das guerras mais sangrentas do século XX, período não exatamente conhecido por valores humanistas e pacíficos. O custo social foi enorme. A ditadura franquista vencedora, que ficaria no poder por 36 anos, até meados dos anos 1970, ainda provocaria muitas mortes e o exílio de milhares de espanhóis. Arturo Pérez-Reverte, prolífico autor de trinta romances e de vários volumes de crônicas, lançou recentemente um “relato” (em suas palavras) sobre a Guerra Civil dos espanhóis. Suas motivaçôes são explicadas por ele mesmo nesta boa entrevista: Librotea El país. Sua proposta é narrar uma história de ficção, ou seja, não se trata de história, de análise política ou de sociologia. Ele situa esse seu relato em uma das batalhas mais famosas da Guerra Civil, a batalha do Ebro. A batalha real aconteceu entre 25/7/1938 a 16/11/1938 (pouco menos de quatro meses). Morreram nela aproximadamente 80 mil pessoas, em uma região de aproximadamente 800 Km². No recorte ficcional de Pérez-Reverte os sucessos acontecem em uma cidade imaginária que ele chama de Castellets del Segre, na qual, em seus 35 Km² e nos primeiros dez primeiros do conflito, morrem 3.000 pessoas. Ele povoa o romance/relato com personagens icônicos do mosaico de participantes da conflagração real: comunistas, socialistas, anarquistas, trotskistas, sindicalistas, brigadistas internacionais, nacionalistas, legionários, monarquistas, carlistas, fascistas, nazistas, falangistas. O tom não é pedagógico, mas percebe-se que Pérez-Reverte quer oferecer ao leitor a experiência da complexidade da Guerra Civil, que não pode ser resumida em platitudes como “a luta em defesa da civilização cristã contra a barbárie comunista” (dos que se afeiçoam com o discurso nacionalista de Franco, que vencerá o conflito) ou “a luta do bem contra o mal” (na igualmente vazia retórica dos republicanos, o grupo derrotado). De qualquer forma, Pérez-Reverte lamenta, em suas entrevistas, o uso "bastardo", político ou ideológico da Guerra Civil que domina os discursos contemporâneos, eclipsando o lado humano, a realidade da dor e horror, pois aqueles que participaram diretamente já estão hoje, quase todos, mortos. Não me atrevo aqui a fazer uma sinopse das quase 700 páginas do volume. É um livro fácil de ler, pois somos rapidamente capturados pela boa prosa de Pérez-Reverte. Distribuídos em três partes (e em dezenove capítulos e um epílogo), o autor alterna cenas dos dois grupos em guerra. Algumas destas cenas permitem a ele fazer alguma filosofia sobre as motivações de cada um dos envolvidos; outros distendem a tensão e o acúmulo de mortes com tiradas cômicas e jocosas; outros ainda oferecem oportunidade para discussões sobre questões de estratégia, de táticas ou para descrever os armamentos utilizados e a indumentária (nem todos usavam uniformes nesta guerra). Há também personagens femininos e uma criança, personagens que permitem discussão sobre o especial papel das mulheres e dos jovens nas guerras e sobre o impacto da carnificina neles. Pérez-Reverte trabalha muito bem os modos de falar e sotaques dos muitos grupos em luta, inclui canções, bravatas e coplas utilizadas como ferramentas motivacionais nas trincheiras. A melhor dupla de personagens é formada por Ginés Gorguel, um abobado carpinteiro do interior de Albacete, e Selimán al-Barudi, um legionário marroquino, um mouro, que combatem juntos no lado franquista e se tornam improváveis amigos. Também é muito interessante o papel de um jovem alferes, Santiago Pardeiro, que aplica com sabedoria tudo o que aprendeu na escola militar, ganhando respeito de seus comandados, todos legionários já bastante mais velhos e experimentados em batalhas. Outro personagem interessante é Saturiano Bescós, um aragonês, pastor de ovelhas, que garante momentos de descontração na trama com seu sarcasmo, senso de oportunidade e objetividade. Entretanto, é verdade que todos os demais protagonistas cumprem bem seus papéis, neste mosaico de vidas inventadas (Julián Panizo, um dinamitador comunista; Bascuñana, um cético capitão da marinha, perdido nas montanhas e vales do leste espanhol; Pato Monzón, uma disciplinada e idealista especialista em comunicações; Tonet, o garoto de 12 anos, que escolhe ajudar o grupo nacionalista mais por diversão que por ideologia; Vivian Szerman, uma curiosa jornalista americana, que sonha viver aventuras, e as vivedolorosamente; Oriol Les Forques, um catalão “requetés”, para quem a guerra era uma nova cruzada cristã; O’Duffy, um sonhador major irlandês das brigadas internacionais; Phillip Tabb, um fotógrafo destemido; o major Emilio Gamboa, que luta pelos republicanos, mas reluta em aceitar interferência dos comissários políticos russos nas questões militares). O leitor percebe rapidamente que o núcleo das forças militares nacionalistas é mais profissional, enquanto nas tropas republicanas o comando é caótico,  improvisado. Em seu livro não há grandes nomes (acho que ele só grafa “Franco” uma vez). No campo de batalha todos são quase anônimos, confia-se em apenas uns poucos camaradas, em pessoas com quem se partilha o perigo da morte. Os 3.000 mortos inventados por Pérez-Reverte, a grande maioria do lado republicano, são quase todos crianças, de 17 anos, se tanto, recrutados por que alcançaram este número mágico, não  alguma maturidade; ou indivíduos sem instrução militar alguma, capturados em cidadezinhas e forçados a lutar; ou sonhadores estrangeiros, que imaginavam lutar contra o fascismo, o mal encarnado, mas eram apenas carne barata à serviço dos planos estratégicos maiores de Stálin; ou ainda militares patriotas, cuja expertise sempre morria no fogo cruzado das ideologias, emaranhados nas quimeras de uma revolução global, que jamais acontecerá. Ele também nos ensina que em uma guerra não se morre por causas nobres, por conceitos abstratos, por bandeiras ou por líderes. Morre-se por um passo mal dado, por um cigarro acesso em hora imprópria, por fogo amigo, pelas costas, por puro azar, por uma arma que trava quando não devia, por uma ponte que cai, por intrigas de caserna e trincheiras, por falta de medicamentos, de fome, sede ou frio, por injustas acusações de covardia, por inabilidade, por uma palavra mal dita, por um documento errado ou foto familiar carregada na carteira, por um crucifixo, ou a falta dele, no pescoço. A verdade não é revolucionária, já se sabe, pois ela morre sempre no primeiro dia de cada grande batalha. Todavia, a verdade ficcional de Pérez-Reverte está registrada em um grande livro, que viverá por mais anos que aqueles que dela participaram. Parece ter funcionado o esforço de trazer o lado humano da Guerra Civil para o primeiro plano da discussão contemporânea. A repercussão - e as vendas - na Espanha é enorme. Muitos políticos ou simpatizantes de ideias de esquerda ou direita condenaram o livro, claro. Mas tanto a crítica honesta, quanto o público leitor, parece pouco interessado em disputas ideológicas, no discurso fácil, sempre dirigido apenas aos acólitos e escravos mentais dos dois bandos. Pouco importa. Como disse recentemente Pérez-Reverte em sua conta no Twitter: "Por supuesto, eso va a indignar a los que viven de lo simple, de señalar buenos y malos desde ambos extremos de la política española, los ultras,  sectarios y paniaguados de derecha y de izquierda, necesitados siempre de blanco y negros, enemigos de los matices y complejidades que les estropean el discurso fácil. También indignará a los tontos. Y seré muy feliz cuando eso ocurra, pues entonces habré logrado mi objetivo. Que empiecen a chillar las ratas". É verdade. Quem for capaz de reclamar deste grande livro é mesmo um rato, um homem oco, crâneo recheado de palha, que apenas grita palavras vazias.Vale!
Registro #1582 (romance #390)
[início: 14/10/2020 - fim: 17/10/2020] 
"Línea de Fuego", Arturo Pérez-Reverte, Barcelona: Alfaguara / Penguin Random House Grupo Editorial, 1a. edição (2020), brochura 15,5x24,5 cm., 683 págs., ISBN: 978-84-204-5466-5

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

barcelona

De tempos em tempos faço uma viagem sentimental por Madrid, por Barcelona, por Dublin, por São Paulo e por tantas outras cidades onde tive experiências mágicas. O mais recente sobre Barcelona foi "Secretos a la vista", onde Xavier Theros passeia por sua cidade com uma prosa muito especial. Mas já fiz registros de livros de Robert Hughes, de Manuel Vázquez Montalbán e de tantos outros, que cantam cada um algo diferente a velha feiticeira da Catalunya. Nesse belo volume estão reunidas 119 reproduções fotográficas da cidade. A maioria delas é assinada por Père Vivas. Os textos que identificam as fotografias são bem curtos, a edição é trilíngue (espanhol, francês e italiano). É o tipo de livro que se deixa folhear com prazer, sobretudo em uma tarde como esta em que escrevo, de chuva e frio. O tipo de livro que evoca espantos e alegrias. Passeamos pelo Eixample, pelo Güell e as Ramblas, pelas ruelas do Gótico, do Born e do Raval, pelos sabores e cores dos mercados públicos, pelas franjas do Collserola, Montjuïc, Tibidabo e Pedralbes, pela Sagrada Família e os tantos edifícios de arquitetura modernista (Casa Batló, La Pedrera, Casa Milà, Casa Batlló, Casa Amatller). Fiquei com ele à mão lá nas terras altas de Itaara e ainda não o devolvi a seu nicho da biblioteca citadina. Ainda é tempo de estímulos felizes, mesmo após estes tantos medíocres dias de pandemia e estupidez generalizada. Segue o baile. Vale!
Registro #1574 (arte #37)
[início: 16/03/2020 - fim: 26/09/2020] 
"Barcelona", Paz Marrodán e Jaume Serrat (coordenação), Borja Calzado (texto), Père Vivas, Juanjo Puente, Ricard Pla, Lluís Beltrán, Jordi Todó  (fotografias), Barcelona: Triangle Postals, 1a. edição (2001), capa-dura 22,5x26 cm., 136 págs., ISBN: 84-8478-005-8

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

tirar del hilo

O grande Andrea Camilleri morreu em 2019. Como só leio as traduções espanholas e não os originais italianos tenho pelo menos seis livros dele para ler. Dentre estes seis estão o famoso "Riccardino", último volume da série de aventuras do Comissário Montalbano, escrito em 2006, porém programado para ser publicado após sua morte (na verdade os editores italianos publicaram duas versões do Riccardino, pois Camilleri não ficaria 13 anos sem mexer naqueles originais, claro). "Tirar del hilo" foi publicado originalmente em 2016. Camilleri afirma nas notas do final que esse volume recebeu contribuições criativas de Valentina Alferj, pois neste período a cegueira já havia limitado suas ações. A trama não é simples e é deliciosa de se ler. Montalbano, envolvido com a recepção de barcos de refugiados que continuamente chegam ao sul italiano, precisa investigar a morte de uma estilista. Como sempre nas novelas policiais de Camilleri, duas questões sociais e/ou políticas, bem distintas, ocupam a mente do investigador, que acaba encontrando, ao associá-las, a chave da solução de ambas. A questão do excesso de imigrantes/refugiados bem sabe-se que jamais terá solução, enquanto houver desigualdade no mundo e regimes ditatoriais os expulsando de suas casas. Camilleri fala de xenofobismo, da capacidade de amar, da mentira, da hipocrisia. Suas reflexões quase ficam anacrônicas em um romance policial canônico, mas para o leitor tudo é deleite. O título denuncia um eco grego e óbvio, a ideia de um fio - de Ariadne - que levará o heroi (Teseu) a salvar-se do labirinto de Minos. Montalbano, o Teseu moderno, encontra a solução com ajuda de sonhos e uma ariadniana gata (e mais ou menos a abandonará - como Teseu - após sua função, sem maiores problemas). Belo livro. Vamos a ver quando os demais volumes de Camilleri irão aparecer em espanhol. Vamos em frente. Vale!
Registro #1569 (romance policial #97)
[início: 28/07/2020 - fim: 31/07/2019]
"Tirar del hilo", Andrea Camilleri, tradução de Carlos Mayor, Barcelona: publicaciones y ediciones Salamandra, 1a. edição (2020), brochura 14x21 cm., 265 págs., ISBN: 978-84-9838-992-0 [edição original: L'altro capo del filo (Palermo: Sellerio editore) 2016]

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

los emplazados

Nos idos de março, quando subi para as terras altas de Itaara, em meu isolamento por conta da pandemia, levei um bom estoque de livros. Achei adequado levar alguns de Elías Canetti, sujeito que entendia muito sobre a morte. Pois fiz bem. Alternando Canetti com outros livros e divertimentos alcancei não deixar-me derrotar pela solidão, frio ou medo da morte. Reli as três peças reunidas neste volume: La boda, La comedia de la vanidad e Los emplazados. Como cada uma envolve reflexões muito especiais, farei registros separados delas. "Los emplazados" é de 1964. O título original é Die Befristeten, que dá a ideia de limitação, de algo temporário. Em espanhol se dá a ideia de "colocados", colocar alguma coisa em seu lugar, ou de convocar oficialmente alguém, na tradução inglesa (The Numbered), se enfatiza algo particular da peça, o fato de todos os personagens serem identificados por números, e a tradução publicada no Brasil (Os que Têm a Hora Marcada) talvez se associe mais precisamente ao título original. Bueno. Li essa peça pela primeira vez em 1983, na mesma época em que li "Auto de Fé", o romance fundamental de Canetti. Esta curiosa peça parte de uma situação absurda, distópica, para provocar no leitor/espectador boas reflexões sobre a condição humana. Canetti propõe um mundo (pós-apocaliptico?, pós-científico?), no qual a sociedade é organizada de tal forma que todos, ao nascer, recebem como nome um número, que corresponde aos anos que viverá (esse número é guardado em uma cápsula que todos carregam presas ao pescoço). Assim sendo, trata-se exatamente o contrário da realidade, pois não há em sua proposta dramática a loteria da vida, com a qual estamos suficientemente acostumados, que implica em aceitar que o momento da morte de cada um não é algo previsível. A sociedade é uma teocracia, ou seja, a religião fundamenta o poder político, organiza as leis. Não aceitar a inevitabilidade da morte no ano do seu nome equivale a um anátema, a excomunhão, ao exílio social. "Cinquenta", o protagonista da história, não aceita a ideia de morrer com cinquenta anos e questiona o sujeito responsável por verificar os prazos de vida ("Capsulón", na tradução espanhola). Um terceiro personagem principal, "Amigo", lamenta o desaparecimento de sua irmã, que fugiu da sociedade ao cumprir seus doze anos. A recusa de Cinquenta em aceitar seu destino provoca uma espécie de revolução, o início de uma nova seita, de organização social. Canetti parece antecipar o controle biométrico das pessoas (via implantes de chips no corpo, algo real neste nosso século XXI), de uma espécie de controle técnico do tempo de vida (com os avanços da medicina moderna) e da atração natural entre semelhantes (os jovens - pessoas com números baixos - só se identificam com jovens, os velhos - pessoas com números altos, socialmente admirados - exploram os demais). Filosoficamente, o leitor é apresentado a vários espantos: Seria bom se cada um de nós soubesse antecipadamente nosso tempo de vida?; neste mundo, viveríamos plenamente ou igualmente escravizados?; a ideia da morte e a ideia da vida são especulares, complementares ou contraditórias entre si?; viver ignorante de nosso destino não seria preferível?; em um mundo onde o tempo é propriedade de cada um, não compartilhável, é necessário aprender algo, reproduzir-se, fazer planos?; o mundo onde o medo da morte não existe, é bom? (lembrei de uma passagem do Blade Runner, em que Roy, um dos replicantes, diz a Decker, o humano: "que bom viver com medo!", - teria Phillip F. Dick conhecido esta peça?, a ver!). Grande Canetti. Poucos escritores escreveram tão bem sobre a morte e descreveram tão bem a psiquê de nós, pobres e limitados homo sapiens. Em breve farei registros das outras duas peças reunidas neste volume. Segue o baile. Vamos em frente. Vale!
Registro #1566 (drama #22)
[início: 13/04/2020 - fim: 19/04/2020]
"Los emplazados", Elías Canetti, Barcelona: Muchnik Editores, 1a. edição (1982), brochura 13x20 cm, 260 págs., ISBN: 84-85501-46-2 [edição original: Die Befristeten (München: Deutscher Taschenbuch Verlag) 1964]

domingo, 30 de agosto de 2020

vidas imaginarias

Sobre Marcel Schwob li boas recomendações em textos de Borges e Sebald, de Vila-Matas e Bolaños, de Javier Marías e outros tantos, mas foi o industrioso José Francisco Botelho quem convenceu-me a de fato procurar algo dele. "Vidas imaginarias" é de 1896. Schwob tem uma biografia de lenda, viajou muito, leu muito e sofreu muito, mas isso um leitor curioso deve procurar por aí, sozinho, no mar piscoso e infinito  de informações recolhidas neste curioso século XXI. São vinte e dois contos, que flertam com um mundo de sonho, fantástico, que brotam de uma rara erudição, de uma imaginação dos diabos. Num bom prólogo, assinado por ele mesmo, Schwob nos ensina que muitos biógrafos, talvez por se imaginarem historiadores, se furtaram de escrever retratos verdadeiramente admiráveis por ficarem intoxicados com a vida de grandes artistas, autores, escritores, esquecendo-se que o verdadeiro engenho da arte deve ser dedicado a descrever o caráter belo e único que todas as personas possuem, tanto as ditas divinas, quanto as de famosos e medíocres ou, até mesmo, as de criminosos. Sob este estatuto Schwob escreve seus contos. As histórias incluídas em "Vidas imaginadas" reinventam momentos de epifania, singulares, expressivos das vidas de vinte e dois homo sapiens, alguns cujos nomes podem até ser conhecidos de um leitor experiente (o poeta Lucrécio, o escritor Petrônio, o pintor Uccello, a princesa indígena Pocahontas, o capitão pirata Kid), mas isso não é realmente importante. Acontece que, assim como para estes cinco que citei (e outros leitores citariam outros tantos), todo o conjunto de vidas imaginadas por Schwob, num vai e vem entre ficção e realidade é escrito com a mesma exuberância, seja a de uns santos mártires ou hereges, de prostitutas e matronas romanas, de juízes e cartomantes, de indivíduos que se imaginavam possuídos por deuses, de piratas menos conhecidos ou de assassinos seriais ingleses. Todos parecem renascer como personagens inventados, acrescidos em suas biografias, em suas vidas vividas, de uma pátina vistosa e mágica. Haverá mais Schwob por aqui em breve. Vale! 
Registro #1560 (contos #181) 
[início: 20/07/2020 - fim: 25/07/2020]
"Vidas imaginarias", Marcel Schwob, tradução de Jorge González Batlle, ilustrações de Elena Ferrándiz, Barcelona: Thule Ediciones, 1a. edição (2018), brochura 14,5x22 cm, 159 págs. ISBN: 978-84-16817-33-7

sábado, 29 de agosto de 2020

barcelona: secretos a la vista

Foi Sílvia Serra, amiga querida, desde sua fundamental Barcelona, quem falou-me de Xavier Theros, um conterrâneo seu, escritor e antropólogo, que recentemente recebeu um prêmio literário. Encomendei alguns livros dele e comecei por "Barcelona: Secretos a la vista", publicado em 2015. São 90 crônicas, publicadas originalmente no jornal espanhol El País, e que podem ser consultadas no site deles: clika! Cada crônica é acompanhada de uma fotografia, sendo que no livro elas estão em preto e branco, e no site do jornal, em cores (fotografias assinadas por Tamara López Seoane). Não são textos ligeiros, escritos para atrair turistas ou para mitigar saudades em quem um dia deambulou por aquela bela cidade. Theros parte de pequenos detalhes arquitetônicos, de esculturas, de cartazes de propaganda, de grafites, de objetos que vê perdidos nas ruas (dentre tantos outros vestígios urbanos) para contar histórias de lugares, evocar o passado, capturar a passagem do tempo, descrever as metamorfoses da cidade. Xavier vai a museus e praças, a bares e restaurantes, visita fábricas antigas e cemitérios, percorre estações de metrô, rememora séries e filmes de sua juventude, conta notícias que se transformaram em fábulas urbanas, vaga pelos bairros de todo o entorno da cidade (do Besòs ao Llobregat, da orla do Mediterrâneo à Serra de Collserola), conta anedotas e causos bizarros. O autor procura ensinar aos leitores o prazer de descobrir nas pequenas coisas algo transcendental, mágico, algo que guarda, ainda não corrompida, a verdade de um tempo, de uma sociedade, de uma cultura. Apesar o lirismo das evocações, não há melancolia nelas. Trata-se de um exercício cerebral, de uma educação dos sentidos, de uma desaceleração, que permite a cada um entender a urbe e a si mesmo. A experiência pessoal de Xavier é intransferível, mas seu método não. Podemos aplicá-lo em nossas cidades, em nossos bairros; procurar, nos escolhos de nossa memória, a mesma magia que ele alcançou registrar em seus relatos; devemos nós também louvar nossas cidades, por mais defeitos e problemas que tenham. Lembrei-me de um poema do catalão Joan Maragall, "Oda nova a Barcelona", que termina assim: "(...) Tal com ets, tal te vull, ciutat mala: és com un mal donat, de tu s'exhala: que ets vana i coquina i traïdora i grollera, que ens fa abaixar el rostre. Barcelona! i amb tos pecats, nostra! nostra! Barcelona nostra! la gran encisera!", [(...) Eu te quero do jeito que você é, ó cidade má / tu és como um mal imposto, que emana de ti, porque és vaidosa e travessa e traiçoeira e rude, que temos que baixar nossos olhos / Barcelona! com todos os seus pecados, é nossa! é nossa! / Nossa Barcelona! A grande feiticeira!]. Que saudades tenho da velha feiticeira, da especialmente bela Barcelona. Vale! 
Registro #1559 (turismo #15) 
[início: 19/07/2020 - fim: 28/07/2020]
"Barcelona: Secretos a la vista", Xavier Theros, fotografias de Tamara López Seoane, Barcelona: Editorial Comanegra, 1a. edição (2015), brochura 16,5x23,5 cm, 217 págs. ISBN: 978-84-16033-74-4

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

los errantes

Depois de terminar o bom "Sobre os ossos dos mortos", resolvi conhecer outras cousas de Olga Tokarczuk, autora polonesa que recebeu o prêmio Nobel de literatura em 2018. Encontrei primeiro "Los errantes", publicado originalmente em polonês em 2008 e cuja tradução para o inglês recebeu, em 2018, o prestigioso prêmio Man Booker International. Trata-se de um romance extenso, caudaloso, de quase 400 páginas, porém fragmentado, composto de 116 histórias que conversam entre si, histórias quase sempre bem curtas, pois apenas onze delas têm mais de oito laudas (em média são 3,33 laudas por fragmento). As histórias brotam da experiência das viagens, do constante movimento (aquele que impede que o mal nos encontre). O título original (Bieguni) remete a uma antiga seita russa de sujeitos que viviam da bondade de estranhos (um tipo de monge). Outros temas são recorrentes: a anatomia (tanto dos homo sapiens quanto de outros seres vivos); a vida universitária e/ou participação em congressos científicos; as diferenças entre mulheres e homens; a passagem do tempo, que nos envelhece, levando-nos da vida à morte. As digressões da narradora de Tokarczuk lembram muito àquelas dos narradores de W.G. Sebald, num bom equilíbrio entre erudição, virtuosismo e descrições admiravelmente poéticas, imaginativas. O tema principal que citei acima é a psicologia das viagens, a forma como o viajante é afetado pelo distanciamento entre sua casa, sua cidade ou seu país e os lugares onde subitamente se percebe, num espanto. A narradora descreve três estágios que um viajante experimenta ao acordar em um lugar diferente: a suposição errada de estar em casa, a curiosidade ou confusão sobre onde ele se encontra, até por fim a iluminação ou sabedoria que advém da consciência de que nada importa, além da realidade do sujeito existir, estar ali, ao acordar. Em um dos fragmentos ela fala do deus Kairós, aquele do momento congelado, o momento oportuno (essa discussão faz parte de outra, maior e mais importante, onde se contrasta a ideia de tempo como um fluxo contínuo, como metaforicamente o fluxo de um rio, e o tempo discreto, que se pode medir, contar em fragmentos unitários). Esse livro foi escrito durante um período em que a autora recebeu bolsas de fundações holandesas e belgas, talvez por isso haja várias menções a cousas desta região na trama, muito embora a narradora faça registros de pesquisas em museus em Viena, Berlim, Dresdem, Leiden, Amsterdam, Riga, São Petersburgo e Filadélfia. A narradora conta várias histórias sobre gravadores; faz curtas biografias de vários anatomistas; descreve quartos de hotéis e salas de espera de aeroportos; canta certos feriados santos, que são diferentes na Europa continental, no sul do hemisfério, no leste europeu e na Escandinávia; fala da geografia sempre distinta dos lugares; da ubiquidade das massas de turistas; da presença grega que dá aos viventes contemporâneos da tradição greco-romana uma particular consciência do eu, em contraste com aspectos das culturas orientais. O livro inclui doze ilustrações de mapas antigos, algo impenetráveis, vagamente associados aos fragmentos mais longos da história (não há uma conexão direta, antes uma alusão, o que remete também aos textos de Sebald, que incluem fotografias e ilustrações). Algumas histórias se destacam pelo bizarro ou surpresa que provocam. Uma é a de uma mulher que escreve várias cartas ao imperador austríaco Francisco I, no século XVIII, reclamando o corpo de seu pai, um sujeito negro do norte da África que havia recebido uma refinada educação e que em vida foi servo da corte imperial, privando ali de muitas benesses, mas que após a morte acabou tendo seu corpo embalsamado e exposto à visitação pública por décadas (o leitor fica sem saber se o sujeito continua embalsamado, em algum museu europeu, ou se já foi enterrado dignamente, como a filha esperava). Outra história amalucada é a do translado do coração do compositor polonês Frédéric Chopin, da França para Varsóvia (à época sob domínio russo), para uma missa de réquiem e posterior funeral. Vinhetas extravagantes e curiosas como estas povoam o livro, formando um mosaico de cenas que lembram a atmosfera de sonho de filmes como "E la nave va". "Moby Dick", o romance de Melville, é várias vezes citados na trama. Mais não digo, pois não alcanço reproduzir o prazer que só a leitura dos 116 fragmentos poderá oferecer ao leitor. Enfim, impressionante a maestria desta autora. Certamente haverá outros Tokarczuk por aqui. Segue o baile. Vale! 
Registro #1557 (romance #386)
[início: 01/08/2020 - fim: 06/08/2020]
"Los errantes", Olga Tokarczuk, tradução de Agata Orzeszek, Barcelona: editorial Anagrama (Panorama de Narrativas #1061), 1a. edição (2019), brochura 14x22 cm., 390 págs., ISBN: 978-84-339-8053-3 [edição original: Bieguni (Varsóvia: Wydawnictwo Literackie) 2007]

sábado, 11 de julho de 2020

com el agua al cuello

"Con el agua al cuello" é a vigésima nona aventura de Guido Brunetti, comissário da polícia veneziana. Foi publicado recentemente, em março. Mesmo com as dificuldades da pandemia consegui meu exemplar em poucos dias (graças a Casa del Libro e a DHL, por supuesto). Esse volume trata da sistemática contaminação das águas da cidade e de como um sujeito cuja mulher está em estado terminal, com câncer, é envolvido em uma trama de acobertamento, perpetrada justamente pela empresa responsável por verificar a qualidade da água. A história se passa no verão, com a cidade repleta de turistas, o que dificulta o deslocamento dos personagens pela cidade. Desta vez poucos dos costumeiros personagens se apresentam, como se fosse uma peça escrita para ser encenada em um teatro de bolso, com pouca movimentação e pouco público. Guido Brunetti e sua colega comissária Griffoni se encarregam de investigar as circunstâncias da morte de um químico, responsável pela coleta e análise de amostras da água que é servida para a população. Os dois contam com a ajuda da sempre eficiente secretária Elettra. A narrativa usa pouco como cenário o escritório da comissaria, preferindo levar os protagonistas e os leitores por vários cafés da cidade (com seus típicos tramezzini veneziani). Como sempre acontece nos romances policiais de Donna Leon a chave estrutural segue um drama grego clássico, no caso a trilogia de Orestes de Ésquilo: Agamemnon, Coéforas e Euménides. A questão moral em jogo, o tema, é a maldição que recai sobre aqueles que cometem um crime contra a cidade (a pólis). Todavia, assim como na peça final da trilogia, há uma nítida transição desde o ciclo sangrento do início (quando são as Erínias que comandam o destino das gentes) para o surgimento de uma justiça conciliadora, civilizada, na figura de Palas Atena. Donna Leon sabe tornar crível toda a trama, cujo tema é atualíssimo e certamente se repete por todas as cidades (ela inclusive cita uma tentativa recente de privatização das águas italianas, que não chegou a ser autorizada, após dois plebiscitos). A bem da verdade a trama é um tanto parecida com um outro volume dela, o décimo-quinto, "Veneno de cristal", que também fala sobre a fatal combinação entre a poluição das águas da laguna e a avareza. Entretanto, em "Con el agua al cuello" a solução é mais sutil, melhor resolvida dramaticamente, demonstrando como Brunetti é um personagem complexo e, como não, universal. A ver o que ela nos preparará para sua trigésima aventura, no ano que vem. Belo livro. Vale! 
Registro #1552 (romance policial #96) 
[início: 06/06/2020 - fim: 09/06/2020]
"Con el agua al cuello", Donna Leon, tradução de Maia Figueroa Evans, Barcelona: Seix Barral / Biblioteca Formentor (Editora Planeta S.A.), 1a. edição (2020), brochura 13,5x23 cm., 344 págs., ISBN: 978-84-322-3638-9 [edicão original: Trace elements (Zürich: Diogenes Verlag AG) 2020]

terça-feira, 7 de julho de 2020

lacombe lucien

"Lacombe Lucien", filme de Louis Malle, foi lançado em 1974, mas eu só o assisti em 1980 ou 1981. Lembro-me bem do filme, sobretudo porque naquela época eu lia muito Paulo Francis e ele era particularmente sádico em denunciar reiteradamente a sociedade francesa, falando do porco papel de boa parte daquela população durante a ocupação alemã, na segunda grande guerra. Recentemente comprei um pacote de livros do Patrick Modiano, dentre eles a versão original do roteiro do filme, que é assinado por ele e o diretor, Louis Malle. A leitura silenciosa do livro é tão impactante quando o filme. Não me cabe aqui contar detalhes do  roteiro/filme, claro. Só recomendo, como um dos filmes fundamentais, que todos deveriam tentar ver, mas sei que isso dificilmente acontece, tão anestesiados estão os viventes deste desgraçado país. Gostei de ler o roteiro. Não sou mais aquele jovem de vinte anos, que se instruía na vida, tentava ilustrar-se e que era praticamente imune ao cinismo. Hoje, já praticamente sessentão, vejo a desgraça dos atos e destino daquele protagonista como fruto do completo acaso, como quase tudo nesta vida. Retrospectivamente é fácil ser heroico, estar do lado certo da história, esbanjar bom mocismo, máximas éticas e morais. Noutro dia vi uma entrevista com um de meus gurus espanhóis, o escritor Arturo Pérez-Reverte, em que ele dizia desprezar muito mais a estupidez que a maldade. Segundo ele tendemos quase sempre a sermos condescendentes com as pessoas simples, mal educadas, idiotas, reputando a elas uma inocência que as blindaria dos funestos desdobramentos de suas insensatas escolhas e decisões. Lacombe Lucien é um destes sujeitos, que sempre existiram e existirão, que passam pela vida sem entender quase nada de sua complexidade. Grande livro. Grande filme. Grande Modiano e grande Louis Malle. Vamos em frente. Vale! 
Registro #1551 (drama #21) 
[início - fim: 12/06/2020]
"Lacombe Lucien", Louis Malle e Patrick Modiano, tradução de María Teresa Gallego Urrutia, Barcelona: editorial Anagrama (Panorama de Narrativas #981), 1a. edição (2018), brochura 14x22 cm., 156 págs., ISBN: 978-84-339-8011-3 [edição original: Lacombe Lucien (Paris: éditions Gallimard) 1974]

segunda-feira, 29 de junho de 2020

donde todo ha sucedido

Já contei aqui como descobri perdidos em meus guardados dois livros de crônicas do Javier Marías. Um deles era uma antologia de textos sobre futebol, "Salvajes y sentimentales", que já registrei aqui. O outro é "Donde todo ha sucedido", textos sobre cinema, sobre os quais falo agora. São 63 crônicas, publicadas originalmente em jornais, entre 1993 e 2004, e já reunidas em livro anteriormente. O interessante da releitura destas crônicas, no meu caso, é receber de uma só vez o impacto das impressões dele sobre este assunto. Quem já leu algum romance de Javier Marías sabe o quão influenciados pelo cinema eles são. O primeiro deles, "Los domínios del lobo", é uma colagem brutal de cenas cinematográficas, que emulam os filmes americanos que retratam o período que vai da guerra civil, no século XIX, até a grande depressão, nos anos 1930. Em todos os demais é comum encontrarmos alguma reflexão ou memória de uma cena de um determinado filme ou seguir a narrativa, pelos personagens de seus livros, dos atos de algum ator, num contraste sempre especial. Marías fala sobre questões técnicas de apreciação, o papel do cinema em sua geração de escritores e de seus filmes favoritos (que é uma coisa de momento, cambiante), mas que à época destas reflexões sobre cinema ele afirma serem The River, de Jean Renoir; The Man Who Shot Liberty Valance, de John Ford; Campanadas a medianoche, de Orson Welles; The Ghost and Mrs. Muir, de Joseph L. Mankiewicz; The Life and Death of Colonel Blimp, de Michael Powell e Emeric Pressburger; Singin' in the Rain, de Stanley Donen e Gene Kelly; North by Northwest, de Alfred Hitchcock; The Apartment, de Billy Wilder; The Wild Bunch, de Sam Peckinpah; The Dead, de John Houston. Escreve bastante sobre John Ford e sobre Orson Welles, seus diretores favoritos. Gostei particularmente de uma crônica sobre Leni Riefenstahl; outra sobre o dia em que dividiu uma mesa de bar madrileña com Hanna Schygulla; ainda outra sobre a influência de um tio seu, cineasta algo maldito, chamado Jesús Franco. Javier Marías fala sobre os grandes temas do cinema (que também são os grandes temas literários): a liberdade, a morte e a dor, o ódio e o amor, o ressentimento e o orgulho, a lei, a justiça e a maldade, a renúncia e a força. Também fala da política, sociedade, boa educação e questões de seu tempo. Nunca me canso de ler o que produz esse especial escritor, já se sabe. Vamos em frente. Vale! 
Registro #1547 (crônicas e ensaios #274) 
[início: 10/06/2020 - fim: 13/06/2020]
"Donde todo ha sucedido: Al salir del cine", Javier Marías, edicíon de Inés Blanca y Reyes Pinzás, Barcelona: Galaxia Gutenberg (Círculo de Lectores), 1a. edição (2005), capa-dura 13x21 cm., 286 págs., ISBN: 978-84-8109-513-3

sábado, 13 de junho de 2020

otoño en madrid hacia 1950

Neste volume estão reunidos quatro textos de Juan Benet que foram publicados originalmente em jornais, entre 1972 e 1985. Benet foi um escritor espanhol muito respeitado que viveu entre 1927 e 1993. O leitor encontra nas narrativas algo singular, pois as memórias do autor escondem seu protagonismo, seu eu, sua vaidade. Os quatro registros se referem basicamente a experiências que se plasmaram no lustro que vai de 1945 e 1949, quando Benet tinha entre 18 e 23 anos, mas que nortearam suas escolhas, sua carreira, suas ambições. "Barojiana", publicada em 1972, trata das tertúlias que aconteciam na casa de don Pío Baroja, prolífico autor espanhol da primeira metade do século XX. Benet parte da obra de Baroja, da leitura de seus livros e de suas influências, para identificar o encantamento que sua presença provocava nos presentes. Ainda jovem, ele percebe o poder das escolhas literárias de um autor em seu entorno mundano. "Caneja, Juan Manuel" é um curto ensaio sobre um premiado e reconhecido pintor nascido em Palência, autor de impressivas paisagens da meseta castelhana, de influência cubista. Benet fala das vicissitudes pelas quais Caneja passou durante a ditadura franquista, de seu laconismo, e sentido de humor. "El Madrid de Eloy" é um ensaio que enfeixa uma miríade de reflexões sobre a Vila de Madrid, a capital do Estado Español, no início dos anos 1980. Benet fala de autores que parecem capturar algo da magia madritense, de causos, de suas viagens da juventude pela Europa, de personalidades que marcaram a ele e a cidade. "Luis Martín-Santos, um memento", oferece o que o título promete, uma registro de lembranças sobre um inteligentíssimo amigo médico e também poeta, que morreu jovem, num acidente de carro. Nas quatro narrativas Benet alcança ofuscar-se, parecer irrelevante, tornando protagonistas todos os demais, dando relevância às circunstâncias sociais, à política, aos conceitos filosóficos e considerações literárias que brotam exatamente da relação dele com os outros. Há algo de proustiano nas longas descrições, no deslocamento do tempo, no olhar fino sobre o efeito que as estações, o clima e os horários têm sobre as gentes. No último ensaio, sobretudo, afloram descrições maravilhosas da Madrid do pós guerra, nos anos 1940, daquele mundo artificial, que pouco foi afetado materialmente pela guerra, porém que viveria praticamente isolada, política e economicamente, da comunidade internacional, até a morte do ditador Franco, em meados dos anos 1970. Livro muito interessante. Preciso tomar vergonha e ler os romances de Benet que restam abandonados em meus guardados há tantos anos. Vale! 
Registro #1541 (perfis e memórias #97) 
[início: 22/05/2020 - fim: 25/05/2020] 
"Otoño en Madrid hacia 1950", Juan Benet, Barcelona: editorial Random House Mondadori (Debolsillo - Contemporánea), 1a. edição (2010), brochura 12,5x19cm., 155 págs., ISBN: 978-84-9908-169-4

quinta-feira, 11 de junho de 2020

salvajes y sentimentales

Ao tentar arrumar meus guardados, cansado, nestes dias canalhas de pandemia, eis que descubro que não havia lido ainda dois volumes de artigos de Javier Marías. Um deles é esse "Salvajes y sentimentales", onde estão reunidos 72 artigos, publicados originalmente entre 1992 e 2010. A bem da verdade eu já havia lido boa parte deles, quando enfeixados nos volumes em que Marías reúne suas contribuições em jornal a cada dois anos (clika!: Javier Marías). Todavia, neste volume em especial há vários textos que foram produzidos por encomenda, para livros que rendiam homenagem à efemérides do Real Madrid ou do Barcelona, e também escritos para encartes especiais dedicados a cobertura da Copa do Mundo de futebol de 1994. Como tudo que Javier Marías produz os artigos são exemplares, tanto pela técnica literária e argumentativa quanto por conta dos efeitos que provoca no leitor, convidando-o a refletir sobre uma miríade de assuntos. Bom observador e juiz de caráter, Marías sabe destacar nos artigos a dimensão dramática do jogo ("En este juego, si no hay drama no hay nada"); as infinitas possibilidades de interpretação da qualidade e/ou resultado de uma partida ("Como con las traducciones, uno se pregunta cómo una partida puede ser tan distinta según el intérprete, y sin embargo la misma"); o impacto social do jogo ("Ser aficionado al fútbol y a algun que otro deporte no me impide darme conta del carácter enfermizo y perverso que afecta y rige a ese mundo, que tal vez refleja mejor que ningún otro el descabezado espíritu competitivo que domina cada vez más nuestras sociedades"); o porco papel dos dirigentes esportivos ("Si para seguir el fútbol hay que ver a menudo a estos sujetos broncos, será cuestión de ir pensando en quitarse"); a nefasta ligação entre políticos e futebol, quase uma usurpação (canalhas como Havelange, Blatter, Berlusconi e tantos outros são vergastados sem dó); as sadias provocações cruzadas com outros aficionados (Juan García Hortelano, inolvidable colchonero; Manuel Vázquez Montalbán, culé de leyenda);  a ligação do esporte com a euforia e alegrias da infância; o fato das alegrias e vitórias passadas não poderem mitigar a angústia das derrotas de hoje, do presente. De tempos em tempos, rende homenagens a seu santo particular, o argentino Alfredo Di Stéfano, que jogou no Real Madrid, entre 1953 e 1964. A seleção e edição dos artigos foi feita por Paul Ingendaay, um jornalista alemão. Foram publicados neste formato primeiro na Alemanha, país onde os livros de Marías são muito apreciados, para depois ganharem edição na Espanha. Livro bacana, mesmo para um sujeito quase avesso ao futebol, como eu. Vale! 
Registro #1540 (crônicas e ensaios #272) 
[início: 26/05/2020 - fim: 31/05/2020]
"Salvajes y sentimentales: Letras de fútbol", Javier Marías, Madrid: Alfaguara (Grupo Santillana de ediciones / Penguin Random House Grupo Editorial), 1a. edição (2010), brochura 15x24 cm, 317 págs. ISBN: 978-84-204-0536-0